
MENEZES COSTA
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- O colapso econômico que ignoramos
O verdadeiro colapso econômico está longe dos grandes bancos, governos ou da tecnologia. O apocalipse está anunciado e a maioria de nós ignora, mesmo sendo capazes de mudar o jogo. Fica comigo até o final que eu vou te apresentar um universo escondido que está diante dos nossos olhos mas a nossa ignorância não nos permite vê e que se chama ABELHA. Será mesmo real o apocalipse econômico, caso as abelhas fossem extintas? Parece exagero, mas veja isso: segundo Einstein, “se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade teria apenas mais quatro anos de existência, pois, sem abelhas não há polinização, sem a polinização não haverá flora, sem flora não haverá animais e sem animais não haverá a raça humana”. No mundo existem mais de 20 mil espécies de abelhas catalogadas, mas pesquisas no mundo todo apontam para a extinção das abelhas, os EUA já perdeu quase metade da população de abelhas desde o final da segunda guerra mundial. Algumas abelhas, dessas milhares catalogadas, já não se encontram na natureza. Ou já foram extintas ou só existem nas mãos de criadores como eu. Ah, perdão, deixe apresentar-me. Eu sou Emmanuel Duarte, fundador do Projeto Vale do Mel. Projeto este que tem como finalidade a preservação e educação a respeito das abelhas nativas SEM ferrão. Atuamos desde a educação infantil nas escolas com teatro de fantoches, livros autorais, músicas temáticas, cinema interativo e apresentação das abelhas sem ferrão em caixas didáticas até a fase adulta com palestras e cursos para quem quer aprender a criar essas abelhas em casa e produzir o seu próprio mel. Voltando ao colapso, esse fato começou a ganhar destaque no ano de 2005 e de uns tempos para cá um fenômeno estranhamente triste tem chamado a atenção de pesquisadores e ambientalistas: De dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, foram encontradas mais de 500 milhões de abelhas mortas em apenas 4 estados brasileiros, 400 milhões só no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 45 milhões no Mato Grosso do Sul e 50 milhões no estado de Santa Catarina. Além disso, algumas das abelhas nativas foram incluídas na lista de ameaçadas de extinção em 2017 e 2018. Essa diminuição das abelhas é conhecida como DISTÚRBIO DE COLAPSO DAS COLÔNIAS, que infelizmente abrange o mundo todo. As abelhas possuem uma das mais importantes funções do ciclo de vida na terra, não foi atoa que foi eleita o ser vivo mais importante do planeta. Cerca de 70% de tudo que comemos dependem diretamente das abelhas, elas são responsáveis pela polinização. Mas o que exatamente é a polinização? Bom, assim como os animais dependem do sexo feminino e masculino para a reprodução de sua espécie, assim também são as plantas. A flor possui o órgão feminino e também o masculino que precisam se cruzar para gerar nova vida, mas diferente dos animais que podem ir ao encontro do tão desejado acasalamento, as plantas estão fixadas ao chão e é aí que aparecem as abelhas como sendo a solução para esse problema. Superficialmente podemos dizer que as flores oferecem o néctar e o pólen que servem de alimento para as abelhas, em troca disso o pagamento é feito em serviço, sim, as abelhas ao visitar a flor, ela fica revestida de pólen e ao visitar outra, ela transporta o pólen da primeira para a segunda flor, fazendo o cruzamento, com isso a planta gera sementes que vão gerar novas plantas, além de frutos é claro. Existem algumas espécies de plantas que podem fazer esse cruzamento apenas pelo vento, mas mesmo essas espécies que não dependem do cruzamento feito pelas abelhas, quando polinizadas por elas, produzem frutos maiores, com mais nutrientes e com muito mais valor de mercado. Podendo até dobrar de tamanho como é o caso da berinjela e do girassol, por exemplo, na soja o benefício é de 18% a mais de grãos quando a lavoura é visitada por esses incansáveis insetos. Existem outros polinizadores como o beija-flor, morcegos, moscas, ratos, besouros entre outros, mas as abelhas são de longe as mais importantes, estima-se que as abelhas são responsáveis por polinizar 80% de todas as plantas com flores do planeta. Com a diminuição das abelhas, naturalmente se diminui a produção de frutos e sementes que servem de alimento para nós humanos e demais animais, sem dizer o nascimento de novas plantas, pois sem sementes não existiria a manutenção das florestas. Além disso, tem um valor econômico muito importante com tudo isso, imagina o pior dos cenários, NÃO TEMOS MAIS ABELHAS NO MUNDO. Bom, mas podemos polinizar manualmente as plantas como já é feito na china em algumas de suas regiões, que por causa do excesso de poluição e falta de matas nativas já não tem abelhas o suficiente em algumas regiões. Aqui no Brasil nas lavouras de maracujá, a polinização manual já é uma realidade por falta de uma abelha chamada mamangava. Mas quanto custaria para o agricultor fazer o serviço de polinização que hoje é gratuito, graças às abelhas? Bom, em 1997, cientistas fizeram essa pergunta e colocaram um time de pesquisadores para encontrar essa resposta e acredite, eles chegaram ao valor de 33 trilhões de dólares por ano somente para fazer a polinização manual das lavouras, e claro que sem a mesma perfeição. Para você entender melhor o que isso significa, o PIB de todos os países juntos, ou seja, o produto interno bruto de todos os países em 1994 foi de 18 trilhões de dólares, veja, o custo com a polinização manual seria de quase o dobro do PIB mundial. As abelhas são responsáveis por um rendimento de US$ 30 bilhões por ano em lavouras e o seu trabalho na reprodução das matas nativas é definitivamente incalculável. A extinção das abelhas quebraria o ciclo de vida na terra, afetando toda a cadeia alimentar, pois as plantas geram frutos e sementes que são alimento de aves e alguns animais que por sua vez são alimentos de outros animais, incluindo o homem. Além do alimento, as abelhas também são responsáveis por outros setores da economia, como o setor de vestuário por exemplo, sem abelhas a produção de algodão seria gravemente afetada, com isso grande parte das texturas de roupas que conhecemos já não existiria mais. Tem também o fator poluição, por exemplo, a canola que é polinizada pelas abelhas, é utilizada como óleo de cozinha, mas também como combustível, sem as abelhas não teria o óleo como combustível e com isso usaríamos ainda mais combustível fóssil. Mas porque as abelhas estão morrendo? Segundo especialistas, as principais causas são os parasitas e agrotóxicos. Desde 1945, fim da segunda guerra mundial, o mundo todo investiu em lavouras com cada vez mais pesticidas e agrotóxicos. Existem muitos outros problemas como parasitas, poluição, desmatamento, entre tantos outros que causam a morte das abelhas. Os animais herbívoros seriam os primeiros a serem afetados, pois sem a reprodução da flora, chegará um momento que não haverá mais plantas que servem de alimento para esses animais e consequentemente seria a sua morte. Um bom exemplo disso é a criação bovina, cujo a base de sua alimentação é alfafa e soja, ou seja, sem as abelhas essas plantas não existiriam na mesma proporção, afetando diretamente nossos hábitos alimentares. Outro motivo extremamente importante seria a economia. Até a metade do ano de 2021, o Brasil exportou o equivalente a 29 milhões de dólares com mel, fora outros derivados como pólen, própolis, cera e etc. Durante todo o ano de 2020, o Brasil exportou mais de 45 toneladas de mel. O faturamento nacional passou de 98 milhões de dólares neste ano. Mas diante desse cenário caótico, como nós, meros mortais podemos ajudar? Acredite, não precisamos ser donos de fazenda, milionário ou governante, para fazer a diferença. Existem mais de 20 mil espécies de abelhas espalhadas pelo mundo, e nós brasileiros fomos agraciados com mais de 300 espécies de abelhas nativas SEM FERRÃO. As mais famosas delas são a abelha Jataí (Tetragonisca Angustula) e a Uruçu Nordestina (Melipona Scutellaris), essa última inclusive, ficou conhecida de todo o Brasil nos versos da música Morena Tropicana, do cantor Alceu Valença, “…Pele macia, é carne de caju; Saliva doce, doce mel, mel de urucu…”. Essas abelhas têm despertado o interesse de pessoas comuns como eu e você, pois a grande maioria delas são dóceis e fáceis de criar, podendo ser criada inclusive em apartamentos de grandes cidades, como é o caso de São Paulo, por exemplo. Eu moro próximo ao centro da cidade de Taubaté/ SP, e crio mais de 50 colônias em minha casa, passando de 100 mil abelhas ao todo. As abelhas sem ferrão estão por todo o território nacional, são encontrados facilmente em praças, bosques, muros, fendas de rocha e até no subsolo como é o caso da Jataí da Terra (Paratrigona Subnuda), que faz seu ninho em buracos no chão, abandonada por formigas, facilmente encontrada nos gramados de praças de boa parte do Brasil. Nós brasileiros, precisamos nos despertar para a importância das abelhas, fomentar a educação nas escolas sobre esse assunto e fazer cada um de nós a sua parte. Eu fiz uma adaptação de uma linda história contada pelo sociólogo Betinho que diz assim: “Houve um incêndio na floresta, os animais desesperados fugiam por todos os lados. Em meio àquele desespero, a onça-pintada, observou que uma abelhinha voava de um lado para o outro, pegando gotículas de água no riacho e jogando no incêndio. Inquieta e intrigada, indagou a onça: Abelhinha, o que você está fazendo? Fuja! Você acha mesmo que vai conseguir apagar o incêndio com esse pouquinho de água aí? Então a abelhinha respondeu: Bom, apagar eu não sei se posso, mas estou fazendo a minha parte. A onça então constrangida começou a ir ao riacho para pegar água e jogar no fogo. Foi aí que animais como a anta, o tatu, cutia e caititu ao verem aquela cena, decidiram fazer o mesmo, e em poucas horas, o fogo foi combatido, e a floresta foi salva”. Que esse artigo seja uma abelhinha na sua floresta, que seja um convite a combater o incêndio da desinformação quanto ao tema. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 01 - ISSN 2764-3867
- Atena e as competências na constituição
Atena, amante da guerra e da sabedoria, escolheu uma região da Terra, que fosse mais favorável à geração dos humanos valorosos, semelhantes a ela própria, e ali instalou a mais admirável forma de governo que os céus já abraçaram. Inspirou os habitantes do lugar à produção das mais esplêndidas obras de arte jamais contempladas e ensinou-lhes a arte bélica, sobretudo o manejo do escudo e da lança. A civilização seguiu os ensinamentos da deusa, a orgulhou pela maneira sábia como dividiu as tarefas de governo, para garantir o florescimento social e, apesar habilmente guerreira e corajosa, somente dedicou-se à guerra para garantir a liberdade de seu povo. A cidade original, nominada Atlântida, depois de grandioso florescimento, submergiu, foi destruída pela própria deusa, sua criadora, porque os homens se corromperam, desrespeitaram a divisão das tarefas públicas e enlamearam as atividades de governo com os vícios que permitiram apossar-se de seus corações. Atena, entretanto, livrou os mais sábios de perecer junto com a cidade e estes deram origem ao povo que, posteriormente, fundou Atenas, a mais próspera cidade grega da antiguidade. Atenas alcançou grande poderio em virtude do estímulo ao exercício da temperança, valorização da memória de seus heróis, uso parcimonioso dos recursos disponíveis e, sobretudo, a divisão das tarefas públicas. Tal como seus antepassados, eram sábios e somente usavam a guerra para garantir a liberdade de seu povo. O sucesso de Atenas provocou inveja nos governantes de Esparta, cidade famosa por seus vigorosos guerreiros que, por isso, romperam o pacto de paz, entre os povos gregos, que deveria durar 30 anos, e fizeram eclodir a Guerra do Peloponeso. Para ocultar o motivo real de sua conduta, a inveja dos dirigentes de Esparta em razão do pujante florescimento do império Ateniense, os espartanos, ardilosamente, acusaram Atenas de haver rompido tal ajuste e lançaram sobre ela a responsabilidade pela guerra. Diante do desacato de Esparta, ao Pacto, e da falsidade do discurso de seus dirigentes, os atenienses cumpriram a risca a orientação ancestral de que “os homens valorosos deixam a paz para entrar em guerra quando são vítimas de injustiça, e assim que possível, quando a situação volta a ser favorável, deixam a guerra para voltar à concórdia, sem exaltar-se pelos êxitos obtidos mas, também, sem suportar a injustiça pelo prazer que proporciona a tranquilidade e a paz”. Em 371 a.C os espartanos sucumbiram, perderam a supremacia militar, mas todas as cidades gregas sofreram com o rompimento do acordo, mesmo a vitória não compensou as dores. Os povos modernos também dividem e distribuem as atividades de governo entre pessoas diversas e, igualmente, se servem de pactos para mantença pacífica desta ordem estabelecida. Os acordos modernos são expressos através das Constituições que instituem os Estados. No caso da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, o pacto é fundado sobre a divisão de competências. Estas são distribuídas tanto entre os Poderes públicos: Legislativo, Executivo e Judiciário, quanto entre as pessoas políticas: União, estados-membros, Distrito Federal e municípios. O exercício de qualquer atividade pública somente é válido se for desenvolvido dentro dos expressos limites de competência fixados pela Constituição da República. Ações, de agentes públicos, fora da respectiva área de competência delimitada pela Constituição, violam o pacto federativo estruturante da democracia brasileira. A condução dos agentes públicos dentro dos limites de competência constitucional não apenas é requisito de segurança do funcionamento democrático e condição de sobrevivência deste sistema, é elemento do sistema federativo brasileiro. Se o agente público pratica ato fora do limite de competências delimitado constitucionalmente para a entidade pública cujos quadros integra, não lhe socorrem as garantias conferidas ao respectivo cargo ou função. O funcionamento democrático do Estado depende da fidelidade dos agentes públicos, exercício das competências públicas, à normatividade constitucional. A democracia real exige lealdade e proatividade entre os entes públicos, para concretização dos objetivos de Estado expressos pelos artigos 1º e 3º da Constituição. As normas constitucionais de divisão de competências político/administrativas, atribuem, à União, e somente a ela, o poder/dever de planejamento e promoção da defesa do interesse público, em situações de calamidade, bem como de mobilização nacional para sua superação. É o que dizem os incisos XVIII, artigo 21 e XXVIII, art. 22. Trata-se de competência exclusiva da União, qualquer outra pessoa política que execute tais atribuições, incorre em usurpação de competência. As providências de enfrentamento de calamidades, a exemplo da atual pandemia de Corona Vírus, estão inafastavelmente vinculadas a esta normatividade constitucional. Como a competência para planejamento e promoção de ações de enfrentamento de calamidades é exclusiva da União, as demais unidades da federação estão proibidas de exercê-la. Diz o §1º, artigo 25, da Constituição de 1988 que se atribui, aos Estados-Membros, as competências que não lhe sejam vedadas pela própria Carta Constitucional. Então, estes podem realizar planejamentos e providências de âmbito local, para enfrentamento de calamidades, inclusive esta gerada pela pandemia de Corona Vírus, desde que não diminuam a eficácia do planejamento nacional ou dificultem sua execução. Os planos e ações dos Estados-membros e das demais pessoas políticas da Federação, somente são juridicamente válidos se tiverem conteúdo suplementar, do planejamento nacional, e se contribuírem para potencializar sua eficiência. Qualquer conduta que diminua ou dificulte a execução da competência nacional de enfrentamento de calamidades, viola a divisão de competências da Federação. Tal subversão normativa causa duas ofensas simultâneas: violação do pacto federativo de proatividade entre as pessoas políticas para concretização dos objetivos do Estado democrático brasileiro, e usurpação de competência político-administrativa conferida exclusivamente à União. Nessas condições, a ação do agente público respectivo caracteriza abuso de poder porque instala uma ordem de atividade voluntarista e constitucionalmente inadmissível. A corrupção das atividades de governo, que enlameou a divisão das competências públicas em Atlântida foi punida por Atena com a destruição da cidade. A deusa condenou Atlântida ao afundamento sob as águas do mar. Os Atenienses, descendentes da valorosa população de Atlântida, cumpriram os ensinamentos da deusa, respeitavam a distribuição das tarefas de governo e as executavam com dignidade. Ademais, corajosamente, defenderam a liberdade de seu povo, segundo os ensinamentos bélicos ancestrais. Atena ergueu seu escudo de ouro em defesa da cidade e arremessou sua lança contra os espartanos. Atena nos inspire a arrostar a injustiça normativa causada por eventuais usurpações de competência que ameacem a forma de Estado instituída pela Constituição de 1988. Usemos os instrumentos constitucionais próprios para afastar este perigo. Não nos entreguemos ao comodismo da omissão quando nosso pacto constitucional periclita ser violentamente rompido, o preço seria, fatalmente, a morte da democracia e a causa seria a deserção de seus guerreiros. Deus nos ajude! Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 01 - ISSN 2764-3867
- Cátaros e o desfolhamento da vida
Tudo o que está sob o sol e sob a lua é simplesmente confusão e corrupção (ROPS, Daniel, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 2011, p. 592), pregava Limosus Negro, o cátaro puro, no século XII, no sul da França. Sua alma assentava-se no princípio da dualidade que a tudo se impunha, o perfeito versus o imperfeito, o eterno versus o temporal, o bem versus o mal… A maior desventura de sua alma era a dualidade entre mundo material e espiritual. A existência de matéria era tormento sem fim. Angustiava-lhe, profundamente a ciência de que os corpos humanos, a matéria, era um terrível cárcere criado por Lucibel, Satanás, para aprisionar fagulhas da divindade, primeira, essencialmente boa porque inteiramente espiritual. A felicidade só existia no espírito, era inatingível aos seres humanos porque somente seria possível depois da destruição da matéria. A morte libertaria a centelha divina agrilhoada ao corpo pelo anjo maligno caído da harmonia celeste. Sua crença partia da doutrina gnóstica para a qual, no princípio existiu uma divindade perfeita que continha tudo em si mesma. De um instante para o outro, este todo deu início a um processo constante de partição em pedaços iguais. Ademais, também de um instante para outro, a partição produziu uma partícula diferente, o Demiurgo. Os demais pedaços da divindade primeira, que antes se julgavam iguais e portanto perfeitos, ao verem a partícula diferente, perceberam que não eram completos: faltava-lhes algo que estava presente naquela. Isto desintegrou a divindade, suas partículas se dispersaram e prosseguiram o processo de partição interminável. Para o valdismo, seita semelhante ao catarismo, a partícula da divindade inicial era uma centelha do Espírito Santo, pregava que cada fiel é depositário do Espírito Santo (Idem, Ibidem, p. 583). Para conter a desintegração da divindade, surgiu o Demiurgo, o maligno, que criou a matéria, o Universo, e dentro dela aprisionou as partículas divinas. Foi também o Demiurgo o criador da moral e da inteligência humana. A matéria impõe, às partículas, um indizível sofrimento, pois tudo o que anseiam é a volta à unidade inicial. O catarismo era seita gnóstica e esta cosmovisão se opõe essencialmente ao catolicismo. A crença cátara tem fundamento pagão e segue a mesma orientação de dualidade divina. Adota como ponto de partida a existência de um deus bom, o criador dos espíritos perfeitos, e outro deus mau, o criador do Universo. Platão já expunha seita semelhante no Fedon. Afirmou, categoricamente, estar seguro do avanço que lhe traria sua transferência para junto dos deuses que são excelentes amos, por isso não se revolta com a ideia de morte, pelo contrário, tem esperança nela (PLATÃO, A Teoria das Ideias, trad. Adalberto Roseira, São Pulo, Hunter Books, 2013, p.121). Para Platão, as crianças deveriam ser educadas para temer a morte o menos possível e tornarem-se adultos corajosos para lutar pela liberdade mais do que pela própria vida (PLATÃO, A República, trad. Ed. Martin Claret, São Paulo, Martin Claret, 2004, p. 74). Os cátaros, nesta mesma senda, sonhavam com um mundo espiritual submetido ao deus bom, o criador dos espíritos perfeitos. Para concretizar este sonho, precisavam destruir o mundo material, extinguir tudo o que favorece a vida sob o sol e sob a lua. Esta linha de espiritualização exige bárbara violência contra a vida. É contrária à humanidade porque, a serviço do “deus bom”, os cátaros pregavam a mortificação do corpo, a autoflagelação, ademais, eram contra o casamento pois produzia mais matéria: os filhos (PERNOUD, Régine, O Mito da Idade Média, 101, ed. Portugal: Europa-América, 1977, p.110). Se casados, deveriam desprezar suas esposas, para não produzirem novos cárceres da alma. Aos puros, perfeitos como Limosus Negro, as relações sexuais eram proibidas, mas os cátaros tinham outro nível de membros da seita: os crentes. A estes era tolerada a sexualidade mas, preferencialmente, o concubinato e o homossexualismo, nunca o casamento. Eram considerados males menores, por isso era preferível o amor livre. O suicídio era muito apreciado por eles sob a forma de envenenamento, jejum absoluto até causação da morte e pela exposição voluntária ao frio intenso seguido de banho muito quente para provocar pneumonia. Como o ideal era favorecer o desprendimento da fagulha divina aprisionada no corpo, chegavam ao extremo de matar mulheres, sobretudo as grávidas (PALMA, Laura, Inquisição, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=j7f3hX7-8Vg ). Em face destas barbaridades contra a matéria, há quem defenda que, se a crença se tornasse universal, fatalmente levaria à extinção da espécie humana (BERNARD, José, A Inquisição, História de uma Instituição Controvertida, 1ª ed. Petrópolis: Santa Cruz, 2016, p110). A violência perpetrada pelos cátaros em cumprimento os pressupostos da seita, ostenta tal selvageria que remete à barbárie primitiva. Entretanto, o comportamento dos perfeitos atraía adeptos. Ocorre que estes puros se impunham uma vida austera e pobre enquanto o clero vivia a ostentação e escandalos. Outro elemento que favoreceu o avanço do catarismo foi a aliança com barões e altos senhores feudais. Para estes, a adesão ao catarismo lhes justificava saquear os conventos, incendiar as igrejas, inclusive com fiéis dentro (ROPS, Daniel, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 2011, p. 595), e quiçá até desapropriar os bens da igreja. Era, em tudo, contrária ao catolicismo, que reconhece a existência de um único Deus, eterno e transcendente, cuja bondade fez criar a matéria e todas as belezas do universo. No catolicismo a matéria é essencialmente boa, provém do Sumo Bem e ao bem se destina. A vida humana é matéria, alma e espírito, unidade com três faces. Por isso, aviltar a matéria é aviltar a vida, dom, dádiva e expressão da bondade de Deus. A reprodução e a defesa da vida são a missão primeira do ser humano, como gratidão ao Deus único. A crucificação de Cristo evidenciou a vileza dos maus tratos impostos à carne, que causam sofrimentos inimagináveis ao espírito, sobretudo porque finda por destruir a vida humana, a depender de sua intensidade. Se Deus é uno, não comporta divisão em fagulhas nem dualismos. O homem, feito à imagem do Criador, é unidade ontológica de espírito, corpo e alma para florescimento de todas as suas potencialidades. Sua essência tem o mesmo destino das plantas: florir e frutificar. É dever do cristão crescer em virtude para garantir este florescimento. A cristianização foi lentamente modificando os costumes, pois o gnosticismo pagão permaneceu na alma de muitos recém-convertidos como um padrão de comportamento ancestral. A força da crença antiga não lhes permitiu compreender e seguir perfeitamente a mensagem de Cristo, no instante da conversão. Muitos seguiram com uma imagem ancestral de que a matéria é expressão do mal. Os cátaros tinham referências em Cristo mas não o reconheciam como Deus. O consideravam um anjo, mensageiro de Deus, com natureza puramente espiritual. Nunca esteve encarnado, sua passagem na terra foi miragem, aparência pois, sendo puro espírito, não poderia ter qualquer contato com a matéria, essencialmente má. Os Cátaros se opunham visceralmente às manifestações de culto católico especialmente à Cruz Sagrada, às imagens ou às relíquias. Eram matéria, aos seus olhos, expressão do mundo satânico, por isso profanavam os templos e cultos católicos. Aviltavam ferozmente a eucaristia, não aceitavam que é o corpo de Deus vivo e, tanto quanto os objetos de culto era matéria, lhes causava horror e deveria ser destruída. A vida humana, que somente existe no corpo, era para eles a expressão do mal. Nesse contexto, o suicídio era o ponto alto dos ensinamentos cátaros, muitos o perpetravam para apressar a libertação da partícula divina presa na carne. No catarismo, a malignidade da realidade material do homem era insuperavelmente maior na mulher em face de sua natural fecundidade, capacidade de reprodução. Conheciam a Cristo mas adotavam uma doutrina oposta à sua orientação e ao seu exemplo de vida na terra. Em Piacenza chegaram a expulsar o clero católico.A cristianização foi lentamente modificando os costumes, pois o gnosticismo pagão permaneceu na alma de muitos recém-convertidos como um padrão de comportamento ancestral. A força da crença antiga não lhes permitiu compreender e seguir perfeitamente a mensagem de Cristo, no instante da conversão. Muitos seguiram com uma imagem ancestral de que a matéria é expressão do mal. Os cátaros tinham referências em Cristo mas não o reconheciam como Deus. O consideravam um anjo, mensageiro de Deus, com natureza puramente espiritual. Nunca esteve encarnado, sua passagem na terra foi miragem, aparência pois, sendo puro espírito, não poderia ter qualquer contato com a matéria, essencialmente má. Os Cátaros se opunham visceralmente às manifestações de culto católico especialmente à Cruz Sagrada, às imagens ou às relíquias. Eram matéria, aos seus olhos, expressão do mundo satânico, por isso profanavam os templos e cultos católicos. Aviltavam ferozmente a eucaristia, não aceitavam que é o corpo de Deus vivo e, tanto quanto os objetos de culto era matéria, lhes causava horror e deveria ser destruída. A vida humana, que somente existe no corpo, era para eles a expressão do mal. Nesse contexto, o suicídio era o ponto alto dos ensinamentos cátaros, muitos o perpetravam para apressar a libertação da partícula divina presa na carne. No catarismo, a malignidade da realidade material do homem era insuperavelmente maior na mulher em face de sua natural fecundidade, capacidade de reprodução. Conheciam a Cristo mas adotavam uma doutrina oposta à sua orientação e ao seu exemplo de vida na terra. Em Piacenza chegaram a expulsar o clero católico. Queriam extinguir a humanidade o que contraria inafastavelmente a estrutura ontológica do corpo humano e do mundo material que, em tudo, são propensos e complementares à preservação e reprodução da vida. Evidentemente o catarismo viola a primeira lei natural, a ordem que dirige a humanidade à frutificação, ao florescimento da vida. As ideias modernas de amor livre, complacência com a infidelidade conjugal, promoção à legalização do aborto e da eutanásia, controle de natalidade, profanação dos Sacrários e as ideias que afrontam a perenidade e reprodução da vida, trazem resquícios gnósticos, acentuadamente cátaros. Parece que a pregação de Limosus Negro ainda reverbera nos dias de hoje, sopra espessas nuvens sobre a revelação de Jesus Cristo, e a tormenta de suas ideias ainda desfolha e despetala o florescimento da vida. Deus nos ajude! Artigo da Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 34
- A história é escrita pelos vencedores
A frase título de nossa reflexão costuma ser atribuída a Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo grande público como George Orwell, escritor e jornalista inglês, autor entre outras obras dos atualíssimos “A Revolução dos Bichos” e “1984”. É senso comum e mesmo o raciocínio lógico nos induz a concluir que a afirmativa é correta. No Brasil não é incomum encontrarmos quem cite ou concorde com o Sr. Orwell. O Brasil é de fato um bom exemplo para tentarmos desvendar os meandros que conduzem a uma história oral, escrita, cantada enfim, produzida sobre um momento histórico muito marcante, que abre debates ainda hoje até mesmo quanto a sua definição: golpe de 64, revolução de 64 ou contrarrevolução de 64. Tentaremos confirmar se a afirmativa de Orwell se encaixa nos resultados obtidos no Brasil a partir do dia 31 de março de 1964 até os dias atuais e, quem são os vencedores. Não temos a pretensão de esgotar o assunto tampouco de sermos inéditos, senão suscitar novas reflexões que colaborem com o avanço do conhecimento. Sabendo que o foco de nossas análises estará sobre mídias e instituições que promoveram – direta ou indiretamente – a cultura nacional naqueles tempos e, por conseguinte contaram de maneiras muito próprias a história de seu tempo, vamos adiante. O governo de João Belchior Marques Goulart foi deposto por um golpe civil engendrado por lideranças políticas no Congresso Nacional, golpe comunicado a seus pares pelo Senador Auro de Moura Andrade em sessão na madrugada de 02 de abril de 1964. Segundo as palavras do senador, João Goulart deixara “a Nação acéfala numa hora gravíssima da vida brasileira em que é mister que o chefe de Estado permaneça à frente do seu governo". Goulart, entretanto, se encontrava em território brasileiro, no Rio Grande do Sul. Sendo Goulart o vice-presidente, segundo a Constituição vigente (1946), em caso de vacância da presidência da República e da vice-presidência, cabe ao presidente da Câmara dos Deputados assumir o governo, o que de fato ocorreu levando o deputado Ranieri Mazzilli à presidência. A partir deste momento, uma sucessão de acordos e debates culminaram com a chegada do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco à presidência do Brasil no período entre 1964 a 1967. A história nos conduz através do tempo até chegarmos ao ano de 1985 quando, após outros quatro presidentes militares: Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, o Brasil se reencontra com um novo presidente civil. Até aqui tudo nos leva a crer que os militares foram os vencedores desta batalha. Sim, venceram esta batalha, mas a guerra estaria longe de ter fim. Alcançar a presidência do Brasil, de fato impediu que a ideologia socialista avançasse sobre o nosso povo. Pôs um freio à sanha conquistadora da militância socialista daqueles tempos. Os mecanismos de controle aplicados pelos governos militares brasileiros ao longo dos anos seguintes, buscavam manter a ordem social, a estabilidade institucional e atender as demandas da sociedade da época, ainda essencialmente conservadora e católica. Aos olhos de militantes de esquerda, pareceriam medidas opressoras, porém para a maioria nada mais era que a defesa de uma visão de mundo. Como militares treinados para o combate, não era de se esperar naquele momento medidas político-filosóficas, mas o combate aguerrido como pôde-se verificar nas questões do Araguaia. É possível que o foco de atenção no combate ao terrorismo e a falta de um certo “profissionalismo” no que tange à censura, tenha causado distorções grotescas de estratégia. Voltaremos neste ponto ao ano de 1930 para compreendermos o mapa estratégico da guerra que já se estendia muito antes dos fatos citados de 1964. Getúlio Vargas, recentemente alçado à presidência pela Revolução de 1930, cria o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, que hoje conhecemos como Ministério da Educação e Cultura (MEC). O objetivo era formalizar no Brasil um sistema integrado e padronizado que proporcionasse formação escolar a uma população que passava dos 41 milhões de habitantes. Certamente construiria no imaginário infantil um senso de pertencimento e integração a algo muito maior e permanente: o Estado. Essa estratégia não era nova, posto que era usualmente aplicada em estados fascistas do mesmo período. Atualmente o MEC conta com mais de 300 mil funcionários públicos – quase metade do universo de funcionários federais – e absorve mais de 145 bilhões de Reais do orçamento da União para 2021. O pensamento tecnicista, típico do positivismo, muito característico nos meios militares, foi também aplicado à estrutura educacional brasileira da década de 30 e seguintes. As graves questões educacionais seriam, pois, resolvidas pragmaticamente colocando-se profissionais técnicos em postos-chave da estrutura estatal. A grande questão a se pensar sobre esta ação é: não se considerariam fatores subjetivos na escolha dos ocupantes daqueles postos. O conhecimento em área específica sem considerar questões ideológicas ou de “visão de mundo” traria consequências, como veremos mais adiante. Fundada em 1932 pelo jornalista Ênio Silveira, a Editora Civilização Brasileira vai ao longo das décadas seguintes, apresentar em seu catálogo, livros de autores como Georg Lukács e, sobre o pensamento de Antônio Gramsci. Pensadores que viriam a ser algumas das bases do marxismo contemporâneo. Apesar da censura nos anos 60 e 70, o acesso a publicações marxistas, particularmente sobre o marxismo cultural, ofereceu um arcabouço de ideias que conduziria a mentalidade formadora das novas gerações. Paralelamente a tais questões, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, que teve entre seus signatários o educador Anísio Teixeira, traz dentre seus conceitos o da “Escola Nova”. Uma das ideias centrais desta corrente era a de libertar o aluno da tutela dos adultos, entregando-os à sua própria consciência moral. O pragmatismo presente no ideário da Escola Nova, alavancado por Anísio, que ocupou postos chave no meio educacional: Universidade do DF (RJ), Universidade de Brasília e Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, vai também causar impactos na formação ideológica e na visão de mundo das novas gerações. Finalmente, chegamos àquele que mais poderosamente contribuiu para a construção de um cenário pré-apocalíptico educacional brasileiro: Paulo Freire. O “educador” nascido em Recife no ano de 1921 vai ao longo de sua atuação político-pedagógica, fermentando o que viria a se chamar “método” de letramento e, principalmente, uma postura e modus operandi dos profissionais de educação de seu tempo e mesmo os nossos contemporâneos, alimentados com partes de suas obras, mas nunca seriamente analisado. Freire, cujo maior mérito pode ser o de ter formatado no seio de nossas escolas a mentalidade marxista, incentivando o aproveitamento da liberdade de cátedra e de um público cativo, foi um dos beneficiados pelo tecnicismo de seu tempo. As salas de aula sob o ideário de Freire se tornam palco de instrumentalização ideológico-marxista, contando com toda a estrutura educacional erguida desde os anos 30. Com um universo de servidores, políticas e políticos interessados e, apesar da “ditadura” vigente desde 1968, não foi difícil burlar o controle e continuar sob a sombra da máquina estatal a perpetrar seus fins escusos. Não apenas a educação se apresentava como instrumento de alcance estratégico. As mídias de época, tais como jornais, revistas e, especialmente as músicas, que apesar de censuradas algumas vezes, podiam ser levadas pelo canto popular a toda parte, consolidavam as ideias de seus criadores. As ideias permeavam a população, mesmo dentre os mais conservadores, que aplaudindo personalidades carismáticas como por exemplo Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, discretamente incensavam as mentes com poesias contestadoras. Mais que contestar, o objetivo se mostrava naturalizar conceitos, tornando a população pronta para crer, por exemplo, que as lideranças eram um mal a ser combatido, enquanto poetas e educadores lutavam pela liberdade. Trabalho lento, difícil, algumas vezes perigoso, mas levado a cabo com fidelidade canina por seus artífices. Se no meio educacional e midiático o cenário que se desenhava, enquanto terroristas eram presos e mortos, era tratado de modo tecnicista pelos governantes militares, no meio religioso a realidade não era diferente. Personalidades como Dom Paulo Evaristo Arns, Leonardo Boff e Frei Beto, dialogavam amplamente com a juventude, aproximando-os da moral cristã. Entretanto, esta moral em muito pouco se parecia com a exemplificada pelo Mestre Jesus. Um novo cristianismo era apresentado aos jovens, ainda pouco letrados nos textos bíblicos: a teologia da libertação. Esta excrecência pseudorreligiosa, assim como o “método” de Paulo Freire, perverte o sentido libertador tanto da educação quanto da mensagem do Messias, trazendo aos bancos e genuflexórios um cristianismo revolucionário e marxista. Ainda neste ponto os governos militares não conseguiram impedir que tais ideias de espalhassem entre muitos fiéis. A incapacidade de lidar com questões que extrapolavam a teoria militar, algemada pela mentalidade positivista e pelo primarismo tecnicista, abriu novas frentes de batalha diante de generais e seus comandados. Se na aparência o movimento de 1964 venceu o socialismo persistente no Brasil, esta vitória não passou de uma batalha. A guerra era muito maior do que esperavam Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel ou Figueiredo. Enquanto DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) buscavam combater o socialismo em seus aspectos mais óbvios, os militantes da causa marxista utilizavam de maneira sub-reptícia os meios legais, o socialismo avançava vencendo praticamente em todos os flancos, mesmo que a grandiosidade das obras e monumentos erguidos pelos militares dissessem o contrário. Retornando a George Orwell, concluímos que seu aforismo é verdadeiro: a história é sim escrita pelos vencedores. Sendo mais abrangente, a história é escrita, recitada, cantada, contada e repetida pelos vencedores. Em meados dos anos 80, era praticamente unânime a ideia de que o período de 1964 a 1985 havia sido um terrível retrocesso, de estagnação e opressão. Os supostos derrotados venciam de braçadas. Surgia não só um novo Brasil, agora representado por uma das Constituições mais socialistas dentre os regimes democráticos: a Constituição cidadã de 1988, mas surgia também um povo entorpecido por duas décadas de vapores doutrinários socialistas. O Brasil aparentemente não tem uma Constituição, tem uma âncora socialista que impede seu povo de conquistar por si o progresso tão desejado. Conservando o Brasil tal qual um monólito fincado em solo firme, estático e alvo fácil para fenômenos ou inimigos internos ou externos. Em uma visão mais romantizada, diríamos que 1988 nos legou uma árvore de Natal, bela aos olhos, chamativa por seu tamanho, onde nossa sociedade infantilizada espera encontrar sempre presentes e benesses, a cada ano recebendo mais penduricalhos e se perpetuando como o sonho utópico de uma sociedade que não compreende sua verdadeira função e destino. Sim, a história é escrita pelos vencedores, apenas nos enganamos quanto a identidade dos que venceram. Se o socialismo brasileiro foi obra de quase 100 anos de trabalho incansável, cabe a nós, herdeiros deste terrível legado, compreendermos de uma vez por todas que ocupar a presidência do Brasil é apenas ocupar um espaço, dentre tantos outros possíveis. Conquistamos o ponto mais alto, nos falta conquistar os mais importantes. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 01
- O jornalismo é para os valentes
A publicidade é para o Governo A Organização das Nações Unidas (ONU) determinou, em 20 de Dezembro de 1993, a criação do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Há uma frase interessante, atribuída a George Orwell, que queria reproduzir aqui: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.” Entrei na faculdade de jornalismo em 2009, precisei abandonar em 2011, e a pouco tempo retomei o curso. Mesmo com quase 15 anos de distância, o discurso acadêmico permanece: “o jornalismo deve ser imparcial, deve ouvir os dois lados da história, deve mostrar fatos, ainda que incômodos”. Contudo, há um abismo entre o discurso acadêmico e a realidade que nos cerca. Na verdade, a chamada “mídia tradicional”, aquela que se diz imparcial, tem mostrado que possui lado, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo; e claro, a imprensa escolheu o lado progressista da força. Com isso, veículos mais direcionados ganharam força nos últimos tempos: a Gazeta do Povo, jornal com mais de cem anos de tradição, foi um dos poucos que não se rendeu à agenda e tem se mantido íntegro; a Revista Oeste, nascida em 2020, tem se destacado ao mostrar verdades em tempos de jornalismo bancado pelo governo. Não penso ser errado existir um veículo mais à direita (Revista Oeste) ou mais à esquerda (Revista Fórum, Brasil 247, etc); acredito que com esta pluralidade, o público tem liberdade de pesquisar e apurar por si próprio nos fatos e tirar suas próprias conclusões. Isso se chama liberdade. Mas, sabemos que, assim como nas ditaduras ao redor do mundo, o Brasil está passando por um momento muito delicado no que diz respeito à liberdade de imprensa. Desde 2019, com a censura contra a Revista Crusoé, jornalistas veem dificuldade em trabalhar por medo de que o judiciário (e agora, o governo) intervenha. A matéria “O amigo do amigo do meu pai”, da Crusoé, mostra que o ministro Dias Toffoli mantinha relações com a empreiteira Odebrecht, a mesma empresa que possuía uma lista de “beneficiários” de suas propinas. Quem não se lembra dos codinomes “Montanha” (Paulo Pimenta), “Amante” (Gleisi Hoffman), “Nervosinho” (Eduardo Paes), “Avião” (Manuela D’ávila) e “Amigo” (Lula)? Em Março do mesmo ano, Alexandre de Moraes abriu o inquérito mais escandaloso da história do Judiciário, o conhecido “Inquérito das Fake News”, ou chamado pelo ex-ministro Marco Aurélio, “Inquérito do Fim do Mundo”; isso porque Moraes é o criador, relator e julgador de todo o processo (que não foi encerrado) e que um ministro do Supremo jamais poderia ter tal procedimento. E foi contra a matéria da Crusoé que Moraes iniciou sua inquisição contra todo e qualquer veículo e jornalista que publicasse algo que ele, Moraes, considerasse mentira. A situação foi tão escandalosa na época que até o site G1 (do grupo Globo) chamou a ação de censura. A chamada diz “STF censura sites e manda retirar matéria que liga Toffoli à Odebrecht”. Desde então, a perseguição escalonou. Em 2022, ano de eleição presidencial, houve a maior manobra já realizada desde a Proclamação da República para que um candidato fosse eleito: Moraes, à época, presidindo o Tribunal Superior Eleitoral, acatou mais ações de Lula contra Bolsonaro do que o exato oposto; contudo, a pior de todas foi a movida contra o Grupo Jovem Pan. A pedido da Coligação Brasil da Esperança – de Lula – três direitos de resposta ao petista foram concedidos a mando do TSE por falas feitas por jornalistas da emissora. O pedido diz que comentaristas da emissora teriam proferido “falas de conteúdo ofensivo e divulgado informações retiradas de contexto desfavoráveis ao ex-presidente”. Também foi decidido que os jornalistas não poderiam falar sobre o assunto, sob pena de multa diária para o canal e para os jornalistas de R$ 25 mil. Não, o leitor não entendeu errado: JORNALISTAS FORAM IMPEDIDOS DE FALAR O QUE PENSAM EM REDE NACIONAL. O jornalista especialista em celebridades, conhecido como Fefito (que, inclusive, trabalhou na Jovem Pan), teve acesso a circular de dentro da emissora que dizia: “Caros, com base em decisão do TSE proferida nesta segunda-feira, estamos orientados pelo jurídico a não utilizar as seguintes expressões nos programas da casa: Ex-presidiário, Descondenado, Ladrão, Corrupto, Chefe de organização criminosa. Além disso, não devemos fazer qualquer associação entre o candidato Lula ao crime organizado. E mais: as críticas aos ministros e ao judiciário não são recomendadas pelo nosso jurídico neste momento.” O momento mais emblemático para mim, particularmente, foi o que assisti ao vivo na época, no programa Os Pingos nos Is, a jóia da emissora. Ana Paula Henkel foi interrompida pelo âncora, Vitor Brown (que não queria fazê-lo) e, quando foi chamada no próximo bloco, Ana leu uma receita de bolo. Sei bem que os comunistas saudosistas da revolução dizem que jornais da época eram censurados e tinham que publicar receitas no lugar de determinadas matérias, e de fato, isso ocorreu. Mas, em 1964 era ditadura, e hoje é o quê? Para eles, “democracia”. Para combater supostas notícias falsas publicadas em desfavor do governo, foi criado em 2023 o site Brasil contra Fake. Segundo consta no próprio site, a campanha “tem como objetivo fornecer informações públicas relacionadas ao governo federal de maneira acessível e interconectada. Isso é crucial para combater a desinformação, uma vez que as informações são apresentadas de forma clara e didática, fazendo referência direta às fontes legais, decretos e publicações no Diário Oficial da União.” Porém, o “governo do amor”, não satisfeito, abriu cadastro para voluntários denunciarem o que consideram fake news; ou seja, uma “rede de informação de combate às fake news” que mobiliza pessoas a denunciar umas às outras. Onde será que vi isso antes? Lembrei: na URSS. Durante as primeiras décadas da União Soviética, denúncias eram feitas até por crianças contra os próprios pais. Muitos acreditavam sinceramente que estavam fazendo a coisa certa e necessária. O próprio Estado incentivava a população a redigir denúncias para identificar os “inimigos do povo” escondidos entre os “trabalhadores honestos”. Na edição de 1926 do Código Penal, os cidadãos soviéticos eram ameaçados com pena de prisão por “não relatar sobre crimes contrarrevolucionários planejados ou cometidos”. Ao mesmo tempo, denúncias falsas também podiam levar à prisão. Na retórica do Estado soviético, as denúncias eram chamadas de "sinais". Cada cidadão era obrigado a estar vigilante e "sinalizar" às agências policiais sobre qualquer "pessoa suspeita" que conhecesse. O termo fake news (cunhado por Donald Trump em 2017, em coletiva, e direcionando sua fala para repórter da CNN) foi sequestrado pela ala progressista, assim como o termo democracia. Hoje, fake news se refere a qualquer notícia que seja anti-governo (de esquerda, claro), e democracia, todo ato do governo (de esquerda, obviamente); é como a frase de Millor Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.” Então o governo petista é contra toda e qualquer prática de jornalismo? Não. Ele é contra aqueles que não concordam com o “amor”; contudo, seus companheiros são defendidos, mesmo que sejam estrangeiros. No Domingo, 19 de Maio, Lula fez uma publicação em sua conta do twitter para tratar da “perseguição” contra o jornalista australiano Julian Assange: “Julian Assange, o jornalista que deveria ter ganhado o Prêmio Pulitzer ao revelar segredos dos poderosos, ao invés disso está preso há 5 anos na Inglaterra, condenado ao silêncio de toda a imprensa que deveria estar defendendo a sua liberdade como parte da luta pela liberdade de expressão. Espero que a perseguição contra Assange termine e ele volte a ter a liberdade que merece o mais rápido possível.” Para quem não está ligando o nome à pessoa, o australiano Julian Assange é o criador do Wikileaks e ganhou atenção internacional em 2010 quando o site publicou uma série de documentos sigilosos do governo americano que haviam sido vazados. A defesa de Assange sustenta que ele fez “uma prática jornalística comum, de obter e publicar informações confidenciais, informações verdadeiras e de interesse público evidente e importante”, enquanto a acusação critica o australiano por ter publicado nomes de pessoas que eram fontes de informação. Assange enfrenta 18 acusações sob a Lei de Espionagem dos EUA. Mas por que Lula defende este jornalista em particular? Porque os tais documentos vazados comprometem os Estados Unidos, pois supostamente mostram que o país teria orquestrado a guerra do Iraque e do Afeganistão. E sabemos do ódio que Lula e sua turma nutrem contra o que chamam de “imperialismo americano”. Em contrapartida, o jornalista que denunciou os hábitos etílicos de Lula foi quase expulso do Brasil; Larry Rohter, jornalista do The New York Times, escreveu: “Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu seu gosto por um copo de cerveja, uma dose de whisky ou, melhor ainda, um gole de cachaça, o potente licor brasileiro feito com cana-de-açúcar. Mas alguns de seus conterrâneos começaram a questionar se a predileção do presidente por bebidas fortes está afetando a sua performance no governo”. Me atrevo a dizer que esta citação, de 2004, é tão atual como na época em que foi escrita. À época, o Ministério da Justiça informou que o visto de permanência de Rohter no Brasil seria suspenso. Na nota, a pasta alegava que a resolução havia sido tomada “em face de reportagem leviana, mentirosa e ofensiva à honra do presidente da República Federativa do Brasil, com grave prejuízo à imagem do país no exterior”. Com tudo isso, como afirmar que temos liberdade de imprensa no Brasil? Apenas os que são “amigos do rei” (ou do cachaceiro, se o leitor preferir) são livres para falar – sempre contra o que denominam “extrema direita”. De fato, realizar um trabalho jornalístico sério no Brasil é para corajosos; quem escreve ou possui canal no YouTube se arrisca todos os dias, com alta probabilidade de receber uma visita da polícia federal; o resto, é publicidade – para o governo. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 42 - ISSN 2764-3867
- MARIA MADALENA
Feminismo e contradições Mulheres Bíblicas: PARTE I Como tudo começou… O movimento feminista tem raízes históricas que remontam ao século XIX. Os livros de história e muitos sites nos contam que a primeira onda do feminismo, por exemplo, emergiu no contexto de lutas por direitos das mulheres, incluindo o direito ao voto e mudanças na autoridade religiosa masculina nas igrejas. No entanto, quando exploramos as interpretações bíblicas e o papel da mulher segundo o feminismo, encontramos uma figura que desafia os estereótipos: Maria Madalena. Interpretações Bíblicas e o Papel da Mulher segundo o feminismo A Declaração dos Sentimentos, apresentada pelas feministas em 1848, já questionava conceitos bíblicos e abria caminho para futuros conflitos religiosos. Elizabeth Cady Stanton, uma das líderes do movimento feminista de primeira onda, enxergava a Bíblia como um mito tenebroso que lhe roubava a alegria. Suas visões sobre a Bíblia e o cristianismo divergiam dos princípios bíblicos tradicionais. O feminismo muitas vezes questiona interpretações tradicionais da Bíblia sobre o papel da mulher. Algumas feministas argumentam que a Bíblia foi usada para justificar a opressão e a submissão das mulheres. Contudo, ao se mergulhar diante das escrituras nos deparamos com mulheres que não possuem o estereótipo de submissão que a sociedade tenta nos convencer. No contexto bíblico, a submissão está longe de ser uma aceitação de autoridade superior na figura do marido. A pesar de algumas definições considerarem a palavra submissão como algo inferior, a submissão bíblica está mais para humildade. No âmbito familiar, a submissão é, por exemplo, o respeito do filho ao pai e a mãe. No caso da esposa, é respeitar seu marido. No entanto, os especuladores da discórdia esquecem que a Bíblia é apresentada como uma via de mão dupla. Não basta ser respeitado, é necessário ser digno de respeito. Como assim? Na passagem do livro de Efésios, é destacado o amor sacrificial que os maridos devem ter por suas esposas, comparando-o ao amor de Cristo pela Igreja.: “ Maridos, ame cada um à sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela.” (Ef 5, 25) Em Colossenses, é dado ênfase em amar e tratar a esposa com gentileza, evitando qualquer atitude negativa: “ Maridos, ame cada um a sua mulher e não a tratem com amargura.” (Col 3, 19) No livro de Pedro, é ressaltado a importância de tratar as esposas com honra, reconhecendo-as como co-herdeiras da graça de Deus. Portanto, podemos afirmar que a Bíblia apresenta a figura feminina de modo respeitoso, com igualdade e dignidade. “ Do mesmo modo vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil e co-herdeiras do dom da graça da vida, de forma que não sejam interrompidas as suas orações.” (1 Pe 3, 7) Maria Madalena: uma mulher à frente do seu tempo Maria Madalena, uma figura bíblica fascinante, é uma mulher à frente de seu tempo e com traços fortes que desafiaram as normas da época. M aria Madalena foi uma das seguidoras mais próximas de Jesus Cristo. Ela não apenas o acompanhou durante seu ministério, mas também testemunhou sua crucificação e ressurreição. Sua liderança espiritual se destacou entre os apóstolos e discípulos, o que era incomum para uma mulher na sociedade patriarcal da época. Ela não hesitou em enfrentar desafios. Ela permaneceu perto de Jesus mesmo durante sua crucificação, demonstrando coragem e lealdade. Sua determinação a levou ao túmulo na manhã da ressurreição, apesar das dificuldades e do luto. Mas quem foi Maria Madalena? Maria Madalena é conhecida como a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado. Ela correu ao túmulo vazio e encontrou o Senhor. Essa experiência a tornou uma testemunha crucial da ressurreição, um evento central na fé cristã. O nome de Maria Madalena carrega significado. “Maria” é derivado do hebraico “Míriam”, que significa “amada de Deus”. Ela personifica a dualidade da vida: amargura e graça divina. Assim como todos nós, Maria Madalena experimentou alegria e tristeza, mas sua fé e amor a tornaram uma figura notável. Seu “sobrenome”, “Mágdala”, está relacionado à cidade onde ela nasceu e significa “a mulher da torre”. Ela era aquela que se destacava entre os apóstolos, guardiã dos ensinamentos de Cristo. Essa liderança e destaque podem ter gerado ciúmes entre os seguidores de Jesus, mas Maria Madalena permaneceu firme em sua missão. “ E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios.” Mc 16, 9 Essa passagem destaca a transformação na vida de Maria Madalena após seu encontro com Jesus. Ela não apenas testemunhou a ressurreição, mas também experimentou a libertação espiritual. A expressão “sete demônios” pode ser interpretada como possessão demoníaca ou como uma grave doença no corpo, mas o fato é que Jesus a curou e a transformou completamente. Se a Bíblia fosse esse relato tão machista como alguns tentam insistir, Madalena teria tanta ênfase e importância dada nos textos bíblicos? Será que ela não seria ignorada ou omitida? Maria Madalena não era apenas uma seguidora casual de Jesus. Ela estava profundamente envolvida em seu ministério e se destacava entre os discípulos. Sua proximidade com Jesus revela uma relação de confiança e respeito mútuo, algo incomum para uma mulher na sociedade patriarcal da época. Ela vivenciou uma transformação de seu amor em Jesus ressuscitado. Ela se libertou de seu desapego interior e encontrou sua verdadeira força de amar. Ela se tornou capaz de amar com base naquilo que estava dentro de si, amando Jesus com sua recém-desperta força de amar. Na verdade, a bandeira que o feminismo prega não é a igualdade, mas a libertinagem O feminismo defende uma autonomia sexual das mulheres, ou seja, o direito de cada mulher tomar decisões sobre sua própria vida sexual, contracepção e prazer . Por isso, está em sua pauta ideias como o aborto e o “direito reprodutivo”. Algumas feministas defendem o acesso irrestrito ao aborto e o direito de escolher seus parceiros sexuais sem compromisso. Ainda cabe destacar que o feminismo questiona a autoridade masculina. Algumas feministas veem a liderança masculina nas Igrejas como opressiva. A “autoridade masculina” representa Jesus Cristo e em contrapartida, uma vez representando Jesus, estes homens devem zelar pelas suas esposas, mães e filhas como o próprio Jesus. No final, a proposta bíblica é que homens e mulheres são seres diferentes e por isso possuem papéis complementares. Em conclusão, se a visão cristã fosse inferiorizar as mulheres não haveria figuras como Maria Madalena. Ela transcendeu as limitações de sua época. Sua liderança espiritual, testemunho da ressurreição e coragem a tornam um exemplo inspirador para todas as mulheres. Ela personifica a dualidade da vida, mostrando que a graça divina pode transformar até mesmo os corações mais amargos. Maria Madalena é uma dentre tantas mulheres bíblicas que desafia os estereótipos e nos lembra que a fé não depende de gênero. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 41 - ISSN 2764-3867
- A demonização do amor
Não me levem a mal, mas o AMOR é o sentimento que mais sofre discriminação, no mundo moderno. As diversas formas de ideologia, os múltiplos gêneros, o feminismo, a individualidade exacerbada, o narcisismo, o culto excessivo ao corpo, a instantaneidade das relações, tudo isso extirpa o AMOR na sua origem, não permitindo que ele floresça, quiçá que ele exista. Afinal, como você vai viver para alguém, se há um mundo de oportunidades te esperando lá fora! Todos nós vivemos em uma sociedade, na qual o que se persegue é o tripé dinheiro, sucesso e poder. A tudo isso, vieram aliar-se a obsessão estética, a busca de modelos a serem imitados e do prazer. O amor, pobre coitado, tornou-se um item desprezado, no fim dessa lista de atributos, que as pessoas lutam para conquistar, mal dando-se conta de que estes não lhes trarão a famosa FELICIDADE. Porque o amor não pode ser tratado como mais um atributo. Ele também não é um sentimento. O AMOR É, NA VERDADE, A FIRME DISPOSIÇÃO DE SEGUIR AO LADO DA PESSOA ESCOLHIDA. ATÉ O FIM. HAJA O QUE HOUVER. Ué, então peraí, tudo que aprendemos sobre o sentimento AMOR é uma falácia: sim e não. Em verdade, existe mesmo a idealização romântica do amor, a tendência a buscar o frisson, a magia, o tremor de mãos e o frio no estômago, que a sensação de desejar alguém desperta em nós. Isso outras emoções podem nos trazer. Como uma grande vitória. Um ganho financeiro. O alcance de uma meta. A medalha em um esporte. A conquista de um árduo objetivo. Mas, somente a ATITUDE AMOROSA, a FIEL DETERMINAÇÃO DE AMAR, pode afastar os dias nebulosos, o peso das doenças, a malcriação de um filho, a exaustão do fim do dia, as perdas da vida. Pergunte à mãe desse filho desobediente, se ela é capaz de amá-lo menos, quando vai dormir. Pergunte ao esposo devotado se ele abandonará sua esposa, em um caso de doença grave. Ou a uma família unida se, nos dias difíceis, eles deixam de se querer bem. A resposta será negativa. Porque o verdadeiro amor é essa determinação de, em qualquer circunstância, poder doar-se, entregar-se, consumir-se pelo ser amado. De perdoá-lo. Ampará-lo. Ajudá-lo. Ser seu Norte e seu melhor amigo. Então, evidentemente, em um mundo no qual tudo é consumível, tudo pode ser adquirido pelo dinheiro ou conquistado pela força bruta, pelo poder e pela influência, não há como levar-se o AMOR a sério. Se as pessoas estão apaixonando-se pelas outras por seus dotes ou atributos exteriores, como carro, dinheiro, status, sucesso, corpo, emprego e tantos outros, como seriam elas capazes de manter uma fiel determinação de permanecer, ao lado de seus objetos de desejo, quando estes nada mais tivessem a oferecer-lhes… Mas, ao mesmo tempo que é possível entender isso, é necessário que se compreenda algo muito mais profundo, cuja ausência, no mundo moderno, está destruindo a HUMANIDADE das pessoas, transformando-as em mercadorias ou seres robotizados, fazendo com que deprimam-se, sintam-se vazias, sem sentido para suas vidas, sem propósito existencial. O que está nos matando como civilização, impedindo que nos sintamos pertencendo a algo ou a algum lugar, deixando-nos à deriva sobre o que buscarmos, a fim de taparmos os buracos emocionais, entupindo-nos de remédios para dormir, ansiolíticos, suplementos, vitaminas, anabolizantes, estimulantes sexuais, procedimentos estéticos, pílulas mágicas e o que mais houver na indústria estético-farmacêutica, ou entorpecendo-nos com drogas e sexo fácil é: NÃO EXISTE VIDA COM SENTIDO, SE NÃO NOS DOARMOS PARA ALGUÉM. Esqueçam toda a baboseira que lhes foi ensinada, de que a mulher só é feliz se competir em igualdade de condições, o homem só é realizado se sair com todas as mulheres que conseguir, que a felicidade está em se bastar, que o importante na vida é ganhar dinheiro, ter um corpo sarado, fazer todas as noitadas possíveis e experimentar de tudo. Só existe a real felicidade quando podemos nos doar para alguém. Seja esse alguém seu companheiro, filho, parente, agregado, amigo – é preciso ser capaz de se entregar, do fundo da sua alma, para uma pessoa. Os sacerdotes entregam-se a suas igrejas, e é esse o mesmo raciocínio do amor interpessoal. Não há felicidade que não passe, necessariamente, por uma entrega pessoal. E não vale entregar-se para o pet! Ser pai de pet não valida essa determinação de amar, uma vez que a sua troca com o animalzinho jamais poderá igualar-se à troca humana, com seus inúmeros desafios, aborrecimentos, suas concessões, alegrias e realizações. É extremamente complexo, pois o mundo encaminha-se para um discurso do “eu me amo e me basto”, diante do qual poucos afetos verdadeiros pararão de pé. Sequer surgirão. Observe bem: está cada vez mais difícil encontrar alguém que queira se entregar e viver essa troca afetiva, tão complexa e única, que só o amor proporciona. Mas, acreditem: independentemente do que foi dito para vocês, o AMOR EXISTE, ELE VALE A PENA, ELE TRANSFORMA AS VIDAS DOS ENVOLVIDOS E FAZ COM QUE SE TENHA ESPERANÇA NO SER HUMANO. Só a espécie humana foi dotada de alma, sendo a única capaz de sentir. Os animais, independentemente do que se defenda, não possuem essa capacidade. Isso não sou eu quem diz, é a biologia. Os ANIMAIS CONDUZEM-SE POR INSTINTOS. E nós, humanos, estamos comportando-nos como eles, perseguindo o prazer o tempo todo! Portanto, chegamos a uma encruzilhada: ou as pessoas compreendem que é preciso buscar nos outros VIRTUDES (pois estas, uma vez adquiridas, não são perdidas, demonstrando de modo fiel quem o outro é), ou continuarão se frustrando a cada relação, interrompendo o romance porque o outro engordou, ficou pobre, perdeu o emprego, ficou careca, impotente ou algo do tipo. AMOR, meus caros, necessita de essência para prosperar. Escolher permanecer é algo que se constrói, dentro de nós. E é apenas lidando com o interior do outro, e não com suas posses ou com sua aparência, coisas as quais o tempo e as circunstâncias podem consumir, que essa riqueza pode ser encontrada e partilhada. Em relações amorosas, evidente é que a aparência importa e faz com que as pessoas aproximem-se. Simpatia, inteligência, idem. Contudo, somente algo na essência do outro, será capaz de capturar você, de forma irremediável. Que o homem moderno possa compreender que a chave não está fora, mas sim dentro do outro. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 41 - ISSN 2764-3867
- A Rocha
A palavra ROCHA integra o meu sobrenome. Durante o ultimo mês, refleti sobre isso, após uma noite em que essa ideia fixa, de escrever sobre A Rocha, não me saia da cabeça. A princípio, entendi que era porque eu deveria render um tributo à minha família paterna, de quem herdei-o. Mas então, um acontecimento me fez perceber a razão verdadeira… Tenho me aproximado muito de Deus. Seja indo à missa, rezando pela manhã e à noite, ou tentando compreender que é preciso confiar na Sua vontade, todos os dias vou percebendo “pequenos milagres”, os quais me passavam desapercebidos antes. E a revelação sobre o pensamento obsessivo a respeito desse tema, me veio por um salmo da bíblia, que me foi enviado pela minha nora – o Salmo 28 – “a ti clamarei, ó Senhor, Rocha minha…” assim se inicia. Assim mesmo, com a palavra Rocha em maiúsculas, tal como eu havia pensado nela, durante a madrugada. A mensagem mais forte que se depreende deste salmo é a de que Deus é nossa força e nosso escudo. Logo, devemos confiar e entregar nossas angústias e aflições em suas mãos. Igualmente nossas alegrias e vitórias. Portanto, quando eu pensei n’A Rocha, não era sobre o meu nome de família que meu inconsciente falava, mas sim sobre Deus. Assim como esta, muitas outras provas tenho recebido. Deus se manifesta para nós por palavras, pessoas e acontecimentos. Se estivermos atentos, perceberemos, em meio a nossa atribulada rotina, o que Ele quer nos mostrar. Eu nunca fui muito católica, não praticava a religião, não ia à missa, rezava de qualquer jeito por dois minutos, na hora de dormir. Porém, a adoção de alguns hábitos diários tem feito de mim uma pessoa mais paciente, menos ansiosa, mais sábia. A oração, por si só, pode fazer maravilhas por nós, aprimorando nossas virtudes e transformando-nos em criaturas melhores. Essa é a primeira vez que vivo a Quaresma, fazendo exames de consciência diários, dedicando um tempo de meus dias à oração, indo à missa e buscando fazer compromissos pessoais de aprimoramento, em comportamentos que me incomodavam e que eu precisava modificar. Tenho dormido melhor, me sentido mais conectada e mais presente em tudo que faço, buscando evoluir e entender o que Deus espera de mim. É fácil: evidente que não. Os desafios são inúmeros. Mas esse é o depoimento de alguém que nunca se preocupou com nada disso, mas percebe maravilhas em sua vida, pela adoção de uma nova atitude. Desejo a todos uma reflexão sobre a Páscoa, a presença de Deus em suas vidas e o que Ele quer de cada um de nós. Na medida em que vamos cortando na própria carne, removendo o véu e percebendo o que é possível fazer diferente, um mundo novo se descortina para nós. A Rocha, a fortaleza de minha vida, muito embora o meu sobrenome sinalize isso, não está em mim, mas vem do Alto, pois Deus me ama e me protege de todo mal. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.° 40 - ISSN 2764-3867
- Submissão
Esse é o título em português, de um livro que está dando o que falar. Trata-se de uma distopia, criada por Michel Houellebecq – escritor e poeta francês dos mais importantes de sua geração – que descreve uma França agora dominada por árabes, cujo presidente é islâmico e começa a adotar medidas drásticas, como transformar todas as instituições acadêmicas do país em escolas e universidades de ensino muçulmano obrigatório. Tudo começa quando Ben Abbes, um candidato a Presidente da República, aparentemente inexpressivo e inofensivo, integrante da Fraternidade Muçulmana, torna-se o favorito nas eleições, indo para o segundo turno, com promessas de um governo moderado e uma igualdade maior entre os moradores da França. Inicia-se, a partir deste momento, uma verdadeira revolução no país, com uma onda de violência desmedida, incêndios a ônibus e locais públicos, estabelecimentos fechados, caos urbano e criminalidades acentuadas. Islâmicos insatisfeitos resolvem reivindicar seus direitos, acuando e ameaçando a população. E o pior acontece. E o horror se instala. E professores universitários são demitidos, funcionários públicos exonerados, cidadãos perseguidos…do dia para a noite, as regras do jogo mudam, com mudanças drásticas e em ritmo alucinado, pipocando aqui e ali. François, o protagonista do livro, um professor de filosofia entediado e um tanto quanto perdido, refugia-se um uma cidadezinha do interior, de onde assiste, perplexo, ao que está acontecendo ao seu redor. A narrativa do livro – cujo título remete à submissão do povo francês ao novo regime – nos remete a outras distopias, como 1984 e Admirável mundo Novo, nas quais o regime de governo muda, alterando de forma avassaladora as vidas das pessoas. Temos visto isso tudo acontecer no mundo, muitas vezes debaixo de nossos olhos e até sem nos darmos conta. As regras do jogo da política mudam o tempo todo e com a globalização, tudo tornou-se possível. A Venezuela e a Argentina, de países prósperos e modelos de administração na América Latina, face às recentes gestões políticas que tiveram e ao golpe político sofrido pela primeira, mergulharam em um poço sem fundo, com sua população empobrecida, buscando comida no lixo e comendo até cachorros, para sobreviver, implorando por refúgio nos países vizinhos, na falta de outras alternativas. O Irã, até 1979 uma ilha de prosperidade, face ao petróleo e outros recursos naturais, foi arremessado para o terror dos extremistas islâmicos – os aiatolás – tornando-se uma ditadura sanguinária e um país completamente fechado ao Ocidente. O presidente deposto, para não ser assassinado, precisou fugir. A Rússia invadiu a Ucrânia, reivindicando para si o país, gerando morte e destruição em larga escala, fuga de sua população e a discussão, na OTAN e na ONU, sobre o que deve ser feito, para que Vladimir Putin seja contido e não avance sobre o Ocidente. Coreia do Norte e China estão aliadas, querendo impedir a autonomia da Coreia do Sul, que passou por eleições recentemente, elegendo um democrata. O Hamas cometeu um ataque surpresa a Israel, em outubro, assassinando mais de mil e quatrocentos israelitas e sequestrando 240, dos quais quase cento e quarenta ainda se encontram em seu poder. São os extremistas islâmicos, como EI, Hamas, Hezbollah e outros, que pretendem dominar e subjugar o mundo Ocidental. Praticamente todos os regimes dos países acima citados, a fim de manterem-se no poder, roubam, matam, corrompem, assassinam reputações, prendem, perseguem, expulsam de seu território, aqueles que não concordam com as suas regras do jogo. O Brasil, pobre Brasil, também passa por uma crise sem precedentes em sua democracia, a qual vem sendo atacada e vilipendiada diariamente, pelos três Poderes. Para onde quer que se olhe, poderá ser visto um cenário preocupante, a possibilidade de acontecimentos trágicos, com impactos em toda a população e um risco real de utilização de armas químicas, face às guerras já deflagradas. A SUBMISSÃO de que trata o livro, nunca esteve tão próxima de todos nós. Distopia ou realidade? Não sei. O desenrolar dos acontecimentos dirá. Só espero que o mundo encontre o seu trilho outra vez, a fim de que não tenhamos uma Terceira Guerra Mundial a caminho. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 39 - ISSN 2764-3867
- Ficção versus realidade
Por sugestão do meu filho Lucas, assisti à série SILO, da Appletv plus. Os filhos, normalmente, são mais antenados do que nós, e as dicas que os meus filhos me dão, sobre filmes e séries, costumam ser imperdíveis. Com essa, não foi diferente. SILO é uma narrativa pós moderna, baseada na trilogia literária de Hugh Howey. Aparentemente, passa-se em um futuro depois do Apocalipse, em que os últimos dez mil habitantes da terra precisam viver em um silo subterrâneo, pois o ambiente exterior é repleto de gases tóxicos letais. No interior do fosso, o passado precisa ser descartado, nenhuma relíquia que traga lembranças da vida anterior pode ser guardada, não há registros históricos e os “pais fundadores” da comunidade são os únicos “deuses” a serem venerados. Entretanto, ninguém sabe ao certo como o buraco abaixo da Terra foi fundado, quem foram os tais fundadores e de que forma a vida terrena se deteriorou. Em Silo, falar do passado é crime, punível com o banimento e a expulsão do território, para o mundo exterior. Ninguém conhece mais nada, exceto o que está no interior do fosso. Entretanto, nem tudo é o que parece… Uma engenheira chamada Juliette (Rebecca Ferguson), percebe as discrepâncias do sistema, após o assassinato de seu namorado. Começa a investigar e descobre que a alienação que é criada, no interior do silo, para que as pessoas não ousem sequer pensar em outra vida possível, serve para encobrir uma realidade bastante diversa… Juliette começa a duvidar da impossibilidade de vida na Terra, investigando o passado, para compreender o presente. Várias mortes começam a ocorrer, episódios inexplicáveis, a fim de que as revelações sejam encobertas e a narrativa seja preservada. O Judicial, instituição que trabalha para punir e coibir, manter a ordem e a harmonia na comunidade, mostra sua outra face, sendo capaz de quaisquer atos, para que tudo permaneça como está. Juliette, que agora é a xerife, percebe as contradições do sistema e investiga cada vez mais… Hugo Von Hoffmannsthal já dizia que não há nada que esteja na política, que já não tenha sido previsto pela literatura. Afinal, o escritor faz uma leitura da sociedade, colocando no papel as tendências que nos rondam. Embora Silo seja uma distopia, a série reúne muitos elementos que exigem de nós uma reflexão. Será que temos acesso à verdade, ou aceitamos o que nos é dito como verdade, sobretudo pelo que nos chega pela mídia? Até que ponto não estamos recriando, como sociedade, o mito da caverna, de Platão, no qual as sombras reproduzidas na caverna, induzem todos à imaginação sobre a realidade, que não corresponde ao que é verdadeiro? No mito contado por Platão, há mais de dois mil anos, Homens presos a grilhões, em uma caverna, vêem reflexos do sol, nas paredes e têm receio de arriscar-se do lado de fora, por medo de serem devorados por monstros. Acontece que um deles liberta-se e sai, e ao ver o sol e a beleza do exterior, retorna à caverna, parra contar a novidade aos companheiros de escuridão. No entanto, é desacreditado e morto pelos outros, que preferem crer nas sombras e se manter acorrentados pelo medo. O mesmo acontece em Silo. Ao terem sua verdade contestada por Juliette e pelo xerife que a antecede – e acaba banido – as autoridades do fosso revoltam-se e a estrutura começa a ruir, pois a ordem ilusória não se sustenta, exceto pela política do terror. A série nos leva a uma profunda reflexão sobre o mundo moderno, as nossas crenças, o que nos chega aos olhos e ouvidos e naquilo em que devemos confiar. A verdade liberta, mas para isso, esta precisa ser conhecida. “Afinal, você vai acreditar em mim, ou nos seus próprios olhos?” Groucho Marx Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 38 - ISSN 2764-3867
- O projeto transumanista
O projeto transumanista e a necessária redução populacional O conceito de Transumanismo não é unívoco, ainda objeto de disputa em relação aos seus limites e conteúdo, sendo utilizado em contextos tão díspares, que permitem afirmações até mesmo contraditórias, mas que partem de uma premissa: os seres humanos podem e devem utilizar a tecnologia disponível para melhorar a condição humana natural. Em geral, sem a pretensão de esgotar todas as possibilidades teóricas, é possível compreender o Transumanismo como uma corrente de pensamento que defende o dever moral do progresso para estágios posteriores da Humanidade, utilizando a tecnologia para ampliar os sentidos e melhorar o corpo biológico. Há um desconforto ao tratar do tema. As implicações morais, filosóficas e religiosas não são irrelevantes. Temos esse direito? Quais as consequências de tamanha intervenção na condição humana? Como ficarão os arranjos sociais e políticos com o advento do transumano? Não são questões de menor importância. Todavia, estas implicações não vão conseguir impedir o avanço da tecnologia rumo ao corpo humano. Observe que o primeiro campo de aplicação dessas novas tecnologias é a saúde humana. Como impedir uma pesquisa que tenha potencial para erradicar doenças como câncer e Alzheimer? Depois de implementadas, como impedir que essa tecnologia seja utilizada para melhorar o corpo de pessoas sadias, ampliando sua resistência a outras doenças ou melhorando sua memória? A partir desse ponto, o potencial de uso militar e ilícito é extraordinário demais para não ser utilizado. Esclareça-se que não há nada de novo debaixo do sol. O ser humano sempre tentou melhorar seu corpo biológico, com a alimentação e com os exercícios físicos e mentais. A correção de problemas físicos com uso de tecnologia também não é novidade. Uso de próteses, óculos e outros artefatos para corrigir problemas físicos não são inventos recentes. Também não é novidade a utilização de drogas em tratamentos para melhorar o desempenho da memória e da concentração. Enfim, a humanidade sempre utilizou técnicas, remédios e artefatos para o melhoramento do corpo humano, aperfeiçoamento de suas funções e correção de problemas. Não há novidade nisso. Em certa medida, já somos todos transumanos. A tecnologia é uma extensão no nosso corpo, do nosso viver, do modo como percebemos a realidade. Esse texto chega ao leitor através da tela de um aparelho, conectado à Internet. Uma criança nascida na alta Modernidade já amealhou mais conhecimento que um ancião da Idade Média. Os gadgets se tornaram extensões do corpo humano. Em breve, integrarão o corpo humano. Talvez um dia sejam o corpo humano. O diferencial significativo no Transumanismo são as ferramentas de melhoramento humano. As novas tecnologias permitem o desenvolvimento das potencialidades do corpo humano em um nível interventivo jamais imaginado pelos primeiros Moderno. Não se trata mais de curar doenças, mas prevenir sua existência antes do nascimento do paciente, mediante um mapeamento genético dos pais. Não se trata mais de uma prótese, mas de um outro órgão fabricado a partir do material genético do próprio paciente. As novas tecnologias de biohacking permitem assumir a governança da própria estrutura biológica do corpo humano, modificando-o para desenvolver os sentidos físicos, a capacidade mental, inclusive erradicando doenças e ampliando tanto a possibilidade de implantes, inclusive de órgãos humanos geneticamente produzidos, que se teoriza a possibilidade do ser humano chegar ao ponto de flertar com a imortalidade. Outro aspecto que diferencia o Transumanismo é a ideia da promoção de uma nova Humanidade, melhorada biotecnologicamente, alicerçada em uma nova Civilização. Uma evolução que não dependa do acaso das mutações genéticas, mas que seja operada conscientemente pelo próprio ser humano. Em última análise, não se trata apenas da intenção de matar Deus, mas sobretudo de tomar o seu lugar para corrigir os erros do projeto divino, fazendo um novo ser humano à própria imagem. Contudo, a transição para uma Civilização transumana não é uma empreitada fácil, sendo mais provável que nunca aconteça. Além das dificuldades tecnocientíficas, os revolucionários planificadores transumanistas ainda teriam um desafio de grandeza inimaginável: o paradoxo demográfico. O Transumanismo propõe a reengenharia do próprio corpo humano, tornando-o melhor, mais funcional e mais resistente, com a possibilidade de reparar ou repor órgãos indefinidamente, estendendo a vida ao ponto de flertar com a imortalidade. No entanto, já somos mais de sete bilhões de seres humanos e se todos se tornarem imortais ou quase imortais, como vamos continuar provendo todas as nossas necessidades, considerando a limitação dos recursos naturais? Outras gerações virão, aumentando a pressão demográfica sobre as fontes de recursos naturais não renováveis. O paradoxo demográfico pode ser enunciado do seguinte modo: o mundo transumano pretende ser o berço de um novo ser humano melhorado, mas se todos os seres humanos forem melhorados não haverá mundo suficiente para o transumano. A única conclusão lógica aceitável, em face desse paradoxo, é que a passagem do transumanismo utópico para o transumanismo científico demanda não apenas um controle de natalidade rigoroso, mas sobretudo um programa eficiente de redução populacional global. Entretanto, uma redução populacional em escala global é um problema grave não apenas de meios, mas sobretudo de logística, demandando um esforço coordenado em escala global jamais visto em nenhum momento histórico anterior. Seria preciso um grupo coeso, com recursos financeiros ilimitados, que detivesse o controle dos principais veículos da mídia mundial, bem como influência política nos países que integram o G7, além de ter poder de decisão nos órgãos internacionais multilaterais, sobretudo na ONU e na União Europeia. Esse grupo hipotético teria que ser capaz de promover um recomeço na História, uma espécie de great reset. Além da dificuldade em estabelecer uma espécie de Fórum Mundial decisório, por mais força econômica e política que tivesse, este grupo seleto não poderia utilizar pura e simplesmente da violência para reduzir a população global, em face da quantidade muito superior de indivíduos a serem eliminados e de sua provável resistência. É preciso utilizar o método cartesiano, dividindo o problema maior em partes menores, para resolvê-las gradativamente. Desse modo, um programa de redução populacional deve ser dividido em etapas, a partir de uma mudança dos padrões culturais que incentivam a procriação. O primeiro passo é destruir o modelo de família monogâmica, invertendo seus pilares lógicos. Sem isso, a natalidade não será reduzida. É preciso utilizar todos os meios de propaganda e marketing, o cinema, a música e as artes em geral, para moldar novos arranjos familiares, que desencorajem a reprodução humana. Relações entre pessoas do mesmo sexo, casais que substituem filhos pelo cuidado com animais, ficar solteiro, estigmatizar a mulher que não trabalha, o culto ao corpo e aos músculos, o individualismo, hedonismo, todos esses padrões de comportamento devem ser normalizados, incentivados até se tornarem regra. Gerar mais de um filho deve ser visto como uma aberração, algo inusitado, até mesmo absurdo. Aliás, a própria instituição do casamento deve ser vista como algo obsoleto, desnecessário. O divórcio deve ser banalizado, facilitado ao extremo. O resultado pretendido é o controle da natalidade. Qualquer narrativa, por mais absurda, é válida para promover o controle da natalidade, como dizer que é egoísmo procriar porque a água do planeta está acabando. Observe que a destruição da instituição familiar jamais será possível sem um ataque sistemáticos aos fundamentos da tradição judaico-cristã. O judaísmo e o cristianismo devem ser apresentados sempre como ideias retrógradas, ultrapassadas, preconceituosas, misóginas, até mesmo ridículas. O padrão da família judaico-cristã deve ser simplesmente eliminado, porque é tendente à procriação. Ainda assim, sempre haverá aqueles que insistirão em se relacionar com pessoas do sexo oposto e procriar. Por isso, os instrumentos econômicos devem ser utilizados para reforçar os novos padrões culturais necessários ao controle da natalidade, de modo a tornar a criação de filhos algo absurdamente dispendioso. Do parto à faculdade, os pais devem ser forçados a investir fortunas. Roupas, alimentos, educação, lazer, saúde, brinquedos, todos os itens devem se manter sempre em valores elevados e crescentes, aumentando a pressão sobre os que insistam em querer ter filhos. A ideia de sucesso e realização deve ser deslocada para os bens materiais que as pessoas possuem, de modo que investir na educação de filhos será compreendido como desperdício de recursos que poderiam ser melhor empregados na aquisição e ostentação de bens. O ideal de uma pessoa bem-sucedida deve corresponder a alguém rico, solteiro, musculoso, promíscuo, que ostente muitos bens e não tenha filhos. Quanto mais uma pessoa se afaste desse padrão, tanto mais será considerada uma pessoa fracassada. Por fim, não se pode falar em controle de natalidade sem tratar da legalização e incentivo ao aborto. Investir em esterilização e meios anticoncepcionais, até mesmo na inserção nos alimentos industrializados de substâncias com potencial para causar infertilidade, são medidas necessárias, mas não são suficientes. O aborto, combinado com uma campanha de “conscientização” sobre os direitos da mulher ao seu próprio corpo, é o único meio eficaz de reduzir definitivamente a natalidade, inclusive podendo até mesmo inverter as taxas de crescimento para decrescimento populacional. O aborto é o mais eficaz instrumento de extermínio em massa inventado pela humanidade. Jamais haverá um mundo transumano sem a ampla legalização do aborto e a facilitação ao seu acesso. A prática de assassinar fetos humanos nos ventres das mães deve ser normalizada ao ponto de ser tão comum quanto o ato de cortar o cabelo ou pintar as unhas. Mais uma vez, a propaganda midiática em sentido amplo será fundamental para distrair as massas da contradição entre o incentivo ao aborto e o aumento da proteção dos embriões de outras espécies, tais como ovos de tartaruga e aves raras, filhotes de baleia e de urso panda, por exemplo. Cumprida essa fase primeira, quando os índices de natalidade estiverem em patamares aceitáveis, será preciso administrar uma solução para o excedente de seres humanos que não poderão migrar para um mundo transumano. De logo, a ideia de simplesmente deixá-los para trás deve ser rejeitada, porque isso causaria convulsões, revoltas, com a necessidade de um uso desnecessário e dispendioso de recursos, sobretudo de tempo, com a possibilidade de que essa reação se estenda indefinidamente, uma vez que os deixados para trás seriam a ampla maioria da humanidade. Mas como eliminar pelo menos 6,5 bilhões de pessoas, de modo rápido o suficiente para evitar a organização de uma resistência? Paradoxalmente, a solução para este problema pode ser encontrada precisamente nos textos bíblicos, notadamente do Livro das Revelações de João, que narrou ter visto quatro cavaleiros no horizonte: a Morte, a Fome, a Guerra e a Peste. Seguindo esse cronograma, a Morte dos desnecessários demanda a Fome, a Guerra e a Peste. A Fome. O controle da produção alimentícia é fundamental em duas frentes: produzir alimentos com menos nutrientes, inclusive investindo em produtos industrializados, que permitam a inserção de substâncias que causem a infertilidade. Além disso, é preciso desencorajar a produção de alimentos naturais, combatendo sem tréguas o agronegócio, utilizando as narrativas ambientais sempre úteis para mobilizar as massas. A produção de carne em geral, leite e seus derivados e os produtos hortifrutigranjeiros devem ser apontadas como causas dos problemas ambientais mais visíveis, como o aquecimento global. A ideia é promover o aceite de alimentos industrializados produzidos artificialmente, com controle de escala e capacidade de servir como meio para administração de um programa de controle de natalidade, mediante uma esterilização indireta. Outrossim, quando os alimentos artificiais forem amplamente utilizados, quem controlar a produção desses alimentos sintéticos poderá determinar quem se alimenta ou não, apenas reduzindo o fornecimento. A Fome como arma não é necessariamente uma novidade (vide Holodomor), mas a escala global exige um controle de produção que só pode ser alcançado com a massificação do consumo de alimentos sintéticos. A Guerra foi sempre um importante instrumento de redução populacional. Ainda que o objetivo primordial das Guerras seja poder e dinheiro, a redução populacional é um efeito que se segue. Uma Guerra Mundial, com uso de artefatos nucleares, seria um meio rápido de eliminar os desnecessários rapidamente, enquanto a elite transumana aguardaria a passagem do inverno nuclear em abrigos bem protegidos. O problema dessa solução é a perda de controle quanto aos efeitos em relação aos ecossistemas terrestres. O ideal seria uma Guerra circunscrita à Eurásia, mas a contenção geográfica dos efeitos do uso de armas nucleares é um problema residual importante. A Peste. O uso de armas biológicas também está muito longe de ser algo inovador, mas o conhecimento científico atual, aliado aos meios de transporte, possibilitam a proliferação de patógenos fabricados biotecnologicamente em escala pandêmica. A dificuldade aqui é a contaminação controlada. Espalhar simplesmente um vírus no ar, por exemplo, poderia ampliar a contaminação de modo a atingir também os transumanos ou tornar o planeta inabitável ou insalubre ao extremo. Seria preciso contaminar diretamente os desnecessários, fazendo-os ingerir o patógeno ou serem inoculados. O problema é como fazê-lo? Como convencer 6,5 bilhões de pessoas, em países diferentes, com culturas diferentes, a aceitarem ser contaminadas? O uso da força mais uma vez é inviável, em face do número de indivíduos. Seria preciso uma motivação de tal magnitude, uma lavagem cerebral tão forte, que fosse capaz de fragilizar o instinto de sobrevivência e a capacidade de discernimento da população mundial. Como se vê, uma empreitada praticamente impossível de ser realizada. Por tudo isso, a passagem para um mundo transumano é uma possibilidade muito improvável. Possivelmente, o transumanismo se concretizará em algumas tecnologias caríssimas, restritas a poucos. A não ser que… REFERÊNCIAS A revolução transumanista TECNONATUREZA, TRANSUMANISMO E PÓS-HUMANIDADE: O DIREITO NA HIPERACELERAÇÃO BIOTECNOLÓGICA (2020) Transumanismo e a imagem de Deus: A tecnologia de hoje e o futuro do discipulado cristão Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III Nº 38 - ISSN 2764-3867
- “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”
Com o refrão de um dos grandes sucessos de Fernanda Abreu, lançado em 1992, iniciamos nossa reflexão. O ritmo envolvente da música não é suficiente para esconder a verdade estampada em sua letra. Vamos falar da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que ostenta este título oferecido por D. Pedro I. Não trataremos da parte de sua história que deu causa a tão honorífico título, mas de seu ocaso. Que cataclismos poderiam ter levado uma das mais visitadas cidades do Brasil, que entre 1763 e 1960 foi Distrito Federal, por consequência a vitrine e câmara de eco para costumes, cultura e política, a mergulharem uma espécie de caos purgatorial para seu povo? A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada por Estácio de Sá em primeiro de março de 1565, como dissemos foi Distrito Federal até que em 21 de abril de 1960, com a inauguração de Brasília, iniciou uma triste jornada de decadência e imoralidade administrativa. Entretanto, a transferência da Capital para Brasília não seria e de fato não foi suficiente para provocar os danos que ora observamos. 1974 guardaria uma nova punhalada na alma da antiga terra de kari’oka. A fusão do Estado do Rio de Janeiro com o Estado da Guanabara deu origem a configuração do Estado conforme conhecemos hoje, relegando o importante Estado à condição de cidade. Ainda assim, aquele rebaixamento também não bastaria para afetar a moral e a importância do Rio de Janeiro. Se não foram as mudanças de status administrativo que soterraram a cidade e sua história, seus administradores cumpririam com eficiência a nefasta tarefa. Iniciaremos a lista de governadores com Antônio de Pádua Chagas Freitas, ou Chagas Freitas como era conhecido. Advogado e jornalista, foi governador da Guanabara, eleito indiretamente para a gestão 1971 a 1975 e eleito governador do Estado do Rio de Janeiro entre 1979 e 1983. Sua característica fundamental era o clientelismo. Sua aliança com o funcionalismo público, assim como o aparelhamento promovido pela distribuição de cargos, além do uso de seu jornal (O Dia) para direcionamento da opinião pública (segundo seus analistas), formataram o modelo de gestão que seria aplicado e ampliado nos governos posteriores. Em 1979, retornando de seu período de exílio, Leonel de Moura Brizola, figura conhecida na política nacional no período anterior ao regime militar, em função de sua ativa participação de apoio a João Goulart (seu cunhado), retoma sua atividade política. Brizola lançou-se candidato ao governo do Estado do Rio em 1982, tendo como vice o antropólogo e sociólogo Darcy Ribeiro. Brizola, de histórico populista, estatista e claramente de viés esquerdista, getulista de primeira hora e presidente fundador do Partido Democrático Trabalhista (desde 1986 associado à Internacional Socialista); aliado a Darcy Ribeiro, que trabalhara junto a Anísio Teixeira (do qual falamos brevemente em nosso primeiro artigo), e que fora Ministro da Educação de João Goulart inauguraria o que o próprio Brizola chamou de “socialismo moreno”. O Rio de Janeiro esteve entregue à ideologia marxista, com sotaque demagógico-populista-tropical entre 1983 e 1986. Sob Brizola o Estado do Rio de Janeiro assistiu ao crescimento e fortalecimento do Comando Vermelho, ante a política de governo do não enfrentamento. Da mesma forma, a favelização e a desordem urbana foram fortemente aceleradas com a nova mentalidade brizolista que defendia nas palavras de Darcy Ribeiro: “favela não é problema, é solução”. Talvez sua marca mais visível até os dias de hoje sejam os CIEPs. Escolas idealizadas por Darcy Ribeiro que, oferecendo educação em período integral, alimentação e cuidados médicos básicos ao alunado fluminense, era financeiramente insustentável para um estado que já sofria com a “elefantíase administrativa”, o inchaço da máquina que não tendo combustível financeiro, sucumbiria em pouco tempo. Sucedendo a Brizola, assume o Palácio Guanabara o senhor Wellington Moreira Franco para o período entre 1987 a 1991. Para falar de Moreira é necessário antes falar de seu sogro, Ernani do Amaral Peixoto, ex-interventor indicado por Getúlio Vargas para o Estado do Rio entre 1937 e 1945 e governador entre 1951 e 1955. Amaral Peixoto mantinha o estilo populista ao modo de seu sogro, Getúlio Vargas. Aparentemente ter sogros influentes era e continuaria a ser passaporte para boas posições políticas. Moreira, que na juventude fora liga à Ação Popular que era um grupo radical de base marxista, era fruto do galho de Amaral Peixoto, recebendo indiretamente a seiva do troco getulista, sua demagogia já ficava demonstrada em uma de suas promessas de campanha onde afirmara “A promessa de acabar com a violência absoluta (no Rio) em seis meses não é absurda, porque o índice de violência é fruto da cumplicidade do governo com a criminalidade”. De fato havia algo de verdadeiro em sua premissa, a política do não enfrentamento soava como cumplicidade. Moreira não só não cumpriu sua promessa, como também viu acelerado o drama iniciado por Brizola. O Rio de Janeiro, já sufocado pelas políticas de governo com forte tendência ao apadrinhamento das classes mais necessitadas, o que de modo algum sugere a solução de seus problemas, mas antes a manutenção de sua condição subalterna e de apoio útil; perdia também grandes empresas que já na década de 90 fugiam do sufoco fiscal e da criminalidade em franca ascensão. O sucessor de Moreira Franco foi o ex-prefeito do Rio, ex-filiado ao PDT de Brizola, advogado defensor de presos políticos, e candidato pelo PSDB Marcello Nunes Alencar. Apesar de seu passado, Alencar promoveu privatizações como nos casos da CERJ, BANERJ, CONERJ e Flumitrens, tendo também extinto a Companhia de Transportes Coletivos do RJ (CTC-RJ).A linha de privatizações de seu governo (1995 a 1998), apesar de importantes, não desviou o Estado da rota seguida desde 1983. Os cupins da corrupção, os corporativistas, os narco-terroristas seguiam destruindo a beleza e riqueza da Mui Leal Cidade, deixando um rastro de caos. Em 1999 Alencar é sucedido por Anthony Willian Matheus de Oliveira, o Garotinho (1999 a 2002). Este abraçou no início de sua carreira política a Juventude Socialista através de seu partido, o PDT. A filha do político de Brizola, como fruto do brizolismo, não cairia longe de sua árvore. Populista e demagogo como seu inspirador, seguiu a receita da manutenção da pobreza, utilizada como sustentáculo político. A criação dos conhecidos restaurantes populares e também do cheque cidadão exemplificam bem a questão. Aliás, sobre o Cheque Cidadão, em sua época pairaram denúncias e suspeitas de favorecimento e sua utilização por parte de lideranças religiosas, que supostamente distribuíam os cheques em seus redutos religiosos em troca de apoio político. Em 2002 Garotinho se afasta do cargo para concorrer à eleição presidencial. Deixa em seu lugar Benedita da Silva (PT), dando tons ainda mais vermelhos ao Estado. Benedita, sem grandes dotes, apenas ocupou a cadeira de governadora porém, o governo pareceu acéfalo em seus poucos meses de pseudo-gestão. As questões sociais, econômicas, a criminalidade e a desordem seguiam sem combate. Mais interessados com os aspectos exteriores da gestão pública, os governos se sucediam repetindo as velhas fórmulas da esquerda brasileira: corrupção, populismo, clientelismo, demagogia e destruição. Até aquele momento o cerne da questão não era tratado. Rosa Barros Assed Matheus de Oliveira, a Rosinha Garotinho foi eleita para o período entre 2003 e 2006 substituindo Benedita da Silva. Na verdade pouco há que se acrescentar sobre sua passagem pelo governo do Estado, sendo esposa de Garotinho, foi de um continuísmo óbvio e constrangedor. Deixou um vácuo de gestão, se limitando a manter o que já fora feito. Tanto Rosinha quanto Garotinho enfrentaram posteriormente impugnações de candidatura, denúncias diversas, processos e, prisão. Um de seus atos finais como governadora foi a convocação de todo o cadastro de reserva de concurso público para o magistério. Esta medida pode ser encarada como necessária para o bom funcionamento da estrutura educacional mas, provocou oneração brutal da folha de pagamento de seu sucessor, visto que foi executada de uma só vez. O Rio de Janeiro estava a apenas mais um passo do abismo de onde ainda hoje não conseguiu sair. Apoiado pela família Garotinho, o governado releito para o período entre 2007 e 2010 (reeleito até 2014) foi Sérgio Cabral Filho. De família ligada à esquerda intelectual, tendo sido seu pai, o jornalista e crítico musical Sérgio Cabral um dos fundadores do periódico O Pasquim. Iniciando sua carreira pelo PMDB, dirigiu a Companhia de Turismo do RJ na gestão Moreira Franco, foi deputado estadual por três mandatos, presidente da Alerj e finalmente governador do Rio. Não trataremos do seu início brilhante, mas apenas e de forma breve da marca que deixou após sua gestão. As grandes obras, deixaram rastros de superfaturamento, corrupção, malversação, formação de quadrilha entre outras acusações e condenações que sob Cabral, destruíram a economia fluminense. A Operação Lava Jato descortinou um panorama, que ainda que não fosse novo, era mais assustador e escandaloso do que poderia supor os mais pessimistas observadores da história. Cabral elevou a corrupção a níveis megalômanos. Seus governos levaram ao ocaso de um importante estado, que já fora influente e bem administrado. De suas obras ainda vemos os esqueletos, a incompletude e a degradação, testemunhos do quanto nos falta aprender com nossa história. A renúncia de Cabral em 2014 para concorrer ao governo federal, entregou o Estado a seu vice, o senhor Luiz Fernando Pezão. De seu governo também pouco falaremos, pois pouco há que se falar. Da mesma forma que Benedita da Silva e Rosinha Matheus, Pezão apenas ocupou a cadeira de governador, repetindo à exaustão as mesmas fórmulas e comportamentos. Sua eleição para o governo do Estado para o período entre 2015 e 2018 funcionou como um estado febril em um corpo em estado terminal. Sua inépcia e seu grotesco despreparo, mais que uma causa para a tragédia, eram sintomas de um quadro ainda mais grave: o Estado definhava moral e economicamente a olhos vistos. A base estruturada por Chagas Freitas, associada à sucessão de desgovernos de viés esquerdista, em seus mais diversos tons, desde Brizola a Pezão, mostram que não tínhamos nem mesmo em nível regional a organização de movimentos conservadores que pudessem fazer frente à esquerda. Sucessivos apadrinhamentos políticos, aparelhamento da máquina administrativa e a manutenção do regime oligárquico destruíram as possibilidades que este Estado possui. É importante explicar que a esquerda não se caracteriza pelo seu discurso nem pela sua ideologia, mas antes pela sua visão de mundo. Ainda que não se possa classificar os governadores citados como socialistas em termos ideológicos, seus comportamentos políticos encarnavam com precisão a forma de conquista e manutenção do poder de qualquer governo socialista. Ainda hoje, muitos negam com veemência qualquer alinhamento ideológico à esquerda, ignorantes de serem instrumentos e usufrutuários daquela ideologia nefasta. O Rio de Janeiro é hoje um purgatório onde seus cidadãos pagam pelos crimes de não interessarem-se por política, entregarem-se de bom grado às políticas assistencialistas e omitirem-se diante da desordem social e urbana como se nada tivessem com o problema. O caos é nossa herança e legado. Que tenhamos a sabedoria para buscar reformar nossa própria visão de mundo e também o nosso Estado, mediante melhores escolhas no futuro. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 03











