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Só mais um bate-papo na sala dos professores

Só mais um bate-papo na sala dos professores

Chegamos ao final de mais um ano. Para nós, professores que lutamos em sala de aula para construir um país em que “fascismo” não seja um xingamento vazio e a democracia não seja um conceito feito de massa de modelar, o fim do período letivo não foi dos mais animadores.

Poucas semanas antes do último conselho de classe de 2025, um decreto do governador Cláudio Castro — Decreto nº 49.994/2025 —, com validade de três anos, transformou nossos esforços em uma verdadeira luta de Davi contra Golias, mas sem a funda. Alunos da 1ª e da 2ª série do Ensino Médio poderão avançar de ano mesmo que tenham sido reprovados em até seis disciplinas, e os da 3ª série têm o limite de três.

Ainda assim, diante de notícias tão ruins, era necessário comparecer à unidade escolar e cumprir a sagrada missão do magistério. Era para ser apenas mais uma noite de aulas em uma escola pública qualquer do estado do Rio de Janeiro. Era só mais um momento entre aulas na sala dos professores. Era mais um bate-papo típico, cheio de quase-nadas para encher o tempo, até que uma colega resmunga sobre uma consulta médica qualquer e sobre um assunto puxado pelo seu médico. Ele, ao descobrir a profissão de sua nova paciente, diz tentando fazer graça: "a maioria dos professores são comunistas, não é?". Profundamente incomodada, ela aceita o diálogo e prossegue fazendo perguntas que são respondidas pelo médico, entremeadas por uma receita, um carimbo, um rabisco. Ao narrar o diálogo, ela cita perguntas aparentemente inocentes, mas carregadas de intenção:

- “Onde existe socialismo no mundo? Afinal, até a China, que é usada como exemplo, é capitalista.”

- “O que é mais-valia?”

Segundo ela, todas as respostas dadas pelo médico definiam mais o capitalismo do que o socialismo. Seu ponto mais impactante residia na pergunta sobre a existência ou não do socialismo na atualidade. À primeira vista, a questão parece perspicaz. No entanto, revela mais sobre a limitação do raciocínio de minha colega de profissão do que sobre a realidade histórica. O que está embutido nesse questionamento é a ideia capciosa de que, se o socialismo não existe de fato, todos os problemas sociais e humanos só podem ser fruto do capitalismo. Trata-se, na verdade, de uma expressão clara do efeito Dunning-Kruger: confiança exagerada em um entendimento superficial, incapaz de enxergar a complexidade dos sistemas econômicos e políticos. Mas como entender a raiz da irritação da nossa professora anônima?

O que ocorre de fato, é que hoje não existe nenhum país que seja socialista no sentido puro, como Marx descreveu. Alguns Estados, como China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte, se dizem socialistas, mas todos incorporaram elementos capitalistas, em especial a China e o Vietnã. Já países da Europa do Norte são capitalistas, mas aplicam políticas social-democratas, que também vêm do socialismo. Ou seja: não existe socialismo puro em prática hoje, mas sim diferentes misturas e interpretações.

Assim como não existe socialismo puro no mundo, também não existe capitalismo puro. Mesmo os países mais liberais, como Estados Unidos, Hong Kong ou Cingapura, mantêm algum nível de intervenção do Estado, impostos e políticas sociais. O capitalismo, na prática, sempre tem vindo em versões mistas.

Ao longo da história, com a exceção da extinta URSS, torna-se evidente que nem o socialismo, nem o capitalismo existem em estado “puro”. Ambos se manifestam historicamente em formas híbridas, que combinam elementos de mercado e de Estado, de iniciativa privada e de políticas sociais. Reconhecer isso não é enfraquecer a análise, mas torná-la mais próxima da realidade. Para efeito de comparação, será necessário baixar a régua ideológica. Ao descer a régua até o nível do que de fato existe, escapa-se tanto da utopia quanto da caricatura ideológica.

No caso do socialismo, Marx sonhou com a superação das classes e a justa distribuição da riqueza. Contudo, como sabemos, a produção de riqueza não surge do nada: exige trabalho, conhecimento, capital, infraestrutura e risco. A ideia de que “se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence” soa mais como sofisma do que como ciência social. A prática socialista, em seus experimentos históricos, esbarrou justamente nesse ponto: a dificuldade de alinhar interesses coletivos a motivações individuais, frequentemente recorrendo à coerção estatal para suprir a falha.

O paralelo com o nazismo aparece aqui como algo interessante: ambos os sistemas, em nome de um suposto bem maior, esmagaram individualidades. O nazismo pela raça, o socialismo pelo Estado. A consequência foi a mesma: o colapso moral e político. No quesito coerção estatal, a diferença é apenas a bandeira.

Diante dessa realidade, o discurso de muitos defensores do socialismo, assim como minha colega, vem mantendo contornos de autoengano. Ao dizer que “o verdadeiro socialismo nunca existiu”, a professora construiu para si uma mentira piedosa, que lhe permite manter o ideal limpo das manchas históricas sem precisar assumir os ônus da prática. Vive no capitalismo (ainda que híbrido), respira dele, beneficia-se dele, mas conserva para si a ilusão de que pertence a um campo moral superior. É dissonância cognitiva, sim, mas também algo além: uma forma de virtude sinalizada, de idealismo inconsequente que custa pouco a quem o proclama.

Pessoas assim não formam um grupo coeso, arriscaria distinguir três perfis de socialistas:

1. Os que sabem o que é o socialismo e querem continuar a se beneficiar dele agora, ou quem sabe no futuro.

2. Os que acham que sabem o que é o socialismo e esperam um dia se beneficiar.

3. Os que não sabem o que é o socialismo, e não se importam em saber, pois já se beneficiam de alguma de suas políticas e não querem que este cenário mude.

Nos três casos, a doutrina coletivista se apoia em indivíduos movidos por interesses próprios. O socialismo, em sua retórica, é coletivo; em sua prática, é um mosaico de motivações pessoais.

E é aqui que se abre a conclusão moral. Mais coerente é o homem ou a mulher que aceita viver no capitalismo, com sua lógica de competição, desigualdade e complexidade. Que entende que a vida humana e terrena não é justa, nunca foi ou será, mas que pode no limite de suas forças, aliviar dores alheias sem a ilusão de ser o redentor do mundo. Que exerce o individualismo sem se tornar egoísta, e que reconhece a desigualdade como parte inseparável da existência humana. Essa pessoa, consciente de suas limitações e de sua liberdade, é a antítese do hipócrita: não precisa se esconder atrás de utopias inalcançáveis nem de discursos morais que não sustenta na prática.

Em última análise, o socialismo fracassa porque tenta transformar o homem em algo que ele não é: um ser desprovido de interesses próprios. O capitalismo, por sua vez, funciona porque parte justamente daquilo que o homem é — competitivo, imperfeito, desigual — mas capaz, ainda assim, de gestos de humanidade. A professora militante, ao se refugiar na mentira piedosa do “socialismo inexistente”, perde essa verdade fundamental: não há sistema que nos salve de nós mesmos, mas há a possibilidade de viver sem hipocrisia.

Esta história é baseada em fatos. Não houve réplica, tréplica ou discussão: apenas o testemunho daquele relato. De que adiantaria retrucar? O ambiente escolar já está demasiado poluído por vieses ideológicos; haveria mais animosidade e mais perda de energia, sem um fim concreto. Como já dissemos em outro artigo, nossos maiores problemas não estão resumidos à militância no ambiente escolar, pois agora temos também um decreto que se soma aos muitos pântanos da educação.

Que venha 2026, e quem sabe nossos colegas possam compreender a frase atribuída ao humorista americano Groucho Marx: “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”.

A todos nós desejamos um ano de 2026 cheio de esperança em dias melhores!

 


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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867

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