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  • Escolham suas armas e deixe seu legado!!

    Nesta Edição, quero trazer um paralelo entre duas pessoas, dois contextos de vida semelhantes, negros, pobres escravizados, filhos de escravizados, numa época em que o preconceito e o racismo eram dominantes em várias linhas da sociedade; porém fizeram escolhas diferentes de vida. Antes que digam que é a exceção, há muitos outros (centenas) que eu poderia trazer para este paralelo, mas uma pequena pesquisa na Internet já responderia que de fato: A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS!! Luiz Gonzaga Pinto da Gama, nasceu em 21/06/1830 em Salvador - Bahia Filho de um homem branco com uma mulher negra, sua mãe desapareceu após o envolvimento com algumas revoltas, seu pai o vendeu como escravo aos 10 anos para pagar dívidas. José Francisco dos Santos, nasceu em Salvador- Bahia, 4/10/1771, Filho de pai branco e mãe indígena. Foi genro de José Francisco dos Santos, africano e um dos homens mais ricos do seu tempo escolheu ser traficante de escravos após largar a carreira de alfaiate tornando-se um dos maiores traficantes transatlântico de escravos da história. Duas vidas que participaram de um mesmo contexto social, sombrio e desumano: A escravidão. Ambos inteligentes, esforçados, trabalhadores, cheios de qualidades e parte de uma classe social segregada, Porém diante de uma oportunidade de escolha tomaram decisões que os levaram a caminhos totalmente opostos. Zé alfaiate como era conhecido, após conquistar sua liberdade com esforço próprio decide então usar seu prestígio para entrar no mercado de tráfico de seres humanos escravizados. Já Luiz Gama, escolheu dedicar-se à alforria daqueles que como ele sofrera, sofriam as mazelas da escravidão. Atuando como Rábula, (advogado sem diploma acadêmico) entregou sua vida de forma voluntária a este nobre propósito: Libertar seres humanos das garras da escravidão; obtendo sucesso em mais de 500 casos. Ao contrário de Zé alfaiate lutou de forma ferrenha e heroica contra os escravagistas que tornaram-se seus inimigos mortais. Zé alfaiate, vendo de perto o berço da terra que promoveu tamanha desumanidade, não escolheu repelir, mas juntou-se a eles inspirado por outros que também foram pelo mesmo caminho como, Francisco Paulo de Almeida o barão de Guaraciaba e Joaquim Pereira Marinho. Ele, Zé alfaiate, tornou-se um dos homens mais ricos do mundo, já que tornou-se genro de Francisco Félix de Souza, o maior traficante de escravos da África. A pergunta que fica é: Qual o elemento que diferenciou a escolha de cada um desses personagens da história, mesmo vivendo contextos tão semelhantes? Seja como for, o que fica provado é que pode-se fazer escolhas acertadas mesmo em meio a tantos momentos extremamente desfavoráveis da vida, com certeza os valores cristãos que Luiz Gama teve contato podem ter feito toda a diferença, já que José Francisco, talvez não tivesse uma educação com base em quaisquer valores que promovesse o humanismo. Zé alfaiate morreu em idade avançada, 94 anos, como um dos homens mais ricos do seu tempo, deixou 53 viúvas, 80 filhos e 12 mil escravos, com tudo não parecia ter uma família; até hoje seus descendentes vivem da riqueza de sua fortuna deixada no Benin, antigo reino de Daomé. Já Luiz Gama, morreu ainda jovem, aos 52 anos, não deixou fortuna( material),mas tinha sua família, inspirou grandes nomes da história abolicionista e geral do Brasil, como os irmãos André e Antônio Rebouças que inauguraram uma nova era da infraestrutura do Brasil. Como engenheiros foram responsáveis por obras como as docas D. Pedro Segundo, a alfândega e a estrada de ferro Coritiba X porto de Paranaguá; todas feitas e inauguradas com uma condição inegociável: Mão de obra livre e assalariada. Pois bem, escolham as armas!! Pois a luta pelos valores humanos é certa, heroica e incansável…Nesse campo de batalha as armas farão toda a diferença pois o bem sempre vence o mal. Que Deus abençoe nossa jornada!! Leia também: Um mundo novo e melhor chegará, se… Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Amizade ou perseguições

    A Copa do Mundo de futebol se aproxima, portanto, nada mais justo que começar tratando de um esporte que envolve tanta paixão, em que torcedores se conectam ou se rivalizam sob os bandeiras de suas nações e escudos de seus clubes, usando as cores estampadas em suas camisas como marcadores de suas tribos. Não nos dobraremos à barbárie das falanges doentias que transformam o esporte em um espetáculo doentio de agressões, de maneira que, ignoraremos as facções denominadas torcidas organizadas por não serem o objeto de reflexão no momento e pelo desprezo moral que merecem. Uma nação que se destaca em campo é, sem dúvida alguma, a Alemanha, sua seleção tetracampeã mundial, tendo erguido a taça três vezes antes da unificação do país e a última na década passada. A Alemanha se sagrou vencedora da competição pela última vez no Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, nome do bairro que abriga o anfiteatro, vencendo a seleção da Argentina, coincidentemente, repetindo o confronto de seu título anterior. O Maracanã, construído para receber a Copa do Mundo de 1950, foi palco, naquele evento, da conquista uruguaia sobre a seleção brasileira, mas foi a Alemanha quem, sessenta e quatro anos depois, privara o Brasil de retornar ao palco da segunda final da Copa do Mundo em seu território, derrotando a seleção canarinho na capital mineira no jogo anterior, o traumático sete a um, em que a aspirante ao quarto título arrasou a nação que se orgulha de seus inigualáveis cinco campeonatos em suas terras. Em um momento que o Brasil se via corroído pela corrupção e os templos erguidos para o evento, muitos deles sem qualquer justificativa, eram símbolos evidentes de tão corrosão, a derrota significava mais que apenas uma acachapante humilhação, mas a frustração daqueles que esperavam uma alegria que, de alguma forma, aplacasse em suas mentes fúteis a dor da expropriação. Não bastasse os abusos perpetrados pelos detentores do poder e a flagrante malversação dos recursos, o orgasmo prometido não veio e aquilo que para muitos era um investimento cujo único resultado seria um momento de prazer, tornou-se uma derrota cara e humilhante. Se aquela Copa do Mundo trouxe alguma felicidade a alguns brasileiros, provavelmente foram os amigos dos poderosos que se banquetearam em obras faraônicas, propagandas, direitos de transmissão e camarotes suntuosos. Ao povo restou o trauma da derrota e o “direito” de pagar pela conta de uma fez que lhe foi importa. Voltando à Alemanha, não há como tratar da Copa do Mundo no Brasil sem mencionar a torpeza dos que estavam no controle durante aquele episódio, em especial por ainda darem as cartas, a seleção do país europeu cumpriu seu papel e, desfilando com um segundo uniforme que fazia alusão ao clube de maior torcida no país anfitrião, conquistou a simpatia do povo até o momento que atropelou a seleção brasileira. Ao final, a Alemanha vencera a seleção argentina e se sagrou tetracampeã mundial. O merecido título não se configura obra do acaso, posto que, tal país tem uma tradição no mundo do futebol, ostentando, junto à Itália, a segunda maior coleção de conquistas de mundial, atrás somente do Brasil. Não é difícil deduzir que há uma base que sustente o futebol alemão, logo, cabe avaliar se há, naquele país, um campeonato nacional ou clubes competitivos, algo que, para aqueles que acompanham, ainda que à distância tal esporte, leva a conclusão óbvia que, de fato, o campeonato alemão é consideravelmente estruturado e que existem clubes que são competitivos naquele país, podendo ser rivais difíceis e, até mesmo, temidos em um cenário internacional. Alguns leitores já imaginaram como exemplo o tradicional e competitivo Bayern de Munique (Bayern Müchen), um clube da capital da Baviera, fundado em 1900, carregando o nome de sua região e cidade respectivamente. O gigante de vermelho é considerado como a maior referência do futebol alemão, o franco favorito dentro de suas fronteiras e um respeitado adversário de respeito para qualquer outro grande clube de futebol em qualquer lugar do globo. Mas a história do clube bávaro não é tão simples quanto parece, pois o Bayern de Munique vivenciaria um dos episódios mais marcantes de seu país e do mundo, uma vez que, fundado no último ano do século XIX, passaria pela ascensão e queda do regime nazista. Quando o nacional-socialismo chegou ao poder, diferentemente da maioria dos clubes, o Bayern de Munique não se alinhou ao regime, posto que, possuía forte liderança judaica e tinha como Presidente o judeu Kurt Landauer, que renunciou em 1933. O próprio Adolf Hitler se referia ao Bayern como um clube de judeus (judenklub) e, obviamente, o regime nazista marginalizou o clube, reduzindo até seus recursos e impondo o uso da suástica em seu uniforme. O Bayern de Munique, que havia conquistado seu primeiro título nacional em 1932, só voltaria a erguer a taça da Bundesliga (campeonato alemão) em 1969, evidenciando o quão nocivo o regime do Terceiro Reich fora para o clube, sendo necessários vinte e quatro anos para sua total recuperação e triunfo. O Bayern de Munique se opôs ao regime autoritário que controlou a Alemanha e, apesar de perseguições, sobreviveu, superando o período do nazismo e seguindo em frente, sendo atualmente considerado o maior clube de futebol alemão. Não há como ignorar a história de superação do Bayern de Munique que, confrontou o regime revolucionário e preferiu a marginalização à submissão. Por outro lado, não podemos ignorar as quase quatro décadas que afastaram o clube do título do campeonato alemão, destacando que enfrentar o mal pode ser pesaroso e um exercício de paciência. Regimes totalitários tendem a usar subterfúgios para perseguir aqueles que se opõem ou, simplesmente, se negam a alimentá-lo, ao passo que agraciam seus aliados como forma de corromper ou compensar pelos préstimos. Assim como aqueles que se regozijavam nos camarotes do mundial de 2014, os parceiros Terceiro Reich gozavam de benefícios em troca de sua colaboração e vassalagem, tornando-se privilegiados desde que associados e subservientes ao regime autoritário. Com o fim de impor seu totalitarismo sobre os cidadãos, regimes autoritários tendem a cooptar apoio e perseguir qualquer um que não se curve a suas intenções. Além do objetivo imediato, que é destruir que se oponha, o regime busca intimidar quaisquer outros que cogitem não seguir sua cartinha, portanto, a perseguição deve ocorrer de forma explícita, para que exerça um efeito pedagógico intimidador aos que, mesmo inconformados, observem os açoites covardes sem que tenham forças para reagir. O nacional-socialismo parece ter compreendido que a centralização da atividade econômica seria um erro, tendo em vista ser o planejamento central incapaz de cuidar de todas as demandas econômicas e procurar brechas para o desenvolvimento. O indivíduo procura ascender atendendo a um anseio, oferecendo algo que não estava antes disponível ou em melhores condições. A concorrência faz com que a economia seja viva e a necessidade é o motor da invenção. O Estado é incapaz de preencher as lacunas e antever os anseios, algo que o socialista mais ferrenho negará até a última instância. O regime nazista, percebendo tal falha, preferiu se associar à iniciativa privada, permitindo certa liberdade econômica, desde que o empreendedor fosse um aliado do regime. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas resistiu a ideia de descentralização, para muitos, tal erro resultou no Holodomor. Creio ser injusto tratar como erro, quando a fome parece um método de coerção. A China, que também experimentou grande miséria, adotou o sistema metacapitalista, no qual as instituições privadas gozem de certa liberdade, mas precisam servir aos interesses do regime. Não por acaso, um dos maiores empresários daquele país, após um inusitado desaparecimento, voltou a público sem disposição para desafiar o governo chinês. A política de campeãs nacionais segue os mesmos padrões chinês, bem como, do regime nazista. Incentivando os amigos do governo, causando um desequilíbrio na economia que só será percebido após anos, posto que, sendo aliadas do regime, as campeãs nacionais tendem aos abusos face a concorrência e, em um segundo momento, contra consumidores e fornecedores. Por outro prisma, aquele que se opuser ao regime ou for obstáculo para sua parceira, correrá o risco de forte retaliações. Não por acaso as punições de natureza política tendem a ser mais degradantes e duradouras que as reservadas às condutas consideradas abjetas pela sociedade, mantendo manifestantes que sequer tinham meios para derrubar um regime autoritário em cárcere por período análogo aos aplicados a crimes realmente nefastos, além da especial preocupação para que não gozem de benefícios deferidos a verdadeiros facínoras. Imaginemos a hipótese em que um ex-deputado, em uma ditadura socialista, preso por opinião tivesse de cumprir o regime semiaberto da pena a ele, absurdamente, aplicada em um local conforme o descrito em lei, todavia, em diversos casos criminosos violentos ou integrantes de organizações que cumprem tal regime, naquele mesmo país hipotético, o fazem em quase liberdade. Não podemos ignorar que, para tal inimigo do regime, mesmo medidas constitucionais como a graça concedida pela autoridade competente poderia ser ignorada, tão somente para que tal parlamentar sirva de exemplo aos demais congressistas e cidadãos. Não tendo um exemplo real, decidi chamar o deputado hipotético pela alcunha de Daniel, referindo-me ao personagem bíblico que esteve aprisionado na cova dos leões, uma mera alusão sem qualquer relação com a realidade. Daniel, no exemplo hipotético, teria expressado sua revolta contra uma decisão de um conselho que parecia proteger organizações criminosas que ceifavam vidas de inocentes e de policiais, em razão da morte de um agente de segurança. As afirmações de Daniel resultariam em uma ação persecutória por parte de um regime que não admite ser questionado, em que pese a decisão, a qual Daniel fazia uma dura critica, pudesse parecer que o conselho protegia os criminosos dos mais perigosos. Ao final, o fictício parlamentar Daniel ficaria preso e a ditadura socialista lutando para que outra nação não combata os criminosos outrora protegidos pela decisão, mesmo sendo afetada pelas ações dos infratores. No exemplo hipotético Daniel seria reconhecido por ter alertado quanto ao erro e seus algozes se desculparia, ou, recompensado por sua coragem e os tiranos que o encarceraram punidos de forma exemplar. Um regime tirano não tolera quaisquer resistências, perseguindo e punindo aquele que considera como opositor, como os nazistas fizeram com o Bayern de Munique e nossa nação fictícia com Daniel. Os abusos não conhecem limites, posto que, o autoritarismo se agrava como autopreservação, tendo em mente que tiranos tornar-se-ão cada vez mais tiranos para que não sofram as consequências de seus atos. Um vilão precisa morrer no poder ou pagar pelo mal que causara aos outros. De um fabricante de material de limpeza aos que doaram para opositores, passando por jornalistas e varejistas, o regime não verá com bons olhos qualquer um que não lhe jure vassalagem e usara de meios escusos para atacá-los, logo, no imaginário dos tiranos, os demais curvar-se-ão à sua autoridade, entrementes, a essência dos vilões é ignorar que a natureza humana fará com que alguns se tornem ainda mais resistentes, surgindo mártires que sacrificar-se-ão pelos outros, como o hipotético parlamentar Daniel, ou mesmo, os que enfrentarão o regime pacientemente, como fizera o Bayren de Munique. Ao final, os que se sujeitaram aos desmandos dos tiranos terão de prestar contas e assumir que estavam errados ou foram fracos demais para resistir. Ao passo que, a aqueles que conservaram sua honra caberá reconstruir sobre os escombros deixados pelos malfeitores e seguir em frente, como fizera o clube bávaro e, caso nossa hipótese fosse real, o deputado Daniel. Aos amigos do regime, que se banquetearam diante da desgraça alheia, sejam eles grandes produtores de alimentos e fármacos, instituições financeiras, empresas de mídia ou criminosos, que sejam responsabilizados por suas ações junto aos tiranos que tanto serviram. Que a tocante história do Bayern de Munique, que é de tantos outros que sobrevivem apesar da perseguição sirva de inspiração aos que conservam sua dignidade e não se deixarão dobrar pela força dos tiranos, tampouco se corromper por agrados ou pela embriaguez do poder na doentia festa dos guardanapos patrocinada pelas vítimas do regime. Leia o artigo: A lei e os nobres Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867

  • A vida comum do lar

    “Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento…” (1º Pedro 3.7a). Quando surge a pergunta “Qual o seu apóstolo preferido?”, eu sempre respondo que é Pedro. Creio que temos o mesmo temperamento, o sanguíneo: impulsivos, animados, necessitados de atenção. Mas, quando o sanguíneo assenta a cabeça, reflete e analisa, consegue realizar proezas. E quando este tem como objetivo servir a Nosso Senhor Jesus Cristo, possui a direção do Alto para orientar aos demais. A Bíblia diz que Pedro tinha sogra, logo, era casado. Como homem nessa condição, poderia auxiliar a outros. Sendo servo de Cristo, cumpriria sua função com maestria. E assim, para orientar sobre o casamento, ele fala sobre algo que hoje a maioria foge: a vida comum do lar. Penso que, se Pedro escrevesse essas linhas hoje, não iria se dirigir somente a homens neste contexto, isso porque muitas mulheres também abandonaram o lar. Contudo, é importante destacar que vida “do lar” não é vida “da casa”. São ambientes distintos. Muitos estão “em casa”, fisicamente, mas a alma se foi há tempos. O corpo está presente, mas não interagem, não conhecem o cônjuge, os filhos, a rotina, nada. Cumprem as obrigações domésticas esquecendo da presença. Levam o dinheiro para casa, mas deixam o carinho pelo caminho. E assim, permanecem em casa, mas não no lar. Via de regra, os homens tendem a “sair do lar” mediante aos vícios. Porém, não trato aqui somente de jogos de azar ou pornografia, e sim de quando o vício se inicia em algo lícito. Hoje existem centenas de coachs especializados em “riqueza”, que vendem cursos de como “prosperar” por meio da internet, que ensinam a como realizar investimentos sem sair de casa. Isso fez com que muitos pensassem que enriquecer seria uma ótima forma de ser provedor. Então, gastam tempo na frente de uma tela analisando projeções, realizando investimentos, e isso por 14, 16, 18 horas por dia – ou mais – esquecendo-se de que dinheiro, por si só, não traz a verdadeira realização. Outros decidiram adentrar no universo fitness, mas não para cuidar da saúde. A internet possibilitou que os “marombeiros” fossem idolatrados como homens viris, másculos e que podem conquistar todas as mulheres com seus traços definidos. Então, ocupam a cabeça e o tempo com dietas intermináveis e exercícios ad aeternum. O “disco” não muda. Até mesmo uma vida intelectual, se não for bem regrada, pode tornar-se um vício letal. O padre Antonin-Dalmace Sertillanges, em sua célebre obra “A vida intelectual”, deixou o seguinte conselho: “...duas horas por dia bastam para uma obra (…) preenchidas todas as condições, isso de fato basta e vale mais que as pretensas quinze horas de que tantos tagarelas se vangloriam”. E mais: “O que mais importa na vida não são os conhecimentos, é o caráter; e o caráter estaria ameaçado se o homem estivesse, por assim dizer, oprimido pela rocha de Sisifo”. Em todo o livro, Sertillanges alerta para o fato de o aspirante a uma vida intelectual se envaidecer, chegando a desprezar a realidade ao seu redor e até mesmo sua família. O sacerdote alerta: “O necessário, a todo momento, é estar onde se deve e fazer o que importa”. Para as mulheres, a “isca” é outra. As redes sociais trouxeram o universo “instagramável”, com influenciadoras vendendo um mundo artificial, vida social badalada, viagens, desapego aos relacionamentos. E seguidoras com a mente enfraquecida acabam por “sair do lar”, sentindo-se frustradas porque suas vidas são “ordinárias”. Quando denomino “vida ordinária”, não falo com desdém, pelo contrário; me refiro com o mesmo sentido que a Bíblia trata de “comum”. O brilho da rotina artificial, criada para ganhar visualizações e curtidas, tenta ofuscar a realidade: nem tudo será “extraordinário” todo dia. As novelas, em especial, os doramas, também cumprem o papel de afastar a mulher “do lar”. Quantas não são aquelas que rejeitaram seus maridos por eles não se comportarem como um coreano roteirizado? Fico perplexa em ver que muitas se iludem pensando que orientais são exatamente como nesses produtos vendidos por plataformas de streaming. E, ao se atraírem por esse tipo de estereótipo, acabam por rejeitar homens bons por estes não se adequarem ao rótulo plastificado. Quem foi que vendeu essa ideia de que um bom homem ficará nos adulando 24 horas por dia? Quem criou essa mentira de que, para ser o homem ideal, o sujeito deve escrever cartas, dar flores todos os dias e todas essas coisas? Isso são coisas “extraordinárias”, que são realizadas de forma esporádica. Contudo, a “vida comum” é bem diferente. A vida comum do lar possui itens não muito confortáveis: louça para lavar, cuecas sujas, fraldas, criança chorando, bagunça pela casa, marido perguntando “cadê meu serrote?”, esposa dizendo “menino, tira o dedo da tomada”. Espero ter tirado algum riso do leitor com este exemplo, mas esta é a vida real, esta é a vida! Podemos ajustar algumas coisas para melhorar nossa rotina, entretanto, a realidade é melhor que temos. Eu, particularmente, possuo algumas frustrações: com 37 anos, completados em abril, nunca ganhei flores, nunca fui tirada para dançar, nunca o Sérgio Mallandro veio em um cavalo-branco para me resgatar (somente os mais velhos farão a conexão e rir deveras com esse trecho). Mas tenho minha rotina: acordo, falo com Deus, levo meu filho à escola, trabalho, cuido do meu canal, lavo, passo, cozinho, limpo minha estante de livros. E essa rotina é o que me salva. Sim, a rotina de todos os dias nos salva de nós mesmos. A rotina revela quem somos e o que podemos fazer para melhorar. Já o mundo de plástico nos faz perseguir um “mundo ideal”, semelhante ao vendido pelo socialismo, que nunca há de chegar e que nos faz ter a alma amarga. A vida comum do lar não precisa ser monótona, só precisa ser real. Leia o artigo: Estudando o Fascismo Parte 1 – A origem Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867

  • DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA

    A história humana pode ser lida como a lenta formação de três ideias que parecem contemporâneas, mas que na verdade pertencem às camadas mais profundas da experiência da espécie: Deus, Pátria e Família. Não são invenções modernas, nem construções arbitrárias erguidas pelo conservadorismo, tampouco meros slogans ideológicos. São símbolos antigos, que emergem muito antes de qualquer articulação política e atravessam milênios como respostas humanas à própria condição de existir. Cada um deles, à sua maneira, nasce de uma necessidade antropológica: a busca pelo sentido, pela identidade, por pertencimento e pela continuidade. A experiência do divino acompanha o Homo sapiens desde muito antes da escrita. Quando hoje, no Ocidente, falamos “Deus”, quase sempre nos referimos ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, fruto de uma tradição teológica específica: a tradição judaico-cristã. Mas a ideia de uma realidade superior, ordenadora, invisível e transcendente antecede as religiões monoteístas por dezenas de milhares de anos. Mesmo povos que jamais tiveram contato com o pensamento hebreu-nômade desenvolveram noções de divindade, espírito, força vital ou inteligência cósmica. O que permanece, através de todos os tempos e culturas, é o impulso humano para além da visibilidade — a inquietação que Platão nomeou como a consciência de um mundo que não se reduz ao sensível. Há em nós uma inclinação para perguntar pelo que ultrapassa a matéria — seja esse além chamado Deus, deuses, absoluto, Espírito, realidade última ou simplesmente mistério. É esse mesmo impulso que transparece no mito do Gênesis, quando a serpente diz à mulher: “certamente não morrereis… sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”. Essa passagem milenar, simbolicamente lida, não descreve um desejo trivial de poder, mas a tentação de romper a própria condição humana, de assumir para si a prerrogativa de determinar o que é o bem e o mal, o sentido e o destino, o limite e o ilimitado. Em outras palavras, desde nossos primórdios carregamos o desejo de transcendência e, ao mesmo tempo, a pretensão de controlar aquilo que transcende. A humanidade se move entre a humildade de buscar o sentido e a soberba de desejar ser o próprio criador do sentido. Essa dialética — busca e controle — também está presente na formação das comunidades políticas. A “pátria”, entendida como pertencimento a um corpo coletivo reconhecível, não é um produto da modernidade. Cidades-Estado sumérias, como Eridu, Uruk ou Lagash, não usavam o conceito contemporâneo de “nação”, mas viviam as práticas que mais tarde seriam reconhecidas como seus equivalentes: lealdade a uma terra, a uma língua, a um templo, a um governante, a uma memória comum. A ausência da palavra não implica ausência da experiência. Se o cidadão sumério não dizia “sou de um país”, vivia, porém, uma forma ancestral de pátria: sua cidade era seu mundo, sua identidade, seu cosmos social. A pátria nasce da comparação entre coletividades; surge quando se percebe que “nós” somos distintos de “eles”, e que as diferenças — religiosas, linguísticas, genealógicas — formam um campo comum que merece ser preservado. O que chamamos hoje de nação é apenas uma ampliação, em escala histórica, de uma tendência humana primitiva: unir-se a semelhantes para garantir ordem e continuidade. Também a família, frequentemente tratada como construção histórica contingente, é na verdade uma instituição com raízes pré-históricas. Muito antes do Estado, muito antes da agricultura, a família já era o núcleo de proteção, transmissão e perpetuação. Dois seres podem cooperar para sobreviver; mas a família é mais do que cooperação — é a intenção de continuidade, a preservação da memória, a criação de vínculos que sobrevivem aos indivíduos. A família produz identidade, produz cultura, produz história. Por isso, sua importância atravessa as eras. A forma é variável; a função é perene. Assim, Deus, Pátria e Família não são produtos ideológicos modernos — são elementos estruturantes da experiência humana. Contudo, o fato de serem tão antigos não os torna imunes a disputas simbólicas. A modernidade política transformou símbolos atemporais em bandeiras partidárias. O fascismo italiano, por exemplo, apropriou-se deliberadamente da tríade, incorporando-a ao seu imaginário de autoridade, sacralidade secular e unidade orgânica. Essa inscrição histórica gerou, após 1945, uma sombra: para correntes progressistas, a tríade passa a ser lida — na maioria das vezes sem cuidado histórico — como essência do autoritarismo. Assim, do ponto de vista progressista, o conservadorismo e fascismo são então aproximados pela escolha comum de palavras e valores, como se compartilhar símbolos universais significasse partilhar métodos ou finalidades. Essa crítica progressista, ainda que compreensível no contexto da rejeição ao totalitarismo, frequentemente incorre no erro lógico de tomar a apropriação por essência: porque Mussolini instrumentalizou a tríade, a tríade é fascista; porque regimes autoritários exaltaram a ordem, toda defesa de ordem seria autoritarismo; porque o nacionalismo extremo produziu catástrofes, toda afirmação de pátria seria catastroficamente exclusivista e opressora. É um raciocínio historicamente pobre e antropologicamente curto, que confunde a sombra com o objeto, o uso com a origem. O símbolo antecede o sequestro; e, se antecede, transcende. Mas por que, então, setores progressistas contemporâneos não apenas criticam o uso político da tríade, mas parecem hostilizar as próprias bases que tornaram possível sua existência — Deus, Pátria, Família? Por que atacar não a geração anterior, mas todas as gerações anteriores? Há aqui algo além de política partidária: há uma postura civilizacional. Parte do pensamento progressista moderno opera sobre a premissa revolucionária de que a emancipação humana requer romper uma tradição que seria, por definição, opressiva. O que antes era referência — transcendência, pertencimento, continuidade — passa a ser visto como obstáculo. Daí a tendência a um materialismo imanente, a um anticlericalismo generalizado, e a uma suspeita moral contra formas tradicionais de família e pátria. O fenômeno é mais profundo do que um conflito entre conservadores e progressistas. O que está em jogo é uma reinterpretação simbólica da própria condição humana. Se toda tradição é vista como imposição, o passado inteiro torna-se um adversário; se toda desigualdade natural é lida como injustiça, a desigualdade deixa de ser condição e passa a ser patologia; se todo limite é opressão, o limite precisa ser destruído. Mas a desigualdade é inevitável porque a natureza é desigual. A pobreza é eliminável; a desigualdade, não. Quando se tenta corrigir a desigualdade universal como se fosse um erro moral, tende-se a substituir a realidade por um ideal abstrato — e a forçar a realidade a se adequar a ele. Nesse contexto, o mito do Éden volta a ser surpreendentemente atual. A serpente promete não apenas conhecimento, mas autonomia absoluta: “sereis como Deus”. O que ela oferece é a ilusão de que o ser humano pode definir por conta própria seu bem e seu mal, sua ordem e sua verdade, seu limite e seu destino. A tentação moderna — e particularmente a tentação progressista extrema — ecoa essa mesma promessa: recriar o mundo e o homem a partir de zero, rejeitando o que veio antes como se fosse erro, peso ou superstição. É o velho desejo de tomar nas mãos o lugar da transcendência. Não se trata apenas de negar Deus, mas de ocupar seu lugar simbólico: ser autor da moral, do sentido, da identidade, da história. A tríade Deus–Pátria–Família, neste percurso, deixa de ser apenas uma bandeira fascista ou conservadora e volta a ser o que sempre foi: a expressão de três necessidades humanas profundas — sentido, pertencimento e continuidade. Ela se mantém porque não é invenção moderna, mas herança ancestral; não é dogma político, mas estrutura antropológica; não é resíduo arcaico, mas fundamento da experiência humana. E se provoca rejeição, é precisamente porque toca o ponto sensível em que a humanidade se divide entre aceitar seus limites ou desejar superá-los de forma total. Talvez por isso as críticas mais agressivas à tríade venham de uma vertente de pensamento que não tolera a ideia de limites. Pois aceitar que existe algo acima de nós — um Deus, um passado, uma tradição, uma família, uma pátria — significa reconhecer que não somos criadores absolutos. Em última instância, o conflito não é entre conservadores e progressistas, mas entre duas maneiras de ser humano: a que reconhece a transcendência e a que deseja substituí-la. Muito mais que uma batalha ideológica, cultural, política, econômica ou religiosa, o cerne desta luta ultrapassa todo o tempo e espaço. Há uma base fundamental, há um núcleo que elabora toda essa construção: estamos diante de uma batalha que transcende a tudo e a todos. Os críticos, que se opõem tanto ao uso quanto aos defensores do ideal “Deus, Pátria, Família”, mais do que irem contra um ideal, pretendem superá-lo, substituí-lo pelo “eu” acima de tudo, “nós” acima de todos. Trata-se da fusão de uma visão de mundo, de um grupo representante e controlador dessa visão, de um modo de ser e viver. É algo que soa revolucionário e jovial, mas ao mesmo tempo totalitário e intolerante. As questões que não conseguimos esquecer, pois nos acompanham desde o primeiro choro até o último suspiro, são que não somos nem seremos jovens para sempre. Somos impelidos à transformação e sofremos quando nos recusamos a crescer. Nas palavras do inesquecível Nelson Rodrigues: "Se o homem, de uma maneira geral, tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isto é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo aos dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero um pobre diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta, eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isto compromete”. Finalmente, apesar das palavras de Nelson Rodrigues, é muito auspicioso também ter em mente o que dizia Ruy Barbosa: "Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem". Leia o artigo: A Lei de terras na Terra das leis Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil!

    A raiz do problema está diante de nós, escancarada: o jeitinho virou identidade. Durante anos, o famoso jeitinho brasileiro foi tratado como charme, criatividade, esperteza. Mas isso é ilusão. Na prática, ele virou desculpa para burlar regras, tirar vantagem e manipular situações em benefício próprio. E é exatamente aí que mora o veneno. Quando alguém leva uma caneta da empresa, mente no reembolso, fura fila, compra sem nota para pagar menos ou usa um benefício ao qual não tem direito, não está sendo esperto. Está sendo desonesto. Está sendo corrupto. E precisa ouvir isso sem anestesia. Esses atos parecem pequenos até que alguém rouba milhões. A diferença entre o pequeno e o grande corrupto, muitas vezes, é só a oportunidade. Acorda aí, meu irmão! Se você acha normal “só dessa vez”, você está alimentando o mesmo monstro que depois critica na televisão. Políticos não caem do céu. Eles não vêm de outra galáxia. Eles são formados nas mesmas ruas, escolas, famílias e valores que moldam qualquer cidadão. Se a sociedade normaliza pequenas desonestidades, ela também normaliza a mentalidade que, em escala maior, vira escândalo nacional. A corrupção não começa em Brasília. Ela começa antes. Começa no cotidiano, nas brechas, nos “ninguém vai perceber”, nos “todo mundo faz”. Enquanto o brasileiro achar aceitável mentir, enganar, burlar regras e tirar proveito, o país continuará preso num ciclo de desconfiança, desigualdade e indignação seletiva. Bíblia já alertava: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito.” (Lc 16,10) Não tem como fugir disso. É lei espiritual. É lei moral. É lei da vida. A corrupção é cultural não porque está no DNA do povo, mas porque foi ensinada, repetida e tolerada por gerações. E culturas só mudam quando comportamentos mudam. Ser honesto quando há risco de punição é fácil. Ser honesto quando ninguém está olhando é o verdadeiro teste e Deus sempre está olhando. A transformação não virá de cima. A transformação de uma nação não acontece só com novas leis, novos governantes ou novas operações policiais.Ela acontece quando o povo decide que não vai mais compactuar com pequenas corrupções, mesmo que isso custe algo. A Escritura é clara: “Não torcerás o direito, não aceitarás presentes.” (Dt 16,19). Não é sugestão. É ordem. Antes de apontar o dedo para quem desvia milhões, olhe para os R$ 0,50, R$ 5, R$ 15, R$ 100 ou R$ 1.000 que muitos desviam diariamente sem culpa. A mudança cultural começa quando cada indivíduo decide que a honestidade não é negociável. Nem pequena, nem grande. Se as pequenas corrupções revelam o que uma sociedade tolera, os grandes gestos de honestidade revelam o que ela deveria aspirar a ser. E poucas histórias mostram isso tão claramente quanto a do funcionário do aeroporto que encontrou uma bolsa cheia de dinheiro no aeroporto e devolveu tudo: simplesmente porque era o certo. Ele não tinha salário alto. Não tinha privilégios. Mas tinha caráter. O gesto foi tão raro que virou notícia nacional. Como recompensa, ele pediu apenas para conhecer o presidente da República. O encontro aconteceu, mas o que deveria ser uma celebração da ética virou desconforto. A autoridade insinuou que ele talvez devesse ter ficado com o dinheiro. Disse que ninguém iria saber.Disse que ele merecia mais do que devolver. Essa fala expôs uma ferida moral profunda. Um homem humilde, com pouco, escolheu a honestidade absoluta. Uma figura pública, com muito, relativizou essa honestidade. O contraste é brutal. O funcionário do aeroporto representava o Brasil que dá certo. O Brasil que não pega o que não é seu. O Brasil que teme a Deus. A autoridade representou o Brasil do “jeitinho”, o Brasil da esperteza, o Brasil que acha que honestidade é ingenuidade. E o episódio viralizou porque toca numa verdade dolorosa: no Brasil, ser honesto virou ato de resistência. A honestidade ainda é vista como exceção. A autoridade pública deveria elevar o padrão moral, mas muitas vezes o rebaixa. A desigualdade moral é tão grave quanto a econômica. O funcionário do aeroporto, mesmo com pouco, escolheu o certo. A autoridade, mesmo com muito, sugeriu o errado. Isso desmonta a ideia de que “quem rouba é quem precisa”. Não. Quem rouba é quem escolhe roubar. O país se acostumou a desconfiar da ética. Mas o funcionário do aeroporto devolveu. E isso deveria nos fazer repensar quem realmente sustenta a integridade do país. O caso do funcionário do aeroporto é um lembrete poderoso: a mudança cultural não virá de cima para baixo. Ela virá das pessoas comuns. Das que fazem o certo quando ninguém está olhando. Das que não se deixam corromper pela oportunidade. Das que entendem que caráter não depende de valor monetário. Enquanto figuras públicas relativizarem a ética, caberá ao cidadão comum manter viva a noção de que honestidade não é burrice. Honestidade é fundamento civilizatório. Honestidade é mandamento divino. A Palavra nos exorta: “Comportai-vos de modo digno.” (Fl 1,27) E talvez seja por isso que a história do funcionário do aeroporto continua sendo compartilhada até hoje. Ela nos lembra que o Brasil que queremos já existe; mas ainda é minoria. E você? Vai fazer parte do lado que sustenta o país ou do lado que o afunda? Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil! Leia o artigo: A importância do cristão na política Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867

  • A importância do cristão na política

    A presença do cristão na política é um tema que desperta debates profundos, pois envolve a relação entre fé, cidadania e responsabilidade social. Para muitos pensadores cristãos, a participação na vida pública não é apenas um direito, mas uma expressão concreta do compromisso com o bem comum. A fé, quando vivida de forma madura, não se limita ao espaço privado; ela inspira atitudes, valores e escolhas que podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana. A política, entendida em seu sentido mais amplo, é o espaço onde se tomam decisões que afetam a vida de todos. Por isso, afastar-se dela significa abrir mão da oportunidade de influenciar estruturas que moldam a dignidade humana, o cuidado com os vulneráveis e a promoção da justiça. Muitos autores cristãos afirmam que a fé deve gerar frutos na história, e um desses frutos é o compromisso com a transformação social. Assim, quando um cristão se engaja politicamente, seja votando de forma consciente, participando de debates públicos ou ocupando cargos de liderança, ele exerce sua vocação de servir. Entretanto, essa participação não deve ser confundida com imposição religiosa. A tradição cristã enfatiza a liberdade de consciência e o respeito à pluralidade. O papel do cristão na política não é impor dogmas, mas testemunhar valores como honestidade, compaixão, integridade, defesa da vida e promoção da paz. Esses princípios, quando vividos com coerência, podem iluminar decisões e inspirar práticas políticas mais éticas. A política não se torna um “púlpito”, mas um espaço de serviço, onde a fé se traduz em ações concretas em favor do próximo. Outro aspecto importante é que a presença cristã na política pode atuar como força crítica diante de injustiças. A fé cristã sempre carregou uma dimensão profética, chamando atenção para desigualdades e abusos de poder. Quando cristãos se posicionam com base em valores éticos, eles contribuem para que a política não se reduza a interesses particulares, mas recupere sua vocação de promover o bem comum. Isso exige discernimento, diálogo e humildade, pois a política é complexa e envolve múltiplas perspectivas. Por fim, a importância do cristão na política também se manifesta no testemunho cotidiano. Mesmo quem não ocupa cargos públicos exerce influência ao participar de sua comunidade, ao dialogar com respeito e ao votar com responsabilidade. A política não é apenas o que acontece nos altos escalões do poder; ela começa nas pequenas escolhas que moldam a convivência social. Assim, o cristão é chamado a ser presença de esperança, contribuindo para uma sociedade mais fraterna e comprometida com a dignidade de todos. Leia o artigo: Grande Irmão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867

  • A Lei de terras na Terra das leis

    O Brasil é um país injusto por definição. Um país erguido sobre a desigualdade, sustentado pela concentração de riqueza e pelo monopólio da terra. No campo, a terra sempre foi de poucos; na cidade, o trabalho sempre foi de muitos. Milhões vivem à margem enquanto uma elite histórica mantém, geração após geração, o controle dos meios de produção e do poder político. A raiz desse problema é clara, direta e conhecida: a concentração fundiária. E o marco decisivo dessa injustiça tem data, tem responsáveis e tem método. Em 1850, a Lei de Terras foi criada para impedir que o povo tivesse acesso à terra. Foi o golpe jurídico que garantiu que, mesmo com o fim da escravidão, os pobres continuassem presos à miséria, agora não mais por correntes, mas pela falta de propriedade. Essa lei não foi um acidente. Foi uma escolha política consciente, arquitetada por uma classe dominante composta por grandes proprietários rurais que controlavam o Parlamento, o Estado e o destino do país. O Império, longe de ser neutro, atuou como fiador dessa estrutura. D. Pedro II, liberal nos salões e humanista nos discursos, sancionou uma legislação que condenou o povo brasileiro à exclusão permanente. Tudo o que vemos hoje — a pobreza no campo, as periferias superlotadas, a desigualdade brutal — é consequência direta dessa decisão histórica. A Lei de Terras explica o Brasil. Explica por que poucos têm tanto e tantos não têm nada. Explica por que a terra nunca foi de quem nela trabalha. Alto lá! O que você acabou de ler não é o argumento deste texto. É a narrativa pronta, repetida à exaustão em universidades, alguns livros didáticos, discursos militantes e manuais ideológicos. Uma narrativa que parte do presente, escolhe seus vilões no passado e organiza os fatos para confirmar uma conclusão já estabelecida. A partir deste ponto, o texto interrompe esse automatismo interpretativo. Em vez de começar pelos resultados e buscar culpados retrospectivos, propõe voltar à cronologia dos acontecimentos, examinar contextos, comparar processos históricos distintos e perguntar, sem slogans, o que de fato ocorreu — e o que foi construído depois como explicação. Vamos começar conhecendo um outro cenário, desenvolvido na Inglaterra entre os séculos XVI e XVIII. Nos referimos a uma série de atos parlamentares conhecidos genericamente como Enclosure Acts - ou Leis de cercamentos - que autorizou o cercamento de terras comunais. Essas terras, até então utilizadas coletivamente para pastoreio, coleta de lenha e agricultura de subsistência, passaram a ser delimitadas e apropriadas de forma privada. O fato histórico central é claro: os cercamentos provocaram um deslocamento populacional significativo. Pequenos camponeses perderam acesso aos meios tradicionais de subsistência e migraram para vilas e cidades. Houve, portanto, êxodo rural. Outro fato igualmente documentado é que, paralelamente a esse processo, a Inglaterra vivia transformações técnicas profundas. Mesmo com a crescente disponibilidade de mão de obra, a mecanização industrial não diminuiu — ao contrário, acelerou-se. A indústria têxtil, a mineração e, mais tarde, a siderurgia investiram intensamente em máquinas que poupavam trabalho humano. Esse aparente paradoxo histórico — abundância de trabalhadores e, ainda assim, avanço tecnológico — contraria a máxima simplificadora de que mão de obra barata desestimula a inovação. Foi também nesse contexto que surgiram reações violentas como o ludismo, caracterizado pela destruição de máquinas. O ludismo não foi um movimento teórico contra o capitalismo, mas uma reação prática e localizada ao desemprego tecnológico, evidenciando que a mecanização era percebida como ameaça real mesmo em um cenário de excesso de trabalhadores. Assim, no caso inglês, mesmo em face da concentração fundiária nas mãos de poucos, em razão do pragmatismo econômico voltado à atividade industrial, a mão de obra disponível migrou para as fábricas, ajudando a fortalecer a revolução tecnológica que já havia sido iniciada ainda no século XVIII. A Lei de Terras brasileira nasce em um contexto profundamente distinto. O Brasil de meados do século XIX não enfrentava escassez de terra, mas o oposto: abundância territorial, baixa densidade populacional, economia majoritariamente agrária e baseada no trabalho escravo. Até 1850, a ocupação da terra ocorria sobretudo por posse, muitas vezes informal. A lei introduziu um novo princípio: a terra pública só poderia ser adquirida por compra. Trata-se de um fato jurídico e administrativo, não de uma inovação isolada no mundo moderno. É igualmente factual que a lei dificultou o acesso à terra por parte da população mais pobre. Mas daí não decorre, automaticamente, que seu objetivo central fosse criar um proletariado rural ou urbano dependente dos grandes latifúndios, afinal, naquele momento a mão de obra era escrava. A questão que desloca e desequilibra os efeitos da lei é que, a partir do fim da escravidão em 1888, o Brasil sequer possuía um parque industrial capaz de absorver massas de trabalhadores livres. A aplicação da lei foi geograficamente irregular, incompleta e frequentemente ignorada nas fronteiras agrícolas. Seus efeitos foram lentos e desiguais, muito diferentes do impacto relativamente rápido dos cercamentos ingleses. Há semelhanças superficiais entre os dois processos: ambos envolvem legislação fundiária, redefinição do acesso à terra e consolidação da propriedade privada. Mas as diferenças estruturais são decisivas. Na Inglaterra, os cercamentos ocorreram em uma economia já integrada a mercados, com pressão demográfica, escassez relativa de terra e um processo industrial em curso. No Brasil, a Lei de Terras foi promulgada em um país escravocrata, territorialmente vasto, pouco industrializado e sem um mercado de trabalho livre plenamente constituído. Os meios também diferem: os cercamentos reorganizam o uso de terras já intensamente exploradas; a Lei de Terras buscava ordenar juridicamente um espaço ainda pouco controlado pelo Estado principalmente nos rincões distantes. Quanto aos efeitos, enquanto na Inglaterra o êxodo rural alimentou diretamente a industrialização, no Brasil os efeitos foram diluídos no tempo e atravessados por outros fatores: imigração, fim da escravidão, urbanização tardia e, décadas depois, industrialização. A leitura marxista tradicional tende a atribuir intenção unívoca aos agentes históricos. No caso brasileiro, isso implicaria supor que D. Pedro II e o Estado imperial agiram conscientemente para produzir uma massa de trabalhadores sem-terra. Essa interpretação ignora um dado relevante: o imperador dispunha do Poder Moderador e não se opôs à lei. Homem culto, humanista, liberal e atento às experiências estrangeiras, dificilmente desconheceria seus efeitos potenciais. Isso sugere que a lei foi percebida como necessária à organização institucional do país, ainda que seus resultados fossem socialmente imperfeitos. É plausível reconhecer o interesse econômico da elite agrária — mas é essencial tratá-lo como incidental e contingente, não como explicação totalizante. A história posterior demonstra que o próprio capital agrário se adaptou, migrou e, em parte, financiou a industrialização quando o eixo do poder econômico se deslocou a partir dos anos 30. O surgimento da Lei de Terras, diante da falta de um alicerce industrial, diferentemente do caso inglês, provocou no Brasil uma ruptura entre o homem e a terra. Não havendo meios econômicos, a terra permaneceu ainda por muito tempo distanciada do homem comum, apesar da vastidão do nosso território. Os processos históricos não são estanques nem moralmente lineares. Leis produzem efeitos imprevistos, elites se reorganizam, interesses mudam e estruturas se ajustam a novas circunstâncias. Reduzir a Lei de Terras a um ato de pura maldade e interesse de classe é tão limitante quanto ignorar seus efeitos excludentes. Uma leitura ancorada na cronologia dos fatos, na comparação institucional e na análise prática e histórica, permite compreender a complexidade do processo sem recorrer ao maniqueísmo. Infelizmente, a solução mais óbvia e recorrentemente laureada pelo meio acadêmico - a reforma agrária - com a distribuição formal de lotes de terra a trabalhadores interessados na produção de subsistência e na venda dos excedentes de produção, morre na entrega das escrituras. Um homem sadio e motivado e uma terra produtiva não são suficientes para garantir a sobrevivência de um projeto. Oferecer a terra sem proporcionar os meios de acesso a sementes, treinamento, máquinas e equipamentos, vias de comercialização dos excedentes, infraestrutura de suporte, não é política de Estado com vistas ao desenvolvimento social, é marketing político com fins eleitoreiros. A análise dos processos históricos, como a Lei de Terras, com uso de lentes de aumento para as realidades sociais do nosso país, sem um olhar honesto e em perspectiva histórica, é panfleto ideológico de suporte a políticas de manutenção de poder, maquiada para simular política social de inclusão. Todo efeito resulta de uma ou mais causas, entendidas como eventos ou condições que produzem outros eventos — isso caracteriza a causalidade. Já a correlação é uma relação de associação entre fatos ou variáveis, na qual eles ocorrem juntos ou variam conjuntamente, sem que isso implique, necessariamente, uma relação de causa e efeito. Mas esquecer essa lógica simples na criação de slogans panfletários, parece ser uma técnica muito comum para iludir as massas. Não devemos esquecer que slogans são reduções de ideias complexas ao nível de títulos simples e engajantes, porém, a história, quando observada de perto, raramente confirma slogans. Quase sempre os desmente. Dentro do sistema político do Império, o imperador atuava mais como árbitro do que como reformador direto. O máximo plausível seria usar sua influência para favorecer gabinetes mais reformistas e manter o tema da terra em pauta, sem confronto direto com as elites agrárias. A monarquia dependia das elites rurais que se beneficiavam da concentração fundiária. Qualquer tentativa mais ousada de democratização da terra teria alto custo político — possivelmente semelhante ao que levou ao desgaste final do regime antes da Proclamação da República, proclamação que acabou entregando o controle do Estado àquelas elites rurais. Assim, D. Pedro II não foi o responsável pela pobreza e desigualdade que vemos na atualidade; ele era, em verdade, a última barreira que impedia o avanço dos setores econômicos ligados ao campo e à terra ao controle total do Estado. Se algo tivesse sido tentado no sentido de alterar a Lei de Terras, provavelmente seria lento, indireto e limitado, focado em colonização, crédito e incentivos — não em redistribuição estrutural. Ainda assim, mesmo medidas modestas poderiam ter alterado parcialmente o destino social dos libertos, caso fossem implementadas com continuidade. E então veio a República; mas aí... é uma outra história. Leia o artigo: Assim falava Tocqueville Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Estudando o Fascismo

    Parte 1 – A origem O famoso escritor George Orwell escreveu um ensaio denominado “O que é fascismo?”, em 1944, que foi publicado no periódico Tribune, de Londres. Naquele tempo, o regime estava em processo de queda, com seu total declínio ocorrendo em 1945. Neste ensaio, Orwell não se habilita a responder seu próprio questionamento, mas expôr uma problemática que se instalou em seus dias: rotular qualquer opositor de fascista. O autor descreve alguns dos grupos que recebem o rótulo: conservadores, socialistas, comunistas, trotskistas, católicos, nacionalistas, apoiadores e opositores à segunda guerra. Ao final, Orwell conclui que “será constatado que, da forma que é empregada, a palavra ‘fascismo’ é quase desprovida de significado”. Ou seja, esvaziada de seu sentido real, o termo tornou-se equiparado a um insulto qualquer, tal como “troglodita” – esta comparação, inclusive, foi feita pelo próprio autor em seu artigo. A problemática exposta por Owell, infelizmente, perdura até os nossos dias. Talvez até mesmo o leitor há tenha sido alvo de ataques deste jaez por alguém de ideologia diferente da sua, principalmente em ano eleitoral, como o que estamos. Tal qual fez Orwell, não pretendo esboçar uma tese de mestrado sobre o tema. Primeiro porque esta não é a minha pretensão; segundo porque não conseguiria fazê-lo em dois ou três artigos. Vislumbro sim, descortinar a verdade sobre o regime, de forma simples e direta, mostrando ao leitor que nenhum dos grupos mencionados por Orwell em seu artigo são fascistas – aliás, nem ele próprio os considerava. E mais: provar que o fascismo não é de direita. O ano era 1919. A Itália, embora saísse vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, passou por uma grave crise com agitação social conhecida como "Biênio Vermelho" (greves e ocupações). O país saiu do conflito com sua economia arruinada e enfrentando uma profunda crise social e política. Embora tenha lutado ao lado dos vencedores (Tríplice Entente), sofreu consequências devastadoras devido ao alto custo do conflito, o que gerou um sentimento de insatisfação popular conhecido como "vitória mutilada”. Além disso, não recebeu todos os territórios prometidos no Tratado de Londres. Neste cenário surge Benito Amilcare Andrea Mussolini. Seu nome foi escolhido pelo seu pai, que queria homenagear Benito Juárez, líder revolucionário e ex-presidente do México, enquanto seus outros nomes, Amilcare e Andrea, eram dos socialistas italianos Amilcare Cipriani e Andrea Costa, o último fundador do Partido Socialista Revolucionário da Romagna. Não entraremos em detalhes de sua infância, mas é importante citar que o pai de Mussolini era socialista e um dos principais responsáveis por influenciar fortemente suas ideias políticas ainda na infância, as quais seriam aplicadas posteriormente. Mais tarde, essas influências ganharam robustez quando ele fugiu para a Suíça, em 1902, com a intenção de não cumprir o serviço militar. Lá, conheceu as obras de Friedrich Nietzsche, o sociólogo Vilfredo Pareto, e o sindicalista revolucionário Georges Sorel, sobre quem Mussolini declarou: "O que eu sou, eu devo à Sorel”. Além destes, era ferrenho entusiasta de Friedrich Engels e Karl Marx, sendo considerado um intelectual. Mais tarde viria a creditar o marxista Charles Péguy e o sindicalista Hubert Lagardelle como algumas de suas influências. A ênfase de Sorel sobre a necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, ação direta, greve geral, e o uso do neo-maquiavelismo apelando à emoção o impressionou demasiadamente. No período, juntou-se a pedreiros e trabalhadores sindicais, dos quais mais tarde se tornou secretário da união dos trabalhadores italianos em Lausanne, e em 2 de agosto de 1902 publicou seu primeiro artigo no L'Avvenire del Lavoratore, o jornal dos socialistas suíços. Na Suíça, Mussolini se declarou ateu. Chegou a desafiar a Deus para provar sua existência e considerou Nosso Senhor Jesus Cristo como ignorante e louco, chamando a religião de uma forma de doença mental que merecia tratamento psiquiátrico e acusou o cristianismo de promover resignação e covardia. Inclusive, seu primeiro livro é uma espécie de tratado ateísta, intitulado “Homem e divindade: Deus não existe”. Em seu retorno à Itália, Mussolini obteve licença para lecionar. Como jornalista, tornou-se colunista do panfleto socialista La Lima. Nele, tecia severas críticas ao governo e especialmente ao cristianismo. No mesmo período, participou de manifestações e liderou algumas greves e chegou a ser preso. Em 1909, Mussolini mudou-se para Trento, que à época, era controlado pelo Império Áustro-Húngaro, para assumir o cargo de secretário do partido trabalhista da cidade, além de também ter atuado no partido socialista local, onde trabalhou na edição do jornal L'Avvenire del Lavoratore. Em setembro daquele ano, Mussolini foi preso acusado de incitar rebelião contra o império e, posteriormente, foi expulso, retornando à Itália. Este episódio repercutiu no país e ajudou a elevar sua popularidade entre os progressistas. Em 1910, foi escolhido como secretário da Federação Socialista de Forlì, e em 1912, foi promovido a editor do jornal do Partido Socialista. Sob sua liderança, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 mil para 100 mil exemplares obtendo admiração até mesmo de Antonio Gramsci. Mais uma vez, não entraremos em detalhes da vida pessoal de Mussolini. Contudo, creio ser importante sinalizar que ele, segundo seu mordomo, Quinto Navarra, teve em torno de sete mil amantes. O início do que conhecemos como fascismo se deu em 1914, quando Mussolini, por meio do Partido Socialista, declarou neutralidade na guerra. Para ele, o confronto não traria benefícios para o povo italiano. Contudo, foi influenciado a mudar de opinião, principalmente por pensar que os socialistas alemães haviam traído a Segunda Internacional, já que eles que levantaram "a bandeira da Internacional Socialista foram os primeiros a jogá-la na lama" após seu apoio à entrada da Alemanha. Para Mussolini, a guerra serviria para a derrubada das monarquias Hohenzollern e Habsburgo, que, segundo ele, sufocavam o socialismo. Porém, a linha adotada por Mussolini não agradou os membros do partido. Para ele, as organizações socialistas deveriam ter apoiado a guerra entre as nações, com a consequente distribuição de armas ao povo, e depois transformado em uma revolução armada contra o poder burguês. Isso foi registrado no manifesto Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista, publicado em outubro daquele ano. Em novembro, foi expulso do partido. Em 1915, fundou o Partido Revolucionário Fascista, que se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Diversos confrontos ocorreram entre os grupos. Em 1919, iniciou-se o Biênio Vermelho, período de dois anos de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Em 6 de junho do mesmo ano, foi publicado oficialmente o Manifesto dei Fasci italiani di combattimento, comumente conhecido como Manifesto Fascista. O documento foi publicado no Il Popolo d’Italia, jornal fundado por Mussolini, e trazia exigências em tópicos que abrangiam a situação política, social, militar e financeira do país naquela ocasião. Alguns deles eram: - abolição do senado - entrega às organizações proletárias da gestão de serviços públicos - imposto extraordinário progressivo sobre o capitalismo - confisco de todos os bens das congregações religiosas e abolição das rendas episcopais Todos os itens foram retirados ipsis literis do Manifesto Comunista, escrito por Marx. Em 9 de outubro, o Primeiro Congresso Fascista foi realizado em Florença, onde foi decidido concorrer às próximas eleições políticas sem aderir a nenhuma aliança. Os fascistas, liderados por Mussolini, propuseram um programa "decididamente esquerdista" e anticlerical. Mussolini saiu derrotado de sua primeira eleição, em 1919. Os socialistas obtiveram quarenta vezes mais votos, e em sua cidade natal, ele não obteve sequer um único voto. Então, mudou a estratégia. Obtendo um discurso mais moderado, ele conseguiu financiamento para o Segundo Congresso Fascista de empresários do setor da indústria. Em 1921, Mussolini aceitou o pedido de Giovanni Giolitti para ingressar no “Bloco Nacional”, um grande bloco de esquerda que incluía o Partido Social-democrata Italiano, a Associação Nacionalista Italiana e o Partido Liberal Italiano. A atitude trouxe resultados: nas eleições gerais da Itália em 15 de maio de 1921, os fascistas conquistaram 35 cadeiras no parlamento italiano, incluindo o próprio Mussolini. Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Mussolini tomou o poder. Continua… Leia o artigo: Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867

  • O juízo que desejamos

    “Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja imparcial e ético” Cármen Lúcia, Ministra do Supremo Tribunal Federal. A frase poderia e deveria ser vista com naturalidade, em especial sendo proferida por um membro da mais alta Corte de um país que se apresenta como democrático, que alega prezar pelo devido processo penal como base inafastável para o exercício da função jurisdicional do Estado, todavia, boa parte dos brasileiros, reagiu em choque ao perceber que a imparcialidade do julgador importa quando o réu pertence ao grupo dos humanos que ainda parecem gozar dos direitos fundamentais que, para a mesma parte da população, foram subtraídos daqueles que não se associaram ao regime. Aqueles, outrora chamados de milhões de pequenos tiranos, também sonham com um mundo no qual não sejam julgados por alguém que os rotulara de tal forma, bem como, por juízes imparciais que não comemorem a derrota de um grupo político, que não sejam declaradamente filiados a uma ideologia que prega, sem cerimônias, o extermínio de opositores, como afirmado pelo Professor Elias Jabuor e outras tantas vozes revolucionárias, e, principalmente, por aqueles que se consideram vítimas daqueles a quem julga, posto que, naturalmente, se sentiriam inclinados a condenar seus supostos algozes, aplicando-lhes penas injustas e desproporcionais. Ser julgado por alguém ético e imparcial deveria ser uma garantia estendida a todos, entretanto, não são raros os julgamentos promovidos apenas para dar verniz de legalidade a uma vendeta promovida por detentores do poder. Na prática, estaríamos diante de um teatro feito para convencer os mais ignorantes de que há algo normal quando tudo o quê ocorre é a punição de um desafeto sem o devido processo legal. Espantoso, no entanto, é que um magistrado da mais alta corte do Poder Judiciário mencione o temor, injustificado, de ser julgado per um juízo inclinado, cogitando que tal aberração sequer ocorra. Diante do comentário, não podemos nos olvidar quanto ao fato de a chamada Justiça especializada ser, no mínimo, uma presença preocupante em nosso ordenamento jurídico, pois sua existência presume inclinação, portanto, o temor de que todo juízo alegado especializado seja um julgador parcial não deve ser ignorado. Se o legislador, acreditando que há um desequilíbrio natural entre as partes em um processo, como nos casos da legislação trabalhista ou consumerista, tenta equalizar tal relação através da norma, ao criar um juízo especializado, como a Justiça do Trabalho, faz com que a parte que recebeu menor proteção legal enfrenta um juízo tendencioso, que tem como missão tratar de forma díspar as partes, trazendo uma distorção quase invencível ao indivíduo que foi considerado privilegiado pelo legislador. Nos casos das relações trabalhistas e consumeristas, a lei deveria ser o suficiente para equilibrar a relação processual, entretanto, o juízo que vê o empregador como um déspota que explora a força de trabalho de forma abusiva como regra, parecendo um tribunal socialista, deveria causar estranheza quando, nem mesmo os juízes desejam um julgamento por alguém parcial. No direito consumerista, em que pese à legislação traga proteção especial ao consumidor, o juízo ordinário se torna uma oportunidade para que a parte menos favorecida por lei possa, apresentando argumentos plausíveis, convencer o julgador que a posição jurídica de vantagem o assiste. Não trataremos dos juizados de violência contra a mulher, uma vez que, a legislação já passível de críticas e com forte tendência a acirramento, trouxe o primeiro juízo criminal em que o réu recebe a pecha de presumidamente culpado. Qualquer homem diante de um juízo declaradamente feminista, que abraça os conceitos de tal ideologia sem qualquer pudor, uma vez que, se nega ao questionamento de suas narrativas, sabe que está diante de um juízo parcial, de maneira que, a súplica da Ministra Cármen Lúcia poderia, sem constrangimento, ser invocada por todo réu diante de tal órgão do Judiciário. Por outro lado, salta os olhos ver que, nosso ordenamento jurídico agasalha, sem cerimônias, as chamadas varas de fazenda pública, que julgam ações cuja Administração Pública figure como parte processual, de maneira que, além das proteções legais, sejam as cláusulas leoninas, que seriam consideradas abusivas caso impostas por particulares, e a primazia do interesse público, que deixa o poder estatal em flagrante vantagem, regras que privilegiam o lado mais forte da relação, as varas de fazenda pública trazem um juízo que facilmente visto como parcial e, no caso, antiético. O Estado cria as regras, admite que a Administração Pública imponha regras contratuais que, não fosse ela, seriam abusivas, impõe uma primazia sobre os particulares e, além das vantagens estabelecidas por lei, cria um juízo específico para viciá-lo. Ainda há quem defenda o chamado contencioso administrativo. Aos que não compreendem bem a necessidade de um juízo imparcial, já mencionamos o quão seria reprovável um árbitro de futebol que, ao final do jogo, se declara torcedor de um dos times. No entanto, parece que a deficiência cognitiva impede que boa parte veja, com ainda maior grau de reprobabilidade, que magistrados se declarem adeptos de determinadas ideologias ou inimigos declarados de um espectro político. O Judiciário parcial é contrário à sua própria essência, posto que, espera-se do juízo a equidistância necessária para que suas decisões não se maculem, logo, um juiz parcial é um fardo que a sociedade suporta pela imposição legal, em que pese tal figura seja imprestável, uma vez instituído por lei e arrogante demais para se reconhecer como algo que sequer deveria existir. Distante das vidas comuns, alguns juízes acabam ignorando seu dever de dizer o direito, se colocando como nobres parasitas que propagam sua ideologia doentia ou simplesmente repousam em seus tronos de privilégios. Por óbvio, há magistrados que estão imbuídos de sua missão e se desdobram para julgar com justiça e não com o fígado maculado por vícios ou paixões revolucionárias. Juízes não deveriam ser agentes da mudança, tampouco editores de uma nação, não há coragem em um juízo que se move, pois sua inércia é indispensável à legitimidade de seus julgamentos. Não se espera uma Justiça heroica, em verdade, a maior virtude de um julgador é se superar suas paixões humanas. O desejo da Ministra do Supremo Tribunal Federal não é algo único, na verdade, todo brasileiro tem o mesmo sonho e pede a Deus que nunca seja julgado por um juiz parcial ou antiético, entretanto, boa parte dos cidadãos teme que não ter a mesma sorte dos demais. Há brasileiros que se espiam como relegados, figuras que não têm direito ao tão desejado juízo imparcial, pois são chamados de pequenos tiranos ou adjetivados por termos abjetos seguidos do sufixo “ismo” que, segundo boa parte dos julgadores, devem ser extintos. Temendo “um bom paredão e uma boa cova” muitos dos milhões de pequenos tiranos clamam por uma Justiça imparcial e ética, mas, cada vez mais, percebem que as narrativas progressistas engoliram as mentes de seus julgadores. Promotorias e defensorias que defendem as autointituladas minorias perseguem abertamente os que se manifestam contra a ideologia que se denominou progressista, ao passo que, juízes agasalham teses de infundadas como a ideologia de gênero, o racismo estrutural e outras tantas farsas que criminalizam a consciência dos cidadãos. O clamor por uma Justiça na qual seus membros deixem suas ideologias de lado e reconheçam o mal que se tornou o chamado ativismo judicial, resulta dos desvios do Poder Judiciário que segue negando sua queda, apesar de evidente. A Revolução Francesa alegava combater os abusos da monarquia, limitando os poderes dos absolutistas. Ignorando todo o mal que emergiu em razão de tal movimento, verificamos que o poder dos reis precisava, de fato, de limitação, como ocorrera no Reino Unido com a Carta Magna, todavia, os revolucionários, que só queriam o trono para si, acabaram se tornando um mal maior que o monarca que derrubaram, por tal razão, tornou-se necessário limitar o legislativo, dando poderes ao Judiciário, cuja legitimidade decorria de sua natureza tecnocrata. O ativismo judicial matou a essência do Judiciário e a sociedade deverá impor limites a tal poder, até lá, nos resta pedir a Deus que sejamos julgados por juízes imparciais e éticos, ainda que tais figuras sejam cada vez mais raras. Leia o artigo anterior: Um baile sem máscaras Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Grande Irmão

    Vivemos um tempo em que a tecnologia promete onisciência, governos buscam onipresença e empresas tentam moldar comportamentos como se fossem capazes de ler almas. A vigilância digital, antes tema de ficção científica, tornou‑se parte da rotina. E, enquanto isso acontece, cresce um silêncio perigoso: o silêncio de uma sociedade que se acostumou a ser observada. Para quem tem fé, esse cenário deveria causar ainda mais inquietação. Afinal, desde quando aceitamos que máquinas e governos disputem o lugar que, na tradição religiosa, pertence apenas a Deus? A vigilância digital não é neutra. Ela nasce de decisões políticas, de interesses econômicos e de estruturas de poder que se expandem sem debate público. Quando governos e corporações acumulam dados sobre cada passo, cada busca, cada conversa, eles passam a exercer um tipo de controle que ultrapassa o campo administrativo e invade o campo moral. Em muitas tradições religiosas, a liberdade é vista como dom divino — condição para que o ser humano escolha o bem, construa sua consciência e desenvolva sua espiritualidade.  Mas como exercer liberdade quando cada gesto é monitorado, registrado e analisado? A vigilância constante não apenas limita ações; ela molda comportamentos.  E comportamento moldado não é liberdade, é condicionamento. Em 1984, George Orwell descreveu um Estado que vigiava seus cidadãos por meio das teletelas. O “Grande Irmão” era símbolo de um poder absoluto que não apenas observava, mas também julgava e punia. Hoje, não precisamos de um ditador para isso. Carregamos nossas próprias teletelas no bolso. A comparação é inevitável: 1984 vs. Mundo Atual   1. Vigilância - 1984: O Estado vigia todos por meio das teletelas.  - Atual: A vigilância é distribuída entre governos, empresas e até pessoas comuns — todos com celulares e redes sociais. 2. Controle - 1984: O controle é explícito, imposto por um regime totalitário.  - Atual: O controle é sutil, disfarçado de conveniência, segurança e personalização. 3. Censura - 1984: A censura é direta, oficial e violenta.  - Atual: A censura é social — feita por cancelamentos, julgamentos públicos e algoritmos que filtram o que vemos. 4. Doutrinação - 1984: A doutrinação é estatal, com propaganda e reescrita da história.  - Atual: A doutrinação é cultural, acelerada por crises como a pandemia, onde muitos foram condicionados a vigiar e punir o outro. 5. O Grande Irmão - 1984: É uma figura central, um líder absoluto.  - Atual: O “Grande Irmão” é difuso — está nos sistemas, nas plataformas, nos vizinhos, nos colegas, nos próprios usuários. 6. Liberdade - 1984: A liberdade é abolida.  - Atual: A liberdade é negociada, enfraquecida, trocada por conforto digital — e muitas vezes, abandonada voluntariamente. 7. Olhar - 1984: O olhar do Estado é opressor.  - Atual: O olhar da sociedade é normativo, moralista, vigilante — e muitas vezes, cruel. 8. Espiritualidade - 1984: A fé é proibida, o Estado é deus.  - Atual: A fé é tolerada, mas a tecnologia disputa o lugar do sagrado, oferecendo controle, previsibilidade e “salvação” digital. Orwell imaginou um governo que queria ser Deus. Hoje, empresas e sistemas querem ser oniscientes, onipresentes e onipotentes, atributos que, na fé cristã, pertencem apenas ao divino. Mas o novo “Grande Irmão” não está no governo, está ao nosso lado. A vigilância contemporânea não vem apenas de cima. Ela vem dos lados. Não é mais necessário um Estado totalitário para controlar comportamentos. A própria sociedade assumiu esse papel. Hoje, vizinhos vigiam vizinhos, colegas monitoram colegas, amigos fiscalizam amigos. E, pior: cancelam, julgam e punem sem que qualquer autoridade dê a ordem. A pandemia acelerou esse processo. Muitos foram doutrinados pelo medo, pela polarização e pela avalanche de informações. Outros se tornaram vigilantes morais, prontos para denunciar, expor e condenar quem não seguisse o comportamento considerado “correto”. O controle deixou de ser institucional e passou a ser cultural. O “Grande Irmão” não é mais um líder autoritário. É a própria multidão. E uma multidão doutrinada pode ser mais opressora do que qualquer governo. O olhar de Deus liberta; o olhar do algoritmo, e da multidão, aprisiona. Há uma diferença fundamental entre o olhar divino e o olhar tecnológico ou social. - O olhar de Deus, segundo a tradição religiosa, é um olhar que conhece para amar, orientar e libertar.  - O olhar do algoritmo e da sociedade vigilante conhece para prever, manipular e controlar. Um busca a transformação interior. O outro busca a conformidade exterior. Quando a sociedade aceita ser monitorada o tempo todo, seja por máquinas ou por outras pessoas, ela troca a liberdade espiritual por uma sensação artificial de segurança.  Troca a consciência por medo de julgamento. Troca a autonomia por aprovação social. E, aos poucos, deixa de ser protagonista da própria história. A vigilância digital cria uma nova forma de idolatria: a idolatria da eficiência, da conveniência e do controle. Mas a vigilância social cria outra: a idolatria da moralidade pública, do comportamento padronizado, da punição coletiva. Nenhuma sociedade pode permanecer livre quando aceita ser observada sem limites, seja por governos, empresas ou pela própria população. É preciso afirmar com clareza: - Nenhum governo deve ter poder absoluto sobre a vida privada.  - Nenhuma empresa deve conhecer mais sobre nós do que nossas próprias famílias.  - Nenhum grupo social deve se tornar juiz da consciência alheia. A fé sempre ensinou que a liberdade é sagrada. E o sagrado precisa ser defendido. Proteger a privacidade não é apenas um ato político. É um ato espiritual. - Cobrar transparência de governos e empresas é proteger o livre-arbítrio. - Resistir ao cancelamento e à vigilância social é preservar a consciência individual. - Educar para o uso ético da tecnologia é cuidar da sociedade como um todo. Se não fizermos isso, corremos o risco de viver não apenas a distopia de Orwell, mas uma distopia ainda mais profunda: aquela em que o ser humano esquece que foi criado para ser livre.   Leia o artigo: Um chamado à reflexão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill

    Em todo ano, no mês de março, presenciamos o velho discurso feminista no Dia Internacional da Mulher. Em virtude dos últimos acontecimentos noticiados de atos violentos contra a mulher, a data este ano recebeu maior carga de militância do que o habitual. É fato que a mulher, sendo a parte mais frágil (1º Pedro 3.7), necessita de proteção e amparo, não nego isso. Contudo, o feminismo faz exatamente o contrário, ao dizer asneiras como “todo homem é um estuprador em potencial”. O movimento feminista espalha falsamente que a mulher não possuía NENHUM “direito” no passado, e que surgiu para trazer justiça social e equidade. Embora haja relatos de que alguns grupos consideravam a mulher como inferior, não é correto generalizar. A própria Bíblia, aquele livro tão repudiado pelas feministas, elenca diversos direitos em favor da mulher ditados por Deus a Moisés. Citemos alguns. Feministas inflam seu ego afirmando que conseguiram o “direito ao divórcio” , que foi uma de suas  “maiores realizações”. Contudo, foi Deus quem concedeu. E vejam que curioso: o Todo-Poderoso fez isso para proteger a mulher de homens maus! A "Carta de Divórcio"  (Deuteronômio 24:1-4), i nstituída no Antigo Testamento, foi permitida por Deus para proteger a mulher, dando-lhe legalidade para se casar novamente sem ser considerada adúltera. “Jesus, respondendo, disse-lhes: Pela dureza dos vossos corações vos deixou ele escrito esse mandamento” (Marcos 10.4) Um outro direito concedido à mulher foi o de propriedade. A Bíblia relata a história das filhas de Zelofeade, cinco irmãs chamadas Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Seu pai pertencia ao clã de Manassés, um dos filhos de José, na linhagem de Hebreus. Quando o pai delas morreu no deserto, sem deixar filhos homens, elas buscaram uma solução para garantir que a herança familiar não desaparecesse. Apresentaram-se diante de Moisés, do sacerdote Eleazar e dos líderes do povo, reivindicando o direito à herança do pai. Elas explicaram que o genitor não havia morrido por rebelião, mas por seu próprio pecado. Por isso, seu nome não deveria ser esquecido ou excluído da terra do clã. “Moisés levou a causa delas perante o Senhor. Disse o Senhor a Moisés: As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente, lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai e farás passar a elas a herança de seu pai. Falarás aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém morrer e não tiver filho, então, fareis passar a sua herança a sua filha. E, se não tiver filha, então, a sua herança dareis aos irmãos dele. Porém, se não tiver irmãos, dareis a sua herança aos irmãos de seu pai” (Números 27.5-10) . Uma das maiores falácias do movimento é em relação ao trabalho. Feministas dizem que “libertaram as mulheres das amarras do patriarcado ao conquistar acesso ao mercado de trabalho” . Elas ignoram solenemente que a mulher sempre trabalhou, e por necessidade. E, mais uma vez, a Bíblia nos mostra isso. Noemi, hebreia, tinha dois filhos, Malom e Quiliom. Seu marido, Elimeleque, mudou-se de Belém para a terra de Moabe. Lá, seus filhos se casaram com mulheres moabitas, Orfa e Rute. Todos os homens da família faleceram. Então, Noemi despediu suas noras e pretendia voltar para Belém. Rute, contudo, decidiu ficar com sua sogra: “Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1.16) . Ao regressarem para Belém, Rute decidiu trabalhar para sustentar a casa. Não era uma “conquista” , uma “satisfação” ter de sair de casa para colher espigas. Se Rute não o fizesse, ambas morreriam de fome! E agora, um fato interessante que faço questão de “esfregar na cara”  das integrantes do movimento feminista: ao trabalhar colhendo espigas, Rute foi ajudada e protegida por um HOMEM. Mas que coisa, não? “Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele que mo favorecer. Ela lhe disse: Vai, minha filha! Ela se foi, chegou ao campo e apanhava após os segadores; por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque. Eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores: O Senhor seja convosco! Responderam-lhe eles: O Senhor te abençoe! Depois, perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça? Respondeu-lhe o servo: Esta é a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe. Disse-me ela: Deixa-me rebuscar espigas e ajuntá-las entre as gavelas após os segadores. Assim, ela veio; desde pela manhã até agora está aqui, menos um pouco que esteve na choça. Então, disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem? Quando tiveres sede, vai às vasilhas e bebe do que os servos tiraram” (Rute 2.2-9) . Um tempo depois, Boaz pediu Rute em casamento e esta se tornou a bisavó do rei Davi, entrando na linhagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Salomão, filho de Davi, ao escrever sobre a mulher virtuosa, diz que esta trabalha. Mas, diferente do que as feministas defendem, a mulher descrita pelo rei é louvada justamente porque o faz pelo bem de sua casa, sua família, e não para competir com seu marido. “Busca lã e linho e de bom grado trabalha com as mãos. É como o navio mercante: de longe traz o seu pão. É ainda noite, e já se levanta, e dá mantimento à sua casa  e a tarefa às suas servas. Examina uma propriedade e adquire-a;  planta uma vinha com as rendas do seu trabalho. Cinge os lombos de força  e fortalece os braços. Ela percebe que o seu ganho é bom” (Provérbios 31.13-18) Com a vinda de Jesus Cristo a este mundo, a mulher foi elevada em sua dignidade e espiritualidade, sendo considerada tendo o mesmo valor que o homem. A difusão do cristianismo levou aos povos bárbaros e pagãos o entendimento de que a mulher não era um objeto sexual ou mercadoria, e sim um ser como alma. Mas, sendo o movimento feminista revolucionário em sua gênese, é de praxe que rejeite o cristianismo, mesmo com todas as provas de que foi ele o responsável pelo respeito à mulher. Antes, preferiram a “resistência”  e lutar contra o sexo masculino, inclusive inventando mentiras.  O objetivo nunca foi, é ou será luta por direitos, fim da violência ou coisa que o valha, mas sim a revolução sexual. Ana Caroline Campagnolo escreve em seu livro – “Feminismo, perversão e subversão”  - que as feministas anarquistas afirmavam que era um desserviço lutar por direito ao voto. Ou seja, “liberar geral”  sempre foi mais importante do que incluir mulheres na política, por exemplo. Em doses homeopáticas, o movimento feminista veio destruindo a mulher, tornando-a novamente um objeto sem alma: - retirar do cristianismo e da família a autoridade moral - retirar a fé em Deus e focar no racionalismo e na “educação” - inserção compulsória da mulher no universo masculino na Revolução Industrial - a luta pelo “direito ao voto” escondia ataques aos homens e ao cristianismo - “luta” pela emancipação sexual e ataques à família tradicional em sua segunda onda - “luta” em “defesa” do aborto - ascensão do movimento lésbico como ato político e de “resistência” contra os homens E é aqui que nasce o movimento red pill. O movimento tem sua origem no filme  Matrix  (1999), onde o protagonista Neo (Keanu Reeves) precisa escolher entre a pílula vermelha (que revela a realidade dolorosa) e a azul (que o mantém em uma ilusão confortável). A metáfora foi adotada por comunidades online para descrever o "despertar" dos homens para uma realidade onde seriam oprimidos pelas mulheres e pela sociedade moderna. Sua gênese foi dotada com “boa intenção” . Após anos de lavagem cerebral feminista que colocou mulheres contra homens, agora eles resolveram se defender dessas atrocidades. Então, começaram a difundir algumas “dicas” de como se defender de mulheres más. Confesso que algumas ideias do início do movimento não me soavam tão mal. Entre elas: - Realismo social : “enxergando o mundo como ele realmente é”, sem ilusões progressistas - Masculinismo : valorização de traços considerados tradicionalmente masculinos, como força, liderança, racionalidade e controle emocional; - Críticas ao feminismo : feminismo teria ultrapassado sua função original de promover igualdade, favorecendo mulheres em detrimento dos homens. Porém, devemos lembrar que, assim como o feminismo, o red pill também não aceita a ideia de Deus com centro de sua vida, apelando somente para a força física, racionalidade e capacidade de enriquecer. E obviamente que quando Deus é tirado da equação, a tendência de que tudo dê errado é de 100%. O discurso anterior era: - Cuidado com mulher que não quer compromisso - Cuidado com mulher que não respeita os pais - Se ela tem filho(s), verifique se é/são do mesmo pai e em quais circunstâncias se deu essa separação - Cuidado com mulher que valoriza baladas, bebedeiras ou coisas do tipo. Agora o movimento diz: - Não se envolva com mulher, não tenha relacionamento sério. Pagar uma garota de programa é mais barato - “Toda mulher é vagabunda até que se prove o contrário” - “Quem trabalha é a mulher feia” - “Não peça mulher em namoro/casamento” Qualquer semelhança com o feminismo não é mera coincidência. Um mal gerou outro mal e agora estão se digladiando  entre si. E os mais prejudicados são aqueles que não aderiram a nenhum dos movimentos, que procuram seguir uma vida digna e correta. E agora, a situação está escalonando para o nível de morte, para ambos os lados. Do lado feminista, aquelas que dizem “Elize Matsunaga já deu a dica” ; do lado red pill, os que afirmam “ Prefiro matar a ser chefiado por uma mulher”. Novamente, quando Deus é retirado da equação, é isso o que acontece: uma guerra dos sexos que impede o crescimento da sociedade e a formação de famílias. Mas, como sempre, a Bíblia tem resposta para isso e coloca cada um no seu devido lugar: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.25-28)    Leia o artigo: Liberdade de expressão - Somente para quem concordar comigo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Assim falava Tocqueville

    “Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar que se atribui a obrigação exclusiva de gratificá-los e presidir sobre seu destino. Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. Seria como uma autoridade de pai se, como essa autoridade, fosse seu propósito preparar os homens para a idade adulta; mas ele procura, ao contrário, mantê-los em perpétua infância: contenta-se em que o povo se divirta, contanto que não pense em outra coisa senão divertimento. Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer, mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade... Assim cada dia torna menos útil e menos frequente o exercício da livre capacidade do homem; circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente priva o homem de todos os usos que, de si mesmo, pode fazer.” Após esse recorte quase profético de Alexis de Tocqueville no capítulo 6, da parte IV do segundo volume de " A Democracia na América", continuaremos analisando, neste artigo, o Estado brasileiro e suas estratégias de controle social. Primeiramente, no artigo "Bismarck, Marx e os estados de bem-estar social"  introduzimos um dos mecanismos de controle social, mediante a oferta de benefícios sociais. Posteriormente, tratamos no artigo " Um golpe de master " sobre as relações de compadrio que se estabeleceram e se perpetuam entre os setores político e econômico, o que levou e leva a prejuízos à sociedade brasileira. Agora abordaremos movimentos contemporâneos que possuem, em seus princípios, auras de moralidade e interesses superiores, mas cujos fins nem sempre correspondem ao que deveriam ser. Se no final do século XIX o Estado brasileiro experimentou o poder da expansão sem lastro, hoje ele testa algo diferente, mas não menos ambicioso: o poder do controle total pela rastreabilidade. Não se trata de uma sucessão histórica, como se uma lógica tivesse substituído a outra. As duas coexistem, se complementam e se reforçam. Onde antes o excesso de crédito desorganizava a economia, agora o excesso de vigilância reorganiza a sociedade sob outro princípio: o da permanente justificativa. O discurso, novamente, é técnico. Fala-se em eficiência, segurança, modernização, combate a ilícitos. A linguagem mudou, os instrumentos se sofisticaram, mas o método permanece reconhecível. A política pública não se apresenta como coerção; apresenta-se como proteção. Não como limitação; como cuidado. O alvo declarado é sempre nobre o suficiente para desarmar resistências. O alvo real, porém, continua sendo o mesmo: o cidadão comum. O sistema de pagamentos instantâneos, o Pix, é um bom exemplo dessa engrenagem. Não há decreto instituindo imposto automático sobre transferências acima de determinado valor. O que há é algo mais elegante: normas que obrigam instituições financeiras a reportar à Receita Federal movimentações consideradas “atípicas” ou superiores a determinados patamares, hoje amplamente associados ao valor de cinco mil reais. O argumento oficial é o combate à evasão fiscal, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do crime. A consequência prática é outra: a inversão do ônus da prova. O cidadão passa a existir sob presunção de irregularidade, compelido a explicar ao Estado a origem de recursos lícitos, muitas vezes fruto de trabalho informal, bicos, ajuda familiar ou simples rearranjos patrimoniais. Não é coincidência que, paralelamente, avancem debates sobre a restrição ao uso de dinheiro em espécie. No Brasil e no exterior, organismos internacionais, autoridades monetárias e setores do Executivo discutem limites máximos para pagamentos em papel-moeda e até a criminalização da posse de grandes quantias sem justificativa prévia. O dinheiro físico — historicamente associado à autonomia individual e à privacidade econômica — passaria a ser tratado como anomalia. Quem sabe algum dia, o cidadão que carregue cinco mil reais na bolsa não será visto como alguém imprudente, mas como alguém potencialmente suspeito. A mensagem será clara: fora do radar, não há legitimidade. A mesma lógica se manifesta no tema das armas. Em 2005, o Brasil realizou um referendo nacional sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munições (Lei 10.826/2003). A população rejeitou a proposta de forma inequívoca com quase 64% de votos contrários. Ainda assim, ao longo dos anos, especialmente após a mudança de orientação política no Executivo federal, decisões administrativas e interpretações judiciais foram progressivamente esvaziando o sentido prático daquela consulta popular. O referendo foi respeitado, afinal, não era proibido vender, mas se tornou cada vez mais difícil comprar. Durante o governo Bolsonaro, houve flexibilização para CACs — colecionadores, atiradores e caçadores — dentro de um marco legal existente. No governo Lula, a guinada foi imediata: decretos restringindo calibres, quantidades, clubes de tiro e autorizações, sempre sob o discurso de combate ao crime organizado e à violência. Como se criminosos adquirissem armas em lojas, mediante registro e fiscalização. Como se a violência dependesse exclusivamente da venda de armas para ser percebida. O efeito real recaiu, novamente, sobre o cidadão regular, enquanto o crime seguiu operando fora da lei. O mesmo padrão aparece no debate sobre a inspeção veicular obrigatória. O Projeto de Lei nº 3507/2025, de autoria do deputado Fausto Pinato, do PP de São Paulo, propõe a retomada da vistoria técnica periódica para veículos em casos de transferência, recuperação de furto/roubo, clonagem, etc. O relator, o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), incluiu no substitutivo os veículos com mais de cinco anos de fabricação. A justificativa é a segurança no trânsito e a preservação ambiental. O histórico brasileiro, no entanto, recomenda cautela. Onde esse modelo vigorou no passado, proliferaram burocracia, custos adicionais para os mais pobres e corrupção em postos de vistoria. O impacto ambiental foi irrelevante; o impacto social, significativo. Ainda assim, a proposta pode retornar, agora com novo verniz técnico, beneficiando indiretamente montadoras, o mercado de veículos novos e bancos, enquanto penaliza quem depende do automóvel usado para transporte ou trabalho. Nenhuma dessas iniciativas é isolada. Nenhuma é fruto de um complô explícito. Elas operam de forma mais eficiente do que isso. Avançam fragmentadas, justificadas por causas moralmente inquestionáveis, embaladas por linguagem técnica e amparadas por instituições que raramente prestam contas à sociedade. O Estado não precisa mais confiscar, proibir ou reprimir de forma aberta. Basta arrecadar por meio de taxas, condicionar, monitorar e constranger. Poderíamos citar ainda a " Lei Felca " (Lei nº 15.211/2025), conhecida como ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026 para proteger menores de 18 anos na internet. Ela exige verificação de idade rigorosa, controle parental para menores de 16 anos, e proíbe a adultização e exploração infantil, com multas pesadas para plataformas. O princípio é louvável, proteger crianças e adolescentes, quem em sã consciência seria contra esta medida? Porém, carrega em si, de forma potencial, a possibilidade de monitoramento e controle de usuários e perfis de utilização, mesmo de adultos. O resultado é um cidadão formalmente livre, mas materialmente vigiado. Autorizado a agir, desde que explique. Autorizado a possuir, desde que registre. Autorizado a circular, desde que seja inspecionado. A coerção já não se apresenta como força; apresenta-se como procedimento. O uso de benefícios sociais como estratégia de atração e permanência na órbita de controle estatal, sem a promoção paralela da autonomia individual, tem se demonstrado útil para imobilizar e entorpecer a sociedade, e por consequência, o país. A história do Encilhamento nos ensinou que quando poder político, econômico e jurídico se alinham sem freios, o risco deixa de ser exceção e se torna método. Hoje, o lastro não é mais o ouro, nem a produção. É o dado. É o registro. É a rastreabilidade total como condição de existência legítima, é a arrecadação. A alternativa não está na negação da lei, nem na idolatria do indivíduo isolado, tampouco na fantasia de uma liberdade sem responsabilidade. Está na recuperação da autonomia real, daquela que impõe limites ao Estado, exige transparência das instituições e recusa a ideia de que todo cidadão é um suspeito em potencial e um tutelado dependente. Liberdade não é ausência de regras; é a recusa em aceitar que o controle seja o preço permanente da ordem. Leia o artigo: UM GOLPE DE MASTER Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

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