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  • O juízo que desejamos

    “Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja imparcial e ético” Cármen Lúcia, Ministra do Supremo Tribunal Federal. A frase poderia e deveria ser vista com naturalidade, em especial sendo proferida por um membro da mais alta Corte de um país que se apresenta como democrático, que alega prezar pelo devido processo penal como base inafastável para o exercício da função jurisdicional do Estado, todavia, boa parte dos brasileiros, reagiu em choque ao perceber que a imparcialidade do julgador importa quando o réu pertence ao grupo dos humanos que ainda parecem gozar dos direitos fundamentais que, para a mesma parte da população, foram subtraídos daqueles que não se associaram ao regime. Aqueles, outrora chamados de milhões de pequenos tiranos, também sonham com um mundo no qual não sejam julgados por alguém que os rotulara de tal forma, bem como, por juízes imparciais que não comemorem a derrota de um grupo político, que não sejam declaradamente filiados a uma ideologia que prega, sem cerimônias, o extermínio de opositores, como afirmado pelo Professor Elias Jabuor e outras tantas vozes revolucionárias, e, principalmente, por aqueles que se consideram vítimas daqueles a quem julga, posto que, naturalmente, se sentiriam inclinados a condenar seus supostos algozes, aplicando-lhes penas injustas e desproporcionais. Ser julgado por alguém ético e imparcial deveria ser uma garantia estendida a todos, entretanto, não são raros os julgamentos promovidos apenas para dar verniz de legalidade a uma vendeta promovida por detentores do poder. Na prática, estaríamos diante de um teatro feito para convencer os mais ignorantes de que há algo normal quando tudo o quê ocorre é a punição de um desafeto sem o devido processo legal. Espantoso, no entanto, é que um magistrado da mais alta corte do Poder Judiciário mencione o temor, injustificado, de ser julgado per um juízo inclinado, cogitando que tal aberração sequer ocorra. Diante do comentário, não podemos nos olvidar quanto ao fato de a chamada Justiça especializada ser, no mínimo, uma presença preocupante em nosso ordenamento jurídico, pois sua existência presume inclinação, portanto, o temor de que todo juízo alegado especializado seja um julgador parcial não deve ser ignorado. Se o legislador, acreditando que há um desequilíbrio natural entre as partes em um processo, como nos casos da legislação trabalhista ou consumerista, tenta equalizar tal relação através da norma, ao criar um juízo especializado, como a Justiça do Trabalho, faz com que a parte que recebeu menor proteção legal enfrenta um juízo tendencioso, que tem como missão tratar de forma díspar as partes, trazendo uma distorção quase invencível ao indivíduo que foi considerado privilegiado pelo legislador. Nos casos das relações trabalhistas e consumeristas, a lei deveria ser o suficiente para equilibrar a relação processual, entretanto, o juízo que vê o empregador como um déspota que explora a força de trabalho de forma abusiva como regra, parecendo um tribunal socialista, deveria causar estranheza quando, nem mesmo os juízes desejam um julgamento por alguém parcial. No direito consumerista, em que pese à legislação traga proteção especial ao consumidor, o juízo ordinário se torna uma oportunidade para que a parte menos favorecida por lei possa, apresentando argumentos plausíveis, convencer o julgador que a posição jurídica de vantagem o assiste. Não trataremos dos juizados de violência contra a mulher, uma vez que, a legislação já passível de críticas e com forte tendência a acirramento, trouxe o primeiro juízo criminal em que o réu recebe a pecha de presumidamente culpado. Qualquer homem diante de um juízo declaradamente feminista, que abraça os conceitos de tal ideologia sem qualquer pudor, uma vez que, se nega ao questionamento de suas narrativas, sabe que está diante de um juízo parcial, de maneira que, a súplica da Ministra Cármen Lúcia poderia, sem constrangimento, ser invocada por todo réu diante de tal órgão do Judiciário. Por outro lado, salta os olhos ver que, nosso ordenamento jurídico agasalha, sem cerimônias, as chamadas varas de fazenda pública, que julgam ações cuja Administração Pública figure como parte processual, de maneira que, além das proteções legais, sejam as cláusulas leoninas, que seriam consideradas abusivas caso impostas por particulares, e a primazia do interesse público, que deixa o poder estatal em flagrante vantagem, regras que privilegiam o lado mais forte da relação, as varas de fazenda pública trazem um juízo que facilmente visto como parcial e, no caso, antiético. O Estado cria as regras, admite que a Administração Pública imponha regras contratuais que, não fosse ela, seriam abusivas, impõe uma primazia sobre os particulares e, além das vantagens estabelecidas por lei, cria um juízo específico para viciá-lo. Ainda há quem defenda o chamado contencioso administrativo. Aos que não compreendem bem a necessidade de um juízo imparcial, já mencionamos o quão seria reprovável um árbitro de futebol que, ao final do jogo, se declara torcedor de um dos times. No entanto, parece que a deficiência cognitiva impede que boa parte veja, com ainda maior grau de reprobabilidade, que magistrados se declarem adeptos de determinadas ideologias ou inimigos declarados de um espectro político. O Judiciário parcial é contrário à sua própria essência, posto que, espera-se do juízo a equidistância necessária para que suas decisões não se maculem, logo, um juiz parcial é um fardo que a sociedade suporta pela imposição legal, em que pese tal figura seja imprestável, uma vez instituído por lei e arrogante demais para se reconhecer como algo que sequer deveria existir. Distante das vidas comuns, alguns juízes acabam ignorando seu dever de dizer o direito, se colocando como nobres parasitas que propagam sua ideologia doentia ou simplesmente repousam em seus tronos de privilégios. Por óbvio, há magistrados que estão imbuídos de sua missão e se desdobram para julgar com justiça e não com o fígado maculado por vícios ou paixões revolucionárias. Juízes não deveriam ser agentes da mudança, tampouco editores de uma nação, não há coragem em um juízo que se move, pois sua inércia é indispensável à legitimidade de seus julgamentos. Não se espera uma Justiça heroica, em verdade, a maior virtude de um julgador é se superar suas paixões humanas. O desejo da Ministra do Supremo Tribunal Federal não é algo único, na verdade, todo brasileiro tem o mesmo sonho e pede a Deus que nunca seja julgado por um juiz parcial ou antiético, entretanto, boa parte dos cidadãos teme que não ter a mesma sorte dos demais. Há brasileiros que se espiam como relegados, figuras que não têm direito ao tão desejado juízo imparcial, pois são chamados de pequenos tiranos ou adjetivados por termos abjetos seguidos do sufixo “ismo” que, segundo boa parte dos julgadores, devem ser extintos. Temendo “um bom paredão e uma boa cova” muitos dos milhões de pequenos tiranos clamam por uma Justiça imparcial e ética, mas, cada vez mais, percebem que as narrativas progressistas engoliram as mentes de seus julgadores. Promotorias e defensorias que defendem as autointituladas minorias perseguem abertamente os que se manifestam contra a ideologia que se denominou progressista, ao passo que, juízes agasalham teses de infundadas como a ideologia de gênero, o racismo estrutural e outras tantas farsas que criminalizam a consciência dos cidadãos. O clamor por uma Justiça na qual seus membros deixem suas ideologias de lado e reconheçam o mal que se tornou o chamado ativismo judicial, resulta dos desvios do Poder Judiciário que segue negando sua queda, apesar de evidente. A Revolução Francesa alegava combater os abusos da monarquia, limitando os poderes dos absolutistas. Ignorando todo o mal que emergiu em razão de tal movimento, verificamos que o poder dos reis precisava, de fato, de limitação, como ocorrera no Reino Unido com a Carta Magna, todavia, os revolucionários, que só queriam o trono para si, acabaram se tornando um mal maior que o monarca que derrubaram, por tal razão, tornou-se necessário limitar o legislativo, dando poderes ao Judiciário, cuja legitimidade decorria de sua natureza tecnocrata. O ativismo judicial matou a essência do Judiciário e a sociedade deverá impor limites a tal poder, até lá, nos resta pedir a Deus que sejamos julgados por juízes imparciais e éticos, ainda que tais figuras sejam cada vez mais raras. Leia o artigo anterior: Um baile sem máscaras Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Grande Irmão

    Vivemos um tempo em que a tecnologia promete onisciência, governos buscam onipresença e empresas tentam moldar comportamentos como se fossem capazes de ler almas. A vigilância digital, antes tema de ficção científica, tornou‑se parte da rotina. E, enquanto isso acontece, cresce um silêncio perigoso: o silêncio de uma sociedade que se acostumou a ser observada. Para quem tem fé, esse cenário deveria causar ainda mais inquietação. Afinal, desde quando aceitamos que máquinas e governos disputem o lugar que, na tradição religiosa, pertence apenas a Deus? A vigilância digital não é neutra. Ela nasce de decisões políticas, de interesses econômicos e de estruturas de poder que se expandem sem debate público. Quando governos e corporações acumulam dados sobre cada passo, cada busca, cada conversa, eles passam a exercer um tipo de controle que ultrapassa o campo administrativo e invade o campo moral. Em muitas tradições religiosas, a liberdade é vista como dom divino — condição para que o ser humano escolha o bem, construa sua consciência e desenvolva sua espiritualidade.  Mas como exercer liberdade quando cada gesto é monitorado, registrado e analisado? A vigilância constante não apenas limita ações; ela molda comportamentos.  E comportamento moldado não é liberdade, é condicionamento. Em 1984, George Orwell descreveu um Estado que vigiava seus cidadãos por meio das teletelas. O “Grande Irmão” era símbolo de um poder absoluto que não apenas observava, mas também julgava e punia. Hoje, não precisamos de um ditador para isso. Carregamos nossas próprias teletelas no bolso. A comparação é inevitável: 1984 vs. Mundo Atual   1. Vigilância - 1984: O Estado vigia todos por meio das teletelas.  - Atual: A vigilância é distribuída entre governos, empresas e até pessoas comuns — todos com celulares e redes sociais. 2. Controle - 1984: O controle é explícito, imposto por um regime totalitário.  - Atual: O controle é sutil, disfarçado de conveniência, segurança e personalização. 3. Censura - 1984: A censura é direta, oficial e violenta.  - Atual: A censura é social — feita por cancelamentos, julgamentos públicos e algoritmos que filtram o que vemos. 4. Doutrinação - 1984: A doutrinação é estatal, com propaganda e reescrita da história.  - Atual: A doutrinação é cultural, acelerada por crises como a pandemia, onde muitos foram condicionados a vigiar e punir o outro. 5. O Grande Irmão - 1984: É uma figura central, um líder absoluto.  - Atual: O “Grande Irmão” é difuso — está nos sistemas, nas plataformas, nos vizinhos, nos colegas, nos próprios usuários. 6. Liberdade - 1984: A liberdade é abolida.  - Atual: A liberdade é negociada, enfraquecida, trocada por conforto digital — e muitas vezes, abandonada voluntariamente. 7. Olhar - 1984: O olhar do Estado é opressor.  - Atual: O olhar da sociedade é normativo, moralista, vigilante — e muitas vezes, cruel. 8. Espiritualidade - 1984: A fé é proibida, o Estado é deus.  - Atual: A fé é tolerada, mas a tecnologia disputa o lugar do sagrado, oferecendo controle, previsibilidade e “salvação” digital. Orwell imaginou um governo que queria ser Deus. Hoje, empresas e sistemas querem ser oniscientes, onipresentes e onipotentes, atributos que, na fé cristã, pertencem apenas ao divino. Mas o novo “Grande Irmão” não está no governo, está ao nosso lado. A vigilância contemporânea não vem apenas de cima. Ela vem dos lados. Não é mais necessário um Estado totalitário para controlar comportamentos. A própria sociedade assumiu esse papel. Hoje, vizinhos vigiam vizinhos, colegas monitoram colegas, amigos fiscalizam amigos. E, pior: cancelam, julgam e punem sem que qualquer autoridade dê a ordem. A pandemia acelerou esse processo. Muitos foram doutrinados pelo medo, pela polarização e pela avalanche de informações. Outros se tornaram vigilantes morais, prontos para denunciar, expor e condenar quem não seguisse o comportamento considerado “correto”. O controle deixou de ser institucional e passou a ser cultural. O “Grande Irmão” não é mais um líder autoritário. É a própria multidão. E uma multidão doutrinada pode ser mais opressora do que qualquer governo. O olhar de Deus liberta; o olhar do algoritmo, e da multidão, aprisiona. Há uma diferença fundamental entre o olhar divino e o olhar tecnológico ou social. - O olhar de Deus, segundo a tradição religiosa, é um olhar que conhece para amar, orientar e libertar.  - O olhar do algoritmo e da sociedade vigilante conhece para prever, manipular e controlar. Um busca a transformação interior. O outro busca a conformidade exterior. Quando a sociedade aceita ser monitorada o tempo todo, seja por máquinas ou por outras pessoas, ela troca a liberdade espiritual por uma sensação artificial de segurança.  Troca a consciência por medo de julgamento. Troca a autonomia por aprovação social. E, aos poucos, deixa de ser protagonista da própria história. A vigilância digital cria uma nova forma de idolatria: a idolatria da eficiência, da conveniência e do controle. Mas a vigilância social cria outra: a idolatria da moralidade pública, do comportamento padronizado, da punição coletiva. Nenhuma sociedade pode permanecer livre quando aceita ser observada sem limites, seja por governos, empresas ou pela própria população. É preciso afirmar com clareza: - Nenhum governo deve ter poder absoluto sobre a vida privada.  - Nenhuma empresa deve conhecer mais sobre nós do que nossas próprias famílias.  - Nenhum grupo social deve se tornar juiz da consciência alheia. A fé sempre ensinou que a liberdade é sagrada. E o sagrado precisa ser defendido. Proteger a privacidade não é apenas um ato político. É um ato espiritual. - Cobrar transparência de governos e empresas é proteger o livre-arbítrio. - Resistir ao cancelamento e à vigilância social é preservar a consciência individual. - Educar para o uso ético da tecnologia é cuidar da sociedade como um todo. Se não fizermos isso, corremos o risco de viver não apenas a distopia de Orwell, mas uma distopia ainda mais profunda: aquela em que o ser humano esquece que foi criado para ser livre.   Leia o artigo: Um chamado à reflexão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill

    Em todo ano, no mês de março, presenciamos o velho discurso feminista no Dia Internacional da Mulher. Em virtude dos últimos acontecimentos noticiados de atos violentos contra a mulher, a data este ano recebeu maior carga de militância do que o habitual. É fato que a mulher, sendo a parte mais frágil (1º Pedro 3.7), necessita de proteção e amparo, não nego isso. Contudo, o feminismo faz exatamente o contrário, ao dizer asneiras como “todo homem é um estuprador em potencial”. O movimento feminista espalha falsamente que a mulher não possuía NENHUM “direito” no passado, e que surgiu para trazer justiça social e equidade. Embora haja relatos de que alguns grupos consideravam a mulher como inferior, não é correto generalizar. A própria Bíblia, aquele livro tão repudiado pelas feministas, elenca diversos direitos em favor da mulher ditados por Deus a Moisés. Citemos alguns. Feministas inflam seu ego afirmando que conseguiram o “direito ao divórcio” , que foi uma de suas  “maiores realizações”. Contudo, foi Deus quem concedeu. E vejam que curioso: o Todo-Poderoso fez isso para proteger a mulher de homens maus! A "Carta de Divórcio"  (Deuteronômio 24:1-4), i nstituída no Antigo Testamento, foi permitida por Deus para proteger a mulher, dando-lhe legalidade para se casar novamente sem ser considerada adúltera. “Jesus, respondendo, disse-lhes: Pela dureza dos vossos corações vos deixou ele escrito esse mandamento” (Marcos 10.4) Um outro direito concedido à mulher foi o de propriedade. A Bíblia relata a história das filhas de Zelofeade, cinco irmãs chamadas Maalá, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Seu pai pertencia ao clã de Manassés, um dos filhos de José, na linhagem de Hebreus. Quando o pai delas morreu no deserto, sem deixar filhos homens, elas buscaram uma solução para garantir que a herança familiar não desaparecesse. Apresentaram-se diante de Moisés, do sacerdote Eleazar e dos líderes do povo, reivindicando o direito à herança do pai. Elas explicaram que o genitor não havia morrido por rebelião, mas por seu próprio pecado. Por isso, seu nome não deveria ser esquecido ou excluído da terra do clã. “Moisés levou a causa delas perante o Senhor. Disse o Senhor a Moisés: As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente, lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai e farás passar a elas a herança de seu pai. Falarás aos filhos de Israel, dizendo: Quando alguém morrer e não tiver filho, então, fareis passar a sua herança a sua filha. E, se não tiver filha, então, a sua herança dareis aos irmãos dele. Porém, se não tiver irmãos, dareis a sua herança aos irmãos de seu pai” (Números 27.5-10) . Uma das maiores falácias do movimento é em relação ao trabalho. Feministas dizem que “libertaram as mulheres das amarras do patriarcado ao conquistar acesso ao mercado de trabalho” . Elas ignoram solenemente que a mulher sempre trabalhou, e por necessidade. E, mais uma vez, a Bíblia nos mostra isso. Noemi, hebreia, tinha dois filhos, Malom e Quiliom. Seu marido, Elimeleque, mudou-se de Belém para a terra de Moabe. Lá, seus filhos se casaram com mulheres moabitas, Orfa e Rute. Todos os homens da família faleceram. Então, Noemi despediu suas noras e pretendia voltar para Belém. Rute, contudo, decidiu ficar com sua sogra: “Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1.16) . Ao regressarem para Belém, Rute decidiu trabalhar para sustentar a casa. Não era uma “conquista” , uma “satisfação” ter de sair de casa para colher espigas. Se Rute não o fizesse, ambas morreriam de fome! E agora, um fato interessante que faço questão de “esfregar na cara”  das integrantes do movimento feminista: ao trabalhar colhendo espigas, Rute foi ajudada e protegida por um HOMEM. Mas que coisa, não? “Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele que mo favorecer. Ela lhe disse: Vai, minha filha! Ela se foi, chegou ao campo e apanhava após os segadores; por casualidade entrou na parte que pertencia a Boaz, o qual era da família de Elimeleque. Eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores: O Senhor seja convosco! Responderam-lhe eles: O Senhor te abençoe! Depois, perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça? Respondeu-lhe o servo: Esta é a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe. Disse-me ela: Deixa-me rebuscar espigas e ajuntá-las entre as gavelas após os segadores. Assim, ela veio; desde pela manhã até agora está aqui, menos um pouco que esteve na choça. Então, disse Boaz a Rute: Ouve, filha minha, não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui ficarás com as minhas servas. Não dei ordem aos servos, que te não toquem? Quando tiveres sede, vai às vasilhas e bebe do que os servos tiraram” (Rute 2.2-9) . Um tempo depois, Boaz pediu Rute em casamento e esta se tornou a bisavó do rei Davi, entrando na linhagem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Salomão, filho de Davi, ao escrever sobre a mulher virtuosa, diz que esta trabalha. Mas, diferente do que as feministas defendem, a mulher descrita pelo rei é louvada justamente porque o faz pelo bem de sua casa, sua família, e não para competir com seu marido. “Busca lã e linho e de bom grado trabalha com as mãos. É como o navio mercante: de longe traz o seu pão. É ainda noite, e já se levanta, e dá mantimento à sua casa  e a tarefa às suas servas. Examina uma propriedade e adquire-a;  planta uma vinha com as rendas do seu trabalho. Cinge os lombos de força  e fortalece os braços. Ela percebe que o seu ganho é bom” (Provérbios 31.13-18) Com a vinda de Jesus Cristo a este mundo, a mulher foi elevada em sua dignidade e espiritualidade, sendo considerada tendo o mesmo valor que o homem. A difusão do cristianismo levou aos povos bárbaros e pagãos o entendimento de que a mulher não era um objeto sexual ou mercadoria, e sim um ser como alma. Mas, sendo o movimento feminista revolucionário em sua gênese, é de praxe que rejeite o cristianismo, mesmo com todas as provas de que foi ele o responsável pelo respeito à mulher. Antes, preferiram a “resistência”  e lutar contra o sexo masculino, inclusive inventando mentiras.  O objetivo nunca foi, é ou será luta por direitos, fim da violência ou coisa que o valha, mas sim a revolução sexual. Ana Caroline Campagnolo escreve em seu livro – “Feminismo, perversão e subversão”  - que as feministas anarquistas afirmavam que era um desserviço lutar por direito ao voto. Ou seja, “liberar geral”  sempre foi mais importante do que incluir mulheres na política, por exemplo. Em doses homeopáticas, o movimento feminista veio destruindo a mulher, tornando-a novamente um objeto sem alma: - retirar do cristianismo e da família a autoridade moral - retirar a fé em Deus e focar no racionalismo e na “educação” - inserção compulsória da mulher no universo masculino na Revolução Industrial - a luta pelo “direito ao voto” escondia ataques aos homens e ao cristianismo - “luta” pela emancipação sexual e ataques à família tradicional em sua segunda onda - “luta” em “defesa” do aborto - ascensão do movimento lésbico como ato político e de “resistência” contra os homens E é aqui que nasce o movimento red pill. O movimento tem sua origem no filme  Matrix  (1999), onde o protagonista Neo (Keanu Reeves) precisa escolher entre a pílula vermelha (que revela a realidade dolorosa) e a azul (que o mantém em uma ilusão confortável). A metáfora foi adotada por comunidades online para descrever o "despertar" dos homens para uma realidade onde seriam oprimidos pelas mulheres e pela sociedade moderna. Sua gênese foi dotada com “boa intenção” . Após anos de lavagem cerebral feminista que colocou mulheres contra homens, agora eles resolveram se defender dessas atrocidades. Então, começaram a difundir algumas “dicas” de como se defender de mulheres más. Confesso que algumas ideias do início do movimento não me soavam tão mal. Entre elas: - Realismo social : “enxergando o mundo como ele realmente é”, sem ilusões progressistas - Masculinismo : valorização de traços considerados tradicionalmente masculinos, como força, liderança, racionalidade e controle emocional; - Críticas ao feminismo : feminismo teria ultrapassado sua função original de promover igualdade, favorecendo mulheres em detrimento dos homens. Porém, devemos lembrar que, assim como o feminismo, o red pill também não aceita a ideia de Deus com centro de sua vida, apelando somente para a força física, racionalidade e capacidade de enriquecer. E obviamente que quando Deus é tirado da equação, a tendência de que tudo dê errado é de 100%. O discurso anterior era: - Cuidado com mulher que não quer compromisso - Cuidado com mulher que não respeita os pais - Se ela tem filho(s), verifique se é/são do mesmo pai e em quais circunstâncias se deu essa separação - Cuidado com mulher que valoriza baladas, bebedeiras ou coisas do tipo. Agora o movimento diz: - Não se envolva com mulher, não tenha relacionamento sério. Pagar uma garota de programa é mais barato - “Toda mulher é vagabunda até que se prove o contrário” - “Quem trabalha é a mulher feia” - “Não peça mulher em namoro/casamento” Qualquer semelhança com o feminismo não é mera coincidência. Um mal gerou outro mal e agora estão se digladiando  entre si. E os mais prejudicados são aqueles que não aderiram a nenhum dos movimentos, que procuram seguir uma vida digna e correta. E agora, a situação está escalonando para o nível de morte, para ambos os lados. Do lado feminista, aquelas que dizem “Elize Matsunaga já deu a dica” ; do lado red pill, os que afirmam “ Prefiro matar a ser chefiado por uma mulher”. Novamente, quando Deus é retirado da equação, é isso o que acontece: uma guerra dos sexos que impede o crescimento da sociedade e a formação de famílias. Mas, como sempre, a Bíblia tem resposta para isso e coloca cada um no seu devido lugar: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” (Efésios 5.25-28)    Leia o artigo: Liberdade de expressão - Somente para quem concordar comigo Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Assim falava Tocqueville

    “Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar que se atribui a obrigação exclusiva de gratificá-los e presidir sobre seu destino. Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. Seria como uma autoridade de pai se, como essa autoridade, fosse seu propósito preparar os homens para a idade adulta; mas ele procura, ao contrário, mantê-los em perpétua infância: contenta-se em que o povo se divirta, contanto que não pense em outra coisa senão divertimento. Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer, mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade... Assim cada dia torna menos útil e menos frequente o exercício da livre capacidade do homem; circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente priva o homem de todos os usos que, de si mesmo, pode fazer.” Após esse recorte quase profético de Alexis de Tocqueville no capítulo 6, da parte IV do segundo volume de " A Democracia na América", continuaremos analisando, neste artigo, o Estado brasileiro e suas estratégias de controle social. Primeiramente, no artigo "Bismarck, Marx e os estados de bem-estar social"  introduzimos um dos mecanismos de controle social, mediante a oferta de benefícios sociais. Posteriormente, tratamos no artigo " Um golpe de master " sobre as relações de compadrio que se estabeleceram e se perpetuam entre os setores político e econômico, o que levou e leva a prejuízos à sociedade brasileira. Agora abordaremos movimentos contemporâneos que possuem, em seus princípios, auras de moralidade e interesses superiores, mas cujos fins nem sempre correspondem ao que deveriam ser. Se no final do século XIX o Estado brasileiro experimentou o poder da expansão sem lastro, hoje ele testa algo diferente, mas não menos ambicioso: o poder do controle total pela rastreabilidade. Não se trata de uma sucessão histórica, como se uma lógica tivesse substituído a outra. As duas coexistem, se complementam e se reforçam. Onde antes o excesso de crédito desorganizava a economia, agora o excesso de vigilância reorganiza a sociedade sob outro princípio: o da permanente justificativa. O discurso, novamente, é técnico. Fala-se em eficiência, segurança, modernização, combate a ilícitos. A linguagem mudou, os instrumentos se sofisticaram, mas o método permanece reconhecível. A política pública não se apresenta como coerção; apresenta-se como proteção. Não como limitação; como cuidado. O alvo declarado é sempre nobre o suficiente para desarmar resistências. O alvo real, porém, continua sendo o mesmo: o cidadão comum. O sistema de pagamentos instantâneos, o Pix, é um bom exemplo dessa engrenagem. Não há decreto instituindo imposto automático sobre transferências acima de determinado valor. O que há é algo mais elegante: normas que obrigam instituições financeiras a reportar à Receita Federal movimentações consideradas “atípicas” ou superiores a determinados patamares, hoje amplamente associados ao valor de cinco mil reais. O argumento oficial é o combate à evasão fiscal, à lavagem de dinheiro e ao financiamento do crime. A consequência prática é outra: a inversão do ônus da prova. O cidadão passa a existir sob presunção de irregularidade, compelido a explicar ao Estado a origem de recursos lícitos, muitas vezes fruto de trabalho informal, bicos, ajuda familiar ou simples rearranjos patrimoniais. Não é coincidência que, paralelamente, avancem debates sobre a restrição ao uso de dinheiro em espécie. No Brasil e no exterior, organismos internacionais, autoridades monetárias e setores do Executivo discutem limites máximos para pagamentos em papel-moeda e até a criminalização da posse de grandes quantias sem justificativa prévia. O dinheiro físico — historicamente associado à autonomia individual e à privacidade econômica — passaria a ser tratado como anomalia. Quem sabe algum dia, o cidadão que carregue cinco mil reais na bolsa não será visto como alguém imprudente, mas como alguém potencialmente suspeito. A mensagem será clara: fora do radar, não há legitimidade. A mesma lógica se manifesta no tema das armas. Em 2005, o Brasil realizou um referendo nacional sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munições (Lei 10.826/2003). A população rejeitou a proposta de forma inequívoca com quase 64% de votos contrários. Ainda assim, ao longo dos anos, especialmente após a mudança de orientação política no Executivo federal, decisões administrativas e interpretações judiciais foram progressivamente esvaziando o sentido prático daquela consulta popular. O referendo foi respeitado, afinal, não era proibido vender, mas se tornou cada vez mais difícil comprar. Durante o governo Bolsonaro, houve flexibilização para CACs — colecionadores, atiradores e caçadores — dentro de um marco legal existente. No governo Lula, a guinada foi imediata: decretos restringindo calibres, quantidades, clubes de tiro e autorizações, sempre sob o discurso de combate ao crime organizado e à violência. Como se criminosos adquirissem armas em lojas, mediante registro e fiscalização. Como se a violência dependesse exclusivamente da venda de armas para ser percebida. O efeito real recaiu, novamente, sobre o cidadão regular, enquanto o crime seguiu operando fora da lei. O mesmo padrão aparece no debate sobre a inspeção veicular obrigatória. O Projeto de Lei nº 3507/2025, de autoria do deputado Fausto Pinato, do PP de São Paulo, propõe a retomada da vistoria técnica periódica para veículos em casos de transferência, recuperação de furto/roubo, clonagem, etc. O relator, o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), incluiu no substitutivo os veículos com mais de cinco anos de fabricação. A justificativa é a segurança no trânsito e a preservação ambiental. O histórico brasileiro, no entanto, recomenda cautela. Onde esse modelo vigorou no passado, proliferaram burocracia, custos adicionais para os mais pobres e corrupção em postos de vistoria. O impacto ambiental foi irrelevante; o impacto social, significativo. Ainda assim, a proposta pode retornar, agora com novo verniz técnico, beneficiando indiretamente montadoras, o mercado de veículos novos e bancos, enquanto penaliza quem depende do automóvel usado para transporte ou trabalho. Nenhuma dessas iniciativas é isolada. Nenhuma é fruto de um complô explícito. Elas operam de forma mais eficiente do que isso. Avançam fragmentadas, justificadas por causas moralmente inquestionáveis, embaladas por linguagem técnica e amparadas por instituições que raramente prestam contas à sociedade. O Estado não precisa mais confiscar, proibir ou reprimir de forma aberta. Basta arrecadar por meio de taxas, condicionar, monitorar e constranger. Poderíamos citar ainda a " Lei Felca " (Lei nº 15.211/2025), conhecida como ECA Digital, que entrou em vigor em março de 2026 para proteger menores de 18 anos na internet. Ela exige verificação de idade rigorosa, controle parental para menores de 16 anos, e proíbe a adultização e exploração infantil, com multas pesadas para plataformas. O princípio é louvável, proteger crianças e adolescentes, quem em sã consciência seria contra esta medida? Porém, carrega em si, de forma potencial, a possibilidade de monitoramento e controle de usuários e perfis de utilização, mesmo de adultos. O resultado é um cidadão formalmente livre, mas materialmente vigiado. Autorizado a agir, desde que explique. Autorizado a possuir, desde que registre. Autorizado a circular, desde que seja inspecionado. A coerção já não se apresenta como força; apresenta-se como procedimento. O uso de benefícios sociais como estratégia de atração e permanência na órbita de controle estatal, sem a promoção paralela da autonomia individual, tem se demonstrado útil para imobilizar e entorpecer a sociedade, e por consequência, o país. A história do Encilhamento nos ensinou que quando poder político, econômico e jurídico se alinham sem freios, o risco deixa de ser exceção e se torna método. Hoje, o lastro não é mais o ouro, nem a produção. É o dado. É o registro. É a rastreabilidade total como condição de existência legítima, é a arrecadação. A alternativa não está na negação da lei, nem na idolatria do indivíduo isolado, tampouco na fantasia de uma liberdade sem responsabilidade. Está na recuperação da autonomia real, daquela que impõe limites ao Estado, exige transparência das instituições e recusa a ideia de que todo cidadão é um suspeito em potencial e um tutelado dependente. Liberdade não é ausência de regras; é a recusa em aceitar que o controle seja o preço permanente da ordem. Leia o artigo: UM GOLPE DE MASTER Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Um chamado à reflexão

    Quando aceitamos a missão de escrever para um público, algo em nós muda. Nosso olhar, antes disperso, passa a orbitar essa responsabilidade. Cada conversa, cada notícia, cada gesto cotidiano se transforma em matéria-prima. Desde o primeiro dia após a entrega do artigo anterior , já estamos pensando no próximo — buscando uma reflexão atual, honesta e necessária sobre a sociedade. Dito isso, preciso admitir: este artigo nasce do esforço de digerir situações da sociedade brasileira que, à primeira vista, parecem indigeríveis. É, sem sombra de dúvidas, o texto mais difícil que escrevi até agora. Talvez porque toque em dois temas que se entrelaçam de forma dolorosa e profunda: o poder da maldade humana — assunto que já abordei quando tratei do narcisismo presente na sociedade e, infelizmente, também dentro da igreja — e o bem mais valioso que uma sociedade pode ter: a família. Madrugada de 12 de fevereiro Itumbiara ainda dormia quando uma tragédia começou a se desenrolar dentro da casa do secretário de Governo, Thales Naves Alves Machado. No silêncio da noite, ele atirou contra os próprios filhos. Miguel, o mais velho, morreu na hora. Benício, de oito anos, ainda resistiu até o dia seguinte, mas não sobreviveu. A notícia abalou o município. Thales era figura conhecida na administração e genro do prefeito Dione Araújo. A Prefeitura decretou luto oficial e suspendeu o expediente. Enquanto isso, a polícia tentava entender o que havia acontecido dentro daquele lar. Horas antes do crime, uma carta foi publicada no perfil de Thales — depois apagada — mencionando crise conjugal, possível traição e pedidos de perdão. Pessoas próximas confirmaram a autenticidade do texto. Para muitos, parecia um desabafo; para outros, um prenúncio. O caso ganhou repercussão estadual. Autoridades se manifestaram, destacando o impacto de uma violência que rompe o espaço mais íntimo e sagrado: a família. O detalhe mais perturbador veio das redes sociais. Dias antes, Thales publicara um vídeo afirmando que “a família é o mais importante da vida” . Um dia antes da tragédia, postou uma imagem ao lado da esposa e dos filhos — uma cena idealizada que contrastava com o desfecho brutal. Quando o dia amanheceu, o caso já não pertencia mais apenas à cidade de Itumbiara. Em poucas horas, havia atravessado o estado e se espalhado pelo país. O que começou como uma tragédia familiar transformou-se em pauta nacional, combustível para debates, análises, julgamentos e teorias que se multiplicavam em velocidade de avalanche. Nas redes sociais - esse grande tribunal sem rosto - a tragédia virou combustível para um turbilhão de opiniões. Em poucos minutos, a internet se transformou em um tribunal caótico, onde cada um parecia ter uma explicação, um culpado, uma teoria definitiva. Psicólogos, terapeutas, influenciadores, comentaristas de plantão e perfis anônimos se revezavam para tentar decifrar o que havia acontecido. Cada um com sua versão, sua leitura, sua sentença. E foi aí que a tragédia ganhou novas camadas. Não bastava a dor real, concreta, irreversível. Agora surgia também a dor fabricada, opinada, distorcida. Cada frase era uma facada simbólica, um reflexo da incapacidade coletiva de lidar com o horror. De um lado, surgiram vozes que tentavam justificar o injustificável: “Ele não aceitava a separação.” “Eu entendo… não suportaria ver meus filhos criados por outro homem.” Outros apontavam a mãe como responsável: “Ela traiu.” “Inventou essa história de separação depois.” “A culpa é dela.” Havia também quem enxergasse o oposto: “Imagina o que essa mulher viveu com ele.” “Mais um narcisista que não aceita perder.” “Ele quis atingir a mãe pelos filhos.” E, no meio desse duelo de narrativas, surgiam comentários que tentavam resgatar o óbvio: “Nada justifica assassinato.” A polarização era tanta que a tragédia deixou de ser apenas um fato e se transformou em espelho — refletindo medos, preconceitos, frustrações e crenças de uma sociedade que tenta explicar o inexplicável enquanto se perde em julgamentos apressados. O que se via ali não era só o crime, mas o retrato de um país buscando lógica onde não há lógica e justificativas onde só existe devastação. E, no meio desse turbilhão, uma verdade permanecia intacta: duas crianças perderam a vida, e nada — absolutamente nada — justifica isso. O caso deixou de ser apenas sobre um pai, dois filhos e uma madrugada. Passou a ser sobre nós: sobre como interpretamos a dor alheia, como julgamos sem saber, como projetamos nossas próprias feridas, medos e crenças em histórias que não nos pertencem. Por que falar sobre Thales? Falar sobre Thales não é reviver a tragédia pelo choque, nem transformar um crime em entretenimento. É necessário porque o caso expõe, de forma brutal, falhas que preferimos ignorar: a distorção da ideia de família, a incapacidade emocional de muitos homens diante da perda de controle, o narcisismo que se disfarça de amor e a violência disfarçada de amor. É necessário falar sobre Thales porque ele não é um ponto isolado no mapa da violência familiar brasileira — é um sintoma. Um sintoma de relações adoecidas, de estruturas sociais que ainda romantizam o controle, a posse e o poder. Um sintoma de uma sociedade que, diante do horror, tenta justificar o injustificável, encontrar lógica onde só existe devastação. É necessário falar sobre Thales porque, quando um pai tira a vida dos próprios filhos, algo muito profundo está errado — não apenas naquela casa, mas no tecido social que deveria proteger essas crianças. Ignorar isso seria fechar os olhos para uma ferida que continua aberta em milhares de lares. E, acima de tudo, é necessário falar sobre Thales porque duas crianças morreram. E quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção. Falar sobre Thales é olhar para a dimensão humana da queda, da ruptura, da incapacidade de lidar com o próprio abismo interior. Não para julgá-lo, mas para reconhecer que o mal, quando não confrontado, pode se manifestar dentro de lares que, por fora, parecem estáveis. A teologia sempre tratou da tensão entre luz e sombra, entre graça e desordem — e Thales se torna um ponto de partida para discutir essa tensão. Por que falar sobre Sara? Falar sobre Sara não é entrar em especulações, nem validar rumores, nem discutir aquilo que não foi confirmado. É necessário porque, dentro de uma análise teológica da família, ela representa a figura da mãe que teve seu bem mais precioso arrancado: seus filhos. E essa realidade, por si só, já a coloca no centro de uma dor que merece ser reconhecida com respeito e sobriedade. A repercussão pública transformou Sara em alvo de interpretações que não nasceram dos fatos, mas das expectativas sociais sobre o papel da mulher no lar. Em poucas horas, ela deixou de ser vista como alguém que perdeu tudo para se tornar objeto de julgamentos que não condizem com a gravidade da situação. E é justamente por isso que precisamos falar sobre ela — não para defendê-la de acusações que não nos cabem, mas para reconhecer sua humanidade diante da perda. Na perspectiva teológica, Sara representa a sobrevivente. Aquela que permanece viva após o irremediável. Aquela que enfrenta não apenas o luto, mas também o peso das narrativas alheias. Aquela que, mesmo sem ter cometido violência alguma, carrega as consequências de um ato que destruiu sua família. Ignorá-la seria ignorar a dimensão humana da tragédia. Seria ignorar que, no centro de tudo, há uma mulher que viu sua vida ruir sem ter escolhido isso. Falar sobre Sara, portanto, não é tomar partido. É reconhecer que, em qualquer reflexão séria sobre família, fé e responsabilidade, a dor de uma mãe não pode ser silenciada. Por que falar sobre Miguel e Benício? É necessário falar sobre Miguel e Benício porque, em qualquer reflexão teológica sobre família, eles representam o centro moral e espiritual da narrativa. São eles que revelam, com maior clareza, o valor da vida, a vulnerabilidade da infância e a responsabilidade sagrada que recai sobre os adultos. Na tradição cristã, as crianças ocupam um lugar privilegiado. Elas simbolizam pureza, promessa, futuro e dependência — elementos que, teologicamente, apontam para a própria natureza do Reino de Deus. Quando duas crianças perdem a vida, não estamos diante apenas de uma tragédia familiar, mas de um rompimento profundo naquilo que a fé considera mais precioso: a proteção dos inocentes. Falar sobre Miguel e Benício é reconhecer a dignidade de suas vidas, que não podem ser reduzidas a números ou manchetes. Também é um chamado a responsabilidade espiritual da sociedade, chamada a proteger seus pequenos. Além de nos apresentar a dimensão teológica da perda, que nos obriga a refletir sobre o mal, a fragilidade humana e a necessidade de restauração. Eles são o ponto de partida para qualquer análise que pretenda ir além do fato em si. São o lembrete de que a família não é apenas uma instituição social, mas um espaço espiritual onde vidas são formadas, nutridas e protegidas. Ignorar Miguel e Benício seria ignorar o coração da reflexão. Falar sobre eles é afirmar que suas vidas importam — não como símbolos, mas como pessoas reais, cuja existência nos convoca a pensar sobre responsabilidade, cuidado, amor e a urgência de reconstruir aquilo que foi quebrado. Falar sobre os quatro não é revisitar a tragédia pelo choque, mas compreender o que ela revela sobre a condição humana, sobre a fragilidade das relações, sobre a distorção do amor, sobre a responsabilidade espiritual da família e sobre a necessidade de cura. Eles não são apenas nomes de um caso. São espelhos — cada um à sua maneira — de questões profundas que atravessam a sociedade e a fé. E é justamente por isso que precisam ser mencionados, porque a teologia não se ocupa apenas do sagrado idealizado, mas também do sagrado ferido, do humano quebrado, do mundo real que clama por sentido. Fazer essa análise não é simples. Como mãe de um filho de 12 anos e de outro de 2, é impossível não sentir um peso diferente ao olhar para essa tragédia. A maternidade nos dá uma sensibilidade que não se desliga; ela molda a forma como enxergamos o mundo, a família e, sobretudo, a vulnerabilidade das crianças. Ao refletir sobre esse caso, um temor silencioso me acompanha — não um medo paralisante, mas a consciência de que a mente humana é frágil, suscetível, e que nem sempre conseguimos compreender os abismos que alguém pode enfrentar. Essa percepção não nasce de desconfiança, mas de humildade diante da complexidade da condição humana. Quando falamos de família, falamos também de responsabilidade espiritual, emocional e moral. E, como mãe, é impossível não sentir a dor de imaginar a perda de um filho — uma dor que nenhuma teologia explica por completo, mas que toda teologia nos convida a acolher com compaixão. Ainda estávamos tentando respirar depois da tragédia que envolveu Thales, Sara, Miguel e Benício quando, no Carnaval, fomos surpreendidos. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida uma ala inteira fantasiada como “família em conserva” — uma sátira política, uma crítica social, um deboche visualmente marcante. As fantasias imitavam latas de conserva, com rótulos que ironizavam a ideia de “família tradicional”, misturando humor, política e provocação. A repercussão foi imediata. Para alguns, era arte crítica; para outros, tocou em um ponto sensível, pois a família é o primeiro lugar onde aprendemos a existir.  A imagem da “família enlatada” nos lembra da vulnerabilidade diante de críticas rasas e da facilidade de transformar em piada aquilo que é fundamento de vida. Mas não podemos permitir que o escárnio defina o valor daquilo que Deus estabeleceu. Todo ser humano vem de uma família, estruturada ou frágil, perfeita ou imperfeita. Todas carregam histórias, traumas e tentativas de recomeço. Por isso, a família não deveria ser tratada como chacota, pois rir da família é rir das próprias cicatrizes. A fé nos lembra que um coração inclinado a Deus não se molda pelo escárnio, mas pela graça. A família humana é imperfeita, mas é o lugar onde Deus insiste em trabalhar, acreditando na beleza, cura e reconstrução possíveis. A crítica à “família conservada” pretendia ridicularizar valores tradicionais, mas levantou a questão do que realmente se preserva. O que tem estrutura e fundamentos não se desfaz com o vento das opiniões. A zombaria do mundo não define o valor daquilo que Deus estabeleceu. A família virou alvo porque se tornou símbolo dentro de uma disputa cultural. Quando algo se torna símbolo, passa a ser tratado como bandeira, caricatura, rótulo. Mas a família é mais profunda do que qualquer rótulo político. A crítica à família cristã não é apenas sobre incoerência, mas sobre resistência a uma cultura que relativiza tudo. Convicções firmes incomodam, mas resistência não é ataque, é convicção. A incoerência é parte da condição humana, não exclusiva de cristãos. Usar a falha de alguns para ridicularizar a fé de muitos é injustiça. A resposta cristã mais poderosa não é reagir, mas viver com coerência e integridade. Respeito não pode ser uma via de mão única. Se a sociedade condena o deboche contra certos grupos, deve condenar também o deboche contra a fé cristã ou a família tradicional. Intolerância não deixa de ser intolerância porque vem disfarçada de sátira.  Diante de tudo isso, não podemos permanecer apenas como espectadores ou juízes apressados. Essa tragédia nos convoca a olhar para além das manchetes e das redes sociais, a enxergar a dimensão humana da dor, da perda e da responsabilidade. Precisamos abandonar o silêncio, a indiferença e o julgamento superficial. É hora de agir: fortalecer laços familiares, promover o diálogo, buscar apoio emocional e espiritual, denunciar a violência, acolher quem sofre e proteger nossas crianças. Que cada um de nós se comprometa a ser parte da cura, da reconstrução e da esperança. Porque quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção. Leia: A Preferência pelos Pobres Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Um mundo novo e melhor chegará, se…

    Nessa nova apresentação, pretendo através de uma clara reflexão fazer brotar de dentro de nós algumas respostas, e elas virão de acordo com o nível de consciência de cada leitor. Não restam dúvidas que existe um clamor por um mundo mais justo, bom, belo e verdadeiro, se possível, que venha a nós o reino de Deus. Com tudo o que nos parece claro é que as mesmas pessoas que clamam por um mundo melhor não sabem por onde começar. O ideal é que ao observamos a história devamos não apenas nos determos a nomes, lugares, épocas é tão somente fatos, pois isso nos tornaria especialistas em repetir o que aconteceu com um bom grau de conhecimento externo, mas que refletíssemos sobre o temas e perguntássemos: por que estas coisas aconteceram? E por que tantas vezes? Por que estes personagens e não outros? Em alguns casos a semelhança é tão evidente que parece haver um padrão nos acontecimentos da história. Outra reflexão importante é: Parece que mesmo alguns povos com ideias tão elevadas foram derrotados, com tudo suas ideias, não. Esses valores, virtudes ideais tão elevados parecem saltar de um tempo a outro até encontrar outros povos onde posso renascer. Fica claro então o seguinte: Mais que pessoas fortes, corajosas e cheias de poder para realizar algo, suas ideias devem ser seu estandarte. Se nós apoiarmos em algo imortal, assim seremos. Lembro-me de quando da morte de Jesus, seus discípulos quiseram desistir da portaria suas ideias, mas com a ressurreição, tiveram um novo ânimo. Devemos considerar que o importante aqui não foi a ressurreição da pessoa de Jesus, mas com ele seu ideal de salvação, pois podemos imaginar se Jesus ressuscitado viria a desmentir todos o que apresentara antes? Claro que nosso mestre não faria isso, mas mesmo ele poderia fazer morrer nossa chance de vida eterna. Bom, o objetivo do texto não é religioso, mas filosófico. É mostrar que, se queremos algo elevado, assim deveria ser, pois semelhante atrai semelhante. E não só Jesus, mas todos os que se puseram a promover um mundo melhor focaram primeiro em elevar as pessoas, e depois seu contexto. Em uma analogia bem simplória, mas muito eficiente, como colocar pessoas que nunca foram bem educadas a habitar uma cidade com todos os requisitos para uma sociedade melhor. Não demoraria muito tempo para que a cidade fosse completamente destruída e levada ao nível de seus habitantes. Existem duas propostas conhecidas, uma revolucionária, que visa acabar com tudo o que foi construído socialmente e começa-se então, do zero. E outra revolucionária, que visa aprimorar o que já existe, ficando no que há de bom em cada uma delas. A proposta evolucionária é natural e infalível, mas há que ter paciência, pois é também muito sensível e dependendo do descuido, põe- se tudo a perder. Como numa gestação. Numa gestação, temos a ideia, que está viva de rir de nós. A partir disso, todas as atenções devem priorizar esta vida. Quem já participou de uma gestação sabe o quanto custa em todos os sentidos, o quanto temos que abrir mão de algo que para nós é importante, mas não seria saudável ao ideal. Sabe os que numa gestão se quisermos adiantar o processo, o risco de perdermos o ideal é altíssimo e caso se materialize como num nascimento, é alto também o risco de nascer defeituoso. Aproveito para recomendar a leitura de uma obra: “O IDEAL SECRETO DOS TEMPLÁRIOS” Nesta obra, sua autora, Delia Steinberg Guzmán, nos mostra de maneira clara qual foi o motivo de tanto sucesso nessa irmandade tão famosa, e que deixou um rastro civilizatório para todos o que vieram depois. A obra trata do movimento ocidental para uma nova civilização, mas há também obras que tratam de movimentos orientais, estas com um cunho mais interno como o Bhagavad Gita. Não podemos nos comportar como certos herdeiros que recebendo uma herança suntuosa, sem estar preparado, coloca toda a herança a perder. Em resumo, não podemos nos apoiar no materialismo se quisermos um mundo onde os ideais divinos governem. Em algum nível, temos a oportunidade de fazer valer nosso “pequeno Éden” E faremos se não dermos ouvidos à serpente dos ideais obscuros e não contamos do fruto do materialismo, pois a árvore da vida está nos mais altos valores humanos. Talvez nossa luta dure por séculos! O que nos cabe é formar novos militantes que façam perdurar a força que temos empregado para fazer dar à luz, esse novo mundo. Isso faremos educando a todos que pudermos com os valores que as forças obscuras da sociedade tentam destruir: Deus , Pátria, Família  e Liberdade. Também com eles as virtudes que os sustentam. Se o nosso ideal de vida nos convocar, estaremos prontos? Se vamos participar da batalha, quem seremos nós nela? O que escreverão sobre nossa conduta? Há quantos meses estamos de seu nascimento? Não sei, mas com certeza estamos gestando e o que podemos fazer é ficar na gestação desse ideal de um mundo novo e melhor, um dia alguém verá o fruto do nosso trabalho; O nascimento de um mundo melhor. Que Deus abençoe nossa jornada! Leia: Uma lâmpada, um terço e uma bíblia contra um exército Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • UM GOLPE DE MASTER

    No início, tudo parecia técnica econômica. Medidas apresentadas como modernas, quase visionárias, prometiam dinamizar o crédito, estimular o empreendedorismo e romper com um passado considerado lento demais para os novos tempos. O discurso era elegante, envolto em termos como “liquidez”, “confiança” e “necessidade histórica”. Mas, nos bastidores, algo não fechava. Empresários com acesso privilegiado passaram a prosperar em ritmo acelerado, enquanto companhias recém-criadas surgiam e desapareciam com a mesma rapidez. Papéis financeiros circulavam em volumes crescentes, muitas vezes desvinculados de qualquer lastro produtivo real. A impressão era de que o sistema havia sido desenhado para girar, não para sustentar. No centro desse arranjo, um personagem chamava atenção. Não exatamente um banqueiro tradicional, tampouco um político eleito. Era alguém com trânsito livre entre gabinetes, salões aristocráticos e escritórios financeiros. Um homem cuja fortuna cresceu na mesma proporção em que o crédito se tornava abundante. Para alguns, um visionário. Para outros, um operador. Enquanto isso, a autoridade responsável pela política monetária insistia que tudo estava sob controle. O argumento era sempre o mesmo: o país precisava ousar. Eventuais excessos seriam corrigidos pelo próprio mercado. A expansão não era um erro — era uma aposta calculada. O Judiciário, por sua vez, surgia como uma instância distante do cidadão comum, mas perigosamente próxima dos protagonistas do processo. Decisões rápidas, interpretações elásticas da lei e uma notável disposição para aceitar garantias frágeis davam segurança jurídica a operações que, fora daquele círculo, pareceriam temerárias. Não se tratava de ilegalidade explícita. Era algo mais sutil: legalidade sob medida. À medida que os meses avançavam, os sinais de colapso tornaram-se visíveis. Empresas quebravam em cascata. Pequenos investidores perdiam economias. O crédito, antes abundante, evaporava. O mesmo Estado que incentivara a expansão agora tentava conter o pânico. Veio então a pergunta inevitável: teria sido apenas incompetência técnica? Ou o sistema fora concebido desde o início para beneficiar poucos, deixando o prejuízo para muitos? Os defensores da política adotada insistiam nas boas intenções. Alegavam desconhecimento dos mecanismos financeiros mais complexos. Diziam que o responsável máximo pela condução econômica era um jurista brilhante, mas um economista improvisado. Um idealista cercado por interesses que não soube controlar. Os críticos, porém, apontavam outra possibilidade. Argumentavam que ninguém em posição tão elevada poderia ignorar completamente os efeitos previsíveis de uma expansão monetária descontrolada. Que os alertas existiram. Que os beneficiários eram claros demais para que tudo fosse atribuído ao acaso. O empresário central do escândalo — protegido por relações políticas, respaldado por decisões judiciais favoráveis e sustentado por um sistema financeiro moldado às suas necessidades — jamais foi tratado como um aventureiro comum. Sua posição social, seus títulos e sua proximidade com o poder lhe garantiram um tratamento diferenciado. Quando o sistema ruiu, ele já havia se protegido. Bem, caro leitor, antes que se imagine estar diante de um episódio recente, envolvendo autoridades contemporâneas, empresários do sistema financeiro atual ou decisões judiciais dos nossos dias, é preciso esclarecer com todas as letras: o que descrevemos até aqui foi a Crise do Encilhamento, ocorrida nos primeiros anos da República brasileira, entre 1889 e 1891. O cenário se abre logo após a Proclamação da República. O país buscava romper com estruturas imperiais e acelerar sua modernização econômica. À frente do Ministério da Fazenda estava Ruy Barbosa, jurista de prestígio, intelectual respeitado e figura central do novo regime. Inspirado por modelos liberais e pelo desejo de fomentar a industrialização, Ruy promoveu uma profunda mudança no sistema financeiro. Entre 1890 e 1891, foram autorizadas reformas que facilitaram a criação de bancos emissores, ampliaram drasticamente a oferta de crédito e permitiram a emissão de papel-moeda sem lastro suficiente em ouro ou em produção real. A lógica era simples: crédito abundante estimularia o crescimento. Na prática, criou-se o ambiente ideal para a especulação. Empresas surgiam aos milhares, muitas delas sem qualquer atividade concreta. A Bolsa do Rio de Janeiro tornou-se palco de operações frenéticas, impulsionadas por informações privilegiadas, relações pessoais e acesso diferenciado ao crédito. O termo “encilhamento”, tomado das corridas de cavalo, passou a designar esse momento de aposta generalizada, em que o objetivo não era produzir, mas chegar primeiro. No centro desse sistema estava Sebastião Lopes da Costa Pinho, o Conde Sebastião de Pinho — grande empresário, banqueiro e uma das figuras mais influentes do período. Atuando nos setores financeiro, ferroviário e comercial, o Conde foi um dos principais beneficiários da expansão monetária. Seus bancos e empresas obtinham crédito com facilidade, enquanto sua posição social lhe garantia trânsito direto entre ministros, parlamentares e magistrados. Quando a bolha começou a estourar, em 1891, o impacto foi devastador. Empresas quebraram, o valor da moeda despencou, a confiança no sistema financeiro evaporou. Pequenos investidores perderam tudo. O Estado, que havia estimulado a expansão, mostrou-se incapaz de conter o colapso. Foi nesse contexto que surgiram denúncias formais. O Conde Sebastião de Pinho acabou indiciado por fraudes financeiras, acusado de se beneficiar de emissões irregulares e operações especulativas. Outros empresários e banqueiros também foram implicados. O Judiciário — então representado pelo Supremo Tribunal Federal recém-criado — teve papel central no desfecho pois, após a prisão do Conde Sebastião e alguns pedidos de habeas corpus negados, os dois pedidos impetrados junto ao Supremo Tribunal Federal foram aceitos, libertando o banqueiro. As decisões judiciais, porém, foram marcadas por absolvições, prescrições e interpretações benevolentes da legislação. Apesar do clamor público, ninguém de fato pagou pelo desastre. O STF da Primeira República consolidava, já naquele momento, uma posição de árbitro distante da sociedade e indulgente com os estratos superiores do poder econômico. Passado o vendaval, o país entrou em um lento processo de recomposição. Empresas desapareceram, poupanças foram corroídas e a confiança pública levou anos para se recompor. A economia brasileira saiu do episódio mais cautelosa, mais desigual e mais dependente de mecanismos de controle que só surgiriam plenamente nas décadas seguintes. O custo social foi difuso, prolongado e silencioso: menos crédito, menos investimento, menos mobilidade para quem não possuía reservas ou influência. Os protagonistas, contudo, seguiram trajetórias menos dramáticas do que o colapso sugeriria. Patrimônios foram reduzidos, não extintos; nomes foram questionados, não apagados. O prestígio intelectual e político de Ruy Barbosa atravessou a tempestade e se consolidou como referência jurídica e republicana. Grandes operadores econômicos, entre eles o Conde Sebastião, sofreram abalos reais, mas preservaram redes, posição social e capacidade de recomposição — ativos invisíveis que, em momentos de crise, valem mais que o caixa. O saldo histórico é desconfortável: a turbulência redistribuiu perdas com muito mais eficiência do que redistribuiu responsabilidades. Enquanto a sociedade absorvia os efeitos prolongados da contração e da desorganização monetária, as estruturas de influência que moldam decisões — políticas e econômicas — permaneceram, em grande medida, intactas. Crises passam; hierarquias, não necessariamente. Assim, o episódio que começou como euforia e terminou como advertência deixa um padrão recorrente na vida pública brasileira: choques que parecem nivelar o jogo, mas que, ao final, apenas reorganizam o tabuleiro. Os danos são amplos; a influência, resiliente. E a história, quando revisitada sem indulgência, revela menos uma ruptura do que a persistência de um mesmo arranjo de poder sob novos nomes e novas circunstâncias. O Encilhamento não foi apenas uma crise econômica. Foi um ensaio inaugural de uma engrenagem que se repetiria ao longo da história brasileira: políticas públicas desenhadas sob o discurso do progresso, empresários estrategicamente posicionados, instituições jurídicas conferindo estabilidade formal e, ao final, a conta distribuída à sociedade. Entender esse episódio não é apenas revisitar o passado. É reconhecer que certas estruturas sobrevivem às décadas, trocam de nomes, atualizam instrumentos, mas preservam a lógica essencial: quando poder econômico, decisão política e tutela judicial caminham sem controle efetivo, o risco deixa de ser sistêmico — torna-se recorrente. E assim, a máquina do Estado brasileiro, com suas engrenagens financeiras, segue funcionando, oculta sob capas, marcando o passar do tempo e a repetição dos erros.   "Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para, não para, não para!" Leia o artigo: Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 63 edição de Fevereiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Liberdade de expressão

    Somente para quem concordar comigo Chegamos em 2026: ano de eleições, de decisões importantes, de mudanças necessárias e urgentes para a nação. Porém, existem valores que devemos preservar, e o mais básico é o direito a ter voz. Eu sou conservadora, direitista e bolsonarista. Comecei a meu interessar por política ainda na adolescência, acompanhando as eleições americanas. Lembro-me de não gostar muito de George W. Bush, mas o considerava melhor do que seu oponente à época, Al Gore. Eu já era de direita e não sabia (risos). A política brasileira me desanimava um pouco. Meu tio, militar, nunca gostou de Lula e nem da esquerda. E eu, em minha ignorância, não entendia por que não existia uma oposição à altura. Sinceramente, para mim era muito difícil entender Fernando Henrique Cardoso, José Serra e outros serem amigos do adversário. Somente anos depois que descobri que, de fato, eram amigos, mais até do que eu imaginava. Eu observava as eleições americanas, as comemorações de 4 de Julho, o Dia de Ação de Graças. No meu íntimo, eu pensava: “Em todos os lugares e eventos a bandeira americana se faz presente. Existe um patriotismo real. Por que no Brasil somos obrigados a vestir vermelho? Por que usar as cores da bandeira ofende?” . Meu questionamento não era sem propósito: o Brasil estava mergulhado em uma severa hegemonia progressista. Ninguém ousava questionar Paulo Freire, regime militar ou o próprio Lula. Até que eu vi um deputado austero na televisão, acho que foi no antigo CQC ( “Custe o que Custar” , um programa cujo modelo foi comprado da Argentina e era comandado no Brasil pelo Marcelo Tas). Este programa tinha vários repórteres e um deles era do Danilo Gentili. De vez em quando, Danilo fazia matérias com os parlamentares. E foi assim que conheci Jair Bolsonaro. Sinceramente, nunca tinha gostado de um político específico. Ah, gostava sim, do Eneias Carneiro! Meu pai também gostava muito dele e dizia que teria sido um ótimo presidente se não fosse a “ideia da bomba atômica” . Não era bem isso, mas meu pai não sabia. Na verdade, quase ninguém sabia. A mídia “tradicional” fez questão de ridicularizar a imagem de Eneias e fazê-lo passar como louco. Essa mesma mídia tentou novamente, desta vez, com Jair Bolsonaro. Mas o plano não funcionou. A produção do CQC descobriu que a imagem de Bolsonaro gerava audiência e por isso ele sempre era entrevistado. E a cada depoimento, redações inteiras sofriam uma síncope. Mas por quê? Porque pela primeira vez, a população presenciava um político sem o tradicional politiquês. Bolsonaro falava de forma direta aquilo que o cidadão brasileiro pensava. E a partir de 2010, Jair Bolsonaro fez a maior denúncia de sua vida pública: expôs o tal seminário LGBT infanto-juvenil e os filmetes produzidos pelo Ministério da Educação da época, que seriam exibidos nas escolas, para normalizar a agenda entre as crianças. E isso fez com que a população brasileira começasse a perceber o que de fato estava acontecendo. Ao longo dos anos, o nome de Bolsonaro ganhou força para ocupar a cadeira presidencial. Pela primeira vez, o brasileiro estava escolhendo com genuíno prazer o seu candidato. Jair fez sozinho o que ninguém esperava: quebrou a ditadura do discurso único e mostrou que é possível amar as cores verde e amarelo sem ser execrado por isso. Jair Bolsonaro se tornou um símbolo da liberdade de expressão, sendo eleito presidente da República em 2018. Contudo, começou a acontecer um movimento estranho: quem apoiava Bolsonaro passou a adotar a ditadura do discurso único. Isso não aconteceu de forma abrupta, mas em doses homeopáticas. Confesso que comecei a achar essa movimentação um tanto quanto estranha. Afinal, a direita sempre pregou a chamada liberdade de expressão. Começou a se tornar comum dizer “Eu entendo de articulação, eu sei de política” . Mas, para mim isso soava absurdo. Eu não conhecia aquelas pessoas antes do Jair. Salvo raríssimas exceções, todos os analistas e intelectuais do que conhecemos hoje como direita surgiram DEPOIS de Bolsonaro. E o motivo era óbvio: nenhum destes teve a coragem de enfrentar a hegemonia progressista como ele. Junto a Jair, muitos se elegeram. Pessoas completamente desconhecidas, mas que somente conseguiram uma vaga graças a ele. Espero que o leitor não entenda mal, esta minha fala, não digo isso com desprezo. Vários bons nomes foram eleitos, como o Márcio Gualberto e a Chris Tonietto. Porém, desconhecidos. Bom, como disse ouvir coisas como “Eu que sei”  em relação à política me irritava, mas eu não demonstrava. Eu vi e ouvi pessoas menosprezando quem ainda estava engatinhando nessa seara e arrogando para si o direito de saber mais do que os demais e que simplesmente enxotava quem pensava de modo diferente. E eu percebi que a situação começou a piorar na gestão Bolsonaro. Jair foi deputado por quase vinte e oito anos, mas pela primeira vez sentava na cadeira do Executivo. Obviamente que são funções diferentes e ele cometeu erros, isso é normal. Jair, embora tenha acertado muito mais do que errou, ainda assim errou, porque é ser humano. E a turma do “Eu que sei” , em vez de sentar com Jair e ajudá-lo, preferiu o “Não me ligue mais” . De repente, Jair Bolsonaro “não sabia de nada”  para os intelectuaizinhos da direita. Foi chamado de “frouxo” , “traidor das pautas conservadoras” , tudo porque não queria adotar a tática progressista do discurso único. E assim o bolsonarismo começou a minar por dentro. A hegemonia, quebrada por Bolsonaro, havia retornado. Mas agora passava a imperar no meio direitista. Ao longo do mandato, Bolsonaro pensou que tinha uma base com quem contar. Coitado! Ficou mais sozinho do que quando era deputado e eu atesto isso com profunda revolta! No final de 2022, quando mais precisou de sua base, foi abandonado! Eu me lembro de que, quando Bolsonaro venceu em 2018, Gleisi Hoffmann, que era presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) concedeu uma entrevista coletiva e disse: “A esquerda precisa fazer uma autocrítica” . Nunca votarei em quem quer que seja da ala progressista e não concordo com nenhuma de suas medidas, mas Gleisi tinha razão. Eles engoliram a derrota, voltaram a prancheta e começaram a trabalhar. E o resultado já é de conhecimento de todos. A esquerda admitiu seus erros. A direita os jogou para debaixo do tapete. Hoje, temos uma direita dividida porque todo mundo quer arrogar para si o direito que possuir o “guarda-chuva”  da moral e dos bons costumes, quando, na verdade, o “guarda-chuva”  dos valores foi dado por Jair Bolsonaro! É aquele velho ditado que nossos avós dizem: é muito cacique para pouco índio. O fato é que todos querem ter a popularidade do Jair, mas não querem ser como ele, e isso é severamente impossível! A direita brasileira (re)nasceu graças à liberdade de expressão que Bolsonaro exerceu com maestria! Hoje, aqueles que tomaram carona na onda – sejam políticos, influenciadores ou pseudojornalistas – querem ditar regras típicas de um Kim Jon-Un: quem não concorda, é enviado para os “campos de trabalhos forçados” ou “fuzilado” socialmente. Infelizmente, exemplos não faltam. A deputada Ana Campagnolo, recentemente, discordou da ideia da candidatura de Carlos Bolsonaro a uma vaga no senado por Santa Catarina. Em uma entrevista, ela alegou que nenhuma liderança do estado foi consultada para saber se a decisão era de comum acordo. Para minha surpresa, Ana foi achincalhada e xingada de todos os nomes possíveis: “traíra” , “feminista”  e até de “comunista” ! E por tabela, o deputado Nikolas Ferreira acabou apanhando. Alguns disseram que Ana deveria ter falado isso no privado. Concordo. Porém, o que fizeram com ela foi indesculpável! O leitor que possui mais tempo na política vai lembrar que a militância digital do PT atuava contra seus desafetos com ações que variavam desde promoção de boicote até exigência de demissão, e que Danilo Gentili foi uma das principais vítimas. Pois bem, foi exatamente isso que fizeram com a Ana. Diversos perfis DE DIREITA copiavam e colavam ataques contra uma mulher DE DIREITA unicamente por esta mulher expressar sua opinião contrária a uma estratégia política. Meu Deus! O que houve com a direita? Liberdade de expressão, pluralidade de ideias, isso tudo é só teoria, então? Ou só vale para atacar a esquerda com a mordaça que ela tenta nos colocar? Então, se a mordaça for da direita, tá valendo? Eu sinto em dizer, mas a direita brasileira é formada, em grande parte, por pessoas com pensamentos revolucionários. É difícil admitirmos isso, mas encarar a realidade é fundamental para que possamos nos corrigir. As eleições de 2026 exigirão de nós maturidade e capacidade de escutar o que o colega tem a dizer. Ou fazemos isso ou teremos mais quatro anos da esquerda no poder.     Leia o artigo: Getsêmani - A prensa que nos traz a paz Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 62 edição de Janeiro de 2026 – ISSN 2764-3867

  • Bismarck, Marx e os Estados de bem-estar social

    A origem das políticas estatais de proteção social costuma ser apresentada como resultado direto de avanços humanitários ou da pressão moral por justiça social. Essa leitura, embora não seja falsa, é incompleta. A consolidação do primeiro sistema moderno de seguridade social ocorreu na Alemanha do século XIX, sob a liderança de Otto von Bismarck, em um contexto profundamente conservador, monárquico e explicitamente antissocialista. As leis de seguro-doença (1883), seguro contra acidentes de trabalho (1884) e seguro de invalidez e velhice (1889) foram concebidas menos como instrumentos de emancipação do trabalhador e mais como mecanismos de estabilização política e contenção do conflito social. É importante reconhecer que Bismarck não criou essas políticas no vácuo. Antes delas, já existiam antecedentes relevantes, como as Poor Laws  inglesas, experiências municipais de assistência, sistemas de mutualismo operário e práticas filantrópicas de inspiração cristã. O diferencial bismarckiano não foi a invenção da proteção social em si, mas sua estatização sistemática, obrigatória e nacional, integrando trabalhadores ao Estado por meio de direitos condicionados à contribuição e à lealdade institucional. O objetivo explícito era retirar do socialismo nascente seu apelo político, oferecendo segurança material sem conceder poder político autônomo às classes trabalhadoras, o que, curiosamente, viria a se tornar o modus operandi  da nascente elite administrativa dos Estados socialistas. Esse dado de origem é fundamental porque revela uma tensão entre diferentes níveis de expressão social e política, que atravessará toda a história da utopia que poderíamos chamar de “Estado de Bem-Estar Social”: utopia, pois as sociedades estão em constante transformação; logo, o conceito de bem-estar também se move continuamente na direção de novos anseios sociais. A política social bismarckiana  protegia o trabalhador contra riscos objetivos da vida industrial, mas o fazia reforçando sua dependência de uma máquina estatal centralizada e burocrática. Não se tratava de libertá-lo, mas de integrá-lo de forma disciplinada à ordem existente. Nesse sentido, a proteção social moderna nasce mais como tecnologia de governo do que como instrumento de autonomia. O socialismo, por sua vez, apresentou-se historicamente como a grande promessa de superação dessa tutela. Desde Marx, a emancipação do trabalhador aparece como horizonte explícito: o fim da alienação, da exploração e da submissão a estruturas externas de poder. Contudo, quando observamos as experiências concretas dos chamados “socialismos reais” ao longo do século XX, percebe-se uma recorrência preocupante: a substituição do capital privado por um aparato estatal hipertrofiado, burocrático e altamente centralizado. Embora essas experiências não tenham sido idênticas — havendo variações importantes entre União Soviética, Europa Oriental, Iugoslávia ou China —, todas enfrentaram, em maior ou menor grau, o problema da captura do poder por uma elite administrativa que passou a tutelar a sociedade em nome de uma emancipação sempre adiada. Esse padrão não pode ser explicado apenas por desvios morais individuais, mas por uma dinâmica institucional recorrente. Ideias mobilizadoras tendem a gerar movimentos; movimentos tendem a se institucionalizar; instituições, por sua vez, desenvolvem interesses próprios. Surge então o corporativismo, entendido não apenas como organização de classes, mas como espírito de corpo que desloca o foco da ideia original para a autopreservação da estrutura. O ideal que justificou a criação da instituição transforma-se em retórica legitimadora de interesses internos. Esse fenômeno não é exclusivo do socialismo. Ele também se manifesta em economias capitalistas quando ocorre a simbiose entre grandes corporações e o Estado, fenômeno que hoje se descreve como capitalismo de compadrio. Embora seja anacrônico aplicar esse termo de forma rígida a contextos históricos passados, a lógica subjacente — captura regulatória, privilégios seletivos, socialização de prejuízos e privatização de ganhos — acompanha o capitalismo desde suas origens. O que muda é o grau de transparência e os mecanismos de contenção disponíveis em cada época. O contraste frequentemente traçado entre um capitalismo “puro”, no qual o empreendedor assume riscos e corrige desvios rapidamente, e um Estado intrinsecamente corrupto, precisa ser qualificado. Historicamente, empresas sempre buscaram proteção estatal, subsídios, monopólios legais e limitações de responsabilidade. Ainda assim, é verdade que, em ambientes mais competitivos e descentralizados, o erro tende a ter custo direto para quem decide, enquanto estruturas estatais complexas diluem responsabilidades e amortecem falhas por meio do erário. Quando Estado e grandes corporações passam a operar de forma entrelaçada, como ocorreu no fascismo, no nazismo e em diversas experiências contemporâneas, os problemas associados ao socialismo burocrático reaparecem sob outra roupagem. A promessa deixa de ser igualdade ou emancipação e passa a ser eficiência, estabilidade ou desenvolvimento, mas o resultado institucional é semelhante: concentração de poder, decisões menos transparentes e afastamento progressivo entre governantes e legisladores em relação aos governados. A corrupção sistêmica surge, nesse contexto, não como exceção moral, mas como subproduto lógico da estrutura. Agentes públicos e representantes privados criam redes de reciprocidade, favores e proteção mútua que capitalizam ganhos e diluem custos. Quanto mais complexa a máquina, mais difícil identificar responsabilidades; quanto mais estável o arranjo, maior sua capacidade de resistir a mudanças. É nesse ponto que a ilusão democrática da troca de liderança se revela. A substituição de um presidente, ainda que bem-intencionado, não altera automaticamente a lógica profunda das instituições. Estruturas altamente pervertidas tendem a reagir a tentativas de correção como um organismo reage a um corpo estranho: neutralizando, isolando ou expulsando o agente reformador. Reformas superficiais produzem efeitos marginais; reformas profundas enfrentam resistência interna contínua. Isso não significa que a transformação seja impossível, nem que toda instituição esteja condenada à degeneração. A crítica ao determinismo institucional é válida e necessária. Contudo, essa transformação exigiria reformas que atingiriam incentivos, não apenas discursos; estruturas, não apenas lideranças. Uma solução realista e exequível não residiria na negação do Estado nem na idealização do mercado, mas na redução sistemática das zonas de captura. Isso implicaria limitar a concentração de poder decisório, simplificar normas, expor processos à fiscalização pública efetiva, reduzir a promiscuidade entre reguladores e regulados e criar mecanismos em que erros tenham custos claros para quem decide. Significaria também reconhecer que políticas sociais podem existir sem se converter em instrumentos de tutela permanente, desde que sejam desenhadas para favorecer a autonomia e não criar dependência. Em última instância, o problema não é apenas quem ocupa a presidência, mas o ecossistema institucional que a cerca. Conquistar o topo sem tratar a doença sistêmica é, no máximo, como pichar a alegoria feminina de República com um batom; tem algum efeito simbólico, mas nenhum efeito prático. A história do Estado Social, desde Bismarck ou Marx até o presente, mostra que proteção sem limites claros tende à tutela, e poder sem freios tende à captura. O desafio político central permanece o mesmo: construir instituições que sirvam às ideias que as criaram, e não o contrário.    Leia o artigo: Só mais um bate-papo na sala dos professores

  • A imaginação da civilização

    No clássico filme Tubarão, o xerife de uma pequena cidade costeira, que dependia do turismo como fonte de renda, arrisca sua carreira ao desafiar o prefeito local e a própria vida ao se lançar ao mar em busca de uma criatura fascinantemente perigosa. Lutando conta a ambição política ao passo que tenta capturar um dos mais temidos predadores existentes, mas seu dever para com aqueles que, eventualmente, encontrariam a morte nas presas da fera marinha o motivou a assumir todos os riscos e tentar destruí-la. O filme trata de um conflito homem versus fera, mas tal conflito poderia ser suprimido se o xerife ignorasse o risco e aceitasse que algumas vidas perdidas poderiam ser suportadas em nome do sucesso do evento que trazia turistas, e com eles lucro, à sua cidade. Todavia, não haveria qualquer o valor moral em um homem que vendo o mal, no caso do filme representado pelo predador, espreitar seus semelhantes e simplesmente se omitisse para se manter em uma posição confortável. O protagonista da trama vai além, pois não se limita a enfrentar a autoridade política, mas coloca sua vida em risco para abater o temível tubarão, evidenciando seu heroísmo. A inspiração da clássica obra de ficção nos aponta para o fato de que um herói é, sobretudo, aquele que se dispõe a enfrentar o mal, ainda que seja muito mais forte, como um tubarão é para o homem, por seu dever de salvar aqueles que, por justiça, não merecem um destino trágico que pode ser evitado, ainda que tal ação custe-lhe a vida. Quando Frodo Bolseiro deixa o conforto do Condado, em O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel, sua motivação é atender a súplica do mago Gandalf para que leve o objeto maligno ao reino élfico de Valfenda, mas o que realmente move o pequeno hobbit é a noção, em um primeiro momento pouco evidente, que os demais habitantes do Condado pagariam um preço muito alto quando as hordas de Mordor cruzassem as fronteiras daquele pacífico lugar. Frodo sabia que seus pares, simplórios e gentis, não mereciam o nefasto destino de confrontar as lâminas dos nasguls e seus seguidores, por isso, seguiu as orientações do velho mago e seguiu em sua perigosa empreitada. Em Valfenda, ao perceber que portar o maligno anel até as terras do inimigo seria uma missão da qual poderia não voltar, o jovem pequenino reflete sobre a necessidade de combater o mal e acaba por se voluntariar a cumprir tão árdua missão, encorajando seu amigo, primos e outros heróis a o acompanharem, mesmo sabendo que se tratava de uma jornada à terras malignas e que provavelmente não sobreviveriam, formando assim a Sociedade do Anel. Há um ponto em que Frodo decide continuar, apesar de sua ter experimentado provações extremas, perdendo o membro mais celebre  da sociedade, o mago Gandalf nas entranhas de Mória, é quando Galadriel, a feiticeira e rainha élfica, lhe dá a oportunidade de espiar um possível futuro e a hipótese exposta a Frodo é um futuro no qual as hordas do Senhor de Mordor finalmente chegam ao seu amado Condado. Naquele momento, o jovem hobbit percebe que sua jornada não é apenas sobre si, mas uma luta por aqueles com quem se importa. No clássico da literatura Senhor dos Anéis, que posteriormente se estabeleceu nos cinemas, bem como no filme Tubarão, os protagonistas enfrentam criaturas perigosas com as quais não podem negociar, mas, em razão da defesa de inocentes, estão dispostos a entregarem suas vidas para derrotá-las. Entretanto, há outras obras icônicas que apresentam protagonistas cuja jornada se dá em razão de outro motivador, como na Odisseia de Homero, na qual o protagonista, após a vitória dos reinos da Grécia sobre Tróia, acaba desafiando o deus dos mares e se vê passando por tormentas imposta pela referida divindade. Ulisses, ou Odisseu, não busca a salvação de seus pares ou da humanidade, tampouco destruir uma fera indomável para proteger os inocentes, sua jornada tem como objeto central voltar à Ítaca, seu reino, e para o seio de sua família, em especial, sua amada esposa Penélope. A força que move o protagonista o impede de desistir mesmo diante de bestas mitológicas como Cila e Caríbdis, e ainda, resistir aos encantos da feiticeira Circe. A dramaturgia, desde a antiguidade, se presta ao fortalecimento da cultura de um povo ou civilização como um todo, retratando de forma lúdica ou sugerindo hipóteses que poderiam ser experimentadas, seja como promoção de uma ideia ou alerta para um risco. É evidente que a ficção pode tratar de temas reais sem que para tal seja um documentário ou obra baseada ou inspirada em uma história real, posto que, um autor poderia criar uma narrativa sem relação direta com a realidade, mas que transmite valores aplicáveis, podendo trazer uma reflexão, uma promoção ou um alerta. Documentários, em regra, tentam representar a realidade como ocorrera, podendo ser enviesados conforme o ímpeto de seus produtores, todavia, ao lançar mão de uma produção que se apresenta de tal forma, será necessário observar três fatores, posto que, um documentário depende de uma pesquisa que possa embasar sua narrativa, poderá ser confrontado e seus produtores devem gozar de certa credibilidade. Não são raros os documentários desmentidos por encobrirem, distorcerem ou ignorarem estudos e relatos acerca de determinado tema, como podemos citar a tentativa do Canal Nostalgia, no YouTube, de documentar a Guerra da Coréia, desmontado pelo Historiador Tiago Braga . A falta de confiabilidade em relação aos responsáveis por produções de tal natureza também colocará em dúvida o teor da obre, pois não seria lógico acreditar em um documentário político elaborado pela BBC depois do escândalo recente no que tange a divulgação distorcida de falas do Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump. A ficção, por outro lado, pode discutir um tema com maior liberdade, haja vista que, o autor não se verifica aprisionado aos fatos, podendo propor ou hipótese ou advertir sobre temores que guarda em seu íntimo, externalizando tais premissas em situações que não dependem de confirmação, logo, suas divagações não estão sujeitas ao escrutínio da realidade, fazendo-se necessária a quebra de um limite para a aceitação da obra por parte de seu destinatário, a chamada suspensão da descrença. Quando se trata de uma obra baseada em fatos reais, o autor pode se permitir alterar pontos não determinantes da trama para que sua narrativa fique mais agradável ou de melhor compreensão e, no caso da inspiração em fatos reais, tal liberdade torna-se ainda maior. Na ficção sem correlação direta com a realidade, o autor pode avançar e instigar o receptor para que haja maior suspensão da descrença, se permitindo trazer hipóteses as quais não seriam assimiladas em se tratando da realidade. Não por acaso, George Orwell nos levou a imaginar uma fazenda sob a administração de animais que, após uma verdadeira Revolução dos Bichos, assumiram o controle e estabeleceram um regime que transformou a Fazenda dos Animais em uma verdadeira ditadura. Os porcos, que representavam a elite revolucionária, controlavam os demais animais e estabeleceram regras das quais eles mesmos não estavam sujeitos. O conto de Orwell poderia ser um documentário sobre qualquer país comunista, mas a forma lúdica como o autor introduziu os animais e os organizou em sociedade fez com que a imaginação do leitor pudesse alçar patamares mais elevados, trazendo um alerta e propondo uma bela reflexão sobre um tema sem se direcionar a pessoas específicas, pois trazia comportamentos humanos transplantados para aquelas criaturas, como o mal que se apresentou na forma de um tubarão ou do Senhor de Mordor. A literatura nos trouxe hipóteses para reflexão que ajudaram a fortalecer valores que já nos eram caros, além de nos permitir ver o mundo por prismas que jamais poderíamos experimentar, transportando-nos para lugares e situações, para que pudéssemos avaliar riscos, sentir emoções e fazer julgamentos de algo não vivido na realidade, mas em nossas imaginações. O apego às tramas e personagens surge da capacidade humana de identificar outrem, gerando empatia, tão somente pelas narrativas que o cercam, ainda que não exista contato real. Algumas histórias se tornam parte integrante de uma sociedade ajudando a ligar até mesmo povos, a Odisseia é um grande exemplo, pois sua influência pode ser sentida em toda a civilização ocidental e quiçá mundial, assim como os contos de Beowulf e dos Cavaleiros da Távola Redonda foram fundamentais para a consolidação da sociedade inglesa, que se fortaleceu com obras como as de Willian Shakespeare, John Ronald Reuel Tolkien (em que pese sua origem sul-africana) e, na contemporaneidade, Joanne Rowling. O Brasil também teve figuras memoráveis, mas não os enumeraremos por dois simples motivos, deixar de mencionar algum, o que seria enorme injustiça, ou pior, pela constatação de que a literatura da nossa sociedade aparenta certa vacância de estrelas, nos levando a triste constatação de que o cenário cultural brasileiro submerge gradualmente, em que pese, sempre haverá esperança de que surgirão figuras aptas a resgatar tão degradado espaço. Na formação do imaginário de um povo a dramaturgia sempre esteve presente, de contos passados por gerações de forma não escrita à cultura pop, a mitologia, e não nos restringimos ao divino, faz parte da vivência de um indivíduo, de uma sociedade e até mesmo uma civilização. Figuras como Dante, da obra o Inferno de Dante, que não viajou de fato pelo submundo, tornaram-se tão influentes que são quase confundidos com figuras históricas reais. Se a Santa Joana D’Arc, os imperadores Marco Aurélio, Júlio César e Constantino, os navegantes Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Pedro Alvares Cabral, déspotas como Adolf Hitler, Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, marcaram a história como personalidades reais, não há como descartar a participação de personagens fictícios como Ulisses, Jasão, Robbin Hood, Dom Quixote, Hamlet, Raskólnikov, Sherlock Homes, Frodo Bolseiro e, no cenário atual, Bruce Wayne, Peter Parker e Anakin Skywalker, como figuras tão proeminentes que são comumente citados como pessoas, reais ou não, as quase todos que os conhecem por razões culturais, em que pese os três últimos personagens fictícios, da contemporaneidade, sejam mais conhecidos por seus alter egos, respectivamente, Batman, Homen-aranha e Darth Vader. As obras que se tornaram parte da cultura ora se confundem com a história de um determinado povo, pois sua narrativa está tão intimamente ligada ao imaginário popular que, por vezes, os menos atentos acreditam se tratarem de ocorrências reais e que seus personagens, de fato, existiam, restando evidente um fator que pode explicar o apego ao imaginário, justificando o motivo de fãs de determinada obra ou figura fictícia se incomodarem sobremaneira quando as veem vilipendiadas. Por mais que o Rei Arthur não tenha sua existência confirmada, não há como negar que um inglês genuíno se sentiria incomodado com a destruição de traços fundamentais de tão icônica figura, o mesmo valeria para Héracles e tantos outros, portanto, tal pensamento aplicar-se-ia aos símbolos da cultura contemporânea, de forma que, resta evidente a irritação por uma parte dos admiradores de tais personagens, algo que, longe de ser um devaneio diz muito sobre a preservação da identidade cultural, ou seja, um jovem que manifesta insatisfação ao ver seu super-herói favorito ser vilipendiado, não é um imaturo buscando uma causa, mas alguém que sabe que aquele personagem, ainda que ficto, serve como parte da formação cultural da sociedade que conhecera e percebe que a degradação de qualquer fração seve a intenta de corroer o todo. Ao se apropriarem das figuras cultuadas no cenário pop, os revolucionário pretendem moldar, artificialmente, as futuras gerações, influenciando-as para que tenham exemplos adequados a sua doentia ideologia, algo que os fez deformar personagens para que se dobrassem às suas pautas, subvertendo valores antes indispensáveis, movimento que gerou uma reação em sentido contrário, posto que, aos que viram seus mitos sendo vilipendiados restou anunciar a revolta, pedir por mudança e, em último caso, se insurgir contra a tomada do espaço pelos asseclas dos líderes revolucionários. Ainda é preciso discorrer sobre os métodos de ocupação de espaços, uma vez que, os revolucionários assumiram tal compromisso de tal forme que admitiram até perdas consideráveis para promover sua ideologia e por qual motivo não criaram suas próprias tramas e personagens, bem como, se há meio para impedir o avanço e, principalmente, disputar o espaço cultural no qual o chamado progressismo tornara-se quase hegemônico. Por fim, serve-nos de alento o fato de que a natureza revolucionária, em razão de sua visão relativista, é desconectada da realidade e desprovida de valores morais, portanto, suas obras mais incisivas, ou seja, as que propagam sua ideologia de forma mais acentuada, são incompatíveis com o senso comum e sofrem a rejeição natural do destinatário. Basta imaginar uma história na qual o bilionário Bruce Wayne se torna um vilão apenas por ser rico, que Clark Kent não se importe com seu lado humano em conflito com seu dever de combater o mal e que Jotaro Kujo deixasse sua mãe morrer doente por não considerar que valeria se sacrificar em uma jornada suicida contra um inimigo extremamente poderoso só para salvá-la e teríamos narrativas desastrosas em que protagonistas estariam mais preocupadas em dar lições de moral vazias em detrimento de seu dever. Os valores doentios dos revolucionários os levam a mentir, negando que impõem sua nefasta agenda às produções culturais por saberem o quão torpe é sua ação, entretanto, são incapazes de esconder que não aceitam que haja resistência no campo da dramaturgia. Exigindo que qualquer produção de cunho diverso de sua ideologia seja atacada e até mesmo impedida de ser realizada, como fizeram com o filme O Som da Liberdade, com documentário da Brasil Paralelo e, atualmente, com o filme Dark Horse. Não há como negar a importância da chamada guerra cultural para o espectro revolucionário, tanto que criaram um séquito próprio para atuar em tal front, grupo que se autodenominou Woke, que em inglês significa desperto, sugerindo que tais indivíduos estavam acordados para uma realidade mais profunda ou tinha uma visão mais apurada que o público em geral, nada além de uma reedição do termo iluminismo, cujos artífices alegavam portar uma luz capaz de guiar a humanidade, entrementes, trouxeram a destruição em forma de guilhotina. O ativismo woke, que de desperto não tem nada, pois é composto por indivíduos que buscam destaque se amoldando em figuras perturbadas e bizarras que pretendem cativar atenção por serem dissonantes do geral, mas seguem padrões criados por seus próprios membros ao passo que lutam para compreenderem sua ilusão de mundo volátil que acreditam permitir o querer sobrepujar a verdade, avançando suas pautas autofágicas e se afundando cada vez mais na lama de esquizofrenia social, cultural e jurídica, para tentar obter uma vantagem e impor suas vontades cada vez mais delirantes. A guerra dos ativistas woke, assim com de todos os revolucionários, não é contra os reacionários, mas, antes de tudo, contra a realidade.   Leia o artigo: Doce veneno Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • A Preferência pelos Pobres

    Entre o Evangelho, o Magistério e as Máscaras do Nosso Tempo Quando uma verdade vira slogan “A Igreja sempre teve preferência pelos pobres.”   A frase, repetida à exaustão em discursos religiosos, redes sociais e campanhas pastorais, tornou-se quase um mantra. Em muitos ambientes, funciona como selo de autenticidade moral, como se bastasse pronunciá-la para que a instituição — ou o indivíduo — fosse automaticamente identificado com o Evangelho. Mas slogans, quando repetidos sem profundidade, perdem a força. Tornam-se ferramentas de autopromoção, não de conversão. E é justamente nesse ponto que a reflexão se torna urgente: quando a frase deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para quem a pronuncia, algo se rompe. Este artigo revisita o sentido original da “preferência pelos pobres”, confronta suas distorções contemporâneas e recoloca o tema no terreno onde ele nasceu: o Evangelho. A raiz evangélica da opção pelos pobres A opção pelos pobres não é invenção moderna. Ela nasce da própria vida de Jesus: um homem que veio ao mundo em Belém, cresceu em Nazaré — uma vila periférica — e viveu em uma família humilde. José era carpinteiro, profissão digna, mas simples. A oferta feita no templo após o nascimento de Jesus foi de duas rolinhas, a oferta dos pobres segundo a Lei. A proximidade de Jesus com os pobres não foi estratégia, mas consequência natural de sua encarnação. Ele tocou os excluídos, curou os doentes, acolheu os marginalizados e proclamou bem-aventurados os pobres. Mas é preciso dizer com clareza: preferência pelos pobres não significa preferir a pobreza. O Evangelho não romantiza a miséria. Abraçar o pobre não é abraçar a pobreza. Quem ama de verdade deseja que o outro cresça, prospere, tenha dignidade. A opção pelos pobres é libertadora, não fatalista. Ela não mantém ninguém na escassez; ao contrário, busca superá-la. Quando a preferência vira palco e máscara A vitrine da bondade Há um fenômeno crescente no ambiente religioso: pessoas que usam os pobres como vitrine moral. É o discurso do “olhem como sou bom, escolho os pobres”, enquanto a vida cotidiana é marcada por autopromoção, vaidade espiritual e necessidade constante de aparecer. A caridade vira conteúdo.  O pobre vira cenário.  A causa vira maquiagem.   Em vez de conversão, performance.  Em vez de testemunho, marketing.   E, muitas vezes, essa encenação serve para esconder um passado que a pessoa não quer enfrentar. O pobre vira biombo moral, como se a proximidade com ele apagasse automaticamente erros, vícios ou incoerências. A militância travestida de pastoral Outro desvio frequente é transformar o altar em palanque.  O ambão vira tribuna.  A homilia vira comício.  A liturgia vira espaço de disputa ideológica.   Não se trata de negar que a fé tenha implicações sociais — ela tem, e profundas. Mas há diferença entre anunciar o Evangelho e instrumentalizá-lo. Entre formar consciências e manipular emoções. Entre denunciar injustiças e promover partidos. Quando a “preferência pelos pobres” é usada como senha ideológica, ela deixa de ser evangélica e passa a ser partidária. A hipocrisia que corrói por dentro A hipocrisia sacerdotal não está na fragilidade humana — todos somos frágeis —, mas no uso do Evangelho como máscara. Ela aparece quando: - se prega simplicidade, mas se vive com privilégios  - se condena a ganância alheia, mas se busca prestígio  - se fala de justiça, mas se pratica abuso de poder  - se denuncia estruturas externas, mas se ignora as internas  - se usa o pobre como escudo para não encarar a própria história Quando isso acontece, a frase “preferência pelos pobres” deixa de ser verdade e se torna caricatura. Fé e política: inseparáveis na pessoa, distintas nos lugares A palavra “política” vem de polis, que significa “cidade”.  A polis era o espaço da vida pública, onde os cidadãos decidiam juntos o destino comum. Ser político, portanto, não é ser partidário.  É participar da vida da cidade, da sociedade, do bem comum. Todo ser humano é político.  Toda escolha — ou omissão — tem impacto social.   Mas há uma distinção essencial: - na liturgia, o ministro fala em nome da Igreja  - na sociedade, ele fala como cidadão Misturar os dois é trair ambos. Jesus, os pobres e os ricos: uma relação sem maniqueísmos Jesus nasceu pobre, viveu pobre e anunciou o Reino aos pobres. Mas nunca rejeitou os ricos. Pelo contrário, teve amigos com posses que foram fundamentais para sua missão: - José de Arimateia, que ofereceu o túmulo novo  - Nicodemos, que trouxe perfumes caros para o sepultamento  - Mulheres que o seguiam, sustentando a missão com seus bens  - A família de Betânia, que oferecia hospitalidade   Jesus não condena a riqueza em si, mas o apego, a indiferença e a idolatria.  O problema não é ter bens, mas ser escravo deles. Comunismo, capitalismo e a visão social da Igreja A Igreja condena o comunismo histórico por sua negação de Deus, supressão da liberdade e visão materialista do ser humano. Ao mesmo tempo, alerta contra os excessos do capitalismo, especialmente quando ele idolatra o lucro, explora o trabalhador e gera desigualdade extrema. Nenhum dos dois sistemas é “evangélico”.  Ambos podem ser desumanizantes.  O Evangelho julga os sistemas, não se submete a eles.   Entre fidelidade e hipocrisia A frase “a Igreja sempre teve preferência pelos pobres” é verdadeira quando: promove dignidade , busca justiça, eleva o pobre (não a sua pobreza), nasce de conversão, não de marketing  e é vivida no silêncio (não exibida em vitrines). Mas se torna hipocrisia quando: - vira slogan  - vira escudo para militância  - vira instrumento de vaidade  - vira máscara para esconder o passado  - vira arma para atacar irmãos   A verdadeira preferência pelos pobres é libertadora, não ideológica.  É evangélica, não partidária.  É humilde, não exibicionista.  É Cristo, não marketing. E aqui vai o alerta que não pode ser ignorado:  Nem todo religioso que fala dos pobres serve a Cristo.  Nem todo pregador que se emociona no altar está em comunhão com o Evangelho.  Nem todo líder que se diz profeta é, de fato, porta-voz de Deus. Há falsos profetas — e alguns estão dentro da Igreja.  Falam bonito, gesticulam com paixão, citam os pobres como escudo, mas não vivem o que pregam.  Usam a fé como disfarce, o altar como palco, e o povo como massa de manobra. Por isso, é preciso discernimento.  É preciso coragem.  É preciso lucidez espiritual. Porque o Evangelho não é teatro.  E a caridade não é espetáculo. Cristo não veio para ser usado.  Veio para ser seguido.   Neste Natal, que o verdadeiro Jesus esteja presente em nossas vidas! Leia ao artigo: O Narcisismo como Fenômeno Social e Pecado Espiritual Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

  • Só mais um bate-papo na sala dos professores

    Chegamos ao final de mais um ano. Para nós, professores que lutamos em sala de aula para construir um país em que “fascismo” não seja um xingamento vazio e a democracia não seja um conceito feito de massa de modelar, o fim do período letivo não foi dos mais animadores. Poucas semanas antes do último conselho de classe de 2025, um decreto do governador Cláudio Castro — Decreto nº 49.994/2025 —, com validade de três anos, transformou nossos esforços em uma verdadeira luta de Davi contra Golias, mas sem a funda. Alunos da 1ª e da 2ª série do Ensino Médio poderão avançar de ano mesmo que tenham sido reprovados em até seis disciplinas, e os da 3ª série têm o limite de três. Ainda assim, diante de notícias tão ruins, era necessário comparecer à unidade escolar e cumprir a sagrada missão do magistério. Era para ser apenas mais uma noite de aulas em uma escola pública qualquer do estado do Rio de Janeiro. Era só mais um momento entre aulas na sala dos professores. Era mais um bate-papo típico, cheio de quase-nadas para encher o tempo, até que uma colega resmunga sobre uma consulta médica qualquer e sobre um assunto puxado pelo seu médico. Ele, ao descobrir a profissão de sua nova paciente, diz tentando fazer graça: "a maioria dos professores são comunistas, não é?". Profundamente incomodada, ela aceita o diálogo e prossegue fazendo perguntas que são respondidas pelo médico, entremeadas por uma receita, um carimbo, um rabisco. Ao narrar o diálogo, ela cita perguntas aparentemente inocentes, mas carregadas de intenção: - “Onde existe socialismo no mundo? Afinal, até a China, que é usada como exemplo, é capitalista.” - “O que é mais-valia?” Segundo ela, todas as respostas dadas pelo médico definiam mais o capitalismo do que o socialismo. Seu ponto mais impactante residia na pergunta sobre a existência ou não do socialismo na atualidade. À primeira vista, a questão parece perspicaz. No entanto, revela mais sobre a limitação do raciocínio de minha colega de profissão do que sobre a realidade histórica. O que está embutido nesse questionamento é a ideia capciosa de que, se o socialismo não existe de fato, todos os problemas sociais e humanos só podem ser fruto do capitalismo. Trata-se, na verdade, de uma expressão clara do efeito Dunning-Kruger: confiança exagerada em um entendimento superficial, incapaz de enxergar a complexidade dos sistemas econômicos e políticos. Mas como entender a raiz da irritação da nossa professora anônima? O que ocorre de fato, é que hoje não existe nenhum país que seja socialista no sentido puro, como Marx descreveu. Alguns Estados, como China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte, se dizem socialistas, mas todos incorporaram elementos capitalistas, em especial a China e o Vietnã. Já países da Europa do Norte são capitalistas, mas aplicam políticas social-democratas, que também vêm do socialismo. Ou seja: não existe socialismo puro em prática hoje, mas sim diferentes misturas e interpretações. Assim como não existe socialismo puro no mundo, também não existe capitalismo puro. Mesmo os países mais liberais, como Estados Unidos, Hong Kong ou Cingapura, mantêm algum nível de intervenção do Estado, impostos e políticas sociais. O capitalismo, na prática, sempre tem vindo em versões mistas. Ao longo da história, com a exceção da extinta URSS, torna-se evidente que nem o socialismo, nem o capitalismo existem em estado “puro”. Ambos se manifestam historicamente em formas híbridas, que combinam elementos de mercado e de Estado, de iniciativa privada e de políticas sociais. Reconhecer isso não é enfraquecer a análise, mas torná-la mais próxima da realidade. Para efeito de comparação, será necessário baixar a régua ideológica. Ao descer a régua até o nível do que de fato existe, escapa-se tanto da utopia quanto da caricatura ideológica. No caso do socialismo, Marx sonhou com a superação das classes e a justa distribuição da riqueza. Contudo, como sabemos, a produção de riqueza não surge do nada: exige trabalho, conhecimento, capital, infraestrutura e risco. A ideia de que “se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence” soa mais como sofisma do que como ciência social. A prática socialista, em seus experimentos históricos, esbarrou justamente nesse ponto: a dificuldade de alinhar interesses coletivos a motivações individuais, frequentemente recorrendo à coerção estatal para suprir a falha. O paralelo com o nazismo aparece aqui como algo interessante: ambos os sistemas, em nome de um suposto bem maior, esmagaram individualidades. O nazismo pela raça, o socialismo pelo Estado. A consequência foi a mesma: o colapso moral e político. No quesito coerção estatal, a diferença é apenas a bandeira. Diante dessa realidade, o discurso de muitos defensores do socialismo, assim como minha colega, vem mantendo contornos de autoengano. Ao dizer que “o verdadeiro socialismo nunca existiu”, a professora construiu para si uma mentira piedosa, que lhe permite manter o ideal limpo das manchas históricas sem precisar assumir os ônus da prática. Vive no capitalismo (ainda que híbrido), respira dele, beneficia-se dele, mas conserva para si a ilusão de que pertence a um campo moral superior. É dissonância cognitiva, sim, mas também algo além: uma forma de virtude sinalizada, de idealismo inconsequente que custa pouco a quem o proclama. Pessoas assim não formam um grupo coeso, arriscaria distinguir três perfis de socialistas: 1. Os que sabem o que é o socialismo e querem continuar a se beneficiar dele agora, ou quem sabe no futuro. 2. Os que acham que sabem o que é o socialismo e esperam um dia se beneficiar. 3. Os que não sabem o que é o socialismo, e não se importam em saber, pois já se beneficiam de alguma de suas políticas e não querem que este cenário mude. Nos três casos, a doutrina coletivista se apoia em indivíduos movidos por interesses próprios. O socialismo, em sua retórica, é coletivo; em sua prática, é um mosaico de motivações pessoais. E é aqui que se abre a conclusão moral. Mais coerente é o homem ou a mulher que aceita viver no capitalismo, com sua lógica de competição, desigualdade e complexidade. Que entende que a vida humana e terrena não é justa, nunca foi ou será, mas que pode no limite de suas forças, aliviar dores alheias sem a ilusão de ser o redentor do mundo. Que exerce o individualismo sem se tornar egoísta, e que reconhece a desigualdade como parte inseparável da existência humana. Essa pessoa, consciente de suas limitações e de sua liberdade, é a antítese do hipócrita: não precisa se esconder atrás de utopias inalcançáveis nem de discursos morais que não sustenta na prática. Em última análise, o socialismo fracassa porque tenta transformar o homem em algo que ele não é: um ser desprovido de interesses próprios. O capitalismo, por sua vez, funciona porque parte justamente daquilo que o homem é — competitivo, imperfeito, desigual — mas capaz, ainda assim, de gestos de humanidade. A professora militante, ao se refugiar na mentira piedosa do “socialismo inexistente”, perde essa verdade fundamental: não há sistema que nos salve de nós mesmos, mas há a possibilidade de viver sem hipocrisia. Esta história é baseada em fatos. Não houve réplica, tréplica ou discussão: apenas o testemunho daquele relato. De que adiantaria retrucar? O ambiente escolar já está demasiado poluído por vieses ideológicos; haveria mais animosidade e mais perda de energia, sem um fim concreto. Como já dissemos em outro artigo, nossos maiores problemas não estão resumidos à militância no ambiente escolar, pois agora temos também um decreto que se soma aos muitos pântanos da educação. Que venha 2026, e quem sabe nossos colegas possam compreender a frase atribuída ao humorista americano Groucho Marx: “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. A todos nós desejamos um ano de 2026 cheio de esperança em dias melhores!    Leia o artigo:  O Estado democrático tropical brasileiro Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania  Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

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