
MENEZES COSTA
"Com conhecimento se constrói cidadania!"
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- A importância do cristão na política
A presença do cristão na política é um tema que desperta debates profundos, pois envolve a relação entre fé, cidadania e responsabilidade social. Para muitos pensadores cristãos, a participação na vida pública não é apenas um direito, mas uma expressão concreta do compromisso com o bem comum. A fé, quando vivida de forma madura, não se limita ao espaço privado; ela inspira atitudes, valores e escolhas que podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana. A política, entendida em seu sentido mais amplo, é o espaço onde se tomam decisões que afetam a vida de todos. Por isso, afastar-se dela significa abrir mão da oportunidade de influenciar estruturas que moldam a dignidade humana, o cuidado com os vulneráveis e a promoção da justiça. Muitos autores cristãos afirmam que a fé deve gerar frutos na história, e um desses frutos é o compromisso com a transformação social. Assim, quando um cristão se engaja politicamente, seja votando de forma consciente, participando de debates públicos ou ocupando cargos de liderança, ele exerce sua vocação de servir. Entretanto, essa participação não deve ser confundida com imposição religiosa. A tradição cristã enfatiza a liberdade de consciência e o respeito à pluralidade. O papel do cristão na política não é impor dogmas, mas testemunhar valores como honestidade, compaixão, integridade, defesa da vida e promoção da paz. Esses princípios, quando vividos com coerência, podem iluminar decisões e inspirar práticas políticas mais éticas. A política não se torna um “púlpito”, mas um espaço de serviço, onde a fé se traduz em ações concretas em favor do próximo. Outro aspecto importante é que a presença cristã na política pode atuar como força crítica diante de injustiças. A fé cristã sempre carregou uma dimensão profética, chamando atenção para desigualdades e abusos de poder. Quando cristãos se posicionam com base em valores éticos, eles contribuem para que a política não se reduza a interesses particulares, mas recupere sua vocação de promover o bem comum. Isso exige discernimento, diálogo e humildade, pois a política é complexa e envolve múltiplas perspectivas. Por fim, a importância do cristão na política também se manifesta no testemunho cotidiano. Mesmo quem não ocupa cargos públicos exerce influência ao participar de sua comunidade, ao dialogar com respeito e ao votar com responsabilidade. A política não é apenas o que acontece nos altos escalões do poder; ela começa nas pequenas escolhas que moldam a convivência social. Assim, o cristão é chamado a ser presença de esperança, contribuindo para uma sociedade mais fraterna e comprometida com a dignidade de todos. Leia o artigo: Grande Irmão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- A Lei de terras na Terra das leis
O Brasil é um país injusto por definição. Um país erguido sobre a desigualdade, sustentado pela concentração de riqueza e pelo monopólio da terra. No campo, a terra sempre foi de poucos; na cidade, o trabalho sempre foi de muitos. Milhões vivem à margem enquanto uma elite histórica mantém, geração após geração, o controle dos meios de produção e do poder político. A raiz desse problema é clara, direta e conhecida: a concentração fundiária. E o marco decisivo dessa injustiça tem data, tem responsáveis e tem método. Em 1850, a Lei de Terras foi criada para impedir que o povo tivesse acesso à terra. Foi o golpe jurídico que garantiu que, mesmo com o fim da escravidão, os pobres continuassem presos à miséria, agora não mais por correntes, mas pela falta de propriedade. Essa lei não foi um acidente. Foi uma escolha política consciente, arquitetada por uma classe dominante composta por grandes proprietários rurais que controlavam o Parlamento, o Estado e o destino do país. O Império, longe de ser neutro, atuou como fiador dessa estrutura. D. Pedro II, liberal nos salões e humanista nos discursos, sancionou uma legislação que condenou o povo brasileiro à exclusão permanente. Tudo o que vemos hoje — a pobreza no campo, as periferias superlotadas, a desigualdade brutal — é consequência direta dessa decisão histórica. A Lei de Terras explica o Brasil. Explica por que poucos têm tanto e tantos não têm nada. Explica por que a terra nunca foi de quem nela trabalha. Alto lá! O que você acabou de ler não é o argumento deste texto. É a narrativa pronta, repetida à exaustão em universidades, alguns livros didáticos, discursos militantes e manuais ideológicos. Uma narrativa que parte do presente, escolhe seus vilões no passado e organiza os fatos para confirmar uma conclusão já estabelecida. A partir deste ponto, o texto interrompe esse automatismo interpretativo. Em vez de começar pelos resultados e buscar culpados retrospectivos, propõe voltar à cronologia dos acontecimentos, examinar contextos, comparar processos históricos distintos e perguntar, sem slogans, o que de fato ocorreu — e o que foi construído depois como explicação. Vamos começar conhecendo um outro cenário, desenvolvido na Inglaterra entre os séculos XVI e XVIII. Nos referimos a uma série de atos parlamentares conhecidos genericamente como Enclosure Acts - ou Leis de cercamentos - que autorizou o cercamento de terras comunais. Essas terras, até então utilizadas coletivamente para pastoreio, coleta de lenha e agricultura de subsistência, passaram a ser delimitadas e apropriadas de forma privada. O fato histórico central é claro: os cercamentos provocaram um deslocamento populacional significativo. Pequenos camponeses perderam acesso aos meios tradicionais de subsistência e migraram para vilas e cidades. Houve, portanto, êxodo rural. Outro fato igualmente documentado é que, paralelamente a esse processo, a Inglaterra vivia transformações técnicas profundas. Mesmo com a crescente disponibilidade de mão de obra, a mecanização industrial não diminuiu — ao contrário, acelerou-se. A indústria têxtil, a mineração e, mais tarde, a siderurgia investiram intensamente em máquinas que poupavam trabalho humano. Esse aparente paradoxo histórico — abundância de trabalhadores e, ainda assim, avanço tecnológico — contraria a máxima simplificadora de que mão de obra barata desestimula a inovação. Foi também nesse contexto que surgiram reações violentas como o ludismo, caracterizado pela destruição de máquinas. O ludismo não foi um movimento teórico contra o capitalismo, mas uma reação prática e localizada ao desemprego tecnológico, evidenciando que a mecanização era percebida como ameaça real mesmo em um cenário de excesso de trabalhadores. Assim, no caso inglês, mesmo em face da concentração fundiária nas mãos de poucos, em razão do pragmatismo econômico voltado à atividade industrial, a mão de obra disponível migrou para as fábricas, ajudando a fortalecer a revolução tecnológica que já havia sido iniciada ainda no século XVIII. A Lei de Terras brasileira nasce em um contexto profundamente distinto. O Brasil de meados do século XIX não enfrentava escassez de terra, mas o oposto: abundância territorial, baixa densidade populacional, economia majoritariamente agrária e baseada no trabalho escravo. Até 1850, a ocupação da terra ocorria sobretudo por posse, muitas vezes informal. A lei introduziu um novo princípio: a terra pública só poderia ser adquirida por compra. Trata-se de um fato jurídico e administrativo, não de uma inovação isolada no mundo moderno. É igualmente factual que a lei dificultou o acesso à terra por parte da população mais pobre. Mas daí não decorre, automaticamente, que seu objetivo central fosse criar um proletariado rural ou urbano dependente dos grandes latifúndios, afinal, naquele momento a mão de obra era escrava. A questão que desloca e desequilibra os efeitos da lei é que, a partir do fim da escravidão em 1888, o Brasil sequer possuía um parque industrial capaz de absorver massas de trabalhadores livres. A aplicação da lei foi geograficamente irregular, incompleta e frequentemente ignorada nas fronteiras agrícolas. Seus efeitos foram lentos e desiguais, muito diferentes do impacto relativamente rápido dos cercamentos ingleses. Há semelhanças superficiais entre os dois processos: ambos envolvem legislação fundiária, redefinição do acesso à terra e consolidação da propriedade privada. Mas as diferenças estruturais são decisivas. Na Inglaterra, os cercamentos ocorreram em uma economia já integrada a mercados, com pressão demográfica, escassez relativa de terra e um processo industrial em curso. No Brasil, a Lei de Terras foi promulgada em um país escravocrata, territorialmente vasto, pouco industrializado e sem um mercado de trabalho livre plenamente constituído. Os meios também diferem: os cercamentos reorganizam o uso de terras já intensamente exploradas; a Lei de Terras buscava ordenar juridicamente um espaço ainda pouco controlado pelo Estado principalmente nos rincões distantes. Quanto aos efeitos, enquanto na Inglaterra o êxodo rural alimentou diretamente a industrialização, no Brasil os efeitos foram diluídos no tempo e atravessados por outros fatores: imigração, fim da escravidão, urbanização tardia e, décadas depois, industrialização. A leitura marxista tradicional tende a atribuir intenção unívoca aos agentes históricos. No caso brasileiro, isso implicaria supor que D. Pedro II e o Estado imperial agiram conscientemente para produzir uma massa de trabalhadores sem-terra. Essa interpretação ignora um dado relevante: o imperador dispunha do Poder Moderador e não se opôs à lei. Homem culto, humanista, liberal e atento às experiências estrangeiras, dificilmente desconheceria seus efeitos potenciais. Isso sugere que a lei foi percebida como necessária à organização institucional do país, ainda que seus resultados fossem socialmente imperfeitos. É plausível reconhecer o interesse econômico da elite agrária — mas é essencial tratá-lo como incidental e contingente, não como explicação totalizante. A história posterior demonstra que o próprio capital agrário se adaptou, migrou e, em parte, financiou a industrialização quando o eixo do poder econômico se deslocou a partir dos anos 30. O surgimento da Lei de Terras, diante da falta de um alicerce industrial, diferentemente do caso inglês, provocou no Brasil uma ruptura entre o homem e a terra. Não havendo meios econômicos, a terra permaneceu ainda por muito tempo distanciada do homem comum, apesar da vastidão do nosso território. Os processos históricos não são estanques nem moralmente lineares. Leis produzem efeitos imprevistos, elites se reorganizam, interesses mudam e estruturas se ajustam a novas circunstâncias. Reduzir a Lei de Terras a um ato de pura maldade e interesse de classe é tão limitante quanto ignorar seus efeitos excludentes. Uma leitura ancorada na cronologia dos fatos, na comparação institucional e na análise prática e histórica, permite compreender a complexidade do processo sem recorrer ao maniqueísmo. Infelizmente, a solução mais óbvia e recorrentemente laureada pelo meio acadêmico - a reforma agrária - com a distribuição formal de lotes de terra a trabalhadores interessados na produção de subsistência e na venda dos excedentes de produção, morre na entrega das escrituras. Um homem sadio e motivado e uma terra produtiva não são suficientes para garantir a sobrevivência de um projeto. Oferecer a terra sem proporcionar os meios de acesso a sementes, treinamento, máquinas e equipamentos, vias de comercialização dos excedentes, infraestrutura de suporte, não é política de Estado com vistas ao desenvolvimento social, é marketing político com fins eleitoreiros. A análise dos processos históricos, como a Lei de Terras, com uso de lentes de aumento para as realidades sociais do nosso país, sem um olhar honesto e em perspectiva histórica, é panfleto ideológico de suporte a políticas de manutenção de poder, maquiada para simular política social de inclusão. Todo efeito resulta de uma ou mais causas, entendidas como eventos ou condições que produzem outros eventos — isso caracteriza a causalidade. Já a correlação é uma relação de associação entre fatos ou variáveis, na qual eles ocorrem juntos ou variam conjuntamente, sem que isso implique, necessariamente, uma relação de causa e efeito. Mas esquecer essa lógica simples na criação de slogans panfletários, parece ser uma técnica muito comum para iludir as massas. Não devemos esquecer que slogans são reduções de ideias complexas ao nível de títulos simples e engajantes, porém, a história, quando observada de perto, raramente confirma slogans. Quase sempre os desmente. Dentro do sistema político do Império, o imperador atuava mais como árbitro do que como reformador direto. O máximo plausível seria usar sua influência para favorecer gabinetes mais reformistas e manter o tema da terra em pauta, sem confronto direto com as elites agrárias. A monarquia dependia das elites rurais que se beneficiavam da concentração fundiária. Qualquer tentativa mais ousada de democratização da terra teria alto custo político — possivelmente semelhante ao que levou ao desgaste final do regime antes da Proclamação da República, proclamação que acabou entregando o controle do Estado àquelas elites rurais. Assim, D. Pedro II não foi o responsável pela pobreza e desigualdade que vemos na atualidade; ele era, em verdade, a última barreira que impedia o avanço dos setores econômicos ligados ao campo e à terra ao controle total do Estado. Se algo tivesse sido tentado no sentido de alterar a Lei de Terras, provavelmente seria lento, indireto e limitado, focado em colonização, crédito e incentivos — não em redistribuição estrutural. Ainda assim, mesmo medidas modestas poderiam ter alterado parcialmente o destino social dos libertos, caso fossem implementadas com continuidade. E então veio a República; mas aí... é uma outra história. Leia o artigo: Assim falava Tocqueville Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- Estudando o Fascismo
Parte 1 – A origem O famoso escritor George Orwell escreveu um ensaio denominado “O que é fascismo?”, em 1944, que foi publicado no periódico Tribune, de Londres. Naquele tempo, o regime estava em processo de queda, com seu total declínio ocorrendo em 1945. Neste ensaio, Orwell não se habilita a responder seu próprio questionamento, mas expôr uma problemática que se instalou em seus dias: rotular qualquer opositor de fascista. O autor descreve alguns dos grupos que recebem o rótulo: conservadores, socialistas, comunistas, trotskistas, católicos, nacionalistas, apoiadores e opositores à segunda guerra. Ao final, Orwell conclui que “será constatado que, da forma que é empregada, a palavra ‘fascismo’ é quase desprovida de significado”. Ou seja, esvaziada de seu sentido real, o termo tornou-se equiparado a um insulto qualquer, tal como “troglodita” – esta comparação, inclusive, foi feita pelo próprio autor em seu artigo. A problemática exposta por Owell, infelizmente, perdura até os nossos dias. Talvez até mesmo o leitor há tenha sido alvo de ataques deste jaez por alguém de ideologia diferente da sua, principalmente em ano eleitoral, como o que estamos. Tal qual fez Orwell, não pretendo esboçar uma tese de mestrado sobre o tema. Primeiro porque esta não é a minha pretensão; segundo porque não conseguiria fazê-lo em dois ou três artigos. Vislumbro sim, descortinar a verdade sobre o regime, de forma simples e direta, mostrando ao leitor que nenhum dos grupos mencionados por Orwell em seu artigo são fascistas – aliás, nem ele próprio os considerava. E mais: provar que o fascismo não é de direita. O ano era 1919. A Itália, embora saísse vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, passou por uma grave crise com agitação social conhecida como "Biênio Vermelho" (greves e ocupações). O país saiu do conflito com sua economia arruinada e enfrentando uma profunda crise social e política. Embora tenha lutado ao lado dos vencedores (Tríplice Entente), sofreu consequências devastadoras devido ao alto custo do conflito, o que gerou um sentimento de insatisfação popular conhecido como "vitória mutilada”. Além disso, não recebeu todos os territórios prometidos no Tratado de Londres. Neste cenário surge Benito Amilcare Andrea Mussolini. Seu nome foi escolhido pelo seu pai, que queria homenagear Benito Juárez, líder revolucionário e ex-presidente do México, enquanto seus outros nomes, Amilcare e Andrea, eram dos socialistas italianos Amilcare Cipriani e Andrea Costa, o último fundador do Partido Socialista Revolucionário da Romagna. Não entraremos em detalhes de sua infância, mas é importante citar que o pai de Mussolini era socialista e um dos principais responsáveis por influenciar fortemente suas ideias políticas ainda na infância, as quais seriam aplicadas posteriormente. Mais tarde, essas influências ganharam robustez quando ele fugiu para a Suíça, em 1902, com a intenção de não cumprir o serviço militar. Lá, conheceu as obras de Friedrich Nietzsche, o sociólogo Vilfredo Pareto, e o sindicalista revolucionário Georges Sorel, sobre quem Mussolini declarou: "O que eu sou, eu devo à Sorel”. Além destes, era ferrenho entusiasta de Friedrich Engels e Karl Marx, sendo considerado um intelectual. Mais tarde viria a creditar o marxista Charles Péguy e o sindicalista Hubert Lagardelle como algumas de suas influências. A ênfase de Sorel sobre a necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, ação direta, greve geral, e o uso do neo-maquiavelismo apelando à emoção o impressionou demasiadamente. No período, juntou-se a pedreiros e trabalhadores sindicais, dos quais mais tarde se tornou secretário da união dos trabalhadores italianos em Lausanne, e em 2 de agosto de 1902 publicou seu primeiro artigo no L'Avvenire del Lavoratore, o jornal dos socialistas suíços. Na Suíça, Mussolini se declarou ateu. Chegou a desafiar a Deus para provar sua existência e considerou Nosso Senhor Jesus Cristo como ignorante e louco, chamando a religião de uma forma de doença mental que merecia tratamento psiquiátrico e acusou o cristianismo de promover resignação e covardia. Inclusive, seu primeiro livro é uma espécie de tratado ateísta, intitulado “Homem e divindade: Deus não existe”. Em seu retorno à Itália, Mussolini obteve licença para lecionar. Como jornalista, tornou-se colunista do panfleto socialista La Lima. Nele, tecia severas críticas ao governo e especialmente ao cristianismo. No mesmo período, participou de manifestações e liderou algumas greves e chegou a ser preso. Em 1909, Mussolini mudou-se para Trento, que à época, era controlado pelo Império Áustro-Húngaro, para assumir o cargo de secretário do partido trabalhista da cidade, além de também ter atuado no partido socialista local, onde trabalhou na edição do jornal L'Avvenire del Lavoratore. Em setembro daquele ano, Mussolini foi preso acusado de incitar rebelião contra o império e, posteriormente, foi expulso, retornando à Itália. Este episódio repercutiu no país e ajudou a elevar sua popularidade entre os progressistas. Em 1910, foi escolhido como secretário da Federação Socialista de Forlì, e em 1912, foi promovido a editor do jornal do Partido Socialista. Sob sua liderança, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 mil para 100 mil exemplares obtendo admiração até mesmo de Antonio Gramsci. Mais uma vez, não entraremos em detalhes da vida pessoal de Mussolini. Contudo, creio ser importante sinalizar que ele, segundo seu mordomo, Quinto Navarra, teve em torno de sete mil amantes. O início do que conhecemos como fascismo se deu em 1914, quando Mussolini, por meio do Partido Socialista, declarou neutralidade na guerra. Para ele, o confronto não traria benefícios para o povo italiano. Contudo, foi influenciado a mudar de opinião, principalmente por pensar que os socialistas alemães haviam traído a Segunda Internacional, já que eles que levantaram "a bandeira da Internacional Socialista foram os primeiros a jogá-la na lama" após seu apoio à entrada da Alemanha. Para Mussolini, a guerra serviria para a derrubada das monarquias Hohenzollern e Habsburgo, que, segundo ele, sufocavam o socialismo. Porém, a linha adotada por Mussolini não agradou os membros do partido. Para ele, as organizações socialistas deveriam ter apoiado a guerra entre as nações, com a consequente distribuição de armas ao povo, e depois transformado em uma revolução armada contra o poder burguês. Isso foi registrado no manifesto Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista, publicado em outubro daquele ano. Em novembro, foi expulso do partido. Em 1915, fundou o Partido Revolucionário Fascista, que se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Diversos confrontos ocorreram entre os grupos. Em 1919, iniciou-se o Biênio Vermelho, período de dois anos de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Em 6 de junho do mesmo ano, foi publicado oficialmente o Manifesto dei Fasci italiani di combattimento, comumente conhecido como Manifesto Fascista. O documento foi publicado no Il Popolo d’Italia, jornal fundado por Mussolini, e trazia exigências em tópicos que abrangiam a situação política, social, militar e financeira do país naquela ocasião. Alguns deles eram: - abolição do senado - entrega às organizações proletárias da gestão de serviços públicos - imposto extraordinário progressivo sobre o capitalismo - confisco de todos os bens das congregações religiosas e abolição das rendas episcopais Todos os itens foram retirados ipsis literis do Manifesto Comunista, escrito por Marx. Em 9 de outubro, o Primeiro Congresso Fascista foi realizado em Florença, onde foi decidido concorrer às próximas eleições políticas sem aderir a nenhuma aliança. Os fascistas, liderados por Mussolini, propuseram um programa "decididamente esquerdista" e anticlerical. Mussolini saiu derrotado de sua primeira eleição, em 1919. Os socialistas obtiveram quarenta vezes mais votos, e em sua cidade natal, ele não obteve sequer um único voto. Então, mudou a estratégia. Obtendo um discurso mais moderado, ele conseguiu financiamento para o Segundo Congresso Fascista de empresários do setor da indústria. Em 1921, Mussolini aceitou o pedido de Giovanni Giolitti para ingressar no “Bloco Nacional”, um grande bloco de esquerda que incluía o Partido Social-democrata Italiano, a Associação Nacionalista Italiana e o Partido Liberal Italiano. A atitude trouxe resultados: nas eleições gerais da Itália em 15 de maio de 1921, os fascistas conquistaram 35 cadeiras no parlamento italiano, incluindo o próprio Mussolini. Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Mussolini tomou o poder. Continua… Leia o artigo: Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- O juízo que desejamos
“Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja imparcial e ético” Cármen Lúcia, Ministra do Supremo Tribunal Federal. A frase poderia e deveria ser vista com naturalidade, em especial sendo proferida por um membro da mais alta Corte de um país que se apresenta como democrático, que alega prezar pelo devido processo penal como base inafastável para o exercício da função jurisdicional do Estado, todavia, boa parte dos brasileiros, reagiu em choque ao perceber que a imparcialidade do julgador importa quando o réu pertence ao grupo dos humanos que ainda parecem gozar dos direitos fundamentais que, para a mesma parte da população, foram subtraídos daqueles que não se associaram ao regime. Aqueles, outrora chamados de milhões de pequenos tiranos, também sonham com um mundo no qual não sejam julgados por alguém que os rotulara de tal forma, bem como, por juízes imparciais que não comemorem a derrota de um grupo político, que não sejam declaradamente filiados a uma ideologia que prega, sem cerimônias, o extermínio de opositores, como afirmado pelo Professor Elias Jabuor e outras tantas vozes revolucionárias, e, principalmente, por aqueles que se consideram vítimas daqueles a quem julga, posto que, naturalmente, se sentiriam inclinados a condenar seus supostos algozes, aplicando-lhes penas injustas e desproporcionais. Ser julgado por alguém ético e imparcial deveria ser uma garantia estendida a todos, entretanto, não são raros os julgamentos promovidos apenas para dar verniz de legalidade a uma vendeta promovida por detentores do poder. Na prática, estaríamos diante de um teatro feito para convencer os mais ignorantes de que há algo normal quando tudo o quê ocorre é a punição de um desafeto sem o devido processo legal. Espantoso, no entanto, é que um magistrado da mais alta corte do Poder Judiciário mencione o temor, injustificado, de ser julgado per um juízo inclinado, cogitando que tal aberração sequer ocorra. Diante do comentário, não podemos nos olvidar quanto ao fato de a chamada Justiça especializada ser, no mínimo, uma presença preocupante em nosso ordenamento jurídico, pois sua existência presume inclinação, portanto, o temor de que todo juízo alegado especializado seja um julgador parcial não deve ser ignorado. Se o legislador, acreditando que há um desequilíbrio natural entre as partes em um processo, como nos casos da legislação trabalhista ou consumerista, tenta equalizar tal relação através da norma, ao criar um juízo especializado, como a Justiça do Trabalho, faz com que a parte que recebeu menor proteção legal enfrenta um juízo tendencioso, que tem como missão tratar de forma díspar as partes, trazendo uma distorção quase invencível ao indivíduo que foi considerado privilegiado pelo legislador. Nos casos das relações trabalhistas e consumeristas, a lei deveria ser o suficiente para equilibrar a relação processual, entretanto, o juízo que vê o empregador como um déspota que explora a força de trabalho de forma abusiva como regra, parecendo um tribunal socialista, deveria causar estranheza quando, nem mesmo os juízes desejam um julgamento por alguém parcial. No direito consumerista, em que pese à legislação traga proteção especial ao consumidor, o juízo ordinário se torna uma oportunidade para que a parte menos favorecida por lei possa, apresentando argumentos plausíveis, convencer o julgador que a posição jurídica de vantagem o assiste. Não trataremos dos juizados de violência contra a mulher, uma vez que, a legislação já passível de críticas e com forte tendência a acirramento, trouxe o primeiro juízo criminal em que o réu recebe a pecha de presumidamente culpado. Qualquer homem diante de um juízo declaradamente feminista, que abraça os conceitos de tal ideologia sem qualquer pudor, uma vez que, se nega ao questionamento de suas narrativas, sabe que está diante de um juízo parcial, de maneira que, a súplica da Ministra Cármen Lúcia poderia, sem constrangimento, ser invocada por todo réu diante de tal órgão do Judiciário. Por outro lado, salta os olhos ver que, nosso ordenamento jurídico agasalha, sem cerimônias, as chamadas varas de fazenda pública, que julgam ações cuja Administração Pública figure como parte processual, de maneira que, além das proteções legais, sejam as cláusulas leoninas, que seriam consideradas abusivas caso impostas por particulares, e a primazia do interesse público, que deixa o poder estatal em flagrante vantagem, regras que privilegiam o lado mais forte da relação, as varas de fazenda pública trazem um juízo que facilmente visto como parcial e, no caso, antiético. O Estado cria as regras, admite que a Administração Pública imponha regras contratuais que, não fosse ela, seriam abusivas, impõe uma primazia sobre os particulares e, além das vantagens estabelecidas por lei, cria um juízo específico para viciá-lo. Ainda há quem defenda o chamado contencioso administrativo. Aos que não compreendem bem a necessidade de um juízo imparcial, já mencionamos o quão seria reprovável um árbitro de futebol que, ao final do jogo, se declara torcedor de um dos times. No entanto, parece que a deficiência cognitiva impede que boa parte veja, com ainda maior grau de reprobabilidade, que magistrados se declarem adeptos de determinadas ideologias ou inimigos declarados de um espectro político. O Judiciário parcial é contrário à sua própria essência, posto que, espera-se do juízo a equidistância necessária para que suas decisões não se maculem, logo, um juiz parcial é um fardo que a sociedade suporta pela imposição legal, em que pese tal figura seja imprestável, uma vez instituído por lei e arrogante demais para se reconhecer como algo que sequer deveria existir. Distante das vidas comuns, alguns juízes acabam ignorando seu dever de dizer o direito, se colocando como nobres parasitas que propagam sua ideologia doentia ou simplesmente repousam em seus tronos de privilégios. Por óbvio, há magistrados que estão imbuídos de sua missão e se desdobram para julgar com justiça e não com o fígado maculado por vícios ou paixões revolucionárias. Juízes não deveriam ser agentes da mudança, tampouco editores de uma nação, não há coragem em um juízo que se move, pois sua inércia é indispensável à legitimidade de seus julgamentos. Não se espera uma Justiça heroica, em verdade, a maior virtude de um julgador é se superar suas paixões humanas. O desejo da Ministra do Supremo Tribunal Federal não é algo único, na verdade, todo brasileiro tem o mesmo sonho e pede a Deus que nunca seja julgado por um juiz parcial ou antiético, entretanto, boa parte dos cidadãos teme que não ter a mesma sorte dos demais. Há brasileiros que se espiam como relegados, figuras que não têm direito ao tão desejado juízo imparcial, pois são chamados de pequenos tiranos ou adjetivados por termos abjetos seguidos do sufixo “ismo” que, segundo boa parte dos julgadores, devem ser extintos. Temendo “um bom paredão e uma boa cova” muitos dos milhões de pequenos tiranos clamam por uma Justiça imparcial e ética, mas, cada vez mais, percebem que as narrativas progressistas engoliram as mentes de seus julgadores. Promotorias e defensorias que defendem as autointituladas minorias perseguem abertamente os que se manifestam contra a ideologia que se denominou progressista, ao passo que, juízes agasalham teses de infundadas como a ideologia de gênero, o racismo estrutural e outras tantas farsas que criminalizam a consciência dos cidadãos. O clamor por uma Justiça na qual seus membros deixem suas ideologias de lado e reconheçam o mal que se tornou o chamado ativismo judicial, resulta dos desvios do Poder Judiciário que segue negando sua queda, apesar de evidente. A Revolução Francesa alegava combater os abusos da monarquia, limitando os poderes dos absolutistas. Ignorando todo o mal que emergiu em razão de tal movimento, verificamos que o poder dos reis precisava, de fato, de limitação, como ocorrera no Reino Unido com a Carta Magna, todavia, os revolucionários, que só queriam o trono para si, acabaram se tornando um mal maior que o monarca que derrubaram, por tal razão, tornou-se necessário limitar o legislativo, dando poderes ao Judiciário, cuja legitimidade decorria de sua natureza tecnocrata. O ativismo judicial matou a essência do Judiciário e a sociedade deverá impor limites a tal poder, até lá, nos resta pedir a Deus que sejamos julgados por juízes imparciais e éticos, ainda que tais figuras sejam cada vez mais raras. Leia o artigo anterior: Um baile sem máscaras Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867
- Grande Irmão
Vivemos um tempo em que a tecnologia promete onisciência, governos buscam onipresença e empresas tentam moldar comportamentos como se fossem capazes de ler almas. A vigilância digital, antes tema de ficção científica, tornou‑se parte da rotina. E, enquanto isso acontece, cresce um silêncio perigoso: o silêncio de uma sociedade que se acostumou a ser observada. Para quem tem fé, esse cenário deveria causar ainda mais inquietação. Afinal, desde quando aceitamos que máquinas e governos disputem o lugar que, na tradição religiosa, pertence apenas a Deus? A vigilância digital não é neutra. Ela nasce de decisões políticas, de interesses econômicos e de estruturas de poder que se expandem sem debate público. Quando governos e corporações acumulam dados sobre cada passo, cada busca, cada conversa, eles passam a exercer um tipo de controle que ultrapassa o campo administrativo e invade o campo moral. Em muitas tradições religiosas, a liberdade é vista como dom divino — condição para que o ser humano escolha o bem, construa sua consciência e desenvolva sua espiritualidade. Mas como exercer liberdade quando cada gesto é monitorado, registrado e analisado? A vigilância constante não apenas limita ações; ela molda comportamentos. E comportamento moldado não é liberdade, é condicionamento. Em 1984, George Orwell descreveu um Estado que vigiava seus cidadãos por meio das teletelas. O “Grande Irmão” era símbolo de um poder absoluto que não apenas observava, mas também julgava e punia. Hoje, não precisamos de um ditador para isso. Carregamos nossas próprias teletelas no bolso. A comparação é inevitável: 1984 vs. Mundo Atual 1. Vigilância - 1984: O Estado vigia todos por meio das teletelas. - Atual: A vigilância é distribuída entre governos, empresas e até pessoas comuns — todos com celulares e redes sociais. 2. Controle - 1984: O controle é explícito, imposto por um regime totalitário. - Atual: O controle é sutil, disfarçado de conveniência, segurança e personalização. 3. Censura - 1984: A censura é direta, oficial e violenta. - Atual: A censura é social — feita por cancelamentos, julgamentos públicos e algoritmos que filtram o que vemos. 4. Doutrinação - 1984: A doutrinação é estatal, com propaganda e reescrita da história. - Atual: A doutrinação é cultural, acelerada por crises como a pandemia, onde muitos foram condicionados a vigiar e punir o outro. 5. O Grande Irmão - 1984: É uma figura central, um líder absoluto. - Atual: O “Grande Irmão” é difuso — está nos sistemas, nas plataformas, nos vizinhos, nos colegas, nos próprios usuários. 6. Liberdade - 1984: A liberdade é abolida. - Atual: A liberdade é negociada, enfraquecida, trocada por conforto digital — e muitas vezes, abandonada voluntariamente. 7. Olhar - 1984: O olhar do Estado é opressor. - Atual: O olhar da sociedade é normativo, moralista, vigilante — e muitas vezes, cruel. 8. Espiritualidade - 1984: A fé é proibida, o Estado é deus. - Atual: A fé é tolerada, mas a tecnologia disputa o lugar do sagrado, oferecendo controle, previsibilidade e “salvação” digital. Orwell imaginou um governo que queria ser Deus. Hoje, empresas e sistemas querem ser oniscientes, onipresentes e onipotentes, atributos que, na fé cristã, pertencem apenas ao divino. Mas o novo “Grande Irmão” não está no governo, está ao nosso lado. A vigilância contemporânea não vem apenas de cima. Ela vem dos lados. Não é mais necessário um Estado totalitário para controlar comportamentos. A própria sociedade assumiu esse papel. Hoje, vizinhos vigiam vizinhos, colegas monitoram colegas, amigos fiscalizam amigos. E, pior: cancelam, julgam e punem sem que qualquer autoridade dê a ordem. A pandemia acelerou esse processo. Muitos foram doutrinados pelo medo, pela polarização e pela avalanche de informações. Outros se tornaram vigilantes morais, prontos para denunciar, expor e condenar quem não seguisse o comportamento considerado “correto”. O controle deixou de ser institucional e passou a ser cultural. O “Grande Irmão” não é mais um líder autoritário. É a própria multidão. E uma multidão doutrinada pode ser mais opressora do que qualquer governo. O olhar de Deus liberta; o olhar do algoritmo, e da multidão, aprisiona. Há uma diferença fundamental entre o olhar divino e o olhar tecnológico ou social. - O olhar de Deus, segundo a tradição religiosa, é um olhar que conhece para amar, orientar e libertar. - O olhar do algoritmo e da sociedade vigilante conhece para prever, manipular e controlar. Um busca a transformação interior. O outro busca a conformidade exterior. Quando a sociedade aceita ser monitorada o tempo todo, seja por máquinas ou por outras pessoas, ela troca a liberdade espiritual por uma sensação artificial de segurança. Troca a consciência por medo de julgamento. Troca a autonomia por aprovação social. E, aos poucos, deixa de ser protagonista da própria história. A vigilância digital cria uma nova forma de idolatria: a idolatria da eficiência, da conveniência e do controle. Mas a vigilância social cria outra: a idolatria da moralidade pública, do comportamento padronizado, da punição coletiva. Nenhuma sociedade pode permanecer livre quando aceita ser observada sem limites, seja por governos, empresas ou pela própria população. É preciso afirmar com clareza: - Nenhum governo deve ter poder absoluto sobre a vida privada. - Nenhuma empresa deve conhecer mais sobre nós do que nossas próprias famílias. - Nenhum grupo social deve se tornar juiz da consciência alheia. A fé sempre ensinou que a liberdade é sagrada. E o sagrado precisa ser defendido. Proteger a privacidade não é apenas um ato político. É um ato espiritual. - Cobrar transparência de governos e empresas é proteger o livre-arbítrio. - Resistir ao cancelamento e à vigilância social é preservar a consciência individual. - Educar para o uso ético da tecnologia é cuidar da sociedade como um todo. Se não fizermos isso, corremos o risco de viver não apenas a distopia de Orwell, mas uma distopia ainda mais profunda: aquela em que o ser humano esquece que foi criado para ser livre. Leia o artigo: Um chamado à reflexão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867
- Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill
Em todo ano, no mês de março, presenciamos o velho discurso feminista no Dia Internacional da Mulher. Em virtude dos últimos acontecimentos noticiados de atos violentos contra a mulher, a data este ano recebeu maior carga de militância do que o habitual. É fato que a mulher, sendo a parte mais frágil (1º Pedro 3.7), necessita de proteção e amparo, não nego isso. Contudo, o feminismo faz exatamente o contrário, ao dizer asneiras como “todo homem é um estuprador em potencial”. O movimento feminista espalha falsamente que a mulher não possuía NENHUM “direito” no passado, e que surgiu para trazer justiça social e equidade. Embora haja relatos de que alguns grupos consideravam a mulher como inferior, não é correto generalizar. A própria Bíblia, aquele livro tão repudiado pelas feministas, elenca diversos direitos em favor da mulher ditados por Deus a Moisés. Citemos alguns. Feministas inflam seu ego afirmando que conseguiram o “direito ao divórcio” , que foi uma de suas “maiores realizações”. Contudo, foi Deus quem concedeu. E vejam que curioso: o Todo-Poderoso fez isso para proteger a mulher de homens maus! A "Carta de Divórcio" (Deuteronômio 24:1-4), i nstituída no Antigo Testamento, foi permitida por Deus para proteger a mulher, dando-lhe legalidade para se casar novamente sem ser considerada adúltera. “Jesus, respondendo, disse-lhes: Pela dureza dos vossos corações vos deixou ele escrito esse mandamento” (Marcos 10.4) Um outro direito concedido à mulher foi o de propriedade. A Bíblia relata a história das filhas de Zelofeade, cinco irmãs chamadas Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Seu pai pertencia ao clã de Manassés, um dos filhos de José, na linhagem de Hebreus. Quando o pai delas morreu no deserto, sem deixar filhos homens, elas buscaram uma solução para garantir que a herança familiar não desaparecesse. Apresentaram-se diante de Moisés, do sacerdote Eleazar e dos líderes do povo, reivindicando o direito à herança do pai. Elas explicaram que o genitor não havia morrido por rebelião, mas por seu próprio pecado. Por isso, seu nome não deveria ser esquecido ou excluído da terra do clã. “Moisés levou a causa delas perante o Senhor. Disse o Senhor a Moisés: As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente, lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai e farás passar a elas a herança de seu pai. Falarás aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém morrer e não tiver filho, então, fareis passar a sua herança a sua filha. E, se não tiver filha, então, a sua herança dareis aos irmãos dele. Porém, se não tiver irmãos, dareis a sua herança aos irmãos de seu pai” (Números 27.5-10) . Uma das maiores falácias do movimento é em relação ao trabalho. Feministas dizem que “libertaram as mulheres das amarras do patriarcado ao conquistar acesso ao mercado de trabalho” . Elas ignoram solenemente que a mulher sempre trabalhou, e por necessidade. E, mais uma vez, a Bíblia nos mostra isso. Noemi, hebreia, tinha dois filhos, Malom e Quiliom. Seu marido, Elimeleque, mudou-se de Belém para a terra de Moabe. Lá, seus filhos se casaram com mulheres moabitas, Orfa e Rute. Todos os homens da família faleceram. Então, Noemi despediu suas noras e pretendia voltar para Belém. Rute, contudo, decidiu ficar com sua sogra: “Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1.16) . Ao regressarem para Belém, Rute decidiu trabalhar para sustentar a casa. Não era uma “conquista” , uma “satisfação” ter de sair de casa para colher espigas. Se Rute não o fizesse, ambas morreriam de fome! E agora, um fato interessante que faço questão de “esfregar na cara” das integrantes do movimento feminista: ao trabalhar colhendo espigas, Rute foi ajudada e protegida por um HOMEM. Mas que coisa, não? “Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele que mo favorecer. Ela lhe disse: Vai, minha filha! Ela se foi, chegou ao campo e apanhava após os segadores; por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque. Eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores: O Senhor seja convosco! Responderam-lhe eles: O Senhor te abençoe! Depois, perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça? Respondeu-lhe o servo: Esta é a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe. Disse-me ela: Deixa-me rebuscar espigas e ajuntá-las entre as gavelas após os segadores. Assim, ela veio; desde pela manhã até agora está aqui, menos um pouco que esteve na choça. Então, disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem? Quando tiveres sede, vai às vasilhas e bebe do que os servos tiraram” (Rute 2.2-9) . Um tempo depois, Boaz pediu Rute em casamento e esta se tornou a bisavó do rei Davi, entrando na linhagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Salomão, filho de Davi, ao escrever sobre a mulher virtuosa, diz que esta trabalha. Mas, diferente do que as feministas defendem, a mulher descrita pelo rei é louvada justamente porque o faz pelo bem de sua casa, sua família, e não para competir com seu marido. “Busca lã e linho e de bom grado trabalha com as mãos. É como o navio mercante: de longe traz o seu pão. É ainda noite, e já se levanta, e dá mantimento à sua casa e a tarefa às suas servas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho. Cinge os lombos de força e fortalece os braços. Ela percebe que o seu ganho é bom” (Provérbios 31.13-18) Com a vinda de Jesus Cristo a este mundo, a mulher foi elevada em sua dignidade e espiritualidade, sendo considerada tendo o mesmo valor que o homem. A difusão do cristianismo levou aos povos bárbaros e pagãos o entendimento de que a mulher não era um objeto sexual ou mercadoria, e sim um ser como alma. Mas, sendo o movimento feminista revolucionário em sua gênese, é de praxe que rejeite o cristianismo, mesmo com todas as provas de que foi ele o responsável pelo respeito à mulher. Antes, preferiram a “resistência” e lutar contra o sexo masculino, inclusive inventando mentiras. O objetivo nunca foi, é ou será luta por direitos, fim da violência ou coisa que o valha, mas sim a revolução sexual. Ana Caroline Campagnolo escreve em seu livro – “Feminismo, perversão e subversão” - que as feministas anarquistas afirmavam que era um desserviço lutar por direito ao voto. Ou seja, “liberar geral” sempre foi mais importante do que incluir mulheres na política, por exemplo. Em doses homeopáticas, o movimento feminista veio destruindo a mulher, tornando-a novamente um objeto sem alma: - retirar do cristianismo e da família a autoridade moral - retirar a fé em Deus e focar no racionalismo e na “educação” - inserção compulsória da mulher no universo masculino na Revolução Industrial - a luta pelo “direito ao voto” escondia ataques aos homens e ao cristianismo - “luta” pela emancipação sexual e ataques à família tradicional em sua segunda onda - “luta” em “defesa” do aborto - ascensão do movimento lésbico como ato político e de “resistência” contra os homens E é aqui que nasce o movimento red pill. O movimento tem sua origem no filme Matrix (1999), onde o protagonista Neo (Keanu Reeves) precisa escolher entre a pílula vermelha (que revela a realidade dolorosa) e a azul (que o mantém em uma ilusão confortável). A metáfora foi adotada por comunidades online para descrever o "despertar" dos homens para uma realidade onde seriam oprimidos pelas mulheres e pela sociedade moderna. Sua gênese foi dotada com “boa intenção” . Após anos de lavagem cerebral feminista que colocou mulheres contra homens, agora eles resolveram se defender dessas atrocidades. Então, começaram a difundir algumas “dicas” de como se defender de mulheres más. Confesso que algumas ideias do início do movimento não me soavam tão mal. Entre elas: - Realismo social : “enxergando o mundo como ele realmente é”, sem ilusões progressistas - Masculinismo : valorização de traços considerados tradicionalmente masculinos, como força, liderança, racionalidade e controle emocional; - Críticas ao feminismo : feminismo teria ultrapassado sua função original de promover igualdade, favorecendo mulheres em detrimento dos homens. Porém, devemos lembrar que, assim como o feminismo, o red pill também não aceita a ideia de Deus com centro de sua vida, apelando somente para a força física, racionalidade e capacidade de enriquecer. E obviamente que quando Deus é tirado da equação, a tendência de que tudo dê errado é de 100%. O discurso anterior era: - Cuidado com mulher que não quer compromisso - Cuidado com mulher que não respeita os pais - Se ela tem filho(s), verifique se é/são do mesmo pai e em quais circunstâncias se deu essa separação - Cuidado com mulher que valoriza baladas, bebedeiras ou coisas do tipo. Agora o movimento diz: - Não se envolva com mulher, não tenha relacionamento sério. Pagar uma garota de programa é mais barato - “Toda mulher é vagabunda até que se prove o contrário” - “Quem trabalha é a mulher feia” - “Não peça mulher em namoro/casamento” Qualquer semelhança com o feminismo não é mera coincidência. Um mal gerou outro mal e agora estão se digladiando entre si. E os mais prejudicados são aqueles que não aderiram a nenhum dos movimentos, que procuram seguir uma vida digna e correta. E agora, a situação está escalonando para o nível de morte, para ambos os lados. Do lado feminista, aquelas que dizem “Elize Matsunaga já deu a dica” ; do lado red pill, os que afirmam “ Prefiro matar a ser chefiado por uma mulher”. Novamente, quando Deus é retirado da equação, é isso o que acontece: uma guerra dos sexos que impede o crescimento da sociedade e a formação de famílias. Mas, como sempre, a Bíblia tem resposta para isso e coloca cada um no seu devido lugar: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.25-28) Leia o artigo: Liberdade de expressão - Somente para quem concordar comigo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867
- Assim falava Tocqueville
“Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar que se atribui a obrigação exclusiva de gratificá-los e presidir sobre seu destino. Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. Seria como uma autoridade de pai se, como essa autoridade, fosse seu propósito preparar os homens para a idade adulta; mas ele procura, ao contrário, mantê-los em perpétua infância: contenta-se em que o povo se divirta, contanto que não pense em outra coisa senão divertimento. Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer, mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade... Assim cada dia torna menos útil e menos frequente o exercício da livre capacidade do homem; circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente priva o homem de todos os usos que, de si mesmo, pode fazer.” Após esse recorte quase profético de Alexis de Tocqueville no capítulo 6, da parte IV do segundo volume de " A Democracia na América", continuaremos analisando, neste artigo, o Estado brasileiro e suas estratégias de controle social. Primeiramente, no artigo "Bismarck, Marx e os estados de bem-estar social" introduzimos um dos mecanismos de controle social, mediante a oferta de benefícios sociais. Posteriormente, tratamos no artigo " Um golpe de master " sobre as relações de compadrio que se estabeleceram e se perpetuam entre os setores político e econômico, o que levou e leva a prejuízos à sociedade brasileira. Agora abordaremos movimentos contemporâneos que possuem, em seus princípios, auras de moralidade e interesses superiores, mas cujos fins nem sempre correspondem ao que deveriam ser. Se no final do século XIX o Estado brasileiro experimentou o poder da expansão sem lastro, hoje ele testa algo diferente, mas não menos ambicioso: o poder do controle total pela rastreabilidade. Não se trata de uma sucessão histórica, como se uma lógica tivesse substituído a outra. As duas coexistem, se complementam e se reforçam. Onde antes o excesso de crédito desorganizava a economia, agora o excesso de vigilância reorganiza a sociedade sob outro princípio: o da permanente justificativa. O discurso, novamente, é técnico. Fala-se em eficiência, segurança, modernização, combate a ilícitos. A linguagem mudou, os instrumentos se sofisticaram, mas o método permanece reconhecível. A política pública não se apresenta como coerção; apresenta-se como proteção. Não como limitação; como cuidado. O alvo declarado é sempre nobre o suficiente para desarmar resistências. O alvo real, porém, continua sendo o mesmo: o cidadão comum. O sistema de pagamentos instantâneos, o Pix, é um bom exemplo dessa engrenagem. Não há decreto instituindo imposto automático sobre transferências acima de determinado valor. O que há é algo mais elegante: normas que obrigam instituições financeiras a reportar à Receita Federal movimentações consideradas “atípicas” ou superiores a determinados patamares, hoje amplamente associados ao valor de cinco mil reais. O argumento oficial é o combate à evasão fiscal, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do crime. A consequência prática é outra: a inversão do ônus da prova. O cidadão passa a existir sob presunção de irregularidade, compelido a explicar ao Estado a origem de recursos lícitos, muitas vezes fruto de trabalho informal, bicos, ajuda familiar ou simples rearranjos patrimoniais. Não é coincidência que, paralelamente, avancem debates sobre a restrição ao uso de dinheiro em espécie. No Brasil e no exterior, organismos internacionais, autoridades monetárias e setores do Executivo discutem limites máximos para pagamentos em papel-moeda e até a criminalização da posse de grandes quantias sem justificativa prévia. O dinheiro físico — historicamente associado à autonomia individual e à privacidade econômica — passaria a ser tratado como anomalia. Quem sabe algum dia, o cidadão que carregue cinco mil reais na bolsa não será visto como alguém imprudente, mas como alguém potencialmente suspeito. A mensagem será clara: fora do radar, não há legitimidade. A mesma lógica se manifesta no tema das armas. Em 2005, o Brasil realizou um referendo nacional sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munições (Lei 10.826/2003). A população rejeitou a proposta de forma inequívoca com quase 64% de votos contrários. Ainda assim, ao longo dos anos, especialmente após a mudança de orientação política no Executivo federal, decisões administrativas e interpretações judiciais foram progressivamente esvaziando o sentido prático daquela consulta popular. O referendo foi respeitado, afinal, não era proibido vender, mas se tornou cada vez mais difícil comprar. Durante o governo Bolsonaro, houve flexibilização para CACs — colecionadores, atiradores e caçadores — dentro de um marco legal existente. No governo Lula, a guinada foi imediata: decretos restringindo calibres, quantidades, clubes de tiro e autorizações, sempre sob o discurso de combate ao crime organizado e à violência. Como se criminosos adquirissem armas em lojas, mediante registro e fiscalização. Como se a violência dependesse exclusivamente da venda de armas para ser percebida. O efeito real recaiu, novamente, sobre o cidadão regular, enquanto o crime seguiu operando fora da lei. O mesmo padrão aparece no debate sobre a inspeção veicular obrigatória. O Projeto de Lei nº 3507/2025, de autoria do deputado Fausto Pinato, do PP de São Paulo, propõe a retomada da vistoria técnica periódica para veículos em casos de transferência, recuperação de furto/roubo, clonagem, etc. O relator, o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), incluiu no substitutivo os veículos com mais de cinco anos de fabricação. A justificativa é a segurança no trânsito e a preservação ambiental. O histórico brasileiro, no entanto, recomenda cautela. Onde esse modelo vigorou no passado, proliferaram burocracia, custos adicionais para os mais pobres e corrupção em postos de vistoria. O impacto ambiental foi irrelevante; o impacto social, significativo. Ainda assim, a proposta pode retornar, agora com novo verniz técnico, beneficiando indiretamente montadoras, o mercado de veículos novos e bancos, enquanto penaliza quem depende do automóvel usado para transporte ou trabalho. Nenhuma dessas iniciativas é isolada. Nenhuma é fruto de um complô explícito. Elas operam de forma mais eficiente do que isso. Avançam fragmentadas, justificadas por causas moralmente inquestionáveis, embaladas por linguagem técnica e amparadas por instituições que raramente prestam contas à sociedade. O Estado não precisa mais confiscar, proibir ou reprimir de forma aberta. Basta arrecadar por meio de taxas, condicionar, monitorar e constranger. Poderíamos citar ainda a " Lei Felca " (Lei nº 15.211/2025), conhecida como ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026 para proteger menores de 18 anos na internet. Ela exige verificação de idade rigorosa, controle parental para menores de 16 anos, e proíbe a adultização e exploração infantil, com multas pesadas para plataformas. O princípio é louvável, proteger crianças e adolescentes, quem em sã consciência seria contra esta medida? Porém, carrega em si, de forma potencial, a possibilidade de monitoramento e controle de usuários e perfis de utilização, mesmo de adultos. O resultado é um cidadão formalmente livre, mas materialmente vigiado. Autorizado a agir, desde que explique. Autorizado a possuir, desde que registre. Autorizado a circular, desde que seja inspecionado. A coerção já não se apresenta como força; apresenta-se como procedimento. O uso de benefícios sociais como estratégia de atração e permanência na órbita de controle estatal, sem a promoção paralela da autonomia individual, tem se demonstrado útil para imobilizar e entorpecer a sociedade, e por consequência, o país. A história do Encilhamento nos ensinou que quando poder político, econômico e jurídico se alinham sem freios, o risco deixa de ser exceção e se torna método. Hoje, o lastro não é mais o ouro, nem a produção. É o dado. É o registro. É a rastreabilidade total como condição de existência legítima, é a arrecadação. A alternativa não está na negação da lei, nem na idolatria do indivíduo isolado, tampouco na fantasia de uma liberdade sem responsabilidade. Está na recuperação da autonomia real, daquela que impõe limites ao Estado, exige transparência das instituições e recusa a ideia de que todo cidadão é um suspeito em potencial e um tutelado dependente. Liberdade não é ausência de regras; é a recusa em aceitar que o controle seja o preço permanente da ordem. Leia o artigo: UM GOLPE DE MASTER Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867
- Um chamado à reflexão
Quando aceitamos a missão de escrever para um público, algo em nós muda. Nosso olhar, antes disperso, passa a orbitar essa responsabilidade. Cada conversa, cada notícia, cada gesto cotidiano se transforma em matéria-prima. Desde o primeiro dia após a entrega do artigo anterior , já estamos pensando no próximo — buscando uma reflexão atual, honesta e necessária sobre a sociedade. Dito isso, preciso admitir: este artigo nasce do esforço de digerir situações da sociedade brasileira que, à primeira vista, parecem indigeríveis. É, sem sombra de dúvidas, o texto mais difícil que escrevi até agora. Talvez porque toque em dois temas que se entrelaçam de forma dolorosa e profunda: o poder da maldade humana — assunto que já abordei quando tratei do narcisismo presente na sociedade e, infelizmente, também dentro da igreja — e o bem mais valioso que uma sociedade pode ter: a família. Madrugada de 12 de fevereiro Itumbiara ainda dormia quando uma tragédia começou a se desenrolar dentro da casa do secretário de Governo, Thales Naves Alves Machado. No silêncio da noite, ele atirou contra os próprios filhos. Miguel, o mais velho, morreu na hora. Benício, de oito anos, ainda resistiu até o dia seguinte, mas não sobreviveu. A notícia abalou o município. Thales era figura conhecida na administração e genro do prefeito Dione Araújo. A Prefeitura decretou luto oficial e suspendeu o expediente. Enquanto isso, a polícia tentava entender o que havia acontecido dentro daquele lar. Horas antes do crime, uma carta foi publicada no perfil de Thales — depois apagada — mencionando crise conjugal, possível traição e pedidos de perdão. Pessoas próximas confirmaram a autenticidade do texto. Para muitos, parecia um desabafo; para outros, um prenúncio. O caso ganhou repercussão estadual. Autoridades se manifestaram, destacando o impacto de uma violência que rompe o espaço mais íntimo e sagrado: a família. O detalhe mais perturbador veio das redes sociais. Dias antes, Thales publicara um vídeo afirmando que “a família é o mais importante da vida” . Um dia antes da tragédia, postou uma imagem ao lado da esposa e dos filhos — uma cena idealizada que contrastava com o desfecho brutal. Quando o dia amanheceu, o caso já não pertencia mais apenas à cidade de Itumbiara. Em poucas horas, havia atravessado o estado e se espalhado pelo país. O que começou como uma tragédia familiar transformou-se em pauta nacional, combustível para debates, análises, julgamentos e teorias que se multiplicavam em velocidade de avalanche. Nas redes sociais - esse grande tribunal sem rosto - a tragédia virou combustível para um turbilhão de opiniões. Em poucos minutos, a internet se transformou em um tribunal caótico, onde cada um parecia ter uma explicação, um culpado, uma teoria definitiva. Psicólogos, terapeutas, influenciadores, comentaristas de plantão e perfis anônimos se revezavam para tentar decifrar o que havia acontecido. Cada um com sua versão, sua leitura, sua sentença. E foi aí que a tragédia ganhou novas camadas. Não bastava a dor real, concreta, irreversível. Agora surgia também a dor fabricada, opinada, distorcida. Cada frase era uma facada simbólica, um reflexo da incapacidade coletiva de lidar com o horror. De um lado, surgiram vozes que tentavam justificar o injustificável: “Ele não aceitava a separação.” “Eu entendo… não suportaria ver meus filhos criados por outro homem.” Outros apontavam a mãe como responsável: “Ela traiu.” “Inventou essa história de separação depois.” “A culpa é dela.” Havia também quem enxergasse o oposto: “Imagina o que essa mulher viveu com ele.” “Mais um narcisista que não aceita perder.” “Ele quis atingir a mãe pelos filhos.” E, no meio desse duelo de narrativas, surgiam comentários que tentavam resgatar o óbvio: “Nada justifica assassinato.” A polarização era tanta que a tragédia deixou de ser apenas um fato e se transformou em espelho — refletindo medos, preconceitos, frustrações e crenças de uma sociedade que tenta explicar o inexplicável enquanto se perde em julgamentos apressados. O que se via ali não era só o crime, mas o retrato de um país buscando lógica onde não há lógica e justificativas onde só existe devastação. E, no meio desse turbilhão, uma verdade permanecia intacta: duas crianças perderam a vida, e nada — absolutamente nada — justifica isso. O caso deixou de ser apenas sobre um pai, dois filhos e uma madrugada. Passou a ser sobre nós: sobre como interpretamos a dor alheia, como julgamos sem saber, como projetamos nossas próprias feridas, medos e crenças em histórias que não nos pertencem. Por que falar sobre Thales? Falar sobre Thales não é reviver a tragédia pelo choque, nem transformar um crime em entretenimento. É necessário porque o caso expõe, de forma brutal, falhas que preferimos ignorar: a distorção da ideia de família, a incapacidade emocional de muitos homens diante da perda de controle, o narcisismo que se disfarça de amor e a violência disfarçada de amor. É necessário falar sobre Thales porque ele não é um ponto isolado no mapa da violência familiar brasileira — é um sintoma. Um sintoma de relações adoecidas, de estruturas sociais que ainda romantizam o controle, a posse e o poder. Um sintoma de uma sociedade que, diante do horror, tenta justificar o injustificável, encontrar lógica onde só existe devastação. É necessário falar sobre Thales porque, quando um pai tira a vida dos próprios filhos, algo muito profundo está errado — não apenas naquela casa, mas no tecido social que deveria proteger essas crianças. Ignorar isso seria fechar os olhos para uma ferida que continua aberta em milhares de lares. E, acima de tudo, é necessário falar sobre Thales porque duas crianças morreram. E quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção. Falar sobre Thales é olhar para a dimensão humana da queda, da ruptura, da incapacidade de lidar com o próprio abismo interior. Não para julgá-lo, mas para reconhecer que o mal, quando não confrontado, pode se manifestar dentro de lares que, por fora, parecem estáveis. A teologia sempre tratou da tensão entre luz e sombra, entre graça e desordem — e Thales se torna um ponto de partida para discutir essa tensão. Por que falar sobre Sara? Falar sobre Sara não é entrar em especulações, nem validar rumores, nem discutir aquilo que não foi confirmado. É necessário porque, dentro de uma análise teológica da família, ela representa a figura da mãe que teve seu bem mais precioso arrancado: seus filhos. E essa realidade, por si só, já a coloca no centro de uma dor que merece ser reconhecida com respeito e sobriedade. A repercussão pública transformou Sara em alvo de interpretações que não nasceram dos fatos, mas das expectativas sociais sobre o papel da mulher no lar. Em poucas horas, ela deixou de ser vista como alguém que perdeu tudo para se tornar objeto de julgamentos que não condizem com a gravidade da situação. E é justamente por isso que precisamos falar sobre ela — não para defendê-la de acusações que não nos cabem, mas para reconhecer sua humanidade diante da perda. Na perspectiva teológica, Sara representa a sobrevivente. Aquela que permanece viva após o irremediável. Aquela que enfrenta não apenas o luto, mas também o peso das narrativas alheias. Aquela que, mesmo sem ter cometido violência alguma, carrega as consequências de um ato que destruiu sua família. Ignorá-la seria ignorar a dimensão humana da tragédia. Seria ignorar que, no centro de tudo, há uma mulher que viu sua vida ruir sem ter escolhido isso. Falar sobre Sara, portanto, não é tomar partido. É reconhecer que, em qualquer reflexão séria sobre família, fé e responsabilidade, a dor de uma mãe não pode ser silenciada. Por que falar sobre Miguel e Benício? É necessário falar sobre Miguel e Benício porque, em qualquer reflexão teológica sobre família, eles representam o centro moral e espiritual da narrativa. São eles que revelam, com maior clareza, o valor da vida, a vulnerabilidade da infância e a responsabilidade sagrada que recai sobre os adultos. Na tradição cristã, as crianças ocupam um lugar privilegiado. Elas simbolizam pureza, promessa, futuro e dependência — elementos que, teologicamente, apontam para a própria natureza do Reino de Deus. Quando duas crianças perdem a vida, não estamos diante apenas de uma tragédia familiar, mas de um rompimento profundo naquilo que a fé considera mais precioso: a proteção dos inocentes. Falar sobre Miguel e Benício é reconhecer a dignidade de suas vidas, que não podem ser reduzidas a números ou manchetes. Também é um chamado a responsabilidade espiritual da sociedade, chamada a proteger seus pequenos. Além de nos apresentar a dimensão teológica da perda, que nos obriga a refletir sobre o mal, a fragilidade humana e a necessidade de restauração. Eles são o ponto de partida para qualquer análise que pretenda ir além do fato em si. São o lembrete de que a família não é apenas uma instituição social, mas um espaço espiritual onde vidas são formadas, nutridas e protegidas. Ignorar Miguel e Benício seria ignorar o coração da reflexão. Falar sobre eles é afirmar que suas vidas importam — não como símbolos, mas como pessoas reais, cuja existência nos convoca a pensar sobre responsabilidade, cuidado, amor e a urgência de reconstruir aquilo que foi quebrado. Falar sobre os quatro não é revisitar a tragédia pelo choque, mas compreender o que ela revela sobre a condição humana, sobre a fragilidade das relações, sobre a distorção do amor, sobre a responsabilidade espiritual da família e sobre a necessidade de cura. Eles não são apenas nomes de um caso. São espelhos — cada um à sua maneira — de questões profundas que atravessam a sociedade e a fé. E é justamente por isso que precisam ser mencionados, porque a teologia não se ocupa apenas do sagrado idealizado, mas também do sagrado ferido, do humano quebrado, do mundo real que clama por sentido. Fazer essa análise não é simples. Como mãe de um filho de 12 anos e de outro de 2, é impossível não sentir um peso diferente ao olhar para essa tragédia. A maternidade nos dá uma sensibilidade que não se desliga; ela molda a forma como enxergamos o mundo, a família e, sobretudo, a vulnerabilidade das crianças. Ao refletir sobre esse caso, um temor silencioso me acompanha — não um medo paralisante, mas a consciência de que a mente humana é frágil, suscetível, e que nem sempre conseguimos compreender os abismos que alguém pode enfrentar. Essa percepção não nasce de desconfiança, mas de humildade diante da complexidade da condição humana. Quando falamos de família, falamos também de responsabilidade espiritual, emocional e moral. E, como mãe, é impossível não sentir a dor de imaginar a perda de um filho — uma dor que nenhuma teologia explica por completo, mas que toda teologia nos convida a acolher com compaixão. Ainda estávamos tentando respirar depois da tragédia que envolveu Thales, Sara, Miguel e Benício quando, no Carnaval, fomos surpreendidos. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida uma ala inteira fantasiada como “família em conserva” — uma sátira política, uma crítica social, um deboche visualmente marcante. As fantasias imitavam latas de conserva, com rótulos que ironizavam a ideia de “família tradicional”, misturando humor, política e provocação. A repercussão foi imediata. Para alguns, era arte crítica; para outros, tocou em um ponto sensível, pois a família é o primeiro lugar onde aprendemos a existir. A imagem da “família enlatada” nos lembra da vulnerabilidade diante de críticas rasas e da facilidade de transformar em piada aquilo que é fundamento de vida. Mas não podemos permitir que o escárnio defina o valor daquilo que Deus estabeleceu. Todo ser humano vem de uma família, estruturada ou frágil, perfeita ou imperfeita. Todas carregam histórias, traumas e tentativas de recomeço. Por isso, a família não deveria ser tratada como chacota, pois rir da família é rir das próprias cicatrizes. A fé nos lembra que um coração inclinado a Deus não se molda pelo escárnio, mas pela graça. A família humana é imperfeita, mas é o lugar onde Deus insiste em trabalhar, acreditando na beleza, cura e reconstrução possíveis. A crítica à “família conservada” pretendia ridicularizar valores tradicionais, mas levantou a questão do que realmente se preserva. O que tem estrutura e fundamentos não se desfaz com o vento das opiniões. A zombaria do mundo não define o valor daquilo que Deus estabeleceu. A família virou alvo porque se tornou símbolo dentro de uma disputa cultural. Quando algo se torna símbolo, passa a ser tratado como bandeira, caricatura, rótulo. Mas a família é mais profunda do que qualquer rótulo político. A crítica à família cristã não é apenas sobre incoerência, mas sobre resistência a uma cultura que relativiza tudo. Convicções firmes incomodam, mas resistência não é ataque, é convicção. A incoerência é parte da condição humana, não exclusiva de cristãos. Usar a falha de alguns para ridicularizar a fé de muitos é injustiça. A resposta cristã mais poderosa não é reagir, mas viver com coerência e integridade. Respeito não pode ser uma via de mão única. Se a sociedade condena o deboche contra certos grupos, deve condenar também o deboche contra a fé cristã ou a família tradicional. Intolerância não deixa de ser intolerância porque vem disfarçada de sátira. Diante de tudo isso, não podemos permanecer apenas como espectadores ou juízes apressados. Essa tragédia nos convoca a olhar para além das manchetes e das redes sociais, a enxergar a dimensão humana da dor, da perda e da responsabilidade. Precisamos abandonar o silêncio, a indiferença e o julgamento superficial. É hora de agir: fortalecer laços familiares, promover o diálogo, buscar apoio emocional e espiritual, denunciar a violência, acolher quem sofre e proteger nossas crianças. Que cada um de nós se comprometa a ser parte da cura, da reconstrução e da esperança. Porque quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção. Leia: A Preferência pelos Pobres Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867
- Um mundo novo e melhor chegará, se…
Nessa nova apresentação, pretendo através de uma clara reflexão fazer brotar de dentro de nós algumas respostas, e elas virão de acordo com o nível de consciência de cada leitor. Não restam dúvidas que existe um clamor por um mundo mais justo, bom, belo e verdadeiro, se possível, que venha a nós o reino de Deus. Com tudo o que nos parece claro é que as mesmas pessoas que clamam por um mundo melhor não sabem por onde começar. O ideal é que ao observamos a história devamos não apenas nos determos a nomes, lugares, épocas é tão somente fatos, pois isso nos tornaria especialistas em repetir o que aconteceu com um bom grau de conhecimento externo, mas que refletíssemos sobre o temas e perguntássemos: por que estas coisas aconteceram? E por que tantas vezes? Por que estes personagens e não outros? Em alguns casos a semelhança é tão evidente que parece haver um padrão nos acontecimentos da história. Outra reflexão importante é: Parece que mesmo alguns povos com ideias tão elevadas foram derrotados, com tudo suas ideias, não. Esses valores, virtudes ideais tão elevados parecem saltar de um tempo a outro até encontrar outros povos onde posso renascer. Fica claro então o seguinte: Mais que pessoas fortes, corajosas e cheias de poder para realizar algo, suas ideias devem ser seu estandarte. Se nós apoiarmos em algo imortal, assim seremos. Lembro-me de quando da morte de Jesus, seus discípulos quiseram desistir da portaria suas ideias, mas com a ressurreição, tiveram um novo ânimo. Devemos considerar que o importante aqui não foi a ressurreição da pessoa de Jesus, mas com ele seu ideal de salvação, pois podemos imaginar se Jesus ressuscitado viria a desmentir todos o que apresentara antes? Claro que nosso mestre não faria isso, mas mesmo ele poderia fazer morrer nossa chance de vida eterna. Bom, o objetivo do texto não é religioso, mas filosófico. É mostrar que, se queremos algo elevado, assim deveria ser, pois semelhante atrai semelhante. E não só Jesus, mas todos os que se puseram a promover um mundo melhor focaram primeiro em elevar as pessoas, e depois seu contexto. Em uma analogia bem simplória, mas muito eficiente, como colocar pessoas que nunca foram bem educadas a habitar uma cidade com todos os requisitos para uma sociedade melhor. Não demoraria muito tempo para que a cidade fosse completamente destruída e levada ao nível de seus habitantes. Existem duas propostas conhecidas, uma revolucionária, que visa acabar com tudo o que foi construído socialmente e começa-se então, do zero. E outra revolucionária, que visa aprimorar o que já existe, ficando no que há de bom em cada uma delas. A proposta evolucionária é natural e infalível, mas há que ter paciência, pois é também muito sensível e dependendo do descuido, põe- se tudo a perder. Como numa gestação. Numa gestação, temos a ideia, que está viva de rir de nós. A partir disso, todas as atenções devem priorizar esta vida. Quem já participou de uma gestação sabe o quanto custa em todos os sentidos, o quanto temos que abrir mão de algo que para nós é importante, mas não seria saudável ao ideal. Sabe os que numa gestão se quisermos adiantar o processo, o risco de perdermos o ideal é altíssimo e caso se materialize como num nascimento, é alto também o risco de nascer defeituoso. Aproveito para recomendar a leitura de uma obra: “O IDEAL SECRETO DOS TEMPLÁRIOS” Nesta obra, sua autora, Delia Steinberg Guzmán, nos mostra de maneira clara qual foi o motivo de tanto sucesso nessa irmandade tão famosa, e que deixou um rastro civilizatório para todos o que vieram depois. A obra trata do movimento ocidental para uma nova civilização, mas há também obras que tratam de movimentos orientais, estas com um cunho mais interno como o Bhagavad Gita. Não podemos nos comportar como certos herdeiros que recebendo uma herança suntuosa, sem estar preparado, coloca toda a herança a perder. Em resumo, não podemos nos apoiar no materialismo se quisermos um mundo onde os ideais divinos governem. Em algum nível, temos a oportunidade de fazer valer nosso “pequeno Éden” E faremos se não dermos ouvidos à serpente dos ideais obscuros e não contamos do fruto do materialismo, pois a árvore da vida está nos mais altos valores humanos. Talvez nossa luta dure por séculos! O que nos cabe é formar novos militantes que façam perdurar a força que temos empregado para fazer dar à luz, esse novo mundo. Isso faremos educando a todos que pudermos com os valores que as forças obscuras da sociedade tentam destruir: Deus , Pátria, Família e Liberdade. Também com eles as virtudes que os sustentam. Se o nosso ideal de vida nos convocar, estaremos prontos? Se vamos participar da batalha, quem seremos nós nela? O que escreverão sobre nossa conduta? Há quantos meses estamos de seu nascimento? Não sei, mas com certeza estamos gestando e o que podemos fazer é ficar na gestação desse ideal de um mundo novo e melhor, um dia alguém verá o fruto do nosso trabalho; O nascimento de um mundo melhor. Que Deus abençoe nossa jornada! Leia: Uma lâmpada, um terço e uma bíblia contra um exército Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867
- UM GOLPE DE MASTER
No início, tudo parecia técnica econômica. Medidas apresentadas como modernas, quase visionárias, prometiam dinamizar o crédito, estimular o empreendedorismo e romper com um passado considerado lento demais para os novos tempos. O discurso era elegante, envolto em termos como “liquidez”, “confiança” e “necessidade histórica”. Mas, nos bastidores, algo não fechava. Empresários com acesso privilegiado passaram a prosperar em ritmo acelerado, enquanto companhias recém-criadas surgiam e desapareciam com a mesma rapidez. Papéis financeiros circulavam em volumes crescentes, muitas vezes desvinculados de qualquer lastro produtivo real. A impressão era de que o sistema havia sido desenhado para girar, não para sustentar. No centro desse arranjo, um personagem chamava atenção. Não exatamente um banqueiro tradicional, tampouco um político eleito. Era alguém com trânsito livre entre gabinetes, salões aristocráticos e escritórios financeiros. Um homem cuja fortuna cresceu na mesma proporção em que o crédito se tornava abundante. Para alguns, um visionário. Para outros, um operador. Enquanto isso, a autoridade responsável pela política monetária insistia que tudo estava sob controle. O argumento era sempre o mesmo: o país precisava ousar. Eventuais excessos seriam corrigidos pelo próprio mercado. A expansão não era um erro — era uma aposta calculada. O Judiciário, por sua vez, surgia como uma instância distante do cidadão comum, mas perigosamente próxima dos protagonistas do processo. Decisões rápidas, interpretações elásticas da lei e uma notável disposição para aceitar garantias frágeis davam segurança jurídica a operações que, fora daquele círculo, pareceriam temerárias. Não se tratava de ilegalidade explícita. Era algo mais sutil: legalidade sob medida. À medida que os meses avançavam, os sinais de colapso tornaram-se visíveis. Empresas quebravam em cascata. Pequenos investidores perdiam economias. O crédito, antes abundante, evaporava. O mesmo Estado que incentivara a expansão agora tentava conter o pânico. Veio então a pergunta inevitável: teria sido apenas incompetência técnica? Ou o sistema fora concebido desde o início para beneficiar poucos, deixando o prejuízo para muitos? Os defensores da política adotada insistiam nas boas intenções. Alegavam desconhecimento dos mecanismos financeiros mais complexos. Diziam que o responsável máximo pela condução econômica era um jurista brilhante, mas um economista improvisado. Um idealista cercado por interesses que não soube controlar. Os críticos, porém, apontavam outra possibilidade. Argumentavam que ninguém em posição tão elevada poderia ignorar completamente os efeitos previsíveis de uma expansão monetária descontrolada. Que os alertas existiram. Que os beneficiários eram claros demais para que tudo fosse atribuído ao acaso. O empresário central do escândalo — protegido por relações políticas, respaldado por decisões judiciais favoráveis e sustentado por um sistema financeiro moldado às suas necessidades — jamais foi tratado como um aventureiro comum. Sua posição social, seus títulos e sua proximidade com o poder lhe garantiram um tratamento diferenciado. Quando o sistema ruiu, ele já havia se protegido. Bem, caro leitor, antes que se imagine estar diante de um episódio recente, envolvendo autoridades contemporâneas, empresários do sistema financeiro atual ou decisões judiciais dos nossos dias, é preciso esclarecer com todas as letras: o que descrevemos até aqui foi a Crise do Encilhamento, ocorrida nos primeiros anos da República brasileira, entre 1889 e 1891. O cenário se abre logo após a Proclamação da República. O país buscava romper com estruturas imperiais e acelerar sua modernização econômica. À frente do Ministério da Fazenda estava Ruy Barbosa, jurista de prestígio, intelectual respeitado e figura central do novo regime. Inspirado por modelos liberais e pelo desejo de fomentar a industrialização, Ruy promoveu uma profunda mudança no sistema financeiro. Entre 1890 e 1891, foram autorizadas reformas que facilitaram a criação de bancos emissores, ampliaram drasticamente a oferta de crédito e permitiram a emissão de papel-moeda sem lastro suficiente em ouro ou em produção real. A lógica era simples: crédito abundante estimularia o crescimento. Na prática, criou-se o ambiente ideal para a especulação. Empresas surgiam aos milhares, muitas delas sem qualquer atividade concreta. A Bolsa do Rio de Janeiro tornou-se palco de operações frenéticas, impulsionadas por informações privilegiadas, relações pessoais e acesso diferenciado ao crédito. O termo “encilhamento”, tomado das corridas de cavalo, passou a designar esse momento de aposta generalizada, em que o objetivo não era produzir, mas chegar primeiro. No centro desse sistema estava Sebastião Lopes da Costa Pinho, o Conde Sebastião de Pinho — grande empresário, banqueiro e uma das figuras mais influentes do período. Atuando nos setores financeiro, ferroviário e comercial, o Conde foi um dos principais beneficiários da expansão monetária. Seus bancos e empresas obtinham crédito com facilidade, enquanto sua posição social lhe garantia trânsito direto entre ministros, parlamentares e magistrados. Quando a bolha começou a estourar, em 1891, o impacto foi devastador. Empresas quebraram, o valor da moeda despencou, a confiança no sistema financeiro evaporou. Pequenos investidores perderam tudo. O Estado, que havia estimulado a expansão, mostrou-se incapaz de conter o colapso. Foi nesse contexto que surgiram denúncias formais. O Conde Sebastião de Pinho acabou indiciado por fraudes financeiras, acusado de se beneficiar de emissões irregulares e operações especulativas. Outros empresários e banqueiros também foram implicados. O Judiciário — então representado pelo Supremo Tribunal Federal recém-criado — teve papel central no desfecho pois, após a prisão do Conde Sebastião e alguns pedidos de habeas corpus negados, os dois pedidos impetrados junto ao Supremo Tribunal Federal foram aceitos, libertando o banqueiro. As decisões judiciais, porém, foram marcadas por absolvições, prescrições e interpretações benevolentes da legislação. Apesar do clamor público, ninguém de fato pagou pelo desastre. O STF da Primeira República consolidava, já naquele momento, uma posição de árbitro distante da sociedade e indulgente com os estratos superiores do poder econômico. Passado o vendaval, o país entrou em um lento processo de recomposição. Empresas desapareceram, poupanças foram corroídas e a confiança pública levou anos para se recompor. A economia brasileira saiu do episódio mais cautelosa, mais desigual e mais dependente de mecanismos de controle que só surgiriam plenamente nas décadas seguintes. O custo social foi difuso, prolongado e silencioso: menos crédito, menos investimento, menos mobilidade para quem não possuía reservas ou influência. Os protagonistas, contudo, seguiram trajetórias menos dramáticas do que o colapso sugeriria. Patrimônios foram reduzidos, não extintos; nomes foram questionados, não apagados. O prestígio intelectual e político de Ruy Barbosa atravessou a tempestade e se consolidou como referência jurídica e republicana. Grandes operadores econômicos, entre eles o Conde Sebastião, sofreram abalos reais, mas preservaram redes, posição social e capacidade de recomposição — ativos invisíveis que, em momentos de crise, valem mais que o caixa. O saldo histórico é desconfortável: a turbulência redistribuiu perdas com muito mais eficiência do que redistribuiu responsabilidades. Enquanto a sociedade absorvia os efeitos prolongados da contração e da desorganização monetária, as estruturas de influência que moldam decisões — políticas e econômicas — permaneceram, em grande medida, intactas. Crises passam; hierarquias, não necessariamente. Assim, o episódio que começou como euforia e terminou como advertência deixa um padrão recorrente na vida pública brasileira: choques que parecem nivelar o jogo, mas que, ao final, apenas reorganizam o tabuleiro. Os danos são amplos; a influência, resiliente. E a história, quando revisitada sem indulgência, revela menos uma ruptura do que a persistência de um mesmo arranjo de poder sob novos nomes e novas circunstâncias. O Encilhamento não foi apenas uma crise econômica. Foi um ensaio inaugural de uma engrenagem que se repetiria ao longo da história brasileira: políticas públicas desenhadas sob o discurso do progresso, empresários estrategicamente posicionados, instituições jurídicas conferindo estabilidade formal e, ao final, a conta distribuída à sociedade. Entender esse episódio não é apenas revisitar o passado. É reconhecer que certas estruturas sobrevivem às décadas, trocam de nomes, atualizam instrumentos, mas preservam a lógica essencial: quando poder econômico, decisão política e tutela judicial caminham sem controle efetivo, o risco deixa de ser sistêmico — torna-se recorrente. E assim, a máquina do Estado brasileiro, com suas engrenagens financeiras, segue funcionando, oculta sob capas, marcando o passar do tempo e a repetição dos erros. "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para, não para, não para!" Leia o artigo: Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867
- Liberdade de expressão
Somente para quem concordar comigo Chegamos em 2026: ano de eleições, de decisões importantes, de mudanças necessárias e urgentes para a nação. Porém, existem valores que devemos preservar, e o mais básico é o direito a ter voz. Eu sou conservadora, direitista e bolsonarista. Comecei a meu interessar por política ainda na adolescência, acompanhando as eleições americanas. Lembro-me de não gostar muito de George W. Bush, mas o considerava melhor do que seu oponente à época, Al Gore. Eu já era de direita e não sabia (risos). A política brasileira me desanimava um pouco. Meu tio, militar, nunca gostou de Lula e nem da esquerda. E eu, em minha ignorância, não entendia por que não existia uma oposição à altura. Sinceramente, para mim era muito difícil entender Fernando Henrique Cardoso, José Serra e outros serem amigos do adversário. Somente anos depois que descobri que, de fato, eram amigos, mais até do que eu imaginava. Eu observava as eleições americanas, as comemorações de 4 de Julho, o Dia de Ação de Graças. No meu íntimo, eu pensava: “Em todos os lugares e eventos a bandeira americana se faz presente. Existe um patriotismo real. Por que no Brasil somos obrigados a vestir vermelho? Por que usar as cores da bandeira ofende?” . Meu questionamento não era sem propósito: o Brasil estava mergulhado em uma severa hegemonia progressista. Ninguém ousava questionar Paulo Freire, regime militar ou o próprio Lula. Até que eu vi um deputado austero na televisão, acho que foi no antigo CQC ( “Custe o que Custar” , um programa cujo modelo foi comprado da Argentina e era comandado no Brasil pelo Marcelo Tas). Este programa tinha vários repórteres e um deles era do Danilo Gentili. De vez em quando, Danilo fazia matérias com os parlamentares. E foi assim que conheci Jair Bolsonaro. Sinceramente, nunca tinha gostado de um político específico. Ah, gostava sim, do Eneias Carneiro! Meu pai também gostava muito dele e dizia que teria sido um ótimo presidente se não fosse a “ideia da bomba atômica” . Não era bem isso, mas meu pai não sabia. Na verdade, quase ninguém sabia. A mídia “tradicional” fez questão de ridicularizar a imagem de Eneias e fazê-lo passar como louco. Essa mesma mídia tentou novamente, desta vez, com Jair Bolsonaro. Mas o plano não funcionou. A produção do CQC descobriu que a imagem de Bolsonaro gerava audiência e por isso ele sempre era entrevistado. E a cada depoimento, redações inteiras sofriam uma síncope. Mas por quê? Porque pela primeira vez, a população presenciava um político sem o tradicional politiquês. Bolsonaro falava de forma direta aquilo que o cidadão brasileiro pensava. E a partir de 2010, Jair Bolsonaro fez a maior denúncia de sua vida pública: expôs o tal seminário LGBT infanto-juvenil e os filmetes produzidos pelo Ministério da Educação da época, que seriam exibidos nas escolas, para normalizar a agenda entre as crianças. E isso fez com que a população brasileira começasse a perceber o que de fato estava acontecendo. Ao longo dos anos, o nome de Bolsonaro ganhou força para ocupar a cadeira presidencial. Pela primeira vez, o brasileiro estava escolhendo com genuíno prazer o seu candidato. Jair fez sozinho o que ninguém esperava: quebrou a ditadura do discurso único e mostrou que é possível amar as cores verde e amarelo sem ser execrado por isso. Jair Bolsonaro se tornou um símbolo da liberdade de expressão, sendo eleito presidente da República em 2018. Contudo, começou a acontecer um movimento estranho: quem apoiava Bolsonaro passou a adotar a ditadura do discurso único. Isso não aconteceu de forma abrupta, mas em doses homeopáticas. Confesso que comecei a achar essa movimentação um tanto quanto estranha. Afinal, a direita sempre pregou a chamada liberdade de expressão. Começou a se tornar comum dizer “Eu entendo de articulação, eu sei de política” . Mas, para mim isso soava absurdo. Eu não conhecia aquelas pessoas antes do Jair. Salvo raríssimas exceções, todos os analistas e intelectuais do que conhecemos hoje como direita surgiram DEPOIS de Bolsonaro. E o motivo era óbvio: nenhum destes teve a coragem de enfrentar a hegemonia progressista como ele. Junto a Jair, muitos se elegeram. Pessoas completamente desconhecidas, mas que somente conseguiram uma vaga graças a ele. Espero que o leitor não entenda mal, esta minha fala, não digo isso com desprezo. Vários bons nomes foram eleitos, como o Márcio Gualberto e a Chris Tonietto. Porém, desconhecidos. Bom, como disse ouvir coisas como “Eu que sei” em relação à política me irritava, mas eu não demonstrava. Eu vi e ouvi pessoas menosprezando quem ainda estava engatinhando nessa seara e arrogando para si o direito de saber mais do que os demais e que simplesmente enxotava quem pensava de modo diferente. E eu percebi que a situação começou a piorar na gestão Bolsonaro. Jair foi deputado por quase vinte e oito anos, mas pela primeira vez sentava na cadeira do Executivo. Obviamente que são funções diferentes e ele cometeu erros, isso é normal. Jair, embora tenha acertado muito mais do que errou, ainda assim errou, porque é ser humano. E a turma do “Eu que sei” , em vez de sentar com Jair e ajudá-lo, preferiu o “Não me ligue mais” . De repente, Jair Bolsonaro “não sabia de nada” para os intelectuaizinhos da direita. Foi chamado de “frouxo” , “traidor das pautas conservadoras” , tudo porque não queria adotar a tática progressista do discurso único. E assim o bolsonarismo começou a minar por dentro. A hegemonia, quebrada por Bolsonaro, havia retornado. Mas agora passava a imperar no meio direitista. Ao longo do mandato, Bolsonaro pensou que tinha uma base com quem contar. Coitado! Ficou mais sozinho do que quando era deputado e eu atesto isso com profunda revolta! No final de 2022, quando mais precisou de sua base, foi abandonado! Eu me lembro de que, quando Bolsonaro venceu em 2018, Gleisi Hoffmann, que era presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) concedeu uma entrevista coletiva e disse: “A esquerda precisa fazer uma autocrítica” . Nunca votarei em quem quer que seja da ala progressista e não concordo com nenhuma de suas medidas, mas Gleisi tinha razão. Eles engoliram a derrota, voltaram a prancheta e começaram a trabalhar. E o resultado já é de conhecimento de todos. A esquerda admitiu seus erros. A direita os jogou para debaixo do tapete. Hoje, temos uma direita dividida porque todo mundo quer arrogar para si o direito que possuir o “guarda-chuva” da moral e dos bons costumes, quando, na verdade, o “guarda-chuva” dos valores foi dado por Jair Bolsonaro! É aquele velho ditado que nossos avós dizem: é muito cacique para pouco índio. O fato é que todos querem ter a popularidade do Jair, mas não querem ser como ele, e isso é severamente impossível! A direita brasileira (re)nasceu graças à liberdade de expressão que Bolsonaro exerceu com maestria! Hoje, aqueles que tomaram carona na onda – sejam políticos, influenciadores ou pseudojornalistas – querem ditar regras típicas de um Kim Jon-Un: quem não concorda, é enviado para os “campos de trabalhos forçados” ou “fuzilado” socialmente. Infelizmente, exemplos não faltam. A deputada Ana Campagnolo, recentemente, discordou da ideia da candidatura de Carlos Bolsonaro a uma vaga no senado por Santa Catarina. Em uma entrevista, ela alegou que nenhuma liderança do estado foi consultada para saber se a decisão era de comum acordo. Para minha surpresa, Ana foi achincalhada e xingada de todos os nomes possíveis: “traíra” , “feminista” e até de “comunista” ! E por tabela, o deputado Nikolas Ferreira acabou apanhando. Alguns disseram que Ana deveria ter falado isso no privado. Concordo. Porém, o que fizeram com ela foi indesculpável! O leitor que possui mais tempo na política vai lembrar que a militância digital do PT atuava contra seus desafetos com ações que variavam desde promoção de boicote até exigência de demissão, e que Danilo Gentili foi uma das principais vítimas. Pois bem, foi exatamente isso que fizeram com a Ana. Diversos perfis DE DIREITA copiavam e colavam ataques contra uma mulher DE DIREITA unicamente por esta mulher expressar sua opinião contrária a uma estratégia política. Meu Deus! O que houve com a direita? Liberdade de expressão, pluralidade de ideias, isso tudo é só teoria, então? Ou só vale para atacar a esquerda com a mordaça que ela tenta nos colocar? Então, se a mordaça for da direita, tá valendo? Eu sinto em dizer, mas a direita brasileira é formada, em grande parte, por pessoas com pensamentos revolucionários. É difícil admitirmos isso, mas encarar a realidade é fundamental para que possamos nos corrigir. As eleições de 2026 exigirão de nós maturidade e capacidade de escutar o que o colega tem a dizer. Ou fazemos isso ou teremos mais quatro anos da esquerda no poder. Leia o artigo: Getsêmani - A prensa que nos traz a paz Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 62 edição de Janeiro de 2026 – ISSN 2764-3867
- Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social
A origem das políticas estatais de proteção social costuma ser apresentada como resultado direto de avanços humanitários ou da pressão moral por justiça social. Essa leitura, embora não seja falsa, é incompleta. A consolidação do primeiro sistema moderno de seguridade social ocorreu na Alemanha do século XIX, sob a liderança de Otto von Bismarck, em um contexto profundamente conservador, monárquico e explicitamente antissocialista. As leis de seguro-doença (1883), seguro contra acidentes de trabalho (1884) e seguro de invalidez e velhice (1889) foram concebidas menos como instrumentos de emancipação do trabalhador e mais como mecanismos de estabilização política e contenção do conflito social. É importante reconhecer que Bismarck não criou essas políticas no vácuo. Antes delas, já existiam antecedentes relevantes, como as Poor Laws inglesas, experiências municipais de assistência, sistemas de mutualismo operário e práticas filantrópicas de inspiração cristã. O diferencial bismarckiano não foi a invenção da proteção social em si, mas sua estatização sistemática, obrigatória e nacional, integrando trabalhadores ao Estado por meio de direitos condicionados à contribuição e à lealdade institucional. O objetivo explícito era retirar do socialismo nascente seu apelo político, oferecendo segurança material sem conceder poder político autônomo às classes trabalhadoras, o que, curiosamente, viria a se tornar o modus operandi da nascente elite administrativa dos Estados socialistas. Esse dado de origem é fundamental porque revela uma tensão entre diferentes níveis de expressão social e política, que atravessará toda a história da utopia que poderíamos chamar de “Estado de Bem-Estar Social”: utopia, pois as sociedades estão em constante transformação; logo, o conceito de bem-estar também se move continuamente na direção de novos anseios sociais. A política social bismarckiana protegia o trabalhador contra riscos objetivos da vida industrial, mas o fazia reforçando sua dependência de uma máquina estatal centralizada e burocrática. Não se tratava de libertá-lo, mas de integrá-lo de forma disciplinada à ordem existente. Nesse sentido, a proteção social moderna nasce mais como tecnologia de governo do que como instrumento de autonomia. O socialismo, por sua vez, apresentou-se historicamente como a grande promessa de superação dessa tutela. Desde Marx, a emancipação do trabalhador aparece como horizonte explícito: o fim da alienação, da exploração e da submissão a estruturas externas de poder. Contudo, quando observamos as experiências concretas dos chamados “socialismos reais” ao longo do século XX, percebe-se uma recorrência preocupante: a substituição do capital privado por um aparato estatal hipertrofiado, burocrático e altamente centralizado. Embora essas experiências não tenham sido idênticas — havendo variações importantes entre União Soviética, Europa Oriental, Iugoslávia ou China —, todas enfrentaram, em maior ou menor grau, o problema da captura do poder por uma elite administrativa que passou a tutelar a sociedade em nome de uma emancipação sempre adiada. Esse padrão não pode ser explicado apenas por desvios morais individuais, mas por uma dinâmica institucional recorrente. Ideias mobilizadoras tendem a gerar movimentos; movimentos tendem a se institucionalizar; instituições, por sua vez, desenvolvem interesses próprios. Surge então o corporativismo, entendido não apenas como organização de classes, mas como espírito de corpo que desloca o foco da ideia original para a autopreservação da estrutura. O ideal que justificou a criação da instituição transforma-se em retórica legitimadora de interesses internos. Esse fenômeno não é exclusivo do socialismo. Ele também se manifesta em economias capitalistas quando ocorre a simbiose entre grandes corporações e o Estado, fenômeno que hoje se descreve como capitalismo de compadrio. Embora seja anacrônico aplicar esse termo de forma rígida a contextos históricos passados, a lógica subjacente — captura regulatória, privilégios seletivos, socialização de prejuízos e privatização de ganhos — acompanha o capitalismo desde suas origens. O que muda é o grau de transparência e os mecanismos de contenção disponíveis em cada época. O contraste frequentemente traçado entre um capitalismo “puro”, no qual o empreendedor assume riscos e corrige desvios rapidamente, e um Estado intrinsecamente corrupto, precisa ser qualificado. Historicamente, empresas sempre buscaram proteção estatal, subsídios, monopólios legais e limitações de responsabilidade. Ainda assim, é verdade que, em ambientes mais competitivos e descentralizados, o erro tende a ter custo direto para quem decide, enquanto estruturas estatais complexas diluem responsabilidades e amortecem falhas por meio do erário. Quando Estado e grandes corporações passam a operar de forma entrelaçada, como ocorreu no fascismo, no nazismo e em diversas experiências contemporâneas, os problemas associados ao socialismo burocrático reaparecem sob outra roupagem. A promessa deixa de ser igualdade ou emancipação e passa a ser eficiência, estabilidade ou desenvolvimento, mas o resultado institucional é semelhante: concentração de poder, decisões menos transparentes e afastamento progressivo entre governantes e legisladores em relação aos governados. A corrupção sistêmica surge, nesse contexto, não como exceção moral, mas como subproduto lógico da estrutura. Agentes públicos e representantes privados criam redes de reciprocidade, favores e proteção mútua que capitalizam ganhos e diluem custos. Quanto mais complexa a máquina, mais difícil identificar responsabilidades; quanto mais estável o arranjo, maior sua capacidade de resistir a mudanças. É nesse ponto que a ilusão democrática da troca de liderança se revela. A substituição de um presidente, ainda que bem-intencionado, não altera automaticamente a lógica profunda das instituições. Estruturas altamente pervertidas tendem a reagir a tentativas de correção como um organismo reage a um corpo estranho: neutralizando, isolando ou expulsando o agente reformador. Reformas superficiais produzem efeitos marginais; reformas profundas enfrentam resistência interna contínua. Isso não significa que a transformação seja impossível, nem que toda instituição esteja condenada à degeneração. A crítica ao determinismo institucional é válida e necessária. Contudo, essa transformação exigiria reformas que atingiriam incentivos, não apenas discursos; estruturas, não apenas lideranças. Uma solução realista e exequível não residiria na negação do Estado nem na idealização do mercado, mas na redução sistemática das zonas de captura. Isso implicaria limitar a concentração de poder decisório, simplificar normas, expor processos à fiscalização pública efetiva, reduzir a promiscuidade entre reguladores e regulados e criar mecanismos em que erros tenham custos claros para quem decide. Significaria também reconhecer que políticas sociais podem existir sem se converter em instrumentos de tutela permanente, desde que sejam desenhadas para favorecer a autonomia e não criar dependência. Em última instância, o problema não é apenas quem ocupa a presidência, mas o ecossistema institucional que a cerca. Conquistar o topo sem tratar a doença sistêmica é, no máximo, como pichar a alegoria feminina de República com um batom; tem algum efeito simbólico, mas nenhum efeito prático. A história do Estado Social, desde Bismarck ou Marx até o presente, mostra que proteção sem limites claros tende à tutela, e poder sem freios tende à captura. O desafio político central permanece o mesmo: construir instituições que sirvam às ideias que as criaram, e não o contrário. Leia o artigo: Só mais um bate-papo na sala dos professores











