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  • Um mundo novo e melhor chegará, se…

    Nessa nova apresentação, pretendo através de uma clara reflexão fazer brotar de dentro de nós algumas respostas, e elas virão de acordo com o nível de consciência de cada leitor. Não restam dúvidas que existe um clamor por um mundo mais justo, bom, belo e verdadeiro, se possível, que venha a nós o reino de Deus. Com tudo o que nos parece claro é que as mesmas pessoas que clamam por um mundo melhor não sabem por onde começar. O ideal é que ao observamos a história devamos não apenas nos determos a nomes, lugares, épocas é tão somente fatos, pois isso nos tornaria especialistas em repetir o que aconteceu com um bom grau de conhecimento externo, mas que refletíssemos sobre o temas e perguntássemos: por que estas coisas aconteceram? E por que tantas vezes? Por que estes personagens e não outros? Em alguns casos a semelhança é tão evidente que parece haver um padrão nos acontecimentos da história. Outra reflexão importante é: Parece que mesmo alguns povos com ideias tão elevadas foram derrotados, com tudo suas ideias, não. Esses valores, virtudes ideais tão elevados parecem saltar de um tempo a outro até encontrar outros povos onde posso renascer. Fica claro então o seguinte: Mais que pessoas fortes, corajosas e cheias de poder para realizar algo, suas ideias devem ser seu estandarte. Se nós apoiarmos em algo imortal, assim seremos. Lembro-me de quando da morte de Jesus, seus discípulos quiseram desistir da portaria suas ideias, mas com a ressurreição, tiveram um novo ânimo. Devemos considerar que o importante aqui não foi a ressurreição da pessoa de Jesus, mas com ele seu ideal de salvação, pois podemos imaginar se Jesus ressuscitado viria a desmentir todos o que apresentara antes? Claro que nosso mestre não faria isso, mas mesmo ele poderia fazer morrer nossa chance de vida eterna. Bom, o objetivo do texto não é religioso, mas filosófico. É mostrar que, se queremos algo elevado, assim deveria ser, pois semelhante atrai semelhante. E não só Jesus, mas todos os que se puseram a promover um mundo melhor focaram primeiro em elevar as pessoas, e depois seu contexto. Em uma analogia bem simplória, mas muito eficiente, como colocar pessoas que nunca foram bem educadas a habitar uma cidade com todos os requisitos para uma sociedade melhor. Não demoraria muito tempo para que a cidade fosse completamente destruída e levada ao nível de seus habitantes. Existem duas propostas conhecidas, uma revolucionária, que visa acabar com tudo o que foi construído socialmente e começa-se então, do zero. E outra revolucionária, que visa aprimorar o que já existe, ficando no que há de bom em cada uma delas. A proposta evolucionária é natural e infalível, mas há que ter paciência, pois é também muito sensível e dependendo do descuido, põe- se tudo a perder. Como numa gestação. Numa gestação, temos a ideia, que está viva de rir de nós. A partir disso, todas as atenções devem priorizar esta vida. Quem já participou de uma gestação sabe o quanto custa em todos os sentidos, o quanto temos que abrir mão de algo que para nós é importante, mas não seria saudável ao ideal. Sabe os que numa gestão se quisermos adiantar o processo, o risco de perdermos o ideal é altíssimo e caso se materialize como num nascimento, é alto também o risco de nascer defeituoso. Aproveito para recomendar a leitura de uma obra: “O IDEAL SECRETO DOS TEMPLÁRIOS” Nesta obra, sua autora, Delia Steinberg Guzmán, nos mostra de maneira clara qual foi o motivo de tanto sucesso nessa irmandade tão famosa, e que deixou um rastro civilizatório para todos o que vieram depois. A obra trata do movimento ocidental para uma nova civilização, mas há também obras que tratam de movimentos orientais, estas com um cunho mais interno como o Bhagavad Gita. Não podemos nos comportar como certos herdeiros que recebendo uma herança suntuosa, sem estar preparado, coloca toda a herança a perder. Em resumo, não podemos nos apoiar no materialismo se quisermos um mundo onde os ideais divinos governem. Em algum nível, temos a oportunidade de fazer valer nosso “pequeno Éden” E faremos se não dermos ouvidos à serpente dos ideais obscuros e não contamos do fruto do materialismo, pois a árvore da vida está nos mais altos valores humanos. Talvez nossa luta dure por séculos! O que nos cabe é formar novos militantes que façam perdurar a força que temos empregado para fazer dar à luz, esse novo mundo. Isso faremos educando a todos que pudermos com os valores que as forças obscuras da sociedade tentam destruir: Deus , Pátria, Família  e Liberdade. Também com eles as virtudes que os sustentam. Se o nosso ideal de vida nos convocar, estaremos prontos? Se vamos participar da batalha, quem seremos nós nela? O que escreverão sobre nossa conduta? Há quantos meses estamos de seu nascimento? Não sei, mas com certeza estamos gestando e o que podemos fazer é ficar na gestação desse ideal de um mundo novo e melhor, um dia alguém verá o fruto do nosso trabalho; O nascimento de um mundo melhor. Que Deus abençoe nossa jornada! Leia: Uma lâmpada, um terço e uma bíblia contra um exército Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • UM GOLPE DE MASTER

    No início, tudo parecia técnica econômica. Medidas apresentadas como modernas, quase visionárias, prometiam dinamizar o crédito, estimular o empreendedorismo e romper com um passado considerado lento demais para os novos tempos. O discurso era elegante, envolto em termos como “liquidez”, “confiança” e “necessidade histórica”. Mas, nos bastidores, algo não fechava. Empresários com acesso privilegiado passaram a prosperar em ritmo acelerado, enquanto companhias recém-criadas surgiam e desapareciam com a mesma rapidez. Papéis financeiros circulavam em volumes crescentes, muitas vezes desvinculados de qualquer lastro produtivo real. A impressão era de que o sistema havia sido desenhado para girar, não para sustentar. No centro desse arranjo, um personagem chamava atenção. Não exatamente um banqueiro tradicional, tampouco um político eleito. Era alguém com trânsito livre entre gabinetes, salões aristocráticos e escritórios financeiros. Um homem cuja fortuna cresceu na mesma proporção em que o crédito se tornava abundante. Para alguns, um visionário. Para outros, um operador. Enquanto isso, a autoridade responsável pela política monetária insistia que tudo estava sob controle. O argumento era sempre o mesmo: o país precisava ousar. Eventuais excessos seriam corrigidos pelo próprio mercado. A expansão não era um erro — era uma aposta calculada. O Judiciário, por sua vez, surgia como uma instância distante do cidadão comum, mas perigosamente próxima dos protagonistas do processo. Decisões rápidas, interpretações elásticas da lei e uma notável disposição para aceitar garantias frágeis davam segurança jurídica a operações que, fora daquele círculo, pareceriam temerárias. Não se tratava de ilegalidade explícita. Era algo mais sutil: legalidade sob medida. À medida que os meses avançavam, os sinais de colapso tornaram-se visíveis. Empresas quebravam em cascata. Pequenos investidores perdiam economias. O crédito, antes abundante, evaporava. O mesmo Estado que incentivara a expansão agora tentava conter o pânico. Veio então a pergunta inevitável: teria sido apenas incompetência técnica? Ou o sistema fora concebido desde o início para beneficiar poucos, deixando o prejuízo para muitos? Os defensores da política adotada insistiam nas boas intenções. Alegavam desconhecimento dos mecanismos financeiros mais complexos. Diziam que o responsável máximo pela condução econômica era um jurista brilhante, mas um economista improvisado. Um idealista cercado por interesses que não soube controlar. Os críticos, porém, apontavam outra possibilidade. Argumentavam que ninguém em posição tão elevada poderia ignorar completamente os efeitos previsíveis de uma expansão monetária descontrolada. Que os alertas existiram. Que os beneficiários eram claros demais para que tudo fosse atribuído ao acaso. O empresário central do escândalo — protegido por relações políticas, respaldado por decisões judiciais favoráveis e sustentado por um sistema financeiro moldado às suas necessidades — jamais foi tratado como um aventureiro comum. Sua posição social, seus títulos e sua proximidade com o poder lhe garantiram um tratamento diferenciado. Quando o sistema ruiu, ele já havia se protegido. Bem, caro leitor, antes que se imagine estar diante de um episódio recente, envolvendo autoridades contemporâneas, empresários do sistema financeiro atual ou decisões judiciais dos nossos dias, é preciso esclarecer com todas as letras: o que descrevemos até aqui foi a Crise do Encilhamento, ocorrida nos primeiros anos da República brasileira, entre 1889 e 1891. O cenário se abre logo após a Proclamação da República. O país buscava romper com estruturas imperiais e acelerar sua modernização econômica. À frente do Ministério da Fazenda estava Ruy Barbosa, jurista de prestígio, intelectual respeitado e figura central do novo regime. Inspirado por modelos liberais e pelo desejo de fomentar a industrialização, Ruy promoveu uma profunda mudança no sistema financeiro. Entre 1890 e 1891, foram autorizadas reformas que facilitaram a criação de bancos emissores, ampliaram drasticamente a oferta de crédito e permitiram a emissão de papel-moeda sem lastro suficiente em ouro ou em produção real. A lógica era simples: crédito abundante estimularia o crescimento. Na prática, criou-se o ambiente ideal para a especulação. Empresas surgiam aos milhares, muitas delas sem qualquer atividade concreta. A Bolsa do Rio de Janeiro tornou-se palco de operações frenéticas, impulsionadas por informações privilegiadas, relações pessoais e acesso diferenciado ao crédito. O termo “encilhamento”, tomado das corridas de cavalo, passou a designar esse momento de aposta generalizada, em que o objetivo não era produzir, mas chegar primeiro. No centro desse sistema estava Sebastião Lopes da Costa Pinho, o Conde Sebastião de Pinho — grande empresário, banqueiro e uma das figuras mais influentes do período. Atuando nos setores financeiro, ferroviário e comercial, o Conde foi um dos principais beneficiários da expansão monetária. Seus bancos e empresas obtinham crédito com facilidade, enquanto sua posição social lhe garantia trânsito direto entre ministros, parlamentares e magistrados. Quando a bolha começou a estourar, em 1891, o impacto foi devastador. Empresas quebraram, o valor da moeda despencou, a confiança no sistema financeiro evaporou. Pequenos investidores perderam tudo. O Estado, que havia estimulado a expansão, mostrou-se incapaz de conter o colapso. Foi nesse contexto que surgiram denúncias formais. O Conde Sebastião de Pinho acabou indiciado por fraudes financeiras, acusado de se beneficiar de emissões irregulares e operações especulativas. Outros empresários e banqueiros também foram implicados. O Judiciário — então representado pelo Supremo Tribunal Federal recém-criado — teve papel central no desfecho pois, após a prisão do Conde Sebastião e alguns pedidos de habeas corpus negados, os dois pedidos impetrados junto ao Supremo Tribunal Federal foram aceitos, libertando o banqueiro. As decisões judiciais, porém, foram marcadas por absolvições, prescrições e interpretações benevolentes da legislação. Apesar do clamor público, ninguém de fato pagou pelo desastre. O STF da Primeira República consolidava, já naquele momento, uma posição de árbitro distante da sociedade e indulgente com os estratos superiores do poder econômico. Passado o vendaval, o país entrou em um lento processo de recomposição. Empresas desapareceram, poupanças foram corroídas e a confiança pública levou anos para se recompor. A economia brasileira saiu do episódio mais cautelosa, mais desigual e mais dependente de mecanismos de controle que só surgiriam plenamente nas décadas seguintes. O custo social foi difuso, prolongado e silencioso: menos crédito, menos investimento, menos mobilidade para quem não possuía reservas ou influência. Os protagonistas, contudo, seguiram trajetórias menos dramáticas do que o colapso sugeriria. Patrimônios foram reduzidos, não extintos; nomes foram questionados, não apagados. O prestígio intelectual e político de Ruy Barbosa atravessou a tempestade e se consolidou como referência jurídica e republicana. Grandes operadores econômicos, entre eles o Conde Sebastião, sofreram abalos reais, mas preservaram redes, posição social e capacidade de recomposição — ativos invisíveis que, em momentos de crise, valem mais que o caixa. O saldo histórico é desconfortável: a turbulência redistribuiu perdas com muito mais eficiência do que redistribuiu responsabilidades. Enquanto a sociedade absorvia os efeitos prolongados da contração e da desorganização monetária, as estruturas de influência que moldam decisões — políticas e econômicas — permaneceram, em grande medida, intactas. Crises passam; hierarquias, não necessariamente. Assim, o episódio que começou como euforia e terminou como advertência deixa um padrão recorrente na vida pública brasileira: choques que parecem nivelar o jogo, mas que, ao final, apenas reorganizam o tabuleiro. Os danos são amplos; a influência, resiliente. E a história, quando revisitada sem indulgência, revela menos uma ruptura do que a persistência de um mesmo arranjo de poder sob novos nomes e novas circunstâncias. O Encilhamento não foi apenas uma crise econômica. Foi um ensaio inaugural de uma engrenagem que se repetiria ao longo da história brasileira: políticas públicas desenhadas sob o discurso do progresso, empresários estrategicamente posicionados, instituições jurídicas conferindo estabilidade formal e, ao final, a conta distribuída à sociedade. Entender esse episódio não é apenas revisitar o passado. É reconhecer que certas estruturas sobrevivem às décadas, trocam de nomes, atualizam instrumentos, mas preservam a lógica essencial: quando poder econômico, decisão política e tutela judicial caminham sem controle efetivo, o risco deixa de ser sistêmico — torna-se recorrente. E assim, a máquina do Estado brasileiro, com suas engrenagens financeiras, segue funcionando, oculta sob capas, marcando o passar do tempo e a repetição dos erros.   "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para, não para, não para!" Leia o artigo: Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Liberdade de expressão

    Somente para quem concordar comigo Chegamos em 2026: ano de eleições, de decisões importantes, de mudanças necessárias e urgentes para a nação. Porém, existem valores que devemos preservar, e o mais básico é o direito a ter voz. Eu sou conservadora, direitista e bolsonarista. Comecei a meu interessar por política ainda na adolescência, acompanhando as eleições americanas. Lembro-me de não gostar muito de George W. Bush, mas o considerava melhor do que seu oponente à época, Al Gore. Eu já era de direita e não sabia (risos). A política brasileira me desanimava um pouco. Meu tio, militar, nunca gostou de Lula e nem da esquerda. E eu, em minha ignorância, não entendia por que não existia uma oposição à altura. Sinceramente, para mim era muito difícil entender Fernando Henrique Cardoso, José Serra e outros serem amigos do adversário. Somente anos depois que descobri que, de fato, eram amigos, mais até do que eu imaginava. Eu observava as eleições americanas, as comemorações de 4 de Julho, o Dia de Ação de Graças. No meu íntimo, eu pensava: “Em todos os lugares e eventos a bandeira americana se faz presente. Existe um patriotismo real. Por que no Brasil somos obrigados a vestir vermelho? Por que usar as cores da bandeira ofende?” . Meu questionamento não era sem propósito: o Brasil estava mergulhado em uma severa hegemonia progressista. Ninguém ousava questionar Paulo Freire, regime militar ou o próprio Lula. Até que eu vi um deputado austero na televisão, acho que foi no antigo CQC ( “Custe o que Custar” , um programa cujo modelo foi comprado da Argentina e era comandado no Brasil pelo Marcelo Tas). Este programa tinha vários repórteres e um deles era do Danilo Gentili. De vez em quando, Danilo fazia matérias com os parlamentares. E foi assim que conheci Jair Bolsonaro. Sinceramente, nunca tinha gostado de um político específico. Ah, gostava sim, do Eneias Carneiro! Meu pai também gostava muito dele e dizia que teria sido um ótimo presidente se não fosse a “ideia da bomba atômica” . Não era bem isso, mas meu pai não sabia. Na verdade, quase ninguém sabia. A mídia “tradicional” fez questão de ridicularizar a imagem de Eneias e fazê-lo passar como louco. Essa mesma mídia tentou novamente, desta vez, com Jair Bolsonaro. Mas o plano não funcionou. A produção do CQC descobriu que a imagem de Bolsonaro gerava audiência e por isso ele sempre era entrevistado. E a cada depoimento, redações inteiras sofriam uma síncope. Mas por quê? Porque pela primeira vez, a população presenciava um político sem o tradicional politiquês. Bolsonaro falava de forma direta aquilo que o cidadão brasileiro pensava. E a partir de 2010, Jair Bolsonaro fez a maior denúncia de sua vida pública: expôs o tal seminário LGBT infanto-juvenil e os filmetes produzidos pelo Ministério da Educação da época, que seriam exibidos nas escolas, para normalizar a agenda entre as crianças. E isso fez com que a população brasileira começasse a perceber o que de fato estava acontecendo. Ao longo dos anos, o nome de Bolsonaro ganhou força para ocupar a cadeira presidencial. Pela primeira vez, o brasileiro estava escolhendo com genuíno prazer o seu candidato. Jair fez sozinho o que ninguém esperava: quebrou a ditadura do discurso único e mostrou que é possível amar as cores verde e amarelo sem ser execrado por isso. Jair Bolsonaro se tornou um símbolo da liberdade de expressão, sendo eleito presidente da República em 2018. Contudo, começou a acontecer um movimento estranho: quem apoiava Bolsonaro passou a adotar a ditadura do discurso único. Isso não aconteceu de forma abrupta, mas em doses homeopáticas. Confesso que comecei a achar essa movimentação um tanto quanto estranha. Afinal, a direita sempre pregou a chamada liberdade de expressão. Começou a se tornar comum dizer “Eu entendo de articulação, eu sei de política” . Mas, para mim isso soava absurdo. Eu não conhecia aquelas pessoas antes do Jair. Salvo raríssimas exceções, todos os analistas e intelectuais do que conhecemos hoje como direita surgiram DEPOIS de Bolsonaro. E o motivo era óbvio: nenhum destes teve a coragem de enfrentar a hegemonia progressista como ele. Junto a Jair, muitos se elegeram. Pessoas completamente desconhecidas, mas que somente conseguiram uma vaga graças a ele. Espero que o leitor não entenda mal, esta minha fala, não digo isso com desprezo. Vários bons nomes foram eleitos, como o Márcio Gualberto e a Chris Tonietto. Porém, desconhecidos. Bom, como disse ouvir coisas como “Eu que sei”  em relação à política me irritava, mas eu não demonstrava. Eu vi e ouvi pessoas menosprezando quem ainda estava engatinhando nessa seara e arrogando para si o direito de saber mais do que os demais e que simplesmente enxotava quem pensava de modo diferente. E eu percebi que a situação começou a piorar na gestão Bolsonaro. Jair foi deputado por quase vinte e oito anos, mas pela primeira vez sentava na cadeira do Executivo. Obviamente que são funções diferentes e ele cometeu erros, isso é normal. Jair, embora tenha acertado muito mais do que errou, ainda assim errou, porque é ser humano. E a turma do “Eu que sei” , em vez de sentar com Jair e ajudá-lo, preferiu o “Não me ligue mais” . De repente, Jair Bolsonaro “não sabia de nada”  para os intelectuaizinhos da direita. Foi chamado de “frouxo” , “traidor das pautas conservadoras” , tudo porque não queria adotar a tática progressista do discurso único. E assim o bolsonarismo começou a minar por dentro. A hegemonia, quebrada por Bolsonaro, havia retornado. Mas agora passava a imperar no meio direitista. Ao longo do mandato, Bolsonaro pensou que tinha uma base com quem contar. Coitado! Ficou mais sozinho do que quando era deputado e eu atesto isso com profunda revolta! No final de 2022, quando mais precisou de sua base, foi abandonado! Eu me lembro de que, quando Bolsonaro venceu em 2018, Gleisi Hoffmann, que era presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) concedeu uma entrevista coletiva e disse: “A esquerda precisa fazer uma autocrítica” . Nunca votarei em quem quer que seja da ala progressista e não concordo com nenhuma de suas medidas, mas Gleisi tinha razão. Eles engoliram a derrota, voltaram a prancheta e começaram a trabalhar. E o resultado já é de conhecimento de todos. A esquerda admitiu seus erros. A direita os jogou para debaixo do tapete. Hoje, temos uma direita dividida porque todo mundo quer arrogar para si o direito que possuir o “guarda-chuva”  da moral e dos bons costumes, quando, na verdade, o “guarda-chuva”  dos valores foi dado por Jair Bolsonaro! É aquele velho ditado que nossos avós dizem: é muito cacique para pouco índio. O fato é que todos querem ter a popularidade do Jair, mas não querem ser como ele, e isso é severamente impossível! A direita brasileira (re)nasceu graças à liberdade de expressão que Bolsonaro exerceu com maestria! Hoje, aqueles que tomaram carona na onda – sejam políticos, influenciadores ou pseudojornalistas – querem ditar regras típicas de um Kim Jon-Un: quem não concorda, é enviado para os “campos de trabalhos forçados” ou “fuzilado” socialmente. Infelizmente, exemplos não faltam. A deputada Ana Campagnolo, recentemente, discordou da ideia da candidatura de Carlos Bolsonaro a uma vaga no senado por Santa Catarina. Em uma entrevista, ela alegou que nenhuma liderança do estado foi consultada para saber se a decisão era de comum acordo. Para minha surpresa, Ana foi achincalhada e xingada de todos os nomes possíveis: “traíra” , “feminista”  e até de “comunista” ! E por tabela, o deputado Nikolas Ferreira acabou apanhando. Alguns disseram que Ana deveria ter falado isso no privado. Concordo. Porém, o que fizeram com ela foi indesculpável! O leitor que possui mais tempo na política vai lembrar que a militância digital do PT atuava contra seus desafetos com ações que variavam desde promoção de boicote até exigência de demissão, e que Danilo Gentili foi uma das principais vítimas. Pois bem, foi exatamente isso que fizeram com a Ana. Diversos perfis DE DIREITA copiavam e colavam ataques contra uma mulher DE DIREITA unicamente por esta mulher expressar sua opinião contrária a uma estratégia política. Meu Deus! O que houve com a direita? Liberdade de expressão, pluralidade de ideias, isso tudo é só teoria, então? Ou só vale para atacar a esquerda com a mordaça que ela tenta nos colocar? Então, se a mordaça for da direita, tá valendo? Eu sinto em dizer, mas a direita brasileira é formada, em grande parte, por pessoas com pensamentos revolucionários. É difícil admitirmos isso, mas encarar a realidade é fundamental para que possamos nos corrigir. As eleições de 2026 exigirão de nós maturidade e capacidade de escutar o que o colega tem a dizer. Ou fazemos isso ou teremos mais quatro anos da esquerda no poder.     Leia o artigo: Getsêmani - A prensa que nos traz a paz Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 62 edição de Janeiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social

    A origem das políticas estatais de proteção social costuma ser apresentada como resultado direto de avanços humanitários ou da pressão moral por justiça social. Essa leitura, embora não seja falsa, é incompleta. A consolidação do primeiro sistema moderno de seguridade social ocorreu na Alemanha do século XIX, sob a liderança de Otto von Bismarck, em um contexto profundamente conservador, monárquico e explicitamente antissocialista. As leis de seguro-doença (1883), seguro contra acidentes de trabalho (1884) e seguro de invalidez e velhice (1889) foram concebidas menos como instrumentos de emancipação do trabalhador e mais como mecanismos de estabilização política e contenção do conflito social. É importante reconhecer que Bismarck não criou essas políticas no vácuo. Antes delas, já existiam antecedentes relevantes, como as Poor Laws  inglesas, experiências municipais de assistência, sistemas de mutualismo operário e práticas filantrópicas de inspiração cristã. O diferencial bismarckiano não foi a invenção da proteção social em si, mas sua estatização sistemática, obrigatória e nacional, integrando trabalhadores ao Estado por meio de direitos condicionados à contribuição e à lealdade institucional. O objetivo explícito era retirar do socialismo nascente seu apelo político, oferecendo segurança material sem conceder poder político autônomo às classes trabalhadoras, o que, curiosamente, viria a se tornar o modus operandi  da nascente elite administrativa dos Estados socialistas. Esse dado de origem é fundamental porque revela uma tensão entre diferentes níveis de expressão social e política, que atravessará toda a história da utopia que poderíamos chamar de “Estado de Bem-Estar Social”: utopia, pois as sociedades estão em constante transformação; logo, o conceito de bem-estar também se move continuamente na direção de novos anseios sociais. A política social bismarckiana  protegia o trabalhador contra riscos objetivos da vida industrial, mas o fazia reforçando sua dependência de uma máquina estatal centralizada e burocrática. Não se tratava de libertá-lo, mas de integrá-lo de forma disciplinada à ordem existente. Nesse sentido, a proteção social moderna nasce mais como tecnologia de governo do que como instrumento de autonomia. O socialismo, por sua vez, apresentou-se historicamente como a grande promessa de superação dessa tutela. Desde Marx, a emancipação do trabalhador aparece como horizonte explícito: o fim da alienação, da exploração e da submissão a estruturas externas de poder. Contudo, quando observamos as experiências concretas dos chamados “socialismos reais” ao longo do século XX, percebe-se uma recorrência preocupante: a substituição do capital privado por um aparato estatal hipertrofiado, burocrático e altamente centralizado. Embora essas experiências não tenham sido idênticas — havendo variações importantes entre União Soviética, Europa Oriental, Iugoslávia ou China —, todas enfrentaram, em maior ou menor grau, o problema da captura do poder por uma elite administrativa que passou a tutelar a sociedade em nome de uma emancipação sempre adiada. Esse padrão não pode ser explicado apenas por desvios morais individuais, mas por uma dinâmica institucional recorrente. Ideias mobilizadoras tendem a gerar movimentos; movimentos tendem a se institucionalizar; instituições, por sua vez, desenvolvem interesses próprios. Surge então o corporativismo, entendido não apenas como organização de classes, mas como espírito de corpo que desloca o foco da ideia original para a autopreservação da estrutura. O ideal que justificou a criação da instituição transforma-se em retórica legitimadora de interesses internos. Esse fenômeno não é exclusivo do socialismo. Ele também se manifesta em economias capitalistas quando ocorre a simbiose entre grandes corporações e o Estado, fenômeno que hoje se descreve como capitalismo de compadrio. Embora seja anacrônico aplicar esse termo de forma rígida a contextos históricos passados, a lógica subjacente — captura regulatória, privilégios seletivos, socialização de prejuízos e privatização de ganhos — acompanha o capitalismo desde suas origens. O que muda é o grau de transparência e os mecanismos de contenção disponíveis em cada época. O contraste frequentemente traçado entre um capitalismo “puro”, no qual o empreendedor assume riscos e corrige desvios rapidamente, e um Estado intrinsecamente corrupto, precisa ser qualificado. Historicamente, empresas sempre buscaram proteção estatal, subsídios, monopólios legais e limitações de responsabilidade. Ainda assim, é verdade que, em ambientes mais competitivos e descentralizados, o erro tende a ter custo direto para quem decide, enquanto estruturas estatais complexas diluem responsabilidades e amortecem falhas por meio do erário. Quando Estado e grandes corporações passam a operar de forma entrelaçada, como ocorreu no fascismo, no nazismo e em diversas experiências contemporâneas, os problemas associados ao socialismo burocrático reaparecem sob outra roupagem. A promessa deixa de ser igualdade ou emancipação e passa a ser eficiência, estabilidade ou desenvolvimento, mas o resultado institucional é semelhante: concentração de poder, decisões menos transparentes e afastamento progressivo entre governantes e legisladores em relação aos governados. A corrupção sistêmica surge, nesse contexto, não como exceção moral, mas como subproduto lógico da estrutura. Agentes públicos e representantes privados criam redes de reciprocidade, favores e proteção mútua que capitalizam ganhos e diluem custos. Quanto mais complexa a máquina, mais difícil identificar responsabilidades; quanto mais estável o arranjo, maior sua capacidade de resistir a mudanças. É nesse ponto que a ilusão democrática da troca de liderança se revela. A substituição de um presidente, ainda que bem-intencionado, não altera automaticamente a lógica profunda das instituições. Estruturas altamente pervertidas tendem a reagir a tentativas de correção como um organismo reage a um corpo estranho: neutralizando, isolando ou expulsando o agente reformador. Reformas superficiais produzem efeitos marginais; reformas profundas enfrentam resistência interna contínua. Isso não significa que a transformação seja impossível, nem que toda instituição esteja condenada à degeneração. A crítica ao determinismo institucional é válida e necessária. Contudo, essa transformação exigiria reformas que atingiriam incentivos, não apenas discursos; estruturas, não apenas lideranças. Uma solução realista e exequível não residiria na negação do Estado nem na idealização do mercado, mas na redução sistemática das zonas de captura. Isso implicaria limitar a concentração de poder decisório, simplificar normas, expor processos à fiscalização pública efetiva, reduzir a promiscuidade entre reguladores e regulados e criar mecanismos em que erros tenham custos claros para quem decide. Significaria também reconhecer que políticas sociais podem existir sem se converter em instrumentos de tutela permanente, desde que sejam desenhadas para favorecer a autonomia e não criar dependência. Em última instância, o problema não é apenas quem ocupa a presidência, mas o ecossistema institucional que a cerca. Conquistar o topo sem tratar a doença sistêmica é, no máximo, como pichar a alegoria feminina de República com um batom; tem algum efeito simbólico, mas nenhum efeito prático. A história do Estado Social, desde Bismarck ou Marx até o presente, mostra que proteção sem limites claros tende à tutela, e poder sem freios tende à captura. O desafio político central permanece o mesmo: construir instituições que sirvam às ideias que as criaram, e não o contrário.    Leia o artigo: Só mais um bate-papo na sala dos professores

  • A imaginação da civilização

    No clássico filme Tubarão, o xerife de uma pequena cidade costeira, que dependia do turismo como fonte de renda, arrisca sua carreira ao desafiar o prefeito local e a própria vida ao se lançar ao mar em busca de uma criatura fascinantemente perigosa. Lutando conta a ambição política ao passo que tenta capturar um dos mais temidos predadores existentes, mas seu dever para com aqueles que, eventualmente, encontrariam a morte nas presas da fera marinha o motivou a assumir todos os riscos e tentar destruí-la. O filme trata de um conflito homem versus fera, mas tal conflito poderia ser suprimido se o xerife ignorasse o risco e aceitasse que algumas vidas perdidas poderiam ser suportadas em nome do sucesso do evento que trazia turistas, e com eles lucro, à sua cidade. Todavia, não haveria qualquer o valor moral em um homem que vendo o mal, no caso do filme representado pelo predador, espreitar seus semelhantes e simplesmente se omitisse para se manter em uma posição confortável. O protagonista da trama vai além, pois não se limita a enfrentar a autoridade política, mas coloca sua vida em risco para abater o temível tubarão, evidenciando seu heroísmo. A inspiração da clássica obra de ficção nos aponta para o fato de que um herói é, sobretudo, aquele que se dispõe a enfrentar o mal, ainda que seja muito mais forte, como um tubarão é para o homem, por seu dever de salvar aqueles que, por justiça, não merecem um destino trágico que pode ser evitado, ainda que tal ação custe-lhe a vida. Quando Frodo Bolseiro deixa o conforto do Condado, em O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel, sua motivação é atender a súplica do mago Gandalf para que leve o objeto maligno ao reino élfico de Valfenda, mas o que realmente move o pequeno hobbit é a noção, em um primeiro momento pouco evidente, que os demais habitantes do Condado pagariam um preço muito alto quando as hordas de Mordor cruzassem as fronteiras daquele pacífico lugar. Frodo sabia que seus pares, simplórios e gentis, não mereciam o nefasto destino de confrontar as lâminas dos nasguls e seus seguidores, por isso, seguiu as orientações do velho mago e seguiu em sua perigosa empreitada. Em Valfenda, ao perceber que portar o maligno anel até as terras do inimigo seria uma missão da qual poderia não voltar, o jovem pequenino reflete sobre a necessidade de combater o mal e acaba por se voluntariar a cumprir tão árdua missão, encorajando seu amigo, primos e outros heróis a o acompanharem, mesmo sabendo que se tratava de uma jornada à terras malignas e que provavelmente não sobreviveriam, formando assim a Sociedade do Anel. Há um ponto em que Frodo decide continuar, apesar de sua ter experimentado provações extremas, perdendo o membro mais celebre  da sociedade, o mago Gandalf nas entranhas de Mória, é quando Galadriel, a feiticeira e rainha élfica, lhe dá a oportunidade de espiar um possível futuro e a hipótese exposta a Frodo é um futuro no qual as hordas do Senhor de Mordor finalmente chegam ao seu amado Condado. Naquele momento, o jovem hobbit percebe que sua jornada não é apenas sobre si, mas uma luta por aqueles com quem se importa. No clássico da literatura Senhor dos Anéis, que posteriormente se estabeleceu nos cinemas, bem como no filme Tubarão, os protagonistas enfrentam criaturas perigosas com as quais não podem negociar, mas, em razão da defesa de inocentes, estão dispostos a entregarem suas vidas para derrotá-las. Entretanto, há outras obras icônicas que apresentam protagonistas cuja jornada se dá em razão de outro motivador, como na Odisseia de Homero, na qual o protagonista, após a vitória dos reinos da Grécia sobre Tróia, acaba desafiando o deus dos mares e se vê passando por tormentas imposta pela referida divindade. Ulisses, ou Odisseu, não busca a salvação de seus pares ou da humanidade, tampouco destruir uma fera indomável para proteger os inocentes, sua jornada tem como objeto central voltar à Ítaca, seu reino, e para o seio de sua família, em especial, sua amada esposa Penélope. A força que move o protagonista o impede de desistir mesmo diante de bestas mitológicas como Cila e Caríbdis, e ainda, resistir aos encantos da feiticeira Circe. A dramaturgia, desde a antiguidade, se presta ao fortalecimento da cultura de um povo ou civilização como um todo, retratando de forma lúdica ou sugerindo hipóteses que poderiam ser experimentadas, seja como promoção de uma ideia ou alerta para um risco. É evidente que a ficção pode tratar de temas reais sem que para tal seja um documentário ou obra baseada ou inspirada em uma história real, posto que, um autor poderia criar uma narrativa sem relação direta com a realidade, mas que transmite valores aplicáveis, podendo trazer uma reflexão, uma promoção ou um alerta. Documentários, em regra, tentam representar a realidade como ocorrera, podendo ser enviesados conforme o ímpeto de seus produtores, todavia, ao lançar mão de uma produção que se apresenta de tal forma, será necessário observar três fatores, posto que, um documentário depende de uma pesquisa que possa embasar sua narrativa, poderá ser confrontado e seus produtores devem gozar de certa credibilidade. Não são raros os documentários desmentidos por encobrirem, distorcerem ou ignorarem estudos e relatos acerca de determinado tema, como podemos citar a tentativa do Canal Nostalgia, no YouTube, de documentar a Guerra da Coréia, desmontado pelo Historiador Tiago Braga . A falta de confiabilidade em relação aos responsáveis por produções de tal natureza também colocará em dúvida o teor da obre, pois não seria lógico acreditar em um documentário político elaborado pela BBC depois do escândalo recente no que tange a divulgação distorcida de falas do Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump. A ficção, por outro lado, pode discutir um tema com maior liberdade, haja vista que, o autor não se verifica aprisionado aos fatos, podendo propor ou hipótese ou advertir sobre temores que guarda em seu íntimo, externalizando tais premissas em situações que não dependem de confirmação, logo, suas divagações não estão sujeitas ao escrutínio da realidade, fazendo-se necessária a quebra de um limite para a aceitação da obra por parte de seu destinatário, a chamada suspensão da descrença. Quando se trata de uma obra baseada em fatos reais, o autor pode se permitir alterar pontos não determinantes da trama para que sua narrativa fique mais agradável ou de melhor compreensão e, no caso da inspiração em fatos reais, tal liberdade torna-se ainda maior. Na ficção sem correlação direta com a realidade, o autor pode avançar e instigar o receptor para que haja maior suspensão da descrença, se permitindo trazer hipóteses as quais não seriam assimiladas em se tratando da realidade. Não por acaso, George Orwell nos levou a imaginar uma fazenda sob a administração de animais que, após uma verdadeira Revolução dos Bichos, assumiram o controle e estabeleceram um regime que transformou a Fazenda dos Animais em uma verdadeira ditadura. Os porcos, que representavam a elite revolucionária, controlavam os demais animais e estabeleceram regras das quais eles mesmos não estavam sujeitos. O conto de Orwell poderia ser um documentário sobre qualquer país comunista, mas a forma lúdica como o autor introduziu os animais e os organizou em sociedade fez com que a imaginação do leitor pudesse alçar patamares mais elevados, trazendo um alerta e propondo uma bela reflexão sobre um tema sem se direcionar a pessoas específicas, pois trazia comportamentos humanos transplantados para aquelas criaturas, como o mal que se apresentou na forma de um tubarão ou do Senhor de Mordor. A literatura nos trouxe hipóteses para reflexão que ajudaram a fortalecer valores que já nos eram caros, além de nos permitir ver o mundo por prismas que jamais poderíamos experimentar, transportando-nos para lugares e situações, para que pudéssemos avaliar riscos, sentir emoções e fazer julgamentos de algo não vivido na realidade, mas em nossas imaginações. O apego às tramas e personagens surge da capacidade humana de identificar outrem, gerando empatia, tão somente pelas narrativas que o cercam, ainda que não exista contato real. Algumas histórias se tornam parte integrante de uma sociedade ajudando a ligar até mesmo povos, a Odisseia é um grande exemplo, pois sua influência pode ser sentida em toda a civilização ocidental e quiçá mundial, assim como os contos de Beowulf e dos Cavaleiros da Távola Redonda foram fundamentais para a consolidação da sociedade inglesa, que se fortaleceu com obras como as de Willian Shakespeare, John Ronald Reuel Tolkien (em que pese sua origem sul-africana) e, na contemporaneidade, Joanne Rowling. O Brasil também teve figuras memoráveis, mas não os enumeraremos por dois simples motivos, deixar de mencionar algum, o que seria enorme injustiça, ou pior, pela constatação de que a literatura da nossa sociedade aparenta certa vacância de estrelas, nos levando a triste constatação de que o cenário cultural brasileiro submerge gradualmente, em que pese, sempre haverá esperança de que surgirão figuras aptas a resgatar tão degradado espaço. Na formação do imaginário de um povo a dramaturgia sempre esteve presente, de contos passados por gerações de forma não escrita à cultura pop, a mitologia, e não nos restringimos ao divino, faz parte da vivência de um indivíduo, de uma sociedade e até mesmo uma civilização. Figuras como Dante, da obra o Inferno de Dante, que não viajou de fato pelo submundo, tornaram-se tão influentes que são quase confundidos com figuras históricas reais. Se a Santa Joana D’Arc, os imperadores Marco Aurélio, Júlio César e Constantino, os navegantes Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Pedro Alvares Cabral, déspotas como Adolf Hitler, Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, marcaram a história como personalidades reais, não há como descartar a participação de personagens fictícios como Ulisses, Jasão, Robbin Hood, Dom Quixote, Hamlet, Raskólnikov, Sherlock Homes, Frodo Bolseiro e, no cenário atual, Bruce Wayne, Peter Parker e Anakin Skywalker, como figuras tão proeminentes que são comumente citados como pessoas, reais ou não, as quase todos que os conhecem por razões culturais, em que pese os três últimos personagens fictícios, da contemporaneidade, sejam mais conhecidos por seus alter egos, respectivamente, Batman, Homen-aranha e Darth Vader. As obras que se tornaram parte da cultura ora se confundem com a história de um determinado povo, pois sua narrativa está tão intimamente ligada ao imaginário popular que, por vezes, os menos atentos acreditam se tratarem de ocorrências reais e que seus personagens, de fato, existiam, restando evidente um fator que pode explicar o apego ao imaginário, justificando o motivo de fãs de determinada obra ou figura fictícia se incomodarem sobremaneira quando as veem vilipendiadas. Por mais que o Rei Arthur não tenha sua existência confirmada, não há como negar que um inglês genuíno se sentiria incomodado com a destruição de traços fundamentais de tão icônica figura, o mesmo valeria para Héracles e tantos outros, portanto, tal pensamento aplicar-se-ia aos símbolos da cultura contemporânea, de forma que, resta evidente a irritação por uma parte dos admiradores de tais personagens, algo que, longe de ser um devaneio diz muito sobre a preservação da identidade cultural, ou seja, um jovem que manifesta insatisfação ao ver seu super-herói favorito ser vilipendiado, não é um imaturo buscando uma causa, mas alguém que sabe que aquele personagem, ainda que ficto, serve como parte da formação cultural da sociedade que conhecera e percebe que a degradação de qualquer fração seve a intenta de corroer o todo. Ao se apropriarem das figuras cultuadas no cenário pop, os revolucionário pretendem moldar, artificialmente, as futuras gerações, influenciando-as para que tenham exemplos adequados a sua doentia ideologia, algo que os fez deformar personagens para que se dobrassem às suas pautas, subvertendo valores antes indispensáveis, movimento que gerou uma reação em sentido contrário, posto que, aos que viram seus mitos sendo vilipendiados restou anunciar a revolta, pedir por mudança e, em último caso, se insurgir contra a tomada do espaço pelos asseclas dos líderes revolucionários. Ainda é preciso discorrer sobre os métodos de ocupação de espaços, uma vez que, os revolucionários assumiram tal compromisso de tal forme que admitiram até perdas consideráveis para promover sua ideologia e por qual motivo não criaram suas próprias tramas e personagens, bem como, se há meio para impedir o avanço e, principalmente, disputar o espaço cultural no qual o chamado progressismo tornara-se quase hegemônico. Por fim, serve-nos de alento o fato de que a natureza revolucionária, em razão de sua visão relativista, é desconectada da realidade e desprovida de valores morais, portanto, suas obras mais incisivas, ou seja, as que propagam sua ideologia de forma mais acentuada, são incompatíveis com o senso comum e sofrem a rejeição natural do destinatário. Basta imaginar uma história na qual o bilionário Bruce Wayne se torna um vilão apenas por ser rico, que Clark Kent não se importe com seu lado humano em conflito com seu dever de combater o mal e que Jotaro Kujo deixasse sua mãe morrer doente por não considerar que valeria se sacrificar em uma jornada suicida contra um inimigo extremamente poderoso só para salvá-la e teríamos narrativas desastrosas em que protagonistas estariam mais preocupadas em dar lições de moral vazias em detrimento de seu dever. Os valores doentios dos revolucionários os levam a mentir, negando que impõem sua nefasta agenda às produções culturais por saberem o quão torpe é sua ação, entretanto, são incapazes de esconder que não aceitam que haja resistência no campo da dramaturgia. Exigindo que qualquer produção de cunho diverso de sua ideologia seja atacada e até mesmo impedida de ser realizada, como fizeram com o filme O Som da Liberdade, com documentário da Brasil Paralelo e, atualmente, com o filme Dark Horse. Não há como negar a importância da chamada guerra cultural para o espectro revolucionário, tanto que criaram um séquito próprio para atuar em tal front, grupo que se autodenominou Woke, que em inglês significa desperto, sugerindo que tais indivíduos estavam acordados para uma realidade mais profunda ou tinha uma visão mais apurada que o público em geral, nada além de uma reedição do termo iluminismo, cujos artífices alegavam portar uma luz capaz de guiar a humanidade, entrementes, trouxeram a destruição em forma de guilhotina. O ativismo woke, que de desperto não tem nada, pois é composto por indivíduos que buscam destaque se amoldando em figuras perturbadas e bizarras que pretendem cativar atenção por serem dissonantes do geral, mas seguem padrões criados por seus próprios membros ao passo que lutam para compreenderem sua ilusão de mundo volátil que acreditam permitir o querer sobrepujar a verdade, avançando suas pautas autofágicas e se afundando cada vez mais na lama de esquizofrenia social, cultural e jurídica, para tentar obter uma vantagem e impor suas vontades cada vez mais delirantes. A guerra dos ativistas woke, assim com de todos os revolucionários, não é contra os reacionários, mas, antes de tudo, contra a realidade.   Leia o artigo: Doce veneno Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • A Preferência pelos Pobres

    Entre o Evangelho, o Magistério e as Máscaras do Nosso Tempo Quando uma verdade vira slogan “A Igreja sempre teve preferência pelos pobres.”   A frase, repetida à exaustão em discursos religiosos, redes sociais e campanhas pastorais, tornou-se quase um mantra. Em muitos ambientes, funciona como selo de autenticidade moral, como se bastasse pronunciá-la para que a instituição — ou o indivíduo — fosse automaticamente identificado com o Evangelho. Mas slogans, quando repetidos sem profundidade, perdem a força. Tornam-se ferramentas de autopromoção, não de conversão. E é justamente nesse ponto que a reflexão se torna urgente: quando a frase deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para quem a pronuncia, algo se rompe. Este artigo revisita o sentido original da “preferência pelos pobres”, confronta suas distorções contemporâneas e recoloca o tema no terreno onde ele nasceu: o Evangelho. A raiz evangélica da opção pelos pobres A opção pelos pobres não é invenção moderna. Ela nasce da própria vida de Jesus: um homem que veio ao mundo em Belém, cresceu em Nazaré — uma vila periférica — e viveu em uma família humilde. José era carpinteiro, profissão digna, mas simples. A oferta feita no templo após o nascimento de Jesus foi de duas rolinhas, a oferta dos pobres segundo a Lei. A proximidade de Jesus com os pobres não foi estratégia, mas consequência natural de sua encarnação. Ele tocou os excluídos, curou os doentes, acolheu os marginalizados e proclamou bem-aventurados os pobres. Mas é preciso dizer com clareza: preferência pelos pobres não significa preferir a pobreza. O Evangelho não romantiza a miséria. Abraçar o pobre não é abraçar a pobreza. Quem ama de verdade deseja que o outro cresça, prospere, tenha dignidade. A opção pelos pobres é libertadora, não fatalista. Ela não mantém ninguém na escassez; ao contrário, busca superá-la. Quando a preferência vira palco e máscara A vitrine da bondade Há um fenômeno crescente no ambiente religioso: pessoas que usam os pobres como vitrine moral. É o discurso do “olhem como sou bom, escolho os pobres”, enquanto a vida cotidiana é marcada por autopromoção, vaidade espiritual e necessidade constante de aparecer. A caridade vira conteúdo.  O pobre vira cenário.  A causa vira maquiagem.   Em vez de conversão, performance.  Em vez de testemunho, marketing.   E, muitas vezes, essa encenação serve para esconder um passado que a pessoa não quer enfrentar. O pobre vira biombo moral, como se a proximidade com ele apagasse automaticamente erros, vícios ou incoerências. A militância travestida de pastoral Outro desvio frequente é transformar o altar em palanque.  O ambão vira tribuna.  A homilia vira comício.  A liturgia vira espaço de disputa ideológica.   Não se trata de negar que a fé tenha implicações sociais — ela tem, e profundas. Mas há diferença entre anunciar o Evangelho e instrumentalizá-lo. Entre formar consciências e manipular emoções. Entre denunciar injustiças e promover partidos. Quando a “preferência pelos pobres” é usada como senha ideológica, ela deixa de ser evangélica e passa a ser partidária. A hipocrisia que corrói por dentro A hipocrisia sacerdotal não está na fragilidade humana — todos somos frágeis —, mas no uso do Evangelho como máscara. Ela aparece quando: - se prega simplicidade, mas se vive com privilégios  - se condena a ganância alheia, mas se busca prestígio  - se fala de justiça, mas se pratica abuso de poder  - se denuncia estruturas externas, mas se ignora as internas  - se usa o pobre como escudo para não encarar a própria história Quando isso acontece, a frase “preferência pelos pobres” deixa de ser verdade e se torna caricatura. Fé e política: inseparáveis na pessoa, distintas nos lugares A palavra “política” vem de polis, que significa “cidade”.  A polis era o espaço da vida pública, onde os cidadãos decidiam juntos o destino comum. Ser político, portanto, não é ser partidário.  É participar da vida da cidade, da sociedade, do bem comum. Todo ser humano é político.  Toda escolha — ou omissão — tem impacto social.   Mas há uma distinção essencial: - na liturgia, o ministro fala em nome da Igreja  - na sociedade, ele fala como cidadão Misturar os dois é trair ambos. Jesus, os pobres e os ricos: uma relação sem maniqueísmos Jesus nasceu pobre, viveu pobre e anunciou o Reino aos pobres. Mas nunca rejeitou os ricos. Pelo contrário, teve amigos com posses que foram fundamentais para sua missão: - José de Arimateia, que ofereceu o túmulo novo  - Nicodemos, que trouxe perfumes caros para o sepultamento  - Mulheres que o seguiam, sustentando a missão com seus bens  - A família de Betânia, que oferecia hospitalidade   Jesus não condena a riqueza em si, mas o apego, a indiferença e a idolatria.  O problema não é ter bens, mas ser escravo deles. Comunismo, capitalismo e a visão social da Igreja A Igreja condena o comunismo histórico por sua negação de Deus, supressão da liberdade e visão materialista do ser humano. Ao mesmo tempo, alerta contra os excessos do capitalismo, especialmente quando ele idolatra o lucro, explora o trabalhador e gera desigualdade extrema. Nenhum dos dois sistemas é “evangélico”.  Ambos podem ser desumanizantes.  O Evangelho julga os sistemas, não se submete a eles.   Entre fidelidade e hipocrisia A frase “a Igreja sempre teve preferência pelos pobres” é verdadeira quando: promove dignidade , busca justiça, eleva o pobre (não a sua pobreza), nasce de conversão, não de marketing  e é vivida no silêncio (não exibida em vitrines). Mas se torna hipocrisia quando: - vira slogan  - vira escudo para militância  - vira instrumento de vaidade  - vira máscara para esconder o passado  - vira arma para atacar irmãos   A verdadeira preferência pelos pobres é libertadora, não ideológica.  É evangélica, não partidária.  É humilde, não exibicionista.  É Cristo, não marketing. E aqui vai o alerta que não pode ser ignorado:  Nem todo religioso que fala dos pobres serve a Cristo.  Nem todo pregador que se emociona no altar está em comunhão com o Evangelho.  Nem todo líder que se diz profeta é, de fato, porta-voz de Deus. Há falsos profetas — e alguns estão dentro da Igreja.  Falam bonito, gesticulam com paixão, citam os pobres como escudo, mas não vivem o que pregam.  Usam a fé como disfarce, o altar como palco, e o povo como massa de manobra. Por isso, é preciso discernimento.  É preciso coragem.  É preciso lucidez espiritual. Porque o Evangelho não é teatro.  E a caridade não é espetáculo. Cristo não veio para ser usado.  Veio para ser seguido.   Neste Natal, que o verdadeiro Jesus esteja presente em nossas vidas! Leia ao artigo: O Narcisismo como Fenômeno Social e Pecado Espiritual Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Só mais um bate-papo na sala dos professores

    Chegamos ao final de mais um ano. Para nós, professores que lutamos em sala de aula para construir um país em que “fascismo” não seja um xingamento vazio e a democracia não seja um conceito feito de massa de modelar, o fim do período letivo não foi dos mais animadores. Poucas semanas antes do último conselho de classe de 2025, um decreto do governador Cláudio Castro — Decreto nº 49.994/2025 —, com validade de três anos, transformou nossos esforços em uma verdadeira luta de Davi contra Golias, mas sem a funda. Alunos da 1ª e da 2ª série do Ensino Médio poderão avançar de ano mesmo que tenham sido reprovados em até seis disciplinas, e os da 3ª série têm o limite de três. Ainda assim, diante de notícias tão ruins, era necessário comparecer à unidade escolar e cumprir a sagrada missão do magistério. Era para ser apenas mais uma noite de aulas em uma escola pública qualquer do estado do Rio de Janeiro. Era só mais um momento entre aulas na sala dos professores. Era mais um bate-papo típico, cheio de quase-nadas para encher o tempo, até que uma colega resmunga sobre uma consulta médica qualquer e sobre um assunto puxado pelo seu médico. Ele, ao descobrir a profissão de sua nova paciente, diz tentando fazer graça: "a maioria dos professores são comunistas, não é?". Profundamente incomodada, ela aceita o diálogo e prossegue fazendo perguntas que são respondidas pelo médico, entremeadas por uma receita, um carimbo, um rabisco. Ao narrar o diálogo, ela cita perguntas aparentemente inocentes, mas carregadas de intenção: - “Onde existe socialismo no mundo? Afinal, até a China, que é usada como exemplo, é capitalista.” - “O que é mais-valia?” Segundo ela, todas as respostas dadas pelo médico definiam mais o capitalismo do que o socialismo. Seu ponto mais impactante residia na pergunta sobre a existência ou não do socialismo na atualidade. À primeira vista, a questão parece perspicaz. No entanto, revela mais sobre a limitação do raciocínio de minha colega de profissão do que sobre a realidade histórica. O que está embutido nesse questionamento é a ideia capciosa de que, se o socialismo não existe de fato, todos os problemas sociais e humanos só podem ser fruto do capitalismo. Trata-se, na verdade, de uma expressão clara do efeito Dunning-Kruger: confiança exagerada em um entendimento superficial, incapaz de enxergar a complexidade dos sistemas econômicos e políticos. Mas como entender a raiz da irritação da nossa professora anônima? O que ocorre de fato, é que hoje não existe nenhum país que seja socialista no sentido puro, como Marx descreveu. Alguns Estados, como China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte, se dizem socialistas, mas todos incorporaram elementos capitalistas, em especial a China e o Vietnã. Já países da Europa do Norte são capitalistas, mas aplicam políticas social-democratas, que também vêm do socialismo. Ou seja: não existe socialismo puro em prática hoje, mas sim diferentes misturas e interpretações. Assim como não existe socialismo puro no mundo, também não existe capitalismo puro. Mesmo os países mais liberais, como Estados Unidos, Hong Kong ou Cingapura, mantêm algum nível de intervenção do Estado, impostos e políticas sociais. O capitalismo, na prática, sempre tem vindo em versões mistas. Ao longo da história, com a exceção da extinta URSS, torna-se evidente que nem o socialismo, nem o capitalismo existem em estado “puro”. Ambos se manifestam historicamente em formas híbridas, que combinam elementos de mercado e de Estado, de iniciativa privada e de políticas sociais. Reconhecer isso não é enfraquecer a análise, mas torná-la mais próxima da realidade. Para efeito de comparação, será necessário baixar a régua ideológica. Ao descer a régua até o nível do que de fato existe, escapa-se tanto da utopia quanto da caricatura ideológica. No caso do socialismo, Marx sonhou com a superação das classes e a justa distribuição da riqueza. Contudo, como sabemos, a produção de riqueza não surge do nada: exige trabalho, conhecimento, capital, infraestrutura e risco. A ideia de que “se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence” soa mais como sofisma do que como ciência social. A prática socialista, em seus experimentos históricos, esbarrou justamente nesse ponto: a dificuldade de alinhar interesses coletivos a motivações individuais, frequentemente recorrendo à coerção estatal para suprir a falha. O paralelo com o nazismo aparece aqui como algo interessante: ambos os sistemas, em nome de um suposto bem maior, esmagaram individualidades. O nazismo pela raça, o socialismo pelo Estado. A consequência foi a mesma: o colapso moral e político. No quesito coerção estatal, a diferença é apenas a bandeira. Diante dessa realidade, o discurso de muitos defensores do socialismo, assim como minha colega, vem mantendo contornos de autoengano. Ao dizer que “o verdadeiro socialismo nunca existiu”, a professora construiu para si uma mentira piedosa, que lhe permite manter o ideal limpo das manchas históricas sem precisar assumir os ônus da prática. Vive no capitalismo (ainda que híbrido), respira dele, beneficia-se dele, mas conserva para si a ilusão de que pertence a um campo moral superior. É dissonância cognitiva, sim, mas também algo além: uma forma de virtude sinalizada, de idealismo inconsequente que custa pouco a quem o proclama. Pessoas assim não formam um grupo coeso, arriscaria distinguir três perfis de socialistas: 1. Os que sabem o que é o socialismo e querem continuar a se beneficiar dele agora, ou quem sabe no futuro. 2. Os que acham que sabem o que é o socialismo e esperam um dia se beneficiar. 3. Os que não sabem o que é o socialismo, e não se importam em saber, pois já se beneficiam de alguma de suas políticas e não querem que este cenário mude. Nos três casos, a doutrina coletivista se apoia em indivíduos movidos por interesses próprios. O socialismo, em sua retórica, é coletivo; em sua prática, é um mosaico de motivações pessoais. E é aqui que se abre a conclusão moral. Mais coerente é o homem ou a mulher que aceita viver no capitalismo, com sua lógica de competição, desigualdade e complexidade. Que entende que a vida humana e terrena não é justa, nunca foi ou será, mas que pode no limite de suas forças, aliviar dores alheias sem a ilusão de ser o redentor do mundo. Que exerce o individualismo sem se tornar egoísta, e que reconhece a desigualdade como parte inseparável da existência humana. Essa pessoa, consciente de suas limitações e de sua liberdade, é a antítese do hipócrita: não precisa se esconder atrás de utopias inalcançáveis nem de discursos morais que não sustenta na prática. Em última análise, o socialismo fracassa porque tenta transformar o homem em algo que ele não é: um ser desprovido de interesses próprios. O capitalismo, por sua vez, funciona porque parte justamente daquilo que o homem é — competitivo, imperfeito, desigual — mas capaz, ainda assim, de gestos de humanidade. A professora militante, ao se refugiar na mentira piedosa do “socialismo inexistente”, perde essa verdade fundamental: não há sistema que nos salve de nós mesmos, mas há a possibilidade de viver sem hipocrisia. Esta história é baseada em fatos. Não houve réplica, tréplica ou discussão: apenas o testemunho daquele relato. De que adiantaria retrucar? O ambiente escolar já está demasiado poluído por vieses ideológicos; haveria mais animosidade e mais perda de energia, sem um fim concreto. Como já dissemos em outro artigo, nossos maiores problemas não estão resumidos à militância no ambiente escolar, pois agora temos também um decreto que se soma aos muitos pântanos da educação. Que venha 2026, e quem sabe nossos colegas possam compreender a frase atribuída ao humorista americano Groucho Marx: “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. A todos nós desejamos um ano de 2026 cheio de esperança em dias melhores!    Leia o artigo:  O Estado democrático tropical brasileiro Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Uma lâmpada, um terço e uma bíblia contra um exército

    Em 1980 a Polônia era dominada pela política comunista que tomara o país em todas as esferas criminalizando tudo o que ameaçava o partido. Qualquer notícia, música, programas de TV e rádio, jornais, o ensino escolar, as empresas, as conversas familiares e sociais, enfim, absolutamente tudo era controlado com mão de ferro. Em meio a toda essa turbulência, algumas pessoas sentiram-se impedidas a fazer algo; não podiam ficar estáticas a toda aquela crueldade, pois se para eles já estava quase insuportável a situação, o que seria de seus filhos e netos, pois uma tirania tende a crescer quando alimentada pelo comportamento passivo de suas vítimas. Foi então que uma luz brilhou em meio a escuridão; não só uma, mas uma a uma todas as luzes de Varsóvia brilharam alimentadas pelo desejo de liberdade. Em uma atitude heroica um casal de físicos, através de um rádio comunicador enviaram uma mensagem que foi o ponto de partida para a mudança que a Polônia tanto precisava. Escondidos em seu apartamento eles tinham apenas 8 minutos para enviar uma mensagem e mostrar que as pessoas não estavam sozinhas e assim despertar o desejo de liberdade em todos que alcançassem, embora não soubessem se daria certo. Zbigniew e Sophia Romaszewski eram um casal comum, mas com uma coragem incomum. Assinada a lei marcial, eles começaram a ver pessoas sendo presas por crime de opinião, entre outros crimes inventados pelo partido, foi então que tomaram uma decisão: A verdade precisa ser exposta! Em segredo, do telhado de sua casa eles começaram e transmitir um sinal de rádio que denominaram, rádio solidariedade; por ela eles transmitiam notícias “ilegais” que denunciavam todas as atrocidades que eram cometidas e que jamais se saberia por outro meio de comunicação, pois eram todos controlados. A cada semana mudavam de esconderijo para não serem pegos pelo regime eles alimentavam por 8 minutos a esperança do povo polonês. A reação do regime foi brutal mobilizando toda máquina para apanhar os responsáveis e puni-los com uma execução pública. Em uma determinada noite Sophia em um gesto arriscado mandou a seguinte mensagem: “Se você está nos ouvindo pisque as luzes de sua casa”. A final eles não sabiam se estavam tendo o sucesso que pretendiam. Foi então que perceberam o tamanho do movimento que estava acontecendo. Quando foram para a janela, viram a imagem que mudaria completamente a história daquele país. Durante horas milhares de luzes piscaram por toda a Varsóvia; o ato ficou conhecido como, as luzes piscantes de Varsóvia. O fato chamou atenção do regime, mas também alimentou a chama da liberdade, pois desde então o povo sabia que não estavam sozinhos. Por fim, três meses depois, o casal foi finalmente preso, mas algo já havia mudado para sempre naquele povo. Surge então o movimento solidariedade que entre outros menores que agiam também às escondidas, crescia contra a vontade do regime e já não podiam controlar o movimento, pois o povo agora era guiado por uma virtude humana e quanto a isso, nada podiam fazer. Esses movimentos foram responsáveis a partir do movimento Solidariedade, os responsáveis pela queda do regime comunista na Polônia, que é até hoje um símbolo de liberdade na Europa. Em 1982 Sophia e Zbigniew foram executados pelo partido, mas o povo já havia despertado. Vale lembrar que à época o Papa João Paulo II apoiou totalmente o movimento, o que favoreceu a consolidação do movimento pela liberdade. Este texto histórico, não é sobre a Polônia, mas sobre qualquer povo que queira resgatar sua liberdade (se é que a perderam). Zbigniew, usaram o que tinham e venceram um dos regimes mais tirânicos da história com, comunhão, fé e sem mera coincidência, uma Bíblia e um terço nas mãos. Que Deus abençoe nossa jornada! Um 2026 de “muita luz ” a todos nós. Leia o artigo: Teofrasto e os caracteres Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Getsêmani

    A prensa que nos traz a paz No silêncio profundo do Getsêmani, à sombra de oliveiras antigas, Nosso Senhor Jesus Cristo viveu um dos momentos mais densos e reveladores de toda a sua missão. Não havia multidões, não havia milagres públicos, não havia aplausos. Havia apenas a noite, o peso da decisão e uma oração que ecoa até hoje no coração de todos que enfrentam escolhas difíceis. O Getsemani não é apenas um cenário bíblico. Ele é um lugar espiritual, um ponto de encontro entre a fragilidade humana e a obediência absoluta a Deus. É ali que Jesus, plenamente humano e plenamente divino, revela que a fé verdadeira revela a confiança. Após a Última Ceia, Jesus se retira para o jardim com seus discípulos. Ele sabe o que está por vir. A traição já está em curso, a prisão se aproxima, a cruz é inevitável. Diferente do que muitos imaginam, o Senhor Jesus não enfrenta esse momento com frieza ou indiferença. O texto bíblico deixa claro: sua alma está angustiada, profundamente triste, tomada por um sofrimento interior intenso. Jesus sente o peso do abandono, o impacto da dor física e espiritual que se aproxima. No Getsêmani, Ele conhece o sofrimento humano por dentro. Enquanto Ele ora, os discípulos dormem. Esse detalhe, aparentemente simples, carrega um simbolismo poderoso: nos momentos mais decisivos da vida, muitas vezes estamos sozinhos. Nem sempre aqueles que amamos conseguem vigiar conosco. Nem sempre são capazes de compreender a profundidade da nossa luta interior. A oração de Jesus no Getsemani é uma das mais sinceras e profundas de toda a Escritura: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Mateus 26.39). Mas, a prece  não termina no pedido. Ela culmina na entrega: “Contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.” Essa frase não é conformismo. É confiança radical. Jesus não diz isso porque não sente dor, mas porque confia plenamente no Pai. Ele sabe que a vontade de Deus, ainda que dolorosa no presente, produz vida, redenção e sentido eterno, como está escrito: No Getsêmani, Jesus sacrifica sua vontade humana não por obrigação, mas por amor. Ele escolhe obedecer porque sabe que sua obediência abrirá caminho para a salvação de muitos. É aqui que compreendemos que a vontade de Deus não é arbitrária; ela nasce do amor e conduz ao amor. “ Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebreus 10.9b) O nome Getsêmani significa “lagar de azeite” . No lagar, a azeitona é esmagada para que o azeite seja extraído. Esse detalhe não é apenas histórico, mas profundamente espiritual. No jardim, Jesus é pressionado ao máximo. O peso da missão, o sofrimento iminente, a solidão e a dor se encontram. Mas é justamente nesse esmagamento que se revela a essência do amor divino. Assim também acontece conosco. Muitas vezes, é nos momentos de maior pressão que nossa fé é purificada, nossos valores são revelados e nosso caráter é moldado. O Getsêmani nos ensina que Deus não desperdiça a dor. Ele a transforma. Todos nós, em algum momento da vida, passamos pelo nosso próprio Getsêmani. São decisões difíceis, caminhos que exigem renúncia, situações em que a vontade pessoal entra em conflito com aquilo que sabemos ser correto. Nesses momentos, o Getsêmani nos ensina que submeter a vontade a Deus não é perder identidade, mas encontrar propósito. A entrega não nos diminui; ela nos alinha com algo maior do que nós mesmos. Há uma mudança silenciosa após a oração no Getsêmani. Jesus se levanta fortalecido. A situação externa não mudou — a prisão ainda acontecerá —, mas algo mudou dentro Dele. A oração não removeu o cálice, mas trouxe paz para bebê-lo. Isso nos ensina que a verdadeira paz não vem da ausência de problemas, mas da certeza de que estamos caminhando dentro da vontade de Deus. Quando entregamos o controle, deixamos de lutar contra o inevitável e passamos a confiar naquele que conduz todas as coisas. O Getsêmani não é o fim da história. Ele é a porta estreita que conduz à cruz. E a cruz, por sua vez, não é o ponto final — ela aponta para a ressurreição. Se Jesus tivesse recuado no Getsêmani, não haveria cruz. Sem cruz, não haveria redenção. E sem redenção, a esperança estaria perdida. É por isso que esse jardim silencioso se torna um dos lugares mais decisivos da fé cristã. O Getsêmani nos lembra que a obediência precede o milagre, que a entrega antecede a vitória e que, mesmo quando tudo parece escuro, Deus está agindo. O Getsemani continua acontecendo todos os dias, no íntimo de cada pessoa que decide confiar em Deus acima dos próprios desejos. Ele nos convida a ajoelhar o coração, a sermos honestos em oração e a dizer, mesmo com lágrimas: “Pai, seja feita a tua vontade” . Porque, assim como naquela noite silenciosa, depois do Getsêmani, sempre há ressurreição. Talvez não do jeito que imaginamos, mas exatamente da forma que precisamos. Leia o artigo: Minha skin antifeminista Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Das Aflições do PT às Delícias do MASP

    IIIº Colóquio Olavo de Carvalho O Jardim das Aflições – 30 anos Pouco mais de trinta anos atrás, ao deixar o auditório do MASP (Museu de Arte de São Paulo) “ em estado de estupor, sem crer no que acabara de presenciar ”, o professor Olavo de Carvalho trazia consigo o embrião daquilo que em 1995 veria a luz sob o título de “ O Jardim das Aflições – De Epicuro à Ressurreição de César: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil ”. Assistira, o prof. Olavo de Carvalho, como todos o sabemos, à conferência de José Américo Motta Pessanha, “ As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro ” ( Conforme assinalado em O Jardim das Aflições, o prof. Olavo de Carvalho assistira à conferência de Motta Pessanha em maio de 1990. Não pudemos, nas coleções de periódicos da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, encontrar referências a este evento na data apontada por Olavo de Carvalho.) Esta conferência era parte integrante do Ciclo sobre Ética promovido, no MASP, pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, à frente da qual estava, naquele tempo, a famigerada Marilena Chauí que, em 1988, com Paulo Freire (e, em seguida, Mario Sérgio Cortella), Hélio Bicudo, Eduardo Jorge, entre outros, compunham o secretariado da vitoriosa campanha petista pela eleição de Luiza Erundina à prefeitura de São Paulo. O instante originário em que se fecunda o gérmen de O Jardim das Aflições , portanto, é o que se segue imediatamente ao do triunfo eleitoral do PT na maior metrópole brasileira e que a consagrará como laboratório privilegiado no qual se destilará, entre inúmeras outras, aquela toxina de que falava Olavo de Carvalho e que, inoculada desde as conferências do MASP, se lhe afigurava um “… entorpecente, que entrava pelos ouvidos da platéia, envenenava os cérebros, movia o eixo dos globos oculares, fazendo ver tudo diferente do que era, num giro louco da tela do mundo ”. Aquela toxina já se vinha filtrando nas retortas ideológicas do PT desde que o partido fôra confrontado com o amargo descalabro eleitoral de 1982. Recordemos brevemente o malfadado curso dos acontecimentos que escarmentaram as pretensões eleitorais do PT e que, provando-o contra a realidade política do país, culminaram, mais tarde, nas conferências do MASP. As Eleições Gerais para senador, deputado federal, e governador, em 1982, revelaram que as aspirações de implantação nacional do PT eram, então, quiméricas. O resultado do pleito terminou com o fracasso do partido que só pode eleger 8 cadeiras para deputado federal: uma em Minas Gerais, outra no Rio de Janeiro e 6 em São Paulo (entre os quais estavam Eduardo Suplicy e José Genoíno). Fôra um resultado melancólico. Este desastre, ao que parece, e segundo o lemos num esquecido ensaio de Marilena Chauí, “ PT, “Leve e Suave?” ” ( E agora PT?, 2ª Ed., org., Emir Sader, Editora Brasiliense, 1986.) , no qual procura refletir sobre a crise então aberta e sobre os rumos a seguir, não recebeu da cúpula do partido a atenção que lhe era devida: “ O fracasso eleitoral nacional do PT, em 1982, não chegou a ser efetivamente trabalhado pelo partido que, lançando-se na Campanha das Diretas-Já, na da Assembléia Nacional Constituinte livre e soberana e na ajuda para a criação e fortalecimento da CUT, limitou-se a localizar alguns dos problemas surgidos naquelas eleições”. Esquivando-se, segundo Chauí, de confrontar as questões internas suscitadas pela derrocada de 1982, o PT, já em 1985, viu-se às voltas com um novo desastre, agora de proporções inda mais catastróficas: nas Eleições Municipais daquele ano, o PT só conseguiu vitória numa única capital, Fortaleza, onde Maria Luíza Fontenelle (que fôra admitida no partido apenas cinco meses antes das eleições e dele expulsa em 1987) foi eleita com 34,4% dos votos. Este desastre confrontou o PT com a perspectiva de sua insignificância política e eventual extinção: “ De fato, tanto o mau desempenho de 1982 quanto o isolamento posterior pareciam indicar que o PT tenderia a desaparecer ”, ponderava a Chauí. E, todavia, não desapareceu. Ao contrário, desde o início de 1986, ano de eleições para deputado federal e senador, vemos por toda parte propalada a notícia desconcertante duma escalada do PT junto à preferência popular. Em janeiro deste ano, pesquisa conduzida no Distrito Federal pelo Departamento de Sociologia da UnB, não obstante revelar que 58% dos eleitores sequer soubessem que estavam em face de iminentes eleições, apontava para um segundo lugar do PT junto ao eleitorado ( Correio Brasiliense (DF), 12 jan. 1986, p. 4; ibidem, 13 jan. 1986, p. 14 ). É neste mesmo ano de 1986 que se publica o mencionado volume de ensaios “ E agora PT? , espécie de exame de consciência da vanguarda intelectual do partido em face da crise experimentada e das perspectivas abertas para o futuro. Em face duma e de outra, crise e expectativas, mas também diante da iminência das eleições daquele ano, Chauí pretende estabelecer o PT numa posição política que, dum eventual partido em disputa pela simples alternância do poder, o converteria numa organização suscetível de encarnar uma alternativa de poder, em relação ao qual as eleições deixariam de ser a “ rotina para o rodízio de cargos no interior do Estado ” para converter-se em titulação periódica duma nova “ forma de existência social que redefine a própria idéia do poder e a do socialismo ”. E, para tanto, lança o convite a uma reflexão que, acolhendo o fracasso da luta armada, a resgata às mãos da crítica liberal ou de direita, para denunciar-lhe como fonte desde a qual, neurotizada, a própria esquerda esquiva-se ao dever dum exame honesto de suas pretensões sociais, políticas e culturais. Segundo Marilena Chauí, era forçoso reconhecê-lo, naquela altura, estas pretensões eram tão despóticas e intransigentes quanto as de seus adversários. “ Autoritárias, dogmáticas e historicamente irresponsáveis, as esquerdas (com raras exceções) nada mais fizeram do que desservir a si próprias, à democracia e à possibilidade do socialismo. Seja por omissão, seja por cegueira e por servidão voluntária, a maior parte das esquerdas brasileiras (e não só elas) recusa admitir a existência gritante do fenômeno totalitário” Chauí conclui que esta incapacidade da esquerda de confessar seu próprio autoritarismo decorre mesmo de suas premissas teóricas, as famigeradas “ leis objetivas do desenvolvimento histórico ”, pelas quais o triunfo do socialismo decorre inelutavelmente do desenvolvimento do capitalismo, e cujo conhecimento concede-lhes a custódia indisputável do destino histórico das massas. Daí decorre também, segundo Chauí, a recusa mesma da democracia. Com efeito, Chauí define a democracia como resultado dos conflitos inerentes à vida sócio-política, como efeito duma atividade social litigiosa que tem em si mesma seu fundamento e duma reflexão que dela decorre imediatamente, sempre em benefício duma ampliação crescente dos direitos e liberdades civis contra a permanente ameaça do autoritarismo. Vale observar, entretanto, que os conflitos que ordenam a vida social e política mencionados pela autora são precisamente sinônimos das lutas de classes, no mais dogmático sentido da expressão. Assim definida, a democracia nem pode ser vista como efeito ou expressão política do liberalismo burguês, contra o qual freqüentemente se insurge, nem como conseqüência efêmera ou produto descartável do socialismo, cujo destino culmina na ditadura do proletariado. Para ambos, liberalismo burguês e socialismo, a democracia, na definição de Chauí, aparece sempre como pedra de tropeço e, portanto, como subterfúgio para medidas autoritárias que, no primeiro caso, ora dá lugar à repressão, ora ao assistencialismo que o Estado monopoliza em prejuízo da própria burguesia; e, no segundo, ao Terror e à burocracia iluminada e omnipotente, que, no Partido, se carteliza em prejuízo do próprio “povo”. Confrontadas, então, com o problema deste crescente autoritarismo estatal, às esquerdas, segundo Chauí, se quisessem ultrapassar a crítica burguesa, incumbia o dever de especular, em seus próprios termos, não só a origem do totalitarismo, mas também a gênese duma forma social suscetível de preservar as promessas socialistas sem recair nas tentações totalitárias. E na análise das determinações do fenômeno totalitário, Marilena Chauí lista pelo menos dez aspectos que devem ser elucidados em vista do papel que os partidos de esquerda, em geral, e o PT, em particular, podem cumprir rumo à consolidação duma alternativa de poder colocada acima de sua mera alternância . E estes dez aspectos, devidamente iluminados por uma nova lucidez crítica, inevitavelmente haviam de revelar: que o contorno místico e totêmico do Estado totalitário repousa numa visão sectária daquilo que constitui um partido político, e que, na sacralização duma burocracia omnisciente, o converte no alicerce duma tirania anunciada, ou ao menos entrevista; e, depois, que o fenômeno totalitário, embora não possa de todo ser dissociado da coletivização da economia, consiste na súbita ou paulatina supressão daquilo que Marilena Chauí denomina “ mediações diferenciadoras entre economia, sociedade, lei, saber e poder ” em benefício da liturgia que celebra a transcendência social e política do Estado em qualquer de suas versões, o caudilho, o comissário, o partido ou o indivíduo. Elucidadas estas questões, a distinção entre sua crítica liberal, de um lado, e sua análise verdadeiramente socialista, de outro, se impõe: ao passo que para a primeira o fenômeno totalitário, segundo Marilena Chauí, provém necessariamente da “ cidadania sócio- política dos trabalhadores ”, para a segunda, ela não pode resultar senão de sua supressão, isto é, da abolição completa ou parcial desta mesma cidadania. Esta cidadania é concebida por Chauí em termos do “ direto de interferir, participar e decidir livremente sobre a economia, a política, a cultura e as leis ”, em termos do que a autora chama “ socialização do poder ”. Chauí conclui que a crítica liberal ao totalitarismo é essencialmente falaciosa, porquanto pretende que os regimes autoritários decorram imediatamente do ingresso dos trabalhadores na vida política quando, em verdade, e ela o diz, resulta da ação das vanguardas e das burocracias partidárias e, não raramente, da luta armada; mas também porque em sua crítica ao socialismo confunde-o com aquilo que denomina modelo bolchevique. E é precisamente da imagem deformante que daí decorre que as esquerdas devem livrar-se. E, para tanto, devem, por um lado, conceber o próprio socialismo para além da visão clássica que dele faz a resultante inelutável das contradições do próprio capitalismo e, por outro, emancipá-lo, de uma vez por todas, da ação política da vanguarda revolucionária. Era, pois, em face desse dever de reflexão que, segundo Marilena Chauí, em 1986, estava colocado o PT, em particular, e as esquerdas nacionais, em geral. Ao PT, portanto, cabia deslindar, apartar um do outro, o conceito de “ cidadania dos trabalhadores ” e o de totalitarismo; ao mesmo tempo, cabia-lhe traçar definitivamente uma clara linha de demarcação entre sua visão do socialismo e o dogmatismo das vanguardas revolucionárias das quais era prudente se afastar. Deslindada uma e traçada a outra, o PT, segundo Marilena Chauí, estaria, enfim, em condições de promover um triplo debate: com as demais esquerdas nacionais no âmago mesmo do partido, com aquelas fora dele e, a partir de ambos, com a opinião pública. Os dois primeiros debates visavam a atenuar ou eliminar, por um lado, todo o risco de cisões e dissenções e, por outro, o perigo que então assombrava a esquerda internacional, o dos expurgos purificadores da ortodoxia comunista. O debate com a opinião pública pretendia elevar à categoria de valor certos pressupostos continuamente ameaçados de ambos os lados do espectro político contemporâneo: a submissão à lei enquanto expressão da ampla participação popular em sua elaboração; a garantia contra toda e qualquer espécie de tirania; o reconhecimento da distinção e da reciprocidade dos distintos planos da vida social (político, econômico, cultural, jurídico, etc.) cuja dinâmica e equilíbrio obedece, segundo Chauí, à distância relativa entre as regras efetivamente em curso e as regras possíveis, ou como diz a autora, “ a criação de novos direitos e novas liberdades ”; e, por fim, no seio do próprio socialismo, a necessária diferenciação entre o Estado e a sociedade, obtida pela multiplicação de modalidades de participação, debate, colaboração na vida política, cultural e social. A PT, enfim, cabia revelar os termos dum debate não sobre as “ estratégias do poder ”, pelas quais este simplesmente transita entre as várias mãos que o disputam e que, não raro, desemboca no totalitarismo, mas sobre a natureza mesma do poder , que jamais deve ser confinado ou confundido com sua encarnação histórica no Estado Moderno. E, então, Chauí nos oferece uma das suas definições do poder para uso nos debates futuros da intelligentsia petista: “ O poder é a maneira contraditória pela qual sociedades internamente divididas em classes (cuja origem não é apenas econômica) procuram definir para si mesmas polos de generalidade e de universalidade, as lutas internas definindo e determinando o possível e o impossível, o contingente e o necessário, o justo e o injusto, o legal e o ilegal, o legítimo e o ilegítimo, o proibido e o permitido, as relações com o tempo, com o visível e o invisível, o sagrado e o profano, a tirania e a liberdade” É em torno desta perspectiva quanto ao poder que o PT devia formular-se a seguinte pergunta: “ Se a democracia não é deduzida automaticamente do liberalismo e se o socialismo não é deduzido automaticamente do capitalismo, o que há na democracia que somente nela, por ela e com ela, o socialismo se torna pensável e possível porque o poder não se confunde apenas com o exercício da dominação? ” A resposta a esta pergunta terminou por conquistar um contorno mais elaborado, embora não isento de paradoxos, cerca de 5 anos depois, precisamente nas Conferências do MASP, a que assistiu o prof. Olavo de Carvalho e que fecundaram O Jardim das Aflições . E, todavia, estas conferências eram a culminação duma iniciativa cujos precedentes remotos podem ser ainda rastreados, e que têm no itinerário intelectual e na atividade militante de Adauto Novaes seu principal corifeu. Sem pretensão alguma de ser exaustivo, resumamos brevemente alguns destes precedentes. Novaes, desde 1978 à frente do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte (Fundação Nacional de Artes), ao tempo que era também diretor da sucursal carioca do semanário radical “ Em Tempo ”, já em dezembro de 1979 publicava o volume “ Anos 70 – Música Popular, Literatura e Teatro ”, que reunia 19 ensaios, de distintas personalidades intelectuais e artísticas, dedicados aquilo que Novaes denominou “ primeiro processo de reflexão sobre a cultura da década de 70 no Brasil ”. Era seu début na senda que o levaria até as Conferências do MASP. Formulando, à sua maneira e num vocabulário homogêneo ao de Marilena Chauí, o método de trabalho empregado no “ processo de reflexão ” que dirigiu os ensaios de “ Anos 70 ”, Novaes toma como ponto de partida o reconhecimento de que o empreendimento mesmo padecia duma contradição interna: debruçava-se sobre um objeto, a cultura da década de 1970, nascido sob o signo “ dos limites políticos duma tempestade que continua a inundar consciências e práticas ”. Aqueles limites políticos fazem referência, óbvio, ao Golpe Militar e à censura que dele decorre, ou, nas palavras de Chauí, à sombra do autoritarismo, ao passo que a mencionada “ tempestade ” se refere, naturalmente, ao movimento contracultural por ela desencadeado. Donde, portanto, a permanente tentação que ameaça os ensaios coordenados por Novaes: reduzir-se a um mero comentário tecido em torno do problema da censura. Adauto não arrisca diminuir o valor deste tipo de “ denúncia ”, mas reconhece que isto não basta para assegurar a fecundidade da “ reflexão teórica ”. Esta reflexão, portanto, se pretende ser fecunda, deve desvendar não apenas as relações objetivas entretecidas entre as obras artísticas e a censura, em termos do que nelas foi autoritariamente silenciado, mas, e sobretudo, em termos de sua cumplicidade com a própria repressão, isto é, a celebração, naquelas obras, duma homogeneidade total ou parcial para com o que Adauto denomina “ cultura nacional popular ”, expressão dos “ interesses da burguesia nacional ”, destinada a ocultar uma verdade fundamental: a de que, em virtude da “ unidade orgânica e contraditória de todos os aspectos da cultura ” (o que nos lembra a definição de democracia de Marilena Chauí), “ a verdade tem caráter de classe ”. E, portanto, a burguesia nacionalista, ao proclamar seu ideal de cultura nacional popular , consagra nele sua própria sobrevivência e perpetuação como classe em prejuízo de toda a realidade cultural que nele foi convocada. A análise coordenada por Novaes em “ Anos 70 ”, deixou entrever, aqui e ali, um esboço de resistência a este estado de coisas. Essa resistência, todavia, ou não tem um caráter sistemático, rigoroso, ou, quando o tem, manifesta-o sob o signo da conciliação nacionalista, em termo precisamente do populismo burguês da qual é cúmplice. Em realidade, e recordemos aqui, desbaratada a quimera da luta armada, formalmente extinto o sonho do levante proletário, a consciência revolucionária terminou por transmudar-se em angústia e niilismo. Um tácito anseio por torpor e esquecimento infiltrou-se, paulatinamente, e sobretudo a partir de 1972, em meio à intelligentsia brasileira. Foi este estado de espírito que a precipitou, numa verdadeira racionalização freudiana, na fuga desabalada para Os Jardins de Epicuro , ou naquilo que no periódico carioca O Fluminense ( O Fluminense (RJ) , 6/7 de janeiro de 1980, Caderno “ Encontro ” p.12: “ Muita gente, parece, não percebeu que “a tempestade” setentista de que fala Adauto Novaes desabou ligada, no plano do subjetivismo (!) teórico, ao velho divã do bem-intencionado (conquanto de boas intenções...) Sigmund Freud, que acabou tornando-se o Otto Hahn da tão decantada Psicanálise. No sentido, em claro e bom som, figurado; tanto mais porque o Avô Torto da Bomba Atômica (o pai: Oppenheimer) partiu do objetivo e Freud do subjetivo. E nada neste mundo, como em outros mundos que possam existir, se assenta no subjetivo. Nem mesmo a arte... é fruto da subjetividade ”) um anônimo articulista denominava subjetivismo , onde, nos anos 70, se prodigalizava toda uma verdadeira orgia paradoxal de consumismo, de baixo misticismo, de furor venéreo irreprimível e de transportes psicodélicos. Neste pormenor, anota o prof. Olavo de Carvalho: “ Nesse quadro, o afluxo de discípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada, típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo – escreveu Jakob Burckhardt – é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ruit ” O diagnóstico de Adauto Novaes, em Anos 70 , mostrando os riscos que ameaçavam esterilizar a contracultura, assediada pela tentação conciliatória do suposto nacional- populismo burguês, fecundou-lhe o curso dos trabalhos posteriores que dirigiu à frente do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte. Em 1982, foi a vez de “ O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira ”, que reuniu ensaios de acerca de distintos setores da atividade cultural brasileira: cinema, theatro, música, literatura, artes plásticas. Contou também com a participação da própria Marilena Chauí. Novaes, coordenando o trabalho de diversos autores, volta aqui a refletir sobre as relações contraditórias entre cultura e vida política no Brasil, sublinhando a inércia duma tradição intelectual que, atribuindo unicamente ao Estado o poder de pôr em marcha a História, relega o intelectual à humilhante alternativa de submeter-se a este poder ou recolher-se a uma posição marginal, na qual seu papel na vida social, proscrita pelo Estado, virtualmente não existe. Para aquela tradição intelectual, portanto, ao menos segundo Novaes e seus colaboradores, não há e nem pode haver uma expressão cultural pessoal e autêntica fora dos ditames do discurso oficial, onde deve predominar a platitude duma “ síntese de particularidade e universalidade ”. Concepção, nas palavras de Novaes, francamente delirante, posto que o Estado jamais renunciará à sua pretensão de nume tutelar universal não só da vida social, mas também do próprio indivíduo e, portanto, de sua realização. É no Estado, ao menos idealmente, e jamais fora dele, que qualquer particularidade ou diferença cultural se legitima e pode ter alguma aspiração universal. Novaes vê nisto uma ressurreição do “ Espírito Absoluto ” de Hegel, portanto, daquilo que chama teologia laicizada , e arremata: “ Povo e nação tornam-se momentos objetivos ou símbolos duma idéia ”. No âmago desta tradição cultural, portanto, cada intelectual se vê reduzido à condição de intérprete, preposto da razão de Estado, obtida, segundo Novaes, a partir duma dissociação irremediável entre “ sujeito e objeto, consciência e coisas, representação e fatos, o saber e o fazer ”, a partir da qual se despedaça a vida social e política. É aquela razão de Estado que, portanto, está na origem dos inumeráveis planos de Cultura Nacional Popular, sementeira desde a qual se forjaria, a um só tempo, uma suposta unidade e identidade cultural que, consigo, carrearia a legitimidade do Estado enquanto tal. E é neste ponto que Novaes se permite definir o que entende por nacional-popular: “ Expressão de um “ideal” sem realidade objetiva que só existe empiricamente enquanto “sentido de discurso”, o nacional-popular é essa unidade que destrói as diferenças culturais e impede a identificação do indivíduo à sua classe, raça e etnia” A situação paradoxal em que estavam colocados o próprio Novaes e os intelectuais coordenados em seu projeto não lhe escapava, afinal, o que esperar dum projeto de pesquisas acerca do nacional-popular realizado às expensas do próprio Estado? Como fugir a este embaraço? A resposta dada por Novaes: resistir heroicamente à tentação de definir a cultura nacional-popular nos termos mesmos em que ela se formula. Desde que, pondera Novaes, o nacional-popular só reconhece o outro à medida em que pode aboli- lo, reduzindo-o a um símbolo, à expressão duma unidade transcendente que o devora; desde que toda e qualquer identidade cultural autêntica, no mesmo instante em que é convocada a tomar parte e encontrar seu lugar no concerto da cultura, se atenua na homogeneidade do nacional-popular; desde que o desejo , substância íntima que anima uma cultura e que nele fecunda “ a música, a paisagem, o cheiro, a cozinha, os sonhos ”, se transvia da realidade em que se origina para gravitar a órbita abstrata da razão dum Estado nacional; desde que se verifiquem coisas como estas, não resta a um trabalho de pesquisa senão renunciar aos termos do próprio discurso acadêmico oficial, ao jargão da própria razão de Estado e da cultura nacional-popular, para dar voz à multiplicidade das identidades culturais, ao outro e, neste último, ao desejo . A aparição do desejo em sua oposição ao racionalismo da cultura nacional-popular, condicionará, doravante, todo o percurso da reflexão dos projetos coordenados por Adauto Novaes e, em seus inevitáveis desdobramentos teóricos, desembocará nas Conferências do Ciclo de Ética do MASP. Em julho de 1985, e prolongando-se até dezembro, Novaes empreende, no Salão de Conferências do Palácio da Cultura (atual edifício Palácio Gustavo Capanema) o seu Iº curso livre, Cultura Brasileira – Tradição/Contradição . O curso abrangia cerca de 18 temas, e contava com nomes como os de Gerd Bornhein, José Arthur Giannotti, Alfredo Bosi, Roberto Schwarz, Ferreira Goulart, José Miguel Wisnik, a já citada Marilena Chauí e... sim, José Américo Motta Pessanha. Em nota publicada em julho de 1985 ( Jornal do Dia (MT) , 27 de julho 1985, p.11) , Novaes detalhava a ambição que presidira a concepção de seus cursos livres: “ Os cursos livres – que começam com “ Cultura Brasileira, Tradição/Contradição ” – buscam o conhecimento das diferentes correntes do pensamento contemporâneo, abrindo mais um espaço à interrogação nos domínios da cultura e da arte. Assim, a vontade singular e as múltiplas manifestações culturais poderão ser reveladas, em contraposição às regras de uma razão conservadora” Não é preciso nenhum esforço para aperceber-se da perfeita continuidade entre as pretensões esboçadas nestes cursos livres e o que já estava em plena gestação desde o pioneiro Anos 70 . Novaes almejava, com este Iº curso livre, promover uma “ reflexão sobre momentos importantes da cultura brasileira, considerada sob dois aspectos: o da continuidade e o da ruptura dessa continuidade ”. À medida que o lastro da tradição é pasto para todas as concepções reacionárias, os colaboradores de Novaes, aqui, numa estudada prestidigitação retórica, esforçam-se por encontrar todos os matizes por meio dos quais o conceito pode coincidir com a idéia de ruptura. Tarefa inglória, mas factível, desde que, como pretendiam, se renuncie aos modelos consagrados de reflexão. Esta ruptura, fiel apenas a si mesma, incide indiferentemente sobre o passado e presente. Desde que conveniente, tanto a tradição moderna (e mesmo pós-moderna) quanto a tradição clássica podem ambas ser alternativamente exaltadas ou depreciadas; mesmo seu arremedo, sua contrafação na cultura de massa pode ser vista como apoteose da tradição à medida que faz da originalidade apenas um valor entre outros, sem qualquer privilégio; para José Américo Motta Pessanha, que integrava a trupe dos palestrantes desse Iº Curso Livre, para citar apenas um exemplo, a ruptura cultural exprime o mais alto grau da racionalidade, à medida que é signo duma dessacralização que reduz o intemporal ao temporal, a razão clássica à razão histórica, o racional ao razoável, o apodítico ao retórico, sempre “ aberto e retificável ”. Colocado nestes termos, qualquer conceito de racionalidade, em sua abertura e permanente retificação, termina por confinar com as fronteiras sempre transgressoras e retificadoras do desejo , da paixão . Na senda aberta por este Iº Curso Livre, Adauto Novaes, em setembro de 1986, promoveu Os Sentidos da Paixão . Como o vimos, foi neste mesmo ano que, no volume “ E agora PT? ”, Marilena Chauí lançava, em face dos reiterados desastres eleitores do PT, um chamado à reflexão acerca daquilo que na, por e com a democracia torna pensável o socialismo para além do autoritarismo. A resposta do Núcleo de Pesquisas da Funarte, que estava em seu encalço desde os fins dos anos 70, resumia-se agora numa singela palavra; a paixão . Estamos a três passos das Conferências do MASP, o primeiro dos quais é dado por este novo curso livre coordenado por Adauto Novaes. Precavendo-se contra qualquer alegação de veleidade intelectual ao debruçar-se sobre este tema, Novaes avança a hipótese de que a paixão não pode ser preterida na afirmação da liberdade. Segundo ele, no modelo clássico do conhecimento só se reconhece ao “ pensamento objetivo ” o papel de sujeito cognitivo, relegando o “ sujeito da paixão ” à condição subalterna de “ fonte de prazer e angústia, alegria e tristeza ”. Era, pois, contra este desprezo por tudo quanto dizia respeito à paixão que seu novo curso se insurgia. E, para fazer frente a esse desprezo, era preciso justificar-se, era preciso, mais uma vez, dar as razões pelas quais um curso livre, patrocinado por um órgão de Estado com dinheiro público, elegera a paixão como tema central. Segundo Novaes, o interesse pelo tema da paixão assenta ao menos sobre três justificativas: O preconceito intelectualista que opõe a razão à paixão esterilizou o próprio trabalho reflexivo numa rotina genérica e banal, que não cessa de destilar um resíduo igualmente tóxico: o irracionalismo, entendido como efeito da hipertrofia do racional. Na raiz desta deformação, segundo o espírito de Os Sentidos da Paixão , está a segregação entre o pensamento (ou a idéia) e o corpo, entre a consciência e o inconsciente. Para possibilitar o trabalho do pensamento por meio da paixão, o projeto de Novaes elege Espinoza como nume tutelar, citando-lhe um célebre trecho: “Nem o corpo pode determinar o espírito a pensar, nem o espírito pode determinar o corpo ao movimento, ao repouso ou a qualquer outra coisa” . Competia, portanto, ao projeto de Novaes não só a crítica ao intelectualismo, mas a convocação, na história da arte e do pensamento, duma galeria de vultos representativos da paixão suscetíveis de ilustrar esta unidade entre pensamento e paixão, entre o corpo e a idéia e, como já o dissemos, entre a consciência e o inconsciente. Esta opção pela unidade entre razão e paixão, portanto, representa uma grande conquista nos domínios da reflexão, sobretudo da reflexão política, e justifica assim qualquer projeto destinado a promovê-la. Segundo Novaes, “ A paixão é o campo das nossas ações cotidianas ” e, em virtude disto, dela temos uma experiência um tanto vaga e nebulosa. A par disso, a inércia da tradição intelectualista, que se transfunde nos meios de comunicação de massa, seqüestra a experiência pessoal da paixão, caracterizada por sua ferocidade em face dos obstáculos e pela própria existência destes obstáculos, para vertê-la na moldura uniforme e inofensiva dos estereótipos, onde ela se deixa domesticar e etiquetar a preço fixo, única condição para seu acesso. Castradas em sua própria ferocidade em face de obstáculos que já não mais existem fora do sujeito, no horizonte da vida social, as paixões virtualmente desaparecem no indivíduo, desintegrando-o ao deixar-lhe a sós com o encargo de impor-se a si mesmo limites num mundo de onde foram banidos todos os limites. Ora, em face deste mundo e deste indivíduo justifica-se plenamente um projeto como o de Novaes. Desde que, em filosofia ou ciência política, estão banidas quaisquer veleidades inspiradas pelo “ sujeito da paixão ”, sob a alegação de que é na história, e somente na racionalidade intrínseca de seu desenvolvimento, que se decidem os destinos humanos, a procura por este mesmo sujeito, em face daquilo que Novaes chama “ a crise dos grandes modelos explicativos e políticos ” se impõe como um “ dado novo ” suscetível de ser objeto de interesse. A descoberta do “ sujeito da paixão ” no itinerário dos projetos e cursos de Adauto Novaes, percebe-se, deixa-nos nos umbrais das questões éticas que, em breve, hão de conduzir- nos ao Ciclo de Conferências do MASP. Este périplo, todavia, não pode ser percorrido sem antes considerar que, na unidade entre a consciência e o inconsciente, entre a idéia e a paixão, entre o pensamento e o corpo, estão os sentidos. E é impossível conceber qualquer projeto de domesticação das paixões que, em seu bojo, não encerre também a ambição preliminar de subjugar os sentidos. Novaes nos lembra que, segundo Lévi-Strauss, os sentidos tornaram-se objetos dum “ trágico esquecimento " ( C., Lévi-Strauss, Mito e significado, Lisboa, Edições 70, p.18.): foram relegados, no triunfo do racionalismo moderno, à condição de órgãos das “ qualidades secundárias ” do real, daqueles aspectos que menos ou nada dizem das próprias coisas e mais de nossa própria subjetividade, portanto, de nossas paixões e desejos . Com efeito, só aquilo que o intelecto descobre é verdadeiro, sendo tudo o mais, entrevisto pelos sentidos e conformado pelas paixões, contraditório, falso, ilusório. Sem, portanto, a consideração deste aspecto sensorial, a pretensão de reabilitar Os Sentidos da Paixão permaneceria incompleta e fadada ao fracasso. É, então, que, em 1987 ( Jornal do Brasil , 28 setembro 1987, Caderno B , p.10), ainda à frente do Núcleo de Pesquisas da Funarte, Adauto Novaes abre seu mais recente curso livre: O Olhar , segundo dos três passos ruma às Conferências do MASP. A premissa subjacente a todo o curso estabelece que a realidade, em última instância “ é o domínio do impreciso, das sombras e das coisas ocultas ”, de cuja ambigüidade essencial nos dão conta os sentidos na origem das paixões e do desejo, e contra o qual se ergue o vulto do racionalismo científico na pretensão de inscrevê-lo nos limites duma ordem metodicamente traçada e pré-concebida. No domínio ambíguo da realidade, segundo Novaes e seus colaboradores, é o olhar, dentre todos os sentidos, aquele sobre o qual recai os furores da tirania racionalista, sobretudo porque, governado pelas paixões, o olhar “ nos faz adquirir mais conhecimentos, nos faz descobrir mais diferenças ”; porque, exaltado na cultura moderna (a contracultura) o olhar concentra em si “a inteligência e as paixões”. E Novaes conclui, citando Jean Starobinski (  J. Starobinski, L’oeil vivant, Paris, Gallimard, 1961, p. 12.): “ Quando conseguimos desvendar os olhos, reconhecemos: “a vontade de delimitar, de geometrizar, de fixar relações estáveis não se impõe sem uma violência suplementar sobre a experiência natural do olhar ”” Em outras palavras: a verdadeira experiência do olhar redunda na descoberta dum mundo inacessível a uma ordem imposta pela violência quer política, quer intelectual. Donde o objetivo das conferências que integravam o curso O Olhar : desvendar o invisível para além do convencionalmente visível, o sensível para além do puramente material. E é neste ponto que, segundo Novaes, a teoria se converte em contemplação , atribuindo a cada especulação o alcance quase místico duma revelação. E eis o ponto nevrálgico que, doravante, conformará o debate intelectual deflagrado nas esquerdas nacionais desde os fins dos anos 70: à medida em que a reflexão adquire o caráter dum sacramento, facultando o acesso aos mistérios inacessíveis da realidade e à “ plenitude invisível dum mundo imperfeito ”, como o diria Novaes, o teórico da USP, o “ intelectual orgânico ” converte-se ele mesmo num sacerdote, num pontífice, sem o qual a ordem visível, violentada pelas pretensões dum racionalismo estrito, degenera em tirania, subjugando o desejo e as paixões. É surpreendente ver aqui como estamos no limiar daquilo que o prof. Olavo de Carvalho, em O Jardim das Aflições , se esforçou por mostrar como um dos paradoxos mais notáveis das Conferências do MASP, em geral, e daquela pronunciada por Motta Pessanha, em particular: a conciliação imprevista entre evasionismo místico-filosófico e ativismo político, entre ocultismo e revolução, ou, para usar uma expressão toda sua, entre Nova Era e Revolução Cultural. Alforriar o olhar da tirania racionalista a fim de que forneça às paixões, ao desejo, a substância dum mundo onde, sublimado pelo próprio desejo e pelas paixões, o percebido, o sensível, é virtualmente idêntico ao cognoscível, à verdade das coisas, é uma operação alquímica que Novaes vai buscar a ninguém menos que Giordano Bruno, num dos muitos livros obscuros que escreveu, Heróicos Furores (e que já Epicuro pretendia realizar através de seu tetrafármacon ). Em realidade, o próprio Adauto Novaes esclarece que é com base em Giordano Bruno e em Heróicos Furores que traçou os três passos que o levaram às Conferências do MASP: “ Assim, seguindo o percurso proposto por Giordano, tivemos Os Sentidos da Paixão e O Olhar . Retomemos a caminhada com O Desejo” Foi, enfim, em março de 1989, que este terceiro passo rumo às Conferências do MASP foi dado: O Desejo . Era a culminação dum programa cujas etapas ninguém melhor que Novaes poderia definir: “ Primeiro foram as paixões – ou a origem e natureza dos sentimentos, os prazeres do corpo, a força, a prudência e as perturbações da alma; depois foi a vez do olhar – uma incursão no mundo da razão e a crítica à evidência imediata e primeira como verdade: através do olhar de sobrevôo, do olhar delirante, dos fantasmas ou espectros, da alucinação, etc., pudemos pensar a constituição do político, da cultura, da arte, do poder..." ( Jornal do Brasil (RJ) 26/02/1989, Caderno B, p. 4) Os horizontes ilimitados que o olhar pode descobrir no real (o conhecimento) e o continente igualmente infinito que as paixões podem nele circunscrever (os sentimentos), enquanto tais, revogam uma ao outro. Invocando a Giordano Bruno, Novaes repete-lhe a conclusão de que duas realidades simetricamente infinitas se neutralizam em sua inesgotável possibilidade. E que, portanto, a realização de uma pressupõe a da outra. Em outras palavras: sem que o olhar se converta em ato de ver, perfazendo-se sobre um objeto, nem o conhecimento que ele delimita, nem a paixão que circunscreve poderiam adquirir alguma consistência real. Giordano Bruno, porém, observa, e Novaes o acompanha, que nenhum objeto finito poderia dar plena satisfação a uma potência infinita, tais como o olhar (conhecimento) e as paixões (sentimento). É preciso que entre estas e as coisas intervenha a transitividade duma terceira potência que transforme, num movimento infinito, a possibilidade do olhar em ato de ver e que, em seguida, neste mesmo ato, transforme a possibilidade do sentir em paixão efetiva. E esta potência é o desejo . E Novaes pontifica: “ Foi nesse sentido que muitos pensadores definiram o desejo como a essência do homem, seu sentimento primordial ” Definir o desejo como a essência da natureza humana, converte-o imediatamente no fundamento da própria noção de liberdade, num insolúvel círculo vicioso: sou livre porque o desejo ser, mas só o desejo porque sou livre... Mas sua elevação à condição de fundamento da natureza humana tem pelo menos o mérito de permitir-nos combater não só a repressão, mas também a própria negação do desejo na autenticidade de sua expressão, na posição que deve legitimamente ocupar em nossa vida. Daí decorre que nunca consintamos em barganhar o prazer e a sensualidade pela simples força obscena; que jamais concordemos em permutar a satisfação da liberdade pelo simulacro da democracia e da representação. Do mesmo modo, é desde o desejo, concebido como essência do homem, que devemos rechaçar todos os esforços modernos que pretendem reduzi-lo a um punhado de experiência estereotipadas, destinadas a substituí-lo na gestão institucional da vida social, reduzindo-o a uma caricatura de si mesmo, como ocorre, por exemplo, nos mass media . O traço característico do desejo, recorda Novaes ao citar Léon Robin, é sua insaciabilidade, onde precisamente repousa o fato de que ele não admite uma representação adequada, nem por imagens, nem por palavras. Daí que sua gestão midiática não leve senão ao convencionalismo, à angústia e ao desespero. E é aqui que Epicuro é chamado a comparecer, preparando seu advento triunfal nas iminente Conferências do MASP. Novaes cita-lhe as palavras: “ Entre os desejos, uns são naturais e necessários, outros naturais e não necessários, e outros nem naturais e nem necessários, são feitos de opiniões vãs” É, portanto, contra o império dos desejos determinados por vãs opiniões, situados aquém ou além dos limites naturais e necessários, e que degeneram no extravagante, no frivolamente requintado, mas também no delírio e no medo, que é preciso exaltar a virgindade, a pureza do desejo: única via rumo ao supremo bem de Epicuro que não sabia conceber bem se dele fossem afastados “os prazeres do gosto, os prazeres do amor, os prazeres do ouvido e as emoções agradáveis que causam à vista uma bela forma”. Esta, pois, lançado o convite às Delícias do Jardim… *** Bem... como o dissemos, a causa próxima que determinou o aparecimento de O Jardim das Aflições , isto é, o ciclo de conferências sobre Ética do MASP e, em especial, a conferência pronunciada por Motta Pessanha, constitui, por assim dizer, a tela desde a qual Olavo de Carvalho empreendeu encontrar a vasta moldura de suas íntimas e inconfessadas motivações: sim, porque é nisto que consiste O Jardim das Aflições , um imenso e heróico périplo pela cartografia da história cultural de nossa civilização em demanda das derradeiras fontes a que Pessanha, em particular, e todo o ciclo de conferências do MASP, em geral, recorreu naquela operação teúrgica com que convertia as mais ignóbeis intenções, as mais sórdidas pretensões inconfessas, na mística cândida e intoxicante dum novo credo, que tanto mais fascina quanto menos é compreendido. Porque Pessanha e seus amigos, coordenados por Adauto Novaes, no esforço premeditado de cretinizar seu ouvinte, fixando-o “ num estado de apatetada passividade ante o fluxo de sugestões ”, hipnotizando-o de modo a “ arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se curvaria com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso ”, convocou para isto os “ reforços de eras pretéritas ”, o prof. Olavo, antes de contestá-lo, julgou prudente desvendá-lo, avançando e recuando, em suas investigações, desde a mais longínqua antiguidade até a ribalta da política contemporânea. E eis aí o périplo em que consiste O Jardim das Aflições e que, como o disse Olavo, “ constitui duas quintas partes ” de todo o seu conteúdo. Apenas em 1992, com a súbita consagração da palavra Ética no debate público brasileiro, atinou Olavo de Carvalho com a verdadeira significação das conferências do MASP onde houvera pontificado Pessanha e seus amigos. Em face da clamorosa “ Campanha pela Ética na Política ”, e dos eventos que lhe sucederam e que culminaram na renúncia e impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, o prof. Olavo pode ver, em perspectiva, o que de fato presidiu a realização das conferências que se tinham realizado no MASP: tratava-se, como então lhe pareceu, do berço intelectual onde nascera a bombástica “Campanha”, berço que, “ de amplo movimento de conscientização moral, empenhado em desarraigar de nossa mentalidade política alguns vícios seculares, foi estreitando cada vez mais seus objetivos, até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do sr. Fernando Collor de Mello da Presidência da República ”, em benefício, está bem claro, da ascensão da esquerda que se vinha esboçando desde 1985 e em cujo centro estavam as pretensões hegemônicas do Partido dos Trabalhadores. Todavia, a desproporção entre o vasto capital intelectual mobilizado nas conferências do MASP, que abrangia fronteiras que iam desde o evasionismo de Epicuro e os trágicos gregos até as questões éticas suscitadas pelo advento dos modernos mass-media , e o tacanho propósito de destituir um mero presidente da República, sugeriu à sagacidade do prof. Olavo de Carvalho que, sob a aparência de tal desproporção, quiçá se ocultasse, em suas palavras, “ um princípio explicativo ” que os abrangesse, um e outro, como signos de causas mais remotas e mais insidiosas, sob a égide das quais se ocultava a verdadeira significação de ambos. E assim se exprime o prof. Olavo: “ Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da história, quando nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm, num esgueirar soturno, desde o fundo dos séculos ”. Ao elucidar aquele princípio explicativo, O Jardim das Aflições , no afã de revelar o fundo torvo e obscuro que jazia sob as conferências do MASP, termina por patentear, por contraste, todas aquelas idéias e verdades perenes que a aparente frivolidade dos acontecimentos, então, encobria: “ Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho, que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado, e não pela importância muita ou pouca dos fatos, locais e momentâneos, que deram ocasião e pretexto ao seu aparecimento ”; eis a substância derradeira de O Jardim das Aflições , a cuja leitura atenta remetemos o ouvinte. Palestra realizada em evento do Instituto Brasil pela Liberdade Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Doce veneno

    No filme Matrix, que já pode ser considerado um clássico do cinema, há uma cena aclamada em que o protagonista é convidado a decidir entre a verdade e a ilusão, simbolizadas respectivamente pela pílula vermelha e a azul. Caso optasse pela ilusão, Neo, o personagem principal, acordaria sem a memória de sua recente descoberta acerca da simulação em que vivia, continuando preso no mundo artificialmente construído para enganar a humanidade, entretanto, se escolhesse a verdade, ingressaria em uma guerra contra as mesmas máquinas que mantinham os humanos cativos na mencionada simulação. A escolha entre as pílulas parece a mais emblemática do longa-metragem, pois marca o pontapé inicial a trama por se tratar do momento em que o protagonista decide pela verdade, se colocando contra a ilusão que aprisiona a maior parte da humanidade. O Mito da Caverna está representado naquele ato, posto que, Neo deixa a escuridão disposto a libertar todos aqueles que ainda estão presos pela simulação. Durante o desenrolar da trama, um traidor põe todo o grupo de Neo em risco, sabotando a missão para colaborar com as máquinas, sendo um momento marcante do filme. A maioria dos espectadores considera o traidor como um indivíduo abjeto, haja vista que, se une às máquinas para ajudá-las a manter a humanidade cativa, ou seja, conspira contra sua própria espécie e aqueles que lutam pela verdade. O acordo entre o traidor e as máquinas é celebrado em uma simulação em que a figura se encontra com programas que se apresentam como agentes do sistema, assumindo feições humanas para interagirem com as pessoas no universo simulado, e, durante a reunião, o traidor saboreia um suculento bife, não ignorando que aquela bela refeição seja uma farsa, mas estando feliz por ser uma simulação mais prazerosa que a realidade em que vive. O traidor deixa claro que está consciente que a simulação o envia estímulos para que sinta o maravilhoso saber do bife, entretanto, prefere o acordo com as máquinas por perceber que a realidade não lhe ofertará uma refeição tão suculenta. Ele não escolhe entre a mentira conhecida e uma verdade que lhe será apresentada, mas entre a mentira prazerosa e a dura verdade, preferindo o caminho mais confortável. Diferente do protagonista que decide mergulhar na escuridão em nome da liberdade, o traidor prefere condenar a humanidade para viver sem sacrifício e de forma hedonista, não temendo o desconhecido, mas renunciando seu dever em troca de afagos. Em comparação ao Mito da Caverna de Platão, o protagonista de Matrix e seu grupo deixam a escuridão para se tronarem livres, mas buscam conduzir todos à luz, tentando libertar a humanidade da simulação. O traidor, por seu turno, seria um agente que, ao sair da caverna, incomodado com os ventos frios, as queimaduras provenientes dos raios solares e com as fortes chuvas, mata os demais membros de sua equipe, volta para a caverna e diz que não há saída, alegando que os outros morreram tentando e desencorajando qualquer um que queira buscar a liberdade, simplesmente por acreditar que a caverna é uma proteção e não uma prisão. Alguns indivíduos estão dispostos a acreditar que viver uma boa farsa é melhor que buscar a liberdade, delegando a outrem o destino de suas vidas, da sociedade e, talvez, de toda a humanidade. A maioria das vezes as decisões erradas partem do equívoco, uma falsa compreensão da realidade que pode ser resultado da percepção distorcida ou de uma mentira que a leva a escolher algo que, de fato, não desejavam, contudo, há quem opte pelo mal de forma consciente tão somente por presumir que se beneficia em razão de tal escolha, assumindo que a colaboração com o capeta lhe renderá um tratamento mais glamoroso no inferno, uma vez que acreditam que a ascensão das trevas é inevitável. Como aquele traidor que acreditava na vitória das máquinas sobre os homens e desejava uma vida confortável no mundo controlado por aqueles que, supunha, sairiam vencedores, aquele que acredita que o mal é uma força inevitável, aceitando servi-lo para que sua miserável vida não seja tão miserável quanto aquelas que ajudou a condenar à danação . Os que sonham em ser a elite do inferno, colaborando com a tirania, esquecem que déspotas não gozam da virtude da lealdade e, por isso, acreditam que os outros também não guardem, no caso de seus asseclas não é uma inverdade, logo, livrar-se-ão de seus mais fortes serviçais assim que tenham a oportunidade. Os expurgos provam que nem mesmo o diabo confia seus demônios, haja vista que, sua natureza é conspirar e trair. Após a queda do regime nazista, a Alemanha foi dividida em quatro blocos, ficando três deles sob a administração dos Estados Unidos da América, Reino Unido da Grã Bretanha e França, enquanto o último dos blocos ficou subordinado à, nada saudosa, União Soviética. Com o tempo, os três blocos sujeitos às nações livres se unificaram e deram origem ao país que ficou conhecido como Alemanha Ocidental ao passo que o bloco ligado ao regime soviético se autodenominou como República Democrática da Alemanha, também conhecida como Alemanha Oriental. A Alemanha Oriental, que se chamava República Democrática da Alemanha, em razão dos totalitários socialistas se autoproclamarem como democráticos para iludir os incautos, quando percebeu que era impossível se provar como alternativa melhor que o mundo livre, justamente por ser o socialismo uma farsa fadada ao fracasso, decidiu construir uma barreira para impedir que seus escravos, que chamava de cidadãos, de escolherem o regime sob o qual viver. O muro da prisão socialista foi chamado de muro antifascista, prometendo proteger os cidadãos da Alemanha Oriental das influências imperialistas do mundo livre ao passo que os mantinha cativos sob o julgo do regime nefasto. É possível compreender o quê levou os cidadãos da Alemanha Oriental a permitirem que tal muro fosse edificado, uma vez que, antes da guerra os alemães estavam sob a influência do regime nazista ou não possuírem meios de se contrapor às vontades de Moscou. Se por um lado o regime nazista incutiu no imaginário do povo alemão a mentalidade coletivista, em decorrência de sua face socialista, fazendo com que aquele povo acreditasse que o Estado fosse o caminho para a salvação e evolução humana, aqueles que perceberam que delegar poderes em demasia a tiranos era um erro, estavam sufocados pelo regime soviético, irmão daquele que o precedera na Alemanha Oriental, não tendo meio de se por sem sofrer reprimenda grave. Obviamente, a República Democrática da Alemanha fracassou com o passar dos anos e todos que não puderam antever o mal acabaram reféns de mais um nefasto regime. O chamado Muro de Berlim, que os socialistas chamaram de muro antifascista para manter a farsa que os apresentava como opositores de um sistema totalitário que, na verdade, era um desdobramento do socialismo, obteve êxito em seu objetivo ao manter os indivíduos presos na Alemanha Oriental e sua queda simbolizou a libertação daquela gente, sendo amplamente comemorada pelo povo alemão, pelo muno e simbolizando a reunificação da Alemanha, mas, agora, como um país livre. A Alemanha livre, passados poucos anos da unificação, elegeu Angela Merkel para o cargo de Chanceler, conferindo poder a uma política gerada no âmbito do único partido que governou a abjeta República Democrática da Alemanha, ou seja, o povo livre da Alemanha unificada decidiu colocar no poder uma figura que teve sua formação política no cerne da ditadura da qual, seus antepassados foram aprisionados e se esforçaram para fugir durante décadas. A maioria das pessoas se perguntaria o que motivou o povo alemão a ser tão estúpido a ponto de votar em alguém que se identificava com o regime que aprisionou gerações que os antecederam, de maneira que, é necessário avaliar o quê levou o povo a delegar poder a uma figura gestada na Alemanha Oriental, trazendo vícios daquele regime. Evidentemente, uma parcela do povo alemão era composta por militantes socialistas que se beneficiavam das políticas da Chanceler e, talvez, amassem o fracassado regime da fracassada Alemanha Oriental, entretanto, é nítido que outros tantos abraçaram tal figura por acreditarem em promessas confortáveis, a cervejinha com chucrutes, assimilando que a bondade está ligada ao assistencialismo. O resultado é nítido, a Alemanha se tornou um país com dependência energética da Rússia, tomado pelo identitarismo, adepto de causas que se intitulam ambientais e assolado pela descontrolada imigração islâmica, sofrendo grave corrosão em sua estrutura social. Ao final de seu mandato, que perdurou do ano de 2005 a 2021, seu país estava fragilizado por acolher os ideais intitulados progressistas, embora ainda seja uma rica nação, mas a prosperidade alemã é fruto da Alemanha Ocidental, sendo parasitada pela face socialista, da qual, sem dívida, Angela Merkel é parte. Merkel corroeu a Alemanha de forma gradual, introduzindo sua agenda progressista tão lentamente que a maioria do povo alemão sequer percebeu o avanço, se tornando um exemplo para outras figuras que também pretendiam, através da chamada social-democracia, destruir a cultura ocidental para impor regimes totalitários em nome de uma ideologia fracassada e nefasta. Parte daqueles que defendem as pautas progressistas decidiu, de forma consciente, abraçar sua própria destruição, adotando a postura denominada como empatia suicida, escolhendo a danação em razão da aceitação ou da demonstração de uma falsa bondade. Muitos agem contra a sua própria espécie tão somente para serem aceitos em um grupo ou seita, assumindo premissas que, em condições normais, seriam incapazes de cumprir, admitindo o absurdo para evitar o ostracismo. Um exemplo claro é o da militância feminista, que precisa se reinventar a cada colapso cognitivo, posto que, a agenda é incompatível com a realidade, sendo tais crises inevitáveis. O movimento feminista se apresenta como libertador para as mulheres, propagandeando a farsa de igualdade, entretanto, encontra sua primeira barreira quando o tratamento dispensado aos homens em uma sociedade se prova mais rígido e exigente que o dado às mulheres. O movimento feminista, de forma mentirosa, se atribuiu a conquista do voto feminino, apontando como uma conquista das mulheres e uma vitória sobre a hegemonia política dos homens, ao passo que ignora a participação dos homens no processo de universalização dos votos. Por outro lado, apesar de as mulheres adquirirem o mesmo poder de voto que os homens, estas nunca pediram o dever de se somarem às forças de defesa em caso de guerra, de forma que, no momento de escolha dos rumos a qual sua nação seguirá, as vozes de homens e mulheres se igualam, mas, se preciso for, ao enfrentar as consequências de suas escolhas, os homens deverão se entrincheirar ao passo que às mulheres será facultado mesmo destino. Na guerra da Ucrânia, como exemplo, homens e mulheres tiveram o mesmo poder no momento de escolherem seus governantes, mas quando a ditadura de Putin decidiu avançar sobre as terras ucranianas, os homens não puderam deixar o país e poucas foram as mulheres que se somaram às forças de defesa. Não estamos defendendo a obrigatoriedade de mulheres em frentes de batalha ou a retirada de seu direito ao voto, mas que as mulheres tenham consciência de que seus irmãos, maridos e filhos poderão enfrentar uma guerra em razão daquilo que escolhem ao votar, um pensamento que não será levado em consideração por integrantes de um movimento que desprezam os homens. Por seu turno, o movimento feminista deveria, por obrigação moral, defender que mulheres fossem tratadas da mesma forma que homens em momentos de guerra, mas movimentos identitários não possuem consciência, tornando fácil para o movimento superar tal obstáculo ao fugir do tema. Em uma segunda reviravolta, o movimento feminista, que é um dos tentáculos do progressismo, se viu em confronto com o movimento transexual, haja vista que mulheres de verdade viam homens que se declaravam como mulheres tomando seus espaços nos esportes, nos banheiros e em qualquer lugar criado especialmente para mulheres, mas o colapso precisava ser superado em nome da vassalagem aos senhores da revolução, surgindo uma nova onda no movimento feminista, remendando mais uma fez a figura moribunda em razão de mais um choque de realidade, e, sem o menor pudor, as feministas da nova onda argumentam que mulheres trans, mesmo mantendo órgãos genitais masculinos, são mulheres reais e, por tal razão, podem ocupar espaços femininos sem qualquer problema, mesmo que, nitidamente, tenham vantagem. A autora da série Harry Potter, J. K. Rowling se tornou alvo dos grupos identitários quando se recusou a reconhecer que homens possam, ao alegar serem mulheres, ocupar espaços destinados à pessoa do sexo feminino. Mesmo sendo feminista declarada, foi rapidamente ostracizada e atacada, tendo em vista que sua posição contrariar os interesses dos líderes progressistas. A loucura avançou e mulheres lésbicas do Reino Unido foram apontadas como transfóbicas por se recusarem a ter relações sexuais com homens que se diziam mulheres, o quê fez com quê algumas até permitisse, segundo elas, contra a vontade que a relação fosse consumada. A submissão à seita foi tamanha que elas se sujeitaram a relações heterossexuais apesar de afirmarem não serem adeptas de tais práticas. Algo que nos faz questionar se a própria condição de lésbica não seria uma forma de pertencer ao grupo e não uma escolha consciente e livre. Os grupos identitários negam qualquer fato que aponte contra sua narrativa e, por isso, tentam rotular qualquer assassinato de homossexuais, mulheres e negros como ações motivadas por ódio ao arquétipo do grupo, buscando apagar qualquer outra causa que não sirva ao discurso, chegando a dizer que forças de segurança matam negros nas comunidades ao passo que escondem os motivos de tais mortes, quase sempre uma ação em legítima defesa contra membros de organizações criminosas. A operação desencadeada no Complexo do Alemão que resultou na morte de quatro policiais e cento e vinte supostos infratores foi alvo de acusações que apontavam para a insanidade, por enquanto, do racismo estrutural e que as forças de segurança teriam promovido o extermínio de pessoas negras, mas a fileira montada por indivíduos mortos seminus apresentava uma minoria de negros, restando evidente que não havia tal motivação por parte dos agentes da lei. Como não podemos questionar a ação daqueles que montaram aquele cenário, nem mesmo a polícia está autorizada a investigar, nos resta constatar que os falsos acusadores também não serão responsabilizados por afirmarem que os agentes de segurança agiram com o fim de exterminar negros. A ausência de estatísticas em relação aos crimes domésticos vitimando homens e a presunção de crime de ódio contra minorias são outros fatores que alimentam falsas narrativas e, gradualmente, permitem que as pautas identitárias avancem. As feministas e o ativismo autodenominado LGBT e outras tantas letras, em sinal de total subserviência à revolução, passaram a defender grupos como o Hamas e a imigração indiscriminada de indivíduos cuja fé professada deveria causar temor em tais grupos, mas o objetivo central é a corrosão da sociedade ocidental e para tal fim, os grupos identitários estão dispostos a se aliar às forças nefastas, capazes de destruir seus próprios membros, como adeptos do islamismo ou governos autoritários como dos da Rússia e da China. Uma parte, um pouco mais lúcida, do ativismo identitário que compreende gays, lésbicas e bissexuais, tem buscado se descolar dos demais integrantes do ativismo LGBT, buscando uma cisão em relação aos transexuais e a infinidade de denominações que completam a sopa de letras, por perceberem que o avanço de grupos cuja identidade pode causar mal a terceiros e manchar aquilo que acreditam ser uma luta justa, pois estão enganados. É evidente que muitos se associaram ao ativismo por olharem somente a fachada, não percebendo que estavam sendo cooptados para as fileiras da revolução e que serão usados como carne de canhão assim que necessário por seus próprios líderes. Não por acaso o ativismo negro, que nega racismo contra brancos, cada vez mais incentiva o ódio aos brancos, como o feminismo faz com homens e os LGBT fazem com heterossexuais, colocando, de forma mentirosa, como opressores para justificar que sejam alvos de quaisquer ataques, ainda que ultrapassem o aceitável. Recentemente, a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, publicou um artigo intitulado “Depois de superar o golpismo, Brasil precisa enfrentar a falta de limites do Supremo”, no qual aponta o quê, segundo a autora, seriam diversas irregularidades nos processos envolvendo o ex-Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, seus aliados e apoiadores, deixando evidente que o julgamento, segundo a ótica da articulista, foi uma situação excepcional para combater aquilo que se convencionou chamar de “trama golpista”. Estaria o Brasil, se interpretado o artigo de forma correta, diante de um Estado autoritário que lançou mão de um tribunal de exceção para atingir seus objetivos, mas não deveríamos manter tais arroubos, posto que a meta de extirpar uma corrente política fora alcançada com sucesso. Em síntese, a autora do artigo sugere que para derrotar o bolsonarismo tudo era válido e que o devido processo legal poderia ser violado, mas agora, que o indesejado líder de direita foi preso pelo regime, que ela trata como de exceção, não mais se justificam as ilegalidades outrora praticadas. Lembra muito da censura, que não deveria ser permitida em nenhuma hipótese, mas que era necessária para garantir o pleito eleitoral. O artigo do O Globo nos faz questionar se a jornalista e tantos outros, não aceitaram conscientemente aquilo que consideram violações tão somente por odiarem o que Jair Bolsonaro representava, mas que sabiam serem medidas que em uma sociedade livre e saudável, não podem ser admitidas em nenhuma hipótese. Assim sendo, a jornalista e outros que adularam os arroubos de uma tribunal de exceção para que a corrente política a qual não comungam fosse destruída, mesmo cientes das ilegalidades. A mesma linha de pensamento justificaria os campos de concentração nos regimes nazista e socialistas, bem como, ações consideradas pérfidas para prender opositores, agindo em clandestinidade ou enganação para que seus objetivos sejam alcançados. Por óbvio que o espectro que defende o socialismo e enaltece os guerrilheiros socialistas latino-americanos que, financiados e coordenados pela extinta União Soviética, buscaram tomar o poder a todo custo e gestaram a narcoguerrilha socialista que hoje assola toda a América Latina. Tal possibilidade explicaria a empatia demonstrada por aqueles com inclinações progressistas em relação às organizações narcoterroristas ou narcossocialistas, haja vista que, os fins justificam os meios e se a guerrilha for a única forma dos socialistas se manterem no poder, será apenas mais uma atrocidade tolerada em nome da vitória da revolução, que eles ousam dizer que é em nome da democracia. Os jornalistas e juristas aceitaram tomar um veneno tão doce que acreditavam só mataria aqueles que se opunham as suas ideias, acreditando que não lhes faria mal beber algo tão perigoso. A chamada empatia suicida chegou às redações e aos movimentos progressistas de tal forma que o doce veneno é bebido como se fosse cerveja na oktoberfest, deixando evidente que não aprenderam com a história assim como os alemães que elegeram Angela Merkel após anos de socialismo terem destruído a Alemanha Oriental. Talvez seja tarde demais para frear aquilo que os jornalistas, agora apontam como um tribunal poderoso demais, mas, sem dúvida, aqueles que apoiaram as alegadas violações escolheram de forma consciente, por paixão ao demônio, delegar poderes absolutos à quem estivesse disposto a enfrentar aqueles que os revolucionários do baixo clero desprezavam. Aos que ousarem abrir os olhos, saibam que a tirania não aceitará criticas e prefere destruir traidores a inimigos. Como disse um jornalista, vassalo do regime, em tom ameaçador aos colegas que desejam o fim dos arroubos totalitários, “quando você olha para o abismo, o abismo olha para você”, sugerindo que, aquele que confrontar as trevas, por elas serão confrontados. Que a história sirva de lição e que a humanidade compreenda que nenhum homem é infalível e, por tal motivo, não deve ter poderes absolutos. “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira” (Legião Urbana/ Quase sem querer). Leia o artigo: Meu adorável imbecil Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. IV N.º 60 edição de Novembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • O Narcisismo

    O Narcisismo como Fenômeno Social e Pecado Espiritual A contemporaneidade é marcada por uma cultura que exalta a imagem, recompensa a autopromoção e legitima comportamentos centrados no ego. Esse cenário favorece o surgimento de indivíduos que transformam o “eu” em centro absoluto da vida, configurando o narcisismo não apenas como um traço psicológico, mas como uma distorção espiritual. À luz das Escrituras, tal postura é identificada como pecado, pois substitui a centralidade de Deus pela idolatria do próprio ego. O apóstolo Paulo já advertia em 2 Timóteo 3, 2-4 que os homens seriam “egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, inconsequentes, orgulhosos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus.” Essa descrição revela a essência do narcisismo e sua incompatibilidade com a vida cristã. Na esfera social, o narcisismo manifesta-se em diferentes formas. O narcisismo grandioso caracteriza-se pela busca de poder e superioridade, enquanto o narcisismo vulnerável revela indivíduos dependentes da validação externa, manipulando os outros para sustentar sua autoestima. Há ainda o narcisismo coletivo, presente em grupos ou instituições que se colocam como detentores exclusivos da verdade, reforçando a ideia de superioridade em relação aos demais. As redes sociais intensificam esse fenômeno, transformando a vida em espetáculo permanente. Curtidas e seguidores tornam-se moeda de valor, criando uma cultura de idolatria da imagem. O livro de Provérbios 16:18 adverte: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” A sociedade que exalta o ego caminha, inevitavelmente, para a ruína. O perigo se torna ainda mais evidente quando o narcisismo ocupa posições de liderança. Na política, líderes narcisistas confundem autoconfiança com competência e utilizam o prestígio público para alimentar sua própria imagem. O poder, nesse contexto, deixa de ser instrumento de transformação coletiva e passa a ser palco de vaidade pessoal, ameaçando a democracia e o bem comum. Na igreja, o risco é igualmente alarmante. Líderes carismáticos podem transformar o púlpito em espaço de autopromoção, desviando a fé da comunidade para a idolatria de sua própria figura. Tal prática é pecaminosa, pois substitui Cristo pelo homem. Jesus advertiu em Mateus 23, 12: “Pois todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar será exaltado.” Exemplos Bíblicos A Escritura apresenta exemplos claros da queda provocada pelo orgulho e pela vaidade: - Lúcifer, que desejou colocar-se acima de Deus, foi expulso dos céus (Isaías 14, 12-15). - Nabucodonosor, rei da Babilônia, exaltou-se em sua glória e foi humilhado por Deus, vivendo como animal até reconhecer a soberania divina (Daniel 4, 30-37). - Os fariseus, líderes religiosos da época de Jesus, buscavam reconhecimento público e prestígio espiritual, mas foram denunciados pelo Senhor como hipócritas (Mateus 23). Esses relatos demonstram que o narcisismo não é apenas uma falha humana, mas um pecado que conduz à idolatria do ego e à rejeição da vontade divina. O narcisismo, legitimado pela sociedade, pela política e até mesmo pela religião, constitui uma ameaça coletiva. Ele destrói relacionamentos, corrompe instituições e desvia corações de Deus. É urgente denunciá-lo e alertar para seus perigos, lembrando que a verdadeira grandeza está na humildade e no serviço. O apóstolo Paulo exorta em Filipenses 2, 3: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.” E João Batista declara em João 3, 30: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua.” Somente ao reconhecer o narcisismo como pecado e combatê-lo com humildade, serviço e amor será possível restaurar os valores que sustentam tanto a convivência social quanto a vida espiritual. Leia: Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. IV N.º 60 edição de Novembro de 2025 – ISSN 2764-3867

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