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  • Brasil, um país do futuro

    Em 1941, o escritor austríaco Stefan Zweig publicou Brasil, um país do futuro, obra em que registrou, sob o olhar admirado de um estrangeiro, as possibilidades que enxergava nesta terra de dimensões continentais. O título atravessou as décadas e acabou incorporado ao imaginário nacional, ora como promessa, ora como ironia de um destino sempre adiado. Atravessamos décadas observando este país mudar de regime, de governantes e de esperanças. Vimos o Império dar lugar à República, a República ser interrompida e reconstruída, homens erguerem novas ordens sobre os escombros das anteriores e, repetidamente, que o futuro enfim se aproximava. Hoje, ao olhar para trás, percebemos que talvez a História brasileira não seja a de um país que jamais encontrou o futuro, mas a de um país que, a cada ruptura, acreditou ser estreia, o que não passou de reprise. Houve um tempo em que o Brasil ainda se olhava no espelho da Monarquia e via, na antiga Praça da Constituição, a estátua equestre de D. Pedro I, erguida em 1862. Bronze e granito celebravam o fundador do Império, enquanto a praça guardava o nome da Carta que ele outorgara. Trinta anos depois, os mesmos homens que haviam proclamado a República rebatizaram o largo como Praça Tiradentes, sem remover o monumento. O mártir republicano ganhou o nome da praça; o monarca continuou montado no centro dela, como se a História, mesmo depois de mudar de regime, não tivesse encontrado motivo suficiente para desmontar o passado, ou quem sabe, nunca deviam ter tentado sobrescrevê-lo. Talvez tenha sido ali que o Brasil começou a aperfeiçoar uma de suas mais persistentes habilidades: substituir os nomes, reorganizar os símbolos e proclamar a novidade sem necessariamente resolver as contradições que a precederam. A República veio em 1889, por meio de um golpe político-militar. Deodoro da Fonseca depôs o imperador querendo depor apenas o gabinete Ouro Preto, sem uma manifestação popular de proporções capazes de conferir à mudança alguma legitimidade. A nova ordem seria construída depois, como tantas vezes se prometeu ao longo de nossa história. Mas o depois não tardou a revelar as dificuldades do começo. Deodoro dissolveu o Congresso e, pouco tempo depois, renunciou. Floriano Peixoto assumiu sob contestações em meio a uma crise política e militar. Governou com mãos de ferro e reprimiu revoltas até que, finalmente em 1894, a República chegasse à sua primeira eleição presidencial direta, vencida por Prudente de Morais. O país parecia inaugurar uma fórmula política cuja repetição ainda não era possível perceber: a ruptura estabelecia uma nova ordem, a crise exigia um homem forte, e somente depois se buscava a aparência de uma normalidade institucional. O futuro, entretanto, continuava sendo anunciado como se ainda estivesse por chegar. Menos de quatro décadas depois, outro movimento civil-militar impediu a posse do sucessor de Washington Luís e conduziu Getúlio Vargas ao poder. A Revolução de 1930 prometia reorganizar o país, mas o governo provisório se prolongou, as eleições foram adiadas e, em 1937, Vargas utilizou o falso Plano Cohen como justificativa para o golpe que instaurou o Estado Novo. A ditadura republicana, que se apresentara como instrumento de salvação nacional, acabou por concentrar o poder nas mãos de um único governante. Em 1945, sob pressão militar, Vargas deixou o cargo, e José Linhares assumiu interinamente a Presidência até a eleição de Eurico Gaspar Dutra. Outra vez, a ruptura precedia a promessa de reconstrução. Outra vez, a excepcionalidade era apresentada como passagem necessária para uma ordem mais estável. E outra vez o país parecia acreditar que, terminada a turbulência, o futuro poderia finalmente começar. Quando Juscelino Kubitschek venceu a eleição de 1955, quase não chegou à Presidência. A crise política e a oposição militar à sua posse foram contornadas pela intervenção do marechal Henrique Teixeira Lott, que assegurou a continuidade constitucional. JK governou, construiu Brasília e acelerou a industrialização, mas deixou também graves problemas econômicos e financeiros que seriam sentidos nos anos seguintes. O sucessor, Jânio Quadros, chegou ao poder com votação expressiva e renunciou poucos meses depois. João Goulart, seu vice, encontrou resistência dos ministros militares e só assumiu após uma solução parlamentarista que restringiu seus poderes. Em 1963, o presidencialismo foi restaurado, mas a trégua durou pouco. Em 1964, novo golpe militar depôs Jango e inaugurou vinte e um anos de um novo regime de exceção. Àquela altura, não era difícil compreender que o Brasil não sofria apenas com a instabilidade de seus governos. Havia algo mais profundo na maneira como lidávamos com a autoridade, a legalidade e a esperança. Quando a ordem parecia incapaz de entregar o futuro prometido, procurávamos uma ruptura. Quando a ruptura produzia novos problemas, procurávamos outro homem, outra fórmula, outra promessa. E, a cada tentativa, a geração seguinte recebia a tarefa de corrigir o que a anterior havia deixado inacabado. A esperança das "Diretas Já" trouxe as multidões às ruas e a Emenda Dante de Oliveira ao Congresso Nacional. A proposta de eleições diretas para a Presidência foi rejeitada em abril de 1984. A mudança viria, então, por meio de uma eleição indireta. Tancredo Neves venceu no Colégio Eleitoral, mas adoeceu gravemente na véspera da posse e jamais chegou a exercer o cargo. José Sarney assumiu a Presidência e, em meio a questionamentos sobre a legalidade da posse, a transição para a Nova República prosseguiu sob o peso de uma circunstância que ninguém havia planejado. O país, mais uma vez, alcançava um destino político por uma passagem que não correspondia exatamente ao caminho imaginado. Depois vieram a Constituição de 1988, as eleições diretas, a esperança de uma democracia duradoura e a crença de que as instituições, enfim, poderiam oferecer o terreno firme que tantas vezes nos faltara. Collor foi eleito e sofreu impeachment. A inflação foi combatida com planos sucessivos, as moedas mudaram de nome e de valor, e as crises econômicas continuaram a interromper as promessas de prosperidade. Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff chegaram à Presidência por meio do voto, mas a alternância de poder não impediu que o país atravessasse novas crises políticas, econômicas e institucionais. Dilma também sofreu impeachment, e o Brasil voltou a discutir, como tantas vezes antes, os limites da legalidade, da legitimidade e da autoridade. Já havíamos visto aquele filme muitas vezes, embora os atores fossem outros e o cenário se apresentasse com uma aparência renovada. Foi então que começamos a perceber uma mudança na natureza das rupturas. Durante muito tempo, elas haviam chegado com pronunciamentos militares, deposições, dissoluções do Congresso e suspensão explícita das regras vigentes. Mais recentemente, porém, a discussão sobre os limites institucionais passou a envolver também os próprios órgãos encarregados de interpretar e fazer cumprir a Constituição. O Supremo Tribunal Federal, fortalecido pela Constituição de 1988 e pelo crescimento da judicialização da política, assumiu um papel cada vez mais central nas disputas nacionais. A questão não era simplesmente saber se o Judiciário poderia atuar diante da omissão do Legislativo. A própria Constituição prevê mecanismos para enfrentar omissões inconstitucionais, e o Supremo já reconheceu que sua atuação pode ser necessária quando direitos constitucionalmente assegurados permanecem sem regulamentação. O problema que se apresentava era outro: Não legislar sobre um tema que não requer prévia regulamentação é também uma posição política legítima, de tal modo que sobrepor uma posição política se torna usurpação de competência legislativa. Em outras palavras, os defensores da Constituição tomavam decisões inconstitucionais, supostamente na defesa da Constituição. A República brasileira, que tantas vezes havia recorrido à excepcionalidade para superar crises, parecia agora conviver com uma tensão diferente: a possibilidade de que a própria interpretação das regras se tornasse o campo em que os limites institucionais fossem continuamente disputados. E, como acontecera em outros momentos, o país podia encontrar justificativas plausíveis para cada passo isolado, sem perceber imediatamente a direção do conjunto. Não seria a primeira vez que uma ruptura se apresentaria como remédio. Tampouco seria a primeira vez que uma solução inicialmente considerada provisória adquiriria permanência, apoiada pela urgência dos acontecimentos e pela convicção de que o momento exigia medidas extraordinárias. E, no entanto, há algo que nossa história também nos ensinou: os padrões se repetem, mas não são toda a história. A estátua de D. Pedro I continua no centro da praça, testemunha silenciosa de uma mudança de regime que não a havia derrubado. O nome do largo havia mudado, o Império desaparecera e a República sobrevivera a sucessivas crises. O monumento permanecia, não como prova de que nada se transforma, mas como lembrança de que as transformações nunca apagam inteiramente aquilo que as precedeu. Talvez fosse esse o erro das gerações passadas: imaginar que uma ruptura, por si só, seria suficiente para produzir um futuro diferente. Derrubavam-se homens, substituíam-se símbolos, alteravam-se as regras e renovavam-se as promessas, mas nem sempre se modificavam os hábitos políticos, as dependências institucionais e as expectativas que haviam conduzido o país à crise anterior. Uma sociedade não se liberta de seus padrões apenas porque declara inaugurada uma nova era. A ruptura pode abrir uma possibilidade, mas a construção exige escolhas posteriores, limites, responsabilidade e tempo. Exige que os homens compreendam que nenhuma instituição se torna virtuosa apenas por receber um novo nome, assim como nenhum regime se torna legítimo simplesmente por proclamar sua própria necessidade. Talvez o Brasil tenha passado tempo demais esperando que o futuro chegasse como uma recompensa por sua capacidade de resistir às crises. Pode ser que o país do futuro não seja aquele que aguarda eternamente a chegada de uma época redentora, mas aquele que finalmente compreende que nenhuma época virá para construí-lo em seu lugar. E, se ainda houver uma oportunidade, talvez a próxima ruptura não precise ser apenas a queda de uma ordem anterior. Poderá ser a ruptura com a própria maneira de construir ordens: sem a expectativa de um salvador, sem a indulgência diante dos abusos e sem a crença de que a excepcionalidade, uma vez aceita, retornará espontaneamente ao seu lugar. O Brasil do futuro não chegará. Nós o erguermos, ou continuaremos esperando por ele Leiam: O entortamento da Direita Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • O Preço da Verdade e a Ilusão da Justiça

    Memórias de uma Infância sob o Totalitarismo Este texto foi escrito por um grande amigo, hoje residente no Brasil e uma testemunha viva da barbárie causada pelo Comunismo soviético. Edson Araujo Na infância, aprendemos o significado das palavras mais profundas não através dos dicionários, mas pelas atitudes daqueles que nos cercam. Crescendo na antiga Tchecoslováquia, por trás da Cortina de Ferro, aprendi muito cedo que conceitos universais como “Verdade” e “Justiça” podem ser sequestrados pelo poder político e transformados em meras ferramentas de controle social. A história da minha família reflete a contradição brutal entre a propaganda de um regime e a realidade vivida por cidadãos comuns. Do lado materno, carrego a herança de uma família marcada pela integridade e pelo espólio. Meu avô foi juiz durante a Primeira República Tchecoslovaca e, milagrosamente, permaneceu na magistratura após a Segunda Guerra Mundial até os anos 1960 sem jamais se filiar ao Partido Comunista — um fato absolutamente extraordinário para a época. Sua família, composta por dentistas prósperos que haviam trabalhado arduamente para construir seu patrimônio, viu suas vilas, apartamentos e edifícios de aluguel serem confiscados pelo Estado da noite para o dia, sob o pretexto de uma “justiça social” distorcida. A marca da chamada "origem burguesa" nos acompanhou por décadas. Contudo, a maior lição moral dentro de casa veio do meu pai. Um profissional brilhante e extremamente dedicado, frequentemente encontrava o teto de vidro do regime. Na Tchecoslováquia comunista, era comum passar a vida inteira em uma mesma empresa, e meu pai sempre se destacava por sua capacidade técnica. Porém, cada vez que uma promoção a cargos de liderança ou diretoria se aproximava, a frase burocrática se repetia: "Camarada, seria muito melhor para a sua carreira se você se filiasse ao Partido." Meu pai recusou todas as vezes. Preferiu mudar de emprego, abrir mão do prestígio, de salários mais altos e do conforto material a ter que vender sua consciência. Em uma casa onde nenhum dos pais era filiado ao Partido, nossa família sabia exatamente o preço de manter a cabeça erguida: limitações para viajar ao exterior, vigilância silenciosa e ameaças veladas ao nosso acesso à educação superior. Na verdade, na minha infância, era algo que se vivia em duas dimensões paralelas. Na escola, éramos instruídos a repetir os dogmas oficiais para evitar problemas. Em casa, às escondidas, meus pais me contaram a história real, os fatos históricos despidos de ideologia, sempre em sussurros e com as janelas bem fechadas. A verdade era um tesouro secreto que precisava ser protegido do mundo exterior. Essa experiência me fez compreender, mais tarde, o pensamento do escritor e ex-presidente tcheco Václav Havel em sua obra O Poder dos Sem Poder. Havel cunhou o conceito de “viver na verdade” (viver em verdade), demonstrando que a maior forma de resistência contra um sistema opressor não são as armas, mas a recusa individual de participar da mentira coletiva. Essa busca reflete o antigo lema do reformador Jan Hus no século XV: “Busca a verdade, ouve a verdade, aprende a verdade, ama a verdade e defende a verdade até a morte.” A verdadeira Justiça não é a distribuição ideológica de privilégios ou o punitivismo do Estado sobre os dissidentes, mas o reconhecimento da dignidade inalienável de cada indivíduo com base em seu mérito e em seu caráter. Da mesma forma, a Verdade não é uma narrativa relativa adaptável à conveniência do momento, mas um compromisso ético inegociável com a integridade. Hoje, vivendo em uma democracia, percebo que muitos tomam a liberdade, a verdade e a justiça como garantias dadas e permanentes. Quem cresceu na sombra do totalitarismo sabe que elas são conquistas frágeis, sustentadas diariamente pelas escolhas silenciosas de pessoas comuns — como meu pai, meu avô e tantos outros — que preferiram perder posições e bens materiais a perderem a própria alma. Leiam: Vivendo sem culpa Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Vivendo sem culpa

    A Bíblia Sagrada nos conta dos dias em que duas prostitutas bateram às portas do Rei Salomão. Havia um litígio que só a autoridade real poderia dirimir, posto que, ambas se declaravam como legítima mãe de uma criança. Foi dito ao Rei que as duas mulheres moravam na mesma casa e que, em dois dias de diferença, ambas deram a luz, mas que uma delas, dormindo, acabou sufocando seu filho e o bebê morreu, tendo se apoderado do filho da outra mulher. Salomão não tinha como saber quem era a verdadeira mãe da criança e ambas insistiram que o bebê que falecera era a prole de sua contendora. O sábio Rei percebeu que aquela que estava mentido não recuaria, haja vista que, subtraindo o filho pela perda, precisava suprimir a falta daquele que, por sua falta, perecera. A mulher fugia do luto e tomar o filho da outra era uma forma de esquivar-se do sofrimento de perda, assumiria que seu filho era aquele que ali estava, portanto, enganaria sua consciência com o fim de evitar a dor. Salomão então disse às mulheres que, como era impossível descobrir quem, realmente, era a mãe da criança, cortaria o bebê ao meio e entregaria a metade a cada uma delas, assim, daria ao menos parte à verdadeira mãe, seria, portanto, o mais perto de algo verdadeiramente justo. A mão da criança morta, cega por seu desejo de ficar, ao menos, com parte do objeto da lide, aceitou a proposta do Rei, mas a verdadeira mãe, ao ver que lhe restaria metade de um cadáver e que seu filho, mesmo nos braços de outra, ficaria vivo se ela se abrisse mão da criança, voltou-se ao julgador, pediu que não o matasse e pediu que a entregasse à impostora. O Rei determinou que não cortassem a criança e a entregasse à mulher que preferiu vê-la viva nos braços da impostora, dizendo que aquela era a verdadeira mãe da criança. Em sua sabedoria, Salomão testou o coração das duas contendoras e aquela que preferiu salvar a vida da criança se provou como a que ama verdadeiramente o bebê. A decisão de cortar a criança e, consequentemente, matá-la partiu do Rei Salomão, logo, se levada a cabo pela inércia de ambas as mulheres, deveríamos admitir que a culpa pelo assassinato recairia sobre os ombros do julgador, não sobre a impostora ou a mãe, tendo em vista que o objetivo de ambas era ter a criança em seus braços, de maneira que, somente Salomão, em uma análise superficial, suportaria o peso da morte daquele inocente. Por outro lado, a mãe verdadeira, ao abrir mão do filho em favor da impostora, não estava satisfazendo seu desejo ou sendo justa, mas salvando a vida de seu amado que, mesmo entregue a alguém de índole reprovável, não seria privado do presente divino que é a vida. A melhor opção para a mãe seria ficar com o filho, mas ela sabia que deixar o Rei matar sua prole seria a desgraça total, por isso, preferiu a escolha menos gravosa. A impostora, mais preocupada com a disputa em si e sabendo que a divisão já lhe era mais que a verdadeira justiça, concordou com a proposição do sábio Rei, haja vista que, para quem nada tinha, o empate parecia um bom resultado. No entanto, não se pode afastar a hipótese na qual a impostora aceitaria a morte daquele inocente por um motivo ainda mais nefasto, a possibilidade de impor o sofrimento de perda que espiava à outra mulher, invejando o fato daquela não ter perdido o filho. Se a inveja foi a causa motora para que a impostora aceitasse a morte do filho alheio, sua baixeza moral restaria evidente, entretanto, no que concerne ao assassinato, bastaria, como mencionado, assumir que o Rei prolatara a decisão, portanto, seria o julgador o assassino. Ao preferir entregar o filho, a verdadeira mãe escolheu aquilo que se chama de mal menor, ou seja, deixando sua vontade de lado para salvar aquilo que era mais importante, ela provou que verdadeiramente se importava e que não estava disposta a causar a morte do próprio filho por orgulho ou acreditar que estava sendo firme em sua convicção. A fraqueza moral não está na escolha pelo mal menor, ou “menos pior”, mas a omissão como argumento de não culpabilidade pela desgraça que dela também decorre. Aquele que se esquiva da responsabilidade pode não ser o culpado pelo mal na mesma medida que os que abraçaram a degradação, todavia, não pode repousar como se não tivessem colaborado para um resultado nefasto. Esquivar-se de decidir é, na verdade, renunciar seu voto em favor de terceiro com o fim de transferir a outrem o peso da culpa, entretanto, quando as consequências não são evitadas em razão da omissão, não há como negar que aquele que se furtou deve suportar o fardo da escolha que preferiu não fazer. Aquele que diz não se importar com aquilo que será feito, não pode, se for honesto, alegar que se opunha. Em nosso arcabouço legal existe uma ação judicial que permite ao cidadão se levantar contra ato que cause prejuízo ao erário, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, denominada Ação Popular, entretanto, é requisito que o autor tenha comparecido ao pleito eleitoral para que possa ajuizá-la, algo que evidencia a impossibilidade do omisso de se rechaçar um ato que cause prejuízo ao interesse público. É verdade que aquele que anula seu voto ou escolheu o autor do ato que visa combater poderá mover a ação, haja vista que o sigilo do voto deve ser resguardado, logo, seria impossível requerer a informação de qual destino o voto do autor da ação teve, entrementes, evidencia-se que, ao não escolher de forma flagrante, o cidadão deixou que outros guiassem seu destino e deve suportar tal posicionamento e suas consequências. A postura covarde de uma União Europeia que assistiu a ação do grupo terrorista Hamas no fatídico outubro de 2023, e não esboçou qualquer reação, além de indigna, lhe priva de condenar Israel quando aquela nação reage e persegue membros do grupo terrorista em questão. Não há muito a ser esperado quando a mesma Europa doa milhões para que a Ucrânia, defendendo suas terras, tenha misseis, drones e carne de mercenários para usar contra a Rússia, ao passo que continua comprando gás da autocracia de Moscou para não suportar o frio ou não renunciar suas politicas ambientalistas fajutas. Se a verdadeira mão fosse como os governos de Alemanha e França, aquele bebê seria cortado pelo Rei Salomão. Observando bem, a linha progressista que a maior parte da União Europeia se filiou tem a tendência a matar bebês. O atual Governo de El Salvador recebe duras críticas, algumas até válidas, de autoridades e ativistas que se autodenominam defensores dos direitos humanos, no entanto, as diversas organizações criminosas de cunho revolucionário que atuam na América Latina com a condescendência dos membros do Foro de São Paulo, não parece incomodar tais ativistas e autoridades. A culpa das mazelas trazidas pelas facções não devem recair tão somente sobre os ombros dos patifes que, conscientemente, escolheram os revolucionários para governar, pois há uma parcela daqueles que preferiram a omissão e deixaram seus pares entregues às víboras vermelhas. Imaginemos o número de indivíduos que acreditaram que seria mais fácil deixar que outros tomassem as rédeas e hoje assistem o México tomado pelos cartéis, bem como, o Brasil fora de uma iniciativa continental encabeçada pelo país mais rico e poderoso do mundo que pretende combater as facções que aterrorizam seu povo, não há como negar que os omissos também carregam parte da culpa e negá-la é um ato de covardia. Se, no maior colégio eleitoral do país, um candidato ao Senado Federal desiste de sua campanha para evitar que políticos alinhados à um sistema pútrido alcancem as vagas, em outros cenários há quem prefira colocar em risco uma das mais importantes disputas para, em nome de um falso bairrismo, subtrair votos que podem dar a chance ao que há de pior na política brasileira, some-se a isso o fato de defenderem uma candidatura com poucas chances de ser eleito e de concluir o mandato. Mas há ainda um outro cenário dantesco no qual um aspirante ao Senado se mantém na disputa, mesmo ciente que tem um rebanho de eleitores fiéis e, pouquíssimas chances reais de vitória, todavia, sua candidatura canibaliza votos daqueles que, realmente, podem impedir que um candidato que tem clara posição revolucionária e que, recentemente, após uma ação policial em seu reduto eleitoral, não procurou dar assistência aos familiares dos policiais mortos ou feridos, mas demonstrou preocupação com possíveis abusos contra membros da mesma facção que seu partido político se recusa a rotular como terrorista. Urge nos perguntarmos se é ingenuidade ou má-fé do candidato, posto que, se ele conspira para que a corrida põe uma vaga ao Senado seja vendida por que parece ter complacência com o crime e vilipendiou a fé de seus seguidores no último Carnaval, seria ele um farsante ou apenas um irresponsável ganancioso. Cabe lembrar que outrora o mesmo político ocupara posição no primeiro escalão do Governo sob a batuta do Foro de São Paulo, portanto, tal temor seria justificável. Aos que outrora acusavam, com razão, o aqueles que figuram no espectro político da esquerda de artífices de uma revolução socialista, deveria ser inadmissível a opção pela omissão, tendo em mente que, há, no campo de batalha, um grupo que pretende, deliberadamente, expandir a desgraça, através da miséria e da deturpação da moral, com o único fim de alcançar uma posição de poder que os aquebrantados serão incapazes de retirá-lo. Em síntese, podemos admitir que todo aquele que prega a isenção como forma de não ser responsabilizado pela ascensão e manutenção do mal, mesmo sabendo quem são os membros declarados da horda vermelha, não está na condição de vítima ou mero espectador, mas de, na melhor das hipóteses, partícipe. Há quem invoque a ineficiência dos meio para impedir que o mal avance, contudo, tal alegação não afasta o dever de tentar, pois, se tal argumento fosse verdadeiro, todo martírio seria tolice. Na prática, tentar o melhor possível, mesmo diante de uma derrota iminente é não se curvar à tirania, ao passo que, tentar fugir da culpa o é. Inobstante a busca pelo mundo ou líder ideal, não há como negar que o plano material está repleto de injustiças e provações, bem como, que homens são, por essência falhos e ninguém deveria considerar, sequer a si como perfeito, de tal maneira que, escolher o chamado “menos pior”, é exatamente a escolha do melhor, por mais que se tente distorcer tal ideia. Transferir a gerência a outrem nada mais é que tentar se furtar da responsabilidade diante do erro, esperando que um líder que assumiu o poder pela hereditariedade ou por pertencer a um conselho de indivíduos superiores seria a solução para toda a sociedade, abdicando da participação em nome da isenção de culpa. Como uma monarquia se torna uma tirania diante de um líder corrompido e uma aristocracia transmuta sua natureza em uma oligarquia quando os filósofo se corrompem pelo poder, a democracia reflete a sociedade que governa, sendo tão decadente quanto a soma das vicissitudes de seus membros. A democracia é, talvez, o sistema mais justo, entretanto, é também o mais cruel, posto que, encarar sua face pútrida nos faz olhar para o espelho de nossa sociedade, não nos permitindo imputar ao rei tirano ou ao grupo corrupto os males que nos cercam sem admitir que os líderes democraticamente eleitos, lá estão, porque, em algum momento falhamos como sociedade e não por terem se corrompido sem a nossa participação. Em uma sociedade que a maioria foi reduzida a uma massa bestializada não poderia eleger uma classe política que não a refletisse, por outro lado, aquilo que hoje chamamos de juristocracia, nada mais é que uma oligarquia de toga que, se considerando “editores da nação”, portanto, mais aptos a decidir pelo povo que o próprio povo, se enxerga como uma aristocracia. É evidente que um tirano jamais se assumiria como tal. Por fim, ainda que o processo eleitoral seja dúbio e que o líder ideal não esteja no seu horizonte, a omissão é optar pelo mal maior à medida que permite que outros o elevem ao poder, razão pela qual, aos que se furtam de lutar, será impossível viver sem culpa. Leiam: O escudo do silêncio Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Outubro - Hora de enfrentar a urna

    Outubro não chega apenas como um mês no calendário. Ele chega como um chamado. Um chamado que atravessa o barulho das narrativas, o cansaço das crises, a descrença que tantos tentaram plantar. Ele chega como um lembrete de que o destino de um país não se escreve sozinho e que o silêncio de alguns sempre acaba se tornando o poder de outros. As eleições se aproximam, e com elas surge uma verdade que muitos evitam encarar: quem não escolhe acaba tendo que aceitar a escolha dos outros. E aceitar, depois, não é um gesto de maturidade. É apenas o preço da omissão. Por anos, tentaram convencer o brasileiro de que votar era um detalhe. Que não mudava nada. Que não valia a pena. Que a política era um território sujo demais para merecer a presença dos honestos. Mas outubro chega para desmontar essa mentira. Chega para lembrar que a omissão não é proteção. É entrega. É abrir mão da própria voz. É permitir que o futuro seja decidido por quem, muitas vezes, não carrega as mesmas dores, não enfrenta os mesmos desafios, não vive a mesma realidade. E é aqui que surge uma reflexão que muitos esquecem: ir votar é, sim, um ato de fé. Fé no país que ainda pode ser. Fé na responsabilidade que cada cidadão carrega. Fé na ideia de que a verdade, quando defendida, transforma. Fé na convicção de que a história não está escrita. Ela está sendo escrita. Fé na coragem de não se esconder atrás do “tanto faz”. Votar é acreditar que sua presença importa. É acreditar que sua consciência tem peso. É acreditar que sua escolha é semente e que sementes, quando plantadas com coragem, sempre germinam. O trabalhador que acorda antes do sol sabe que votar é defender sua dignidade. A mãe que sustenta sua casa sabe que votar é proteger o futuro dos filhos. O jovem que busca oportunidades sabe que votar é reivindicar seu espaço. O idoso que carrega memória sabe que votar é honrar o caminho percorrido. Cada um deles entende que a fé não é passividade. É ação. E que ação, em outubro, começa na urna. A Bíblia nos lembra: “A fé sem obras é morta.” E no Brasil de hoje, a obra mais simples e mais poderosa é comparecer. É levantar a cabeça. É assumir a responsabilidade. É recusar o papel de espectador. É impedir que outros escrevam sua história enquanto você assiste de longe. Outubro é o mês em que o país precisa entender que a omissão não é neutralidade. É consentimento. E consentir com o que não representa você é abdicar da própria consciência. Ir às urnas é um ato de fé porque é um ato de coragem. É um ato de confiança. É um ato de responsabilidade moral. É um ato de quem sabe que o futuro não se entrega. Se conquista. Outubro chega para lembrar que o silêncio cobra seu preço. E que o Brasil já pagou caro demais. Leiam: Setembro – A verdade que liberta Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • O escudo do silêncio

    Nos dias 3 e 4 de junho de 1989, o regime chinês reprimiu protestos que pediam a democratização daquele país de forma violenta. O episódio ficou conhecido com Massacre da Praça da Paz Celestial e expôs a face nefasta que a ditadura chinesa não gostaria que o povo sob seu nefasto poder conhecesse. O massacre foi encoberto pelo regime, apagando dos registros oficiais, impedindo a veiculação pela mídia, que é alinhada ao regime, e buscas sobre o tema em fontes descentralizadas. O episódio recheado de um autoritarismo desproporcional que servira apenas para os déspotas se manterem no poder, tornou-se um tema cujo regime lutaria para apagar da história, impondo a censura a qualquer um que tentasse tocar no assunto. A única forma encontrada pela ditadura comunista para tratar do massacre foi a imposição do silêncio, entretanto, tentar ofuscar um algo por meio da força pode gerar o efeito oposto. Em 2010, a cantora Bárbara Streisand, ao ter sua mansão em Malibu exposta através de imagens foto, processou o fotógrafo com o fim de apagar tal publicação, entretanto, o processo surtiu efeito contrário ao pretendido pela atriz, posto que, devido à sua insistência em ocultar a mansão, as buscas se tornaram cada vez mais constantes e o interesse pela mansão crescia. A tentativa de encobrir gerou a curiosidade a respeito do tema, nasceu assim o termo Efeito Streisand, um conceito que sustenta um ponto muito relevante, em especial, em se tratando da internet. O Efeito Streisand aponta que os esforços para encobrir algo podem gerar o efeito oposto, fazendo com que as pessoas se interessem por determinado tema, justamente, por perceberem que outro deseja o encobrir. Mesmo quando tratamos de crianças, o senso comum é que a tentativa de esconder algo aguça a curiosidade, portanto, ao dizer a uma criança que ela não pode ver algo, nascerá o risco que ela desperte um interesse, antes inexistente, por aquilo que lhe fora proibido. Os avisos de advertência quanta à idade fizeram com que álbuns de músicas, filmes e jogos de videogame fizessem mais sucesso que o esperado. A franquia Mortal Kombat deve parte do seu sucesso às medidas adotadas para impedir que crianças tivessem acesso ao extremamente violento jogo. O regime chinês criou inúmeras barreiras para tentar controlar aquilo que povo, refém do Partido Comunista, pode ou não saber, entretanto, o uso de sistemas que visam burlar tão controle tornou-se algo considerável naquele país. Evidente que há repressão aos que usam tais mecanismos. A Rússia, sujeita a um regime autocrata, também criou barreiras para que os cidadãos não pudessem trocar informações livremente. Algumas plataformas estão proibidas nas terras sobre o julgo de Vladimir Putin. A Internet permitiu que os indivíduos trocassem informações diretamente entre si, não mais dependendo da mídia mainstream, em sua maioria controladas por governos ou corporação. A descentralização da informação fez com que seus emissários experimentassem algo que não podia imaginar, o contraditório, antes reduzido aos debates e tribunais passou a ser exercidos no campo da informação, posto que, às narrativas passaram a ser contestadas e argumentos, antes apresentados como irrefutáveis, tiveram de se provar sólidos ou seriam arrastados para a lixeira das falácias. O nazismo de direita foi desmentido e o aquecimento global se tornou mudanças climáticas, em breve, admitirão o socialismo africano como verdadeira causa da miséria naquele continente, mas até lá, restará a tentativa de silenciar as vozes que apontam as mentiras, seja pela censura ou pelo controle de quem pode ou não falar, exigindo que comunicadores sejam reduzidos a agentes de relações públicas do regime. A China exigiu a especialização e cadastramento para produtores de conteúdo, ao passo que, no Brasil, o Supremo Tribunal Federal, que já sufocou os outros poderes da República, pensa em rever a sua decisão que permite, com razão, que qualquer um, independente de formação em jornalismo, possa exercer a função de comunicador, impedindo que aqueles rotulados como “blogueiros” gozem de determinadas proteções dadas aos profissionais de comunicação. Se consideramos que o jornalista Alan dos Santos, apesar de sua formação, é tratado como blogueiro, com o fim de desmerecê-lo e subtrair-lhe as prerrogativas da profissão, resta evidente que só haverá respaldo para a mídia mainstream, aliada ao sistema de poder, portanto, voltaríamos à confortável situação, para alguns, em que a informação estava sobre o controle dos poderosos. Durante o período da pandemia, quando o Covid Zé espalhava, um verdadeiro conluio entre governos, indústria farmacêutica, mídia mainstream, cientistas e gestores de plataformas digitais atuou para calar quem sugerisse tratamento precoce ou alternativo, criticasse as medidas autoritárias, bem como, questionasse aquilo que decidiram chamar de vacinas. No Brasil, a mídia ainda evita tocar no assunto, embora os “erros" tenham sido expostos. Evitando assumir o mal que fizeram ou colaboraram para que outros fizessem, a mídia mainstream ainda busca silenciar o tema como quem usa um escudo. Honestamente, as medidas autoritárias para calar os que questionavam fez com que alguns desconfiassem ainda mais de tais medidas. Recentemente, a Justiça proibiu que um homem condenado por agressão doméstica desse uma entrevista, alegando que ele não deveria falar sobre a vítima e a filha dela, entretanto, a proibição veio de foram preventiva, sem saber o conteúdo do que seria dito. A censura, impede que o tema seja discutido, gerando uma pergunta, mais que natural, sobre a real intenção do Judiciário. Estaria o Judiciário impedindo o debate para não dar voz ao criminoso ou para que sua face ativista, feminista, que considera homens como cidadãos de segunda classe não fosse exposta? Embora não deveria acontecer, tornou-se comum que reportagens sejam alvos de censura ou apagamento. Desde a matéria jornalística da Revista Isto É, O amigo do amigo do meu pai, que foi retirada de circulação por ordem judicial, surgiu a proibição de falar, mesmo que seja verdade, dos senhores da República e, em um segundo momento, extinguiu-se o sigilo da fonte, para que, apenas um louco, alguém que nada tem a perder ou esteja em estado terminal forneça informações a jornalistas. Além de tais medidas, a suspensão de plataformas de redes sociais, como o Discord, sofrem bloqueio. A mentira precisa impedir que os outros tenham acesso a verdade, pois só a ignorância manterá sua narrativa incontestável. Incomoda ver que as pessoas migram do Jornal Nacional, aliado do regime, para produtores de conteúdo independentes que não combinam narrativas com os poderosos, mas é natural que as pessoas abandonem aqueles que mentem até em quadrinhos para procurar fontes confiáveis. O escudo do silêncio quebrar-se-á é as consequências chegaram de forma inevitável aos déspotas que insistem em calar aqueles que ousam desmenti-los. Nossos sinceros cumprimentos aos corajosos que insistem em dizer a verdade e não venderam sua alma ao mal. Parabéns aos comunicadores independentes e descentralizados, você são heróis. Leiam: Miséria em metástase Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867

  • O entortamento da Direita

    Se no artigo anterior iniciamos perguntando ao leitor “Você é de direita ou de esquerda?”, neste convidamos você a observar os aspectos práticos daquela generalização na política nacional. Afinal, o que acontece quando correntes políticas distintas são colocadas no mesmo balaio e passam a ser tratadas como se fossem uma coisa só? A pergunta não é meramente acadêmica. Ela se tornou particularmente atual diante das dificuldades que a direita brasileira encontra para construir unidade às vésperas de eleições decisivas. Há quem atribua o problema à vaidade de determinadas lideranças, à disputa por espaço ou à falta de habilidade política. É possível que haja um pouco de tudo isso. Mas talvez estejamos procurando a explicação no lugar errado. A direita não está desunida apenas porque seus líderes discordam. Ela está descobrindo que nunca foi tão uniforme quanto o rótulo fazia parecer. E isso nos leva de volta à história. O balaio nunca foi homogêneo É preciso desfazer, desde logo, uma impressão equivocada: não existiu uma “direita brasileira” monolítica nos anos 1960, assim como não existe hoje. Havia diferentes correntes, diferentes interesses e diferentes concepções sobre o Estado, a economia, o desenvolvimento, a ordem social e o papel das instituições. A UDN não era um partido composto por homens que pensavam exatamente da mesma maneira. Havia liberais, conservadores, desenvolvimentistas, nacionalistas e outras tendências que podiam convergir em determinadas circunstâncias e divergir em outras. A diferença fundamental está em outro lugar. As diferenças eram mais visíveis e, sobretudo, mais intelectualmente identificáveis. Um político podia ser reconhecido como liberal ou conservador não apenas porque votava com determinado grupo, mas porque havia uma tradição de pensamento por trás de suas posições. Havia autores, escolas, conceitos, debates e referências. Havia uma linguagem política que permitia compreender por que dois homens pertencentes ao mesmo campo defendiam soluções diferentes. Isso produzia uma consequência importante: a divergência não significava necessariamente desorientação. Ela podia ser simplesmente divergência. Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto Carlos Lacerda talvez seja o exemplo mais conhecido dessa geração. Jornalista, parlamentar, governador da Guanabara e extraordinário polemista, construiu sua carreira política sobre uma visão de mundo que não dependia de pesquisas de opinião para existir. Pode-se discordar de Lacerda. E certamente há muito sobre sua trajetória que pode e deve ser discutido. Mas é difícil imaginar sua atuação política sem considerar a formação intelectual que sustentava seus discursos, seus embates e suas escolhas. José de Magalhães Pinto era diferente. Banqueiro, governador de Minas Gerais, ministro das Relações Exteriores e senador, representava outra vertente do campo conservador e liberal. Sua experiência administrativa e sua visão econômica não eram simplesmente uma cópia das ideias de Lacerda. E esse é precisamente o ponto. Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto para que ambos fossem reconhecidos como homens de direita. A direita comportava diferenças porque essas diferenças possuíam conteúdo. Havia, portanto, um fenômeno que hoje parece cada vez mais raro: políticos do mesmo espectro podiam discordar profundamente sem que a divergência fosse imediatamente interpretada como traição. O adversário estava do outro lado, mas isso não eliminava o debate dentro do próprio campo. O que se perdeu não foi a diversidade Aqui está uma distinção que considero fundamental. Não é correto afirmar que o passado possuía uma direita homogênea e que a direita contemporânea se tornou fragmentada. A diversidade sempre existiu. O que mudou foi a forma de organizar essa diversidade. No passado, as diferenças tendiam a se apresentar por meio de correntes políticas e tradições intelectuais relativamente identificáveis. Hoje, com frequência, elas aparecem dentro de uma grande identidade coletiva chamada simplesmente de “direita”. Isso produz uma espécie de ilusão de unidade. Até mesmo quando o grupo está diante de um adversário comum, as diferenças internas costumam aparecer. Apesar de a prioridade ser a derrota do inimigo, parece importar muito se o sujeito ao lado é liberal, conservador, nacionalista, libertário ou defensor de um Estado mais intervencionista. O palanque começa a parecer pequeno para tantos egos reunidos. O problema se aprofunda depois. Quando chega a hora de responder o que fazer com o Estado, com a economia, com a política externa, com a segurança pública, com as instituições e com os costumes, descobre-se que o palanque não era uma doutrina. Era apenas um palanque. Da política de ideias à política de reação É nesse ponto que a comparação entre as gerações se torna particularmente reveladora. Os políticos do passado também eram homens de comunicação. Lacerda jamais teria sido Lacerda sem a imprensa, os discursos e a capacidade de mobilizar a opinião pública. Mas havia uma diferença entre utilizar os meios de comunicação e depender deles para definir a própria agenda. O político daquela geração precisava construir uma posição que pudesse ser defendida para além do acontecimento do dia. Suas referências intelectuais precediam, em boa medida, a reação ao acontecimento. Hoje o processo frequentemente se inverte. A notícia produz a reação. A reação produz a postagem. A postagem produz a contrarreação. E a política passa a girar em torno do próximo acontecimento. Não se trata de afirmar que os políticos contemporâneos sejam menos inteligentes. Essa não é a questão. A questão é que a política atual exige muito mais capacidade de reação do que de elaboração. Quem reage rapidamente ganha visibilidade. Quem provoca uma reação mobiliza sua base. Quem produz uma frase de efeito domina o ciclo de notícias. A profundidade, nesse ambiente, tornou-se uma mercadoria pouco competitiva. O resultado é uma política cada vez mais emocional, personalista e midiática. E, quando a emoção substitui a elaboração, o estofo desaparece. O que significa ter estofo? Estofo político não é erudição decorativa. Tampouco é ter uma coleção de diplomas. É possuir uma base intelectual que permita compreender a própria posição e, principalmente, suas consequências. Um político com estofo não precisa concordar com Burke, Hayek, Tocqueville ou qualquer outro autor apenas porque eles são referências do pensamento conservador. Mas deveria saber que tais autores existem, o que defenderam, em que contexto formularam suas ideias e por que suas concepções continuam ou não sendo relevantes. Mais importante ainda: deveria conseguir explicar sua posição sem depender exclusivamente daquilo que o adversário acabou de dizer. Esse é um dos problemas da política contemporânea. Muitas vezes, a posição não nasce de uma concepção de mundo. Nasce da necessidade de responder ao outro. E isso vale para a esquerda e para a direita, embora a discussão aqui seja sobre o que aconteceu com esta última. De Lacerda aos Bolsonaro É nesse contexto que a comparação entre Lacerda e os Bolsonaro precisa ser compreendida. Não se trata de dizer que os políticos atuais sejam incapazes, nem de negar a importância eleitoral e cultural da nova direita. Ao contrário: seria impossível compreender a política brasileira contemporânea sem reconhecer a capacidade de mobilização que essa geração conquistou. Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Carol de Toni, Cleitinho, Marcel van Hattem e outros representam parcelas importantes desse novo campo político. Alguns possuem maior consistência doutrinária que outros; alguns têm experiência parlamentar relevante; outros se destacam principalmente pela comunicação. Mas há uma característica comum à nova política que não pode ser ignorada: a liderança frequentemente precede a doutrina. O político se torna conhecido, constrói sua audiência, reúne seguidores e somente então passa a ser cobrado por aquilo que pretende fazer com a força política que conquistou. No passado, em muitos casos, ocorria o contrário. A formação política precedia a liderança. Não se trata de romantizar o passado. Aquele período produziu erros graves, conflitos e decisões que continuam sendo objeto de controvérsia histórica. Mas é possível reconhecer uma qualidade sem transformar uma época em modelo absoluto: havia maior presença de referências intelectuais na formação das lideranças. O problema atual não é falta de opinião. É excesso de opinião sem suficiente elaboração. Por que a direita não consegue simplesmente se unir? Essa pergunta, hoje tão frequente, talvez esteja mal formulada. A questão não deveria ser apenas “por que a direita não se une?”, mas: “Até onde é possível unir correntes que concordam sobre o adversário, mas discordam sobre o que fazer depois de derrotá-lo?”. Durante determinado período, a oposição ao PT e à esquerda funcionou como elemento aglutinador. Foi compreensível e, em muitos aspectos, politicamente necessário. Mas existe uma diferença entre uma coalizão eleitoral e um projeto político. Uma coalizão pode ser construída em torno de um objetivo comum. Um projeto de país exige responder ao que vem depois. E é justamente aí que as diferenças reaparecem. O liberal econômico pode desejar reduzir drasticamente o tamanho do Estado. O conservador pode aceitar um Estado mais forte para proteger determinadas instituições e valores. O nacionalista pode defender políticas industriais que o liberal considera intervencionismo. O libertário pode rejeitar medidas que outro conservador considera necessárias à preservação da ordem. Quem está certo? A pergunta não pode ser respondida pelo rótulo “direita”. É preciso voltar às ideias. E talvez seja justamente isso que tenha sido perdido. O entortamento O “entortamento” da direita não consiste, portanto, em ter surgido uma nova diversidade. Ela sempre existiu. Consiste em outra coisa: a substituição progressiva das tradições político-filosóficas por uma identidade política mais ampla, personalista e reativa. O rótulo passou a fazer parte da identidade antes que a identidade fosse necessariamente acompanhada por uma elaboração doutrinária correspondente. Isso explica parte da força da nova direita e, paradoxalmente, parte de sua fragilidade. Ela conseguiu reunir muita gente porque falou para muita gente. Mas reunir é mais fácil do que organizar. E organizar é mais fácil do que construir uma tradição intelectual. Talvez por isso a direita brasileira esteja descobrindo, às portas de uma nova disputa eleitoral, que a tão desejada unidade possui limites bastante concretos. Não se pode exigir que todos os gatos do balaio miem da mesma maneira. O problema é outro. Se durante muito tempo todos foram tratados simplesmente como “gatos de direita”, talvez tenhamos deixado de perguntar que espécie de gato cada um era. E essa pergunta, que parece apenas engraçada, é essencialmente política. Porque uma direita intelectualmente madura não precisa eliminar suas diferenças para se fortalecer. Precisa conhecê-las. Precisa organizá-las. Precisa debatê-las. E, principalmente, precisa voltar a produzir ideias capazes de sobreviver ao ciclo de notícias, à próxima eleição e ao próximo adversário. Talvez o verdadeiro desafio da direita brasileira não seja voltar a ser unida. Seja voltar a ser intelectualmente diversa, doutrinariamente consistente e politicamente capaz de transformar suas divergências em ideias — e não apenas em disputas personalistas. Nesse momento é oportuno recordar Platão, escrito há mais de dois milênios. Na República, ao discutir quem deveria governar, o filósofo não se satisfaz com experiência, coragem ou capacidade de liderança: exige daqueles que receberão a responsabilidade pelo Estado uma longa formação intelectual, capaz de conduzi-los do mundo das aparências ao conhecimento. Para ele, governar sem esse preparo seria pouco diferente de entregar uma tarefa complexa a quem desconhece os fundamentos da própria atividade. “A menos que os filósofos governem como reis nas cidades, ou que aqueles que hoje são chamados reis e dinastas professem a filosofia de modo autêntico e adequado, e que estas duas coisas — o poder político e a filosofia — coincidam no mesmo sujeito... não haverá descanso dos males para as cidades, nem, creio eu, para o gênero humano.” Talvez tenhamos passado tempo demais escolhendo quem deve governar e tempo de menos perguntando se aqueles que pretendem fazê-lo estão intelectualmente preparados para a tarefa. Leiam: Você é de Direita ou de Esquerda? Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Estudando o Fascismo

    Parte 2 – A Marcha sobre Roma Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Benito Mussolini tomou o poder. Mas, que evento foi esse? No Brasil, a imprensa e a ala progressista trataram os atos do 8 de janeiro uma tentativa de “golpe de estado”. Contudo, o verdadeiro golpe, sem armas mas com estratégia, ocorreu quando os fascistas foram às ruas após ampliarem sua ocupação no Parlamento. A Itália vivia um caos após a Primeira Guerra Mundial: crise econômica severa, greves e ocupações de fábricas, medo das elites de uma Revolução (inspirada na Revolução Russa), governo fraco instável. Com sua ascensão política, os fascistas prometeram ordem e controle, e não poucas as vezes, utilizando-se de violência contra seus opositores. Foi quando Mussolini criou os Fasci Italiani di Combattimento. Os “camisas negras” (squadristi) surgiram principalmente a partir de 1919–1920. Muitos eram ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial, jovens, estudantes, trabalhadores e pessoas atraídas pelo discurso de nacionalismo e “combate ao socialismo”. Eles usavam a camisa preta como símbolo e se organizavam em grupos chamados squadre (esquadrões). Sua principal função era combater fisicamente os adversários políticos do fascismo, ainda que estes também fossem de esquerda. Os métodos incluíam espancamentos, destruição de propriedades, ameaças, incêndios e assassinatos. Muitas vezes, obrigavam adversários a beber óleo de rícino como forma de humilhação e punição. A violência dos camisas negras não era apenas espontânea. Ela ajudou a destruir a capacidade de organização dos adversários do fascismo, especialmente no campo e nas cidades do norte da Itália. Devido à onda de violência, sindicatos foram dissolvidos e diversos prefeitos renunciaram. Em julho de 1921, Giovanni Giolitti, primeiro-ministro (o mesmo que convidou Mussolini para ingressar no Bloco Nacional), tentou, sem sucesso, dissolver os esquadrões. Em agosto, uma greve geral antifascista foi desencadeada, mas não conseguiu reunir o Partido do Povo Italiano (Partito Popolare Italiano, católico e anticomunista) e foi reprimida pelos fascistas. Em várias regiões, autoridades locais, policiais, proprietários rurais e setores das elites toleravam ou apoiavam os fascistas, porque os viam como uma barreira contra o crescimento do socialismo durante o Biennio Rosso, ou Biênio Vermelho, período de dois anos (1919–1920) de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Importante lembrar do que tratamos no primeiro artigo da série: Mussolini teve o socialismo como sua base política. Tanto que, em 1915, a fundação do Partido Revolucionário Fascista se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Em 24 de outubro de 1922, durante reunião do Partido Fascista realizada em Nápoles, Benito Mussolini discursou diante de aproximadamente 60 mil pessoas e deixou explícita a ambição do movimento: assumir o controle do governo italiano. Paralelamente, os camisas negras ampliavam sua presença pelo país e consolidavam posições estratégicas, especialmente na região da planície do Pó. Entre 27 e 31 de outubro de 1922, sob liderança de Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi, Emilio De Bono e Italo Balbo, ocorreu a Marcha sobre Roma. Mussolini não participou diretamente do evento, ficando em Milão, pois temia uma intervenção repressiva do Exército. Em 26 de outubro, o ex-primeiro-ministro Antonio Salandra comunicou ao então chefe de governo, Luigi Facta, que Mussolini exigia sua saída e estava preparando uma mobilização em direção à capital. Facta, porém, não teria percebido inicialmente a dimensão da ameaça e acreditava que ainda seria possível manter Mussolini dentro do sistema político. Diante do avanço das forças fascistas e da concentração de militantes nos arredores de Roma, Facta decidiu decretar estado de sítio na capital. A medida dependia da aprovação do rei Victor Emanuel III. Facta acreditava que o monarca apoiaria a iniciativa, sobretudo porque os dois já haviam discutido anteriormente a possibilidade de utilizar as forças do Estado contra a violência promovida pelos fascistas. O rei, entretanto, recusou-se a assinar a ordem. Em 29 de outubro de 1922, o monarca convidou Mussolini para formar um novo governo. No dia seguinte, o líder fascista chegou a Roma, enquanto milhares de camisas negras permaneciam mobilizados na cidade. A mobilização fascista representava uma ameaça significativa. Os squadristi já haviam conquistado posições importantes na planície do Pó e em outras regiões italianas. O temor de que uma tentativa de repressão pudesse desencadear uma guerra civil também contribuiu para a postura adotada pelo rei. Mussolini, portanto, chegou ao cargo de primeiro-ministro por meio de uma nomeação formal do monarca, dentro das regras constitucionais vigentes. A transição, contudo, ocorreu em um cenário marcado pela pressão e pela intimidação exercidas pelos fascistas sobre as autoridades públicas. Parte da elite econômica italiana acreditava que seria possível controlar ou limitar a atuação de Mussolini. Empresários e setores financeiros enxergavam com interesse suas primeiras posições favoráveis ao mercado e à redução da intervenção estatal na economia. Essa expectativa, entretanto, não se confirmou. Ao chegar ao poder, a "revolução fascista" foi proclamada como um processo de "revolução contínua". Mussolini estabeleceu o início de uma “nova era”, inaugurando um novo calendário, assim como na Revolução Francesa, onde o ano de 1922 foi estabelecido como o "Ano I" da revolução. Eis um trecho de seu primeiro discurso no cargo de primeiro-ministro, em 16 de novembro de 1922: “Afirmo que a revolução tem seus direitos. Acrescentaria, para que todos saibam, que estou aqui para defender e fortalecer ao máximo a revolução das “camisas negras”, inserindo-a intimamente como força de desenvolvimento, progresso e equilíbrio na história da nação”. Ao longo dos anos seguintes, Mussolini desenvolveu um modelo ditatorial que ampliou a interferência do Estado sobre a economia e a sociedade como um todo. Seus atos seguintes foram intimidação severa e violenta contra opositores, manipulação de eleições, aprovação de leis que aumentavam seu poder, além de censura à imprensa. As empresas continuaram formalmente vinculadas à propriedade privada, mas passaram a operar dentro de uma estrutura cada vez mais subordinada ao Estado fascista e aos organismos controlados pelo regime. Em 1934, Mussolini chegou a afirmar que o governo havia assumido o controle de aproximadamente três quartos da economia italiana, abrangendo os setores industrial e agrícola. Em 10 de junho de 1924, o deputado socialista Giacomo Matteotti foi sequestrado e assassinado por integrantes ligados ao fascismo. Matteotti havia denunciado no Parlamento a violência e as irregularidades associadas ao regime e se tornara um dos principais críticos de Mussolini. Seu assassinato provocou uma grave crise política e marcou uma etapa fundamental na transformação do governo fascista em uma ditadura aberta. Continua….. Leiam: A problemática da perpetuação do assistencialismo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867

  • O Estado Democrático de necessidade e seus deficientes

    Diz-se que vivemos num estado democrático de direito, define-se Direito por: “Conjunto de regras, normas e princípios que organizam a sociedade”. Num Estado democrático de direito, as leis devem servir para todos e a todos, inclusive os governantes que devem se submeter ao império das leis. Até aí, tudo bem, pois numa sociedade ideal assim deve ser para a harmonia dos indivíduos. O problema é quando troca-se a definição pelo conceito – O que é bem comum e facilmente manipulável - pois para manter a estrutura que garanta o direito, o próprio cidadão deve contribuir, muitas vezes com mais do que pode. É bem comum ver membros da estrutura estatal que acabam tendo mais direitos que os próprios cidadãos. Bem, o ponto fundamental do texto não está em apenas questionar o conceito, mas refletir sobre o lugar de cada um e de cada coisa. Pela falta de objetividade na definição das coisas ficamos quase sempre com o conceito, basta ver a quantidade de pessoas que nem mesmo sabem definir Justiça, Política, Arte, Saúde e etc… Conceito é o que a minha mente concebe que algo seja, ou o que eu acho que algo seja. Definição é a descrição de algo, de forma que esse algo não se confunda com nenhuma outra coisa. No conceito somos deficientes, já na Definição, somos eficientes. O problema é que aí abre-se uma brecha para transformar necessidades em direitos; Qual o problema disso? Necessidades são naturais e individuais e cada ser humano deve ser educado a suprir as suas, com seu próprio esforço, autonomia e liberdade (Palavras que parecem perigosas para alguns grupos). Se transformamos necessidades em direitos, logo teremos que bancar uma estrutura que nos garanta as necessidades supridas, ou seja, ficamos nas mãos de um sistema que com sutileza nos tira a autonomia, esforço e liberdade; Isso nos parece comum? Penso que sim. Façamos um exercício de imaginação, em que uma criança, à medida que vai crescendo vê a NECESSIDADE de ter autonomia para ir ao banheiro sozinha, comer, caminhar, vestir-se, comunicar-se , entre outras necessidades que sem esforço, autonomia e liberdade, nunca serão alcançadas e a medida que vai crescendo vê esse tripé cada vez mais fortalecido e dando-lhe condições de ficar INDEPENDENTE, até que a carência dos pais seja suprida e ela se torne um indivíduo saudável e capaz de seguir em frente dependendo apenas de si mesma enquanto indivíduo. Porém, se seus pais (estado) fazem de suas necessidades apenas direitos, essa criança estará sempre dependente e alguém terá que bancar uma estrutura para mantê-la em sociedade, já que não consegue sequer suprir ela mesma sua necessidade, assim é um deficiente. Este erro vemos várias famílias cometendo com seus membros. No campo sociopolítico, se cometido, cria-se uma sociedade de deficientes em que o estado deve então mantê-los, e como sempre, alguém paga pela estrutura que agora tornou-se necessária, já que os cidadãos não são indivíduos com sua devida autonomia, liberdade e por fim, independência. Outro problema, maior ainda é quando aqueles que estão para garantir que sejam supridas as necessidades da sociedade, também foram formados com deficiência.- como está escrito nas escrituras : Como pode um cego, guiar outro cego? - por certo, cairão os dois num buraco, buraco esse que podemos chamar de ignorância, mãe da corrupção e todos os males. Em resumo, quando nos colocamos em um estado em que até para ver suprir nossas necessidades precisamos de alguém ou de algo, como um cuidador ou uma muleta, então isso deixa claro que somos deficientes, pois é assim que os deficientes vivem. Em síntese, quando colocamos nossa capacidade de suprir nossas necessidades nas mãos de quem quer que seja e não assumimos nosso protagonismo na vida, nos tornamos deficientes no básico e somos enganados pela zona de conforto, mas isso tem um preço muito alto: A dependência… Uma vez dependentes, seremos escravizados no pior nível possível, que é o mental. Este é o campo onde as ideologias tomam o controle do intelecto e nos torna incapazes de raciocinar sobre qual posição estamos e a que distância do ideal, ou seja, que somos nesse caso, deficientes… Então o estado nos oferece uma “Solução” Suprir nossas necessidades, e o preço? Nossa dignidade. Como sempre, em meus textos, não tenho a intenção de propor nenhuma solução de cunho revolucionário, mas de levantar uma reflexão para que a partir de dentro possamos achar um. caminho humano, que lembro ser a imagem e semelhança de Deus, que nos coloque novamente (se um dia estivemos) no caminho da suficiência, e um bom começo será buscar conhecimento e cidadania. Leiam: Escolham suas armas e deixe seu legado!! Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Setembro - A verdade que liberta

    Setembro chega como um chamado inadiável. Não é apenas mais um mês no calendário político; é o mês em que o país precisa encarar, com firmeza, uma verdade que já não pode ser empurrada para debaixo do tapete. As eleições se aproximam. E começa a surgir novamente a fomentação da divisão da sociedade. As chamadas minorias não pertencem automaticamente a nenhum lado político. Não são propriedades ideológica, não são instrumentos de narrativa, não são identidades capturadas por discursos prontos. São cidadãos plenos, conscientes, diversos, dignos e absolutamente capazes de decidir seus caminhos sem tutela de ninguém. Por muito tempo, tentaram impor ao Brasil a ideia de que determinados grupos estariam inevitavelmente alinhados a uma única visão política. Tentaram reduzir trabalhadores, famílias mais pobres, pessoas negras, mulheres, idosos, jovens e tantos outros a categorias fixas, como se a pluralidade humana pudesse ser encaixada em moldes ideológicos. Como se suas histórias, suas lutas e suas conquistas fossem ferramentas de propaganda. Como se a vulnerabilidade fosse um troféu eleitoral a ser exibido em palanques. Mas setembro chega para afirmar, com firmeza, que essa visão não se sustenta mais. Os brasileiros despertaram. E despertaram conscientes, atentos e indignados com a tentativa de aprisionar suas identidades dentro de fronteiras políticas que não representam suas vidas. Assim como a sirene da madrugada revelou que nem todos acordam ao mesmo tempo, agora percebemos que muitos dos que eram tratados como massa silenciosa já estavam atentos há muito tempo. Eles enxergam o país com clareza. Eles percebem quando a verdade é distorcida. Eles sentem quando a moral pública se fragiliza. Eles reconhecem quando suas histórias são usadas para justificar agendas que não refletem suas realidades. E é justamente por isso que tantos dos chamados minoritários caminham para a direita: não por alienação, mas por lucidez. Não por manipulação, mas por consciência. Não por cegueira, mas por responsabilidade. O ser humano é pluralidade, e essa pluralidade não cabe em rótulos ideológicos. O trabalhador que acorda cedo quer segurança, respeito, liberdade e oportunidades reais. A mãe que sustenta sua casa quer proteção para seus filhos e estabilidade para sua família. O idoso que carrega a memória do país quer dignidade e respeito. O jovem que busca futuro quer liberdade para construir sua história. A pessoa com deficiência quer autonomia e reconhecimento. E todos eles sabem que esses valores não pertencem a um lado político específico; pertencem à vida. A direita não exclui. A direita não determina quem pertence ou não pertence. A direita não fecha portas. Ao contrário, ela afirma que cada indivíduo é livre para escolher seus valores, sua fé, sua visão de país. Ela reconhece que a dignidade humana é inegociável e que ninguém deve ser reduzido a categoria política. Ela entende que ordem, responsabilidade, família, fé, liberdade e segurança são princípios que servem a todos, independentemente de origem, identidade ou condição social. A direita não reivindica posse sobre ninguém; ela reivindica respeito à liberdade de cada um. Setembro é o mês da consciência firme. É o mês em que os brasileiros levantam a cabeça e afirmam, com clareza, que não são propriedade de ninguém. É o mês em que o país precisa reconhecer que a pluralidade humana é maior do que qualquer narrativa ideológica. É o mês em que aqueles que sempre foram tratados como massa silenciosa mostram que têm voz e que essa voz não será sequestrada. A Bíblia nos chama à vigilância: “Desperta, tu que dormes.” E quem desperta agora são justamente aqueles que mais sentiram os efeitos da desordem, da insegurança, da relativização da verdade e da corrosão moral que começa no jeitinho e termina em escândalos. Eles despertam porque sabem que o país que teremos em 2027 começa na coragem de romper com rótulos e assumir a própria consciência. Os brasileiros não estão cegos por escolher a direita. Estão despertos. Estão atentos. Estão cansados de serem usados. Estão indignados com a manipulação. Estão prontos para defender valores que não mudam com o vento. Estão prontos para assumir a responsabilidade moral que muitos tentaram tirar deles. Setembro é o mês em que o país finalmente entende que as chamadas minorias nunca foram minoria em consciência. E que, quando a sirene da verdade toca, são justamente esses os que se levantam primeiro. Leiam: ENTRE O ALERTA E A ESCOLHA Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867

  • ENTRE O ALERTA E A ESCOLHA

    O mês em que o país começa a decidir quem deseja ser Agosto costuma ser um mês silencioso. Não tem o frenesi do início do ano, nem a urgência de dezembro. Mas, em 2026, ele chega carregado de um significado especial. Depois das reflexões de “Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil!” e “Quando a Sirene Tocar”, torna-se impossível atravessar este mês sem perceber que estamos sendo conduzidos a um ponto de decisão; não apenas política, mas moral e espiritual. Refletimos sobre o jeitinho: essa prática aparentemente inofensiva que, quando normalizada, corrói a integridade coletiva e prepara o terreno para escândalos maiores. Depois, fomos surpreendidos pela sirene da madrugada, um alerta hackeado que, embora tecnicamente falso, expôs uma verdade profunda: nem todos despertam ao mesmo tempo, nem todos percebem os sinais, nem todos têm ouvidos atentos. Até agora, o país caminhou por dois momentos: o da consciência e o do despertar; e se aproxima de um terceiro: o da escolha. A maturidade de um povo se revela antes do voto. O processo eleitoral não começa em outubro. Ele começa muito antes, quando cada cidadão é convidado a refletir sobre o tipo de sociedade que deseja construir. O voto é apenas o gesto final de uma decisão que se forma lentamente, no íntimo, ao longo de meses. Se no penúltimo artigo mostramos que a corrupção nasce no cotidiano, então agora somos obrigados a fazer a seguinte perguntar: Que valores estamos dispostos a levar para a urna? Se no último artigo percebemos que nem todos despertam ao mesmo alerta, então agora somos convidados a examinar se estamos realmente atentos; ou apenas seguindo o fluxo. O debate público costuma se concentrar em promessas, slogans e discursos. Mas a escolha de um representante não deveria começar pelo que ele diz, e sim pelo que ele é.Afinal, como lembrava a reflexão do penúltimo mês, “quem é injusto no pouco, também é injusto no muito”. Agora é o mês de olhar para além da propaganda. De observar atitudes, coerência, postura, histórico. De perguntar não apenas o que alguém promete, mas como alguém vive. Porque o voto não é apenas um instrumento político. É um espelho moral. A sirene em Junho nos ensinou que há alertas que ultrapassam o silencioso.E, espiritualmente, isso é ainda mais verdadeiro. A Bíblia nos chama à vigilância; não apenas para a vida eterna, mas para a vida presente: “Desperta, tu que dormes”, diz Efésios 5,14. Agora é a hora de despertar para a responsabilidade cívica. De perceber que a fé não se desconecta da vida pública. De entender que valores espirituais também moldam escolhas sociais. Não se trata de transformar política em religião, mas de reconhecer que ética, verdade e justiça são princípios que atravessam todas as esferas da existência. A escolha é uma semente O país que teremos em 2027 começa no voto de 2026. E o voto de 2026 começa na reflexão de agora. Agora é o mês de preparar o terreno. De ajustar a consciência. De confrontar incoerências. De abandonar o “jeitinho” e abraçar a integridade. De ouvir o alerta antes que seja tarde. Que tipo de líder desejamos? Que tipo de sociedade queremos? Que tipo de valores estamos dispostos a defender? Porque a escolha que faremos não será apenas sobre quem governará o país, mas sobre quem nós somos enquanto povo. E talvez essa seja a pergunta mais importante deste mês: Quando a sirene da consciência tocar, você estará desperto? Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Você é de Direita ou de Esquerda?

    A pergunta que dá título a este artigo é interessante. Ela serve como invocação mágica para retirar todos os mantos que encobrem a verdade oculta de cada pessoa. É como se pudéssemos definir uma pessoa com uma palavra. Vivemos obcecados por rótulos. Em conversas de bar, nas redes sociais ou em debates eleitorais, a pergunta surge quase como um teste de lealdade: "Você é de direita ou de esquerda?" Como se a complexidade da condição humana, com suas contradições, valores, crenças e interesses, pudesse ser reduzida a dois grandes times ideológicos. Essa classificação, entretanto, tem uma origem histórica bastante específica e razoavelmente conhecida. Durante a c, em 1789, na Assembleia Nacional Constituinte, os deputados favoráveis à preservação de maiores prerrogativas para o rei sentavam-se à direita do presidente da Assembleia, enquanto aqueles que defendiam mudanças mais profundas ocupavam os assentos à esquerda. Uma disposição física acabou transformando-se em linguagem política. As divergências entre tradição e mudança, liberdade e autoridade, igualdade e hierarquia, contudo, são muito anteriores à Revolução Francesa. O que ocorreu em 1789 foi a cristalização dessas tensões em uma classificação espacial que, ao longo dos séculos seguintes, passou a organizar partidos, movimentos e identidades políticas. A divisão entre direita e esquerda deixou de apenas descrever divergências para também influenciar a forma como elas passaram a ser percebidas. Um instrumento criado para classificar a realidade política acabou, pouco a pouco, contribuindo para moldá-la. Toda classificação é útil enquanto amplia nossa compreensão da realidade. Quando passa a ocultar mais diferenças do que revela semelhanças, transforma-se de instrumento de análise em obstáculo ao conhecimento. É justamente esse o problema da tradicional divisão entre direita e esquerda. Mais do que simplificar a realidade, ela induz à falsa impressão de que posições econômicas, religiosas, filosóficas, morais e culturais cabem no mesmo pacote simbólico. O resultado é que socialistas e capitalistas, progressistas e conservadores, ateus e crentes, pró-vida e defensores do aborto, pacifistas e armamentistas, reacionários, libertários e tantas outras correntes acabam comprimidos em apenas dois grandes campos. A própria pergunta "você é de direita ou de esquerda?" já pressupõe que todas essas categorias caminham necessariamente juntas, quando, na realidade, pertencem a dimensões distintas da experiência política e humana. A falta de clareza conceitual produz contradições evidentes. Um cristão socialista que defende a propriedade coletiva ou forte intervenção estatal em nome do Evangelho é colocado no mesmo campo de ateus materialistas que consideram a religião um instrumento de dominação, mas que ao mesmo tempo defendem uma forte atuação no social. No lado oposto, um defensor da economia liberal pode defender forte presença estatal em questões de segurança pública, imigração ou costumes, combinando liberalismo econômico com conservadorismo cultural. Essas aparentes incoerências não são exceções. Tornaram-se a regra desde que se passou a tratar a política como um único eixo de classificação. A diversidade (e a contradição) dentro dos campos No espectro da direita, o leque é amplo e frequentemente conflituoso. Liberais clássicos e libertários defendem o livre mercado, a propriedade privada, a limitação do poder estatal e forte ênfase nas liberdades individuais. Anarcocapitalistas desejam levar o individualismo e o liberalismo às últimas consequências. Conservadores culturais priorizam a família, a religião, as tradições históricas e a soberania nacional. Reacionários vão além: rejeitam não apenas o progressismo contemporâneo, mas também aspectos centrais da própria modernidade liberal-democrática, desejando restaurar modelos políticos e sociais não democráticos, como o regime militar; outros ainda sonham com o retorno da monarquia. Há quem defenda o casamento homoafetivo por entendê-lo como consequência natural da liberdade individual e, simultaneamente, se oponha às quotas raciais ou à ideologia de gênero nas escolas. Cristãos sociais admitem o aborto em circunstâncias específicas, mas rejeitam o estatismo econômico. Armamentistas consideram o porte de armas uma extensão do direito à legítima defesa, enquanto pacifistas cristãos sustentam a não violência como princípio moral absoluto. Céus!!! Tudo isso ocorre no seio da direita brasileira, uma torre de Babel de ideologias políticas. Do lado da esquerda, a heterogeneidade é igualmente evidente. Socialistas revolucionários, socialistas democráticos, social-democratas, progressistas liberais, sindicalistas tradicionais, ambientalistas radicais e movimentos identitários convivem sob o mesmo rótulo, embora proponham projetos bastante distintos. Alguns defendem ampla socialização da economia; outros aceitam plenamente o capitalismo, desde que fortemente regulado. Há ainda correntes minoritárias, como determinados libertários de esquerda, que procuram conciliar amplas liberdades individuais com críticas às desigualdades econômicas e apoio a pautas progressistas. Ateus materialistas convivem com religiosos progressistas que reinterpretam a fé sob a ótica da Teologia da Libertação. Também existem, em algumas franjas nacionalistas ou reacionárias em ambos espectros políticos, correntes com viés antissemita. Entretanto, tais posições contradizem os próprios fundamentos que afirmam defender. Um conservadorismo baseado na tradição judaico-cristã dificilmente encontra sustentação doutrinária para o antissemitismo. Frequentemente associadas à confusão entre críticas ao Estado de Israel e hostilidade ao povo judeu, trata-se muito mais de uma deformação ideológica do que de consequência lógica de seus princípios. Observados lado a lado, esses exemplos revelam um problema fundamental: categorias econômicas, religiosas, morais, filosóficas e culturais passaram a ser tratadas como se pertencessem a uma única classificação política. O resultado são dois grandes blocos internamente heterogêneos, nos quais convivem posições frequentemente incompatíveis entre si. A captura de pautas pela esquerda Para compreender essa grande confusão conceitual que chamamos genericamente de “direita e esquerda”, precisamos entender um movimento lento, na maioria das vezes discreto, posto em prática com disciplina monástica ao longo das últimas décadas, que foi a associação progressiva de determinadas causas à esquerda cultural e política. Defesa das mulheres, proteção aos trabalhadores, causas sociais, direitos das minorias, ambientalismo, direitos humanos e igualdade passaram a ser percebidos, no imaginário coletivo, como patrimônios naturais de um único campo ideológico. A consequência foi a criação de uma espécie de monopólio moral dessas pautas. Essa associação produziu um efeito importante no debate público. Gradativamente, passou-se a confundir críticas a determinadas políticas ou interpretações com oposição aos próprios valores que elas alegam representar. Em outras palavras, deixou-se de discutir como defender certos princípios para discutir quem teria legitimidade para defendê-los. Os exemplos são numerosos A defesa da mulher passou a ser frequentemente identificada com determinadas correntes do feminismo contemporâneo e com postulados específicos da terceira e quarta ondas feministas. Questionar políticas relacionadas ao esporte feminino, ao sistema prisional, aos critérios biológicos ou a determinadas abordagens educacionais passou, muitas vezes, a ser interpretado como demonstração de misoginia, ainda que a crítica recaia sobre soluções concretas, e não sobre a dignidade ou os direitos das mulheres. As causas sociais e das minorias também passaram a ser enquadradas predominantemente sob uma lógica identitária. Quem critica o multiculturalismo sem assimilação, políticas públicas baseadas em identidade ou determinados aspectos do ativismo LGBT frequentemente é acusado de racismo, xenofobia ou homofobia, mesmo quando defende a igualdade jurídica de todos os cidadãos perante a lei. A defesa dos trabalhadores tornou-se amplamente associada ao sindicalismo e ao intervencionismo estatal. Em consequência, propostas fundamentadas no crescimento econômico, na liberdade de empreender, na redução da burocracia, na qualificação profissional ou no fortalecimento da atividade privada passaram a ser apresentadas como necessariamente contrárias aos interesses dos mais pobres, ignorando que diferentes tradições econômicas oferecem caminhos distintos para enfrentar a pobreza e ampliar a prosperidade. O próprio conceito de igualdade sofreu uma transformação significativa. A igualdade liberal clássica — igualdade perante a lei — foi gradativamente substituída, em muitos discursos, pela ideia de igualdade de resultados, legitimando políticas de discriminação compensatória, sistemas de quotas e diferentes formas de engenharia social. Quem permanece defendendo a igualdade jurídica passa, por vezes, a ser acusado de insensibilidade social justamente por sustentar o conceito histórico que deu origem ao constitucionalismo liberal moderno. Até pautas como ambientalismo e direitos humanos passaram, em muitos contextos, a ser tratadas como bandeiras exclusivas da esquerda. Dessa forma, críticas a determinadas soluções estatistas, à instrumentalização política de agendas ambientais ou à seletividade na defesa dos direitos humanos frequentemente são apresentadas como demonstrações de negacionismo ou de indiferença ética, quando muitas vezes representam apenas divergências quanto aos meios empregados. Essa captura simbólica produz um efeito perverso sobre o debate democrático. Em vez de discutir propostas, discutem-se identidades. Em vez de avaliar políticas públicas por seus resultados, julgam-se pessoas pelo campo ideológico ao qual supostamente pertencem. O debate racional cede espaço à disputa por superioridade moral. Entretanto, seria intelectualmente desonesto atribuir esse problema exclusivamente à esquerda. Em determinados setores da direita, especialmente nas correntes liberais mais radicais e em parte do libertarianismo, observa-se fenômeno semelhante, embora em direção oposta. A defesa da liberdade individual, princípio indispensável às sociedades livres, pode transformar-se em um individualismo absoluto, capaz de minimizar a importância da família, das comunidades, da solidariedade espontânea e dos deveres cívicos. Quando elevada à condição de valor único, a liberdade pode deixar de dialogar com outras dimensões da vida social e passa a oferecer respostas simplificadas para problemas cuja solução exige cooperação, confiança mútua e responsabilidade compartilhada. Assim como a esquerda corre o risco de transformar causas legítimas em projetos ideológicos abrangentes, determinados setores da direita correm o risco de absolutizar princípios igualmente legítimos. Em ambos os casos, a realidade deixa de ser observada em toda a sua complexidade para ser interpretada a partir de um único valor organizador. Como diria uma conhecida comentarista: “Por que a binariedade é prejudicial? Entenda…” A classificação dos cidadãos em apenas dois grandes campos não constitui mera simplificação didática. Ao longo do tempo, ela passou a influenciar a própria forma como partidos políticos, meios de comunicação, movimentos sociais e eleitores compreendem a realidade. O mapa deixou de apenas representar o território; passou também a moldá-lo. Esse processo favorece a formação de grandes coalizões eleitorais compostas por grupos que compartilham poucos princípios fundamentais, mas permanecem unidos em razão da oposição ao campo adversário. A identidade política deixa de ser construída pela coerência interna das ideias e passa a depender, sobretudo, da existência de um adversário em comum. Entretanto, se serve de consolo, o fato não é novo. Nos anos 60 do século passado, setores da chamada direita se uniram a tradicionais adversários de esquerda contra um mesmo adversário: os militares de 1964. Não surpreende, portanto, que partidos frequentemente apresentados como adversários irreconciliáveis revelem, quando analisados com maior profundidade, diferenças menores do que seus discursos sugerem. Divergem em temas importantes, sem dúvida, mas frequentemente compartilham estruturas semelhantes de organização, estratégias de poder e concepções bastante próximas sobre diversos aspectos da atuação estatal. A lógica binária tende a ampliar diferenças secundárias e obscurecer convergências relevantes. “Nada se assemelha mais a um ‘Saquarema’ (conservador) que um ‘Luzia’ (liberal) no poder” (Antônio de Paula Holanda Cavalcanti - Político pernambucano do Segundo Reinado. O cidadão comum acaba sendo induzido a escolher um lado antes mesmo de examinar os argumentos. A fidelidade ao grupo frequentemente substitui o exame crítico das propostas. Contradições internas passam a ser toleradas porque a identidade tribal torna-se mais importante do que a coerência filosófica. Uma abordagem intelectualmente mais honesta exige abandonar a bipolaridade. A realidade é multidimensional. Um indivíduo pode defender liberdade econômica, conservadorismo moral, descentralização administrativa, preservação ambiental, garantias individuais e responsabilidade fiscal sem que essas posições o transformem em representante coerente de qualquer dos dois grandes campos tradicionais. Mais importante do que perguntar "de que lado você está?" é perguntar quais princípios orientam determinada proposta, quais evidências a sustentam e quais consequências práticas ela tende a produzir. O debate político amadurece quando deixa de girar em torno de identidades coletivas e passa a concentrar-se na qualidade dos argumentos. A disposição circunstancial dos assentos de uma assembleia revolucionária francesa, há mais de dois séculos, acabou tornando-se um dos principais filtros pelos quais o Ocidente aprendeu a interpretar a política. Talvez tenha servido ao seu tempo. Hoje, porém, esse filtro frequentemente oculta mais do que revela. A classificação deixou de ser apenas uma forma de compreender a realidade e passou a influenciar a própria maneira como ela é organizada. Talvez seja justamente por isso que tantos cidadãos tenham a impressão de que mudam os partidos, alternam-se os governos, renovam-se os discursos, mas certas estruturas permanecem surpreendentemente semelhantes. Enquanto continuarmos presos a uma dicotomia que reduz a complexidade da vida política a dois grandes blocos, permaneceremos discutindo rótulos quando deveríamos discutir ideias. A pergunta inicial, portanto, talvez revele mais sobre as limitações da própria classificação do que sobre quem a responde. Para muitos cidadãos, a resposta mais honesta poderá ser simplesmente esta: não me identifico com um rótulo; tenho meus princípios e valores, procuro avaliar cada ideia à luz dos princípios e valores compatíveis com os meus, de suas evidências e de suas consequências. Isso não representa indecisão política. Representa coerência intelectual. Leia também: O correio da liberdade Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867

  • A problemática da perpetuação do assistencialismo

    “Nunca deixará de haver pobres na terra…” (Deuteronômio 15.11) “Quanto aos pobres, vós sempre os tereis convosco…” (João 12.8) No mundo sempre existirão dois tipos de pessoas: os ricos e pobres, independente do por quê essas pessoas o são. Esta é a segunda realidade incontestável (a primeira é a morte). E ajudar aos necessitados sempre foi algo presente em nosso cotidiano. E foi se utilizando desta realidade que a ala progressista inventou o assistencialismo, que é diferente da caridade. Esta é quando eu ajudo ao próximo com o meu dinheiro; àquele é quando eu quero fazer isso com o dinheiro dos outros. A própria Bíblia nos mostra um exemplo interessante sobre isso: “Então, Maria pegou uma litra. Isto é, cerca de 0,5 litro. de nardo puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos. E toda a casa se encheu com a fragrância do perfume. Entretanto, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde iria traí-lo, objetou: Por que este perfume não foi vendido e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários. O denário era uma moeda de prata equivalente à diária de um trabalhador braçal. Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era ladrão e, sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era colocado.” (João 12:3-6) Nosso Senhor Jesus Cristo explicou exatamente como funciona a mente dos assistencialistas: eles mesmos não “colocam a mão no bolso”, como falamos popularmente, mas querem que outros o façam. E não por amor legítimo, mas para que, de alguma forma, este valor seja desviado. O atual ditado afirma que “se tem placa, tem história”. No caso, Jesus colocou a “placa” antes do acontecido. Os Estados Unidos, terra da liberdade, já sofreu com severas privações, especialmente no período da Grande Depressão. Ela foi a maior crise econômica do século XX e teve início em 1929, nos Estados Unidos, espalhando-se rapidamente para diversos países. Ela não foi causada por um único fator, mas por uma combinação de problemas econômicos e financeiros que se acumularam durante a década de 1920. Após a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), os Estados Unidos viveram um período de forte crescimento econômico, conhecido como os "Loucos Anos 20". A produção industrial aumentou, o consumo cresceu e milhões de pessoas passaram a investir na Bolsa de Valores de Nova York. Muitos investidores compravam ações com dinheiro emprestado, acreditando que os preços continuariam subindo indefinidamente. Esse movimento criou uma bolha especulativa, em que o valor das ações crescia muito mais rápido do que o desempenho real das empresas. Enquanto as fábricas produziam cada vez mais bens, os salários não cresceram no mesmo ritmo. Isso fez com que a capacidade de consumo da população começasse a diminuir. Ao mesmo tempo, agricultores enfrentavam dificuldades devido à queda dos preços agrícolas e ao excesso de produção. Com estoques elevados e demanda insuficiente, empresas passaram a reduzir investimentos e demitir trabalhadores. O ponto de ruptura ocorreu em 24 de outubro de 1929, conhecido como "Quinta-feira Negra" (Black Thursday), quando milhares de investidores correram para vender suas ações. Nos dias seguintes, as perdas se intensificaram, culminando no "Black Tuesday", em 29 de outubro de 1929, quando milhões de ações foram vendidas em pânico, provocando um colapso no mercado financeiro. Com a queda da Bolsa, muitos bancos perderam grande parte de seus recursos, pois haviam financiado investimentos especulativos ou aplicado diretamente no mercado de ações. Sem confiança no sistema financeiro, milhares de pessoas correram para sacar suas economias. Como os bancos não possuíam dinheiro suficiente para atender todos os clientes, centenas deles quebraram. Sem crédito e com a economia em retração, empresas fecharam ou reduziram drasticamente suas operações. Entre 1929 e 1933, a produção industrial americana caiu cerca de 47%, o PIB dos Estados Unidos encolheu aproximadamente 30% e o desemprego chegou a cerca de 25% da força de trabalho, atingindo cerca de 13 milhões de pessoas. A Grande Depressão revelou que crises econômicas profundas poderiam deixar milhões de pessoas sem emprego, renda e acesso a necessidades básicas. É aqui que se inicia a saga assistencialista. O New Deal (em português, novo acordo ou novo contrato) foi uma série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, além de auxiliar os prejudicados pela Grande Depressão. O New Deal foi dividido em duas etapas: na primeira, foram elaboraradas uma série de políticas públicas em torno de 3 'Rs': Relief, Recovery, Reform (Alívio, Recuperação e Reforma). O Estado, portanto, agiria em vias de aliviar a situação financeira de setores mais afetados pela crise econômica, como os agricultores e jovens desempregados por meio de programas imediatos de auxílio (Relief); tentaria recuperar o crescimento econômico através de políticas para reorganizar e equilibrar o orçamento do Estado e exercer um maior controle sobre o sistema bancário americano (Recovery); e criaria reformas políticas que promovessem um maior bem-estar e segurança para a população no longo prazo, assim tentando garantir a continuidade do crescimento econômico do país no futuro (Reform). Além disso, o governo federal procurou reorganizar os setores agrícola e industrial com maior controle estatal fixando preços, destruindo estoques de gêneros agrícolas, estabelecendo metas específicas de produção para evitar outra crise superprodutiva e assumindo a responsabilidade pela comercialização das commodities. Já o segundo New Deal agiu de modo distinto: enquanto que no primeiro, um grupo de economistas tentava realizar ações em parceria com o setor privado, no segundo houve uma “guerra” contra o empresariado. Thomas Corcoran, Thurman Arnold, Henry Wallace e Leon Handerson formaram o conselho progressista que direcionou o governo a agir como regulador e articulador da economia do país. Não há um consenso total sobre se o New Deal realmente atingiu todos os seus objetivos. Sua principal meta quando foi implementado era retirar o país da Grande Depressão e colocá-lo de volta no caminho da prosperidade. Durante o período do New Deal, de fato, a economia americana se fortaleceu e cresceu, mas os problemas internos (como a pobreza e a desigualdade) prosseguiam. Críticos afirmam que foi na verdade a Segunda Guerra Mundial que reergueu a economia nacional, puxando a produção industrial e o desenvolvimento. Nas décadas seguintes, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos experimentaram um longo período de crescimento econômico. No entanto, esse crescimento não alcançou a todos as camadas da população. Em janeiro de 1964, durante seu discurso sobre o Estado da União, o presidente Lyndon B. Johnson declarou uma "guerra incondicional contra a pobreza" ("unconditional war on poverty"). A iniciativa fazia parte de um projeto mais amplo chamado Great Society, que buscava reduzir desigualdades e ampliar oportunidades por meio de políticas públicas. Johnson defendia que o crescimento econômico, por si só, não seria suficiente para eliminar a pobreza. Era necessário investir em educação, saúde, qualificação profissional e assistência às famílias de baixa renda. O principal critério para receber os benefícios era a renda familiar. Em 1964, o governo federal passou a utilizar uma linha oficial de pobreza, calculada com base no custo de uma alimentação mínima e multiplicada por um fator que representava outras despesas básicas da família. Famílias cuja renda ficasse abaixo desse limite eram consideradas elegíveis para diversos programas. Além da renda, alguns programas tinham requisitos específicos. Head Start: destinado a crianças em idade pré-escolar de famílias de baixa renda. Job Corps: voltado para jovens entre 16 e 21 anos (posteriormente ampliado), desempregados ou em situação de vulnerabilidade. VISTA: não era um benefício financeiro para famílias, mas um programa de voluntariado para atuar em comunidades pobres. Medicaid: exigia baixa renda e pertencer a determinados grupos, como crianças, gestantes, idosos ou pessoas com deficiência (as regras variavam entre os estados). Programas de alimentação: normalmente exigiam renda abaixo dos limites estabelecidos pelo governo federal. Com o passar dos anos, os programas assistencialistas governamentais aumentaram e expandiram seu alcance, especialmente a partir de 2009. O American Recovery and Reinvestment Act (ARRA) foi um pacote de estímulo econômico sancionado pelo presidente democrata Barack Obama. Seu objetivo era conter os efeitos da Grande Recessão de 2008. A lógica do programa era simples: se empresas e consumidores estavam reduzindo gastos, o governo deveria aumentar seus próprios investimentos para estimular a economia. E se estado não gera riqueza, com que dinheiro o governo faria isso? Com o pacote, o governo também ampliou diversos programas sociais, entre eles: seguro-desemprego; cupons de alimentação (Supplemental Nutrition Assistance Program – SNAP); auxílio aos estados para manter escolas e hospitais funcionando; recursos adicionais para o Medicaid. Atualmente, quando se somam os programas assistencialistas federais (como SNAP, seguro-desemprego, assistência a famílias, benefícios para pessoas com deficiência de baixa renda e outros), o Congressional Budget Office (CBO) projeta despesas em torno de US$ 389 bilhões em 2026. Esse número não inclui o Medicaid nem o Medicare, que aparecem separadamente nas contas do orçamento federal. Somando tudo, o gasto anual ultrapassa facilmente US$ 2 trilhões. Quando Lyndon B. Johnson lançou a “Guerra contra a Pobreza”, em 1964, cerca de 19% da população americana vivia abaixo da linha oficial de pobreza. Hoje, um em cada quatro americanos depende de uma forma de assistencialismo. Ou seja, a longo prazo, a “ajuda” do governo não diminui a pobreza e aumenta a dependência. E pior: para continuar a receber, muitos dão o tal “jeitinho”. Jesus colocou a “placa” antes do ocorrido, lembra? Lisa Conyers é uma autora que se dedica a analisar a relação entre políticas econômicas e seus impactos na vida real. Seu trabalho concentra-se principalmente nos gastos públicos estaduais e federais, oferecendo análises de políticas e recomendações de reforma. Ela também aplica sua expertise a temas como assistência social, comércio e políticas regulatórias, focando em subsídios fiscais (estaduais e federais), questões de zoneamento e políticas tributárias e bancárias. Além disso, Ela atua como consultora em filmes e documentários sobre economia e livre mercado. Lisa é formada em Estudos Americanos, possui mestrado em Gestão e atua como assistente jurídica. Ela escreveu uma colaboração para a obra “Constituição da Liberdade”, de Tom G. Palmer, tratando justamente do tema assistencialismo. E para quem pensava que o “jeitinho” é “coisa nossa”, os americanos também o possuem. Em seu texto, Lisa relatou que, visitando uma jovem em Atlanta, que lhe fez o seguinte depoimento: para continuar recebendo o benefício do governo, deveria provar que o bebê, que havia acabado de nascer, era seu filho. Isso porque era comum mulheres se utilizarem de crianças alheias para prolongar o auxílio do governo. Outro ponto é o uso do benefício para aquisição de drogas, sejam lícitas ou não. Alguns estados americanos exigem que aqueles que recebem auxílios façam teste de drogas. O estado da Flórida foi mais além ao requerer que os próprios beneficiários paguem o teste. No Brasil, alguns benefícios governamentais foram unificados no Bolsa Família, programa federal brasileiro de transferência direta de renda (ou seja, dos pagadores de impostos) destinado a famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. Seu objetivo deveria ser, em tese, complementar a renda dessas famílias, reduzir a insegurança alimentar e ampliar o acesso a serviços básicos, como saúde e educação. O programa foi instituído pela Lei nº 10.836, de 9 de janeiro de 2004, durante o primeiro mandato de Lula. Na prática, começou a operar em outubro de 2003, por meio de medida provisória, unificando iniciativas federais já existentes – Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Vale Gás e Cartão Alimentação. Atualmente, o programa é destinado a famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) que atendam aos critérios de renda definidos pelo governo federal. Além da renda, o programa considera a composição familiar, como a presença de crianças, adolescentes, gestantes e lactantes. Desde a reformulação do programa em 2023, ele passou a prever, entre outros componentes: valor mínimo por família; adicional por criança de até seis anos; adicional por crianças e adolescentes entre sete e dezoito anos incompletos; adicional para gestantes; adicional para lactantes O benefício possui condições para que continue sendo pago. Para o governo federal, o Bolsa Família busca: reduzir a pobreza e a extrema pobreza; combater a fome; promover a segurança alimentar; ampliar o acesso à saúde e à educação; favorecer a inclusão social. Agora, vejamos o mais importante: o programa atende atualmente cerca de 20 milhões de famílias, alcançando aproximadamente 53 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de um quarto da população brasileira. Contudo, em 2003, 3,6 milhões de pessoas recebiam o benefício. Houve um aumento de cerca de 16 milhões de famílias, ou aproximadamente 444% em relação ao início do programa. Então, aumentou o número de pobres e miseráveis? Ou o que aumentou foi o número de pessoas DEPENDENTES do programa? Em fevereiro de 2025, a CNN publicou uma matéria denominada “Bolsa Família, uma emergência de 20 anos”. Observem esta fala de Paulo Tafner, presidente do Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS): "O fato é que a economia brasileira não teve o desempenho razoável para tirar a gente estruturalmente da pobreza. A melhor forma de tirar as pessoas da pobreza é a geração de emprego”. seja, por melhor boa vontade que se tenha, o fato é que a perpetuação do assistencialismo não resolve o problema econômico e social na sua raiz. Agora, um ponto importante: foi no GOVERNO DE JAIR BOLSONARO que houve uma pequena mudança: “Fabio Giambiagi, economista e pesquisador do FGV/Ibre, ressalta que, ao comparar os períodos de 2019 e 2023, ‘todos os indicadores são unânimes ao mostrar que houve uma redução muito significativa do grau de pobreza e miséria’, destacando sobretudo a renda média no país e o momento do mercado de trabalho”. Quando há o fomento de empregos – e diminuição de impostos, principalmente – existe a possibilidade de ascensão econômica. Porém, atualmente, o movimento está em sentido oposto: pessoas estão saindo de seus empregos para depender do benefício. A matéria “Beneficiários do Bolsa Família saem do emprego para receber auxílio? Veja o que dizem especialistas”, publicada no Terra, em julho de 2025, reflete isso. “O economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), que estuda o impacto da expansão do Bolsa Família no mercado de trabalho, afirma que, antes de 2020, o programa não tinha nenhum efeito negativo nos empregos e, inclusive, ajudava o acesso ao trabalho para mulheres e mães. Porém, segundo ele, o cenário mudou nos últimos anos. ‘Com a nova configuração do Bolsa Família, em que o benefício mais que dobrou, começamos a ver evidências de que o programa tem reduzido a participação no mercado de trabalho’, pontuou”. Lisa Conyers, ao realizar suas pesquisas de campo, descobriu que beneficiários (nem todos, importante ressaltar) gastavam parte ou quase todo o valor em vícios de toda sorte. E com o Bolsa Família, infelizmente, não é diferente. A matéria “O que se sabe sobre o uso do Bolsa Família para compra de drogas”, publicada pelo jornal Gazeta do Povo em junho deste ano mostra que existe desvio de finalidade da quantia feita por uma parte dos beneficiários. “Casos recentes registrados por autoridades mostram que cartões e recursos do Bolsa Família aparecem com frequência em ocorrências ligadas à compra de drogas e ao tráfico. O tema voltou ao debate público depois de uma audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, realizada em 9 de junho, que tratou de denúncias de retenção de cartões do programa por traficantes em troca da entrega de entorpecentes a moradores de rua beneficiários do Bolsa Família”. Este não é um artigo que visa fomentar um levante contra o assistencialismo a fim de erradicá-lo. Eu entendo que há famílias deveras necessitadas, que morrerão à migua se não receberem o benefício. Porém, quando se trata uma ajuda, que alivia um sofrimento imediato, como um “direito”, existe a ideia de que isso deve ser feito para sempre. E, no tocante ao dinheiro, é sempre bom lembrar de que não existe almoço grátis. Leia também: Estudando o Fascismo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 68 edição de Julho de 2026 – ISSN 2764-3867

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