
MENEZES COSTA
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- Do manicômio ao poder
“Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo, se é verdadeiro o refrão que diz: ‘diga-me com quem anda e te direi quem és’ e o outro de ‘não com quem nasce, mas com quem passa’.” Sancho Pança (Dom Quixote de La Mancha – Miguel Cervantes). No clássico Dom Quixote de La Mancha, um corajoso cavaleiro já em idade avançada para a época, enfrentava monstros gigantes com a ajuda de seu fiel escudeiro Sancho Pança enquanto busca salvar sua amada em uma aventura memorável, não fosse pelo autor, Miguel de Cervantes, ter redigido uma sátira que gira me torno da loucura do protagonista, de maneira que, o Fidalgo, tomado por sua desconexão da realidade imaginara, não somente a donzela em perigo, mas os gigantes que acreditava lutar, que, em verdade eram moinhos de vento. Mesmo, por vezes, alertado por Sancho da realidade que os rodeava, o nobre cavaleiro espanhol insistia em combater ovelhas e se aventurar por seu mundo imaginário, seguindo em busca de um amor inexistente, portanto, utópico e renunciando a realidade, uma vez que, não era o herói das lendas de cavaleiros que tanto admirava. Ao menos a loucura de Dom Quixote não causaria maiores danos a terceiros, pois, sendo um cavaleiro sem tropas, não era capaz de curvar o mundo à sua imaginação, somente Sancho Pança e o cavalo eram constrangidos a suportar os devaneios do protagonista do genial conto. Em um exercício de imaginação, poder-se-ia o leitor supor que, caso Dom Quixote fosse o Rei da Espanha, as consequências de sua loucura sobre a sociedade seriam significantemente mais gravas. Fora das páginas de ficção, a história da humanidade aponta diversos casos de indivíduos ou grupos desconexos da realidade, seja por uma visão deturpada de mundo ou por assimilarem narrativas daqueles que buscam afastá-los da verdade, escravizando-os em uma espécie de bolha de realidade alternativa, entretanto, é preciso dizer que a loucura per si, pode, ainda que no mundo real, acarretar grandes consequências à sociedade, excetuando os casos em que os acometidos assumam papel de protagonismo, ou grande relevância, no campo do poder. Um louco investido de poder pode ser um grande mal e suas ações poderão criar prejuízos, por vezes irreparáveis àqueles que buscam manter a sanidade, a liberdade ou, em alguns casos, apenas viverem suas vidas em paz. Não podemos descartar que, em se tratando da loucura atribuída aos poderosos, é preciso observar a intenção daquele que a denúncia e, se há evidências de que tal acusação é factual, posto que, a difamação também pode ser um instrumento daquele que busca impor sua vontade sobre os outros, ainda que esta seja resultante de sua negação da realidade. A título de ilustração, sugere-se uma análise acerca das críticas feitas líderes, apresentando três hipóteses distintas. Em um primeiro momento citaremos Lenin, Stalin, Hitler e outros líderes totalitários do início do século passado, déspotas que mereceram as acusações que sobre eles recaíram, sendo certo que seus planos, movidos pela fome insaciável de poder, apresentavam-se como formas miraculosas de salvação, uma busca mais utópica que a de Dom Quixote por sua amada imaginária, que somente servia para os manterem no topo. Seja pelo esoterismo doentio e a busca por uma raça superior, apresentada pelo Nacional-socialismo a um povo que clamava por mudanças, após a derrota na I Grande Guerra, aceitando assim que os revolucionários envolto no misticismo ocupassem o poder na Alemanha, bem como, as falsas promessas de que uma revolução traria melhores condições de vidas a operários e camponeses foram a desculpa para que um partido composto por líderes inspirados nas mentiras propostas por Marx, assumissem o poder naquilo que se transformou na União Soviética. Lembrando que, tais narrativas não eram tão compradas pela grande parte da população, apenas pelos setores determinantes, mas isso é um assunto para outro momento. Os líderes revolucionários que mancharam o mundo com o sangue de inocentes, são merecedores das mais severas críticas e suas ações devem servir de exemplo negativo para todas as futuras gerações, de maneira que, o socialismo, o nazismo e o fascismo devem ser tratados como chagas que acometeram a humanidade, uma delas ainda muito presente, e, portanto, incessantemente combatidos. Aquelas figuras bestiais que, junto de seus asseclas, levaram milhões de vidas a termo em campos de concentração, ainda que chamados de Gulag ou campo de reeducação, merecem que seus nomes sejam constantemente citados como aquilo que foram e são, canalhas famintos pelo poder e tiranos abjetos. Em um segundo momento, temos que observar os casos em que as difamações resultam da mente doentia dos que se declaram críticos, ou ainda pior, omitem tal condição, para atribuir, falsamente aos líderes que não são de seu agrado ou atendem sua intenta doentia pelo poder, adjetivos que não encontram quaisquer fundamentos na realidade. Casos como do recém-reeleito Presidente dos Estados Unidos da América, Donald J. Trump, e quaisquer outros líderes rotulados como de extrema-direita, sobre os quais recaem acusações como perseguição de minorias, totalitarismo e, por mais patético que pareça, uma suposta a adesão ao fascismo e nazismo, ainda que preguem e atuem no sentido de reduzir o poder estatal sobre os indivíduos e a liberdade de expressão. A grande mídia, em nome de sua própria sobrevivência, aderiu à luta contra a liberdade de expressão , algo que coloca em risco a centralização da informação, ameaçando regimes totalitários, governos que pretendem se impor através de mentiras e as narrativas propostas pela própria imprensa que, não em raros casos, negocia seu poder de difusão em troca de favores e riquezas junto aos tiranos que precisam de seu assessoramento. Por tal razão, ataques daqueles que deveriam informar, tentam transformar em tiranos aqueles que não se submetem ao plano maior, que emana da Torre de Marfim , sendo, portanto, os líderes daquilo que a mídia convencionou chamar de extrema-direita, atacados de forma despudorada pela imprensa e a classe artística que está sob sua batuta. Nota-se que a grande mídia, ao menos nos Estados Unidos da América, assume uma postura partidária, deixando claro que tem predileção por um espectro ou partido político e que não se furta em influenciar os cidadãos no que tange à tomada de decisão. Se por um lado, a posição declarada de um meio de imprensa pode nos ser estranha, por outro, podemos ver o que ocorre no campo político brasileiro, no qual a mídia, salvo raras exceções, finge isenção quando, em poucos minutos se declara de forma gritante em favor de um lado específico. O atual proprietário do Washington Post , em uma carta na qual busca justificar a não declaração pública de seu jornal em favor de um lado na corrida eleitoral americana, argumentando que, ao fazê-lo, a imprensa põe-se em descredito perante o destinatário da notícia, uma vez que, alerta-o para a postura parcial do meio de comunicação, de tal forma, que seria recomendado aos canais de imprensa que se abstenham de anunciar apoio a determinado candidato ou partido. Se por um lado o bilionário tem razão, no que diz respeito ao descredito de uma fonte abertamente partidária, por outro prisma, pode-se concluir que tal cisão de mundo pretende privilegiar a sórdida e dissimulada falsa isenção à verdade, fazendo do veículo ainda mais questionável. No caso da imprensa brasileira, que, sem sua maioria, tenta omitir sua parcialidade ao não declarar sua posição política ou partidária, quando em verdade, suas ações deixam evidente sua adesão a um espectro política, praticando assim a artimanha sugerida pelo proprietário do jornal americano, fica claro que, o compromisso de tais corporações com a verdade está longe de ser uma prioridade. A sugestão abjeta do bilionário americano é, em verdade, uma decorrência de sua falta de valores, um sinal evidente de ausência moral, que pretende esconder nas sombras a sua verdadeira intenção, entretanto, no cenário brasileiro a prática é quase uma regra, expondo a falta de caráter que corroera como ferrugem os editoriais dos jornais. Muito mais dignos são aqueles que se declaram como partidários de um espectro político, restando evidente que, embora apodrecido pelo relativismo moral , um pasquim declaradamente socialista ainda é menos sórdido que os que fingem imparcialidade. Igualmente seria o Judiciário, se, por qualquer motivo, aderisse a uma corrente político-partidária ou lutasse para vencer qualquer personagem no campo ideológico, pois, evidentemente, não é o papel de um Poder que, por não ser composto por líderes eleitos, conserva sua legitimidade no fiel cumprimento das leis e a manutenção de uma distância mais que segura da disputa política. Natural que, nenhum torcedor ou atleta aceitaria de bom grado que o árbitro “vestisse a camisa” do time adversário. Por fim, é importante mencionar aqueles líderes que não podemos atestar se foram difamados ou merecedores de seus rótulos como loucos, haja vista o tempo decorrido e possíveis distorções históricas acerca de seus feitos. Citamos aqui figuras como Nero, Calígula ou Ivan o Terrível, que podem ter sido figuras desprezíveis como Stalin e Hitler ou alvos de ataques de opositores mentirosos com Donald Trump, podendo ser os relatos verdadeiros, mentirosos ou mesmo redigidos de forma não literal. A narrativa de que o Imperador Nero tocava sua lira enquanto parte Roma ardia em chamas pode ser um relato histórico preciso, deixando claro que o governante era nada além de um louco desligado de suas atribuições e pouco se importava com seu povo, bem como, pode ser mera obra da criatividade de seus opositores que, aproveitando-se do incêndio, culpavam o senhor do Império para desacreditá-lo diante do povo. Nota-se que incêndios podem ser uma responsabilidade daquele que governa ou consequência de fatores incontroláveis, segundo aqueles que contam a história, como é o caso dos últimos incêndios em terras brasileiras, antes um caos que a imprensa e grande parte da classe artística atribuíram ao governante, mas que, atualmente, deixou de ser um grande problema, que pode ser culpa de fatores externos ou as cinzas são varridas para baixo do tapete. O relato de Nero e sua lira também pode ser uma forma não literal de relatar o descaso do Imperador em relação àqueles que o incêndio afetara, dando um ar lúdico à postura reprovável daquele que tinha o dever de agir quando enquanto a desgraça se abatia sobre seu povo, ou mesmo, que não concorrera para minimizar os estragos. De certa forma, como um governante municipal que restringia festejos, aglomerações e outras atividades no âmbito da cidade, mas que curtia uma acalorada final de campeonato ou uma roda de samba evidenciando total descaso com aqueles que, diante de suas ações, se viam prejudicados. O grande problema em ter um louco no poder é que a sua negação da realidade pode causar danos irreparáveis, tanto a indivíduos quanto à sociedade como um todo, pois, no afã de colocar em prática seus desígnios transloucados, considerará que qualquer obstáculo, ainda que seja a realidade, deve ser superado . Por isso, as hordas revolucionárias são, cada vez mais, bestializadas por seus senhores, a ponto de clamarem pelo sangue de qualquer um que não se curve à loucura por ele promovida. A constante busca pela criminalização do pensar diferente e dizer aquilo que os revolucionários não aceitam é um traço que evidencia o quão desconexo da realidade tais figuras se tornaram, posto que, pedem que as vozes sejam caladas por não replicam seus gritos tribais delirantes e que até pensamentos sejam reprimidos, mesmo que sejam aqueles que se calçam na verdade. Não importa se a realidade os confronta, como relativistas, os revolucionários preferem morder aquilo que não podem controlar, transparecendo sua real natureza. Não é novidade que as pautas identitárias mais radicais, conhecidas como pautas “woke”, termo que significa acordado ou desperto, sendo uma nomenclatura “autoconferida” peloa grupos progressistas que lutam abertamente contra a natureza e a verdade, alegando que são capazes de enxergar aquilo que os demais, que devem considerar como adormecidos, não podem devido à limitação moral que supostamente possuem. Na verdade, o que impede os demais de compartilharem a visão “woke” é a impossibilidade de ver nos moinhos de vento os monstros gigantes que somente os loucos podem perceber. Como se as pessoas presas à realidade fossem a personificação de Sancho Pança e, se vissem forçadas, a concordar com Dom Quixote acerca de suas visões, mesmo não sendo possível que ingressem no mundo fantasioso criado pelos autointitulados progressistas, que, usando a força, em regra estatal, compelem o restante da sociedade a engolir sua esquizofrenia como algo que não pode ser resistido , uma vez que, gozam da proteção de autoridades que alimentam a onda de loucura para poderem, fingindo atender os anseios dos alucinados, avançar seu controle sobre os indivíduos. Pessoas que suplicam o uso de uma linguagem que nem mesmo elas são capazes de utilizar , como o caso de um político brasileiro que não admite ser tratado conforme seu sexo natural, mas que, em ato falho disse que, se ganhasse uma determinada eleição seria ocupante de um cargo o qual apresentou na forma adequada ao seu sexo de nascimento, se contradizendo, por mais de uma vez, no que diz respeito a sua alegada transmutação. Os loucos passaram a integrar turbas que são capazes de ecoar seus devaneios graças a ambição de outro que são bem mais perigosos, haja vista que, se os que buscam, inutilmente, lutar com a realidade, acabam tomados pelo narcisismo, exigindo que suas vontades sejam atendidas como crianças mimadas que esperneiam para que um adulto retire um brinquedo de outra criança, inicialmente por desejarem o brinquedo, mas, em um segundo momento, apenas para demostrar superioridade em relação àquele que teve seu bem retirado. Não por acaso, todo revolucionário é movido pela inveja, desejando que o Estado revolucionário retire de outrem aquilo que cobiça e, em um momento posterior, apenas que o poder estatal dobre as pessoas diante de sua presença, pois, o narcisismo é uma macula que está gravada na essência de tais figuras. Basta observar como a busca pela fama, ainda que negativa, tornou-se um combustível indispensável pelos seguidores da revolução, muitos dos quais, precisam se colocar em posições de detentores ou representantes de um nicho, ainda que inventado, para ter poder de barganha junto aos poderosos. Tudo aquilo que contradiz a loucura dos narcisistas é considerado por eles como uma reação a seus delírios, logo, uma ação de ódio que visa destruir aquilo que lhe é caro, o que, de certa forma, é uma verdade, posto que, ao trazer à lume a verdade põe-se em risco a existência do mundo imaginário em eu o revolucionário narcisista se sente confortável, afinal, trata-se de um universo cunhado na esquizofrenia de seus pares, todos lutando para prevalecer diante da realidade. A agenda “woke” alimenta tudo aquilo que puder afastar o indivíduo da verdade, pois um louco narcisista é incapaz de sobreviver em uma sociedade que o chama constantemente à realidade, tentando fugir daquilo que o incomoda, que é sua real natureza e de tudo aquilo que o cerca. Um homem que se recusa a aceitar sua natureza e, não satisfeito em lutar contra ela, busca impor aos demais membros de uma sociedade, encontrando abrigo em um tipo pior de louco, aquele que, apesar de não comungar de suas ilusões, as alimentará tão somente para que receba mais poderes para suprimir a vontade dos que ainda estão vendo e buscando a verdade, na qual, a autoridade que afaga os narcisistas esquizofrênicos é um monstro psicopata. Em síntese, quando se pune os que dizem a verdade na defesa de ideologias deslocadas da realidade, o que se busca não é proteger a sensível figura insatisfeita com sua existência, mas impedir que lhe exponham o mundo real, o que poderia resultar na liberdade em relação àqueles que realmente escravizam sua consciência. Dom Quixote, apesar de louco, valorizava a liberdade, uma vez que, seu mundo de faz de conta não era imposto sequer a Sancho, pois, o escudeiro ainda podia manter a sua consciência, entretanto, os loucos atuais, que não sugerimos sejam internados, mas que sejam impedidos de exercerem o domínio sobre os que vivem na realidade, buscando impor, pela força, que outros se curvem aos seus anseios irreais, algo que é impossível. Não obstante, os loucos que, de fato, representam perigo são os que ocupam posições de poder e insistem em alimentar os devaneios para aumentarem o alcance de seus tentáculos pútridos. A revolução é um movimento que engana os narcisistas esquizofrênicos para que sigam autoridades psicopatas. Na vida real, o final daqueles que acham que encontram abrigo nos braços de tiranos é acabar sendo devorado pelos monstros que alimentaram. “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pôde vir aos homens”. Dom Quixote (Dom Quixote de La Mancha – Miguel Cervantes). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – Edição de Novembro de 2024 - ISSN 2764-3867
- Liberdade e desenvolvimento
A chave para o progresso econômico e social no Brasil A liberdade, amplamente discutida por filósofos e economistas, é um pilar essencial para que os indivíduos se tornem protagonistas de suas vidas. John Stuart Mill, em sua obra Sobre a Liberdade , argumenta que a autonomia é vital para o desenvolvimento pessoal e coletivo. Já Adam Smith, em A Riqueza das Nações , apresenta o conceito de “mão invisível do mercado”, afirmando que a liberdade individual permite que os recursos sejam alocados de maneira mais eficiente, promovendo prosperidade. No Brasil, o conceito de liberdade parece estar em conflito com os debates sobre políticas econômicas e trabalhistas, como a redução da jornada de trabalho. Apesar das intenções de proteger a saúde mental do trabalhador, é necessário considerar o impacto que tais medidas têm sobre a produtividade e o crescimento econômico. O Debate Sobre a Redução da Jornada de Trabalho A discussão sobre a escala 6x1, consolidada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) de 1943 durante o governo de Getúlio Vargas, ressurge como uma tentativa de modernizar as relações trabalhistas. Embora esse regime tenha sido um marco histórico ao estabelecer direitos fundamentais aos trabalhadores, ele reflete um contexto que mudou pouco em relação às necessidades de um mercado globalizado e altamente competitivo. Propostas para reduzir a jornada de trabalho buscam melhorar a qualidade de vida e proporcionar mais tempo para estudos e atividades pessoais. Contudo, em um país onde a produtividade é extremamente baixa — são necessários quatro brasileiros para produzir o que um trabalhador norte-americano faz sozinho —, trabalhar menos pode piorar os problemas estruturais da economia, sem resolver as questões fundamentais. Entraves ao Progresso Econômico O Brasil enfrenta barreiras significativas para o progresso econômico. Fatores como instabilidade fiscal, alta do dólar, juros elevados e um sistema tributário complexo dificultam o desenvolvimento sustentável. Pequenas e médias empresas, que geram cerca de 70% dos empregos formais e contribuem com mais de 27% do PIB, segundo o Sebrae, são particularmente prejudicadas. Apesar de serem cruciais para a economia, enfrentam dificuldades de acesso a crédito, altos encargos tributários e competição desigual com grandes corporações que recebem incentivos fiscais. O empregador brasileiro paga, em média, 70% a mais sobre o salário devido a encargos trabalhistas, como FGTS, INSS e outros benefícios obrigatórios. Isso significa que, para um salário de R$ 1.000,00, o custo real para a empresa é de aproximadamente R$ 1.800,00. Esse fardo financeiro desestimula contratações e inovações, impactando negativamente o crescimento econômico. Impacto no Trabalhador Além de onerar o empregador, o sistema tributário também prejudica o trabalhador. Parte considerável de seu salário é descontada diretamente em folha para FGTS, INSS, contribuição sindical e Imposto de Renda. Como resultado, o trabalhador tem menos dinheiro disponível, com um poder de compra reduzido pela inflação. Esse ciclo vicioso impede tanto empresas quanto trabalhadores de prosperarem, enquanto o governo continua se beneficiando de arrecadações crescentes, sem cortar despesas ou modernizar sua estrutura. Liberdade como Solução A verdadeira solução para os desafios econômicos e sociais do Brasil está na ampliação da liberdade econômica. Permitir que empregadores e trabalhadores negociem diretamente condições de trabalho e remuneração tornaria o mercado mais dinâmico e eficiente. Empresas poderiam ajustar suas contratações conforme as necessidades reais, enquanto os trabalhadores teriam mais autonomia para gerenciar seu tempo e renda. Adam Smith argumenta que mercados livres, guiados pela “mão invisível”, tendem a alcançar equilíbrio e prosperidade. Esse princípio é especialmente relevante para o Brasil, onde a interferência excessiva do governo em regulações trabalhistas e tributárias sufoca a produtividade. O debate sobre a redução da jornada de trabalho é apenas um reflexo de problemas mais profundos no sistema econômico brasileiro. A produtividade baixa, o excesso de regulamentações e a alta carga tributária impedem o país de alcançar seu verdadeiro potencial. O foco deveria ser na promoção da liberdade, permitindo que indivíduos e empresas tomem decisões que favoreçam a eficiência e o crescimento. A liberdade, acompanhada de reformas estruturais que simplifiquem tributos e modernizem as leis trabalhistas, pode transformar o Brasil em uma nação mais competitiva e próspera. A solução não está em trabalhar menos, mas em trabalhar de forma mais eficiente, com menos interferência governamental e mais autonomia para os protagonistas da economia: os trabalhadores e o s empresários. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – Edição de Novembro de 2024 - ISSN 2764-3867
- Primeira-dama
A pós o fim dos impérios, a sociedade passou a conviver com uma figura denominada primeira-dama. Esposa do presidente eleito, ela é, ou deveria ser, um símbolo representativo não apenas do país que ocupa, mas também dos valores que deseja transmitir. Listo aqui alguns pontos que vejo como cruciais em uma primeira-dama: Comunicativa, mas Diplomática : Uma primeira-dama deve ser capaz de se comunicar de maneira eficaz, mas com cautela. Mensagens para o público devem ser ponderadas, evitando debates acalorados que possam gerar divisões ainda maiores na sociedade. Focada em Ações Sociais : O foco deve estar em causas sociais relevantes, buscando apoio e promovendo iniciativas que tenham impacto real na vida das pessoas. Esse compromisso com o bem-estar coletivo fortalece a imagem da primeira-dama e, consequentemente, do governo. Modelo de Comportamento : Como figura pública, a primeira-dama deve servir de exemplo. É importante que suas ações e declarações inspirem respeito e admiração, promovendo valores como tolerância, solidariedade e inclusão. Acessível, mas com Respeito à Tradição : Embora a proximidade com o povo seja crucial, é fundamental que a primeira-dama respeite as tradições e protocolos que cercam a posição, assegurando uma imagem que combine modernidade e respeito ao papel que ocupa. Comprometida com a Inclusão : A primeira-dama deve estar atenta às questões sociais que afetam diferentes grupos, buscando sempre uma abordagem inclusiva que amplie o alcance das suas ações e alcance os mais necessitados. Podemos relembrar dos trabalhos que algumas ex-primeiras-damas do Brasil executaram. Rosane Collor Foi a primeira-dama do país durante a presidência de seu ex-marido, Fernando Collor , o 32.º presidente do Brasil , que governou de 15 de março de 1990 a 29 de dezembro de 1992. Antes de assumir o papel de primeira-dama do país, foi a primeira-dama de Alagoas, exercendo a função de 15 de março de 1987 a 14 de maio de 1989, durante o mandato de Collor como governador do estado. Rosane assumiu o papel de primeira-dama do Brasil, tornando-se a presidente da Legião Brasileira de Assistência (LBA) em 20 de Março do mesmo ano. Em sua gestão, ela passou a percorrer o país para avaliar de perto as desigualdades sociais e elaborar políticas de assistência voltadas para populações de baixa renda, focando especialmente em áreas vulneráveis onde a LBA poderia atuar diretamente. Seu objetivo era reduzir as disparidades sociais por meio do acesso facilitado a serviços básicos e auxílio emergencial. Ruth Cardoso Foi uma antropóloga e professora universitária brasileira , esposa de Fernando Henrique Cardoso , 34.º presidente do Brasil , e a primeira-dama do país de 1 de janeiro de 1995 a 1 de janeiro de 2003. Se engajou em políticas sociais como o Programa Comunidade Solidária e, posteriormente, o Comunitas . Na sua posição, impôs gradativamente a modernização do assistencialismo no país. Exerceu cargos de destaque como o de coordenadora do conselho assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre Mulher e Desenvolvimento . Foi membro da junta diretiva da United Nations Foundation da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Comissão da Organização Internacional do Trabalho sobre as Dimensões Sociais da Globalização e da Comissão sobre a Globalização. O Programa Comunidade Solidária , implantado em 1995 pelo governo para o combate da extrema pobreza, funcionava nos âmbitos governamental e sociedade civil, e veio em substituição aos extintos órgãos da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Além de antropóloga, dona Ruth era escritora; escreveu várias obras sobre imigração, sendo uma específica sobre a imigração japonesa. Penso que o leitor, assim como eu, discorda de várias ações oriundas dos respectivos maridos das duas personalidades citadas acima; contudo, é importante destacar que ambas cumpriram (cada uma a seu modo) o papel de auxiliares de seus esposos, enquanto no cargo de presidente da República. As exceções ficam por conta das duas esposas de Lula (por que será?). Quando se ouve o nome de Marisa Letícia , é impossível não lembrar de um “ato importantíssimo” para a democracia nacional: quando houve um panelaço em protesto contra o Partido dos Trabalhadores, a primeira-dama fez um singelo comentário por telefone com seu filho Fabio Luiz, o Lulinha : “Enfiem as panelas no c…” . Que elegância britânica, não? Com o Todo-Poderoso como minha Santa testemunha, procurei feitos sociais e beneficentes de dona Marisa e não encontrei nada que pudesse trazer à baila; eu pensei com meus botões: “Não importa que ela seja de esquerda e tenha sido esposa do Nove-Dedos, alguma coisa boa essa mulher deve ter feito, não é possível” . Mas perdão, caro leitor, não há nada. O único “grande feito” dela foi ter costurado a primeira bandeira do PT, em 1980. Um outro “grandiosíssimo feito” para o país foi realocar para sua casa a sede do sindicato dos metalúrgicos enquanto Lula esteve preso; e que interessante: Lula, em condições de presidiário, parece conseguir um feito extraordinário de atrair mais mulheres do que o ex-vocalista do Skid Row, Sebastian Bach , no auge da sua beleza nos anos 80. E assim como dona Marisa cuidava dos “negócios” do marido enquanto presidiário, assim fazia a nova esposa de Lula, Rosângela, quando Lula esteve preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba, Paraná. Inclusive, foi assim que os “pombinhos” começaram a namorar. Embora seja conhecida como socióloga, dona Janja nunca exerceu a profissão, tendo trabalhado em estatais e em cargos por indicação. Ela é filiada ao PT desde 1983 e conhece Lula desde os anos 90 (hum, nesse mato tem coelho). E dona Marisa ainda estava com seu cadáver quente quando Janja resolveu fazer visitas a Lula. O resto da história já conhecemos. Mas, talvez a pergunta que o leitor esteja fazendo seja “ E quais os feitos de Janja como primeira-dama?” . Bom, logo no dia da posse descobrimos que dona Janja tem talento para organizar eventos – embora não possua bom gosto para fazer o mailing dos artistas. O chamado “Festival do Futuro” reuniu quarenta e duas atrações confirmadas para a festa, que se apresentaram nos palcos batizados Elza Soares e Gal Costa , cantoras que faleceram em 2022. As duas ex-primeiras-damas citadas neste artigo visavam o bem-estar social dos mais vulneráveis; mas dona Janja pensa apenas em sua panelinha ideológica. Feminista declarada, ela dispõe de um gabinete para fomentar os movimentos e ideologias que visam estabelecer a “ igualdade de gênero” . Outra “pauta importantíssima” para Janja é “combater a desinformação” ; no dia 8 de Fevereiro de 2023, no Palácio do Planalto, ela recebeu influenciadores digitais que fizeram campanha para Lula durante o segundo turno da corrida presidencial. Ela chegou a anunciar que iria assumir a coordenação da Rede de Inclusão e Combate à Desigualdade da Organização dos Estados Ibero-americano no Brasil; o convite foi aceito durante viagem da comitiva presidencial à Espanha. Contudo, esta viagem foi realizada em 2023 e até o presente momento em que escrevo este artigo não há uma única ação concreta nesta questão - nem sabemos sequer se ela assumiu este cargo. Há uma outra característica que, penso eu, Lula preza ao escolher uma esposa: a falta de decoro. Dona Marisa, com toda sua elegância britânica, pediu gentilmente que “enfiassem as panelas no c...” ; e dona Janja, com toda a sua etiqueta aprendida em Cambridge, emitiu um sonoro “F… you, Musk” em plena abertura do G20, evento que reúne líderes das principais economias do mundo. Imagino o orgulho que Marisa deve ter sentido onde quer que esteja; muito provavelmente pensou “Essa é das minhas!” Não critico a postura de Janja apenas por ela ser de esquerda; nunca vimos, por exemplo, a esposa de Joe Biden ou de Bill Clinton cometendo desatinos e quase provocando rasuras diplomáticas. Talvez o problema seja o marido. Afinal, Marisa e Janja dariam uma boa dupla sertaneja, com um álbum intitulado “As cachaças de Lula” . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – Edição de Novembro de 2024 - ISSN 2764-3867
- Todo dia é um novo 7 x 1
Ou o Varguismo não dá folga Um dos assuntos que mais vêm movimentando as redes sociais brasileiras recentemente é o fim da escala 6 x 1, onde o trabalhador tem um dia de descanso após seis dias consecutivos de trabalho. A proposta, de autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), prevê inicialmente a substituição dessa escala por outra que, supostamente, trará mais qualidade de vida aos trabalhadores. Segundo a própria autora, a ideia seria apresentar uma proposta bastante ambiciosa para, após muitos debates, definir um projeto mais adequado à realidade. A princípio, a escala proposta é a 4 x 3, que visa ampliar o período de descanso e recuperação, esperando-se um aumento significativo de produtividade, dignidade e qualidade de vida para o trabalhador. A questão que tem gerado muitas discussões é a viabilidade do projeto, diante da relação custo-benefício. Muitos alegam que a demanda por serviços aos fins de semana impõe a necessidade de manutenção do comércio e até mesmo de setores da indústria em funcionamento aos sábados, domingos e feriados. Assim, para garantir a continuidade da oferta, seriam necessárias contratações de mão de obra (o que seria muito bom) ou horas extras. Em qualquer dos casos, poderia haver elevação dos custos de oferta, que seriam, possivelmente, repassados aos usuários ou consumidores, podendo gerar inflação e/ou desemprego. De fato, segundo estudo elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD), em parceria com o Núcleo de Inovação e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral (FDC), o Brasil ocupa a posição 62 dentre 67 países analisados. Contudo, ainda de acordo com o estudo, os fatores que puxam para baixo a classificação brasileira são: ineficiência do estado e das empresas, intervencionismo estatal, alta carga tributária, elevada burocracia, índices educacionais ruins, baixo domínio de outros idiomas, e a lista prossegue. Não é possível interpretar e agir sobre problemas fundamentais que afetam a maior parte da população com decisões rápidas ou emocionais. Usando um aforismo que já se tornou " meme " nas redes sociais: " problemas difíceis não são fáceis ". Não pretendemos dar um veredito sobre este tema, nem tampouco agir publicitariamente afirmando, como temos visto em diversos canais de mídia, " o que não te disseram sobre o fim da escala 6x1 ", ou ainda " tudo o que você precisa saber sobre o fim da escala 6x1 ". Ainda que este texto seja opinativo, nosso objetivo é agregar mais informações para que você, leitor, decida o que pensar sobre este tema. Ainda não se passaram 10 anos desde a aprovação da Lei Complementar 150/2015, que regulamentou a Emenda Constitucional nº 72, agregando novos direitos às empregadas domésticas. Naquela época, da mesma forma, pretendeu-se agregar cidadania e qualidade de vida às trabalhadoras domésticas, regulando sua participação no mercado de trabalho. Entretanto, segundo informado pela Agência Brasil em 02/04/2023: " Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, em dez anos, o número de empregadas domésticas diminuiu. Neste período, houve crescimento da atuação de diaristas. Atualmente, três em cada quatro trabalhadoras domésticas no Brasil ". Entendemos que, após a regulamentação, os empregadores buscaram os serviços de diaristas, limitando a dois dias por semana para evitar os custos agregados pela formalização. Na mesma publicação, a Agência Brasil também informa que a crise da pandemia agravou o problema: "A classe média foi o segmento que mais perdeu renda durante a pandemia, afetando as contratações de domésticas mensalistas. Além disso, com a adoção do home office, muitos assumiram parte das tarefas domésticas antes desempenhadas pelas trabalhadoras domésticas". Assim, as empregadas domésticas se tornaram reféns e soterradas sob o concreto da legislação trabalhista. Para falar de legislação trabalhista, precisaremos iniciar com Getúlio Dornelles Vargas, nosso 14º e 17º presidente. É muito comum ouvirmos dizer que foi graças à benemerência de Vargas que o trabalhador pôde ser protegido das agruras do mercado de trabalho. Bem, as coisas não são exatamente assim. O governo de Getúlio Vargas, ao sancionar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1º de maio de 1943 em pleno estádio de São Januário no Rio de Janeiro, não pode ser considerado o criador das leis de proteção ao trabalhador no Brasil, como muitas vezes é retratado. A CLT foi, na verdade, uma consolidação das normas trabalhistas que já existiam antes de sua sanção, reunindo-as em um único texto legal. Ainda que algumas novas regras tenham sido criadas àquela época, consolidar e criar são conceitos diametralmente opostos, e é fundamental entender essa distinção ao analisar a evolução do direito trabalhista brasileiro. O Decreto nº 1.313 de 1891 iniciou a regulamentação do trabalho de crianças e adolescentes exclusivamente na Capital Federal (RJ), assinado pelo chefe do governo provisório, Deodoro da Fonseca. Esse decreto foi uma das primeiras normativas no Brasil que estabeleceu restrições ao trabalho infantil, proibindo o emprego de crianças menores de 12 anos em fábricas. A primeira grande lei voltada para os direitos dos trabalhadores foi a Lei nº 3.724/1919 , que estabeleceu as bases para a proteção do trabalhador em caso de acidente de trabalho. Foi a primeira legislação brasileira a regular as obrigações decorrentes de acidentes de trabalho, estabelecendo o seguro obrigatório contra acidentes do trabalho em algumas atividades. O Decreto nº 16.300 de 1923, assinado por Arthur Bernardes, regulamentava o Departamento Nacional de Saúde Pública, o trabalho nas fábricas e oficinas, incluindo medidas para proteger mulheres e crianças, estabelecendo limitações para jornadas e condições de trabalho. O Decreto nº 4.982 , de 24 de dezembro de 1925, foi o primeiro a estabelecer o direito a férias remuneradas para os trabalhadores do setor privado no Brasil. O decreto estabelecia que os empregados e operários de estabelecimentos comerciais, industriais, bancários e de instituições de caridade e beneficência deveriam receber 15 dias de férias anualmente, sem prejuízo do seu salário. As férias podiam ser concedidas de uma só vez ou parceladas. Em 1943, o governo Vargas, por meio do Decreto-Lei nº 5.452, consolidou essas leis dispersas em um único código, tornando o direito trabalhista mais claro e acessível. Portanto, tratava-se essencialmente de um aprimoramento. Embora a CLT tenha sido responsável por algumas inovações, como o estabelecimento de um terço de férias ou a criação da Justiça do Trabalho, como vimos, muitas dessas inovações estavam dentro de um contexto maior de aperfeiçoamento das leis já existentes. A eleição direta e com voto secreto que escolheu os deputados constituintes, os quais elaboraram a nova Carta Constitucional de 1934, incluiu em seu texto diversos artigos que contemplavam aqueles decretos e leis de proteção ao trabalhador. Vargas, naquele momento, sancionou o que os constituintes democraticamente escolhidos redigiram e aprovaram. Esse entendimento é fundamental para esclarecer que, ao contrário do que muitas vezes é sugerido, as leis de proteção ao trabalhador no Brasil não surgiram apenas com Getúlio Vargas, mas sim com um processo gradual e progressivo de regulamentação trabalhista que já estava em curso nas décadas anteriores, muito antes de 1943. Não se pode negar que, para aquele tempo, a legislação trabalhista foi fundamental para estabelecer os moldes e resguardar a dignidade, formatando o trabalho em caracteres cidadãos e protegendo a saúde e a vida dos trabalhadores. Mas vivemos novos tempos. Novos trabalhos, modalidades e formatos surgiram ao longo do tempo, tornando explícito o dinamismo das novas relações de trabalho. Conforme vimos, as legislações, a cada ano mais ampliadas, têm reforçado os baixos índices de produtividade e competitividade. O estudo citado reflete este problema quando destaca a " ineficiência do estado e das empresas, intervencionismo estatal, alta carga tributária, elevada burocracia, índices educacionais ruins, baixo domínio de outros idiomas " (...). Se tomarmos por base a realidade e a história, e não apenas as boas intenções, relembraremos o exemplo das empregadas domésticas citadas anteriormente. Constataremos que, em um dos países menos burocráticos nas questões trabalhistas, os Estados Unidos, atraem-se ano após ano massas de trabalhadores brasileiros, muitos deles ilegais, buscando na quase total ausência de regulamentações uma oportunidade de ganhos financeiros reais. O Brasil, como fornecedor de commodities, tem sido bem-sucedido, mas quando entra na disputa por mercados internacionais de produtos industrializados, se vê ancorado pela sua legislação. Nossos custos são maiores. Se observamos o setor terciário da economia, que abrange o comércio e a prestação de serviços, percebemos que a geração de vagas está sujeita às limitações de demanda de consumo, e esta se vincula aos custos da produção industrial. Temos um círculo vicioso que vai estagnando nosso ambiente econômico e de trabalho. Finalmente, é fundamental refletir sobre as propostas regulamentadoras, para além dos benefícios imediatos, do raciocínio simplista e da satisfação dos desejos mais imediatos. O assunto é sério, envolve nosso presente, mas principalmente nosso futuro. Se não atentarmos para a escala 6 x 1 agora, teremos em breve mais um 7 x 1. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – Edição de Novembro de 2024 - ISSN 2764-3867
- Quando Governos Democráticos Mentem
Antes que o leitor, baseado somente no título do presente artigo, tire precipitadas conclusões, este articulista já responde: não, não trataremos no presente artigo de nada que envolva questões político/partidárias/eleitoreiras no contexto nacional. Pelo cargo exercido pelo articulista, impedido está de imiscuir-se nesta seara. A Lei nacional não impede, no entanto, intromissões do articulista em assuntos internacionais, mormente daqueles muito em destaque no atual contexto momentâneo: a invasão da Ucrânia. Porém, antes mesmo de iniciarmos as discussões que intencionamos, mister explicar as razões que levaram o subscritor deste a tal assunto. É cediço que a grande mídia, há tempos, não mais preocupa-se em divulgar a verdade. Seja por interesses comerciais ou mesmo ideológicos, a mídia atualmente preocupa-se mais com narrativas, escândalos, futilidades direcionadas e notícias tendenciosas do que, propriamente, com a séria divulgação de fatos. A posição de Juca Chaves mostra-se totalmente atual quando, tempos atrás, disse que “a imprensa é muito séria, se pagar eles publicam até a verdade”. Porém, como em todas as atividades humanas onde há uma grande gama de participantes, a imprensa ainda detém instituições e profissionais sérios que, a despeito de não seguirem o que podemos qualificar como politicamente correto (que, muitas vezes, de correto não tem nada), cumprem com o papel de informar e divulgar a verdade. No atual contexto, o que se reverbera na grade mídia é o absurdo da invasão da Ucrânia pela Federação Russa. Demonstra-se, de forma muito incisiva, as inúmeras e tristes mortes de civis, a destruição de imóveis e infraestrutura, a crise de refugiados, dentre outras abomináveis situações causadas por qualquer guerra, que tem na população a sua maior vítima. Divulga-se que a principal justificativa para a invasão seriam as intenções da Ucrânia de passar a fazer parte da OTAN, a aliança militar de vários países ocidentais, e defende-se a autonomia de qualquer país para tal. Nesse conturbado ambiente de informações, temos, no entanto, que buscar alguma concretude, salientando que, muitas vezes, não há lado certo em uma guerra. Que fique bem claro: não defendemos as atitudes da Federação Russa e muito menos os argumentos de seu Presidente, até pelo contexto histórico da Rússia. Para quem desconhece, a Rússia é uma nação que, após a revolução de 1917, não somente passou a ter a desinformação como política de Estado, quanto também fez com que referido tipo de política atingisse níveis absurdos. Durante a guerra fria, houveram períodos em que a União Soviética tivera mais agentes ativos de desinformação do que militares em suas forças armadas. Portanto, tudo o que vem da Rússia deve ser visto com grande desconfiança, principalmente se considerarmos que as premissas totalitárias do comunismo que alega-se não mais existente em referida nação ainda encontram-se plenamente em vigor. Assim concluímos pois a forma como a Federação é gerida está longe de autorizar que seja ela qualificada como uma democracia plena, seja pela perseguição à desafetos políticos, membros da própria imprensa bem como de grupos “indesejados” pelo núcleo do Estado, e ainda pela inexistência de razoável liberdade partidária de oposição ao estamento atual. Soma-se a tudo isso a mantença indistinta, mesmo após o findar da União Soviética e, por conseguinte, da Guerra Fria, da consideração do ocidente como um inimigo. Quanto ao seu Presidente, deixaremos que sua qualificação opinativa fique sob a responsabilidade do leitor, para que não pessoalizemos a discussão. Por tais nuances, o mote da presente discussão não serão as alegações do Estado Russo. O título do artigo remete-nos a um outro Estado: os Estados Unidos da América. Ainda que o incauto enxergue, muitas vezes contaminado por inclinações ideológicas, os Estados Unidos como sendo sinônimo de imperialismo (apesar de nunca ter, efetivamente, agido como uma potência colonialista, assim como eram o Império Britânico, a França e, em menor grau, a Holanda e a Bélgica) e guerras, não podemos olvidar que tal nação é, em nosso mundo contemporâneo, a que mais concretamente espelha o conceito de liberdade (que muitos confundem com libertinagem). É claro que, assim como todas as outras nações do mundo, detém eles sérios problemas sociais, o que não impede de reconhecermos os ganhos advindos com a liberdade, seja de pensamento e opinião, ou mesmo a liberdade econômica e empresarial. Dentre as revoluções da segunda metade do milênio passado, fora somente a revolução americana, com a posterior independência das treze colônias, a emissão da declaração de independência e a promulgação de uma Constituição, que realmente espelhara no mundo ocidental uma revolução realmente libertadora e que primara, com considerável preocupação, pela efetivação de instrumentos garantidores dessa liberdade. Qualquer pessoa minimamente esclarecida tem conhecimento dos frutos gerados por essa liberdade, alguns amargos mas, em sua grande maioria, doces e saborosos. A liberdade, enquanto conceito, não é uma carta branca para o indivíduo fazer o que bem entender. Com liberdades, advém responsabilidades. É justamente o correto balanço entre liberdades enquanto direitos, e responsabilidades enquanto obrigações, que induz ao desenvolvimento de qualquer sociedade. O por tratar de responsabilidades, temos que uma responsabilidade de grande monta é a do chefe de uma nação democrática, escolhido pelo voto popular. Referido mandatário recebe do povo, o verdadeiro detentor do poder em qualquer país livre, uma especial autorização para agir em seu nome. Justamente pela natureza de tal representação, cabe ao mandatário agir com a maior transparência possível, deixando bem claro ao povo as razões de seus atos. Surge então uma importante indagação, que ilustra o título do presente artigo: o que ocorre, então, quando governos democráticos mentem? A mentira é tão antiga quanto o ser humano, e detém, além de várias formas de se externar, diferentes graus e consequências. Mas, o que dizer de uma mentira deliberada, com interesses escusos, e que pode causar sérias consequências para toda a humanidade, para não dizer a sua possível extinção? E se tal mentira tiver como percussor àquele quem mais deveria espelhar os ideais de transparência? Para responder a essas perguntas, temos que retornar ao motivo que ensejou a sua discussão. Como é de conhecimento público, a Federação Russa invadiu o território da Ucrânia na data de 24 de Fevereiro de 2022, iniciando um conflito armado de severas proporções. Midiaticamente, a razão de tal invasão seria a intenção Russa de evitar a entrada da Ucrânia na OTAN, e ainda a discussão acerca de territórios separatistas, além da questão da Crimeia. No início do conflito, no entanto, algumas notícias nos levavam a induzir que a invasão poderia ter tido o seu estopim com a constatação de que os Estados Unidos estariam mantendo laboratórios de armas biológicas em território ucraniano. O porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, Igor Konashenkov, chegou a dizer em 13 de Março que “Durante a condução da operação militar especial, foram encontradas evidências de que o regime de Kiev se apressou para eliminar vestígios do programa biológico militar financiado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos na Ucrânia”. A grande mídia, extremamente preocupada com notícias falsas (contém sarcasmo, para que fique bem claro) logo tratou de refutar referidas “teorias da conspiração”. As fontes que refutaram tais informações, conforme divulgado pela rede de notícias “USA TODAY”, seriam membros não identificados do Governo Ucraniano, bem como funcionários do Departamento de Estado Americano, os quais, podemos concluir, não têm muita credibilidade quando o assunto é negar algo que os possa implicar. Apesar do recorrente afastamento dessa “teoria conspiratória”, ainda assim diversos outros atores entraram em cena. Até a União Europeia negou a existência de tais laboratórios, tratando tal teoria como pura desinformação Russa aumentada pela China. Porém, algumas questões chamaram a atenção desse articulista. A primeira delas, a qual buscamos verificar diretamente, fora uma mensagem divulgada no ano de 2020 na página oficial da embaixada dos Estados Unidos na Ucrânia, mencionando o auxílio americano, através do Programa de Redução de Ameaças Biológicas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no “programa de redução de ameaças biológicas na Ucrânia”. Menciona a notícia que: “ O Programa de Redução de Ameaças Biológicas do Departamento de Defesa dos EUA colabora com países parceiros para combater a ameaça de surtos (deliberados, acidentais ou naturais) das doenças infecciosas mais perigosas do mundo. O programa cumpre sua missão de redução de bio-ameaças através do desenvolvimento de uma cultura de gestão de bio-risco; parcerias internacionais de pesquisa; e capacidade de parceiro para medidas aprimoradas de bio-segurança, bio-salvaguarda e biovigilância. As prioridades do Programa de Redução de Ameaças Biológicas na Ucrânia são consolidar e proteger patógenos e toxinas cuja segurança gere preocupação, e continuar a garantir que a Ucrânia possa detectar e relatar surtos causados por patógenos perigosos antes que representem ameaças à segurança ou à estabilidade”. Como podemos ver, o Programa de Redução de Ameaças Biológicas (Biological Threat Reduction Program – BTRP, no original) é um programa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e não um programa científico qualquer. Segue a notícia aduzindo que, ainda em 2020, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos atualizou laboratórios e construiu outros na Ucrânia: “ A BTRP atualizou muitos laboratórios para o Ministério da Saúde e o Serviço Estadual de Segurança Alimentar e Defesa do Consumidor da Ucrânia, atingindo o Nível 2 de Biossegurança. Em 2019, a BTRP construiu dois laboratórios para este último, um em Kiev e outro em Odesa”. A primeira pergunta que nos vem à mente: se é um programa científico que visa reduzir riscos de patógenos potencialmente causadores de danos à população, qual a razão de tal programa ser patrocinado (conduzido, na verdade) pelo Departamento de Defesa? Voltando um pouco no tempo, fora possível encontrar uma postagem do próprio Departamento de Defesa em seu sítio eletrônico institucional, em 2010, que mencionava que: “ o senador norte-americano Dick Lugar aplaudiu a abertura do Laboratório Central Interino de Referência em Odessa, Ucrânia, esta semana, anunciando que será fundamental na pesquisa de patógenos perigosos usados por bioterroristas. O laboratório de biossegurança nível 3 será usado para estudar antraz, tularemia, febre Q, bem como outros patógenos perigosos”. Mas as questões não param por aí. O início da ofensiva russa ocorrera com intenso bombardeio de algumas áreas em todo o país, sendo possível notar que alguns dos ataques deram-se em locais sem qualquer interesse aparentemente estratégico, sem que também tenha atingido qualquer infraestrutura civil. Naquele momento, o próprio ofensor alegou que visava estruturas militares, principalmente aeródromos. Tempos antes, o Ministério das Relações Exteriores da China publicou que os Estados Unidos teriam 336 laboratórios sob seu controle, distribuídos em 30 países. Somente na Ucrânia haveriam 26 de tais laboratórios. Coincidentemente, os bombardeios iniciais ocorreram justamente nos locais onde supostamente existiriam laboratórios patrocinados (ou conduzidos) pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos: A fotografia mostra os primeiros locais bombardeados pela Rússia quando do início da invasão a Ucrânia. É claro que tal coincidência entra as alegações Chinesas e os atos Russos podem, claramente, tratar-se de estratagema de desinformação, razão pela qual não poderíamos considerá-la como fidedigna. Porém, no último dia 10 de Março, tornara-se pública uma recomendação da Organização Mundial da Saúde dirigida ao Governo Ucraniano, onde este era instado a destruir patógenos de alta ameaça alojados nos laboratórios de saúde pública do país. A recomendação visava evitar “qualquer derramamento potencial” de patógenos que poderiam espalhar doenças entre a população. Ao ser questionada sobre referida recomendação, a OMS não dera detalhes sobre quais tipos de patógenos estariam alojados nos laboratórios ucranianos. O fato mais sério de toda essa celeuma, no entanto, dera-se em razão do testemunho prestado por uma alta funcionária do Governo Americano perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado no dia 08 de Março de 2022. O nome de tal funcionária é Victoria Jane Nuland, que atualmente exerce a função de subsecretária de Estado do governo Americano, responsável pela Ucrânia. Para o público brasileiro, que não conhece bem os integrantes da estrutura do Governo dos Estados Unidos (este articulista nunca antes ouvira dela falar), temos que explicar quem é a pessoa carinhosamente conhecida por Toria Nuland. Toria Nuland é uma diplomata norte-americana, casada com o influente escritor e conselheiro eventual de política externa de governos americanos Robert Kagan. Kagan foi, juntamente com Bill Kristol e Jeffrey Goldberg, o responsável por divulgar publicamente a mentira de que o regime iraquiano detinha relação com o ataque de 11 de Setembro, convencendo a opinião pública americana de que a invasão do Iraque era uma necessidade. Kagan é membro do Conselho das Relações Exteriores. Para quem não conhece ou não sabe o que faz o Conselho de Relações Exteriores, mais conhecido pela sua sigla no original em inglês, CFR (Council on Foreign Relations), temos uma má notícia: o Google não te ajudará! Se pesquisarmos notícias sobre o CRE em português, a principal referir-se-á ao fato de que George Clooney passou a integrá-lo. Quem quiser saber um pouco mais, sugerimos a leitura dos livros “Política, Ideologia e Conspirações”, escrito em 1971 por Gary Allen e Larry Abraham, ou então o mais recente “Os Donos do Mundo”, de Cristina Martin Jimenez. Voltemos à esposa de Kagan: Nuland atua na alta administração do Governo americano há anos. Foi assessora de segurança nacional adjunta do ex-vice-presidente Dick Cheney, bem como embaixadora na OTAN durante o governo Bush. Na atualidade, enquanto responsável pela política externa em relação à Ucrânia, resta claro que tem conhecimento específico do que ocorre lá. Aliás, é de bom alvitre mencionar, Nuland atuou incisivamente nos atos que culminaram com a revolta ucraniana que ficou conhecida como “Euromaidan”. As manifestações em questão, que iniciaram-se em 2013, deixaram um saldo de mais de 100 mortos, e culminaram no ano seguinte com a deposição do então presidente Viktor Yanukovych, outrora apoiado pelo Kremlin. No mês seguinte à deposição de Yanukovych, a Rússia anexou a península da Crimeia. Na citada audiência no senado, ao ser diretamente questionada pelo Senador Marco Rubio se a Ucrânia tinha armas biológicas, a resposta fora tanto inesperada quanto surpreendente. Mister transcrevê-la: “ A Ucrânia tem instalações de pesquisa biológica que, de fato, agora estamos bastante preocupados que as tropas russas, as forças russas, possam estar tentando obter o controle. Portanto, estamos trabalhando com os ucranianos em como eles podem impedir que qualquer um desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas, caso se aproximem” Ora, para um entendedor médio, a confirmação de que a Ucrânia tem “instalações de pesquisa biológica” cujo material teme-se poder cair em poder Russo é, definitivamente, contrário ao discurso de que não há laboratórios de armas biológicas na Ucrânia. Para quem assistiu o vídeo, vemos claramente o desconforto da subsecretária ao responder tal questão, desconforto esse que não coaduna, minimamente, com o fato de alguém com seu currículo falar em público ou mesmo em uma audiência no Senado. Infelizmente, e num comportamento que parecia quase que planejado, o senador inquiridor mudou de assunto, chegando ao ponto de perguntar se, eventualmente, ocorresse um acidente onde fossem espalhados patógenos externamente, se isso seria culpa da Rússia, tendo Nuland prontamente respondido que sim. Pois bem: a Ucrânia é um dos países mais carentes da Europa, razão pela qual dificilmente poderíamos acreditar que ali encontravam-se sendo desenvolvidas pesquisas biomédicas e/ou farmacêuticas de ponta. E o pior de tudo é saber que referidas instalações não são patrocinadas por indústrias farmacêuticas, mas por nada mais nada menos do que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ligando todos esses pontos, vemos que alguma concretude há nessas notícias. A recomendação da Organização Mundial de Saúde ao Governo Ucraniano supostamente decorrera da total inabilidade do Governo Americano, já fartamente demonstrada na retirada das tropas do Afeganistão, em proteger os patógenos que encontravam-se em referidos laboratórios, mesmo diante da iminência da invasão russa. O fato do Departamento de Defesa dos Estados Unidos patrocinar e incentivar a instalação dos laboratórios já demostra qual seria a sua finalidade. A confissão da subsecretária de Estado de que a Ucrânia, de fato, tem instalações de pesquisas biológicas cujos materiais de pesquisa teme-se caírem em poder russo, aliado ao fato que de referidas instalações são vinculadas ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, nos dá uma pequena dimensão do problema. Mas, o pior de tudo, é o Governo democrático, mesmo diante de tudo isso, continuar negando o inegável. O porta-voz do Pentágono, John Kirby, no dia 14 de Março, falou claramente, sobre a questão das armas biológicas na Ucrânia, narrando que: “ as acusações russas são absurdas, elas são risíveis e, nas palavras do meu avô católico irlandês, muita besteira. Não há nada disso. É a clássica propaganda russa e eu não, se fosse você, eu não perderia meu tempo”. O canal FoxNews, ao perguntar formalmente ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos sobre tais instalações, recebera como resposta: “ O Departamento de Defesa dos EUA não possui ou opera laboratórios biológicos na Ucrânia. A subsecretária Nuland estava se referindo aos laboratórios Ucranianos de diagnóstico e biodefesa durante o seu depoimento, que não são instalações de armas biológicas. Essas instituições combatem as ameaças biológicas em todo o país.” Tucker Carlson, apresentador da FoxNews, em um dos seus programas, fez uma feliz comparação. Ele sustentou que podemos citar que o estoque de armas nucleares dos Estados Unidos são somente para defesa, pois não são projetadas para matar ninguém especificamente e/ou preventivamente. Elas são projetadas para impedir que outras pessoas os matem, mas ainda assim são armas nucleares. Da mesma, se podemos considerar eventuais “pesquisa de patógenos perigosos usados por bioterroristas” como estudos biológicos defensivos, é fácil concluir que não perdem eles a capacidade de utilização como armas ofensivas. A forma de utilização (defensiva ou ofensiva) não transmuta a qualidade de nenhuma arma. E, se realmente o propósito fosse somente uma ingênua pesquisa defensiva, qual a razão da grande preocupação de que tais pesquisas sejam encontradas pelas forças armadas russas? Ora, ao constatarmos que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, por mais que não “possua” ou “opere” laboratórios biológicos na Ucrânia, atua incisivamente em seu patrocínio na condição de parceiro, resta evidente a sua participação no que lá é ou possa ser produzido. Ao tentar o Governo Americano sustentar que tais laboratórios não intencionam produzir armas biológicas, mas simples pesquisas de patógenos que podem ser utilizados por bioterroristas, vislumbra-se uma clara incongruência em tal discurso. Ora, por suposições muito mais vagas os Estados Unidos envolveram-se em vários eventos de maiores proporções. Podemos, só de forma exemplificativa, citar o incidente no golfo de Tonkin, cujas investigações posteriores concluíram nunca ter de fato ocorrido, mas que serviu de pretexto para o Congresso dos Estados Unidos aprovar a entrada do país na guerra do Vietnã. Temos ainda a suspeita, posteriormente confirmada como fato inexistente, da existência de armas de destruição em massa no Iraque. E, por falar em suposições, não nos esqueçamos do caso dos e-mails extraídos do computador do filho do presidente Joe Biden, demonstrando uma suposta influência do presidente nas relações comerciais de seu filho com a empresa de gás ucraniana Burisma. Estranhamente, tal caso não fora devidamente apurado e, ao revés, fora utilizado como arma política contra Donald Trump por supostamente ter pedido ao Presidente da Ucrânia que reabrisse a investigação. Concitamos o leitor: use sua inteligência e ligue os pontos! Não sabemos quais serão as consequências da guerra, e até onde pode ela chegar. No entanto, o fato por si só já dividiu o mundo como não se via – abertamente – desde o fim da União Soviética. Por mais que não defendamos nenhuma guerra, cujas consequências e sofrimentos primários são atribuídos mais diretamente àqueles que menos tem participação em sua eclosão, temos que entender as reais razões que levaram a sua existência. O que não podemos, de maneira alguma, é elegermos um lado como certo, baseado exclusivamente no que a grande mídia divulga. E é justamente por não podermos acreditar cegamente na mídia, que esperamos que, no mínimo, um governo eleito democraticamente não minta. Da afirmação do título finalizamos com uma pergunta: o que fazer quando governos democráticos mentem? Rogamos que referia pergunta possa ser respondida por quem ainda tenha possibilidade de evitar as suas consequências, e não por historiadores do futuro (se é que existirão). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 08 – Edição de março de 2022 - ISSN 2764-3867
- O deep state do deep state
Sociedades secretas existem desde que o mundo é mundo, e grupos de extermínio altamente sofisticados, surgidos quase que paralelamente a elas, também. Eles são o lado mais obscuro do sistema. O cinema tem tratado esses grupos de uma forma bem crua e até certo ponto poética, como convém à arte, dando a eles uma roupagem, às vezes espiritual, como em “Assassin's Creed ” (2016), onde uma sociedade ancestral de assassinos se vê às voltas com – outra sociedade secreta – os Templários por conta de um imbróglio envolvendo a maçã que estava no Jardim do Éden. Podemos ver também a presença desse submundo quase que onipresente em “Vidas em Jogo” (1997), um dos filmes mais subestimados do sempre excelente David Fincher, e também no irregular “O Pacto” (2012), do bom, mas irregular Roger Donaldson. São bons exemplos de confrarias que agem nas sombras determinando sua própria justiça e descumprindo todas as regras possíveis. Talvez um dos exemplos mais crus desse sistema seja “O Procurado” (2008), uma pérola ainda desconhecida do grande público, com Morgan Freeman, James McAvoy e Angelina Jolie. Enredo padrão: uma sociedade antiquíssima de assassinos sempre agindo além das linhas para impor algum tipo de “justiça” ao mundo. Nada, porém, consegue ser mais didático nesse ponto, do que a tetralogia “John Wick”, a maior já feita no cinema. A série que começa em 2014 com “De Volta ao Jogo” e termina em 2023 com o absurdo “Baba Yaga”, apresenta ao mundo uma sociedade secreta de assassinos que, segundo a minissérie “Continental” (2023), que conta eventos antes da franquia original, remonta a um período “anterior ao Império Romano”. Em resumo, a “Alta Cúpula” é mais antiga do que Cristo. Com os filmes vamos entendendo que a “Alta Cúpula” é uma organização formada por grupos e famílias que trabalham para ela em troca de certos privilégios. É uma milícia de mercenários com alcance global, regras rígidas, hierarquia bem definida e legislação própria. Em suma, a “Alta Cúpula” é o sistema dentro do sistema, o deep state dentro do deep state, que não responde para ninguém. Ela junta a mística das sociedades secretas, a tradição das genealogias e o pragmatismo dos assassinos de aluguel. Ao se virar contra ela, John Wick nos apresenta a um mundo completamente aparelhado pelo sistema, como já avisava as Escrituras: “ O mundo inteiro jaz no maligno ” ( I João 5:19 ), com olhos e ouvidos em todos os lugares, completamente conectado e interdependente. O mundo da “Alta Cúpula” é o mesmo mundo governado pela “Matrix”, só que na vida real. Seus assassinos alistados são como o agente Smith, estão em toda parte, de modo que você cruza com eles a todo instante, mas não sabe de quem se tratam, até que eles tentem te destruir. Se a Matrix tem seu “analista”, a Alta Cúpula tem seu “ancião” (ou superintendente). No final, ambas falam da mesma coisa e mandam o mesmo recado. Tanto a Alta Cúpula como a Matrix esbarram em você o tempo inteiro. Eles estão nas megacorporações que controlam suas finanças, nas multinacionais que você ajuda a manter com suas compras, na grande mídia que está da sua TV ao seu smartphone. Quando você resmunga algo perto do seu aparelho celular, e logo em seguida ele te oferece um produto referente ao que você resmungou, é a Matrix dizendo: “Olá, estamos aqui!”. Quando gente famosa some ou morre de forma inexplicada/inesperada, como JFK, Gandhi ou Martin Luther King, é a Alta Cúpula. Esse é o primeiro recado: ninguém está seguro. Mesmo quem acha que tudo não passa de mais uma teoria da conspiração, não está livre de se deparar com mais essa “teoria”. É só entrar no caminho do sistema. Não precisa ser muito inteligente para entender que, embora esses eventos não estejam especificamente ou diretamente ligados, eles ocorrem em padrões semelhantes as mostrados nos filmes. Assim como não sabemos quem controla a Matrix ou a Alta Cúpula, uma informação deixada no limbo de forma proposital, porque no final das contas tudo e todos os envolvidos servem ao mesmo patrão, Satanás, a ideia é deixar tudo no campo da imaginação, para reforçar ainda mais a ideia de paranoia, enquanto eles seguem agindo. O segundo recado é mais sombrio. John Wick e Neo morrem ao final. Ainda que “Matrix” o ressuscite no quarto episódio, para pagar aquele mico colossal, a verdade é que quem tem um pouco de experiência com filmes sabe que a coisa foi pensada para acabar no terceiro, assim como Wick acaba no quarto episódio. Trazer Neo de volta para agradar à narrativa woke/feminista foi um fiasco. Não por acaso custo cerca de 200 milhões de dólares e não rendeu nem perto de disso. Fracasso retumbante e merecido. O cinema, assim como na história, no mundo real, mostra que os “bugs” e “outsiders” podem fazer o estrago que quiserem, mas ao final serão sumariamente eliminados por um mundo que eles – desgraçadamente – ajudaram a criar. Ampliando os horizontes cinematográficos, foi assim com Spartacus e o General Maximus. Todos traídos pelo deep state de sua época. Isso ocorre porque a humanidade ainda não se deu conta (ou se perdeu dela) de que o pano de fundo para tudo isso é mais espiritual do que se pensa. Yeshua, o único ‘outsider’ que encarou o sistema e venceu, expôs isso, ao mostrar a influência satânica por trás do deep state de sua época, composto por Judas, fariseus e romanos. O primeiro ficou possesso, aos segundos ele chamou de filhos do Diabo ( João 8:44 ) e os outros dispensam apresentação. Quando em João 16:33 ele, Yeshua, diz: “ Eu venci o mundo! ”, entre outras coisas está querendo dizer: “Eu venci o sistema!”, mas também “Vocês também podem vencer, mas tem que vir comigo!”. É o conceito de fé exposto pelo personagem Morpheu, vivido por Laurence Fishburne, e devidamente desconstruído (propositalmente) no quarto episódio, em que fazem o favor de tornar essa fé e o sacrifício de Neo completamente inúteis, e até prejudiciais. Porque a fé em Yeshua, o único venceu o mundo, o sistema e o deep state, e voltou para nos provar que é possível, é a arma mais poderosa que temos para lidar com o que nos cerca, ou, como diz a Escritura, “anda ao nosso derredor” ( I pedro 5:8 ). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – ISSN 2764-3867
- Zumbi dos Palmares
Herói ou Vilão? O dia 20 de novembro é comemorado no Brasil como o Dia da Consciência Negra, uma homenagem a Zumbi dos Palmares. Zumbi é frequentemente celebrado como um herói da resistência contra a escravidão, líder do Quilombo dos Palmares, um refúgio de escravos fugidos que resistiu à colonização portuguesa por quase um século. No entanto, a figura de Zumbi é controversa. Alguns historiadores argumentam que, além de ser um líder de resistência, ele também cometeu atos violentos e cruéis, como a execução de prisioneiros e ataques a fazendas e povoados. Enquanto Zumbi é lembrado, muitos verdadeiros heróis negros são frequentemente esquecidos pela história. Um exemplo notável é Maria Firmina dos Reis, uma escritora maranhense e romântica do século XIX. Nascida em 11 de março de 1822 e falecida em 11 de novembro de 1917, Maria Firmina não só publicou o primeiro romance escrito por uma mulher negra no Brasil, "Úrsula", como também foi uma professora, musicista e pioneira na educação inclusiva. Maria Firmina dos Reis fundou a primeira escola mista do Brasil, uma instituição que acolhia crianças de diferentes origens, promovendo a inclusão e a igualdade. Sua obra "Úrsula" é precursora da temática abolicionista na literatura brasileira, tratando de questões relacionadas à escravidão e à luta pela liberdade com uma sensibilidade única. Este romance é considerado o primeiro no gênero a ser publicado por uma mulher negra em todos os países de língua portuguesa. Visto como um exemplo de superação e contribuição cultural, Maria Firmina dos Reis deveria ser lembrada e celebrada por suas realizações e seu impacto duradouro na educação e na literatura. Outro negro de destaque, mas esquecido pela esquerda brasileira foi André Rebouças. André Rebouças foi um engenheiro, inventor e abolicionista brasileiro, nascido em 13 de janeiro de 1838, em Cachoeira, Bahia. Ele é conhecido por ser um dos principais articuladores do movimento abolicionista no Brasil e um dos primeiros engenheiros negros a se formar pela Escola Militar. Alguns dos principais feitos de André Rebouças incluem: Contribuições para a abolição da escravidão: Ele ajudou a fundar a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, ao lado de Joaquim Nabuco e outros abolicionistas. Projetos de engenharia: Ele trabalhou em projetos importantes, como a construção de docas e a solução de problemas de abastecimento de água no Rio de Janeiro. Participação na Guerra do Paraguai: Durante a guerra, ele desenvolveu um torpedo que foi utilizado com sucesso. Exílio na Europa: Após a Proclamação da República em 1889, ele se exilou na Europa junto com a família imperial e passou os últimos anos de sua vida trabalhando pelo desenvolvimento de territórios africanos. André Rebouças também deveria ser lembrado como uma figura importante na história do Brasil, tanto por suas contribuições técnicas quanto por seu compromisso com a causa abolicionista. Mais um nome esquecido: Teodoro Fernandes Sampaio. Engenheiro, geógrafo, escritor e historiador brasileiro, nascido em 7 de janeiro de 1855 em Santo Amaro da Purificação, Bahia. Filho de Domingas da Paixão do Carmo, uma mulher negra escravizada, e possivelmente do padre Manuel Fernandes Sampaio, Teodoro teve uma infância marcada por desafios, mas também por uma forte dedicação à educação. Ele estudou no Colégio São Salvador e depois ingressou no curso de Engenharia do Colégio Central no Rio de Janeiro, onde se formou em 1878. Durante seus estudos, Teodoro também lecionou e trabalhou como desenhista no Museu Nacional. Após se formar, ele retornou à sua cidade natal e libertou alguns de seus irmãos que ainda estavam escravizados. Teodoro Sampaio teve uma carreira prolífica, participando de várias comissões importantes, como a Comissão Hidrológica nomeada pelo imperador Dom Pedro II e a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, onde realizou a primeira medição de base geodésica do Brasil. Ele também foi engenheiro-chefe da Companhia Cantareira e Diretor e Engenheiro Chefe do Saneamento do Estado de São Paulo. Além de suas contribuições técnicas, Teodoro Sampaio também foi um escritor e historiador, publicando obras sobre o rio São Francisco e a Chapada Diamantina, além de estudos sobre povos indígenas como os Tupis e os Krahôs. Ele foi um dos fundadores do Instituto Geográfico e Histórico de São Paulo e do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, e atuou na política, sendo deputado federal entre 1927 e 1929. Teodoro Sampaio é mais um nome descartado pela esquerda brasileira, mas que deixou um legado significativo na engenharia, geografia e história do Brasil. Como podemos notar, existem muitos nomes e figuras negras que tiveram grandes contribuições em nosso país. Mas infelizmente foram desconsiderados, pois não viveram alinhados com as narrativas que a política brasileira de esquerda gosta de exaltar. A celebração do Dia da Consciência Negra deveria ser uma ocasião para refletir sobre a verdadeira história e as contribuições dos negros na formação do Brasil. Infelizmente, às vezes parece que estamos mais inclinados a transformar esse dia em um desfile de assombrações zumbis, esquecendo o significado profundo da data e dos sacrifícios de tantos. Por falar em zumbi, essa tendência de desvirtuar datas importantes não é uma atitude dos dias de hoje. Ao longo da história vivenciamos esse tipo de atitude inúmeras vezes. Coincidência ou não, recentemente passamos por uma onda de exaltação de uma data sombria. Confundir valores e mentes é um artifício bem antigo. Estamos falando sobre a data do Halloween. Mas o que o Halloween tem a ver com a figura de Zumbi dos Palmares? Vejamos. Essa tática das trevas de recontar histórias e endeusar vilões não é exclusividade apenas do Dia da Consciência Negra no Brasil. A data do Halloween já foi uma festa adotada no calendário cristão. Isso mesmo. Essa tendência de desvirtuar datas importantes pode ser comparada ao que aconteceu com o Halloween. O Halloween tem suas raízes em uma antiga celebração celta chamada Samhain, que marcava o fim da colheita e o início do inverno, uma época frequentemente associada à morte. Os celtas acreditavam que, na noite de 31 de outubro, o véu entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos era mais fino, permitindo que os espíritos retornassem à terra. Logo, tem origens pagãs. Contudo, em um momento da história “se aproveitou essa comemoração” e tornou-se uma celebração religiosa conhecida como a véspera de Todos os Santos (All Hallows' Eve). As fantasias sombrias inicialmente foram adotadas como uma catequese em teatrinhos para lembrar aos fiéis a dicotomia Céu x Inferno. Quando o cristianismo se espalhou pela Europa, a Igreja Católica tentou dar uma nova contextualização a essas celebrações pagãs, estabelecendo o dia de Todos os Santos em 1º de novembro para honrar todos os santos e mártires cristãos. A véspera dessa festa, 31 de outubro, passou a ser conhecida como All Hallows' Eve, que mais tarde se transformou em Halloween. Passado muitos anos, o Halloween foi transformando-se em uma festa secular e comercial, cheia de fantasias e atividades que pouco têm a ver com seu propósito inicial de honrar os santos e lembrar os mortos. Os cinemas de Hollywood começaram a dar glamour ao lado sombrio da vida (realmente é de pasmar!!!). Para os cristãos, a véspera de Todos os Santos deveria ser uma noite de reflexão e preparação espiritual, onde se honra a memória dos santos e se reza pelos entes queridos falecidos. Houve uma época que era celebrada uma missa de Halloween, com liturgia dedicada a essa data!!! No entanto, a comercialização e popularização do Halloween têm levado muitos a verem a festa moderna como algo que promove práticas incompatíveis com a fé cristã, como a invocação de espíritos e a glorificação do macabro. Muitos cristãos argumentam que o envolvimento com elementos como fantasmas, demônios e bruxas pode abrir portas para influências espirituais negativas e afastar as pessoas dos verdadeiros ensinamentos de Cristo. Além disso, há a preocupação de que a celebração do Halloween possa banalizar a seriedade da vida após a morte e a importância do respeito pelos mortos. Por isso, é muito importante sabermos escolher quem exaltamos como nossos heróis. Exaltar figuras desvirtuadas como Zumbi de Palmares nos abre inúmeras brechas no mundo espiritual. Aplaudir a barbárie e a crueldade é renegar tudo aquilo que Cristo nos ensinou durante sua estadia na Terra. A fé cristã já é completa e conta com inúmeras festas. Não há necessidade de incluirmos mais celebrações em nossa rotina. Contamos com o Natal, celebração do nascimento de Jesus Cristo que é uma época de grande alegria e reflexão espiritual. Além das celebrações litúrgicas, muitas comunidades realizam atividades que envolvem caridade e ajuda ao próximo. Em seguida temos a Páscoa, a maior festa do cristianismo, que comemora a ressurreição de Jesus Cristo. É um período de renovação espiritual e celebrações que incluem missas, vigílias e atividades comunitárias. Essas festas, entre outras, mostram que o cristianismo oferece uma rica tapeçaria de celebrações e rituais que são profundamente significativos e espiritualmente enriquecedores, sem a necessidade de adotar festividades que se desviem dos ensinamentos e valores da fé. Não precisamos de uma festa que exalte figuras diabólicas. O dia de São Cosme e Damião que até pouco tempo era celebrado em escolas e distribuídas sacolinhas de doces tem total repúdio porque o “Estado é Laico”. Mas o Halloween pode? Contraditório, não? Vivemos tempos de profunda reflexão e que nos chamam a viver em constante vigília para não caímos em armadilhas que parecem bobas, mas que não são nada inocentes. Devemos sempre buscar o discernimento na escolha de como celebrar e lembrar de datas significativas, garantindo que o foco permaneça nas práticas e significados espirituais autênticos e cristãos. Em suma, o dia da Consciência Negra foi pensando com um propósito – talvez até bem intencionado – infelizmente virou arma na mão de pessoas mal intencionadas que, ao invés de enaltecer “os pobres e oprimidos”, escolhem enaltecer bandidos e pessoas demoníacas. Não se iluda, o Halloween não é somente dia 31 de outubro. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – ISSN 2764-3867
- SOY LOCO POR TI, AMERICA
A vitória de Donald Trump, eleito 47º Presidente dos Estados Unidos da América, encerra em si várias lições, que o mundo precisa aprender, antes que seja tarde demais. Sobretudo, acerca dos rumos que temos escolhido como civilização, diante de tanta polarização. Trump veio comprovar, com sua expressiva votação, que a lacração e a agenda woke, repleta de ideologias e “desconstruções do mundo como nós o conhecemos”, tornou-se insuportável e ameaçadora, para as pessoas comuns, que trabalham, criam filhos, vão à igreja, cuidam da casa e têm sido submetidas a todo tipo de bizarrice, ouvindo os discursos e narrativas e vendo transformações que pipocam por todo canto. A verdade é uma só: a tradição, a religião e a família importam, e por mais que se tente destruir esses três pilares civilizatórios, em algum momento, as coisas irão explodir, pois não é possível viver em um mundo em que não há regras e valores. A liberdade, como dizia Ronald Reagan, está a apenas uma geração da extinção, caso não se tenha consciência do que realmente importa e precisa ser preservado. Trump, desde seu primeiro mandato, em 2016, firmou-se como conservador nos costumes e liberal na política, defendendo a livre concorrência, menores impostos e intervenção estatal na economia, queda da inflação e medidas que incentivem o crescimento dos EUA, como nação e potência. Também foi um feroz crítico das transformações sociais que a agenda progressista quer promover, na medida que sempre compreendeu que o cidadão comum não quer conviver com as loucuras e excessos que várias minorias tentam impor. Aliás, o conservadorismo está se fortalecendo em todo o mundo, bem como a Igreja Católica, em decorrência dos abusos que tem sido propagados por toda parte, e pela submissão de governos de esquerda a essas pautas, tornando seus países extremamente vulneráveis as mudanças que, no futuro mostram-se demolidoras. Um exemplo é o Canadá, com suas políticas de liberação total do aborto e das drogas, livre imigração e tolerância à criminalidade. Agora, em um ponto já sem retorno, em que os drogados invadiram as ruas das grandes cidades e ameaçam a segurança dos moradores, os imigrantes do mundo todo tomaram o país de assalto, aumentando o desemprego e a criminalidade e gerando uma grave crise de moradias e a taxa de natalidade despencou a níveis extremamente preocupantes, tenta tomar medidas para restringir o mal que foi implantado pelo próprio governo, sem muito sucesso. Há bolsas de auxílio a drogados e imigrantes, abortos feitos gratuitamente e de forma indiscriminada e a terrível sensação de que não há solução a curto prazo. Lojas são saqueadas à luz do dia, pela política de não punibilidade dos delitos pequenos e furtos de baixo valor e a população tornou-se refém do monstro que o governo canadense criou. O que Donald Trump sinaliza é tudo que a esquerda quer ocultar: as ideologias perversas não funcionam na prática, e somente políticos inescrupulosos e pesquisadores de gabinete e ar-condicionado, que vivem em uma bolha e não irão experimentar as mudanças que defendem, acreditam que isso pode dar certo. E, infelizmente, vão capturando a população com seus discursos fantasiosos. Entretanto, o americano médio cansou-se disso, por sentir na pele e no bolso, o que o partido democrática fez com seu país. Kamala Harris, uma despreparada alucinada, que sucederia um presidente senil e caquético, não conseguiu convencer o povo americano de que teria pulso e competência para governar a maior potência do mundo. Com o avanço do comunismo chinês e russo, as guerras da Ucrânia e do Oriente Médio e a imigração desenfreada, a percepção de que tempos difíceis pedem medidas extremas e que só Donald Trump pode ajudar a frear isso e proteger os Estados Unidos, deu-lhe uma vitória arrasadora nos colégios eleitorais e no Parlamento, bem como no voto popular. Desejo ao Presidente Donald Trump um excelente governo, com prosperidade, paz e sucesso em todas as delicadas medidas que precisará adotar, mas que não só tornarão a América grande novamente, mas também protegerão o resto do mundo dos perigos que estão à espreita. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 48 – ISSN 2764-3867
- Desonrados
Durante a Copa do Mundo de futebol em 1986, as seleções da Argentina e da Inglaterra se enfrentaram pelas quartas de finais no Estádio Asteca, restando vitoriosa a equipe sul-americana que, ao final do campeonato, se sagraria a campeã do torneio, entretanto, foi durante aquela apertada vitória sobre os ingleses que um episódio entrou para a história do futebol. A estrela da seleção auriceleste, Diego Maradona, marcara o primeiro gol com a mão, de punho cerrado, o astro do futebol argentino conseguiu atingir a bola em uma dividida com o goleiro inglês. Ao deixar o gramado, Maradona respondeu aos repórteres que o gol, validado e que resultou na vitória argentina por dois a um, foi feito com a “mão de Deus”, atribuindo, de forma jocosa, a vitória da seleção de seu país à vontade divina. A galhofa do jogar é irrelevante, uma vez que o erro da arbitragem não poderia ser desfeito após o apito final, em verdade, à vitória se resume a uma passagem do futebol mundial e sua relevância se resume ao universo estrito daquele esporte em particular. A Argentina chegaria ao título daquele campeonato, mas garantir que a Inglaterra se sagraria vencedora da partida não fosse o gol irregular validado, ou ainda, chegaria ao título caso vitoriosa naquela partida é um exercício de mera especulação, sem quaisquer fundamentos práticos. A falha do árbitro, naquela situação, torna-se irreversível, portanto, a seleção argentina, que de fato se beneficiou do erro, seguiu no campeonato, mas o chocante foi a forma pela qual grande parte da imprensa, esportiva ou não, tentou justificar o injustificável, relativizando o erro e, de certa forma, dando ar de seriedade às palavras do jogador. Se por um lado, alguns poderiam argumentar que Diego Maradona não tinha a intenção jocosa quando se referiu à “mão de Deus”, acreditando, de fato, que a vitória veio pela intervenção divina ao favor de seu time, de maneira que, o jogador realmente tinha em seu íntimo que a Argentina merecia e precisava da vitória e, por isso, Deus decidiu dar uma “pequena ajuda” naquela partida. Tratar como uma brincadeira diante de uma pergunta que não tem como ser respondida sem admitir que sua vitória decorrera de um erro e não da competência de marcar gols, fator determinante no futebol. O erro de arbitragem que classificou a argentina poderia ser explicado, não pelo jogador ou torcedores, que devido a sua ligação romântica com a vitória poderiam atribuí-la a algo maior, mas por analistas em geral, de forma simples. Bastava admitir que se tratava de uma simples falha do árbitro e deixar aos entusiasmados torcedores argentinos a tarefa de tornar o momento lúdico em suas lendas futebolísticas. Todavia, movidos por um sentimento de revanche diante da derrota da Argentina na Guerra das Malvinas, na qual o país sul-americano saiu derrotado do confronto em que disputava a soberania das Ilhas Malvinas, ou Ilhas Falkland, com a mesma Inglaterra, grande parte dos analistas passaram a narrar a vitória na Copa do Mundo como uma resposta dos argentinos aos ingleses, uma forma de revanche, o que justificaria, no imaginário transloucado daqueles que conseguem transpor uma guerra para uma partida de futebol sem maiores constrangimentos, a aceitação de uma vitória conquistada através de um erro como sendo justa e limpa. De certa forma, não querendo admitir que se comemorava uma vitória advinda de um erro, para não lhe retirar a nobreza da conquista, despiram-se da lógica de que falhas no esporte acontecem e que a vitória injusta, irremediável, deveria ser aceita e todos deveriam apenas seguir adiante, o que criaria apenas mais uma lenda comum ao futebol, em que os lamentos dos injustiçados, sevem apenas para aos vitoriosos, mesmo que consciente da natureza contestável da vitória, façam troça dos vencidos, grande parte dos que discorreram sobre o tema preferiam usar da guerra para dar, falsamente, um ar glorioso ao gol irregular e a vitória questionável. Cabe ressaltar que na Guerra das Malvinas, ao que apontam as estimativas, o número de baixas da Argentina foi o triplo das inglesas, o que, de certa forma, indicaria que a ajuda divina em favor do país europeu teria sido consideravelmente maior, dando aos argentinos um prêmio de consolação que sequer mereceria um lugar em uma estante velha e tomada por teias. Seria, de fato, pensar pequeno demais considerar que uma vitória desportiva equiparar-se-ia ao infortúnio da derrota em campo de batalha, ou mesmo, significar uma revanche digna de menção. Na realidade, articulistas reduzidos ao mundo do desporto, ou ávidos por comemorar qualquer sopro de vitória sobre o rival, usaram a narrativa de que era sim digno de se vangloriar da vitória conquistada através de um erro ante a justiça divina feita contra os vencedores da guerra. Muito mais digno fora a simples atitude dos torcedores mais simplórios que, de forma sincera, comemoravam a vitória sem se importar em justificá-la moralmente. O simplista, que acolhe como mero golpe de sorte ou consequência de um erro a dádiva do título, em que pese possa ser acusado de despreocupado, é, sem dúvida, mais integro que aquele que, buscando justificar a vitória por artifícios obscuros, relativizando que a injustiça do futebol fora mera injustiça ao seu favor e não goza de qualquer vestígio de reparação divina. A relativização da moral está no cerne da desonestidade, um sujeito amoral é, em sua pior face, aquele que tenta transparecer como alguém que possui valores, entretanto, os relativiza tão somente para não se submeter às regras que, indispensavelmente, imporá sob outrem. Adotando a máxima de que “os fins justificam os meios”, sem qualquer apreciação de quais os fins se pretende alcançar, ou mesmo, quais os meios podem ser tolerados, o relativista assume que tudo é válido quando for a seu favor, portanto, não há quaisquer obstáculos que justifiquem a reversão ou arrefecimento de sua intenta revolucionária. Se, na mente de tais indivíduos, o bem e o mal são relativos, ou seja, a depender do ângulo pelo qual se observa, o bem tornar-se-á mal e vice-versa, de maneira que, pode-se, em busca de um “bem maior”, ainda que tal busca, nitidamente, se resuma a um engodo ou algo que a história provou que se trata de uma empreitada que almeja a utopia, mas que trará a desgraça, como os regimes totalitários e coletivistas que se tentaram implementar no século passado, o socialismo, o nazismo e o fascismo, na mentalidade relativista, admitir que indivíduos sejam solapados em suas liberdades, garantias e mesmo vidas, pois, como não há limites para o mal que se pratica em nome do bem, tudo é permitido quando favorável à luta revolucionária. Não por acaso o Holocausto e o Holodomor foram práticas de extermínio em massa, adotadas por regimes revolucionários em que seus líderes tiranos dizimaram números alarmantes de vidas para “livrar o mundo” daqueles que eram indesejados pelo regime. Seja o povo judeu, apontado pelos nazistas como seres humanos que mereciam a extinção para que a humanidade ascendesse a uma raça superior, ou mesmo, os agricultores ucranianos que se não foram muito simpáticos ao regime soviético e resistiam a entregar tudo o que possuíam e produziam à tirania de Moscou. O Japão também desumanizou tanto chineses como coreanos durante a Segunda Guerra Mundial, justamente, por considerar que não havia limites para sua intenta. Admitir que direitos básicos possam ser violados em nome de uma revolução doentia, que prega a falsa libertação de um grupo em razão do extermínio de outro, o qual apontam como opressor, de maneira que, basta indicar quem seria o alvo do ódio revolucionário para, desumanizando-o, destruí-lo sem qualquer pudor. Podemos citar o exemplo da Universidade de Liége, na Bélgica, que, em seu curso obrigatório sobre ecologia e sustentabilidade , aponta, em sua descrição, ser o “homem branco, cristão e heterossexual” o responsável pela degradação do planeta, demonizando um alvo que uma determinada agenda ideológica parece desejar exterminar. A leitura superficial nos leva a crer que a renomada instituição de ensino está a sugerir que uma forma de proteger o planeta é o extermínio do homem branco, cristão e heterossexual, o que, para os indivíduos acometidos pela doença do relativismo moral pode ser um gatilho para que se justifique a destruição de um grupo determinado, os homens brancos, cristãos e heterossexuais, em busca de um bem maior, que é salvar o ecossistema, e, portanto, o restante da humanidade. Imaginemos a substituição dos termos branco, cristão e heterossexual por judeus e estamos diante de uma clara propaganda nazista, ou, por outro prisma, se fossem os termos substituídos pela expressão “negro”, talvez acreditássemos ser um texto extraído das entranhas da odiosa Ku Klux Klan. Talvez não fosse de grande surpresa se o trecho fosse uma produção do doentio grupo ativista Black Lives Matter , entretanto, ao perceber que a autora da frase bestial é, na verdade, uma renomada universidade europeia, não há como ignorar o quão perigoso é o aval acadêmico entorno de um pensamento que pode servir como base para a eugenia, especialmente, em uma sociedade carente de base moral sólida e que deposita uma fé irracional naquilo que define como ciência, ou seja, se um pensamento absurdo, abjeto ou esquizofrênico é apresentado por alguém que ostenta títulos acadêmicos, há um risco real de ser acolhido como pensamento científico e, no cenário atual, irrefutável com base no argumento de autoridade, por mais que tal autoridade seja uma criação artificial das próprias universidades, devendo, para alguns, ser seguido cegamente. O experimento social totalitário bem-sucedido em âmbito global, que submetera milhares, talvez bilhões, a usarem métodos sem quaisquer explicações razoáveis, criando uma espécie de coerção científica, serve como alerta, no que tange, ao exacerbado poder conferido aos ocupantes de bancos acadêmicos, afirmando que títulos conferidos pelas universidades podem servir de chancela para que um pensamento nocivo seja recepcionado pela sociedade como um mote inquestionável. Ao produzir uma chamada no campo acadêmico que associa um grupo, que parece ser o alvo dos revolucionários, cria-se um arcabouço que serve de fundamento para a propositura de políticas que, de fato, promovam o extermínio do grupo em questão. Ao promover o pensamento de que o homem branco, cristão e heterossexual pode ser, ainda que de forma indireta, o responsável pela degradação do planeta, nutre-se o argumento, nas camadas mais rasas dos revolucionários que o extermínio de tal grupo se justifica por uma causa maior, por analogia, amputar um membro para salvar o corpo. O risco, conscientemente assumido pelos senhores revolucionários, ao propagarem ideias que pregam a eugenia de seus alvos do alto de sua “ torre de marfim ”, figura na interpretação das hordas bestializadas de vassalos da revolução, desprovidas de uma moral consistente, tornam-se agressores em potencial, buscando o “justiçamento” proposto por seus senhores. Em um trágico mundo tomado por pensamentos relativistas, no qual qualquer regra pode ser distorcida conforme os interesses revolucionários, é imperioso cuidar da honra daqueles que, por ventura, busquem o confronto face aos transloucados, de maneira que, a pergunta que devemos nos fazer se trata da linha entre a moralidade e a necessidade que não pode ser cruzada, bem como, considerar os meios pelo qual se pode vencer um desonesto conservando a honestidades. Diante de um confronto no qual, um lado, desprovido de moralidade, utiliza de todo tipo de ardil para chegar à vitória, mas clama para que o outro mantenha a retidão em suas ações, o controle emocional torna-se indispensável, posto que, o maior temor do justo é tornar-se ímpio quando na tentativa de vencer, ou resistir, o ímpio. Pode parecer algo confuso, mas não é um exercício tão complexo se imaginarmos diversos exemplos reais que nos cercam. Citamos os herdeiros ideológicos de anistiados pelo regime militar, alguns dos quais praticaram crimes violentos que resultaram até mesmo na morte de suas vítimas, que bradam para que não sejam anistiados indivíduos que são acusados por supostos crimes sem que estivessem armas, causando lesão a integridade de terceiro e cujo objeto sabe-se impossível. Na mesma toada, aqueles que alegavam lutar contra a censura e buscam criminalizar a zombaria, os chamados “memes”, para, na verdade calar qualquer voz dissonante de sua ideologia política. Como não se espantar com vozes que outrora reclamavam de um Estado policial, adulam inquéritos intermináveis e com objeto indeterminado, podendo incluir qualquer um no rol de investigados e indiciados, impedindo até mesmo que patronos tenham acesso à informações de inquéritos, suprimindo as prerrogativas da advocacia, que na verdade é do indivíduo assistido pelo casuístico. A tão aclamada atuação da Ordem dos Advogados como base de resistência durante o regime militar, ditatorial, parece ter se tornado uma página virada na história, permitindo que, mesmo os advogados sejam tolhidos de sua, até então, nobre missão. O exemplo do professor de Direito que, ao apresentar uma palestra fumando, sendo questionado por um aluno a respeito de exigir-se o cumprimento das normas mesmo praticando algo que era apontado como proibido, respondeu que a placa não se destinava ao professor, pois estava direcionada aos alunos, de maneira que não precisava se sujeitar a regra. O caso foi usado para ilustrar como a lei por ser interpretada conforme a ótica do interprete, dando clara impressão que alguns, ao menos, os que gozam de tal poder, não precisam se curvar aos ditames da lei, posto que, sendo o interprete, poderá relativizar a norma ao seu bel prazer. A grande dificuldade em se opor ao revolucionário reside, justamente, no ponto em que, por se tratar de um indivíduo cuja moral e as regras podem ser relativizadas, está no fato de não poder, o opositor, se rebaixar ao nível de desonestidade de seu adversário, de forma que, ao confrontar alguém que exige o cumprimento das normas de um certame, mas que está disposto a violá-las sem quaisquer constrangimentos, como alguém que, hasteia a bandeira branca, mas ataca de forma pérfida tão logo o seu oponente aceite a rendição, como um covarde que pede ao seu rival que se dispa de armas para tornar a luta equânime quando, em verdade, oculta sua arma para sacá-la logo após se certificar que seu inimigo está desarmado, ou seja, um duelista desonesto. Ao exemplo do que ocorrera na Venezuela, a evidente derrota da ditadura nas eleições não foi reconhecida pelo regime daquele país, haja vista que, o governo revolucionário não se dobrara as regras que foram previstas para o processo eleitoral, o que pode levantar a suspeita acerca de quaisquer eventos de igual natureza, posto que, se o poder está nas mão de relativistas, como não duvidar que estes não se sujeitam às derrotas, distorcendo as regras e resultados para que sirvam ao seu propósito, fazendo com que, tudo sofra a ingerência dos controladores do regime. No filme O Grande Dragão Branco , estrelado por Jean-Claude Van Damme, ator belga de filmes de luta, que interpreta Frank Dux, ao enfrentar o antagonista de nome Chong Li, na final do campeonato denominado Kumite, é surpreendido quando o vilão usa de um artifício para prejudicar a visão do Frank, entretanto, como tinha se preparado para lutar mesmo em condições adversas, o herói da película acaba sagrando-se vitorioso. Neste sentido, por mais que não se pretenda promover a violação das normas, deve-se ter em mente que o outro lado a violará, preparando-se para um inimigo capaz de qualquer medida para alcançar a vitória. Voltando ao caso do embate entre Argentina e Inglaterra, mesmo que a seleção brasileira, anfitriã da Copa do Mundo de 2014, tivesse a ajuda da arbitragem para ganhar o jogo contra a Alemanha, em nada surtiria efeito um gol irregular validado em favor do Brasil, pois, a larga vantagem da seleção europeia não permitiria que uma simples intervenção pudesse virar o resultado, logo, é preciso ter em mente que, uma vez preparado para um adversário ardilosos, deve-se esperar que o desonesto lance mão de todos os recursos, ainda que ilegais, para chegar ao seu objetivo, devendo manter-se forte o suficiente para vencê-lo mesmo diante da desvantagem de se cumprir as regras. Por outro lado, é sabido que algumas vezes, mesmo o árbitro pode ser um jogador disfarçado de imparcial, não cometendo erro que possam desequilibrar a partida, mas atuando diretamente em busca de um resultado favorável ao seu lado, algo que, salvo na mentalidade relativista, é inadmissível. No âmbito do futebol, seria fácil compreender que um árbitro, escalado para um jogo de duas seleções, jamais poderia ser oriundo de um dos países envolvidos, bem como, de um interessado no resultado, portanto, não seria razoável que o árbitro comemorasse a vitória sobre a seleção rival ao término da partida, mas para um relativista, como o outro lado sequer deve ser respeitado, não há problemas em uma violação de tal tipo, ainda que toda a sociedade seja diretamente afetada pelo resultado, uma vez que, não sempre se trata de um simples campeonato de futebol. Para uma sociedade corroída, parece que o senso de justiça é considerado quando se trata de um desporto e não em se tratando dos rumos da sociedade como nação ou civilização, restando claro que a contaminação do relativismo moral tomou as almas das pessoas como a ferrugem que condena engrenagens a não mais funcionarem. “Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti”. Friedrich Nietzsche . Mesmo guardando ressalvas ao pensamento de Nietzsche, a frase em questão se aplica muito bem ao que precisamos compreender na luta contra aqueles que não se dispõem a respeitar as regras, invocando as leis tão somente como obstáculos aos adversários. Como duelistas desonrados que pretendem alcançar a vitória ainda que negociem até com o diabo, dispostos a violarem direitos fundamentais ainda que supliquem que sejam cumpridos até mesmo aos mais atrozes dos criminosos. Cabe o exemplo do revolucionário e professor Elias Jabour que não vê problemas na aplicação da pena capital àqueles que se insurjam contra a revolução, mas que considera tal penalidade inválida em países não socialistas, ou seja, não sendo aplicáveis a crimes hediondos, contudo, aceitáveis, no imaginário relativista ao que não comunguem de sua crença ideológica doentia. O maior desafio dos bons não é apenas vencer o mal, mas não se corromperem no processo. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 47 – ISSN 2764-3867
- Transformação e Liderança Cristã
Em nosso último artigo , discutimos como a Igreja Católica tem sido um berço na formação de líderes. Contudo, é crucial lembrar que esse mérito não é exclusivo do catolicismo, mas de todo cristão que permite que o Espírito Santo atue em sua vida. A verdadeira transformação ocorre quando deixamos de viver para nós mesmos e permitimos que Deus habite em nós, renovando tudo em nossas vidas. A crença na mudança e na transformação é uma das características mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, mais belas da fé cristã. Quando permitimos que o Espírito Santo nos toque, nossa vida é profundamente transformada. “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). Paulo, ao escrever essa passagem, nos alerta contra a adoção das atitudes, valores e comportamentos do mundo que muitas vezes estão em desacordo com a vontade de Deus. O mundo, conforme a Bíblia, frequentemente se refere a um sistema sob a influência do pecado, onde imperam a vaidade, o egoísmo e a falta de moralidade. Conformar-se com o mundo pode nos desviar dos princípios de Cristo. Renovar a mente significa mudar nossa forma de pensar e reagir. É um processo contínuo e profundo, guiado pelo Espírito Santo, que nos ajuda a alinhar nossos pensamentos e ações com a vontade de Deus. Essa transformação permite que vejamos o mundo com os olhos de Deus, discernindo o que é verdadeiramente importante. O objetivo final é experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Acreditar que um simples carpinteiro poderia ser o Filho de Deus foi uma ideia perturbadora para muitos. Afinal, Ele parecia ser apenas mais um entre tantos. No entanto, sua vida e seu ministério provaram que Ele era, de fato, o Filho de Deus, capaz de transformar vidas e renovar corações. A dificuldade em acreditar na divindade de Jesus é ilustrada na famosa passagem sobre a dúvida de São Tomé. Após a ressurreição, Tomé, um dos doze discípulos, não estava presente quando Jesus apareceu pela primeira vez aos outros discípulos. Quando lhe contaram que viram o Senhor ressuscitado, ele respondeu: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei” (João 20:25). Oito dias depois, Jesus apareceu novamente e disse a Tomé: “Coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; estende a tua mão e coloca-a no meu lado. Não sejas incrédulo, mas crente” (João 20:27). Tomé então respondeu: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28). Jesus disse: “Porque me viste, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29). Este episódio não só mostra a dúvida de Tomé, mas também a paciência e compaixão de Jesus em atender sua necessidade de provas. A resposta de Tomé, ao finalmente reconhecer Jesus como seu Senhor e Deus, é um dos testemunhos mais fortes da divindade de Cristo nas Escrituras. A transformação que o Espírito Santo opera não é algo superficial; é uma mudança que toca o âmago do ser, trazendo renovação e nova vida. Esse renascimento espiritual é fundamental para a formação de líderes que possam guiar com sabedoria e compaixão, refletindo o amor de Deus em suas ações. Ser cristão significa ser servo de um Deus que não só nos ensinou como viver, mas também nos mostrou como devemos agir. Jesus Cristo, durante sua vida terrena, não apenas pregou sobre o amor e a justiça, mas viveu esses valores de maneira exemplar. “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). Hoje, assim como nos tempos de Jesus, somos frequentemente desafiados a ver além das aparências e a acreditar no poder transformador de Deus. Muitas vezes, estamos tão presos às nossas percepções limitadas que custa a acreditar que uma verdadeira transformação possa acontecer. No entanto, a fé nos chama a confiar e a ver com os olhos do coração. “Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos” (2 Coríntios 5:7). Os relatos de santos que mudaram radicalmente suas vidas são um testemunho poderoso do que significa permitir que Deus tome posse de nossa vida. Esses exemplos nos inspiram e nos mostram que a transformação é possível para todos, independentemente de nossos passados ou circunstâncias. “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5:17). O Pentecostes é um marco importante na história cristã. Quando os apóstolos receberam o Espírito Santo, eles foram transformados e capacitados para pregar o evangelho com coragem e sabedoria. “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava” (Atos 2:4). Esse evento não apenas marcou o nascimento da Igreja, mas também destacou a importância do Espírito Santo na vida de cada cristão. O Pentecostes nos lembra que, através do Espírito Santo, todos podemos ser renovados e capacitados para servir a Deus e aos outros. A jornada de fé cristã é, essencialmente, uma jornada de transformação. É um caminho que nos desafia a permitir que o Espírito Santo atue em nossas vidas, renovando e transformando nosso ser. Quando Deus toma posse de nossa vida, tudo nela se torna novo, e somos capacitados a viver de acordo com Sua vontade, servindo aos outros com amor e compaixão. Ao reconhecer que a formação de líderes é um mérito de todo cristão, reafirmamos a importância de nos abrirmos à ação do Espírito Santo, permitindo que Ele transforme nossas vidas e nos guie a sermos servos fiéis e líderes inspiradores. “Sejam transformados pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). Que possamos, com fé e coragem, seguir o exemplo de Jesus Cristo e dos santos, vivendo de acordo com o plano de Deus para nós e para toda a humanidade. A transformação pela fé não é um processo simples ou fácil, mas é essencial para viver uma vida que reflita a vontade de Deus. É um chamado para todos os cristãos, independentemente de suas circunstâncias, a permitir que o Espírito Santo opere em suas vidas, guiando-os e fortalecendo-os a cada passo do caminho. Este processo de mudança contínua e profunda é o que nos permite experimentar a plenitude da vontade de Deus e nos capacita a servir e liderar com verdadeiro amor e compaixão. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 47 - ISSN 2764-3867
- O eterno trabalho do Sísifo conservador
Na mitologia grega, Sísifo era filho de Eolo de Tessália e Enarete. Sua astúcia e capacidade em encontrar artifícios para resolver situações difíceis, são os aspectos mais marcantes de sua personalidade mítica. Todavia, o encontro com o seu destino e a pena que a ele foi imposta são os temas que nos importam comentar e que, unidos serão o ponto de partida desta reflexão. Segundo os contos míticos, Sísifo conseguiu por duas vezes enganar a morte. Certo dia Sísifo testemunhara o rapto de Egina, filha de Asopo, por Zeus que se disfarçara como uma águia. Em sua busca por Egina, Asopo chega a Corinto (cidade de Sísifo) e, ao encontrá-lo pergunta se sabe do paradeiro de sua filha. Sísifo então revela que Zeus era o responsável pelo rapto. Com isso, Sísifo atrai sobre si a ira de Zeus. O deus dos deuses determina que Tânatos (o deus da morte) leve Sísifo prisioneiro e o entregue a Hades para ser mantido no submundo. Diante de seu trágico fim, a estratégia de Sísifo para fugir ao seu destino foi lisonjear Tânatos, elogiando sua beleza e oferecendo-lhe um colar como presente. Este colar na verdade manteve Tânatos aprisionado e Sísifo enganou a morte pela primeira vez. A malícia de Sísifo livrou-o de seu destino fatal, mas não permaneceria sem castigo. Com a prisão de Tânatos, a morte ficava impedida de cumprir sua missão. Hades o deus do submundo, assim como Ares o deus da guerra, perceberam o problema, já que as batalhas não podiam mais ser consumadas pela morte dos derrotados e o submundo não recebia mais as almas dos humanos. Assim, Hades liberta Tânatos e ordena-lhe que Sísifo seja trazido imediatamente aos seus domínios no submundo. Desta vez, Sísifo é enfim conduzido ao submundo pela morte, mas não sem antes pedir sorrateiramente à sua mulher (Mérope) que não desse a seu corpo um funeral, mantendo-o insepulto. Quando se vê diante de Hades no submundo e sabendo de seu destino, pede que Hades permita a sua volta ao mundo dos vivos para reclamar um sepultamento digno para seus despojos. Hades concede-lhe um prazo e Sísifo alcançando seu corpo, toma-o de volta e foge com sua mulher. Pela segunda vez a morte fora enganada por Sísifo. Após uma longa existência, Sísifo já velho encontra-se finalmente com Tânatos e é conduzido por Hermes (deus da velocidade e do comércio e patrono dos trapaceiros) até Hades. Sua punição por ter causado a ira dos deuses foi ser obrigado a subir ao ponto mais alto de uma montanha, conduzindo uma pesada pedra e lá depositá-la. Tarefa improfícua que jamais era concluída, pois sempre ao se aproximar de seu fim, a pedra rolava de volta ao início, obrigando Sísifo a eternamente recomeçar a dura jornada. Conhecedores da história de Sísifo, podemos prosseguir e refletir sobre a tarefa que cabe aos conservadores, de alertar aos incautos apoiadores dos governos de esquerda, assim como aos militantes da ideologia marxista, sobre os riscos que atraem para si e para o país como um todo. Tal como o mitológico trapaceiro, ao que parece o movimento conservador foi condenado eternamente a dura e improfícua tarefa de abrir os olhos aos opositores. Se as histórias divergem quanto aos seus enredos, ao menos a punição une Sísifo ao movimento conservador brasileiro. Expliquemos… Quem de nós, enquanto em conversa com alguma pessoa que tenha um ponto de vista diferente do nosso sobre determinado assunto político, não encontrou sérias dificuldades de convencimento? E não importa que tenhamos apresentado fatos e raciocínios lógicos, argumentos válidos e provas cabais, nada muda o ponto de vista ou o pensamento do nosso interlocutor. E quanto mais falamos (e nos repetimos), mais nossos interlocutores se tornam desconfortáveis, irritados, às vezes agressivos. Quem nunca experimentou tal dissabor? Vejamos, palavras ou termos como cidadania, direitos, democracia, estado democrático de direito, fascismo ou liberdade, aparentemente não tem os mesmos significados que poderíamos supor. Debatendo sobre o mesmo tema, falamos idiomas diferentes. Possivelmente tais pessoas tiveram parte de seu vocabulário sequestrado e sequer imaginam que isso aconteceu. Quem sabe estejamos alimentando um debate com bases e pressupostos viciados desde o princípio. Em situações normais, as palavras são compreendidas a partir do seu signo, seu significado e seu significante. Sendo o signo um objeto, o significado o seu conceito, e o significante o contexto em que a palavra é usada. Possivelmente em tais pessoas o significado e o significante tenham sido “sequestrados”, sendo substituídos por emoções. Assim por exemplo, associam-se pessoas ou palavras a emoções, o que no momento certo disparará um conjunto de reações mentais e emocionais que muito longe estarão da racionalidade. Diga-se “fascista”, ou o nome de algum político e um gatilho mental irá disparar uma enxurrada de emoções. Para tornar claro como o processo se dá, tomemos de um “caso hipotético”: se repetidamente o noticiário televisivo exibir reportagens tratando sobre os números de mortes de uma pandemia, o que por si só já carregará um contexto emocional dramático. Se em seguida apresentar a opinião de algum especialista que associe o volume de mortes a questões de genocídios no passado, parte do cenário mental do expectador estará montado. Se na sequência apresentar as medidas de controle sanitário promovidas pelo governo Federal, personificadas pelo presidente Bolsonaro, sutil e indiretamente ligando tais medidas às mortes anteriormente apresentadas. Se finalmente for repetida a receita, sempre que a vítima deste processo de sequestro ouvir a palavra-gatilho “Bolsonaro” automaticamente as palavras “genocídio” e “genocida” surgirão em sua mente. Os gatilhos emocionais serão disparados e toda a racionalidade será suprimida por um estado de emergência mental. Ironias à parte, inegável que os meios de comunicação prestaram com eficiência este nefasto serviço. Diuturnamente! Enquanto pessoas não “sequestradas” usam a razão para compreender aquele conjunto (signo, significado e significante), tais vítimas usam caminhos emocionais, que podem ser racionalizados, mas não são em si mesmos racionais. Em princípio não adiantará discutir, debater, explicar. São níveis diferentes de compreensão se contrapondo: Razão x Emoção. Há ainda alguma dúvida sobre como isto pode ter acontecido? Como dissemos, possivelmente pela repetição e associação sistemática e incansável de determinadas emoções a certas palavras-chave até que a cola das emoções a signos esteja completa. Todos os dias, várias vezes ao dia, nos rádios, emissoras de televisão, internet e, mesmo em salas de aula, é possível promover e consolidar o processo de sequestro mental do vocabulário. Concluído o processo, as vítimas sequer suspeitarão dos danos que lhes foram impingidos ao inconsciente. Há método! Como reverter? Tempo, paciência, repetição, exposição das vítimas aos fatos e a raciocínios lógicos embasados na realidade. Mostrando-as o mundo, comparando signos diferentes e seus significados. Nas palavras do humorista americano Groucho Marx: “Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. A tarefa do movimento conservador é exibir insistentemente a realidade, repetidamente conduzindo nossos interlocutores montanha acima, ainda que eles voluntariamente rolem montanha abaixo. Se nossa pena, como Sísifos do mundo contemporâneo, é tentar conduzir as pessoas ao mundo como ele é, e não como tem sido exibido pelas narrativas, que seja. A tarefa pode ser infinita, até lá, paciência… Nunca devemos esquecer das bolhas midiáticas, dos guetos sociais, da matrix informacional que alimentam o caos e impedem a ascensão do povo. Àqueles que já tendo condições de compreender que estamos lutando uma guerra desigual, cujos argumentos são incompreensíveis aos nossos adversários, incapazes de compreender nosso discurso, posto que tem nas palavras sentidos diversos e sequestrados; àqueles diremos: adiante montanha acima, Monte Castelo será nosso! “Mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom. Abstende-vos de toda espécie de mal”. (1 Tessalonicenses 5 21:22). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 08 - ISSN 2764-3867
- Eugenismo e identitarismo
O que acontece quando seres humanos buscam melhorar a sociedade em que vivem, estudando a alteração de características genéticas ou defendendo o privilégio de certas características físicas? O que ocorre quando grupos tentam corrigir injustiças, defender minorias ou quitar dívidas históricas? Possivelmente, o resultado seria uma sociedade melhor e seres humanos perfeitos. O que poderia dar errado em projetos tão permeados por boas intenções? Hoje, falaremos sobre o eugenismo e os movimentos identitários. O eugenismo é uma filosofia social e um movimento que ganhou destaque no final do século XIX e no início do século XX, com o objetivo de melhorar as qualidades genéticas da população humana. O termo “eugenismo” foi cunhado por Francis Galton em 1883, um cientista britânico primo de Charles Darwin. Galton foi inspirado pela teoria da evolução das espécies de Darwin e acreditava que, assim como a seleção natural atuava nas espécies, a humanidade poderia melhorar sua própria espécie por meio da seleção artificial. Ele propôs que a sociedade promovesse a reprodução de indivíduos considerados “superiores” e desencorajasse a reprodução de indivíduos “inferiores”. O eugenismo supostamente se baseava em princípios de hereditariedade e genética. Galton e seus seguidores acreditavam que características como inteligência, saúde e moralidade eram hereditárias e, portanto, podiam ser aprimoradas por meio da manipulação cuidadosa das linhagens reprodutivas humanas. A ciência da genética ainda estava em sua infância, e muitos dos pressupostos do eugenismo eram baseados em entendimentos incompletos e frequentemente errôneos da hereditariedade. Por falta de uma sólida base científica, alicerçada no método científico, hoje se reconhece que o eugenismo nunca passou de pseudociência, no máximo um delírio filosófico propagado como se fosse ciência. Além de Francis Galton, outros nomes importantes no movimento eugenista incluem Charles Davenport, um biólogo zoologista americano, que foi um dos principais defensores do eugenismo nos Estados Unidos. Ele fundou o Laboratório de Eugenia em Cold Spring Harbor e advogou pela esterilização de pessoas consideradas geneticamente “defeituosas”. Também se destaca Karl Pearson, matemático e biólogo britânico, que contribuiu significativamente nos campos da estatística e biometria, apoiando o eugenismo por meio de suas pesquisas em hereditariedade. Incluímos Madison Grant, conservacionista e advogado americano, que escreveu "The Passing of the Great Race", um livro que defendia a preservação das raças “nórdicas” e teve grande influência nos círculos eugenistas. No Brasil, o eugenismo encontrou terreno fértil no início do século XX, influenciado por correntes intelectuais europeias e americanas. Intelectuais brasileiros, como Monteiro Lobato e Renato Kehl, defenderam a aplicação de princípios eugenistas para “melhorar” a população brasileira, frequentemente associados a ideais de branqueamento racial e progresso social. A Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada em 1918, foi um marco importante, promovendo campanhas de educação e políticas de saúde pública, baseadas em princípios eugenistas. As políticas eugenistas tiveram consequências desastrosas em várias partes do mundo, e não é tão difícil deduzir por quê. Nos Estados Unidos, leis de esterilização forçada resultaram na esterilização de indivíduos, como no caso Buck v. Bell, de 1927. Na Alemanha nazista, o eugenismo foi levado ao extremo com o Holocausto, onde milhões de judeus, ciganos, pessoas com deficiências e outros foram exterminados em nome da “purificação racial”. Com os avanços na genética e biotecnologia, o eugenismo ressurgiu sob novas formas. Tecnologias como a edição genética (CRISPR), diagnósticos pré-implantacionais e testes genéticos sustentam debates sobre a ética da manipulação genética e o potencial de um novo eugenismo. Embora essas tecnologias ofereçam promessas de cura para doenças genéticas, também levantam preocupações sobre desigualdade, discriminação genética e a definição do que é considerado “normal” ou “desejável” em um ser humano. O eugenismo, em suas várias formas, continua sendo um desafio que nos leva a refletir sobre a essência da humanidade, a diversidade e a dignidade de todos os indivíduos, independentemente de suas características genéticas. Tudo o que o eugenismo proporcionou até então foi a separação entre as pessoas, a falsa ideia de superioridade, e isso levou a ações desastrosas no passado. Agora, tendo visto o eugenismo em perspectiva, vamos analisar os efeitos das novas teorias sociais e suas possíveis consequências. O movimento eugenista do final do século XIX e início do século XX e os movimentos sociais contemporâneos, como o Woke, Black Lives Matter (BLM), movimento feminista e LGBTQIA+, parecem, à primeira vista, estar em posições diametralmente opostas. Enquanto o eugenismo promovia a separação e hierarquia baseadas em características biológicas e genéticas, os movimentos identitários atuais sustentam bandeiras que supostamente buscam igualdade e justiça social, baseadas em características raciais ou de gênero. No entanto, uma análise mais atenta pode revelar pontos de contato, especialmente na forma como ambos os conjuntos de ideologias influenciam a sociedade e a percepção das diferenças. Como já vimos, o eugenismo fundamentava-se na crença de que a humanidade poderia ser melhorada por meio da seleção genética, promovendo a reprodução de indivíduos considerados “superiores” e desencorajando ou impedindo a reprodução daqueles considerados “inferiores”. Essa filosofia justificava políticas de segregação e esterilização forçada. Por outro lado, movimentos como o BLM, o feminismo e o LGBTQIA+ visam corrigir desigualdades históricas e contemporâneas, combatendo a discriminação e promovendo a igualdade de oportunidades. Eles frequentemente exacerbam as diferenças entre grupos para chamar a atenção para as injustiças que esses grupos enfrentam, promovendo políticas e práticas que pretendem corrigir essas desigualdades, mas que, como tem sido facilmente constatável pela simples observação da realidade social, têm causado o afastamento e o isolamento em guetos virtuais e bolhas sociais. O eugenismo utilizava a separação como uma ferramenta para criar uma hierarquia rígida, onde características genéticas determinavam o valor e o papel de cada indivíduo na sociedade. Essa separação era física (através de segregação) e ideológica (por meio de políticas públicas e propaganda). Já os movimentos sociais atuais também utilizam a separação, mas de maneira funcional e estratégica. Eles destacam as diferenças entre grupos, alegando lutar para reconhecer e reduzir injustiças, quando, na verdade, estimulam a animosidade entre os membros da sociedade. Para os eugenistas, a separação era um princípio para alcançar um fim: o ser humano perfeito; para os movimentos identitários, a separação é uma consequência de suas políticas, que pretendem alcançar justiça social. Ambos os movimentos influenciam significativamente as políticas públicas. O eugenismo levou a políticas de esterilização e segregação, enquanto muitos movimentos sociais atuais promovem políticas de cancelamento, convites de adesão de empresas, onde ficam implícitas as consequências da não adesão, lobby no meio político, construção de narrativas, exposição social, vitimização, ressignificação de palavras e revisionismo histórico não pautado em evidências, mas em narrativas. Mas como tanto o eugenismo quanto, principalmente, os movimentos atuais têm alcançado tantas mentes incautas? Nossa principal suspeita recai sobre os meios de comunicação de massa. Recentemente, pudemos estudar um discurso proferido em Harvard em 1978 pelo escritor e historiador russo Aleksandr Solzhenitsyn, onde ele fez uma análise comparativa da situação no Leste Europeu em relação ao Ocidente, particularmente ao caso dos Estados Unidos. Daquele discurso, destacamos o seguinte trecho, que continua incrivelmente atual: (…) “Pressa e superficialidade são a doença psíquica do século 20, e mais do que em qualquer outro lugar esta doença é refletida na imprensa. Como é, no entanto, que a imprensa se tornou a maior potência dentro dos países ocidentais, mais poderosa que o poder legislativo, o executivo e o judiciário? E então gostaríamos de perguntar: por que lei foi eleito e a quem é responsável? No Leste comunista, um jornalista é nomeado francamente como funcionário do Estado. Mas quem concedeu a jornalistas ocidentais o poder deles? Por quanto tempo e com que prerrogativas? Há mais uma surpresa para alguém vindo do leste, onde a imprensa é rigorosamente unificada: onde gradualmente se descobre uma tendência comum de preferências dentro da imprensa ocidental como um todo. É uma moda. Geralmente são aceitos padrões de julgamento, pode haver interesses corporativos comuns, o efeito da soma não sendo concorrência, mas unificação. Existe uma enorme liberdade para a imprensa, mas não para os leitores, porque os jornais dão principalmente ‘estresse’ e ênfase suficientes àquelas opiniões que não contradizem muito abertamente a própria e a tendência geral. Sem censura, no Ocidente tendências da moda de pensamento e ideias são cuidadosamente separados daqueles que não estão na moda. Nada é proibido, mas o que não está na moda quase nunca encontra seu caminho em periódicos ou livros, ou ser ouvido em faculdades. Legalmente, seus pesquisadores são livres, mas eles são condicionados pela moda do dia. Não há violência aberta, como no Oriente. No entanto, uma seleção ditada pela moda e a necessidade de corresponder aos padrões de massa frequentemente impedem pessoas de mente independente de dar sua contribuição para a vida pública. Existe uma tendência perigosa de se travar e interromper o desenvolvimento bem-sucedido. Recebi cartas na América de pessoas altamente inteligentes, talvez um professor em uma pequena faculdade distante que poderia fazer muito pela renovação e salvação de seu país, mas seu país não pode ouvi-lo porque a mídia não está interessada nele. Isso gera fortes preconceitos de massa, cegueira, o que é mais perigoso em nossa era dinâmica. Existe, por exemplo, uma interpretação autoilusória da situação mundial contemporânea. Funciona como uma espécie de armadura petrificada nas mentes das pessoas. Vozes humanas de 17 países da Europa Oriental e a Ásia Oriental não podem perfurá-la. Só será quebrada pelo pé de cabra impiedoso de eventos.” (…) O cenário descrito por Solzhenitsyn já demonstrava o quanto a mídia direcionava o que deveria ser visto e quem deveria ser ouvido. Todavia, Solzhenitsyn não explicitou a quem esse movimento atendia. Tanto o eugenismo quanto os movimentos identitários têm na mídia seu principal aliado, mas pode ser ainda um tanto obscuro para a maioria das pessoas quem manipula as cordas. Das consequências do eugenismo, já temos conhecimento; das consequências dos movimentos identitários, podemos deduzi-las a partir do que sabemos sobre o passado. Esperaremos, como disse Solzhenitsyn, “pelo pé de cabra impiedoso dos eventos”? Esperamos que não! Quando testemunhamos grupos se dividindo, pessoas se odiando e a racionalidade cedendo espaço a teorias utópicas, nos vêm à mente os exemplos do passado. Eugenismo e identitarismos, aparentemente tão diferentes, mas com efeitos tão semelhantes. O primeiro foi superado; quanto aos últimos, precisaremos perseverar. “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo.” (Mateus 24:13) Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 47 - ISSN 2764-3867











