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A imaginação da civilização

A imaginação da civilização

No clássico filme Tubarão, o xerife de uma pequena cidade costeira, que dependia do turismo como fonte de renda, arrisca sua carreira ao desafiar o prefeito local e a própria vida ao se lançar ao mar em busca de uma criatura fascinantemente perigosa. Lutando conta a ambição política ao passo que tenta capturar um dos mais temidos predadores existentes, mas seu dever para com aqueles que, eventualmente, encontrariam a morte nas presas da fera marinha o motivou a assumir todos os riscos e tentar destruí-la.

O filme trata de um conflito homem versus fera, mas tal conflito poderia ser suprimido se o xerife ignorasse o risco e aceitasse que algumas vidas perdidas poderiam ser suportadas em nome do sucesso do evento que trazia turistas, e com eles lucro, à sua cidade. Todavia, não haveria qualquer o valor moral em um homem que vendo o mal, no caso do filme representado pelo predador, espreitar seus semelhantes e simplesmente se omitisse para se manter em uma posição confortável. O protagonista da trama vai além, pois não se limita a enfrentar a autoridade política, mas coloca sua vida em risco para abater o temível tubarão, evidenciando seu heroísmo.

A inspiração da clássica obra de ficção nos aponta para o fato de que um herói é, sobretudo, aquele que se dispõe a enfrentar o mal, ainda que seja muito mais forte, como um tubarão é para o homem, por seu dever de salvar aqueles que, por justiça, não merecem um destino trágico que pode ser evitado, ainda que tal ação custe-lhe a vida.

Quando Frodo Bolseiro deixa o conforto do Condado, em O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel, sua motivação é atender a súplica do mago Gandalf para que leve o objeto maligno ao reino élfico de Valfenda, mas o que realmente move o pequeno hobbit é a noção, em um primeiro momento pouco evidente, que os demais habitantes do Condado pagariam um preço muito alto quando as hordas de Mordor cruzassem as fronteiras daquele pacífico lugar. Frodo sabia que seus pares, simplórios e gentis, não mereciam o nefasto destino de confrontar as lâminas dos nasguls e seus seguidores, por isso, seguiu as orientações do velho mago e seguiu em sua perigosa empreitada.

Em Valfenda, ao perceber que portar o maligno anel até as terras do inimigo seria uma missão da qual poderia não voltar, o jovem pequenino reflete sobre a necessidade de combater o mal e acaba por se voluntariar a cumprir tão árdua missão, encorajando seu amigo, primos e outros heróis a o acompanharem, mesmo sabendo que se tratava de uma jornada à terras malignas e que provavelmente não sobreviveriam, formando assim a Sociedade do Anel.

Há um ponto em que Frodo decide continuar, apesar de sua ter experimentado provações extremas, perdendo o membro mais celebre  da sociedade, o mago Gandalf nas entranhas de Mória, é quando Galadriel, a feiticeira e rainha élfica, lhe dá a oportunidade de espiar um possível futuro e a hipótese exposta a Frodo é um futuro no qual as hordas do Senhor de Mordor finalmente chegam ao seu amado Condado. Naquele momento, o jovem hobbit percebe que sua jornada não é apenas sobre si, mas uma luta por aqueles com quem se importa.

No clássico da literatura Senhor dos Anéis, que posteriormente se estabeleceu nos cinemas, bem como no filme Tubarão, os protagonistas enfrentam criaturas perigosas com as quais não podem negociar, mas, em razão da defesa de inocentes, estão dispostos a entregarem suas vidas para derrotá-las. Entretanto, há outras obras icônicas que apresentam protagonistas cuja jornada se dá em razão de outro motivador, como na Odisseia de Homero, na qual o protagonista, após a vitória dos reinos da Grécia sobre Tróia, acaba desafiando o deus dos mares e se vê passando por tormentas imposta pela referida divindade.

Ulisses, ou Odisseu, não busca a salvação de seus pares ou da humanidade, tampouco destruir uma fera indomável para proteger os inocentes, sua jornada tem como objeto central voltar à Ítaca, seu reino, e para o seio de sua família, em especial, sua amada esposa Penélope. A força que move o protagonista o impede de desistir mesmo diante de bestas mitológicas como Cila e Caríbdis, e ainda, resistir aos encantos da feiticeira Circe.

A dramaturgia, desde a antiguidade, se presta ao fortalecimento da cultura de um povo ou civilização como um todo, retratando de forma lúdica ou sugerindo hipóteses que poderiam ser experimentadas, seja como promoção de uma ideia ou alerta para um risco. É evidente que a ficção pode tratar de temas reais sem que para tal seja um documentário ou obra baseada ou inspirada em uma história real, posto que, um autor poderia criar uma narrativa sem relação direta com a realidade, mas que transmite valores aplicáveis, podendo trazer uma reflexão, uma promoção ou um alerta.

Documentários, em regra, tentam representar a realidade como ocorrera, podendo ser enviesados conforme o ímpeto de seus produtores, todavia, ao lançar mão de uma produção que se apresenta de tal forma, será necessário observar três fatores, posto que, um documentário depende de uma pesquisa que possa embasar sua narrativa, poderá ser confrontado e seus produtores devem gozar de certa credibilidade. Não são raros os documentários desmentidos por encobrirem, distorcerem ou ignorarem estudos e relatos acerca de determinado tema, como podemos citar a tentativa do Canal Nostalgia, no YouTube, de documentar a Guerra da Coréia, desmontado pelo Historiador Tiago Braga.

A falta de confiabilidade em relação aos responsáveis por produções de tal natureza também colocará em dúvida o teor da obre, pois não seria lógico acreditar em um documentário político elaborado pela BBC depois do escândalo recente no que tange a divulgação distorcida de falas do Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump.

A ficção, por outro lado, pode discutir um tema com maior liberdade, haja vista que, o autor não se verifica aprisionado aos fatos, podendo propor ou hipótese ou advertir sobre temores que guarda em seu íntimo, externalizando tais premissas em situações que não dependem de confirmação, logo, suas divagações não estão sujeitas ao escrutínio da realidade, fazendo-se necessária a quebra de um limite para a aceitação da obra por parte de seu destinatário, a chamada suspensão da descrença.

Quando se trata de uma obra baseada em fatos reais, o autor pode se permitir alterar pontos não determinantes da trama para que sua narrativa fique mais agradável ou de melhor compreensão e, no caso da inspiração em fatos reais, tal liberdade torna-se ainda maior.

Na ficção sem correlação direta com a realidade, o autor pode avançar e instigar o receptor para que haja maior suspensão da descrença, se permitindo trazer hipóteses as quais não seriam assimiladas em se tratando da realidade. Não por acaso, George Orwell nos levou a imaginar uma fazenda sob a administração de animais que, após uma verdadeira Revolução dos Bichos, assumiram o controle e estabeleceram um regime que transformou a Fazenda dos Animais em uma verdadeira ditadura. Os porcos, que representavam a elite revolucionária, controlavam os demais animais e estabeleceram regras das quais eles mesmos não estavam sujeitos.

O conto de Orwell poderia ser um documentário sobre qualquer país comunista, mas a forma lúdica como o autor introduziu os animais e os organizou em sociedade fez com que a imaginação do leitor pudesse alçar patamares mais elevados, trazendo um alerta e propondo uma bela reflexão sobre um tema sem se direcionar a pessoas específicas, pois trazia comportamentos humanos transplantados para aquelas criaturas, como o mal que se apresentou na forma de um tubarão ou do Senhor de Mordor.

A literatura nos trouxe hipóteses para reflexão que ajudaram a fortalecer valores que já nos eram caros, além de nos permitir ver o mundo por prismas que jamais poderíamos experimentar, transportando-nos para lugares e situações, para que pudéssemos avaliar riscos, sentir emoções e fazer julgamentos de algo não vivido na realidade, mas em nossas imaginações. O apego às tramas e personagens surge da capacidade humana de identificar outrem, gerando empatia, tão somente pelas narrativas que o cercam, ainda que não exista contato real.

Algumas histórias se tornam parte integrante de uma sociedade ajudando a ligar até mesmo povos, a Odisseia é um grande exemplo, pois sua influência pode ser sentida em toda a civilização ocidental e quiçá mundial, assim como os contos de Beowulf e dos Cavaleiros da Távola Redonda foram fundamentais para a consolidação da sociedade inglesa, que se fortaleceu com obras como as de Willian Shakespeare, John Ronald Reuel Tolkien (em que pese sua origem sul-africana) e, na contemporaneidade, Joanne Rowling.

O Brasil também teve figuras memoráveis, mas não os enumeraremos por dois simples motivos, deixar de mencionar algum, o que seria enorme injustiça, ou pior, pela constatação de que a literatura da nossa sociedade aparenta certa vacância de estrelas, nos levando a triste constatação de que o cenário cultural brasileiro submerge gradualmente, em que pese, sempre haverá esperança de que surgirão figuras aptas a resgatar tão degradado espaço.

Na formação do imaginário de um povo a dramaturgia sempre esteve presente, de contos passados por gerações de forma não escrita à cultura pop, a mitologia, e não nos restringimos ao divino, faz parte da vivência de um indivíduo, de uma sociedade e até mesmo uma civilização. Figuras como Dante, da obra o Inferno de Dante, que não viajou de fato pelo submundo, tornaram-se tão influentes que são quase confundidos com figuras históricas reais.

Se a Santa Joana D’Arc, os imperadores Marco Aurélio, Júlio César e Constantino, os navegantes Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Pedro Alvares Cabral, déspotas como Adolf Hitler, Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, marcaram a história como personalidades reais, não há como descartar a participação de personagens fictícios como Ulisses, Jasão, Robbin Hood, Dom Quixote, Hamlet, Raskólnikov, Sherlock Homes, Frodo Bolseiro e, no cenário atual, Bruce Wayne, Peter Parker e Anakin Skywalker, como figuras tão proeminentes que são comumente citados como pessoas, reais ou não, as quase todos que os conhecem por razões culturais, em que pese os três últimos personagens fictícios, da contemporaneidade, sejam mais conhecidos por seus alter egos, respectivamente, Batman, Homen-aranha e Darth Vader.

As obras que se tornaram parte da cultura ora se confundem com a história de um determinado povo, pois sua narrativa está tão intimamente ligada ao imaginário popular que, por vezes, os menos atentos acreditam se tratarem de ocorrências reais e que seus personagens, de fato, existiam, restando evidente um fator que pode explicar o apego ao imaginário, justificando o motivo de fãs de determinada obra ou figura fictícia se incomodarem sobremaneira quando as veem vilipendiadas.

Por mais que o Rei Arthur não tenha sua existência confirmada, não há como negar que um inglês genuíno se sentiria incomodado com a destruição de traços fundamentais de tão icônica figura, o mesmo valeria para Héracles e tantos outros, portanto, tal pensamento aplicar-se-ia aos símbolos da cultura contemporânea, de forma que, resta evidente a irritação por uma parte dos admiradores de tais personagens, algo que, longe de ser um devaneio diz muito sobre a preservação da identidade cultural, ou seja, um jovem que manifesta insatisfação ao ver seu super-herói favorito ser vilipendiado, não é um imaturo buscando uma causa, mas alguém que sabe que aquele personagem, ainda que ficto, serve como parte da formação cultural da sociedade que conhecera e percebe que a degradação de qualquer fração seve a intenta de corroer o todo.

Ao se apropriarem das figuras cultuadas no cenário pop, os revolucionário pretendem moldar, artificialmente, as futuras gerações, influenciando-as para que tenham exemplos adequados a sua doentia ideologia, algo que os fez deformar personagens para que se dobrassem às suas pautas, subvertendo valores antes indispensáveis, movimento que gerou uma reação em sentido contrário, posto que, aos que viram seus mitos sendo vilipendiados restou anunciar a revolta, pedir por mudança e, em último caso, se insurgir contra a tomada do espaço pelos asseclas dos líderes revolucionários.

Ainda é preciso discorrer sobre os métodos de ocupação de espaços, uma vez que, os revolucionários assumiram tal compromisso de tal forme que admitiram até perdas consideráveis para promover sua ideologia e por qual motivo não criaram suas próprias tramas e personagens, bem como, se há meio para impedir o avanço e, principalmente, disputar o espaço cultural no qual o chamado progressismo tornara-se quase hegemônico.

Por fim, serve-nos de alento o fato de que a natureza revolucionária, em razão de sua visão relativista, é desconectada da realidade e desprovida de valores morais, portanto, suas obras mais incisivas, ou seja, as que propagam sua ideologia de forma mais acentuada, são incompatíveis com o senso comum e sofrem a rejeição natural do destinatário.

Basta imaginar uma história na qual o bilionário Bruce Wayne se torna um vilão apenas por ser rico, que Clark Kent não se importe com seu lado humano em conflito com seu dever de combater o mal e que Jotaro Kujo deixasse sua mãe morrer doente por não considerar que valeria se sacrificar em uma jornada suicida contra um inimigo extremamente poderoso só para salvá-la e teríamos narrativas desastrosas em que protagonistas estariam mais preocupadas em dar lições de moral vazias em detrimento de seu dever.

Os valores doentios dos revolucionários os levam a mentir, negando que impõem sua nefasta agenda às produções culturais por saberem o quão torpe é sua ação, entretanto, são incapazes de esconder que não aceitam que haja resistência no campo da dramaturgia. Exigindo que qualquer produção de cunho diverso de sua ideologia seja atacada e até mesmo impedida de ser realizada, como fizeram com o filme O Som da Liberdade, com documentário da Brasil Paralelo e, atualmente, com o filme Dark Horse.

Não há como negar a importância da chamada guerra cultural para o espectro revolucionário, tanto que criaram um séquito próprio para atuar em tal front, grupo que se autodenominou Woke, que em inglês significa desperto, sugerindo que tais indivíduos estavam acordados para uma realidade mais profunda ou tinha uma visão mais apurada que o público em geral, nada além de uma reedição do termo iluminismo, cujos artífices alegavam portar uma luz capaz de guiar a humanidade, entrementes, trouxeram a destruição em forma de guilhotina.

O ativismo woke, que de desperto não tem nada, pois é composto por indivíduos que buscam destaque se amoldando em figuras perturbadas e bizarras que pretendem cativar atenção por serem dissonantes do geral, mas seguem padrões criados por seus próprios membros ao passo que lutam para compreenderem sua ilusão de mundo volátil que acreditam permitir o querer sobrepujar a verdade, avançando suas pautas autofágicas e se afundando cada vez mais na lama de esquizofrenia social, cultural e jurídica, para tentar obter uma vantagem e impor suas vontades cada vez mais delirantes.

A guerra dos ativistas woke, assim com de todos os revolucionários, não é contra os reacionários, mas, antes de tudo, contra a realidade.

 

Leia o artigo: Doce veneno


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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

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