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A Preferência pelos Pobres

Entre o Evangelho, o Magistério e as Máscaras do Nosso Tempo

A Preferência pelos Pobres

Quando uma verdade vira slogan

“A Igreja sempre teve preferência pelos pobres.” 

A frase, repetida à exaustão em discursos religiosos, redes sociais e campanhas pastorais, tornou-se quase um mantra. Em muitos ambientes, funciona como selo de autenticidade moral, como se bastasse pronunciá-la para que a instituição — ou o indivíduo — fosse automaticamente identificado com o Evangelho.

Mas slogans, quando repetidos sem profundidade, perdem a força. Tornam-se ferramentas de autopromoção, não de conversão. E é justamente nesse ponto que a reflexão se torna urgente: quando a frase deixa de apontar para Cristo e passa a apontar para quem a pronuncia, algo se rompe.

Este artigo revisita o sentido original da “preferência pelos pobres”, confronta suas distorções contemporâneas e recoloca o tema no terreno onde ele nasceu: o Evangelho.


A raiz evangélica da opção pelos pobres

A opção pelos pobres não é invenção moderna. Ela nasce da própria vida de Jesus: um homem que veio ao mundo em Belém, cresceu em Nazaré — uma vila periférica — e viveu em uma família humilde. José era carpinteiro, profissão digna, mas simples. A oferta feita no templo após o nascimento de Jesus foi de duas rolinhas, a oferta dos pobres segundo a Lei.

A proximidade de Jesus com os pobres não foi estratégia, mas consequência natural de sua encarnação. Ele tocou os excluídos, curou os doentes, acolheu os marginalizados e proclamou bem-aventurados os pobres.

Mas é preciso dizer com clareza: preferência pelos pobres não significa preferir a pobreza.

O Evangelho não romantiza a miséria. Abraçar o pobre não é abraçar a pobreza. Quem ama de verdade deseja que o outro cresça, prospere, tenha dignidade. A opção pelos pobres é libertadora, não fatalista. Ela não mantém ninguém na escassez; ao contrário, busca superá-la.


Quando a preferência vira palco e máscara

A vitrine da bondade

Há um fenômeno crescente no ambiente religioso: pessoas que usam os pobres como vitrine moral. É o discurso do “olhem como sou bom, escolho os pobres”, enquanto a vida cotidiana é marcada por autopromoção, vaidade espiritual e necessidade constante de aparecer.

A caridade vira conteúdo. 

O pobre vira cenário. 

A causa vira maquiagem.

 

Em vez de conversão, performance. 

Em vez de testemunho, marketing.

 

E, muitas vezes, essa encenação serve para esconder um passado que a pessoa não quer enfrentar. O pobre vira biombo moral, como se a proximidade com ele apagasse automaticamente erros, vícios ou incoerências.

A militância travestida de pastoral

Outro desvio frequente é transformar o altar em palanque. 

O ambão vira tribuna. 

A homilia vira comício. 

A liturgia vira espaço de disputa ideológica.

 

Não se trata de negar que a fé tenha implicações sociais — ela tem, e profundas. Mas há diferença entre anunciar o Evangelho e instrumentalizá-lo. Entre formar consciências e manipular emoções. Entre denunciar injustiças e promover partidos.

Quando a “preferência pelos pobres” é usada como senha ideológica, ela deixa de ser evangélica e passa a ser partidária.

A hipocrisia que corrói por dentro

A hipocrisia sacerdotal não está na fragilidade humana — todos somos frágeis —, mas no uso do Evangelho como máscara. Ela aparece quando:

- se prega simplicidade, mas se vive com privilégios 

- se condena a ganância alheia, mas se busca prestígio 

- se fala de justiça, mas se pratica abuso de poder 

- se denuncia estruturas externas, mas se ignora as internas 

- se usa o pobre como escudo para não encarar a própria história

Quando isso acontece, a frase “preferência pelos pobres” deixa de ser verdade e se torna caricatura.


Fé e política: inseparáveis na pessoa, distintas nos lugares

A palavra “política” vem de polis, que significa “cidade”. 

A polis era o espaço da vida pública, onde os cidadãos decidiam juntos o destino comum.

Ser político, portanto, não é ser partidário. 

É participar da vida da cidade, da sociedade, do bem comum.

Todo ser humano é político. 

Toda escolha — ou omissão — tem impacto social.

 

Mas há uma distinção essencial:

- na liturgia, o ministro fala em nome da Igreja 

- na sociedade, ele fala como cidadão

Misturar os dois é trair ambos.


Jesus, os pobres e os ricos: uma relação sem maniqueísmos

Jesus nasceu pobre, viveu pobre e anunciou o Reino aos pobres. Mas nunca rejeitou os ricos. Pelo contrário, teve amigos com posses que foram fundamentais para sua missão:

- José de Arimateia, que ofereceu o túmulo novo 

- Nicodemos, que trouxe perfumes caros para o sepultamento 

- Mulheres que o seguiam, sustentando a missão com seus bens 

- A família de Betânia, que oferecia hospitalidade

 

Jesus não condena a riqueza em si, mas o apego, a indiferença e a idolatria. 

O problema não é ter bens, mas ser escravo deles.


Comunismo, capitalismo e a visão social da Igreja

A Igreja condena o comunismo histórico por sua negação de Deus, supressão da liberdade e visão materialista do ser humano. Ao mesmo tempo, alerta contra os excessos do capitalismo, especialmente quando ele idolatra o lucro, explora o trabalhador e gera desigualdade extrema.

Nenhum dos dois sistemas é “evangélico”. 

Ambos podem ser desumanizantes. 

O Evangelho julga os sistemas, não se submete a eles.

 

Entre fidelidade e hipocrisia

A frase “a Igreja sempre teve preferência pelos pobres” é verdadeira quando: promove dignidade , busca justiça, eleva o pobre (não a sua pobreza), nasce de conversão, não de marketing  e é vivida no silêncio (não exibida em vitrines).

Mas se torna hipocrisia quando:

- vira slogan 

- vira escudo para militância 

- vira instrumento de vaidade 

- vira máscara para esconder o passado 

- vira arma para atacar irmãos

 

A verdadeira preferência pelos pobres é libertadora, não ideológica. 

É evangélica, não partidária. 

É humilde, não exibicionista. 

É Cristo, não marketing.

E aqui vai o alerta que não pode ser ignorado: 

Nem todo religioso que fala dos pobres serve a Cristo. 

Nem todo pregador que se emociona no altar está em comunhão com o Evangelho. 

Nem todo líder que se diz profeta é, de fato, porta-voz de Deus.

Há falsos profetas — e alguns estão dentro da Igreja. 

Falam bonito, gesticulam com paixão, citam os pobres como escudo, mas não vivem o que pregam. 

Usam a fé como disfarce, o altar como palco, e o povo como massa de manobra.

Por isso, é preciso discernimento. 

É preciso coragem. 

É preciso lucidez espiritual.

Porque o Evangelho não é teatro. 

E a caridade não é espetáculo.

Cristo não veio para ser usado. 

Veio para ser seguido.

 

Neste Natal, que o verdadeiro Jesus esteja presente em nossas vidas!



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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867


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