Nos deram espelhos e vimos um mundo doente?
- Mauricio Motta
- 11 de nov.
- 4 min de leitura

" (…) Não sabeis o que o monstro procura? / Não sabeis a que vem, o que quer? / Vem matar vossos bravos guerreiros / Vem roubar-vos a filha, a mulher! / Vem trazer-vos crueza, impiedade / Dons cruéis do cruel Anhangá / Vem quebrar-vos a maça valente / Profanar Manitôs, Maracás / Vem trazer-vos algemas pesadas / Com que a tribu Tupi vai gemer / Hão-de os velhos servirem de escravos / Mesmo o Piaga inda escravo há de ser? (…)"
O trecho acima é parte do poema "O Canto do Piaga" de Gonçalves Dias, que pertence à primeira geração de autores do romanismo brasileiro, também conhecida como geração indianista ou nacionalista. Esta obra é exemplar daquelas que fortaleceram a imagem do indígena como "nobre selvagem" — puro, harmonioso e intocado — que persiste no imaginário brasileiro, mas esconde uma realidade muito mais rica, profunda e contraditória. Desde o Romantismo do século XIX até o ambientalismo contemporâneo, essa visão idealizada serviu tanto para glorificar quanto para infantilizar os povos indígenas, negando-lhes agência histórica e complexidade moral. Se, por um lado, o discurso romântico os elevou a símbolos de resistência ecológica, por outro, apagou suas lutas internas, suas estratégias políticas e até mesmo suas contradições. Por quê?
O pensamento sequestrado pela idealização de Jean-Jacques Rousseau que afirmou "o homem nasce bom, a sociedade o corrompe", apresentou o indígena como um ser em "estado de natureza". Rousseau imaginava que o ser humano em estado natural era bom, e que a civilização o havia corrompido. Essa ideia, apesar de crítica ao colonialismo europeu, criou um estereótipo inverso tão problemático quanto o do “selvagem bárbaro”: o indígena como criatura inocente, em harmonia com a natureza, alheio às contradições humanas.
Ignorou por exemplo, que as sociedades pré-colombianas eram tão dinâmicas e conflituosas quanto quaisquer outras. Cronistas como Hans Staden e Jean de Léry registraram disputas entre Tupinambás e Tupiniquins, enquanto evidências arqueológicas mostram que grandes aldeias, como as dos Marajoara ou dos Xinguanos, tinham hierarquias, comércio e até fortificações. A noção de que viviam em "harmonia primitiva" é um reducionismo que nega sua capacidade de organização — e de guerra. O canibalismo ritual, por exemplo, longe de ser um ato de "barbárie", era um mecanismo de justiça e incorporação espiritual. Inimigos capturados eram devorados não por crueldade, mas porque, na cosmologia Tupi, assim se absorvia sua força, sua bravura. Da mesma forma, o infanticídio em algumas etnias — como entre os Yanomami ou Zuruahá — respondia a condições extremas de sobrevivência, não necessariamente a um "instinto selvagem". Essas práticas, embora chocantes para a moral ocidental, seguiam códigos éticos internos, mostrando que a noção de "civilização" é relativa.
A chegada dos europeus não reduziu os indígenas a vítimas passivas. Pelo contrário, muitos grupos souberam negociar, travar alianças estratégicas e até manipular as rivalidades entre colonizadores. Os Potiguaras, por exemplo, aliados aos franceses no século XVI, traficavam escravos indígenas para os europeus em troca de armas. Já os Guaianás, no interior de São Paulo, atuaram como guias de bandeirantes em troca de proteção — uma relação de conveniência mútua que desafia a narrativa maniqueísta de "opressores versus oprimidos". A Confederação dos Tamoios (1554-1567) foi um dos primeiros movimentos de resistência organizada, reunindo etnias contra os portugueses. Séculos depois, líderes como Ajuricaba (1728), dos Manaus, organizaram revoltas armadas, mostrando que a resistência indígena não se limitou à fuga ou à submissão, mas incluiu estratégias militares sofisticadas.
Aliás, em momento oportuno, em alguma edição futura, trataremos da questão dos bandeirantes, um capítulo à parte no que diz respeito à manipulação histórica e o anacronismo.
Hoje, a romantização persiste. O indigenismo romântico insiste em retratar os indígenas como "guardiões da floresta", desprovidos de interesses materiais ou conflitos internos. Vítimas de grileiros, garimpeiros, fazendeiros ou qualquer outro grupo de interesse econômico. Essa visão ignora que muitas lideranças negociam diretamente com madeireiras e garimpeiros, às vezes em benefício próprio, outras vezes por necessidade real. Esta visão falha em reconhecer que os povos indígenas são tão diversos e complexos quanto qualquer sociedade dita civilizada. Há comunidades que rejeitam o contato com o mundo moderno, como os Korubo, e outras que adotam tecnologias e demandas capitalistas, como os Kayapó, que comercializam castanhas e artesanato em larga escala. Algumas etnias mantêm tradições seculares, enquanto outras enfrentam divisões internas entre jovens urbanizados e anciãos tradicionalistas.
A verdadeira defesa dos direitos indígenas não deveria repousar sobre histórias romantizadas, mas sobre o reconhecimento de sua autonomia — inclusive para cometer erros, negociar interesses e enfrentar dilemas éticos. Isso significa transparência nas políticas públicas, cobrando responsabilidade de organizações indígenas e do Estado em projetos de desenvolvimento. Significa também combater a exploração interna e externa, fiscalizando tanto garimpeiros invasores quanto líderes indígenas que negociam terras ilegalmente. E, acima de tudo, significa respeitar a diversidade de escolhas: alguns grupos querem isolamento, outros buscam integração econômica. Nenhuma das opções deve ser criminalizada ou idealizada.
Parafraseando o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o indígena não é um anjo nem um demônio: é um ser humano, com todas as contradições que isso implica.
Não poderíamos concluir este artigo sem tratar de seu título: a pergunta feita sobre um verso da música "Índios" da banda Legião Urbana. A música é muitas vezes lida como uma homenagem sensível aos povos indígenas. Como pudemos perceber ao longo deste artigo, a ideia do “bom selvagem”, formulada por Rousseau é cantada por Renato Russo. Ainda que a música "Índios" não trate apenas dos indígenas, se apropria do ideal construído ao longo do tempo para refletir de forma poética, profunda e crítica sobre desilusão, perda da inocência, contradições humanas e o fracasso das expectativas idealizadas — tanto em relações interpessoais quanto sociais.
Respondendo à pergunta feita logo no título deste artigo, não vimos um mundo doente porque nos deram espelhos. A doença moral é humana e não conhece etnias, nacionalidades ou tecnologias. Tanto a obra de Gonçalves Dias, quanto a bela canção de Renato Russo, apresentam uma construção claramente influenciada por um conceito tão poderoso quanto equivocado, proposto por Rousseau. E este conceito é um instrumento útil e poderoso nas mãos daqueles que, sinalizando virtudes, controlam, manipulam e destroem tudo que estiver em seu caminho, rumo ao poder e à riqueza.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 59 edição de Outubro de 2025 – ISSN 2764-3867





















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