A Preferência pelos Pobres
- Juliette Oliveira
- há 6 dias
- 5 min de leitura
Entre o Evangelho, o Magistério e as Máscaras do Nosso Tempo

Quando uma verdade vira slogan
“A Igreja sempre teve preferência pelos pobres.”
A frase, repetida à exaustão em discursos religiosos, redes sociais e campanhas pastorais, tornou-se quase um mantra. Em muitos ambientes, funciona como selo de autenticidade moral, como se bastasse pronunciá-la para que a instituição — ou o indivíduo — fosse automaticamente identificado com o Evangelho.
Mas slogans, quando repetidos sem profundidade, perdem a força. Tornam-se ferramentas de autopromoção, não de conversão. E é justamente nesse ponto que a reflexão se torna urgente: quando a frase deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para quem a pronuncia, algo se rompe.
Este artigo revisita o sentido original da “preferência pelos pobres”, confronta suas distorções contemporâneas e recoloca o tema no terreno onde ele nasceu: o Evangelho.
A raiz evangélica da opção pelos pobres
A opção pelos pobres não é invenção moderna. Ela nasce da própria vida de Jesus: um homem que veio ao mundo em Belém, cresceu em Nazaré — uma vila periférica — e viveu em uma família humilde. José era carpinteiro, profissão digna, mas simples. A oferta feita no templo após o nascimento de Jesus foi de duas rolinhas, a oferta dos pobres segundo a Lei.
A proximidade de Jesus com os pobres não foi estratégia, mas consequência natural de sua encarnação. Ele tocou os excluídos, curou os doentes, acolheu os marginalizados e proclamou bem-aventurados os pobres.
Mas é preciso dizer com clareza: preferência pelos pobres não significa preferir a pobreza.
O Evangelho não romantiza a miséria. Abraçar o pobre não é abraçar a pobreza. Quem ama de verdade deseja que o outro cresça, prospere, tenha dignidade. A opção pelos pobres é libertadora, não fatalista. Ela não mantém ninguém na escassez; ao contrário, busca superá-la.
Quando a preferência vira palco e máscara
A vitrine da bondade
Há um fenômeno crescente no ambiente religioso: pessoas que usam os pobres como vitrine moral. É o discurso do “olhem como sou bom, escolho os pobres”, enquanto a vida cotidiana é marcada por autopromoção, vaidade espiritual e necessidade constante de aparecer.
A caridade vira conteúdo.
O pobre vira cenário.
A causa vira maquiagem.
Em vez de conversão, performance.
Em vez de testemunho, marketing.
E, muitas vezes, essa encenação serve para esconder um passado que a pessoa não quer enfrentar. O pobre vira biombo moral, como se a proximidade com ele apagasse automaticamente erros, vícios ou incoerências.
A militância travestida de pastoral
Outro desvio frequente é transformar o altar em palanque.
O ambão vira tribuna.
A homilia vira comício.
A liturgia vira espaço de disputa ideológica.
Não se trata de negar que a fé tenha implicações sociais — ela tem, e profundas. Mas há diferença entre anunciar o Evangelho e instrumentalizá-lo. Entre formar consciências e manipular emoções. Entre denunciar injustiças e promover partidos.
Quando a “preferência pelos pobres” é usada como senha ideológica, ela deixa de ser evangélica e passa a ser partidária.
A hipocrisia que corrói por dentro
A hipocrisia sacerdotal não está na fragilidade humana — todos somos frágeis —, mas no uso do Evangelho como máscara. Ela aparece quando:
- se prega simplicidade, mas se vive com privilégios
- se condena a ganância alheia, mas se busca prestígio
- se fala de justiça, mas se pratica abuso de poder
- se denuncia estruturas externas, mas se ignora as internas
Quando isso acontece, a frase “preferência pelos pobres” deixa de ser verdade e se torna caricatura.
Fé e política: inseparáveis na pessoa, distintas nos lugares
A palavra “política” vem de polis, que significa “cidade”.
A polis era o espaço da vida pública, onde os cidadãos decidiam juntos o destino comum.
Ser político, portanto, não é ser partidário.
É participar da vida da cidade, da sociedade, do bem comum.
Todo ser humano é político.
Toda escolha — ou omissão — tem impacto social.
Mas há uma distinção essencial:
- na liturgia, o ministro fala em nome da Igreja
- na sociedade, ele fala como cidadão
Misturar os dois é trair ambos.
Jesus, os pobres e os ricos: uma relação sem maniqueísmos
Jesus nasceu pobre, viveu pobre e anunciou o Reino aos pobres. Mas nunca rejeitou os ricos. Pelo contrário, teve amigos com posses que foram fundamentais para sua missão:
- José de Arimateia, que ofereceu o túmulo novo
- Nicodemos, que trouxe perfumes caros para o sepultamento
- Mulheres que o seguiam, sustentando a missão com seus bens
- A família de Betânia, que oferecia hospitalidade
Jesus não condena a riqueza em si, mas o apego, a indiferença e a idolatria.
O problema não é ter bens, mas ser escravo deles.
Comunismo, capitalismo e a visão social da Igreja
A Igreja condena o comunismo histórico por sua negação de Deus, supressão da liberdade e visão materialista do ser humano. Ao mesmo tempo, alerta contra os excessos do capitalismo, especialmente quando ele idolatra o lucro, explora o trabalhador e gera desigualdade extrema.
Nenhum dos dois sistemas é “evangélico”.
Ambos podem ser desumanizantes.
O Evangelho julga os sistemas, não se submete a eles.
Entre fidelidade e hipocrisia
A frase “a Igreja sempre teve preferência pelos pobres” é verdadeira quando: promove dignidade , busca justiça, eleva o pobre (não a sua pobreza), nasce de conversão, não de marketing e é vivida no silêncio (não exibida em vitrines).
Mas se torna hipocrisia quando:
- vira slogan
- vira escudo para militância
- vira instrumento de vaidade
- vira máscara para esconder o passado
- vira arma para atacar irmãos
A verdadeira preferência pelos pobres é libertadora, não ideológica.
É evangélica, não partidária.
É humilde, não exibicionista.
É Cristo, não marketing.
E aqui vai o alerta que não pode ser ignorado:
Nem todo religioso que fala dos pobres serve a Cristo.
Nem todo pregador que se emociona no altar está em comunhão com o Evangelho.
Nem todo líder que se diz profeta é, de fato, porta-voz de Deus.
Há falsos profetas — e alguns estão dentro da Igreja.
Falam bonito, gesticulam com paixão, citam os pobres como escudo, mas não vivem o que pregam.
Usam a fé como disfarce, o altar como palco, e o povo como massa de manobra.
Por isso, é preciso discernimento.
É preciso coragem.
É preciso lucidez espiritual.
Porque o Evangelho não é teatro.
E a caridade não é espetáculo.
Cristo não veio para ser usado.
Veio para ser seguido.
Neste Natal, que o verdadeiro Jesus esteja presente em nossas vidas!
Leia ao artigo: O Narcisismo como Fenômeno Social e Pecado Espiritual
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867





















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