
MENEZES COSTA
"Com conhecimento se constrói cidadania!"
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- Vivendo sem culpa
A Bíblia Sagrada nos conta dos dias em que duas prostitutas bateram às portas do Rei Salomão. Havia um litígio que só a autoridade real poderia dirimir, posto que, ambas se declaravam como legítima mãe de uma criança. Foi dito ao Rei que as duas mulheres moravam na mesma casa e que, em dois dias de diferença, ambas deram a luz, mas que uma delas, dormindo, acabou sufocando seu filho e o bebê morreu, tendo se apoderado do filho da outra mulher. Salomão não tinha como saber quem era a verdadeira mãe da criança e ambas insistiram que o bebê que falecera era a prole de sua contendora. O sábio Rei percebeu que aquela que estava mentido não recuaria, haja vista que, subtraindo o filho pela perda, precisava suprimir a falta daquele que, por sua falta, perecera. A mulher fugia do luto e tomar o filho da outra era uma forma de esquivar-se do sofrimento de perda, assumiria que seu filho era aquele que ali estava, portanto, enganaria sua consciência com o fim de evitar a dor. Salomão então disse às mulheres que, como era impossível descobrir quem, realmente, era a mãe da criança, cortaria o bebê ao meio e entregaria a metade a cada uma delas, assim, daria ao menos parte à verdadeira mãe, seria, portanto, o mais perto de algo verdadeiramente justo. A mão da criança morta, cega por seu desejo de ficar, ao menos, com parte do objeto da lide, aceitou a proposta do Rei, mas a verdadeira mãe, ao ver que lhe restaria metade de um cadáver e que seu filho, mesmo nos braços de outra, ficaria vivo se ela se abrisse mão da criança, voltou-se ao julgador, pediu que não o matasse e pediu que a entregasse à impostora. O Rei determinou que não cortassem a criança e a entregasse à mulher que preferiu vê-la viva nos braços da impostora, dizendo que aquela era a verdadeira mãe da criança. Em sua sabedoria, Salomão testou o coração das duas contendoras e aquela que preferiu salvar a vida da criança se provou como a que ama verdadeiramente o bebê. A decisão de cortar a criança e, consequentemente, matá-la partiu do Rei Salomão, logo, se levada a cabo pela inércia de ambas as mulheres, deveríamos admitir que a culpa pelo assassinato recairia sobre os ombros do julgador, não sobre a impostora ou a mãe, tendo em vista que o objetivo de ambas era ter a criança em seus braços, de maneira que, somente Salomão, em uma análise superficial, suportaria o peso da morte daquele inocente. Por outro lado, a mãe verdadeira, ao abrir mão do filho em favor da impostora, não estava satisfazendo seu desejo ou sendo justa, mas salvando a vida de seu amado que, mesmo entregue a alguém de índole reprovável, não seria privado do presente divino que é a vida. A melhor opção para a mãe seria ficar com o filho, mas ela sabia que deixar o Rei matar sua prole seria a desgraça total, por isso, preferiu a escolha menos gravosa. A impostora, mais preocupada com a disputa em si e sabendo que a divisão já lhe era mais que a verdadeira justiça, concordou com a proposição do sábio Rei, haja vista que, para quem nada tinha, o empate parecia um bom resultado. No entanto, não se pode afastar a hipótese na qual a impostora aceitaria a morte daquele inocente por um motivo ainda mais nefasto, a possibilidade de impor o sofrimento de perda que espiava à outra mulher, invejando o fato daquela não ter perdido o filho. Se a inveja foi a causa motora para que a impostora aceitasse a morte do filho alheio, sua baixeza moral restaria evidente, entretanto, no que concerne ao assassinato, bastaria, como mencionado, assumir que o Rei prolatara a decisão, portanto, seria o julgador o assassino. Ao preferir entregar o filho, a verdadeira mãe escolheu aquilo que se chama de mal menor, ou seja, deixando sua vontade de lado para salvar aquilo que era mais importante, ela provou que verdadeiramente se importava e que não estava disposta a causar a morte do próprio filho por orgulho ou acreditar que estava sendo firme em sua convicção. A fraqueza moral não está na escolha pelo mal menor, ou “menos pior”, mas a omissão como argumento de não culpabilidade pela desgraça que dela também decorre. Aquele que se esquiva da responsabilidade pode não ser o culpado pelo mal na mesma medida que os que abraçaram a degradação, todavia, não pode repousar como se não tivessem colaborado para um resultado nefasto. Esquivar-se de decidir é, na verdade, renunciar seu voto em favor de terceiro com o fim de transferir a outrem o peso da culpa, entretanto, quando as consequências não são evitadas em razão da omissão, não há como negar que aquele que se furtou deve suportar o fardo da escolha que preferiu não fazer. Aquele que diz não se importar com aquilo que será feito, não pode, se for honesto, alegar que se opunha. Em nosso arcabouço legal existe uma ação judicial que permite ao cidadão se levantar contra ato que cause prejuízo ao erário, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, denominada Ação Popular, entretanto, é requisito que o autor tenha comparecido ao pleito eleitoral para que possa ajuizá-la, algo que evidencia a impossibilidade do omisso de se rechaçar um ato que cause prejuízo ao interesse público. É verdade que aquele que anula seu voto ou escolheu o autor do ato que visa combater poderá mover a ação, haja vista que o sigilo do voto deve ser resguardado, logo, seria impossível requerer a informação de qual destino o voto do autor da ação teve, entrementes, evidencia-se que, ao não escolher de forma flagrante, o cidadão deixou que outros guiassem seu destino e deve suportar tal posicionamento e suas consequências. A postura covarde de uma União Europeia que assistiu a ação do grupo terrorista Hamas no fatídico outubro de 2023, e não esboçou qualquer reação, além de indigna, lhe priva de condenar Israel quando aquela nação reage e persegue membros do grupo terrorista em questão. Não há muito a ser esperado quando a mesma Europa doa milhões para que a Ucrânia, defendendo suas terras, tenha misseis, drones e carne de mercenários para usar contra a Rússia, ao passo que continua comprando gás da autocracia de Moscou para não suportar o frio ou não renunciar suas politicas ambientalistas fajutas. Se a verdadeira mão fosse como os governos de Alemanha e França, aquele bebê seria cortado pelo Rei Salomão. Observando bem, a linha progressista que a maior parte da União Europeia se filiou tem a tendência a matar bebês. O atual Governo de El Salvador recebe duras críticas, algumas até válidas, de autoridades e ativistas que se autodenominam defensores dos direitos humanos, no entanto, as diversas organizações criminosas de cunho revolucionário que atuam na América Latina com a condescendência dos membros do Foro de São Paulo, não parece incomodar tais ativistas e autoridades. A culpa das mazelas trazidas pelas facções não devem recair tão somente sobre os ombros dos patifes que, conscientemente, escolheram os revolucionários para governar, pois há uma parcela daqueles que preferiram a omissão e deixaram seus pares entregues às víboras vermelhas. Imaginemos o número de indivíduos que acreditaram que seria mais fácil deixar que outros tomassem as rédeas e hoje assistem o México tomado pelos cartéis, bem como, o Brasil fora de uma iniciativa continental encabeçada pelo país mais rico e poderoso do mundo que pretende combater as facções que aterrorizam seu povo, não há como negar que os omissos também carregam parte da culpa e negá-la é um ato de covardia. Se, no maior colégio eleitoral do país, um candidato ao Senado Federal desiste de sua campanha para evitar que políticos alinhados à um sistema pútrido alcancem as vagas, em outros cenários há quem prefira colocar em risco uma das mais importantes disputas para, em nome de um falso bairrismo, subtrair votos que podem dar a chance ao que há de pior na política brasileira, some-se a isso o fato de defenderem uma candidatura com poucas chances de ser eleito e de concluir o mandato. Mas há ainda um outro cenário dantesco no qual um aspirante ao Senado se mantém na disputa, mesmo ciente que tem um rebanho de eleitores fiéis e, pouquíssimas chances reais de vitória, todavia, sua candidatura canibaliza votos daqueles que, realmente, podem impedir que um candidato que tem clara posição revolucionária e que, recentemente, após uma ação policial em seu reduto eleitoral, não procurou dar assistência aos familiares dos policiais mortos ou feridos, mas demonstrou preocupação com possíveis abusos contra membros da mesma facção que seu partido político se recusa a rotular como terrorista. Urge nos perguntarmos se é ingenuidade ou má-fé do candidato, posto que, se ele conspira para que a corrida põe uma vaga ao Senado seja vendida por que parece ter complacência com o crime e vilipendiou a fé de seus seguidores no último Carnaval, seria ele um farsante ou apenas um irresponsável ganancioso. Cabe lembrar que outrora o mesmo político ocupara posição no primeiro escalão do Governo sob a batuta do Foro de São Paulo, portanto, tal temor seria justificável. Aos que outrora acusavam, com razão, o aqueles que figuram no espectro político da esquerda de artífices de uma revolução socialista, deveria ser inadmissível a opção pela omissão, tendo em mente que, há, no campo de batalha, um grupo que pretende, deliberadamente, expandir a desgraça, através da miséria e da deturpação da moral, com o único fim de alcançar uma posição de poder que os aquebrantados serão incapazes de retirá-lo. Em síntese, podemos admitir que todo aquele que prega a isenção como forma de não ser responsabilizado pela ascensão e manutenção do mal, mesmo sabendo quem são os membros declarados da horda vermelha, não está na condição de vítima ou mero espectador, mas de, na melhor das hipóteses, partícipe. Há quem invoque a ineficiência dos meio para impedir que o mal avance, contudo, tal alegação não afasta o dever de tentar, pois, se tal argumento fosse verdadeiro, todo martírio seria tolice. Na prática, tentar o melhor possível, mesmo diante de uma derrota iminente é não se curvar à tirania, ao passo que, tentar fugir da culpa o é. Inobstante a busca pelo mundo ou líder ideal, não há como negar que o plano material está repleto de injustiças e provações, bem como, que homens são, por essência falhos e ninguém deveria considerar, sequer a si como perfeito, de tal maneira que, escolher o chamado “menos pior”, é exatamente a escolha do melhor, por mais que se tente distorcer tal ideia. Transferir a gerência a outrem nada mais é que tentar se furtar da responsabilidade diante do erro, esperando que um líder que assumiu o poder pela hereditariedade ou por pertencer a um conselho de indivíduos superiores seria a solução para toda a sociedade, abdicando da participação em nome da isenção de culpa. Como uma monarquia se torna uma tirania diante de um líder corrompido e uma aristocracia transmuta sua natureza em uma oligarquia quando os filósofo se corrompem pelo poder, a democracia reflete a sociedade que governa, sendo tão decadente quanto a soma das vicissitudes de seus membros. A democracia é, talvez, o sistema mais justo, entretanto, é também o mais cruel, posto que, encarar sua face pútrida nos faz olhar para o espelho de nossa sociedade, não nos permitindo imputar ao rei tirano ou ao grupo corrupto os males que nos cercam sem admitir que os líderes democraticamente eleitos, lá estão, porque, em algum momento falhamos como sociedade e não por terem se corrompido sem a nossa participação. Em uma sociedade que a maioria foi reduzida a uma massa bestializada não poderia eleger uma classe política que não a refletisse, por outro lado, aquilo que hoje chamamos de juristocracia, nada mais é que uma oligarquia de toga que, se considerando “editores da nação”, portanto, mais aptos a decidir pelo povo que o próprio povo, se enxerga como uma aristocracia. É evidente que um tirano jamais se assumiria como tal. Por fim, ainda que o processo eleitoral seja dúbio e que o líder ideal não esteja no seu horizonte, a omissão é optar pelo mal maior à medida que permite que outros o elevem ao poder, razão pela qual, aos que se furtam de lutar, será impossível viver sem culpa. Leiam: O escudo do silêncio Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867
- Outubro - Hora de enfrentar a urna
Outubro não chega apenas como um mês no calendário. Ele chega como um chamado. Um chamado que atravessa o barulho das narrativas, o cansaço das crises, a descrença que tantos tentaram plantar. Ele chega como um lembrete de que o destino de um país não se escreve sozinho e que o silêncio de alguns sempre acaba se tornando o poder de outros. As eleições se aproximam, e com elas surge uma verdade que muitos evitam encarar: quem não escolhe acaba tendo que aceitar a escolha dos outros. E aceitar, depois, não é um gesto de maturidade. É apenas o preço da omissão. Por anos, tentaram convencer o brasileiro de que votar era um detalhe. Que não mudava nada. Que não valia a pena. Que a política era um território sujo demais para merecer a presença dos honestos. Mas outubro chega para desmontar essa mentira. Chega para lembrar que a omissão não é proteção. É entrega. É abrir mão da própria voz. É permitir que o futuro seja decidido por quem, muitas vezes, não carrega as mesmas dores, não enfrenta os mesmos desafios, não vive a mesma realidade. E é aqui que surge uma reflexão que muitos esquecem: ir votar é, sim, um ato de fé. Fé no país que ainda pode ser. Fé na responsabilidade que cada cidadão carrega. Fé na ideia de que a verdade, quando defendida, transforma. Fé na convicção de que a história não está escrita. Ela está sendo escrita. Fé na coragem de não se esconder atrás do “tanto faz”. Votar é acreditar que sua presença importa. É acreditar que sua consciência tem peso. É acreditar que sua escolha é semente e que sementes, quando plantadas com coragem, sempre germinam. O trabalhador que acorda antes do sol sabe que votar é defender sua dignidade. A mãe que sustenta sua casa sabe que votar é proteger o futuro dos filhos. O jovem que busca oportunidades sabe que votar é reivindicar seu espaço. O idoso que carrega memória sabe que votar é honrar o caminho percorrido. Cada um deles entende que a fé não é passividade. É ação. E que ação, em outubro, começa na urna. A Bíblia nos lembra: “A fé sem obras é morta.” E no Brasil de hoje, a obra mais simples e mais poderosa é comparecer. É levantar a cabeça. É assumir a responsabilidade. É recusar o papel de espectador. É impedir que outros escrevam sua história enquanto você assiste de longe. Outubro é o mês em que o país precisa entender que a omissão não é neutralidade. É consentimento. E consentir com o que não representa você é abdicar da própria consciência. Ir às urnas é um ato de fé porque é um ato de coragem. É um ato de confiança. É um ato de responsabilidade moral. É um ato de quem sabe que o futuro não se entrega. Se conquista. Outubro chega para lembrar que o silêncio cobra seu preço. E que o Brasil já pagou caro demais. Leiam: Setembro – A verdade que liberta Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867
- O escudo do silêncio
Nos dias 3 e 4 de junho de 1989, o regime chinês reprimiu protestos que pediam a democratização daquele país de forma violenta. O episódio ficou conhecido com Massacre da Praça da Paz Celestial e expôs a face nefasta que a ditadura chinesa não gostaria que o povo sob seu nefasto poder conhecesse. O massacre foi encoberto pelo regime, apagando dos registros oficiais, impedindo a veiculação pela mídia, que é alinhada ao regime, e buscas sobre o tema em fontes descentralizadas. O episódio recheado de um autoritarismo desproporcional que servira apenas para os déspotas se manterem no poder, tornou-se um tema cujo regime lutaria para apagar da história, impondo a censura a qualquer um que tentasse tocar no assunto. A única forma encontrada pela ditadura comunista para tratar do massacre foi a imposição do silêncio, entretanto, tentar ofuscar um algo por meio da força pode gerar o efeito oposto. Em 2010, a cantora Bárbara Streisand, ao ter sua mansão em Malibu exposta através de imagens foto, processou o fotógrafo com o fim de apagar tal publicação, entretanto, o processo surtiu efeito contrário ao pretendido pela atriz, posto que, devido à sua insistência em ocultar a mansão, as buscas se tornaram cada vez mais constantes e o interesse pela mansão crescia. A tentativa de encobrir gerou a curiosidade a respeito do tema, nasceu assim o termo Efeito Streisand, um conceito que sustenta um ponto muito relevante, em especial, em se tratando da internet. O Efeito Streisand aponta que os esforços para encobrir algo podem gerar o efeito oposto, fazendo com que as pessoas se interessem por determinado tema, justamente, por perceberem que outro deseja o encobrir. Mesmo quando tratamos de crianças, o senso comum é que a tentativa de esconder algo aguça a curiosidade, portanto, ao dizer a uma criança que ela não pode ver algo, nascerá o risco que ela desperte um interesse, antes inexistente, por aquilo que lhe fora proibido. Os avisos de advertência quanta à idade fizeram com que álbuns de músicas, filmes e jogos de videogame fizessem mais sucesso que o esperado. A franquia Mortal Kombat deve parte do seu sucesso às medidas adotadas para impedir que crianças tivessem acesso ao extremamente violento jogo. O regime chinês criou inúmeras barreiras para tentar controlar aquilo que povo, refém do Partido Comunista, pode ou não saber, entretanto, o uso de sistemas que visam burlar tão controle tornou-se algo considerável naquele país. Evidente que há repressão aos que usam tais mecanismos. A Rússia, sujeita a um regime autocrata, também criou barreiras para que os cidadãos não pudessem trocar informações livremente. Algumas plataformas estão proibidas nas terras sobre o julgo de Vladimir Putin. A Internet permitiu que os indivíduos trocassem informações diretamente entre si, não mais dependendo da mídia mainstream, em sua maioria controladas por governos ou corporação. A descentralização da informação fez com que seus emissários experimentassem algo que não podia imaginar, o contraditório, antes reduzido aos debates e tribunais passou a ser exercidos no campo da informação, posto que, às narrativas passaram a ser contestadas e argumentos, antes apresentados como irrefutáveis, tiveram de se provar sólidos ou seriam arrastados para a lixeira das falácias. O nazismo de direita foi desmentido e o aquecimento global se tornou mudanças climáticas, em breve, admitirão o socialismo africano como verdadeira causa da miséria naquele continente, mas até lá, restará a tentativa de silenciar as vozes que apontam as mentiras, seja pela censura ou pelo controle de quem pode ou não falar, exigindo que comunicadores sejam reduzidos a agentes de relações públicas do regime. A China exigiu a especialização e cadastramento para produtores de conteúdo, ao passo que, no Brasil, o Supremo Tribunal Federal, que já sufocou os outros poderes da República, pensa em rever a sua decisão que permite, com razão, que qualquer um, independente de formação em jornalismo, possa exercer a função de comunicador, impedindo que aqueles rotulados como “blogueiros” gozem de determinadas proteções dadas aos profissionais de comunicação. Se consideramos que o jornalista Alan dos Santos, apesar de sua formação, é tratado como blogueiro, com o fim de desmerecê-lo e subtrair-lhe as prerrogativas da profissão, resta evidente que só haverá respaldo para a mídia mainstream, aliada ao sistema de poder, portanto, voltaríamos à confortável situação, para alguns, em que a informação estava sobre o controle dos poderosos. Durante o período da pandemia, quando o Covid Zé espalhava, um verdadeiro conluio entre governos, indústria farmacêutica, mídia mainstream, cientistas e gestores de plataformas digitais atuou para calar quem sugerisse tratamento precoce ou alternativo, criticasse as medidas autoritárias, bem como, questionasse aquilo que decidiram chamar de vacinas. No Brasil, a mídia ainda evita tocar no assunto, embora os “erros" tenham sido expostos. Evitando assumir o mal que fizeram ou colaboraram para que outros fizessem, a mídia mainstream ainda busca silenciar o tema como quem usa um escudo. Honestamente, as medidas autoritárias para calar os que questionavam fez com que alguns desconfiassem ainda mais de tais medidas. Recentemente, a Justiça proibiu que um homem condenado por agressão doméstica desse uma entrevista, alegando que ele não deveria falar sobre a vítima e a filha dela, entretanto, a proibição veio de foram preventiva, sem saber o conteúdo do que seria dito. A censura, impede que o tema seja discutido, gerando uma pergunta, mais que natural, sobre a real intenção do Judiciário. Estaria o Judiciário impedindo o debate para não dar voz ao criminoso ou para que sua face ativista, feminista, que considera homens como cidadãos de segunda classe não fosse exposta? Embora não deveria acontecer, tornou-se comum que reportagens sejam alvos de censura ou apagamento. Desde a matéria jornalística da Revista Isto É, O amigo do amigo do meu pai, que foi retirada de circulação por ordem judicial, surgiu a proibição de falar, mesmo que seja verdade, dos senhores da República e, em um segundo momento, extinguiu-se o sigilo da fonte, para que, apenas um louco, alguém que nada tem a perder ou esteja em estado terminal forneça informações a jornalistas. Além de tais medidas, a suspensão de plataformas de redes sociais, como o Discord, sofrem bloqueio. A mentira precisa impedir que os outros tenham acesso a verdade, pois só a ignorância manterá sua narrativa incontestável. Incomoda ver que as pessoas migram do Jornal Nacional, aliado do regime, para produtores de conteúdo independentes que não combinam narrativas com os poderosos, mas é natural que as pessoas abandonem aqueles que mentem até em quadrinhos para procurar fontes confiáveis. O escudo do silêncio quebrar-se-á é as consequências chegaram de forma inevitável aos déspotas que insistem em calar aqueles que ousam desmenti-los. Nossos sinceros cumprimentos aos corajosos que insistem em dizer a verdade e não venderam sua alma ao mal. Parabéns aos comunicadores independentes e descentralizados, você são heróis. Leiam: Miséria em metástase Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867
- O entortamento da Direita
Se no artigo anterior iniciamos perguntando ao leitor “Você é de direita ou de esquerda?”, neste convidamos você a observar os aspectos práticos daquela generalização na política nacional. Afinal, o que acontece quando correntes políticas distintas são colocadas no mesmo balaio e passam a ser tratadas como se fossem uma coisa só? A pergunta não é meramente acadêmica. Ela se tornou particularmente atual diante das dificuldades que a direita brasileira encontra para construir unidade às vésperas de eleições decisivas. Há quem atribua o problema à vaidade de determinadas lideranças, à disputa por espaço ou à falta de habilidade política. É possível que haja um pouco de tudo isso. Mas talvez estejamos procurando a explicação no lugar errado. A direita não está desunida apenas porque seus líderes discordam. Ela está descobrindo que nunca foi tão uniforme quanto o rótulo fazia parecer. E isso nos leva de volta à história. O balaio nunca foi homogêneo É preciso desfazer, desde logo, uma impressão equivocada: não existiu uma “direita brasileira” monolítica nos anos 1960, assim como não existe hoje. Havia diferentes correntes, diferentes interesses e diferentes concepções sobre o Estado, a economia, o desenvolvimento, a ordem social e o papel das instituições. A UDN não era um partido composto por homens que pensavam exatamente da mesma maneira. Havia liberais, conservadores, desenvolvimentistas, nacionalistas e outras tendências que podiam convergir em determinadas circunstâncias e divergir em outras. A diferença fundamental está em outro lugar. As diferenças eram mais visíveis e, sobretudo, mais intelectualmente identificáveis. Um político podia ser reconhecido como liberal ou conservador não apenas porque votava com determinado grupo, mas porque havia uma tradição de pensamento por trás de suas posições. Havia autores, escolas, conceitos, debates e referências. Havia uma linguagem política que permitia compreender por que dois homens pertencentes ao mesmo campo defendiam soluções diferentes. Isso produzia uma consequência importante: a divergência não significava necessariamente desorientação. Ela podia ser simplesmente divergência. Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto Carlos Lacerda talvez seja o exemplo mais conhecido dessa geração. Jornalista, parlamentar, governador da Guanabara e extraordinário polemista, construiu sua carreira política sobre uma visão de mundo que não dependia de pesquisas de opinião para existir. Pode-se discordar de Lacerda. E certamente há muito sobre sua trajetória que pode e deve ser discutido. Mas é difícil imaginar sua atuação política sem considerar a formação intelectual que sustentava seus discursos, seus embates e suas escolhas. José de Magalhães Pinto era diferente. Banqueiro, governador de Minas Gerais, ministro das Relações Exteriores e senador, representava outra vertente do campo conservador e liberal. Sua experiência administrativa e sua visão econômica não eram simplesmente uma cópia das ideias de Lacerda. E esse é precisamente o ponto. Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto para que ambos fossem reconhecidos como homens de direita. A direita comportava diferenças porque essas diferenças possuíam conteúdo. Havia, portanto, um fenômeno que hoje parece cada vez mais raro: políticos do mesmo espectro podiam discordar profundamente sem que a divergência fosse imediatamente interpretada como traição. O adversário estava do outro lado, mas isso não eliminava o debate dentro do próprio campo. O que se perdeu não foi a diversidade Aqui está uma distinção que considero fundamental. Não é correto afirmar que o passado possuía uma direita homogênea e que a direita contemporânea se tornou fragmentada. A diversidade sempre existiu. O que mudou foi a forma de organizar essa diversidade. No passado, as diferenças tendiam a se apresentar por meio de correntes políticas e tradições intelectuais relativamente identificáveis. Hoje, com frequência, elas aparecem dentro de uma grande identidade coletiva chamada simplesmente de “direita”. Isso produz uma espécie de ilusão de unidade. Até mesmo quando o grupo está diante de um adversário comum, as diferenças internas costumam aparecer. Apesar de a prioridade ser a derrota do inimigo, parece importar muito se o sujeito ao lado é liberal, conservador, nacionalista, libertário ou defensor de um Estado mais intervencionista. O palanque começa a parecer pequeno para tantos egos reunidos. O problema se aprofunda depois. Quando chega a hora de responder o que fazer com o Estado, com a economia, com a política externa, com a segurança pública, com as instituições e com os costumes, descobre-se que o palanque não era uma doutrina. Era apenas um palanque. Da política de ideias à política de reação É nesse ponto que a comparação entre as gerações se torna particularmente reveladora. Os políticos do passado também eram homens de comunicação. Lacerda jamais teria sido Lacerda sem a imprensa, os discursos e a capacidade de mobilizar a opinião pública. Mas havia uma diferença entre utilizar os meios de comunicação e depender deles para definir a própria agenda. O político daquela geração precisava construir uma posição que pudesse ser defendida para além do acontecimento do dia. Suas referências intelectuais precediam, em boa medida, a reação ao acontecimento. Hoje o processo frequentemente se inverte. A notícia produz a reação. A reação produz a postagem. A postagem produz a contrarreação. E a política passa a girar em torno do próximo acontecimento. Não se trata de afirmar que os políticos contemporâneos sejam menos inteligentes. Essa não é a questão. A questão é que a política atual exige muito mais capacidade de reação do que de elaboração. Quem reage rapidamente ganha visibilidade. Quem provoca uma reação mobiliza sua base. Quem produz uma frase de efeito domina o ciclo de notícias. A profundidade, nesse ambiente, tornou-se uma mercadoria pouco competitiva. O resultado é uma política cada vez mais emocional, personalista e midiática. E, quando a emoção substitui a elaboração, o estofo desaparece. O que significa ter estofo? Estofo político não é erudição decorativa. Tampouco é ter uma coleção de diplomas. É possuir uma base intelectual que permita compreender a própria posição e, principalmente, suas consequências. Um político com estofo não precisa concordar com Burke, Hayek, Tocqueville ou qualquer outro autor apenas porque eles são referências do pensamento conservador. Mas deveria saber que tais autores existem, o que defenderam, em que contexto formularam suas ideias e por que suas concepções continuam ou não sendo relevantes. Mais importante ainda: deveria conseguir explicar sua posição sem depender exclusivamente daquilo que o adversário acabou de dizer. Esse é um dos problemas da política contemporânea. Muitas vezes, a posição não nasce de uma concepção de mundo. Nasce da necessidade de responder ao outro. E isso vale para a esquerda e para a direita, embora a discussão aqui seja sobre o que aconteceu com esta última. De Lacerda aos Bolsonaro É nesse contexto que a comparação entre Lacerda e os Bolsonaro precisa ser compreendida. Não se trata de dizer que os políticos atuais sejam incapazes, nem de negar a importância eleitoral e cultural da nova direita. Ao contrário: seria impossível compreender a política brasileira contemporânea sem reconhecer a capacidade de mobilização que essa geração conquistou. Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Carol de Toni, Cleitinho, Marcel van Hattem e outros representam parcelas importantes desse novo campo político. Alguns possuem maior consistência doutrinária que outros; alguns têm experiência parlamentar relevante; outros se destacam principalmente pela comunicação. Mas há uma característica comum à nova política que não pode ser ignorada: a liderança frequentemente precede a doutrina. O político se torna conhecido, constrói sua audiência, reúne seguidores e somente então passa a ser cobrado por aquilo que pretende fazer com a força política que conquistou. No passado, em muitos casos, ocorria o contrário. A formação política precedia a liderança. Não se trata de romantizar o passado. Aquele período produziu erros graves, conflitos e decisões que continuam sendo objeto de controvérsia histórica. Mas é possível reconhecer uma qualidade sem transformar uma época em modelo absoluto: havia maior presença de referências intelectuais na formação das lideranças. O problema atual não é falta de opinião. É excesso de opinião sem suficiente elaboração. Por que a direita não consegue simplesmente se unir? Essa pergunta, hoje tão frequente, talvez esteja mal formulada. A questão não deveria ser apenas “por que a direita não se une?”, mas: “Até onde é possível unir correntes que concordam sobre o adversário, mas discordam sobre o que fazer depois de derrotá-lo?”. Durante determinado período, a oposição ao PT e à esquerda funcionou como elemento aglutinador. Foi compreensível e, em muitos aspectos, politicamente necessário. Mas existe uma diferença entre uma coalizão eleitoral e um projeto político. Uma coalizão pode ser construída em torno de um objetivo comum. Um projeto de país exige responder ao que vem depois. E é justamente aí que as diferenças reaparecem. O liberal econômico pode desejar reduzir drasticamente o tamanho do Estado. O conservador pode aceitar um Estado mais forte para proteger determinadas instituições e valores. O nacionalista pode defender políticas industriais que o liberal considera intervencionismo. O libertário pode rejeitar medidas que outro conservador considera necessárias à preservação da ordem. Quem está certo? A pergunta não pode ser respondida pelo rótulo “direita”. É preciso voltar às ideias. E talvez seja justamente isso que tenha sido perdido. O entortamento O “entortamento” da direita não consiste, portanto, em ter surgido uma nova diversidade. Ela sempre existiu. Consiste em outra coisa: a substituição progressiva das tradições político-filosóficas por uma identidade política mais ampla, personalista e reativa. O rótulo passou a fazer parte da identidade antes que a identidade fosse necessariamente acompanhada por uma elaboração doutrinária correspondente. Isso explica parte da força da nova direita e, paradoxalmente, parte de sua fragilidade. Ela conseguiu reunir muita gente porque falou para muita gente. Mas reunir é mais fácil do que organizar. E organizar é mais fácil do que construir uma tradição intelectual. Talvez por isso a direita brasileira esteja descobrindo, às portas de uma nova disputa eleitoral, que a tão desejada unidade possui limites bastante concretos. Não se pode exigir que todos os gatos do balaio miem da mesma maneira. O problema é outro. Se durante muito tempo todos foram tratados simplesmente como “gatos de direita”, talvez tenhamos deixado de perguntar que espécie de gato cada um era. E essa pergunta, que parece apenas engraçada, é essencialmente política. Porque uma direita intelectualmente madura não precisa eliminar suas diferenças para se fortalecer. Precisa conhecê-las. Precisa organizá-las. Precisa debatê-las. E, principalmente, precisa voltar a produzir ideias capazes de sobreviver ao ciclo de notícias, à próxima eleição e ao próximo adversário. Talvez o verdadeiro desafio da direita brasileira não seja voltar a ser unida. Seja voltar a ser intelectualmente diversa, doutrinariamente consistente e politicamente capaz de transformar suas divergências em ideias — e não apenas em disputas personalistas. Nesse momento é oportuno recordar Platão, escrito há mais de dois milênios. Na República, ao discutir quem deveria governar, o filósofo não se satisfaz com experiência, coragem ou capacidade de liderança: exige daqueles que receberão a responsabilidade pelo Estado uma longa formação intelectual, capaz de conduzi-los do mundo das aparências ao conhecimento. Para ele, governar sem esse preparo seria pouco diferente de entregar uma tarefa complexa a quem desconhece os fundamentos da própria atividade. “A menos que os filósofos governem como reis nas cidades, ou que aqueles que hoje são chamados reis e dinastas professem a filosofia de modo autêntico e adequado, e que estas duas coisas — o poder político e a filosofia — coincidam no mesmo sujeito... não haverá descanso dos males para as cidades, nem, creio eu, para o gênero humano.” Talvez tenhamos passado tempo demais escolhendo quem deve governar e tempo de menos perguntando se aqueles que pretendem fazê-lo estão intelectualmente preparados para a tarefa. Leiam: Você é de Direita ou de Esquerda? Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867
- Estudando o Fascismo
Parte 2 – A Marcha sobre Roma Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Benito Mussolini tomou o poder. Mas, que evento foi esse? No Brasil, a imprensa e a ala progressista trataram os atos do 8 de janeiro uma tentativa de “golpe de estado”. Contudo, o verdadeiro golpe, sem armas mas com estratégia, ocorreu quando os fascistas foram às ruas após ampliarem sua ocupação no Parlamento. A Itália vivia um caos após a Primeira Guerra Mundial: crise econômica severa, greves e ocupações de fábricas, medo das elites de uma Revolução (inspirada na Revolução Russa), governo fraco instável. Com sua ascensão política, os fascistas prometeram ordem e controle, e não poucas as vezes, utilizando-se de violência contra seus opositores. Foi quando Mussolini criou os Fasci Italiani di Combattimento. Os “camisas negras” (squadristi) surgiram principalmente a partir de 1919–1920. Muitos eram ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial, jovens, estudantes, trabalhadores e pessoas atraídas pelo discurso de nacionalismo e “combate ao socialismo”. Eles usavam a camisa preta como símbolo e se organizavam em grupos chamados squadre (esquadrões). Sua principal função era combater fisicamente os adversários políticos do fascismo, ainda que estes também fossem de esquerda. Os métodos incluíam espancamentos, destruição de propriedades, ameaças, incêndios e assassinatos. Muitas vezes, obrigavam adversários a beber óleo de rícino como forma de humilhação e punição. A violência dos camisas negras não era apenas espontânea. Ela ajudou a destruir a capacidade de organização dos adversários do fascismo, especialmente no campo e nas cidades do norte da Itália. Devido à onda de violência, sindicatos foram dissolvidos e diversos prefeitos renunciaram. Em julho de 1921, Giovanni Giolitti, primeiro-ministro (o mesmo que convidou Mussolini para ingressar no Bloco Nacional), tentou, sem sucesso, dissolver os esquadrões. Em agosto, uma greve geral antifascista foi desencadeada, mas não conseguiu reunir o Partido do Povo Italiano (Partito Popolare Italiano, católico e anticomunista) e foi reprimida pelos fascistas. Em várias regiões, autoridades locais, policiais, proprietários rurais e setores das elites toleravam ou apoiavam os fascistas, porque os viam como uma barreira contra o crescimento do socialismo durante o Biennio Rosso, ou Biênio Vermelho, período de dois anos (1919–1920) de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Importante lembrar do que tratamos no primeiro artigo da série: Mussolini teve o socialismo como sua base política. Tanto que, em 1915, a fundação do Partido Revolucionário Fascista se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Em 24 de outubro de 1922, durante reunião do Partido Fascista realizada em Nápoles, Benito Mussolini discursou diante de aproximadamente 60 mil pessoas e deixou explícita a ambição do movimento: assumir o controle do governo italiano. Paralelamente, os camisas negras ampliavam sua presença pelo país e consolidavam posições estratégicas, especialmente na região da planície do Pó. Entre 27 e 31 de outubro de 1922, sob liderança de Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi, Emilio De Bono e Italo Balbo, ocorreu a Marcha sobre Roma. Mussolini não participou diretamente do evento, ficando em Milão, pois temia uma intervenção repressiva do Exército. Em 26 de outubro, o ex-primeiro-ministro Antonio Salandra comunicou ao então chefe de governo, Luigi Facta, que Mussolini exigia sua saída e estava preparando uma mobilização em direção à capital. Facta, porém, não teria percebido inicialmente a dimensão da ameaça e acreditava que ainda seria possível manter Mussolini dentro do sistema político. Diante do avanço das forças fascistas e da concentração de militantes nos arredores de Roma, Facta decidiu decretar estado de sítio na capital. A medida dependia da aprovação do rei Victor Emanuel III. Facta acreditava que o monarca apoiaria a iniciativa, sobretudo porque os dois já haviam discutido anteriormente a possibilidade de utilizar as forças do Estado contra a violência promovida pelos fascistas. O rei, entretanto, recusou-se a assinar a ordem. Em 29 de outubro de 1922, o monarca convidou Mussolini para formar um novo governo. No dia seguinte, o líder fascista chegou a Roma, enquanto milhares de camisas negras permaneciam mobilizados na cidade. A mobilização fascista representava uma ameaça significativa. Os squadristi já haviam conquistado posições importantes na planície do Pó e em outras regiões italianas. O temor de que uma tentativa de repressão pudesse desencadear uma guerra civil também contribuiu para a postura adotada pelo rei. Mussolini, portanto, chegou ao cargo de primeiro-ministro por meio de uma nomeação formal do monarca, dentro das regras constitucionais vigentes. A transição, contudo, ocorreu em um cenário marcado pela pressão e pela intimidação exercidas pelos fascistas sobre as autoridades públicas. Parte da elite econômica italiana acreditava que seria possível controlar ou limitar a atuação de Mussolini. Empresários e setores financeiros enxergavam com interesse suas primeiras posições favoráveis ao mercado e à redução da intervenção estatal na economia. Essa expectativa, entretanto, não se confirmou. Ao chegar ao poder, a "revolução fascista" foi proclamada como um processo de "revolução contínua". Mussolini estabeleceu o início de uma “nova era”, inaugurando um novo calendário, assim como na Revolução Francesa, onde o ano de 1922 foi estabelecido como o "Ano I" da revolução. Eis um trecho de seu primeiro discurso no cargo de primeiro-ministro, em 16 de novembro de 1922: “Afirmo que a revolução tem seus direitos. Acrescentaria, para que todos saibam, que estou aqui para defender e fortalecer ao máximo a revolução das “camisas negras”, inserindo-a intimamente como força de desenvolvimento, progresso e equilíbrio na história da nação”. Ao longo dos anos seguintes, Mussolini desenvolveu um modelo ditatorial que ampliou a interferência do Estado sobre a economia e a sociedade como um todo. Seus atos seguintes foram intimidação severa e violenta contra opositores, manipulação de eleições, aprovação de leis que aumentavam seu poder, além de censura à imprensa. As empresas continuaram formalmente vinculadas à propriedade privada, mas passaram a operar dentro de uma estrutura cada vez mais subordinada ao Estado fascista e aos organismos controlados pelo regime. Em 1934, Mussolini chegou a afirmar que o governo havia assumido o controle de aproximadamente três quartos da economia italiana, abrangendo os setores industrial e agrícola. Em 10 de junho de 1924, o deputado socialista Giacomo Matteotti foi sequestrado e assassinado por integrantes ligados ao fascismo. Matteotti havia denunciado no Parlamento a violência e as irregularidades associadas ao regime e se tornara um dos principais críticos de Mussolini. Seu assassinato provocou uma grave crise política e marcou uma etapa fundamental na transformação do governo fascista em uma ditadura aberta. Continua….. Leiam: A problemática da perpetuação do assistencialismo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867
- O Estado Democrático de necessidade e seus deficientes
Diz-se que vivemos num estado democrático de direito, define-se Direito por: “Conjunto de regras, normas e princípios que organizam a sociedade”. Num Estado democrático de direito, as leis devem servir para todos e a todos, inclusive os governantes que devem se submeter ao império das leis. Até aí, tudo bem, pois numa sociedade ideal assim deve ser para a harmonia dos indivíduos. O problema é quando troca-se a definição pelo conceito – O que é bem comum e facilmente manipulável - pois para manter a estrutura que garanta o direito, o próprio cidadão deve contribuir, muitas vezes com mais do que pode. É bem comum ver membros da estrutura estatal que acabam tendo mais direitos que os próprios cidadãos. Bem, o ponto fundamental do texto não está em apenas questionar o conceito, mas refletir sobre o lugar de cada um e de cada coisa. Pela falta de objetividade na definição das coisas ficamos quase sempre com o conceito, basta ver a quantidade de pessoas que nem mesmo sabem definir Justiça, Política, Arte, Saúde e etc… Conceito é o que a minha mente concebe que algo seja, ou o que eu acho que algo seja. Definição é a descrição de algo, de forma que esse algo não se confunda com nenhuma outra coisa. No conceito somos deficientes, já na Definição, somos eficientes. O problema é que aí abre-se uma brecha para transformar necessidades em direitos; Qual o problema disso? Necessidades são naturais e individuais e cada ser humano deve ser educado a suprir as suas, com seu próprio esforço, autonomia e liberdade (Palavras que parecem perigosas para alguns grupos). Se transformamos necessidades em direitos, logo teremos que bancar uma estrutura que nos garanta as necessidades supridas, ou seja, ficamos nas mãos de um sistema que com sutileza nos tira a autonomia, esforço e liberdade; Isso nos parece comum? Penso que sim. Façamos um exercício de imaginação, em que uma criança, à medida que vai crescendo vê a NECESSIDADE de ter autonomia para ir ao banheiro sozinha, comer, caminhar, vestir-se, comunicar-se , entre outras necessidades que sem esforço, autonomia e liberdade, nunca serão alcançadas e a medida que vai crescendo vê esse tripé cada vez mais fortalecido e dando-lhe condições de ficar INDEPENDENTE, até que a carência dos pais seja suprida e ela se torne um indivíduo saudável e capaz de seguir em frente dependendo apenas de si mesma enquanto indivíduo. Porém, se seus pais (estado) fazem de suas necessidades apenas direitos, essa criança estará sempre dependente e alguém terá que bancar uma estrutura para mantê-la em sociedade, já que não consegue sequer suprir ela mesma sua necessidade, assim é um deficiente. Este erro vemos várias famílias cometendo com seus membros. No campo sociopolítico, se cometido, cria-se uma sociedade de deficientes em que o estado deve então mantê-los, e como sempre, alguém paga pela estrutura que agora tornou-se necessária, já que os cidadãos não são indivíduos com sua devida autonomia, liberdade e por fim, independência. Outro problema, maior ainda é quando aqueles que estão para garantir que sejam supridas as necessidades da sociedade, também foram formados com deficiência.- como está escrito nas escrituras : Como pode um cego, guiar outro cego? - por certo, cairão os dois num buraco, buraco esse que podemos chamar de ignorância, mãe da corrupção e todos os males. Em resumo, quando nos colocamos em um estado em que até para ver suprir nossas necessidades precisamos de alguém ou de algo, como um cuidador ou uma muleta, então isso deixa claro que somos deficientes, pois é assim que os deficientes vivem. Em síntese, quando colocamos nossa capacidade de suprir nossas necessidades nas mãos de quem quer que seja e não assumimos nosso protagonismo na vida, nos tornamos deficientes no básico e somos enganados pela zona de conforto, mas isso tem um preço muito alto: A dependência… Uma vez dependentes, seremos escravizados no pior nível possível, que é o mental. Este é o campo onde as ideologias tomam o controle do intelecto e nos torna incapazes de raciocinar sobre qual posição estamos e a que distância do ideal, ou seja, que somos nesse caso, deficientes… Então o estado nos oferece uma “Solução” Suprir nossas necessidades, e o preço? Nossa dignidade. Como sempre, em meus textos, não tenho a intenção de propor nenhuma solução de cunho revolucionário, mas de levantar uma reflexão para que a partir de dentro possamos achar um. caminho humano, que lembro ser a imagem e semelhança de Deus, que nos coloque novamente (se um dia estivemos) no caminho da suficiência, e um bom começo será buscar conhecimento e cidadania. Leiam: Escolham suas armas e deixe seu legado!! Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867
- Setembro - A verdade que liberta
Setembro chega como um chamado inadiável. Não é apenas mais um mês no calendário político; é o mês em que o país precisa encarar, com firmeza, uma verdade que já não pode ser empurrada para debaixo do tapete. As eleições se aproximam. E começa a surgir novamente a fomentação da divisão da sociedade. As chamadas minorias não pertencem automaticamente a nenhum lado político. Não são propriedades ideológica, não são instrumentos de narrativa, não são identidades capturadas por discursos prontos. São cidadãos plenos, conscientes, diversos, dignos e absolutamente capazes de decidir seus caminhos sem tutela de ninguém. Por muito tempo, tentaram impor ao Brasil a ideia de que determinados grupos estariam inevitavelmente alinhados a uma única visão política. Tentaram reduzir trabalhadores, famílias mais pobres, pessoas negras, mulheres, idosos, jovens e tantos outros a categorias fixas, como se a pluralidade humana pudesse ser encaixada em moldes ideológicos. Como se suas histórias, suas lutas e suas conquistas fossem ferramentas de propaganda. Como se a vulnerabilidade fosse um troféu eleitoral a ser exibido em palanques. Mas setembro chega para afirmar, com firmeza, que essa visão não se sustenta mais. Os brasileiros despertaram. E despertaram conscientes, atentos e indignados com a tentativa de aprisionar suas identidades dentro de fronteiras políticas que não representam suas vidas. Assim como a sirene da madrugada revelou que nem todos acordam ao mesmo tempo, agora percebemos que muitos dos que eram tratados como massa silenciosa já estavam atentos há muito tempo. Eles enxergam o país com clareza. Eles percebem quando a verdade é distorcida. Eles sentem quando a moral pública se fragiliza. Eles reconhecem quando suas histórias são usadas para justificar agendas que não refletem suas realidades. E é justamente por isso que tantos dos chamados minoritários caminham para a direita: não por alienação, mas por lucidez. Não por manipulação, mas por consciência. Não por cegueira, mas por responsabilidade. O ser humano é pluralidade, e essa pluralidade não cabe em rótulos ideológicos. O trabalhador que acorda cedo quer segurança, respeito, liberdade e oportunidades reais. A mãe que sustenta sua casa quer proteção para seus filhos e estabilidade para sua família. O idoso que carrega a memória do país quer dignidade e respeito. O jovem que busca futuro quer liberdade para construir sua história. A pessoa com deficiência quer autonomia e reconhecimento. E todos eles sabem que esses valores não pertencem a um lado político específico; pertencem à vida. A direita não exclui. A direita não determina quem pertence ou não pertence. A direita não fecha portas. Ao contrário, ela afirma que cada indivíduo é livre para escolher seus valores, sua fé, sua visão de país. Ela reconhece que a dignidade humana é inegociável e que ninguém deve ser reduzido a categoria política. Ela entende que ordem, responsabilidade, família, fé, liberdade e segurança são princípios que servem a todos, independentemente de origem, identidade ou condição social. A direita não reivindica posse sobre ninguém; ela reivindica respeito à liberdade de cada um. Setembro é o mês da consciência firme. É o mês em que os brasileiros levantam a cabeça e afirmam, com clareza, que não são propriedade de ninguém. É o mês em que o país precisa reconhecer que a pluralidade humana é maior do que qualquer narrativa ideológica. É o mês em que aqueles que sempre foram tratados como massa silenciosa mostram que têm voz e que essa voz não será sequestrada. A Bíblia nos chama à vigilância: “Desperta, tu que dormes.” E quem desperta agora são justamente aqueles que mais sentiram os efeitos da desordem, da insegurança, da relativização da verdade e da corrosão moral que começa no jeitinho e termina em escândalos. Eles despertam porque sabem que o país que teremos em 2027 começa na coragem de romper com rótulos e assumir a própria consciência. Os brasileiros não estão cegos por escolher a direita. Estão despertos. Estão atentos. Estão cansados de serem usados. Estão indignados com a manipulação. Estão prontos para defender valores que não mudam com o vento. Estão prontos para assumir a responsabilidade moral que muitos tentaram tirar deles. Setembro é o mês em que o país finalmente entende que as chamadas minorias nunca foram minoria em consciência. E que, quando a sirene da verdade toca, são justamente esses os que se levantam primeiro. Leiam: ENTRE O ALERTA E A ESCOLHA Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867
- ENTRE O ALERTA E A ESCOLHA
O mês em que o país começa a decidir quem deseja ser Agosto costuma ser um mês silencioso. Não tem o frenesi do início do ano, nem a urgência de dezembro. Mas, em 2026, ele chega carregado de um significado especial. Depois das reflexões de “Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil!” e “Quando a Sirene Tocar”, torna-se impossível atravessar este mês sem perceber que estamos sendo conduzidos a um ponto de decisão; não apenas política, mas moral e espiritual. Refletimos sobre o jeitinho: essa prática aparentemente inofensiva que, quando normalizada, corrói a integridade coletiva e prepara o terreno para escândalos maiores. Depois, fomos surpreendidos pela sirene da madrugada, um alerta hackeado que, embora tecnicamente falso, expôs uma verdade profunda: nem todos despertam ao mesmo tempo, nem todos percebem os sinais, nem todos têm ouvidos atentos. Até agora, o país caminhou por dois momentos: o da consciência e o do despertar; e se aproxima de um terceiro: o da escolha. A maturidade de um povo se revela antes do voto. O processo eleitoral não começa em outubro. Ele começa muito antes, quando cada cidadão é convidado a refletir sobre o tipo de sociedade que deseja construir. O voto é apenas o gesto final de uma decisão que se forma lentamente, no íntimo, ao longo de meses. Se no penúltimo artigo mostramos que a corrupção nasce no cotidiano, então agora somos obrigados a fazer a seguinte perguntar: Que valores estamos dispostos a levar para a urna? Se no último artigo percebemos que nem todos despertam ao mesmo alerta, então agora somos convidados a examinar se estamos realmente atentos; ou apenas seguindo o fluxo. O debate público costuma se concentrar em promessas, slogans e discursos. Mas a escolha de um representante não deveria começar pelo que ele diz, e sim pelo que ele é.Afinal, como lembrava a reflexão do penúltimo mês, “quem é injusto no pouco, também é injusto no muito”. Agora é o mês de olhar para além da propaganda. De observar atitudes, coerência, postura, histórico. De perguntar não apenas o que alguém promete, mas como alguém vive. Porque o voto não é apenas um instrumento político. É um espelho moral. A sirene em Junho nos ensinou que há alertas que ultrapassam o silencioso.E, espiritualmente, isso é ainda mais verdadeiro. A Bíblia nos chama à vigilância; não apenas para a vida eterna, mas para a vida presente: “Desperta, tu que dormes”, diz Efésios 5,14. Agora é a hora de despertar para a responsabilidade cívica. De perceber que a fé não se desconecta da vida pública. De entender que valores espirituais também moldam escolhas sociais. Não se trata de transformar política em religião, mas de reconhecer que ética, verdade e justiça são princípios que atravessam todas as esferas da existência. A escolha é uma semente O país que teremos em 2027 começa no voto de 2026. E o voto de 2026 começa na reflexão de agora. Agora é o mês de preparar o terreno. De ajustar a consciência. De confrontar incoerências. De abandonar o “jeitinho” e abraçar a integridade. De ouvir o alerta antes que seja tarde. Que tipo de líder desejamos? Que tipo de sociedade queremos? Que tipo de valores estamos dispostos a defender? Porque a escolha que faremos não será apenas sobre quem governará o país, mas sobre quem nós somos enquanto povo. E talvez essa seja a pergunta mais importante deste mês: Quando a sirene da consciência tocar, você estará desperto? Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Você é de Direita ou de Esquerda?
A pergunta que dá título a este artigo é interessante. Ela serve como invocação mágica para retirar todos os mantos que encobrem a verdade oculta de cada pessoa. É como se pudéssemos definir uma pessoa com uma palavra. Vivemos obcecados por rótulos. Em conversas de bar, nas redes sociais ou em debates eleitorais, a pergunta surge quase como um teste de lealdade: "Você é de direita ou de esquerda?" Como se a complexidade da condição humana, com suas contradições, valores, crenças e interesses, pudesse ser reduzida a dois grandes times ideológicos. Essa classificação, entretanto, tem uma origem histórica bastante específica e razoavelmente conhecida. Durante a c, em 1789, na Assembleia Nacional Constituinte, os deputados favoráveis à preservação de maiores prerrogativas para o rei sentavam-se à direita do presidente da Assembleia, enquanto aqueles que defendiam mudanças mais profundas ocupavam os assentos à esquerda. Uma disposição física acabou transformando-se em linguagem política. As divergências entre tradição e mudança, liberdade e autoridade, igualdade e hierarquia, contudo, são muito anteriores à Revolução Francesa. O que ocorreu em 1789 foi a cristalização dessas tensões em uma classificação espacial que, ao longo dos séculos seguintes, passou a organizar partidos, movimentos e identidades políticas. A divisão entre direita e esquerda deixou de apenas descrever divergências para também influenciar a forma como elas passaram a ser percebidas. Um instrumento criado para classificar a realidade política acabou, pouco a pouco, contribuindo para moldá-la. Toda classificação é útil enquanto amplia nossa compreensão da realidade. Quando passa a ocultar mais diferenças do que revela semelhanças, transforma-se de instrumento de análise em obstáculo ao conhecimento. É justamente esse o problema da tradicional divisão entre direita e esquerda. Mais do que simplificar a realidade, ela induz à falsa impressão de que posições econômicas, religiosas, filosóficas, morais e culturais cabem no mesmo pacote simbólico. O resultado é que socialistas e capitalistas, progressistas e conservadores, ateus e crentes, pró-vida e defensores do aborto, pacifistas e armamentistas, reacionários, libertários e tantas outras correntes acabam comprimidos em apenas dois grandes campos. A própria pergunta "você é de direita ou de esquerda?" já pressupõe que todas essas categorias caminham necessariamente juntas, quando, na realidade, pertencem a dimensões distintas da experiência política e humana. A falta de clareza conceitual produz contradições evidentes. Um cristão socialista que defende a propriedade coletiva ou forte intervenção estatal em nome do Evangelho é colocado no mesmo campo de ateus materialistas que consideram a religião um instrumento de dominação, mas que ao mesmo tempo defendem uma forte atuação no social. No lado oposto, um defensor da economia liberal pode defender forte presença estatal em questões de segurança pública, imigração ou costumes, combinando liberalismo econômico com conservadorismo cultural. Essas aparentes incoerências não são exceções. Tornaram-se a regra desde que se passou a tratar a política como um único eixo de classificação. A diversidade (e a contradição) dentro dos campos No espectro da direita, o leque é amplo e frequentemente conflituoso. Liberais clássicos e libertários defendem o livre mercado, a propriedade privada, a limitação do poder estatal e forte ênfase nas liberdades individuais. Anarcocapitalistas desejam levar o individualismo e o liberalismo às últimas consequências. Conservadores culturais priorizam a família, a religião, as tradições históricas e a soberania nacional. Reacionários vão além: rejeitam não apenas o progressismo contemporâneo, mas também aspectos centrais da própria modernidade liberal-democrática, desejando restaurar modelos políticos e sociais não democráticos, como o regime militar; outros ainda sonham com o retorno da monarquia. Há quem defenda o casamento homoafetivo por entendê-lo como consequência natural da liberdade individual e, simultaneamente, se oponha às quotas raciais ou à ideologia de gênero nas escolas. Cristãos sociais admitem o aborto em circunstâncias específicas, mas rejeitam o estatismo econômico. Armamentistas consideram o porte de armas uma extensão do direito à legítima defesa, enquanto pacifistas cristãos sustentam a não violência como princípio moral absoluto. Céus!!! Tudo isso ocorre no seio da direita brasileira, uma torre de Babel de ideologias políticas. Do lado da esquerda, a heterogeneidade é igualmente evidente. Socialistas revolucionários, socialistas democráticos, social-democratas, progressistas liberais, sindicalistas tradicionais, ambientalistas radicais e movimentos identitários convivem sob o mesmo rótulo, embora proponham projetos bastante distintos. Alguns defendem ampla socialização da economia; outros aceitam plenamente o capitalismo, desde que fortemente regulado. Há ainda correntes minoritárias, como determinados libertários de esquerda, que procuram conciliar amplas liberdades individuais com críticas às desigualdades econômicas e apoio a pautas progressistas. Ateus materialistas convivem com religiosos progressistas que reinterpretam a fé sob a ótica da Teologia da Libertação. Também existem, em algumas franjas nacionalistas ou reacionárias em ambos espectros políticos, correntes com viés antissemita. Entretanto, tais posições contradizem os próprios fundamentos que afirmam defender. Um conservadorismo baseado na tradição judaico-cristã dificilmente encontra sustentação doutrinária para o antissemitismo. Frequentemente associadas à confusão entre críticas ao Estado de Israel e hostilidade ao povo judeu, trata-se muito mais de uma deformação ideológica do que de consequência lógica de seus princípios. Observados lado a lado, esses exemplos revelam um problema fundamental: categorias econômicas, religiosas, morais, filosóficas e culturais passaram a ser tratadas como se pertencessem a uma única classificação política. O resultado são dois grandes blocos internamente heterogêneos, nos quais convivem posições frequentemente incompatíveis entre si. A captura de pautas pela esquerda Para compreender essa grande confusão conceitual que chamamos genericamente de “direita e esquerda”, precisamos entender um movimento lento, na maioria das vezes discreto, posto em prática com disciplina monástica ao longo das últimas décadas, que foi a associação progressiva de determinadas causas à esquerda cultural e política. Defesa das mulheres, proteção aos trabalhadores, causas sociais, direitos das minorias, ambientalismo, direitos humanos e igualdade passaram a ser percebidos, no imaginário coletivo, como patrimônios naturais de um único campo ideológico. A consequência foi a criação de uma espécie de monopólio moral dessas pautas. Essa associação produziu um efeito importante no debate público. Gradativamente, passou-se a confundir críticas a determinadas políticas ou interpretações com oposição aos próprios valores que elas alegam representar. Em outras palavras, deixou-se de discutir como defender certos princípios para discutir quem teria legitimidade para defendê-los. Os exemplos são numerosos A defesa da mulher passou a ser frequentemente identificada com determinadas correntes do feminismo contemporâneo e com postulados específicos da terceira e quarta ondas feministas. Questionar políticas relacionadas ao esporte feminino, ao sistema prisional, aos critérios biológicos ou a determinadas abordagens educacionais passou, muitas vezes, a ser interpretado como demonstração de misoginia, ainda que a crítica recaia sobre soluções concretas, e não sobre a dignidade ou os direitos das mulheres. As causas sociais e das minorias também passaram a ser enquadradas predominantemente sob uma lógica identitária. Quem critica o multiculturalismo sem assimilação, políticas públicas baseadas em identidade ou determinados aspectos do ativismo LGBT frequentemente é acusado de racismo, xenofobia ou homofobia, mesmo quando defende a igualdade jurídica de todos os cidadãos perante a lei. A defesa dos trabalhadores tornou-se amplamente associada ao sindicalismo e ao intervencionismo estatal. Em consequência, propostas fundamentadas no crescimento econômico, na liberdade de empreender, na redução da burocracia, na qualificação profissional ou no fortalecimento da atividade privada passaram a ser apresentadas como necessariamente contrárias aos interesses dos mais pobres, ignorando que diferentes tradições econômicas oferecem caminhos distintos para enfrentar a pobreza e ampliar a prosperidade. O próprio conceito de igualdade sofreu uma transformação significativa. A igualdade liberal clássica — igualdade perante a lei — foi gradativamente substituída, em muitos discursos, pela ideia de igualdade de resultados, legitimando políticas de discriminação compensatória, sistemas de quotas e diferentes formas de engenharia social. Quem permanece defendendo a igualdade jurídica passa, por vezes, a ser acusado de insensibilidade social justamente por sustentar o conceito histórico que deu origem ao constitucionalismo liberal moderno. Até pautas como ambientalismo e direitos humanos passaram, em muitos contextos, a ser tratadas como bandeiras exclusivas da esquerda. Dessa forma, críticas a determinadas soluções estatistas, à instrumentalização política de agendas ambientais ou à seletividade na defesa dos direitos humanos frequentemente são apresentadas como demonstrações de negacionismo ou de indiferença ética, quando muitas vezes representam apenas divergências quanto aos meios empregados. Essa captura simbólica produz um efeito perverso sobre o debate democrático. Em vez de discutir propostas, discutem-se identidades. Em vez de avaliar políticas públicas por seus resultados, julgam-se pessoas pelo campo ideológico ao qual supostamente pertencem. O debate racional cede espaço à disputa por superioridade moral. Entretanto, seria intelectualmente desonesto atribuir esse problema exclusivamente à esquerda. Em determinados setores da direita, especialmente nas correntes liberais mais radicais e em parte do libertarianismo, observa-se fenômeno semelhante, embora em direção oposta. A defesa da liberdade individual, princípio indispensável às sociedades livres, pode transformar-se em um individualismo absoluto, capaz de minimizar a importância da família, das comunidades, da solidariedade espontânea e dos deveres cívicos. Quando elevada à condição de valor único, a liberdade pode deixar de dialogar com outras dimensões da vida social e passa a oferecer respostas simplificadas para problemas cuja solução exige cooperação, confiança mútua e responsabilidade compartilhada. Assim como a esquerda corre o risco de transformar causas legítimas em projetos ideológicos abrangentes, determinados setores da direita correm o risco de absolutizar princípios igualmente legítimos. Em ambos os casos, a realidade deixa de ser observada em toda a sua complexidade para ser interpretada a partir de um único valor organizador. Como diria uma conhecida comentarista: “Por que a binariedade é prejudicial? Entenda…” A classificação dos cidadãos em apenas dois grandes campos não constitui mera simplificação didática. Ao longo do tempo, ela passou a influenciar a própria forma como partidos políticos, meios de comunicação, movimentos sociais e eleitores compreendem a realidade. O mapa deixou de apenas representar o território; passou também a moldá-lo. Esse processo favorece a formação de grandes coalizões eleitorais compostas por grupos que compartilham poucos princípios fundamentais, mas permanecem unidos em razão da oposição ao campo adversário. A identidade política deixa de ser construída pela coerência interna das ideias e passa a depender, sobretudo, da existência de um adversário em comum. Entretanto, se serve de consolo, o fato não é novo. Nos anos 60 do século passado, setores da chamada direita se uniram a tradicionais adversários de esquerda contra um mesmo adversário: os militares de 1964. Não surpreende, portanto, que partidos frequentemente apresentados como adversários irreconciliáveis revelem, quando analisados com maior profundidade, diferenças menores do que seus discursos sugerem. Divergem em temas importantes, sem dúvida, mas frequentemente compartilham estruturas semelhantes de organização, estratégias de poder e concepções bastante próximas sobre diversos aspectos da atuação estatal. A lógica binária tende a ampliar diferenças secundárias e obscurecer convergências relevantes. “Nada se assemelha mais a um ‘Saquarema’ (conservador) que um ‘Luzia’ (liberal) no poder” (Antônio de Paula Holanda Cavalcanti - Político pernambucano do Segundo Reinado. O cidadão comum acaba sendo induzido a escolher um lado antes mesmo de examinar os argumentos. A fidelidade ao grupo frequentemente substitui o exame crítico das propostas. Contradições internas passam a ser toleradas porque a identidade tribal torna-se mais importante do que a coerência filosófica. Uma abordagem intelectualmente mais honesta exige abandonar a bipolaridade. A realidade é multidimensional. Um indivíduo pode defender liberdade econômica, conservadorismo moral, descentralização administrativa, preservação ambiental, garantias individuais e responsabilidade fiscal sem que essas posições o transformem em representante coerente de qualquer dos dois grandes campos tradicionais. Mais importante do que perguntar "de que lado você está?" é perguntar quais princípios orientam determinada proposta, quais evidências a sustentam e quais consequências práticas ela tende a produzir. O debate político amadurece quando deixa de girar em torno de identidades coletivas e passa a concentrar-se na qualidade dos argumentos. A disposição circunstancial dos assentos de uma assembleia revolucionária francesa, há mais de dois séculos, acabou tornando-se um dos principais filtros pelos quais o Ocidente aprendeu a interpretar a política. Talvez tenha servido ao seu tempo. Hoje, porém, esse filtro frequentemente oculta mais do que revela. A classificação deixou de ser apenas uma forma de compreender a realidade e passou a influenciar a própria maneira como ela é organizada. Talvez seja justamente por isso que tantos cidadãos tenham a impressão de que mudam os partidos, alternam-se os governos, renovam-se os discursos, mas certas estruturas permanecem surpreendentemente semelhantes. Enquanto continuarmos presos a uma dicotomia que reduz a complexidade da vida política a dois grandes blocos, permaneceremos discutindo rótulos quando deveríamos discutir ideias. A pergunta inicial, portanto, talvez revele mais sobre as limitações da própria classificação do que sobre quem a responde. Para muitos cidadãos, a resposta mais honesta poderá ser simplesmente esta: não me identifico com um rótulo; tenho meus princípios e valores, procuro avaliar cada ideia à luz dos princípios e valores compatíveis com os meus, de suas evidências e de suas consequências. Isso não representa indecisão política. Representa coerência intelectual. Leia também: O correio da liberdade Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867
- A problemática da perpetuação do assistencialismo
“Nunca deixará de haver pobres na terra…” (Deuteronômio 15.11) “Quanto aos pobres, vós sempre os tereis convosco…” (João 12.8) No mundo sempre existirão dois tipos de pessoas: os ricos e pobres, independente do por quê essas pessoas o são. Esta é a segunda realidade incontestável (a primeira é a morte). E ajudar aos necessitados sempre foi algo presente em nosso cotidiano. E foi se utilizando desta realidade que a ala progressista inventou o assistencialismo, que é diferente da caridade. Esta é quando eu ajudo ao próximo com o meu dinheiro; àquele é quando eu quero fazer isso com o dinheiro dos outros. A própria Bíblia nos mostra um exemplo interessante sobre isso: “Então, Maria pegou uma litra. Isto é, cerca de 0,5 litro. de nardo puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. E toda a casa se encheu com a fragrância do perfume. Entretanto, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde iria traí-lo, objetou: Por que este perfume não foi vendido e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários. O denário era uma moeda de prata equivalente à diária de um trabalhador braçal. Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era ladrão e, sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era colocado.” (João 12:3-6) Nosso Senhor Jesus Cristo explicou exatamente como funciona a mente dos assistencialistas: eles mesmos não “colocam a mão no bolso”, como falamos popularmente, mas querem que outros o façam. E não por amor legítimo, mas para que, de alguma forma, este valor seja desviado. O atual ditado afirma que “se tem placa, tem história”. No caso, Jesus colocou a “placa” antes do acontecido. Os Estados Unidos, terra da liberdade, já sofreu com severas privações, especialmente no período da Grande Depressão. Ela foi a maior crise econômica do século XX e teve início em 1929, nos Estados Unidos, espalhando-se rapidamente para diversos países. Ela não foi causada por um único fator, mas por uma combinação de problemas econômicos e financeiros que se acumularam durante a década de 1920. Após a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), os Estados Unidos viveram um período de forte crescimento econômico, conhecido como os "Loucos Anos 20". A produção industrial aumentou, o consumo cresceu e milhões de pessoas passaram a investir na Bolsa de Valores de Nova York. Muitos investidores compravam ações com dinheiro emprestado, acreditando que os preços continuariam subindo indefinidamente. Esse movimento criou uma bolha especulativa, em que o valor das ações crescia muito mais rápido do que o desempenho real das empresas. Enquanto as fábricas produziam cada vez mais bens, os salários não cresceram no mesmo ritmo. Isso fez com que a capacidade de consumo da população começasse a diminuir. Ao mesmo tempo, agricultores enfrentavam dificuldades devido à queda dos preços agrícolas e ao excesso de produção. Com estoques elevados e demanda insuficiente, empresas passaram a reduzir investimentos e demitir trabalhadores. O ponto de ruptura ocorreu em 24 de outubro de 1929, conhecido como "Quinta-feira Negra" (Black Thursday), quando milhares de investidores correram para vender suas ações. Nos dias seguintes, as perdas se intensificaram, culminando no "Black Tuesday", em 29 de outubro de 1929, quando milhões de ações foram vendidas em pânico, provocando um colapso no mercado financeiro. Com a queda da Bolsa, muitos bancos perderam grande parte de seus recursos, pois haviam financiado investimentos especulativos ou aplicado diretamente no mercado de ações. Sem confiança no sistema financeiro, milhares de pessoas correram para sacar suas economias. Como os bancos não possuíam dinheiro suficiente para atender todos os clientes, centenas deles quebraram. Sem crédito e com a economia em retração, empresas fecharam ou reduziram drasticamente suas operações. Entre 1929 e 1933, a produção industrial americana caiu cerca de 47%, o PIB dos Estados Unidos encolheu aproximadamente 30% e o desemprego chegou a cerca de 25% da força de trabalho, atingindo cerca de 13 milhões de pessoas. A Grande Depressão revelou que crises econômicas profundas poderiam deixar milhões de pessoas sem emprego, renda e acesso a necessidades básicas. É aqui que se inicia a saga assistencialista. O New Deal (em português, novo acordo ou novo contrato) foi uma série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, além de auxiliar os prejudicados pela Grande Depressão. O New Deal foi dividido em duas etapas: na primeira, foram elaboraradas uma série de políticas públicas em torno de 3 'Rs': Relief, Recovery, Reform (Alívio, Recuperação e Reforma). O Estado, portanto, agiria em vias de aliviar a situação financeira de setores mais afetados pela crise econômica, como os agricultores e jovens desempregados por meio de programas imediatos de auxílio (Relief); tentaria recuperar o crescimento econômico através de políticas para reorganizar e equilibrar o orçamento do Estado e exercer um maior controle sobre o sistema bancário americano (Recovery); e criaria reformas políticas que promovessem um maior bem-estar e segurança para a população no longo prazo, assim tentando garantir a continuidade do crescimento econômico do país no futuro (Reform). Além disso, o governo federal procurou reorganizar os setores agrícola e industrial com maior controle estatal fixando preços, destruindo estoques de gêneros agrícolas, estabelecendo metas específicas de produção para evitar outra crise superprodutiva e assumindo a responsabilidade pela comercialização das commodities. Já o segundo New Deal agiu de modo distinto: enquanto que no primeiro, um grupo de economistas tentava realizar ações em parceria com o setor privado, no segundo houve uma “guerra” contra o empresariado. Thomas Corcoran, Thurman Arnold, Henry Wallace e Leon Handerson formaram o conselho progressista que direcionou o governo a agir como regulador e articulador da economia do país. Não há um consenso total sobre se o New Deal realmente atingiu todos os seus objetivos. Sua principal meta quando foi implementado era retirar o país da Grande Depressão e colocá-lo de volta no caminho da prosperidade. Durante o período do New Deal, de fato, a economia americana se fortaleceu e cresceu, mas os problemas internos (como a pobreza e a desigualdade) prosseguiam. Críticos afirmam que foi na verdade a Segunda Guerra Mundial que reergueu a economia nacional, puxando a produção industrial e o desenvolvimento. Nas décadas seguintes, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos experimentaram um longo período de crescimento econômico. No entanto, esse crescimento não alcançou a todos as camadas da população. Em janeiro de 1964, durante seu discurso sobre o Estado da União, o presidente Lyndon B. Johnson declarou uma "guerra incondicional contra a pobreza" ("unconditional war on poverty"). A iniciativa fazia parte de um projeto mais amplo chamado Great Society, que buscava reduzir desigualdades e ampliar oportunidades por meio de políticas públicas. Johnson defendia que o crescimento econômico, por si só, não seria suficiente para eliminar a pobreza. Era necessário investir em educação, saúde, qualificação profissional e assistência às famílias de baixa renda. O principal critério para receber os benefícios era a renda familiar. Em 1964, o governo federal passou a utilizar uma linha oficial de pobreza, calculada com base no custo de uma alimentação mínima e multiplicada por um fator que representava outras despesas básicas da família. Famílias cuja renda ficasse abaixo desse limite eram consideradas elegíveis para diversos programas. Além da renda, alguns programas tinham requisitos específicos. Head Start: destinado a crianças em idade pré-escolar de famílias de baixa renda. Job Corps: voltado para jovens entre 16 e 21 anos (posteriormente ampliado), desempregados ou em situação de vulnerabilidade. VISTA: não era um benefício financeiro para famílias, mas um programa de voluntariado para atuar em comunidades pobres. Medicaid: exigia baixa renda e pertencer a determinados grupos, como crianças, gestantes, idosos ou pessoas com deficiência (as regras variavam entre os estados). Programas de alimentação: normalmente exigiam renda abaixo dos limites estabelecidos pelo governo federal. Com o passar dos anos, os programas assistencialistas governamentais aumentaram e expandiram seu alcance, especialmente a partir de 2009. O American Recovery and Reinvestment Act (ARRA) foi um pacote de estímulo econômico sancionado pelo presidente democrata Barack Obama. Seu objetivo era conter os efeitos da Grande Recessão de 2008. A lógica do programa era simples: se empresas e consumidores estavam reduzindo gastos, o governo deveria aumentar seus próprios investimentos para estimular a economia. E se estado não gera riqueza, com que dinheiro o governo faria isso? Com o pacote, o governo também ampliou diversos programas sociais, entre eles: seguro-desemprego; cupons de alimentação (Supplemental Nutrition Assistance Program – SNAP); auxílio aos estados para manter escolas e hospitais funcionando; recursos adicionais para o Medicaid. Atualmente, quando se somam os programas assistencialistas federais (como SNAP, seguro-desemprego, assistência a famílias, benefícios para pessoas com deficiência de baixa renda e outros), o Congressional Budget Office (CBO) projeta despesas em torno de US$ 389 bilhões em 2026. Esse número não inclui o Medicaid nem o Medicare, que aparecem separadamente nas contas do orçamento federal. Somando tudo, o gasto anual ultrapassa facilmente US$ 2 trilhões. Quando Lyndon B. Johnson lançou a “Guerra contra a Pobreza”, em 1964, cerca de 19% da população americana vivia abaixo da linha oficial de pobreza. Hoje, um em cada quatro americanos depende de uma forma de assistencialismo. Ou seja, a longo prazo, a “ajuda” do governo não diminui a pobreza e aumenta a dependência. E pior: para continuar a receber, muitos dão o tal “jeitinho”. Jesus colocou a “placa” antes do ocorrido, lembra? Lisa Conyers é uma autora que se dedica a analisar a relação entre políticas econômicas e seus impactos na vida real. Seu trabalho concentra-se principalmente nos gastos públicos estaduais e federais, oferecendo análises de políticas e recomendações de reforma. Ela também aplica sua expertise a temas como assistência social, comércio e políticas regulatórias, focando em subsídios fiscais (estaduais e federais), questões de zoneamento e políticas tributárias e bancárias. Além disso, Ela atua como consultora em filmes e documentários sobre economia e livre mercado. Lisa é formada em Estudos Americanos, possui mestrado em Gestão e atua como assistente jurídica. Ela escreveu uma colaboração para a obra “Constituição da Liberdade”, de Tom G. Palmer, tratando justamente do tema assistencialismo. E para quem pensava que o “jeitinho” é “coisa nossa”, os americanos também o possuem. Em seu texto, Lisa relatou que, visitando uma jovem em Atlanta, que lhe fez o seguinte depoimento: para continuar recebendo o benefício do governo, deveria provar que o bebê, que havia acabado de nascer, era seu filho. Isso porque era comum mulheres se utilizarem de crianças alheias para prolongar o auxílio do governo. Outro ponto é o uso do benefício para aquisição de drogas, sejam lícitas ou não. Alguns estados americanos exigem que aqueles que recebem auxílios façam teste de drogas. O estado da Flórida foi mais além ao requerer que os próprios beneficiários paguem o teste. No Brasil, alguns benefícios governamentais foram unificados no Bolsa Família, programa federal brasileiro de transferência direta de renda (ou seja, dos pagadores de impostos) destinado a famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. Seu objetivo deveria ser, em tese, complementar a renda dessas famílias, reduzir a insegurança alimentar e ampliar o acesso a serviços básicos, como saúde e educação. O programa foi instituído pela Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, durante o primeiro mandato de Lula. Na prática, começou a operar em outubro de 2003, por meio de medida provisória, unificando iniciativas federais já existentes – Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Vale Gás e Cartão Alimentação. Atualmente, o programa é destinado a famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) que atendam aos critérios de renda definidos pelo governo federal. Além da renda, o programa considera a composição familiar, como a presença de crianças, adolescentes, gestantes e lactantes. Desde a reformulação do programa em 2023, ele passou a prever, entre outros componentes: valor mínimo por família; adicional por criança de até seis anos; adicional por crianças e adolescentes entre sete e dezoito anos incompletos; adicional para gestantes; adicional para lactantes O benefício possui condições para que continue sendo pago. Para o governo federal, o Bolsa Família busca: reduzir a pobreza e a extrema pobreza; combater a fome; promover a segurança alimentar; ampliar o acesso à saúde e à educação; favorecer a inclusão social. Agora, vejamos o mais importante: o programa atende atualmente cerca de 20 milhões de famílias, alcançando aproximadamente 53 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de um quarto da população brasileira. Contudo, em 2003, 3,6 milhões de pessoas recebiam o benefício. Houve um aumento de cerca de 16 milhões de famílias, ou aproximadamente 444% em relação ao início do programa. Então, aumentou o número de pobres e miseráveis? Ou o que aumentou foi o número de pessoas DEPENDENTES do programa? Em fevereiro de 2025, a CNN publicou uma matéria denominada “Bolsa Família, uma emergência de 20 anos”. Observem esta fala de Paulo Tafner, presidente do Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS): "O fato é que a economia brasileira não teve o desempenho razoável para tirar a gente estruturalmente da pobreza. A melhor forma de tirar as pessoas da pobreza é a geração de emprego”. seja, por melhor boa vontade que se tenha, o fato é que a perpetuação do assistencialismo não resolve o problema econômico e social na sua raiz. Agora, um ponto importante: foi no GOVERNO DE JAIR BOLSONARO que houve uma pequena mudança: “Fabio Giambiagi, economista e pesquisador do FGV/Ibre, ressalta que, ao comparar os períodos de 2019 e 2023, ‘todos os indicadores são unânimes ao mostrar que houve uma redução muito significativa do grau de pobreza e miséria’, destacando sobretudo a renda média no país e o momento do mercado de trabalho”. Quando há o fomento de empregos – e diminuição de impostos, principalmente – existe a possibilidade de ascensão econômica. Porém, atualmente, o movimento está em sentido oposto: pessoas estão saindo de seus empregos para depender do benefício. A matéria “Beneficiários do Bolsa Família saem do emprego para receber auxílio? Veja o que dizem especialistas”, publicada no Terra, em julho de 2025, reflete isso. “O economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), que estuda o impacto da expansão do Bolsa Família no mercado de trabalho, afirma que, antes de 2020, o programa não tinha nenhum efeito negativo nos empregos e, inclusive, ajudava o acesso ao trabalho para mulheres e mães. Porém, segundo ele, o cenário mudou nos últimos anos. ‘Com a nova configuração do Bolsa Família, em que o benefício mais que dobrou, começamos a ver evidências de que o programa tem reduzido a participação no mercado de trabalho’, pontuou”. Lisa Conyers, ao realizar suas pesquisas de campo, descobriu que beneficiários (nem todos, importante ressaltar) gastavam parte ou quase todo o valor em vícios de toda sorte. E com o Bolsa Família, infelizmente, não é diferente. A matéria “O que se sabe sobre o uso do Bolsa Família para compra de drogas”, publicada pelo jornal Gazeta do Povo em junho deste ano mostra que existe desvio de finalidade da quantia feita por uma parte dos beneficiários. “Casos recentes registrados por autoridades mostram que cartões e recursos do Bolsa Família aparecem com frequência em ocorrências ligadas à compra de drogas e ao tráfico. O tema voltou ao debate público depois de uma audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, realizada em 9 de junho, que tratou de denúncias de retenção de cartões do programa por traficantes em troca da entrega de entorpecentes a moradores de rua beneficiários do Bolsa Família”. Este não é um artigo que visa fomentar um levante contra o assistencialismo a fim de erradicá-lo. Eu entendo que há famílias deveras necessitadas, que morrerão à migua se não receberem o benefício. Porém, quando se trata uma ajuda, que alivia um sofrimento imediato, como um “direito”, existe a ideia de que isso deve ser feito para sempre. E, no tocante ao dinheiro, é sempre bom lembrar de que não existe almoço grátis. Leia também: Estudando o Fascismo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Árvores no outdoor
A personagem Meryl Burbank, interpretada pela atriz Laura Linney, no filme O Show de Truman (The Truman Show), cumpria o papel de esposa do protagonista Truman Burbank, vivido por Jim Carrey. O enredo apresentava um homem que além de personagem central do filme, ocupava a mesma posição em um programa de televisão que retratava a sua vida cotidiana, recebendo, interessantemente, o mesmo nome do filme real. A peça dentro da peça não tinha uma trama rebuscada, pois Truman Burbank não interpretava, pois desconhecia viver uma encenação, ignorando que fora inserido, mesmo antes de seu nascimento, em um ecossistema criado para comportar o show. As pessoas assistiam a vida de um homem que foi aprisionado por mentiras e interagia com atores em um ambiente controlado sem poder imaginar sua real condição. Mesmo as condições climáticas eram controladas por uma central da qual o diretor do programa agia como se fosse uma espécie de deus daquela farsa. Meryl Burbank, que sabia não ser real a sua relação marital com protagonista, tratou de aferir vantagens em razão da grande audiência do programa e de sua constante aparição, fazendo flagrantes exposições desnecessárias de produtos quando interagia com o esposo ficcional em evidente prática publicitária incutida na programação. Não era algo discreto e, com o passar do tempo, tornava-se cada vez mais evidente que Meryl não falava de um determinado produto com naturalidade, posto que, precisava instigar os espectadores em relação aos produtos que anunciava, chamando a atenção de Truman devido ao jeito artificial como fazia tais propagandas. A publicidade depende da comunicação e seu intuito e cativar a atenção de um público alvo para que adira a uma ideia que o publicitário deseje propagar, seja a compra de um bem, a aceitação de uma proposta, a arregimentação em um grupo ou a adesão de um novo costume. Quando o público alvo deseja aquilo que a publicidade o oferta, o único objetivo é expor que o objeto ora desejado está à disposição, a tarefa se torna simples como iluminar um caminho pelo qual o agente já pretendia seguir. Por outro lado, quando o público alvo não tem um interesse prévio pelo objeto da publicidade, far-se-á necessário convencer tal público a desejar aquilo que o publicitário tem a oferecer, usando diversos métodos para atingir o sucesso. No processo de convencimento, o esforço empregado pode demorar a trazer resultados, logo, aquele que promove algo precisa ter em mente que o resultado imediato, quando preciso convencer, dificilmente será alcançado. Não havendo um desejo preexistente, é necessário criar a demanda para atender a oferta. Um fluxo invertido no qual o produto não atende a um anseio, mas a vontade em adquiri-lo é artificialmente injetada. O público alvo é instigado a desejar aquilo que o publicitário se comprometeu a fornecer sem que houvesse uma demanda, satisfazendo a oferta de algo que não era realmente desejado. No jargão popular, empurrar algo que ninguém quer. Para que alguém consuma algo que não deseja, é preciso que seja convencido de que tal objeto, seja material ou não, lhe é útil, seja um substituto superior ao seu desejo original ou o trará ganho indireto. Embarcações são úteis para cruzar grandes rios e mares, a lâmpada elétrica foi um substituto superior às velas, ao passo que, peças de joalheria adornam seus usuários para lhes dar verniz de maior poder aquisitivo, embora não tragam um benefício direto senão o status. No lado obscuro da moeda, a injeção artificial de demanda faz com que o público alvo deseje algo que lhe é prejudicial usando a farsa como artifício, fazendo com que a oferta de algo não desejado e nocivo seja atendida em razão da mentira contida em sua publicidade. Algo nocivo pode ser propagado como útil quando seu rótulo esconde sua real natureza. Um bom exemplo é o socialismo, ideologia que se divulga como meio de promover a igualdade e justiça social quando sua essência é o autoritarismo e a miséria. O comunismo ou socialismo, ambos os termos são aqui empregados como sinônimo de forma proposital, promete o paraíso na terra, mas se provou uma experiência infernal todas as vezes que foi colocado em prática. Uma farsa que arregimenta os incautos em momentos de fragilidade, frágeis por natureza ou gananciosos demais para enxergar a armadilha, até que os aprisiona em um sistema maldito que propaga inveja, ódio e degradação. O socialismo não é útil, tampouco um substituto para outros sistemas, mas se vende como necessário ao passo que exige de seus arregimentados a propagação de suas ideias e, principalmente, a imposição de seus dogmas tiranos em relação aos que não acreditaram em seu rótulo falso. Como o óleo de soja e a margarina, que precisaram demonizar a banha e a manteiga para serem objeto de desejo, o socialismo culpa falsamente o capitalismo pelo infortúnio de alguns sem, contudo, apresentar uma solução real para os problemas apontados. Em verdade, sua única solução para a desigualdade é fazer da miséria, econômica e moral, uma rega a quase todos imposta, tendo em vista que seus líderes, incapazes de suportar os males que impõe aos outros, jamais experimentam as privações que os demais devem suportar pelo prometido bem da coletividade. Um propagandista do socialismo sofre de uma debilidade intelectual ou de caráter tão aguda que ignora o fato de todos os líderes socialistas se banquetearem enquanto os que estão sujeitos ao regime são assolados pela miséria. Promotores do socialismo nunca se furtaram a expor crianças famintas no continente africano como consequência do capitalismo, mas omitiam o fato de a maioria dos países miseráveis daquele continente ter aderido às ideias socialismo, o chamado socialismo africano, para transferir a imagem de sua abjeta realidade, justamente, para o sistema que se propôs substituir. No ano de 2008, o regime socialista chinês foi o anfitrião dos jogos olímpicos e, como esperado, vestiu um rótulo para iludir aqueles que admiravam o evento. Colocando árvores em outdoors espalhados pela cidade que sede criava a falsa impressão de que o ambiente era mais arborizado, portanto, mais acolhedor do quê realmente era. A mentira impede que o público alvo conheça a natureza daquilo que encoberto pelo rótulo que o atraiu, por tal motivo, a propaganda precisa distorcer a perspectiva dos indivíduos para que algo nocivo lhe seja atrativo. A chamada agenda woke, que incuti ideais identitários em obras de ficção, se aproveita do desejo por cultura, em especialmente a de grande difusão, para promover sua visão. Como exemplo, produções como filmes de super-heróis foram inundadas de ideias identitários, deixando os espectadores cada vez mais frustrados, ou até irritados, ao verificarem que eram enganados, haja vista que, atraídos por um rótulo que os agradava, pois estavam ali para assistir aventuras de heróis, recebiam “lições” para se adaptarem à agenda progressista. A diversão prometida na embalagem era substituída pelo proselitismo identitário decepcionando o público alvo tão logo percebesse que caíra em uma armadilha, não por acaso, boa parte das obras de ficção que receberam injeções de ideais progressistas se aproveitavam de uma fama preestabelecida, desfigurando personagens e crônicas tarimbadas para transformá-las em meras propagandas. Diante da clara rejeição, seguindo o costume dos desonestos, os propagandistas da agenda woke passaram a negar sua existência, alegando se tratar de teórico da conspiração qualquer um que apontasse indícios de proselitismo identitário em obras. Negar suas práticas e imputar uma falsa visão transtornada aos que a percebem é uma prática recorrente no meio progressista, que é vertente revolucionária. A política autodenominada como Diversidade Equidade e Inclusão, sigla DEI, é uma farsa que serve apenas ao proselitismo progressista, não havendo diversidade alguma ao promover que as produções culturais devem se adequar ao pensamento de um determinado grupo, não traz equilíbrio por tratar figuras e conceitos identitários como únicos detentores de virtudes, bem como, não promove a inclusão ao negar que os indivíduos não acolhidos pela agenda sejam enaltecidos. Conforme corroía produções culturais e era implantada em diversas organizações públicas e privadas, mesmo contra a vontade de muitos, a política DEI, naturalmente, virou objeto de rejeição, mais uma vez, sua existência era negada em determinadas oportunidades. Nos órgãos públicos, a agenda avançava em detrimento da vontade popular, ao passo que, nas instituições privadas que se recusavam a aderir, foram impostas medidas por agentes públicos ou midiáticos. Perseguições de todos os tipos foram impostas em nome de tal política, citamos o caso da empresa de consultoria DEI, denominada Sweetbaby, que supostamente ameaçou uma produtora de jogos eletrônicos chinesa, exigindo que se curvasse à mencionada política e contratasse seus serviços. Aparentemente, uma conveniente associação entre ideologia e ganho financeiro do jeitinho que os revolucionários gostam. Recentemente, uma fabricante de colchões no Brasil foi pressionada pelo poder público por não ter, em seus quadros de direção, uma equipe “diversificada” como a política progressista deseja, pois falta de homens ou brancos parece não ser uma ausência de diversidade que justifique a intervenção do Estado. Com os exageros do identitarismo, a rejeição se tornou cada vez maior e movimentos de reação surgiram naturalmente. Na cultura pop, os fãs começaram a apontar aquilo que, inicialmente acreditavam se tratar de erros, mas que se provou uma intencional instrumentalização da cultura para promover os ideais identitários, indicando a presença de um ativismo que consumia o entretenimento, transformado em mera propaganda progressista. Alertaram para a corrupção das obras e viam que nem mesmo as destinadas ao público infantil escapavam, mas foram ignorados, pois havia a intenção de corromper para mudar o comportamento através da ficção e os produtos destinados às crianças eram sim peças importantes em tal processo. Em uma segunda fase, ridicularizaram a evidente propaganda e começaram a boicotar as obras com tais inclinações, no Brasil, tal movimento foi encabeçado por figuras proeminentes nas redes sociais e plataformas de mídia difusas que acabaram se reunindo em um grupo que absorveu o apelido, inicialmente pejorativo, de “nerdolas”. No âmbito da imprensa, o proselitismo revolucionário foi tão evidente que jogou os principais meios de comunicação em descrédito, chegaram a formar um cartel para manipular a informações durante a pandemia, que se denominou de “consórcio de imprensa”, cuja única finalidade era combinar o quê podia, ou não, ser dito durante aquele período. Tal cartel parece não ter se dissolvido, tendo em vista a clara sincronia nas matérias, abafando ou minimizando quando determinado espectro político toma atitudes ou se pronuncia de forma reprovável, ao passo que superestima aquilo que acredita causar dano à imagem de uma oposição a quem rejeita. A publicidade tomou conta do roteiro, seja na ficção ou na vida real, e os rótulos falsos buscam vender problemas como soluções e venenos como remédios, contudo, aquele que é incapaz de distinguir as árvores nos outdoors das reais acabará pagando o preço por se deixar guiar em direção ao abismo. Seguir a velha imprensa que há muito se tornou mera agência de publicidade, nos dias atuais, é uma escolha e não existem escusas aos que se negam a enxergar aquilo que lhe foi esfregado nas fuças. O compromisso da velha imprensa com seu espectro político, sim, a imprensa assumiu ser parte integrante de um grupo político, a faz distorcer aquilo que chama de notícia para servir como meio de difusão de seus ideais e promover sua ideologia, portanto, merece a mesma rejeição que as obras de ficção que igualmente se corromperam. A chamada liberdade de imprensa, que deveria ser dada a cada indivíduo em razão da informação descentralizada, alcançando apenas um grupo, como é na atualidade, mitiga a liberdade de expressão e a entrega a uma oligarquia parasitária que luta para sobreviver através do monopólio, associando-se ao poder público e financeiro para que aqueles persigam e intimidem os que não integram o cartel de comunicação, em troca, a imprensa tradicional se transformou em uma grande agência publicitária dos detentores do poder, talvez sempre tenha cumprido tal papel, mas como Meryl Burbank, perdeu a vergonha e passou a fazer sua propaganda de forma escancarada. Leia também: Amizade ou perseguições Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Quando a Sirene Tocar
Madrugada do dia 20 de junho de 2026, Brasil. Algo pouco comum acontece. Um alerta máximo com sirene nos celulares de moradores de vários estados. Noite fria, mas sem chuva. E, de repente, surge na tela uma palavra estranha, quase enigmática: “misantropi4”. Muitos ficaram confusos, sem entender o que estava acontecendo, alguns já dormiam. Para muitos, aquilo parecia um código secreto, uma mensagem oculta, algo misterioso. Mas, na verdade, tratava-se apenas de uma distorção da palavra misantropia, que significa aversão à humanidade, um termo completamente fora de contexto para um alerta oficial. Seria uma invasão alienígena??? A sirene rompeu o silêncio da noite, soou mesmo em aparelhos no silencioso e despertou pessoas que não esperavam nenhum aviso. Mas, curiosamente, nem todos receberam a notificação: alguns foram sacudidos do sono, outros apenas ouviram relatos pela manhã, e muitos sequer perceberam que algo havia acontecido. Em alguns casos, além do alerta, houve quem recebesse também SMS ou mensagens em aplicativos, o que aumentou ainda mais a sensação de caos. Mas afinal, o que de fato acontecia??? A verdade é que o sistema oficial de alertas da Defesa Civil havia sido invadido por hackers, que dispararam notificações de emergência para milhões de celulares. Um ataque coordenado, inesperado e, claro, totalmente fora dos protocolos. Mais um detalhe chamou atenção, enquanto muitos foram despertados abruptamente, outros não receberam alerta algum. A tecnologia falhou. O sistema foi violado. E, ainda assim, esse acontecimento nos oferece uma poderosa reflexão; porque, mesmo quando o alerta é falso, o despertar pode ser verdadeiro. E, embora esse episódio pertença ao campo da segurança digital, ele acaba revelando algo profundamente espiritual. Assim como aquele alerta alcançou alguns, mas não chegou a todos, também os sinais de Deus não são percebidos da mesma forma por todas as pessoas. Há corações sensíveis que despertam ao menor sopro do Espírito; há outros que permanecem indiferentes, como se nada tivesse acontecido; há aqueles que, mesmo diante de evidências claras, não conseguem discernir o que Deus está dizendo; e há ainda os que dormem tão tranquilos, com a consciência tão tranquila, que simplesmente continuam repousando no famoso “sono dos justos”. Jesus já havia antecipado essa realidade quando declarou: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mt 11,15). Alguns despertam, outros se incomodam, e outros simplesmente continuam dormindo. E é justamente essa diferença de percepção que torna o episódio da madrugada uma metáfora tão poderosa para a volta de Cristo. A Palavra nos mostra isso em várias histórias. A parábola das dez virgens, revela essa mesma verdade espiritual: todas aguardavam o noivo, todas tinham lamparinas, todas conheciam a promessa, mas somente cinco estavam preparadas quando o anúncio finalmente ecoou. O Evangelho relata: “As prudentes levaram óleo nas vasilhas, junto com as lâmpadas” (Mt 25,4), enquanto as imprudentes, mesmo tendo ouvido o mesmo chamado, não tinham óleo suficiente. O mesmo aparece nos dias de Noé, quando a humanidade recebeu um aviso, mas apenas uma pequena parte levou a sério a palavra de Deus; como diz o livro do Gênesis, “Noé fez tudo conforme o Senhor lhe havia ordenado” (Gn 6,22), enquanto o restante ignorou o alerta até que fosse tarde demais. E ao longo de toda a história da salvação, vemos profetas levantados por Deus (Isaías, Jeremias, Ezequiel) proclamando a verdade, mas encontrando corações endurecidos que, como diz o Senhor pela boca de Isaías, “ouvem, mas sem compreender; olham, mas sem perceber” (Is 6,9). Assim, a desigualdade do alerta daquela madrugada não é apenas um fenômeno tecnológico; é um espelho espiritual. Alguns despertam ao menor sussurro, outros só acordam quando o ruído é ensurdecedor, e muitos permanecem adormecidos. A fé nos ensina que a graça é oferecida a todos, mas nem todos a acolhem com a mesma abertura. Por isso, a pergunta que ecoa não é porque alguns ouviram e outros não, mas se nós estamos entre aqueles que, quando Deus falar, realmente iremos acreditar. Se iremos nos desesperar ou estaremos preparados. Assim como o alerta hackeado chegou a uns e não a outros, os sinais espirituais também não chegam igualmente ao coração humano. Muitos acreditam que podem viver com a alma no silencioso. Acham que podem desligar a consciência. É claro que, apesar de tirarmos uma reflexão espiritual do ocorrido, ninguém aqui está dizendo que o alerta daquela madrugada foi algum tipo de sinal místico vindo do céu. Nada disso. O episódio teve uma explicação perfeitamente racional. O celular possui um modo de alerta extremo, capaz de tocar mesmo com o aparelho no silencioso, desligado ou em modo “não perturbe”. Além disso, a própria Defesa Civil possui autorização para enviar alertas severos que aparecem direto na tela, sem depender de internet, aplicativo ou qualquer configuração especial. Ou seja, não foi um anjo tocando trombeta, foi tecnologia mesmo (hackeada) que, aliás, muita gente nunca tinha parado para configurar. Então, fica a dica: se você quiser garantir que essa função esteja realmente ativada no seu celular, basta abrir as configurações, entrar na seção de notificações, procurar por “Alertas de Emergência sem Fio” (Wireless Emergency Alerts) e habilitar opções como “Alerta Severo” e “Alerta de Teste”. É simples, é técnico e é totalmente racional. Portanto, sim, o alerta daquela madrugada teve impacto, sim, gerou susto, sim, fez muita gente repensar a vida por alguns segundos; mas não teve absolutamente nada de sobrenatural. O ponto de atenção está justamente nisso: Deus não precisa violar sistemas, hackear servidores ou disparar notificações para nos lembrar da vigilância espiritual. Ele fala pela Palavra, pela consciência, pelo discernimento que Ele mesmo nos deu. O alerta foi humano, falha técnica; a reflexão que o acontecido desperta, essa sim, é divina. Mas o alerta daquela madrugada provou algo: “há avisos que ultrapassam o silencioso”. E espiritualmente, Deus também fala assim. “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Ef 5,14) Leia também: Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil! Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867











