
MENEZES COSTA
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- Ninrode, Babel
E as ideologias globalistas anticristãs que seduzem o mundo Quando Ninrode começou a construção da Torre de Babel, sua intenção, o argumento que usou foi: “Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face da terra” (Gênesis 11:4). Era essa a ideia que corria entre os homens da época. Era o que Ninrode queria que eles pensassem. Logo, o projeto ambicioso ganhou adeptos e conquistou as mentes de sua época. E então a torre começou a ser construída. Só que Ninrode sempre soube que nunca seria possível construir algo que tocasse os céus. Mas mesmo assim vendeu a ilusão. O diabo é um exímio vendedor de ilusões. Ele sabe como somos tentados a abraçar fantasias e projetos ilusórios, desde que pensemos que ao final, de alguma forma, obteremos algum benefício. Ele tem método e é antigo. Quando foi até Eva, o que ele disse à mulher para convencê-la a desobedecer a Deus e comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Que ela – e Adão – seriam “como Deus”, ou seja, iguais a Deus (Gênesis 3:5). Ninrode foi o primeiro protótipo – por assim dizer – de Anticristo que caminhou sobre a terra desde a queda do homem. Quando lemos Flávio Josefo, uma fonte tradicionalmente confiável, vemos ele relatar que Ninrode, homem valente (uma descrição que também aparece na Bíblia) convenceu os homens de sua época de que não era Deus o responsável pelas suas vitórias e bênçãos, mas sim eles mesmos, por sua própria capacidade e valor individuais. Observe o discurso materialista. É a raiz de toda a dialética marxista, de perfil ateu e anticristão. Discurso burilado, aperfeiçoado e cristalizado pelos filósofos germânicos que hoje são referência para milhares de cristãos ao redor do mundo. Que ironia diabólica, não? Em seguida, ainda segundo Josefo, Ninrode se apresenta como “ a solução para todos os problemas da humanidade” com a ideia da construção de uma torre que, segundo ele, protegeria os homens de outra “ameaça” diluviana. Observe como Deus passa a ser o grande e perturbador vilão da história. Mas Ninrode sabia também que isso não era verdade, porque Deus havia dito a Noé que não mais traria o dilúvio sobre a terra (Gênesis 9:11). E essa informação era passada de geração a geração. Ninrode usou a mentira de forma populista para se autopromover, quando na verdade o que ele queria é deter o poder sobre todos os homens. Familiar? Quando falamos que as raízes do comunismo/marxismo/socialismo são satânicas, isso pode ser recebido de duas formas. Na primeira, o Diabo planejou tudo isso e repassou aos homens. E na segunda, os homens simplesmente absorveram esses princípios após eras de cultos diabólicos. Nos dois casos o resultado final será o mesmo e o modus operandi semelhante: a promessa de um mundo melhor, desde que Deus seja retirado da equação. Ao chamar para si a responsabilidade de ditar os destinos da humanidade, Ninrode tenta tomar o lugar de Deus e, pior, apresenta-se como alguém que pode oferecer a ela – a humanidade – um mundo melhor sem ELE. Não é o que prega o marxismo no campo filosófico? Não é o que defende o progressismo no campo social? Finalmente, Josefo traz mais uma informação. Destruindo todo e qualquer senso de realidade, Ninrode ainda teria prometido ao povo que, terminada a torre e o céu sendo alcançado, ele vingaria a morte de todos os que pereceram no dilúvio, o que ascendeu a ira e o orgulho ferido dos descendentes daqueles. Ninrode queria fazer uma revolução no céu, entrar no reino, destronar o Rei, para em seguida, ele, Ninrode, apossar-se da coroa. Isso tudo após mentir, deturpar, manipular e corromper. No fundo o que ele queria era poder à margem de Deus. Para com isso deturpar toda a obra da Criação. Como um eficiente mensageiro de Lúcifer, dotado de língua sedutora e um malicioso poder de convencimento, fez com que os homens se deixassem apaixonar pela mentira sob pretexto de realizar seus desejos mais baixos e sombrios. A promessa de um mundo melhor sem a presença daquele que deu a vida a todos eles. Não existe mundo melhor sem que a verdade reine. Não é possível uma sociedade benéfica aos homens sem que a realidade seja vivida em sua inteireza. Não há vida sem DEUS. Observe que é isso que pregam os irmãos siameses (socialismo/progressismo). Observe que tudo aquilo que eles combatem é exatamente o que está na luz, do lado do bem, daquilo que é decente, ético e moral. O “espírito” de Ninrode, ou melhor, o “espírito” que estava por trás de Ninrode, caminha sobre esta terra há milênios, sempre com uma Torre de Babel debaixo do braço para nos oferecer. Só que Babel significa “confusão”. E DEUS gosta das coisas, como diz Paulo, com “Decência e ordem” (I Coríntios 14:40). Comunismo e progressismo são confusões espirituais, humanas e sociais. Não há Torre de Babel possível em nenhum dos mundos planejados por Deus. Ainda que ela comece a ser construída, e possa assombrar muitos que a vêem se erguer, no final de tudo é DEUS quem decide o que pode ou não pode. Temos uma torre hoje já com uma altura bem interessante. Mas não se assombrem. Logo o dono do mundo descerá, e aqueles que trabalham na sua construção saberão quem de fato manda em tudo e em todos. Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 11 edição de maio de 2022 – ISSN 2764-3867
- A trama da redução populacional
Parte I Uma vez por semana levo meu filho, que é autista, para fazer suas terapias. Como ele passa por três profissionais (psicóloga, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional) no mesmo dia – e não assisto a rede Globo, que fica sintonizada na televisão da recepção – decidi levar um livro para estudar. E, à época, escolhi “A conspiração contra a vida” , de autoria de José Alfredo Elia Marcos, da Editora Estudos Nacionais . Na perseverança da leitura apenas uma vez por semana (para não misturar com outros materiais que estou estudando em paralelo) avancei muito, para mais da metade da obra. Está sendo uma leitura onde posso “degustar” com calma cada vírgula e entender muito sobre como surgiu a ideia satânica de antinatalidade. Não farei uma resenha desta obra aqui – e sim no meu canal do YouTube , em breve – mas tratarei sobre um assunto muito importante: a falácia de que, quanto menor a taxa de natalidade, melhor para o meio ambiente. Para quem pensa que esta lorota é nova, não faz ideia de que a mesma é disseminada há mais de trezentos anos. Thomas Malthus, clérigo anglicano, economista, matemático e iluminista, é considerado o pai da demografia, por ser também o “pai” do controle populacional; ele dizia que a melhoria da humanidade seria impossível sem limites rígidos para a reprodução. Malthus acreditava que a capacidade de crescimento populacional seria infinitamente maior que o poder da terra em produzir subsistência para o homem. Isso porque, em seus primeiros ensaios, ele apresentou um cálculo onde, hipoteticamente, as populações humanas crescem, quando não submetidas a obstáculos, duplicando-se a cada 25 anos. Afirmava que, enquanto os meios de subsistências crescem em progressão aritmética, a população cresce em progressão geométrica. Para aplicar o controle populacional, Malthus defendia o que chamava de “controle natural”; além disso, classificou em dois tipos os métodos para redução populacional: preventivos – destinados a reduzir a natalidade; positivos – destinado a aumentar a mortalidade. Sendo favorável a redução populacional, demonstrava falsamente algum tipo de valor cristão; ele defendia a abstinência sexual e condenava radicalmente a prostituição, embora reconhecesse que esta poderia reduzir o número de filhos. Também considerava o uso de métodos contraceptivos dentro do casamento; parece que Malthus vislumbrava o que ocorreria duzentos anos depois: que os métodos contraceptivos iriam contribuir para promover o vício e a promiscuidade. Dentro dos métodos positivos, Malthus defendia a promoção de guerras, fome, epidemias e guerras. “A fome não é apenas uma pressão sutil, mas pode ser a razão mais natural para as pessoas serem industriosas e trabalhadoras e fazerem os esforços mais intensos” “…devemos incentivar as outras formas de destruição que nós próprios obrigamos a natureza a empregar (…) impediremos a cura de doenças.” “Se a população for impedida de crescer mais do que lhe é conveniente, um dos principais estímulos à guerra ofensiva será suprimido.” Como toda ideia – boa ou má –, o Malthusianismo sofreu upgrades ao longo dos anos; seus adeptos acrescentaram a defesa de métodos anticoncepcionais, secularização do casamento (que deixaria de ser um sacramento e se tornaria um mero contrato social, sem a obrigatoriedade da prole), a normatização do divórcio e até mesmo o fim da família tradicional, tudo com a desculpa esfarrapada de reduzir a população para não afetar o meio ambiente. Desde Malthus, a ideia é de reduzir o valor do ser humano e divinizar a natureza. Este movimento ganhou força nos anos 60 com a revolução sexual, através da invenção da pílula anticoncepcional; isso desvincula o sexo da procriação e, ao mesmo tempo, da responsabilidade com o outro; pois, com o vínculo unicamente sexual, a pessoa é rebaixada ao status de objeto apenas. E é nesta fase que o sexo é politizado. O movimento hippie foi um dos grandes causadores desta mazela; foi um comportamento coletivo de contracultura dos anos 60. O movimento, em sua essência, propõe uma crítica ao tradicionalismo e assim desenvolve um novo estilo de vida que repensa a relação das pessoas entre si e com o mundo, cunhando expressões como “Paz e Amor” e “Faça amor, não faça guerra”, promovendo o “amor livre” e sem distinções. Este movimento foi um dos mais utilizados para promover o culto à natureza em nossos dias; misturando religiões orientais (hinduísmo, xintoísmo, budismo e outras) e celtas, seus membros praticavam e promoviam o vegetarianismo, rejeitando produtos industrializados, consumindo produtos artesanais, principalmente na alimentação a opção por produtos naturais e orgânicos, com a prática de agricultura de subsistência. Talvez o leitor se pergunte: qual a relação entre redução populacional e culto à natureza? Explico: quando se retira Deus, o Criador, da equação, não há a quem obedecer, não há limites; logo, o ser humano, criação prima de Deus, criado à Sua imagem e semelhança, pode ser tranquilamente rebaixado a qualquer coisa. E é justamente isso que vem acontecendo há trezentos anos com a disseminação das ideias antinatalistas. Mas, com a graça de Deus, quanto mais se estuda, mais claro fica que a história “quanto maior a população, menor o bem-estar de um país” não passa de uma falácia com o objetivo claro de controle populacional. A lista de bons pesquisadores é imensa, necessitando de um ou mais exemplares inteiros de nossa Revista para tratar exclusivamente deles. Então, vamos tratar dos dois mais importantes: Julian Simon e Norman Borlaug . Julian Simon foi professor de Economia da Universidade de Maryland (EUA) e colaborador do Cato Institute , em Washington. Em 1981, publicou a obra “The Last Resort” , desmontando a falácia malthiusiana. Falácia 1: Ter menos filhos permite que você economize mais gastando menos Associaram melhor qualidade de vida com luxos (viagens, bens caros, etc), quando não é nada disso. A realidade mostra que os pais que têm mais filhos, embora não tenham luxos, se esforçam mais para oferecer o melhor para sua prole. É provado que os filhos nos trazem base e responsabilidade e nos movem para buscar o melhor para nossa família. Falácia 2: Populações maiores consomem mais recursos Trecho extraído da obra de Simon: “O crescimento populacional não atrapalha o desenvolvimento econômico, como defende a teoria malthusiana, mas eleva os padrões de vida ao longo prazo.” Uma grande população traz mais oportunidades; isso explica a migração dentro do nosso país de pessoas saindo do Norte e Nordeste e indo para o Sudeste, pois é nesta região onde há mais recursos. “Coincidentemente” , é onde habita a maior parte da população brasileira. Falácia 3: Com uma população maior, mais poluição e pior qualidade de vida A história recente nos mostra exatamente o oposto; após a Segunda Guerra Mundial, a expectativa de vida aumentou, a agricultura modernizou-se (permitindo que a população possa comer mais e melhor) e o ser humano, em seu processo de criação e modernização, utiliza-se da sustentabilidade, pensando também no meio ambiente. Para Simon, o ser humano é o maior patrimônio da terra, pois é este que cria, inova, reinventa, que se adapta. “Os seres humanos não são apenas bocas adicionais para alimentar, são mais mentes produtivas e imaginativas, que ajudam a criar soluções para os problemas humanos, deixando-nos assim em melhor situação a longo prazo”. Observe os eletrodomésticos criados nos últimos 60 anos e vejam como eles melhoraram e muito a qualidade de vida da população: ar-condicionado, computador pessoal, walkman (que evoluiu até o celular, que hoje possui quase mil e umas utilidades), máquina de lavar (que fez muito mais pelas mulheres do que o feminismo), micro-ondas, entre outros. Em resumo: quanto maior a população, maior o investimento tecnológico na melhoria e praticidade de vida. Norman Borlaug é considerado o pai da agricultura moderna e é chamado de “o homem que salvou um bilhão de vidas” , por conta do seu trabalho cientifico realizado no México, onde projetou, multiplicou e desenvolveu variedades de cereais de alto rendimento, principalmente uma espécie de trigo resistente a doenças. Além disso, desenvolveu a tecnologia necessária para até triplicar essas safras. De militante da causa malthusiana à defensor do agro e da população, ele disse na cerimônia de posse como doutor honoris causa na Universidade de Granada, na Itália: “Agora eu afirmo que o mundo possui a tecnologia necessária para alimentar uma população de 10 bilhões de pessoas em um contexto de meio ambiente sustentável (...) A questão mais pertinente hoje é saber se os agricultores terão permissão para o uso dessa nova tecnologia.” Este é o ponto central de todos os pesquisadores favoráveis à população: por unanimidade, eles afirmam que o problema é estritamente político. Ou seja, não há interesse dos governos de promover a melhoria da qualidade de vida. Para resolver “problemas” , promove-se aborto, permite-se as guerras (especialmente as civis que ocorrem até hoje no continente africano), vírus “escapam misteriosamente” dos laboratórios. Há um esforço conjunto em eliminar o ser humano. E após anos e anos de lavagem cerebral para redução populacional, a conta chegou: segundo dados publicados pela agência consultora McKinsey, países como o Reino Unido, a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos terão de duplicar o seu crescimento de produtividade nas próximas décadas para manter os padrões de vida que foram alcançados na década de noventa. O relatório destaca que dois terços da população mundial vivem em países onde as taxas de natalidade por mulher estão abaixo da taxa de reposição de 2,1 filhos, o que é necessário para manter uma população estável. Esse problema é especialmente evidente em países da OCDE, como Japão, Itália e Grécia, bem como na China e em vários países da Europa Central e Oriental, onde as populações já estão diminuindo. Além disso, o relatório calculou que, na Europa Ocidental, um declínio na proporção de pessoas em idade ativa poderia reduzir o PIB per capita em uma média de US$ 10.000 nos próximos 25 anos. Esse declínio afetaria diretamente os padrões de vida, que têm sido um pilar das economias desenvolvidas. E não é que Julian Simon estava certo? Quem diria, né? (Contém ironia). Não resta dúvida que o projeto de redução populacional visa apenas a eliminação do ser humano. Para o leitor que desacredita disso, recomendo a leitura da continuação deste artigo na próxima edição, onde trataremos sobre relatórios de algumas conferências climáticas. O que alguns tratam como “teoria da conspiração” , aqui chamamos de realidade. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 50 edição de janeiro de 2025 – ISSN 2764-3867
- Juntando os cacos
A sabedoria dos antepassados pode ser observada em sua cultura e tal legado deve ser sempre invocado, pois, de nada serviriam mitos, fábulas, obras de ficção ou mesmo pensamentos senão para dar às civilizações posteriores formas de assimilar conhecimento sem ter a experiência, por vezes danosa, que seus antepassados vivenciaram. No século XXI, a defesa de regimes totalitários, especialmente o socialismo, causa grande espanto, uma vez que, o século anterior deveria servir como experiência para que a humanidade rejeitasse, de pronto, que tais regimes sequer existissem. O nazismo e o fascismo, merecidamente, foram colocados no seu devido lugar, a lembrança daquilo que se pretende evitar, entretanto, o socialismo, mais amplo e adaptável, consegue sobreviver no imaginário dos loucos revolucionários e, ainda pior, contaminar grande parte dos incautos. Evidente que o nazismo e socialismo supracitados são os reais, não englobando aquele rótulo falso que os revolucionários tentam colar em qualquer um que se oponha a sua intenta nefasta. O movimento revolucionário, que busca distorcer a realidade de forma autoritária e, supostamente, coletivista, é o embrião do socialismo que, por sua adaptabilidade, deu origem ao comunismo, ao nazismo e ao fascismo, todavia, diante do fracasso dos dois últimos, tratou de transferi-los ao espectro opositor, criando a narrativa frágil, mas constantemente reafirmada, que tais ideologias coletivistas estariam no espectro político que prima pela liberdade individual e a manutenção das tradições, o que seria um contrassenso, dada a necessidade revolucionária em romper in totum com o status quo. A história nos ensina de acordo com aquilo que foi vivido e os mitos serviam para dar exemplos mesmo em se tratando de uma experiência hipotética, como o caso das renomadas obras 1984, e A Revolução dos Bichos (Animal Farm) de George Orwell, em que o autor britânico apresenta duas experiências ficcionais para ilustrar a vigilância exacerbada dos regimes totalitários e como a elite revolucionária, ao ocupar posições de poder, tende a se tornar tirana, considerando-se mais que os outros. Por tal razão, sempre é importante buscar aprender através do legado daqueles que nos antecederam, seja por experiências vividas ou por contos que aduzem hipóteses. Os ideais revolucionários deveriam ser prontamente rechaçados pela sociedade atual com base em ambas as fontes, uma vez que, o nazismo, o fascismo e o socialismo se mostraram como erro que não devemos repetir, no caso do socialismo, ainda é possível que seja contemplado como um mal em curso, portanto, a reprovação de tais regimes deveria ser uma regra. Por outro lado, obras como as supramencionadas nos dão base argumentativa mais que suficiente para resistir tais ideologias, haja vista que, a simples imaginação de um mundo dominado pelo totalitarismo coletivista revolucionário deve ser encarada como alerta do perigo que tais regimes significam. A sobrevivência humana e de seus valores depende de fatores que não são superficialmente perceptíveis, sendo, por vezes, necessário recuar diante do mal que por ora não se pode confrontar, sobre pena de não mais poder defender aquilo que se acredita. O martírio é sim grandioso e deve ser encarado como uma forma de defesa irrenunciável de valores, entretanto, ao mártir inconsequente, que se sacrifica sem necessidade real, não restará glória por seu sacrifício, mas a perda de seu esforço em vão. Ainda que os ideais daquele que enfrenta um inimigo de maior força sejam nobres, se o fizer de forma impensada sofrerá uma derrota sem frutos, sendo seu martírio nada além de um suicídio tolo, evidente que sem a reprovação que se destina àquele que, deliberadamente, abriu mão do dom da vida pela fraqueza, caso em que o pecado é inegável. O chamado suicídio tolo, na verdade é uma vã tentativa de marcar o nome na história através de um martírio inútil. Na mitologia grega há o mito de Tifão, talvez a mais forte e feroz criatura de todos os contos daquela civilização, que apesar de apresentar diferentes versões, ensina que há males que não podem ser encarados de peito aberto, sendo necessário recuar e analisar o que fazer antes de combatê-lo. Antes da criação de tal besta mitológica, os deuses do Olimpo, liderados por Zeus, enfrentaram a geração que os antecedera, os titãs. A guerra entre os aliados de Cronos, líder dos Titãs e seus descendentes ficou conhecida como Titanomaquia, os deuses do Monte Olimpo e os titãs do Monte Órtis enfrentaram-se, segundo a lenda, por aproximadamente dez anos e, ao final, os olimpianos sagraram-se vencedores. Os filhos do titã Cronos, agora reinando sobre o universo, dividiram, entre si, os céus, os mares e o submundo, tornando-se seus respectivos senhores, Zeus, Poseidon e Hades, restando àquele que recebeu os céus como domínio, reinar sobre todos os demais deuses, ocupando, portanto, o trono do Monte Olimpo. Zeus se tornara o senhor dos deuses e confinou os titãs no Tártaro, um lugar abaixo do submundo no qual apenas aqueles que mereciam o castigo além da vida eram encaminhados. Tártaro é o nome de um deus primordial e também do lugar em que os castigos são aplicados aos condenados, assim como Hades que dá nome ao submundo e à divindade que o governa, o Tártaro também pode ser utilizado com ambos os sentidos. Inconformada com o destino de seus filhos, os titãs, Gaia decidiu se vingar dos olimpianos, em especial de seu neto Zeus, gerando um filho com o deus primordial Tártaro, senhor daquelas terras em que os titãs foram jogados. Da união entre Gaia e Tártaro surgiu a criatura mais feroz e forte que podiam conceber, Tifão era uma figura tão devastadora que permaneceu trancada nos domínios de seu pai até que tivesse força o suficiente para cumprir os desígnios de sua vingativa mãe. O mito descreve-o como uma figura monstruosa capaz de intimidar até mesmo os deuses do Olimpo, pois narra que sobre seus ombros havia cem cabeças de serpentes, seus braços tocavam o ocidente e o oriente e era tão alto que tocava as estrelas. A primeira lição do mito de Tifão pode ser encarada como a preparação do mal, na qual a criatura, apesar de monstruosa e de proporções colossais, permanece escondida dos olhos de seus inimigos até que tenha força suficiente para destroná-los, de forma que, podemos aprender que, o verdadeiro mal manter-se-á à espreita até se considere capaz de subjugar seus oponentes. Os regimes totalitários, em regra, tentam esconder sua natureza autoritária até que consigam constranger os indivíduos para que se curvem à sua vontade, por isso, seus agentes tentaram imprimir uma narrativa de que lutam contra a ditadura ou imperialismo até que se sintam confiantes e avancem sobre as liberdades do povo. Os falsos defensores da democracia que desejavam implantar uma ditadura que, também de forma mentirosa, dizia-se do proletariado, quando, em verdade, era de uma elite socialista que nada tem a ver com a classe trabalhadora, usando apenas o chavão de lutar por oprimidos para ganhar força política. Assim fazem os defensores das pautas identitárias, que, não se importam com os desejos esquizofrênicos de suas hordas, mas usam-nas para galgar o poder e os abandonaram assim que perceberem que tal secto perdera sua serventia. Quando Tifão emerge do Tártaro, tal criatura já está em condições de confrontar os olimpianos, não lhes sendo facultada a oportunidade de cortar o mal pela raiz, tendo em vista que ignoravam a existência de um mal tão grande. Assim como algumas forças que foram gestadas em segredo, por vezes tendo sua existência negada após alguém a denunciar, como o Foro de São Paulo, tão logo alcançado o patamar que lhe confira usar o poder, assumir-se-á como a naturalidade de quem nunca negou sua existência, orgulhando-se de sua natureza outrora encoberta por se tratar de algo abjeto, mas, que, diante da força que conquistara na obscuridade, pode calar qualquer um que se levante para combatê-la. Quando, finalmente, Tifão se dirige ao Monte Olimpo, morada de seus inimigos, os deuses que, amedrontados pela figura ameaçadora, fogem para terras distantes, restando apenas Zeus, Atena e Dionísio, contudo, há versões em que o último deles também deixa o Olimpo junto aos demais deuses. Não é relevante discutir se Dionísio partira ou ficara, pois, em nenhuma versão ele se opõe a criatura, sendo certo que, na versão em que permanecera no Olimpo, Dionísio apenas sobrevivera sem defender os deuses, logo, deixou de ser um problema para Tifão. Atena, que segundo o mito, era destemida demais para deixar o Olimpo, nada fizera para confrontar a fera, deixando que Zeus lutasse sozinho em defesa de seu trono, entretanto, no primeiro confronto, Tifão saíra vitorioso, resistindo aos raios do senhor do Olimpo e desmembrando-o como forma de punição e, principalmente, de estabelecer seu domínio, reinando assim sobre todas as coisas. A criatura era imbatível e ninguém além de Zeus era capaz de confrontá-la, mas o senhor dos deuses estava sem o seu poderoso raio e desmembrado, portanto, incapaz de levantar-se contra um mal tão poderoso. Há versões diferentes que atribuem a Cadmo tal feito, entretanto, a maior parte dos autores atribuí ao deus Hermes, mensageiro dos olimpianos, o resgate do raio e dos membros do senhor do Olimpo. Segundo o mito, na versão que consideraremos, o deus mensageiro fugira junto de seus pares para terras distantes, a princípio o Egito, deixando que Zeus confrontasse sozinho a temida criatura, entretanto, Hermes usara de um artifício em favor dos olimpianos, fugindo em um primeiro momento para, só depois, resgatar os restos de Zeus, bem como, o poderoso raio, dando ao senhor do Olimpo a chance de um revanche face seu algoz. Não fosse pela perspicácia Hermes, os olimpianos restariam derrotados e Tifão tornar-se-ia o senhor do mundo, reinando sobre todas as coisas, haja vista que, segundo o mito, era uma besta impossível de ser confrontada. Foi o deus mensageiro quem realmente deu aos deuses do Olimpo a chance, através da força de Zeus, de confrontar mais uma vez a feroz criatura e, usando da astúcia, vencê-la. Hermes, assim como os demais deuses, poderia ser tratado no mito como um covarde que, na presença de Tifão, preferiu a fuga ao confronto, deixando que o mal vencesse em um primeiro momento. Sob o risco de lhe cair a pecha de um fraco que foge do mal em vez de confrontá-lo, o deus mensageiro deixou, cabisbaixo, a sua morada, como um frouxo diante da desolação, entretanto, a corajosa Atena nada fez além de instigar que seu pai enfrentasse o monstro, mantendo a postura de quem não recua diante do mal, por mais que nada tenha feito de fato. Ao juntar os cacos do mais poderoso dos deuses olimpianos, ou seja, os membros e o raio de Zeus, Hermes salvara seus pares da destruição ou da submissão, pois, soube o momento de recuar para agir quando o momento oportuno chegasse, demonstrando grande sabedoria, Hermes esperou que o mal triunfasse para derrubá-lo sem que o próprio deus tivesse de empunhar a espada, apenas resgatando aquele que, embora destruído, podia vencer Tifão em uma batalha. Outro ponto no mito de Tifão que não é pacífico trata da forma como Zeus derrota tal criatura, pois, para alguns o senhor do Olimpo vence a besta usando a força de seus raios, entretanto, há uma versão que aponta ter o mestre dos olimpianos contado com a ajuda das parcas, criaturas que controlavam o destino de homens e divindades, raramente se envolvendo em embates de qualquer natureza, uma vez que, sua neutralidade era necessária para que o destino não se curvasse aos anseios de quem quer que seja. Qualquer semelhança com um Judiciário passivo e afastado das questões políticas não é mera coincidência, a interferência das parcas não deve ser confundida com uma ação parcial, ou mesmo passional, de um Poder ou órgão que deveriam permanecer inertes, sob a alegando que estariam “salvando a democracia”, pois como é sabido, as parcas não desequilibraram o destino quando havia uma luta natural entre titãs e deuses pelo poder, somente o fizeram, quando o usurpador era uma besta que sequer deveria reclamar o trono. Como se o Poder Judiciário ou as Forças Armadas agissem contra a ditadura que se instalou na Venezuela pelo meio da força, caso em que se justificaria uma reação, haja vista que, a chamada ruptura institucional já ocorrera. Na versão na qual Zeus conta com a ajuda das parcas, tais criaturas oferecem maças envenenadas a Tifão que tem seu poder reduzido consideravelmente, permitindo assim que Zeus o vencesse em um confronto direto. Assim, diante da perspicácia de Hermes e da ajuda externa das parcas, o senhor do Olimpo teve a oportunidade de vencer a fera e recuperar o trono dos deuses. Tifão foi aprisionado no Monte Etna, na Sicília, e, as lavas daquele vulcão são atribuídas à sua fúria. A segunda lição do mito de Tifão é que, algumas vezes, aquele que parece se acovardar, como Hermes fizera, está apenas recuando para pensar em um contra-ataque, pensando em uma medida futura que poderá surtir maior efetividade que um simples ataque franco e imprudente, por isso, o deus mensageiro não pode ser tratado como um covarde, mas como um estrategista que ganha tempo e volta para, no futuro, derrotar o mal que parecia invencível em um primeiro momento. Por outro lado, Atena, que assumiu postura corajosa, nada mais fez que emular um heroísmo vazio que em nada ajudou os olimpianos, sendo uma ação que, no máximo, lhe rendeu a admiração daqueles que não puderam ver com maior sobriedade o que realmente ocorrera. Zeus, mesmo não tendo recuado, foi ensinado que há momento em que a sabedoria é mais importante que a força bruta, pois, sem a ajuda de Hermes, jamais derrotaria Tifão, bem como, teve de contar com um período de exílio na atual Síria, quando recuperava suas forças, e a ajuda das parcas para que o poderoso monstro enfraquecesse. A mitologia nos ensina que medidas populistas como a de Atena, podem até sinalizar coragem, mas são inócuas diante de um grande mal, posto que, em que pese Zeus tenha confrontado Tifão em razão dos questionamentos de sua filha, não foi por conta deles que saíra vitorioso. Além disso, ensina que Hermes preferiu deixar de enfrentar diretamente o monstro ou instigar que outrem o fizesse para preparar uma revanche na qual Zeus poderia ter uma chance real de vitória. Por fim, Zeus precisou se socorrer das parcas para reduzir os poderes do inimigo e, só assim, derrotá-lo. O cenário atual é bem parecido com o mito de Tifão, considerando que o mal que se pretende combater é inequivocamente forte, talvez a descrição do monstro sirva para ilustrar o quão poderoso é o movimento revolucionário, sendo necessário, por vezes recuar e juntar os cacos para contra-atacar em um momento propício. Evidente que alguns preferiram posar como Atena, corajosa e inútil diante do mal que tomava o Olimpo, mas há quem saiba seu verdadeiro papel e veja que Hermes foi que, realmente, salvou os olimpianos naquele episódio. Há momentos que o heroísmo reside em retroceder para avançar quando oportuno e outros que alianças precisam ser costuradas, contudo, o que diferencia um herói de um covarde é não renunciar, em seu íntimo, seus valores. Quando tudo parecer perdido, devemos manter a frieza para juntar os cacos e quando tivermos a oportunidade lutarmos com todas as forças. “Triunfam aqueles que sabem quando luar e quando esperar” Sun Tzu – A Arte da Guerra. Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 50 edição de janeiro de 2025 – ISSN 2764-3867
- Bota o retrato do velho outra vez?
No carnaval de 1951 a marchinha “Retrato do velho” empolgou o povo que lotou as ruas do Rio de Janeiro. A empolgação da população carioca, assim como em muitas outras cidades do país, se dava por causa da eleição de Getúlio Vargas no pleito de 1950. Mais uma vez, Vargas ocupava o Palácio do Catete e de lá pretendia dar continuidade a seu projeto de governo, interrompido em 1945 com sua renúncia. Em verdade, desde sua saída do cargo, parte da população pedia o seu retorno. O queremismo movimentou os noticiários e manteve acesa a chama da esperança de um povo já acostumado com a “figura paterna” que ocupava a presidência. É fato incontestável que a longa passagem de Vargas pela presidência, deixou marcas profundas no imaginário popular e na maneira como o povo entendia o que seria a figura de um presidente. Seus governos, conhecidos nos livros de história como a Era Vargas, foram e continuam sendo o molde para governos e governantes até a atualidade. Suas “façanhas” políticas pautadas pelo populismo, pelo nacionalismo exacerbado, pelo controle dos meios de comunicação, pela censura, prisões, mortes, desarmamento civil e culto à sua autoimagem, são o arquétipo do fascismo em sua mais genuína configuração. Fascismo, palavra tão deturpada atualmente que, de regime de governo com características bem definidas, passou a mero instrumento de agressão verbal, vazio de um verdadeiro sentido. O retorno do retrato do velho às paredes das repartições públicas em 1950, representou a vitória de um modelo de país que havia nascido sob a promessa de restaurar a democracia e o federalismo, mas que contraditoriamente, hipocritamente, apenas substituiu uma oligarquia por outra. Estruturou e instrumentalizou os sindicatos para servirem à capilarização do poder estatal, chegando às mais recônditas regiões. Ora, a que fins serviam o coronelismo e seus coronéis senão aos mesmos? Para os fins a que se prestaram inicialmente, os sindicatos eram uma nova forma de coronelismo. Com o agravante de cooptar o operariado urbano e trabalhadores rurais, com benefícios trabalhistas que engessaram o crescimento industrial, mantendo o país completamente fora de qualquer possibilidade de competição real pelos mercados internacionais. A concessão de tais benefícios, comparada à antiga prática de panem et circenses ( pão e circo ), não nos parece tão absurda quando analisada quanto aos seus objetivos tácitos. Se a população de Roma se contentava com a distribuição de trigo no Fórum e se alegrava com o Circus Máximus , mantendo-se pacífica no trato, de igual modo a classe trabalhadora sob Vargas, mantinha-se bovinamente pacífica, crendo-se protegida pelo Estado, viviam a ilusão de estar em situação privilegiada. Tangidos pelos sindicatos, sua capacidade de reação ao entorpecimento estatal era mantida praticamente nula. Seu retorno à chefia de Estado se deu com 48,7% dos votos do eleitorado. Mas desta vez sua passagem contaria com a oposição ainda mais direta e ferrenha de Carlos Lacerda. O jornalista e sua Tribuna da Imprensa moíam diariamente a imagem autoconstruída de Vargas, apresentando denúncias, promovendo matérias investigativas que exibiam dia a dia a podridão do governo. Sim, houve tempo em que a imprensa informava e não deformava a opinião pública. Tivemos na imprensa nacional homens de valor que não se vendiam aos interesses mesquinhos da politicagem. O atentado a Carlos Lacerda em cinco de agosto de 1954, promovido por Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente foi possivelmente, o fechamento do tambor da arma que apontava para o coração de Vargas. Em vinte e quatro de agosto daquele ano, a culminância de uma sequência de tragédias para o país ocorre: o suicídio do presidente, que o retirou da vida, mas não destruiu o seu legado, ao contrário, o fortaleceu. O ato final de Vargas não representou apenas sua saída da vida pelo suicídio, mas uma espécie de ritual final para sua própria mitificação e perpetuação de seu projeto ditatorial. A questão fundamental neste artigo é se o povo brasileiro permitirá (por omissão) que se bote o retrato do velho outra vez nas paredes. Desta vez, Vargas não retornará, mas seu legado permanecendo vivo nos modelos esquerdistas de governo, mantém a ameaça do retorno. O velho agora é outro, tão astuto e velhaco quanto seu modelo, não vem de São Borja, mas de Garanhuns. O senhor Luiz Inácio Lula da Silva, ‘descondenado’ por seus crimes contra a nação brasileira, pretende retomar suas velhas práticas. Defensor do Estado gigante que tanto atraso e estagnação tem impingido ao país; do patrimonialismo muito ao feitio das matrizes socialistas; do controle social por meio de programas assistencialistas e de cunho populista; da censura ao direito de livre manifestação do pensamento; do desarmamento civil; entre tantas outras promessas que têm feito nos últimos meses. É de estarrecer que suas propostas ainda encontrem ouvidos dispostos a acolhê-las. Se Vargas ainda fosse vivo, teria orgulho dos pupilos que formou, cujo exemplo mais óbvio é o senhor Lula, mas não se pode esquecer de Ciro Gomes que em nada perde quanto ao seu fascismo ainda mais explícito e despudorado. Triste sina a de um presidente que defende pautas cristãs, os valores da família, o liberalismo econômico, a autonomia de seu povo e a liberdade em todas as suas vertentes. Triste e difícil é a jornada de conduzir um país ainda estruturado e aparelhado sob o modelo fascista de Vargas, que tem em grande parte de sua elite política e funcionalismo, apoiadores deste modelo retrógrado e estatizante. O retrato do velho Lula, tampouco o de Ciro Gomes, podem emporcalhar as paredes das repartições Brasil afora. Retornar ao passado é caminho de destruição para os defensores da liberdade, mas de igual modo aos incautos defensores do fascismo. Sim, eles que hoje tramam a volta da quadrilha ao local de seus crimes, serão em algum momento do futuro, possíveis vítimas de seus guias. Criminosos não têm amigos, tem comparsas, e semelhante categoria trai e corrompe ao ímpeto de seus interesses pessoais. Um modelo que em quase cem anos manteve o Brasil em marcha lenta, com índices de educação, atendimento à saúde, saneamento, tecnologia e industrialização tão abaixo do mínimo esperado, diante do volume escorchante de impostos cobrados. Impostos que, como sabemos, servem mais à manutenção da estrutura que a seus objetivos fundadores. Um sistema assim não pode ser continuado pois já deu provas mais que suficientes de sua ineficiência. O Brasil e seu povo merecem retratos melhores. A corrupção que se tornou institucionalizada nos anos dos governos de Lula e Dilma, o compadrio espúrio do governo com a velha imprensa, o dinheiro público atendendo aos interesses de outras nações, tudo isso nos faz lembrar a saudosa voz de Lacerda, que deveria inspirar nossos parlamentares de hoje. Suas palavras proferidas em 1953, são tão atuais quanto se tivessem sido ditas hoje. “Meus amigos, nós partimos para o que parecia ser uma cruzada pela liberdade de imprensa e acabou sendo uma cruzada pela libertação nacional. E isso não se deu por acaso. que quando se quer envenenar uma nação, começa-se por envenenar as fontes do conhecimento público, começa-se por envenenar as fontes de informação, sem as quais o povo não sabe o que se passa, ou, pior ainda, só sabe errado aquilo que se passa certo. É através da corrupção da imprensa, é através da intimidação da imprensa, que se acaba por corromper e intimidar a própria opinião do povo. Se montou no Brasil, não foi apenas um negócio para um grupo de afilhados do poder. Não foi somente um negócio feito à custa da miséria e do espoliamento do povo. Foi também um negócio para destruir no povo a confiança na democracia. Foi um negócio feito para fazer o povo descrer de si mesmo, para fazer com que o povo pensasse que de nada valia protestar em praça pública, porque os homens do poder pensariam por ele e por ele agiriam desde o começo até o fim. (...) Ora, muito bem, até que enfim o Sr. Getúlio Vargas pretende punir corruptos e corruptores! Mas onde, onde estava ele quando a corrupção campeava? Que fez ele quando as portas do Banco do Brasil se abriram para dali sair o dinheiro com que um estrangeiro e um aventureiro se locupletaram? Que ele compreenda! Que ele compreenda que se a maioria relativa dos brasileiros lhe deu um respeitável voto de confiança, já que ele não pode corresponder a essa confiança, corresponda ao menos ao seu sentimento de respeito por si mesmo, e não se desrespeite. Nós não queremos desrespeitar no senhor Getúlio Vargas a figura do presidente da República. Para isso é indispensável que ele tire o seu filho dessa sujeira! É indispensável que ele promova imediatamente a punição daqueles que envolveram seu filho nessa sujeira! É indispensável que ele deixe de panos quentes e ele, que não teve escrúpulos para rasgar uma Constituição, rasgue a 'Ultima Hora’!” Com pequeníssimas adaptações, este discurso poderia ser dirigido ao velho Lula. Diante da repetição cíclica dos fatos, envolvendo sempre os mesmos ideais, não nos furtaremos ao dever de afirmar: em definitivo, não botaremos o retrato do velho nunca mais! Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual . Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 11 edição de maio de 2022 – ISSN 2764-3867
- Anencefalia e Antecipação de Parto
A legislação de Buenos Aires O progresso e o desenvolvimento da humanidade, em especial nas áreas das ciências biológicas e biomédicas, provocam uma preocupação geral quanto a questões individuais e coletivas que dizem respeito à convivência social. De todas as áreas, erguem-se vozes para sustentar a necessidade de que o procedimento do homem, em todas as suas atividades, deve ser ético, construtivo de uma sociedade mais justa e democrática. Entretanto, uma questão só é eticamente significativa quando assim entendida pela maioria das pessoas. Assim, é óbvio que o desenvolvimento social, econômico e científico, dá nascedouro a diversas questões novas e eticamente significativas, na medida em que aumenta a velocidade e a grandeza do desenvolvimento, despertando a sociedade para o debate e a reflexão quanto às mesmas. Nas palavras de VEATCH: “ os problemas da medicina e das ciências biológicas têm explodido nos últimos anos, de modo exponencial, na consciência pública ”. Inserida nessa realidade, a bioética (como ética voltada à vida) ocupa espaço decisivo, buscando balizar o comportamento dos agentes envolvidos no processo, na medida em que não mais se pode admitir suas ações como fato isolado no microcosmo científico. Neste contexto, várias questões pontuais exsurgem, dentre elas a interrupção da gravidez (aborto), cujas discussões quanto à legalização de sua prática retornam de forma recorrente, quer no âmbito nacional, quer no internacional, sublinhando-se os debates quanto ao direito de escolha das mulheres, bem como quanto à viabilidade do próprio feto em gestação. Em junho de 2003, foi aprovado pela Legislatura da Cidade de Buenos Aires, capital da Argentina, projeto de lei (Despacho 2426-00, Expedientes 4087-D-01 e 0980-D-2002) que permite o “adiantamento do parto” de bebês que padecem de anencefalia ou outra patologia incompatível com a vida, intervenção esta que poderá ser feita nos hospitais públicos portenhos mediante pedido da gestante, com aval médico e após o sexto mês de gravidez (vinte e seis semanas). O posicionamento da Legislatura de Buenos Aires reacendeu o debate, não só quanto ao aborto (“adiantamento do parto”, na expressão legislativa portenha), mas, em especial, no que diz respeito à condição dos fetos e bebês que padecem de anencefalia e direitos a serem protegidos. O objetivo do presente é, justamente, levar a efeito uma apreciação do diploma legal referido, apresentando a caracterização da anencefalia, do ponto de vista biológico; a determinação da condição do anencéfalo, no que diz com o respeito a ele devido e os direitos daí decorrentes; a legislação em foco, bem como sua motivação; a posição contrária à permissão legal; e, por fim, o encaminhamento de uma conclua a propósito do tema. Os limites deste trabalho não permitem o esgotamento da discussão, tampouco esta é a pretensão, não só pela grandeza, complexidade e passionalidade que a matéria envolve, mas pelo fato de que, conforme bem acentua ENGELHARDT, “ Têm lugar central nas controvérsias em bioética e no campo da assistência médica, concepções conflitantes a respeito da propriedade moral do uso da vida humana em seus estágios iniciais para fins de pesquisa, da extração de células-tronco de embriões humanos e da interrupção do desenvolvimento de fetos por meio do aborto ”, do que decorre a consequência lógica de que muito ainda há para ser dito e debatido. Anencefalia – Caracterização A anencefalia é uma alteração congênita da qual resulta a ausência dos dois hemisférios cerebrais e estrutura óssea do crânio, a situação é irreversível, entretanto, tal não equivale à morte cerebral. Conforme PESSINI e BARCHIFONTAINE: “Não corresponde exatamente, no plano médico, à ‘morte cerebral’. O sinal inequívoco desta reside na constatação da ausência funcional total e definitiva do tronco cerebral. Ora, este está presente nos fetos anencéfalos e permite, em alguns casos, uma sobrevivência de alguns dias fora do útero materno.” Conforme SEBASTIANI, a anencefalia é a falta de desenvolvimento dos hemisférios cerebrais, do hipotálamo, o desenvolvimento incompleto da hipófise e do crânio, com as estruturas faciais alteradas que lhe dão uma aparência grotesca e anormalidades nas vértebras cervicais, existe a função do tronco encefálico que pode estimular vários reflexos, como as funções do coração e pulmões, por um período curto de tempo sendo que alguns anencéfalos apresentam ações de pressão, sucção, respondendo a estímulos dolorosos, ou seja, há um reflexo doloroso do tronco encefálico – este detalhe tem importância na medida em que identifica a existência de um arco reflexo intacto. A anencefalia é um tipo de defeito do tubo neural, assim como a espinha bífida – coluna vertebral aberta, apresentando um ou dois casos a cada mil nascimentos com vida. Durante a gravidez o encéfalo e a coluna vertebral desenvolvem-se em forma de um prato plano de células que formará o referido tubo. Se este tubo não restar fechado totalmente, produz-se o chamado defeito de tubo neural aberto (ONTD – sua sigla em inglês), sendo possível que esta abertura fique exposta (80% dos casos) ou que seja coberta por ossos e pele (20% dos casos). Os casos de ONTD mais frequentes, entre eles a anencefalia, em mais de 90% dos casos, têm origem em casais sem histórico familiar relacionado ao problema. Estas anomalias resultam de uma combinação de gens herdados de ambos os pais, somada a diversos fatores ambientais, daí porque são consideradas de risco hereditário multifatorial, ou seja, vários fatores, genéticos e ambientais, contribuem para sua incidência. Entre alguns dos fatores ambientais, pode-se incluir uma diabetes não controlada na mãe ou o uso de medicamentos controlados, por exemplo. Estas anomalias congênitas se manifestam com uma frequência cinco vezes maior nas mulheres do que nos homens, sendo que, nascido um bebê com ONTD em uma família, a possibilidade de recorrência aumenta de 3 a 5%, sendo relevante notar que o tipo de anomalia pode ser outro. O diagnóstico pré-natal é possível, possibilitado o acompanhamento visual de parte do desenvolvimento intrauterino a partir de cinco semanas de gestação (após a data da última menstruação) através da ultrassonografia, a qual funciona segundo o mesmo princípio de um sonar (ondas refletidas pela estrutura do feto são captadas, formando sua imagem). Além da ultrassonografia, outros exames também são levados a efeito para detectar a ocorrência da anencefalia, ressaltando-se, em especial: alfafetoproteína (proteína produzida pelo feto, que é eliminada no líquido amniótico, podendo níveis anormais desta indicar a existência de defeitos encefálicos ou na medula espinhal, fetos múltiplos, erro no cálculo da data do parto ou transtornos cromossômicos) e amniocentese (exame para determinar existência de transtornos cromossômicos e genéticos, além de defeitos congênitos, consistente em inserir uma agulha através da parede abdominal e uterina até o saco amniótico para tomar uma amostra do líquido amniótico). Inexiste tratamento para a anencefalia, havendo apenas tratamento preventivo, que consiste na administração de ácido fólico às mulheres com histórico relacionado ao problema, ainda antes de engravidar. Devido à falta de desenvolvimento do encéfalo, aproximadamente 75% dos bebês nascem mortos e o restante não consegue sobreviver mais que horas, dias ou semanas. As opções de aborto e parto prematuro induzido em relação a estes bebês, na maior parte das vezes, vêm defendidas a partir da consideração de que os anencéfalos não são seres “viáveis” (“viabilidade” é a idade gestacional na qual um feto pode sobreviver fora do útero mediante tratamento – cerca de 23 a 24 semanas). Diante da impossibilidade de tratamento da anencefalia, bem como frente ao curto prazo de vida dos bebês, surge a defesa da interrupção da gravidez ou indução ao parto prematuro em tais casos. Diante desta realidade, necessário apreciar a condição do bebê anencéfalo com o intuito de precisar a consideração que lhe é devida do ponto de vista ético-jurídico e os direitos que lhe cabem, por consequência. Nesta perspectiva, emerge a discussão sobre a condição do feto, ou bebê, anencéfalo e que consideração deve ser a ele deferida. Bebês Anencéfalos As questões éticas mais relevantes, no que diz respeito aos anencéfalos dizem respeito ao aborto, indução de parto prematuro, alocação de recursos para assistência pós-natal e doação de órgãos para transplantes, sendo que qualquer avaliação das mesmas passa, necessariamente, pela consideração da humanidade dos bebês. Na busca desse objetivo, bem como considerando os limites traçados para este trabalho, aborto/indução/adiantamento de parto de anencéfalos, pertine analisar a questão da personalidade e dos direitos do embrião. Embora se afirme que o embrião ainda não é uma pessoa humana, no sentido pleno da expressão, como também não é o recém-nascido ou criança antes do uso da razão, é inegável que se trata de um “vivente” humano, eis que sua vida está programada para ser humana e desenvolver-se como tal. Nas palavras de JUNGES: “... pode-se dizer que o embrião, desde o primeiro momento, tem personeidade (estruturas antropológicas para tornar-se pessoa), mas ainda não pessoalidade (as estruturas ainda não foram levadas à expressão quanto ao sujeito). Em outras palavras, já estruturalmente pessoa, embora não o seja atualizadamente, porque a estrutura pessoal ainda não se desenvolveu plenamente, mas está programado para isso.” SERRÃO aponta três concepções principais no que se refere ao embrião humano: a primeira, similar à posição de JUNGES, no sentido de que se trata de um membro da família humana na primeira fase do seu ciclo vital e que chegará ao estado de pessoa; a segunda indicando que se trata apenas de um pouco de tecido, um aglomerado de células; e, por fim, a terceira, apontando que, satisfeitas determinadas condições, pode se desenvolver até ser humano, merecendo proteção de acordo com a fase de desenvolvimento em que se encontre. Consoante JUNGES, a defesa do respeito absoluto ao embrião não está no fato de ser pessoa, pois para tanto lhe faltariam requisitos, mas na sua “ascrição” ao gênero humano, na solidariedade ontológica de todos os seres humanos. Sobre “ascrição”, esclarece LEPARGNEUR: “’Pessoa’, resumidamente, é o indivíduo consciente, dotado de corpo, razão e vontade, autônomo e responsável. Salientamos a autonomia da pessoa como sujeito moral, porque aqui enxerta-se toda a tradição kantiana, ainda hoje importante na dinâmica do desenvolvimento da conscientização dos direitos humanos. É óbvio que, nem o embrião, nem sequer o feto, nem o louco que perdeu, de vez, o uso da razão e do juízo, nem o comatoso em fase final, responde a esta definição da pessoa. Então a pergunta é: em virtude de que podemos atribuir dignidade pessoal a estes seres que não se enquadram na definição comum e admitida de pessoa? A resposta da ciência atual é: pela ‘ascrição’, isto é, pela atribuição de certa dignidade pessoal, outorgada criteriosamente, a seres que julgamos merecedores dela, pela proximidade que intuímos desfrutar conosco, apesar de eles não satisfazerem os critérios da definição clássica da pessoa, sujeito racional, livrem autônomo e responsável. A ‘ascrição’ não resulta de uma decisão individual, mas de um juízo comunitário, cultural (do ethos ), que admite o mais ou menos, porque toda participação admite o mais ou menos.” A solidariedade ontológica dos seres humanos se baseia na identidade de espécie, ou seja, seres humanos são gerados por seres humanos sexualmente diferenciados, havendo uma herança genética, relacional e cultural, a ser preservada e atualizada, que imbrica uma dívida de cada ser humano com os seus semelhantes. Dívida esta que aponta para o fato de que o desrespeito ao semelhante é desrespeito a si mesmo. De outro lado, a genética moderna veio a demonstrar que todas as células somáticas (como o próprio nome dá conta, constituem o “soma”, o corpo), sem nenhuma exceção, possuem o mesmo genótipo, têm a mesma informação genética. Assim, qualquer célula humana contém todo o DNA responsável pelo desenvolvimento do ser humano. Demonstrado que o genótipo presente nas células somáticas é o mesmo presente no zigoto, evidencia-se não existirem diferenças genéticas entre o recém-concebido e o adulto, o que vem em reforço da referida identidade ontológica existente entre os seres humanos. A posição de LEJEUNE é ainda mais incisiva, no mesmo sentido, v.g.: “No princípio do ser há uma mensagem, essa mensagem contém a vida e essa mensagem é a vida. E se essa mensagem é uma mensagem humana, essa vida é uma vida humana.” De outro lado, há entendimentos em frontal antagonismo com o exposto, como se pode ver pelas posições expressas por SINGER, v.g.: “Se considerarmos ‘humano’ equivalente a ‘pessoa’, então a segunda premissa do argumento, que afirma que o feto é um ser humano, é claramente falsa, pois ninguém poderá argumentar, de forma plausível, que o feto seja racional ou autoconsciente. Se, por outro lado, o significado de ‘humano’ for apenas ‘membro da espécie Homo sapiens’, então a defesa conservadora da vida do feto se baseia numa característica desprovida de significação moral e, assim sendo, a primeira premissa é falsa. A questão já deveria a essa altura parecer-nos familiar: em si mesmo, o fato de um indivíduo ser, ou não, um membro da nossa espécie, não é mais relevante, diante do erro de matá-lo, do que o fato de ser ele, ou não, um membro de nossa raça.” Em relação a ser o feto um ser humano em potencialidade, SINGER oferece exemplos que afastariam essa possibilidade, tais como: “arrancar uma muda de carvalho recém-brotada não é o mesmo que abater um venerável carvalho secular. Jogar uma galinha viva dentro de uma panela de água fervendo seria muito pior do que fazer a mesma coisa com um ovo.” Conforme AZEVEDO, Warnock estabeleceu distinção entre seres agentes ou responsáveis pela moralidade e os seres beneficiários desta, sendo que, considerados pessoas apenas os primeiros, isso implica que por pessoas seriam considerados aqueles que desenvolveram maturidade suficiente para serem responsáveis por seus atos e pelos demais; considerados, ao revés, os segundos, a questão está em definir se há diferenças de valor moral, ou não, entre eles. Do exposto, caracteriza-se o embrião como um ser humano, e mais ainda o bebê anencéfalo, uma vez que este é gerado por pais humanos, possui genoma completo, funcionando como organismo integrado à mãe, exibindo, após o nascimento, comportamentos físicos típicos de um recém-nascido, ressaltando-se, ainda, que, conforme lição já reproduzida de PESSINI e BARCHIFONTAINE, sua situação não se confunde com a de morte encefálica. A legislação portenha O projeto de lei aprovado pela Legislatura da Cidade Autônoma de Buenos Aires, conforme a fundamentação (“considerandos”) da Comissão de Saúde, tem uma série de justificativas para sua edição. Aponta-se um “importante número” de mulheres grávidas de fetos anencéfalos que, desde o último trimestre de 2000, recorreram aos Tribunais de Buenos Aires buscando o “adiantamento do parto”, sendo que os sucessivos processos judiciais têm origem em precedente jurisprudencial (caso “S.T.”), em que tanto o Tribunal Superior de Justiça local, como a Corte Suprema de Justiça da Nação, avaliaram regras constitucionais relativas à vida, à saúde física e psíquica, à proteção integral à família, e regras penais que proíbem o aborto e suas consequências. No referido julgamento, em seu voto, o Dr. JULIO MAIER, membro do referido Tribunal Superior de Justiça, sustenta: “La razón de ser de la falta de ejecución de la solución diagnosticada consiste, precisamente, en la perplejidad de los médicos frente a las reglas jurídicas que rigen el caso, que – es cierto – no permiten una definición concreta sencilla desde el punto de vista del orden jurídico... ya por oscuridad de la ley, ya por falta de previsión concreta (laguna), ya porque la praxis judicial no alcanza el grado de generalidad y aceptación que permitiría develar la interpretación correcta del caso frente al orden jurídico.” Afirma-se que a práxis judicial aponta no sentido de que a prática regulada pela norma qu não é abortiva e, assim, não entra em confronto com a tutela do direito à vida desde a concepção, estabelecida no artigo 2o da lei aprovatória da Convenção dos Direitos da Criança e no artigo 4o do Pacto de São José da Costa Rica, pelo fato de que apenas se possibilita o adiantamento do parto em um momento em que o nascituro, se não sofresse de uma patologia letal, alcançaria viabilidade. De outro lado, as questões relativas à integridade da saúde da mãe, em sua totalidade, que seria prejudicada pela gravidez de um feto inviável (com danos psíquicos, em especial), protegida pela legislação da cidade autônoma e do País, bem como por Tratados Internacionais, devem ser levadas em conta, o que permite a regulamentação em pauta. Ressalta-se que, aos argumentos referidos, deve ser somado o fato de que os profissionais da medicina seriam beneficiados, na medida em que não estariam sujeitos a reiterados processos judiciais, sem embaraços ao desenvolvimento de suas atividades profissionais, o que provoca o seu apoio à norma. Por fim, as mulheres grávidas de um ser inviável reclamam a sanção da lei, que evita que sejam obrigadas a expor sua dor em juízo, podendo “chorar recolhidamente esse projeto de filho que não será”. O artigo primeiro da lei começa indicando o seu objeto, qual seja, regular o estabelecido pela Lei 153, o procedimento nos estabelecimentos assistenciais do sistema de saúde da Cidade Autônoma de Buenos Aires, a respeito de toda a mulher grávida de um feto que padeça de anencefalia ou outra patologia incompatível com a vida. A seguir, dispõe sobre feto inviável, para fins de aplicação da norma (artigo 2º). No artigo 3º, dispõe sobre o diagnóstico, estabelecendo que a incompatibilidade com a vida extrauterina deve ser comprovada pelo médico responsável pelo tratamento da gestante, mediante realização de duas ecografias obstétricas, nas quais deverá constar a identificação da gestante (documental ou digital). Prevê a norma que, dentro das 72 horas seguintes à confirmação da incompatibilidade com a vida do produto da gestação, o médico está obrigado a informar à gestante, explicando-lhe, de forma clara e de acordo com sua capacidade de compreensão, o diagnóstico e o prognóstico da patologia que afeta o feto, a possibilidade de continuar ou interromper a gravidez e as consequências da decisão que adotará (essas providências devem constar expressamente no histórico clínico da paciente). Para o adiantamento do parto, caso essa seja a opção, três requisitos indispensáveis devem ser atendidos, conforme o artigo 6º: O primeiro diz respeito à existência de certidão de inviabilidade do feto, registrada no histórico clínico da gestante, firmada pelo médico da mulher grávida, pelo médico responsável pela ecografia e pelo diretor do estabelecimento assistencial. O segundo requisito é o consentimento informado da paciente grávida, na forma prescrita em lei (Decreto 208/01). Por fim, é necessário que o feto tenha alcançado 24 semanas de idade gestacional ou a idade mínima na qual se registra viabilidade em fetos, intrínseca ou potencialmente sãos. Finalmente, entre outras medidas tendentes a dar execução ao diploma legal, determina-se que, em caso de objeção de consciência, por parte dos médicos que integram o sistema de saúde, deve ser providenciada a substituição, a fim de que possa ser levado a termo o adiantamento do parto. Das discussões na Legislatura de Buenos Aires, destaca-se a manifestação dos autores do projeto, Deputada Marcela Larrosa e Deputado Eduardo Peduto, no sentido de que “a legislação destina-se às mulheres que sabendo que seu filho não poderá viver fora de seu ventre, decidem não retardar mais o momento de sua morte. E necessitam desta lei para não precisarem recorrer à Justiça.”. A seu turno, a Deputada Clori Yelicic, contrapôs-se às objeções lançadas contra o projeto, durante sua votação, nos seguintes termos: “Não estamos falando de aborto. Quando o fizermos, será claramente. Falamos do adiantamento do momento do parto de fetos que carecem de toda expectativa de vida fora do útero materno.” Resta evidente que a legislação em apreço privilegia a saúde da mãe, tanto no aspecto psíquico como no social, sua autonomia, considerando-se que não há razão para levar a termo uma gestação de um feto que carece de viabilidade. Assim se dá a partir da perspectiva de que a morte do nascituro é a única alternativa possível e esperada, permitindo-se adiantar o parto ou o marco do permitir morrer. Objeções à lei O deputado Ricardo Busacca, 3o Vice-Presidente da Legislatura de Buenos Aires, sobre o referido Projeto de Lei, afirmou: “Creemos Que Una Ley Como Ésta Debe Ponderar El Papel De Todas Las Personas Que Pueden Estar Involucradas En El Embarazo De Una Mujer, Esto Es Al Hijo Que Lleva En Su Seno, Al Padre, Abuelos, Y Todos Los Entes Del Estado Que Procuran O Velan Por La Protección De Los Niños. “No tenemos que caer en el pecado de intentar regular las patologias sociales, el primer y único fin de una ley es erradicar de algún modo los males de una sociedad, no es bueno que la norma persiga por objeto reconocer determinado hecho y regularlo, antes que esto es necesario un análisis axiológico de los hechos y luego estudiar, cómo será la aplicación de la norma en la sociedad, esto es el análisis sociológico de la norma. Por lo tanto, dado que la misma no contempla la opinión del padre y lo que es aún más grave: Qué sucederia en el caso de una mujer menor de edad embarazada?, queremos decir lo seguiente: En ésta ley no se le da la posibilidad a aquella persona que tenga un interés legitimo a, por lo menos emitir opinión al respecto, por ejemplo no se le otorga intervención al Ministerio Publico de Menores, tampoco al Consejo del Menor y la Familia.” Aqui, já a primeira objeção, qual seja, a lei não leva em consideração a opinião sobre o fato – pedido de adiantamento do parto, nascimento de um bebê anencéfalo – de outras pessoas envolvidas na situação, em especial do “pai” do feto (seja cônjuge, companheiro ou parceiro da gestante), tampouco a capacidade da gestante, como se a questão se restringisse à percepção e decisão da mulher grávida de um anencéfalo, o que, por si só, abala sua saúde psíquica, prejudicando sua autonomia e possibilidade de discernimento para fins de consentimento informado. Sendo de considerar, também, como apontado pelo Deputado portenho, a hipótese de falta de capacidade da gestante, do ponto de vista legal, que não foi considerado para fins de consentimento. De outra parte, a Deputada Alicia Pierini, Presidente da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, Garantias e Antidiscriminação, solicitou agregar a convalidação do Comitê de Ética da instituição hospitalar, uma vez que “se existe em cada hospital um Comitê de Ética, não se compreende porque justamente em relação a este tema, tão controvertido, não lhe seja dada vista em cada caso, para manifestação”. Efetivamente, não se vislumbra razão objetiva para que não se busque a manifestação do Comitê de Ética do hospital, quando existente, nos casos em questão, concentrando-se, na prática, a condução do processo decisório na mão de um só profissional médico, aquele que acompanha a gestante durante a gravidez, quando poder-se-ia obter opiniões e considerações de profissionais de outras áreas que compõem o Comitê, bem como de médicos não envolvidos pessoalmente com o caso específico e seus desdobramentos, o que pode propiciar uma análise mais abrangente e imparcial. Embora as objeções antes referidas sejam, sem sombra de dúvida, relevantes, o ponto que desperta maiores discussões, tomando a posição central nas mesmas, diz respeito a tratar-se, ou não, o anencéfalo, de um ser com direito à vida. Este foi o ponto central da discussão julgamento do recurso de amparo interposto por S.T., junto à Corte Suprema de Justiça da Nação (Argentina), para que fosse autorizado o Hospital Materno Infantil Ramón Sardá a pôr fim à gestação de um feto anencéfalo, julgado em 2001. O Presidente da Corte Suprema, JULIO S. NAZARENO, quando daquele julgamento, ressaltou, em seu voto (dissidente), que a proteção legal da pessoa humana começa desde a concepção, a partir da combinação do disposto no art. 75, inc. 23, da Constituição da Nação Argentina, com o art. 4.1 do Pacto de São José da Costa Rica, e com a Convenção sobre os Direitos das Crianças, art. 6.1 e 2. Prevêem, os mencionados dispositivos: “Art. 75 – Corresponde al Congresso: 23 – Legislar y promover medidas de acción positiva que garanticen la igualdad real de oportunidades y trato, y el pleno goce y ejercicio de los derechos reconocidos por esta Constitución y por los tratados internacionales vigentes sobre derechos humanos, en particular respecto de los niños, las mujeres, los ancianos y las personas com discapacidad. Dictar un régimen de seguridad social especial e integral en protección del niño en situación de desamparo, desde el embarazo hasta la finalización del período de enseñanza elemental, y de la madre durante el embarazo y el tiempo de lactancia.” “ Art. 4.1. – Toda persona tiene derecho a que se repete su vida. Este derecho estara protegido por la ley y, en general, a partir del momento de la concepción. Nadie pude sere privado de la vida arbitrariamente.” “ Art. 6.1 – Los Estados Partes reconocen que todo niño tiene el derecho intrínseco a la vida.” Para o magistrado argentino, resta claro que se trata de uma pessoa desde a concepção, no seio materno, sempre que se tenham sinais característicos de humanidade. Ressalta, à fl. 31, que o DNA humano, o genoma humano, identifica uma pessoa pertencente ao gênero humano e, portanto, constitui um signo “característico” e irredutível de humanidade, o que leva à adoção de medidas tendentes à proteção da dignidade do próprio genoma humano, inclusive através da Declaração Universal sobre o Genoma Humano. Ante estas ponderações, estariam afastadas eventuais dúvidas sobre o caráter de pessoa humana do ser que habita o ventre materno. Além disso, no caso concreto, a ecografia levada a efeito, revela a existência de um processo vital em desenvolvimento, com resultados que dão conta da normalidade da cinética cardíaca, movimentos fetais, ao mesmo tempo em que informa sobre a adequação do líquido amniótico para a idade gestacional. Permita-se a reprodução de parte do raciocínio desenvolvido no voto, sobre o ponto: “De ello se desprende que el individuo tiene vida y cumple com un proceso de gestación afectado por la patologia que padece, pues ‘al carecer de cerebro y de todas las estructuras que de él dependen no podrá susbsistir com autonomía’ I(expresiones del doctor Illia, fs. 59 vta. Cit.). En esta materia es preciso tener en cuenta la opinión de especialistas respecto de la anencefalia quienes sostienen que ella ‘es una alteración congénita de la que resulta la ausencia de hemisferios cerebrales y estructura ósea del cráneo... se produce en la instancia de cierre de la porción superior del tubo neural motivando la ausencia o destrucción del cerebro que es sustituido por una masa rudimentaria de tejido mesenquimático y ectodérmico... El proceso patológico se inicia tempranamente entre los dias 17 y 23 del desarrollo fetal ’ (‘Obstetricia y Ginecologia Latinoamericanas’ no. 4, año 1988, vol 56, año 56, pág. 232, primera columna, el subrayada no pertenece al original); en sentido análogo, los expertos en genética clínica ubican a la anencefalia entre los desórdenes diagnosticables prenatales que se presentan en el segundo trimestre de la gestación.” (conf. Chieri Primadora, op. cit. págs. 364 y 365). Es decir, que la patologia es ulterior a la concepción, esto es, posterior al momentoen que há comenzado a exisitir la persona, de lo que se deduce que el organismo vivente en cuestión es una persona por nacer que padece un’accidente’ (AGREGADO) (art. 51 del Código Civil) – la anencefalia – que no altera su condición (artt. 63 del cód. Cit.). Há de entenderse, entonces, que la inexistencia o malformación del cerebro humano no transforma las personas en productos ‘subhumanos’ como sugere el a quo (ver fs. 192, último párrafo y 193); en efecto, tal como lo expresó en su oportunidad uno de los juristas más sobresalientes del país que integró este Tribunal: una conclusión semejante parte de una premisa materialista no declarada: la que ‘afirma que nada hay en el mundo que no sea materia o que no dependa de la materia’por lo que ‘El espíritu mismo no seria sino la parte del alma que piensa, la qual se halla asentada en el cerebro: ‘el cerebro segrega pensamientos como el hígado segrega bíllis’, proclamaba Condillac, un eminete filósofo materialista del siglo XVIII. El hombre, en suma, es solamente un animal que, por evolución, há perdido o debilitado algunos de sus instintos... Los actos humanos, como los hechos de los animales, no son libres: el libre arbitrio, o sea, la supuesta libertad humana, es una ilusión. El bien y el mal que realizamos no son frutos visibles de virtudes y vicios, sino consecuencias del estado fisico de salud o enfermedad...La concepción materialista sitúa al hombre, sin reserva alguna, en la escala zoológica, simplemente como un animal más evolucionado que sus hermanos inferiores’ lo que es ‘repugnante a cualquier dctrina, religiosa o filosófica, del hombre como ser espeiritual’(conf. Orgaz, Alfredo, disertación pronunciada el 17 de abril de 1977 publicada en el libro ‘Las Personas Humanas Esencia y Existencia’ en el que se recopilan escritos e conferencias del jurista citado bajo la dirección de Matilde Zavala de Gonzalez, Hamurabi, José Luis Depalma Editor, 2000, págs. 62 y 63). Llama la atención que estas palabras – que contribuyen a refutar los argumentos del a quo se examinan – pertenezcan a uno de los autores que más firmemente creía en que la persona humana comienza com el nacimiento y no com la concepción (ver su crítica al art. 70 del Código Civil en su obra ‘Derecho Civil Argentino, Personas Individuales’, Editorial Depalma, 1946 págs. 31 y sgtes., en particular, pág. 34, punto 3).” Mas o questionamento que, reiteradamente, tem sido apresentado nos casos de gravidez de anencéfalo diz respeito ao direito à vida, deste, no ventre de sua mãe, uma vez que, conforme diagnósticos médicos, a morte do nascituro é certa após o parto. No caso da Argentina, necessário notar a aplicação dos dispositivos constitucionais e de tratados internacionais anteriormente reproduzidos, sublinhando-se que ao ratificar a Convenção sobre os Direitos da Criança, foi lançada reserva nos seguintes termos: “Al ratificar la convención, deberan formularse las seguientes reservas y declaraciones: ...Com relación al art. 1o de la convención sobre los derecho del niño, la República Argentina declara que se entiende por niño todo ser humano desde el momento de su concepción y hasta los 18 años de edad.” Diante do exposto, o status de pessoa humana é conferido desde a concepção, a vida resta protegida, sem qualquer distinção ou exceção, do que emerge o respectivo direito à sua proteção. Poder-se-ia alegar que essa afirmação só se manteria hígida nos termos da legislação argentina, entretanto, esta conclusão pode ser combatida sob a consideração de que, ao negar o direito à vida a quem sofra de qualquer patologia física que inviabilize a perspectiva de uma longa existência, aqui não considerado o nascituro, estar-se-ia a ofender o princípio da igualdade entre as pessoas, plenamente aceito e adotado, de vez que “expectativa” de vida não é “certeza” de vida, mas probabilidade, tão-somente. Nessa ótica, o “adiantamento do parto” seria, em verdade, uma antecipação da morte, a possibilidade de abreviar uma vida, o que não se justifica sob a consideração de que essa existência será curta. Note-se que, ao buscar-se “adiantar o parto”, está-se, ao fim, reconhecendo a existência de um ser humano, de um nascituro, não se trata, de modo algum, de mães transformadas em “féretros ambulantes”, como entendem alguns. Considerações finais Primeiramente, cumpre destacar, uma certa perplexidade ante a aprovação do diploma legal, a partir da consideração de que a Argentina tem como religião oficial o catolicismo, que se opõe às práticas autorizadas naquele. Quanto ao tema, propriamente, propõe-se algumas reflexões: Sendo o anencéfalo fruto de uma fecundação humana, com código genético e DNA humano, completos, que desde a concepção está dirigido por um princípio vital próprio, não há como opor dúvidas ao fato de se estar frente a um ser da espécie humana, que deve ser respeitado como os demais. O fato de o feto sofrer de uma patologia grave, que prejudica sua viabilidade, não lhe retira a dignidade inerente aos seres humanos, tampouco o torna desprezível, mas, ao contrário, sua debilidade e fragilidade, inspira a dedicação de cuidado e proteção especial, de acordo com os males que lhe afligem, diagnóstico e prognóstico feitos, de acordo com o princípio de não discriminação inerente às relações entre os homens. Sem dúvida, a mãe e o pai (que não é objeto de qualquer preocupação ou consideração no diploma legal em questão) de um nascituro anencéfalo, merecem atenção e acompanhamento especial, pois evidente o prejuízo psicológico, emocional e afetivo, a que são submetidos, a fim de que possam superar esse momento de dor. Nesta perspectiva, há uma grave falha no projeto de lei aprovado, pois não é determinada atenção pós-parto, no caso adiantamento, sendo inafastável que se trata de uma situação traumática, que não será simplesmente eliminada com a intervenção cirúrgica. De outro lado, não parece adequado, simplesmente, determinar em uma lei, pontual, o procedimento médico a ser adotado nos casos discutidos, pois está-se diante do tratamento de dois pacientes (mãe e filho), em situação especial e específica, que exige ponderações no campo da bioética, espaço apropriado para discussões ante a sua multidisciplinariedade. A dimensão ética do ser humano se constitui pelo sentido de sua existência, pelo conteúdo que orienta suas ações, ou, dito de outra forma, pelo seu valor e o valor de seus atos, pela sua responsabilidade em relação a si mesmo e relativamente à humanidade como um todo. A simples positivação não garante o valor intrínseco do ser humano, muitas vezes, ao contrário, legitima ações devastadoras contra este. Como comprovação da insuficiência da positivação, no caso específico, aponta-se o fato de que não há qualquer preocupação em ouvir a opinião do pai do nascituro quanto à intervenção médica a ser levada a efeito, tampouco é prevista a oitiva do Comitê de Ética do hospital sobre o caso. Para que o adiantamento do parto seja considerado de forma única e taxativa a indicação terapêutica apropriada, ante as patologias que acometem o feto, há de se considerar a questão sob três dimensões: médica, antropológica e ética; estas devem encontrar-se em um processo dialógico e conexo, de modo a permitir aos envolvidos o exercício de sua liberdade com responsabilidade, sem a influência de uma determinação legislativa estrita. Por fim, não se pode olvidar que, diante dos grandes desafios bioéticos emergentes, consubstanciados em situações especialíssimas e específicas, meras respostas de cunho médico ou justificações legislativas, por si só, não atendem às peculiaridades dos conflitos éticos e humanos que se apresentam, sendo necessário ampliar o âmbito das discussões e apreciações a serem feitas. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 11 edição de maio de 2022 – ISSN 2764-3867
- A Perfeição do Plano Divino
O plano de Deus é um conceito central na teologia cristã, refletindo a crença de que Deus, em Sua infinita sabedoria e amor, possui um propósito soberano e benevolente para a criação e para cada indivíduo. Esse plano divino é frequentemente descrito como um caminho de redenção, salvação e realização, que se desenrola através da história humana desde a criação até a consumação dos tempos. De acordo com a fé cristã, o plano de Deus é revelado progressivamente nas Escrituras e é centrado na obra redentora de Jesus Cristo. Desde os primeiros momentos da humanidade, Deus traçou um caminho para reconciliar a criação consigo mesmo, restaurando a harmonia que foi rompida pelo pecado de Adão e Eva. Esse plano é tanto coletivo, envolvendo a salvação de toda a humanidade, quanto individual, refletindo o cuidado e o propósito de Deus para cada pessoa. Através de eventos históricos, profecias e ensinamentos, o plano de Deus se manifesta de maneiras surpreendentes e, muitas vezes, misteriosas. Ele inclui promessas feitas a figuras bíblicas como Abraão, Davi e os profetas, e encontra seu ápice na vida, morte e ressurreição de Jesus. Além disso, o plano divino continua a se desdobrar na vida de cada um até hoje, guiando-os em direção a um futuro de esperança e plenitude. Refletir sobre o plano de Deus nos convida a confiar na Sua soberania, mesmo diante das adversidades, e a encontrar significado e propósito em nossa própria existência. Como parte desse plano, somos chamados a viver de acordo com os princípios e valores que Deus estabeleceu, contribuindo para a realização de Sua vontade na terra., isto nos serve como um convite para explorar mais profundamente o plano de Deus e como ele se revela na história e em nossas vidas pessoais. Após a caída de Adão e Eva no paraíso e a entrada do pecado no mundo, Deus estabeleceu algumas novas alianças com seu povo. Assim, Deus escolheu Abraão para ser o pai de muitas nações, e através dele, todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12, 3). A promessa a Abraão foi o começo de um plano divino que culminaria na vinda de Jesus. Avançando um pouco mais na história, nos deparamos com Davi, ou como conhecido, o Rei Davi . A promessa de Deus a Davi, de que seu trono seria estabelecido para sempre (2 Samuel 7, 1), encontrou seu cumprimento em Jesus, o descendente de Davi que traria a salvação ao mundo. Esse plano demonstra a fidelidade, a soberania de Deus em cumprir Suas promessas e afirma sua legitimidade como Rei dos judeus. E finalmente, para a vinda do Salvador: José e Maria. Embora José seja destacado nas genealogias, a tradição cristã também reconhece a importância de Maria. A linhagem de Maria, embora não explicitamente traçada, é frequentemente ligada à de José, mostrando a união das heranças. A escolha de Maria, uma jovem humilde, para ser a mãe do Salvador, mostra que Deus vê além das aparências e escolhe aqueles que são puros de coração. Maria foi preparada por Deus para essa missão desde o início, evidenciando a perfeição do plano divino. Desde o princípio dos tempos, a humanidade tem buscado compreender o propósito e o significado de suas vidas. Para os que creem, a resposta é clara e reconfortante: tudo acontece segundo a Vontade de Deus. Esta visão nos convida a enxergar cada acontecimento, seja grande ou pequeno, como parte de um plano divino maior, cuidadosamente tecido pelo Criador. Ao longo da história bíblica, vemos exemplos contundentes de como Deus orquestrou eventos, pessoas e circunstâncias para realizar Sua vontade perfeita. Desde as promessas feitas a Abraão até o nascimento de Jesus, cada detalhe foi planejado com um propósito específico. As profecias cumpridas, as intervenções milagrosas e os encontros providenciais servem como testemunhos do cuidado e da intenção divina. Nesta jornada de fé, somos chamados a confiar na soberania de Deus, mesmo quando os caminhos parecem incertos ou difíceis. Reconhecer que estamos vivendo dentro do sonho de Deus traz um profundo senso de paz e propósito. Significa que nossas vidas têm valor e significado, não por acaso, mas porque fazemos parte de um plano amoroso e perfeito. Assim, enquanto exploramos a perfeição do plano divino, somos convidados a refletir sobre nosso próprio papel neste grande esquema. Como podemos alinhar nossas vidas com o sonho de Deus? Quais são os propósitos divinos que Ele tem reservado para cada um de nós? Somos chamados a uma reflexão mais profunda sobre a confiança na providência divina e a busca de viver de acordo com o que Deus sonhou para nós. Os profetas do Antigo Testamento anunciaram a vinda do Messias, detalhando aspectos específicos de sua vida e missão. Isaías, por exemplo, profetizou o nascimento virginal e a natureza redentora do Messias (Isaías 7, 14, 53, 5). Essas profecias se cumpriram perfeitamente em Jesus, confirmando que tudo estava nos planos de Deus. Desde o nascimento de Jesus, em Belém, conforme predito pelo profeta Miqueias (Miqueias 5, 2), até a crucificação e ressurreição, cada evento da vida de Jesus estava de acordo com o plano divino. Nada aconteceu por acaso; cada detalhe foi sonhado e preparado por Deus para a redenção da humanidade. A linhagem de Jesus e os eventos que moldaram sua vida são testemunhos da perfeição e do propósito divino. Enquanto exploramos essa ascendência, percebemos que cada nome e cada acontecimento não são meras coincidências, mas parte de um plano maior, orquestrado por Deus desde o início dos tempos. Como costumamos dizer, nada é coincidência, tudo que é providência. Deste modo, a origem de Jesus é uma narrativa de redenção, onde Deus usa pessoas imperfeitas para cumprir Seu propósito perfeito. Desde Adão até Jesus, vemos uma linha contínua de graça e misericórdia divina. Cada nome representa uma peça vital no quebra-cabeça da salvação. Os Evangelhos de Mateus e Lucas apresentam duas genealogias distintas de Jesus. Mateus começa com Abraão e segue até José, o pai legal de Jesus, enfatizando a herança judaica e real de Jesus, passando por figuras como Davi e Salomão. Este evangelho busca conectar Jesus diretamente às promessas feitas a Abraão e Davi, destacando Jesus como o Messias esperado. Lucas, por outro lado, traça a ascendência de Jesus começando por José e retrocede até Adão, o primeiro homem. Ao fazer isso, Lucas sublinha a universalidade da missão de Jesus, mostrando que Ele veio para toda a humanidade, não apenas para os judeus. A genealogia de Jesus Cristo é um dos temas mais fascinantes e significativos do Novo Testamento. Apresentada nos Evangelhos de Mateus (1, 1-17) e Lucas (3, 23-38), ela não apenas traça a linhagem terrena de Jesus, mas também revela profundas verdades teológicas e históricas que têm ressoado ao longo dos séculos. No Evangelho de Mateus (Mateus 1, 1-16) é destacado a origem real de José, ligando-o ao rei Davi através de seu filho Salomão. Alguns dos ancestrais mais próximos de José mencionados em Mateus incluem: Jacó (pai de José), Matã (avô de José) e Eleazar (bisavô de José). Embora a ascendência de Maria não seja explicitamente detalhada nos Evangelhos como a de José, a tradição cristã e algumas interpretações sugerem que a linhagem apresentada no Evangelho de Lucas (Lucas 3, 23-38) pode ser a de Maria, uma vez que Heli pode ser o pai de Maria. Assim, a origem de Maria também seria traçada até o Rei Davi, mas através de Natã, outro filho de Davi. Alguns dos ancestrais mais próximos são: Heli, chamado também de Joaquim (pai de Maria), Matate (avô de Maria) e Levi (bisavô de Maria). A genealogia de Jesus é mais do que uma lista de nomes; é um testemunho da fidelidade de Deus às suas promessas. Ela revela que, através de gerações de pessoas imperfeitas e falhas, Deus estava preparando o caminho para a vinda do Salvador. Ela também destaca o plano redentor de Deus para toda a humanidade, desde Adão até Jesus, que veio para restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade. Explorar isso é mergulhar em uma história de fé, esperança e redenção. Cada nome, cada geração, é um lembrete de que Deus trabalha através da história e das pessoas para cumprir seus propósitos eternos. A linhagem de Jesus é uma prova viva de que, independentemente de nossas origens ou imperfeições, todos nós temos um lugar no grandioso plano de Deus. Refletir sobre a ascendência de Jesus e o plano de Deus nos leva a reconhecer a grandeza e a sabedoria do Criador. Cada evento, cada profecia cumprida, confirma que Deus tem um plano perfeito para a humanidade, um plano que Ele tem executado desde o início dos tempos. Enquanto consideramos a perfeição do plano divino, é natural refletir sobre nosso próprio lugar nesse grandioso esquema. Assim como cada nome na genealogia de Jesus tinha um propósito e um significado, também nós fazemos parte de um sonho divino. Deus sonhou com você antes mesmo de você nascer, e você merece existir. Então, o que será que Ele sonhou para você? Como você pode viver de acordo com esse sonho e propósito? Ao meditar sobre estas questões, lembre-se de que você é uma parte valiosa do plano de Deus, uma prova viva de Sua intenção e amor. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 50 edição de janeiro de 2025 – ISSN 2764-3867
- Religião, ciência e filosofia.
Apesar de não ser espírita, e sim católico, creio que a melhor forma de correlacionar os três temas abordados, seja o conceito abaixo, nomeado como Tríplice Aspecto da Doutrina Espirita. A ciência, como muitos negam, não é um oposto da religião, e, sim, um complementar. É comum ouvir coisas como “Então as pessoas vieram do barro?” para criticar o criacionismo, porém, esquecem que no evolucionismo, ou darwinismo, os primeiros indícios de vida, tanto unicelulares quanto pluricelulares, foram na água, o que inclui água salgada, misturada com terra, areia, e afins. A religião tem suas explicações de como iniciou-se a vida, o mundo, universo, e ainda mais, variando para cada religião, mas o valor de uma religião não está no conhecimento mundano, físico, experimental, e sim, na criação da moral do indivíduo. Os conceitos expressos na Bíblia, Alcorão, Torá, etc., tem como consequência a criação de um vínculo de crença, e através deste, molda-se a ética daquele povo, pois com a religião, pode-se chegar ao controle social, positivamente ou negativamente. Visando o aspecto positivo, pode-se imaginar que alguém, desprovido de fé, ao pensar em cometer um crime, terá receio apenas de ser descoberto, o que inibe são os casos em que as penas e o risco sejam altos, entretanto, o ser ainda manterá sua vontade, caso tenha uma brecha, o fará sem hesitar. Todavia, caso o indivíduo seja religioso, saberá que mesmo impune no tribunal dos homens, um dia será julgado por quem tudo sabe, o que, subconscientemente, inibe-o de perpetrar tal crime, posto que, este antes mesmo de cogitar cometer o delito, já sabia do tal julgamento desde pequeno. Após o contato com a religião desde novo, introduz-se o indivíduo numa escola, onde este será o “centro de ciência”, enquanto as igrejas, terreiros, mesquita e afins, são centros religiosos, portanto, a escola não tem como dever moldar seu caráter, pois este, já é trabalhado com a família e crença. O conhecimento passado na escola deve sim, ser desanexado da religião, ou se forem correlacionados, dizer abertamente, pois ali terão crianças, e não necessariamente compartilham a mesma crença e estão em fase de construção de caráter, podendo confundir os conceitos e atrapalhar na formação destes, portanto, a escola apresenta conhecimentos físicos, aquilo que pode ser experimentado, visto e descrito. Este conhecimento, mais tarde, quando o caráter já estiver consolidado, e os princípios materiais também, o ser começará a questionar a si mesmo, através da filosofia, pois, “Quem conhece os outros é inteligente. Quem conhece a si mesmo é iluminado. Quem vence os outros é forte. Quem vence a si mesmo é invencível” – Lao-Tsé. Deste modo, a filosofia faz-se necessária para o crescimento do indivíduo para a vida adulta, pois saber quem és, o que queres, seus objetivos, e o principal, onde interliga-se a filosofia com a religião, quais questionamentos, exemplos, posturas, conceitos, moral, e afins, deixará para o próximo. A maior questão, e aquela que nunca terás a resposta ainda vivo é, “eu cumpri meu papel?”, é algo filosófico, mas diretamente ligado com a crença. Cria-se o laço da filosofia com a ciência, quando um experimento não é físico, e, sim, mental. Como é o caso do groupthink , ou seja, não é físico a forma dos indivíduos pensarem de forma irracional quando agrupados – o que é o motivo de incentivarem tanto as pessoas serem partes de grupos, mas isto é tema para outro momento – mas é experimental, o que faz parte do método da ciência, entretanto, é um fato psicológico, não visto por máquinas nem a olho nu, e sim, um fato retratado de forma lógica. Tendo este conceito em mente, é compreensível o motivo de tanto apelo para afastar o povo da religião, pois a ciência é escrita por quem tem poder, se todas as faculdades são de viés pró-vacinas com enormes taxas de alumínio, com tecnologia mRNA, completamente desconhecida, visto que nem mesmo os “cientistas” sabem seus efeitos e como irão agravar-se, a ciência diz que está correto, então o povo aceitará como tal. O exemplo foi para demonstrar o quanto a ciência é maleável, aliás, é um conceito dos homens para os homens, sempre serão abertas para mentiras, da mesma forma que a filosofia cai por terra, através dos grupinhos sociais, você não perguntará quem és, se está sempre auto intitulando-se como ativista LGBT, Black Lives Matter, vegano – o que é muito diferente de vegetariano – e similares, para ser aceito como um membro pertencente ao grupo. O ataque às crenças por progressistas ou crenças más intencionadas, é para reter o controle com si, tanto uma crença desvirtuada, quanto a falta de uma crença bem-intencionada, cria-se uma brecha para o controle total de um povo, pois, mesmo que em um regime tirano, um “Presidente” nunca poderá se colocar como algo além, um deus ou semideus, visto que a crença vai ser contrária à imposição do ditador, muitos irão até mesmo negar-se em aceitá-lo de forma direta, podendo perder sua vida, mas não rejeitar sua fé. Portanto, defender as religiões é algo necessário, assim como reter paridade estatal e acadêmica, pois uma ciência deturpada também ataca a religião, ensinando coisas péssimas para afastar a criança da igreja, e aproximar da escola degenerada. A tríplice é o ponto central para coesão dos três elementos, os quais apoiam-se de maneira pareada, caso uma caia, as demais estarão propensas a cair. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 11 edição de maio de 2022 – ISSN 2764-3867
- As picanhas e os píncaros da picaretagem
O termo "pícaro" e suas variações, como "picareta" e "picaretagem", têm raízes históricas e culturais, particularmente ligadas à literatura espanhola do século XVI, mais especificamente aos romances picarescos. Esses termos evoluíram ao longo do tempo, mas todos compartilham um vínculo comum com a figura do indivíduo astuto, muitas vezes marginal, que usa de artifícios e dissimulação para alcançar seus objetivos. A origem do termo "pícaro" remonta à figura de indivíduos que, durante a Idade Média e o Renascimento, eram vistos como aventureiros, muitas vezes soldados esfarrapados e famintos, oriundos da Picardia, uma região do norte da França. Embora a conexão com a Picardia seja uma teoria e não uma certeza histórica, o termo passou a ser associado a pessoas em situações precárias, que vagavam pela sociedade sem uma posição definida, mas que possuíam habilidades de sobrevivência, muitas vezes baseadas na esperteza e no engano. Nos romances picarescos, como Lazarillo de Tormes (1554), o "pícaro" passa a ser caracterizado como uma figura de classe social inferior, frequentemente descrita como servente, ajudante de cozinha ou trabalhador de baixo escalão, que se utiliza de artifícios, dissimulação e malícia para alcançar seus objetivos. O "pícaro" é um personagem que, apesar de sua condição precária, exibe uma sagacidade e uma falta de escrúpulos que o tornam capaz de manipular e enganar os outros para garantir sua sobrevivência, frequentemente utilizando de mentiras e de estratégias ardilosas. O termo "picareta", derivado de "pícaro", começou a ser usado para se referir a pessoas que agem de maneira desonesta, enganosa e trapaceira, associando-se assim à prática de "picaretagem", que descreve a atividade de enganar, fraudar ou tirar proveito de situações por meio de artifícios. Hoje, "picareta" e "picaretagem" são termos populares para descrever ações fraudulentas ou enganosas em diversos contextos sociais, especialmente em relações comerciais, políticas e pessoais. Golpes como as famosas pirâmides financeiras, a venda de pontos turísticos ou até mesmo a promessa de picanha, trazem à tona a característica mais básica dos picaretas e seus golpes: se aproveitam da boa fé ou da ambição dos incautos para alcançarem seus objetivos. Popularmente é conhecida uma expressão bastante jocosa que diz que “todos os dias um malandro e um otário saem às ruas, quando se encontram dá negócio”. Algumas vezes nem precisam sair às ruas. Agora que já sabemos da origem das palavras, vamos pinçar quatro histórias de grandes picaretagens históricas. Apenas quatro, visto que o volume de casos possivelmente lotaria uma biblioteca e certamente não queremos cansar os leitores. Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, cuja obra dispensa maiores apresentações, foi, em seus primeiros anos, um artista iniciante e ainda desconhecido. Em 1496, com o objetivo de alavancar sua carreira e ganhar visibilidade, criou uma escultura de Cupido dormindo. A representação de Cupido não era algo particularmente original, sendo um tema comum entre os artistas da época, e ainda mais irrelevante vindo de um desconhecido. Por isso, essa obra teria pouco valor no mercado de arte. Para aumentar suas chances de venda, Michelangelo recorreu a um artifício: tratou a escultura com terra ácida para fazê-la parecer mais antiga. Com isso, conseguiu vendê-la a um negociante chamado Baldassare del Milanese, que, por sua vez, a revendeu ao Cardeal Riario de San Giorgio. No entanto, o cardeal logo descobriu a fraude e exigiu o reembolso. Quando Michelangelo pediu a devolução da escultura de Baldassare, este se recusou, afirmando que preferiria destruí-la a devolvê-la. A relevância dessa história, contudo, não está apenas na fraude em si, mas no fato de que a escultura de Cupido foi responsável por atrair a atenção para os talentos de Michelangelo como escultor pela primeira vez, marcando um ponto de virada em sua carreira. Em 1920, Charles Ponzi, um ítalo-americano conquistou uma grande quantidade de investidores ao prometer lucros de 50% em apenas 45 dias. Seu esquema envolvia a compra de cupons postais de outros países, que eram então trocados por selos nos Estados Unidos a preços mais altos. Contudo, as despesas e o tempo necessário para a conversão das moedas comprometiam qualquer possibilidade de lucro real. Mesmo assim, a propaganda de um cliente a outro alimentava a demanda e, por um tempo, Ponzi conseguiu pagar os investidores mais antigos com o dinheiro dos novos participantes – sempre mantendo para si uma parte substancial dos recursos. Quando o golpe desmoronou, ficou claro que, para manter as promessas de rentabilidade, seriam necessários 160 milhões de cupons postais. No entanto, no mercado só existiam 27.000 unidades disponíveis. Após ser condenado e cumprir pena, Ponzi se mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu seus últimos anos em extrema pobreza, falecendo em 1949. Seu nome ficou eternamente ligado ao famoso "esquema de Ponzi", que se tornaria um dos golpes mais conhecidos no mundo. Um dos maiores esquemas de pirâmide financeira do Brasil envolveu as Fazendas Reunidas Boi Gordo, que atraiu cerca de 30.000 investidores e resultou em perdas estimadas em 3,9 bilhões de reais. A proposta era tentadora: lucros de 42% em um ano e meio, levando muitos a investirem suas economias. A empresa, fundada em 1988, iniciou suas operações no mercado, mas foi nos anos 90 que passou a comercializar contratos de investimento coletivo (CICs), criando uma fachada de atividade agrícola focada na engorda de bois e criação de bezerros. No entanto, a verdadeira base do esquema não estava na criação de gado, mas no recrutamento contínuo de novos investidores, que financiavam os pagamentos prometidos aos antigos. Durante uma década, a Boi Gordo cresceu, e até tentou abrir seu capital para regularizar suas operações, algo que não evitou o colapso do modelo de negócios. A empresa também apostou na publicidade, com anúncios estrelados pelo ator Antônio Fagundes durante a exibição da novela Rei do Gado, o que ajudou a atrair mais participantes. Contudo, em 2001, a Boi Gordo começou a enfrentar sérios problemas financeiros e não tinha mais recursos para honrar os resgates solicitados pelos investidores. Em 2004, foi decretada a falência da empresa, mas o processo judicial em torno do caso ainda está em andamento, com esforços sendo feitos para tentar recuperar ativos e indenizar os credores. Em relação à responsabilidade dos envolvidos, o processo criminal contra o fundador Paulo Roberto de Andrade foi encerrado em 2009 pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), embora ele tenha sido multado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 2003 em mais de 20 milhões de reais e proibido de atuar como administrador de empresas abertas por 20 anos. A falência e as tentativas de recuperação das perdas dos investidores expuseram a fragilidade do sistema, caracterizando-o como um típico esquema de pirâmide, no qual a entrada de novos participantes era essencial para sustentar os pagamentos aos mais antigos. Bem, são casos realmente impactantes. O primeiro, porque quem suspeitaria que Michelangelo faria uma ‘traquinagem’ como a de 1496? O segundo, porque Charles Ponzi popularizou e emprestou seu nome a um dos golpes mais famosos e ainda praticados atualmente: a pirâmide financeira, que se aproveita da ambição que muitos guardam em si. O terceiro, porque trouxe o esquema da pirâmide financeira à televisão, invadindo os lares brasileiros e demonstrando que, desde famosos até anônimos, todos podem ser vítimas da própria ambição. Mas, já que falamos de bois, vamos ao quarto e último estratagema. O então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (Lula) fez uma declaração sobre os eleitores voltarem a comer picanha. A declaração ocorreu em 6 de agosto de 2002, durante um evento de campanha em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. Na ocasião, Lula estava se dirigindo aos seus apoiadores e fez a seguinte afirmação, que se tornou famosa: “ Nós vamos voltar a reunir a família no domingo e nós vamos fazer um churrasquinho e nós vamos comer uma fatia de picanha com uma gordurinha passada na farinha e tomar uma p* de uma cerveja gelada. Aí, bicho, o povo entra em delírio porque é isso que o povo quer ”. A promessa aparentemente alavancou votos para o candidato. Obviamente, não foi apenas aquela promessa rica em proteína e gordura saturada que fez de Lula o 39º presidente do Brasil, mas um conjunto de fatores que não arriscaremos explicar neste artigo. O fato é que aquela promessa despertou a ambição e o apetite de muitos, que, mesmo não possuindo os meios para comprar por si a tão desejada picanha, viram a possibilidade de se beneficiarem. Um gatilho mental que sequestrou a pouca racionalidade de muitos, dando vez aos impulsos mais primitivos. Oferecer vantagem imerecida ou excessiva, despertar a ambição e o desejo sem necessidade de contrapartidas, prometer o que não se pode garantir. Todos são elementos que podemos encontrar em muitos golpes e estelionatos, até mesmo os eleitorais. Assim como em Oséias 4:6, o povo continua perecendo por falta de conhecimento. As classes populares ainda votam com o estômago, ainda são dirigidas por instintos e não por sentimentos nobres. Se a mentalidade não mudar nem mesmo pela via do sofrimento, só nos restará abandonar a vaidade e admitir que sempre estivemos, estamos e estaremos dependentes da misericórdia de Deus, pois nem mesmo pedir nós sabemos. “ Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. ” Tiago 4:3." Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 50 edição de janeiro de 2025 – ISSN 2764-3867
- A corrupção do léxico
Imaginando como seria trágico perder a visão em um mundo no qual não se pode mais descrever aquilo que nos cerca, não se vislumbra outra coisa senão uma tragédia, contudo, talvez seja igualmente assustador viver sem conseguir expressar aquilo que o cerca. A perda da capacidade de se comunicar nos tornaria mais animalescos, desprovidos daquilo que nos fez evoluir de forma inconteste, posto que, através da escrita pudemos conservar ensinamentos e criar, ainda que no campo da ficção, visões de mundo que pudessem inspirar o homem. A palavra homem, no parágrafo anterior, refere-se ao ser humano, não se restringindo aos do gênero masculino. Parece estranho e desnecessária tal explicação, de fato o é, porém, considero como um singelo alerta para o cenário atual, no qual o óbvio, infelizmente, precisa ser justificado. A linguística nos ensina a reconhecer quaisquer coisas pelo seu signo , o qual possui significante e significado. O significante é a forma escrita ou sonora da palavra traduzida pela nossa compreensão de mundo, enquanto o significado é o conceito universal da coisa. “ O signo linguístico é um elemento representativo que apresenta dois aspectos: o significado e o significante. Ao escutar a palavra cachorro, reconhecemos a sequência de sons que formam essa palavra. Esses sons se identificam com a lembrança deles que está em nossa memória. Essa lembrança constitui uma real imagem sonora, armazenada em nosso cérebro que é o significante do signo cachorro. Quando escutamos essa palavra, logo pensamos em um animal irracional de quatro patas, com pelos, olhos, orelhas, etc. Esse conceito que nos vem à mente é o significado do signo cachorro e também se encontra armazenado em nossa memória. Ao empregar os signos que formam a nossa língua, devemos obedecer às regras gramaticais convencionadas pela própria língua. Desse modo, por exemplo, é possível colocar o artigo indefinido um diante do signo cachorro, formando a sequência um cachorro, o mesmo não seria possível se quiséssemos colocar o artigo uma diante do signo cachorro”. Outra vez parece o exercício de explicar aquilo que é evidente, entrementes, tal compreensão faz-se mister para que se observe o risco da chamada novilíngua , termo originário do livro 1984 do autor britânico Goerge Orewell, no qual a linguagem é adaptada aos anseios dos poderosos. Voltando ao triste ponto em que chegamos, não o da ficção mas dos tempos atuais, precisamos hoje explicar que a grama é verde , e reafirmar isso quantas vezes forem necessárias para que a consciência não seja raptada e a relva assuma, na mente das pessoas, qualquer outra cor que tiranos desejem. A informação tornou-se a arma mais eficaz e, precocemente, uma forma de escravizar milhões de pessoas, antes mesmo do uso da força. Ressignificar, que nada mais é que dar novo significado a uma palavra cujo conceito já é conhecido é uma forma de controlar as pessoas com base em argumentos inexistentes, pois as falácias tornar-se-ão irrefutáveis sem uma contra-argumentação, o que exige, via de regra, o uso de palavras conforme o conceito correto. Não há como afastar um argumento, ainda que falso, sem um debate no qual não se conhece o idioma, ainda pior, seria quando palavras conhecidas passam a ter um significado volátil, normalmente, afixado pelo criador da desinformação. Farei uma pequena pausa, posto que, usarei um exemplo real. Ao compartilhar uma postagem de um grupo (WhatsApp), com a participação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na temática denominada “ Matematiqueer ” (algo sobre matemática e agenda LGBT, com dinheiro público), contendo o texto, “ Confira les membres recém-chegades ao MatematiQueer ”, fui surpreendido com o seguinte comentário, “pensei que estava lendo uma postagem em Francês” , o que me chamou a atenção, pois, tal afirmação era algo que me preocupara. Estava diante de uma publicação com a chancela de uma instituição de ensino superior que deveria zelar por sua história, uma vez que, embora fundada oficialmente em 1920, é a herdeira histórica da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, instituição fundada pela Rainha D. Maria I de Portugal, em 1792, antes mesmo da independência do Brasil. Todavia, a mais que bicentenária universidade atirava seu legado na lama em nome de uma agenda progressista que pretende adulterar a língua portuguesa para que se preste aos seus nefastos anseios de controle social. Poderia sentir o pesar aos ver uma renomada, e custosa, instituição naufragando na sujeira, talvez a localização da Cidade Universitária na capital fluminense tenha mais a dizer, haja vista, a Ilha o Fundão cercar-se de um verdadeiro mar de esgoto. Mas não é da UFRJ que pretendo tratar, ao menos por enquanto. A chamada linguagem neutra é, sem sombra de dúvidas um mal que deve ser combatido, assim como toda distorção doentia da linguagem precisa ser rechaçada ou seremos escravos daqueles que ditam as regras, ainda que voláteis. Dando o significado que lhe convém às palavras, os grupos autointitulados progressistas, o que já é uma flagrante distorção, domina o debate público e submete os termos aos argumentos conforme seu abjeto interesse. O aborto, que se traduz no assassinato de seres humanos no ventre de suas mães, passa a ser ressignificado como direito reprodutivo, quando tal expressão deveria levar, e leva, ao intendimento de que a mulher não poderia ter cerceado o direito de ser mãe. Parece que os defensores dos direitos reprodutivos da mulher estão lutando contra aquelas famigeradas imposições estatais da ditadura chinesa acerca de um limite de número de filhos, quando na verdade, querem matar bebês na fase de gestação. A distorção serve para ludibriar as pessoas que compreenderão um fim diverso daquele pretendido. Mais uma vez, peço licença ao leitor para criar uma hipótese, na qual um indivíduo, sabendo o que significa pedir a mão da filha de alguém, o faz, para ter assim o direito de amputar parte do membro da mesma e subtraí-lo. Nota-se que, por mais esdruxulo que seja tal exemplo, não precisou ressignificar as palavras, apenas descontextualizou-as, pois, sabendo-se que dar a mão é leva a entender que trata-se de um pedido de casamento, o indivíduo teria pedido usando da literalidade, confundindo o receptor da mensagem, diferente do que é feito pelos falsamente autointitulados progressistas que, indo além, inventam significados para palavras cujo conceito já existe para ludibriar. A distorção do léxico de forma proposital não é nociva por prejudicar a comunicação, uma vez que, existe uma sórdida intenção conduzindo tal processo. Não se trata de erros inocentes, movidos pela ignorância ou repetição equivocada de um termo, mês, perigosamente, de uma manipulação consciente das palavras para dissuadir indivíduos para que se deixem pautar por uma abissal agenda de controle social. Como mencionado, é imprescindível saber diferenciar os erros e a corrupção, simplesmente pelo fato de que o primeiro se dá pelo desconhecimento ou desatenção e o segundo tem uma finalidade pútrida, de maneira que, aquele que erra pode e deve ser corrigido, com a devida educação, apenas para que compreenda o uso correto de seu idioma, entretanto, aquele que distorce deliberadamente o significado de algo, deve ser combatido, pois busca o resultado maligno que conduz tal ação, ainda que atuando de forma inconsciente, hipótese na qual servirá a um propósito alheio, mas igualmente torpe. A alteração da linguagem de forma preordenada não é natural, portanto, presta-se ao fim de inserir ou modificar conceitos que não estão abarcados pelo termo, assim, pode-se fazer com que o receptor da mensagem tenha a falsa impressão sobre algo, acionando um gatilho ou impedindo que conheça o real significado. Inúmeros são os que repetem mantras mentirosos plantados por um grupo que, de forma artificial, ressignifica palavras para atacar, calar ou até criminalizar seus opositores, por vezes, passando-se por vítimas quando na verdade são algozes. Termos como opinião pública e sociedade civil dão uma ideia genérica de que o povo, de forma ampla e irrestrita, pensa de determinada forma e atua em um conjunto, quando na verdade, ambos são premissas enganosas, uma vez que foram indevidamente apropriadas, ou cunhadas, com o fito de iludir àqueles que buscam o significado mais obvio de tais termos. A chamada opinião pública , expressão que faz o indivíduo crer tratar do pensamento da maioria, em verdade é a linha editorial da mídia mainstream , fazendo com que o indivíduo que discorde de tais posicionamentos se vejam isolados em uma determinada sociedade por conta de uma mentira. Ao crer que um tema é visto pela maioria por um certo ângulo, aquele que possui uma visão dissonante acaba por se enxergar como uma pequena exceção e calando-se para suportar, democraticamente, o posicionamento da maioria, a chamada espiral do silêncio , sucumbindo assim aos ditames de um grupo que controla os meios de comunicação . Por outro lado, a expressão sociedade civil , por sua vez, tem um significado específico, sendo, de fato, um grupo de pessoas que se unem para participar das questões públicas ainda que não integre o Estado, de maneira que, seu significado é honestamente representado no dicionário, contudo, há uma visão hegemônica que acaba por considerar que determinados grupos são dignos de reconhecimento e outros não, bem como, fazendo com que as lideranças de tais grupos sejam, igualmente, considerados aceitáveis ou não. A princípio, parece algo justo considerar que a associação de pessoas em defesa de grupos identitários seja benéfico, entretanto, basta que tal facção contrarie as pautas progressistas, outra expressão falaciosa, para que seja rechaçado, daí a grande dificuldade de lideranças feministas posicionarem-se contra a inserção de homens no esporte feminino, pois, isso implicaria na infame acusação, ainda que mentirosa, de serem transfóbicas . Na prática, quando se defende a participação da sociedade civil, o que se vislumbra em uma análise mais aprofundada é a legitimação de grupos preordenados que atuam como monopolizadores do debate acerca de um tema, excluindo aqueles que se contrapõe, para criar uma hegemonia política. A sociedade civil, na vida real, é muito mais próxima de sovietes que de um bando de vizinhos que busca melhorias para seu bairro, como tentam incutir na cabeça do cidadão. A ressignificação deturpada serve também para, de forma infundada, promover acusações e até agressões, quando se cola a pecha de fascista em qualquer indivíduo que ouse discordar da elite política, legitima-se, na mente dos mais desprovidos de conhecimento, a agressão aos que foram inveridicamente apontados como sendo integrantes de um espectro político detestável, ainda que, os mesmos agressores façam flagrante defesa do socialismo, pois tal sistema, talvez ainda mais mortal, manipula os chamados antifascistas ao mesmo tempo em que se diz defensor de direitos humanos (parece uma piada, mas não é). Algumas distorções que nos parecem insignificantes, ou mesmo jocosas, podem trazer uma armadilha em seu íntimo, sendo o progressismo é uma víbora, sempre terá em suas presas o veneno, tudo aquilo que se propõe a fazer é, na melhor hipótese uma forma de baixar a guarda do adversário. As chamadas ressignificações não são exceções. Sutilmente, fingindo valorizar a mulher na política, trataram de adulterar a denominação do mais alto cargo da nação usando termo “presidenta”, desconsiderando ser a palavra presidente comum aos dois gêneros, sim, só existem dois. Em época aproximada, uma renomada escola federal da capital fluminense passou a chamar seus alunos de “alunxs”, rasgando mais uma vez o léxico da língua portuguesa. Surgiu então a berração chamada pronome neutro, que visa desconstruir a linguagem em prol de uma agenda identitária surreal, baseada na vontade de indivíduos que tentam capitanear grupos rotulando-os para amestrá-los não antes de “patentear” sua criação, posto que, ao subdividirem os dois gêneros reais, criam diversos “subgêneros” para satisfazer seu nicho de poder . Fracionando quantas vezes forem necessárias para controlar, surrupiar o controle ou constranger aquele que não se enquadra na nova subdivisão como um possível algoz dos recém-emancipados, surge no gênero feminino a figura da “mulher” trans, em verdade um homem que se considera mulher, sendo exigido daqueles que não se enquadram a aceitação de tal visão sob pena (em alguns países real) de ser acusado por homofobia, entretanto, o grupo de “mulheres” trans pode dar origem a uma fração de “mulheres” trans lésbicas, que nada mais são que homens que se autodefinem como mulheres e relacionam-se com mulheres, em síntese, um homem heterossexual que se veste como mulher. Se isso lhe parece complicado, é por não fazer sentido algum. Imaginando que alguém perdera a visão e precise da descrição de um indivíduo, mas seu interlocutor utilize da “linguagem neutra”, o pobre cego estará ainda mais perdido, pois sua mente não conseguirá formar uma imagem com base no significado daquilo que lhe é dito. Torna-se um trabalho hercúleo explicar que um “homem” trans gay engravidou e o pai é uma “mulher” trans lésbica, quando seria simples descrever que uma mulher está grávida e o pai é um homem, em que pese, vistam-se de forma diferente do normal. Tal cenário grotesco também ocorreria se fosse necessária uma descrição pormenorizada de um indivíduo, seja uma pessoa perdida, uma vítima na posse de criminosos, um acidentado ou autor de um delito, tendo em mente que, o ato de descrever pessoas e objetos é nada mais que apresentar características destes. A corrupção do léxico é ainda mais complexa quando se trata de substantivos abstratos, posto que, aos concretos podemos confrontar a alteração e a realidade, de maneira que, homens não engravidam ou menstruam, por mais que determinadas mulheres queiram ser chamadas de homens, isso é um fato que poderá ser usado para afastar a vontade. O risco real de ressignificar uma palavra que se dirige a um substantivo concreto é quando há uma força coercitiva , também corrompida, que buscará fazer com que os indivíduos neguem a realidade, criminalizando a verdade em busca de uma narrativa. Quando se trata de um substantivo abstrato, na mente doentia progressista, basta dar o “pseudossignificado” e repeti-lo para que acreditem ser real, o próprio termo progressismo é falacioso, haja vista que, presume-se progresso , o avanço de um determinado ponto, quando, em verdade, revolucionários buscam destruir uma sociedade para recriá-la à sua maneira , não existe a ideia de evolução, progresso, o que ocupa a mente do revolucionário é a construção do mundo de forma artificial, por isso disfuncional, para saciar sua loucura pelo controle da humanidade e, talvez ainda pior, por acreditarem poder ocupar o Trono dos tronos. Ressignificaram, na mente dos mais fracos, palavras como democracia, fascismo, genocida, desinformação e outras tantas que poderíamos tratá-las de forma separadas, mas o importante é observar como as pessoas acabam por assumir que tais narrativas sejam verdadeiras, concordando com uma liberdade de expressão unilateral, uma democracia pertence aos que estão no poder e que as instituições são mais importantes que o povo ao qual devem servir. Os chamados atos antidemocráticos são aqueles direcionados às pessoas que querem se proteger, contudo, a fustigação contra a nação, inclusive em outras línguas (buscando o clamor internacional) é tratado como mera opinião individual. O mundo torna-se deveras perigoso quando o homem não consegue ver por onde caminha, sendo covardemente atacado pelas sombras, por isso, alterar o significado do racismo para tratá-lo como ferramenta unilateral de perseguição, bem como, criar cada vez mais formas de criminalizar opiniões, calando coercitivamente a verdade e a consciência, para criminalizar a todos fazendo com que precisem da leniência daquele que pode julgar, é doentio, pois cria a insegurança jurídica só vista nas piores ditaduras. A Constituição e todo o ordenamento jurídico transmuta-se em uma colcha de retalhos moribunda com o fim de satisfazer a intenta progressista, tudo aquilo que não agrada a agenda é sumariamente retirado ou transfigura-se para amoldar-se aos anseios daqueles que colocaram-se acima de tudo. Aquilo que fora edificado pela tradição, construído à duras penas, é destruído e varrido por pessoas que, distantes de sua missão, insistem em conduzir um processo artificial. No que tange à linguagem neutra, algo grotesco e sem sentido, a insistência dos revolucionários para inserir tal neologismo corrupto no léxico de nossa língua não é algo fugaz, pois, como mencionado, tem um especial fim, qual seja, criar no subconsciente que não há definições de gênero e que as os conceitos curvar-se-ão perante os ditames dos detentores do poder, assim como a justiça se contorce para satisfação do poder, deixando de ser justa para ser um instrumento de perseguição e controle, o significado, na mente revolucionária, poderá ser livremente alterado para atender à intenta nefasta do centro de poder . Por mais que nos seja atrativo fazer troça da linguagem neutra, devemos encará-la como a víbora que é, por servir ao mal maior que corromperá não só o léxico da língua portuguesa mas levará consigo a consciência de toda a sociedade. Assim como nossos avós diziam para não confundirmos liberdade com libertinagem, assumir o uso de termos como “todes” para aglutinar homens e mulheres, quando é sabido que a palavra todos já o faz, é, na melhor das hipóteses abrir mão do legado linguístico que nos fora deixado pelos portugueses, até mesmo os romanos. Infelizmente, o mundo não é feito da melhor das hipóteses, e se submeter à chamada linguagem neutra é deixar-se escravizar por um grupo que usa deliberadamente distorções do significado para conduzir todos, não “todes”, ao precipício. A agenda avançará determinando como cada indivíduo deve se expressar, impedindo que aquele que não concorde possa exprimir seus argumentos pela deficiência do léxico. Bastaria dizer que a chamada linguagem neutra, em si, fracassará, uma vez que, artificial e sem aplicação prática real, estaria fadada ao desuso, entretanto, como mencionado, universidades e demais instituições de ensino, descompromissadas de sua missão de formar por terem sorvido o veneno da víbora, tentam inserir tal aberração no contexto, fazendo com que seus alunos assimilem a linguagem para repeti-la como um mantra de sua distópica tribo. A tentativa de se comunicar com termos desconexos da realidade acaba sendo vexatória, entrementes, podemos imaginar que em um futuro próximo a adesão por um grande grupo levará aos usuários da linguagem à falsa crença que se trata de algo normal, logo, ter-se-á como regra aquilo que é exceção, fazendo com que, o artificial cubra a comunicação natural que evoluiu com a civilização, ou seja, revolucionando o léxico teremos a ruptura entre a civilização ora construída que servirá de base para a destruição e a construção de uma nova ordem mundial, cujas formas de comunicação são editadas do topo da pirâmide do poder. Importante ressaltar que a imposição carece de legitimidade, ainda que falsa, para convencer a maioria, logo, a incapacidade de entender o conceito de algo resultará na impossibilidade de questionar tal legitimidade, assim, um homem que não pode investigar se aquela que pretende se casar é um homem ou uma mulher, não poderá questionar por que suas relações não resultam em filhos. Parece e é loucura, mas até o conceito de homem e mulher poderá se perder, daí será o acaso o pai das futuras gerações. Na busca pela legitimidade da linguagem neutra as instituições de ensino tem se esforçado para incuti-la na educação, fazendo com que as futuras gerações sejam obrigadas a assimilá-la. Sendo ainda necessário corromper alguma instituição capaz de contaminar de forma mais incisiva, como no caso do ordenamento jurídico, no qual, ultrapassando os muros das universidades, contaminaram-se tribunais e outros órgão, aparelhando por fim a mais alta corte do Poder Judiciário, o que viabilizou a retorção da Justiça em favor da agenda revolucionária. Eis que as perigosas nomeações de agentes revolucionários para a Academia Brasileira de Letras não se resumem à escolhas infelizes para agraciar amigos, posto que, na verdade o aparelhamento da instituição visa legitimar a ressignificação proposital e artificial da léxico para conduzir a vida através da linguagem. Para quem se esquece que o Governo da Alemanha afirmara que o nazismo era do espectro de direita , quando o posto de Chanceler daquele país era ocupado por uma política que iniciou sua vida pública na extinta Alemanha Oriental, ou seja, para os menos esclarecidos basta um governo de esquerda, do país que esteve sob o julgo dos nazistas, apontar que tal nefasto sistema encontra lugar na direita que assim o será. A Academia Brasileira de Letras possui forte influência na linguagem, sendo referencia para pesquisa e até debate acerca da evolução do léxico, por isso, aparelhar tal instituição tem como objetivo legitimar a ressignificação das palavras para que atenda a agenda progressista. Já figuram como imortais, os ex-presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, bem como, escritores declaradamente progressistas como Merval Pereira e Paulo Coelho, o que, com o ingresso da atriz Fernanda Montenegro e do cantor Gilberto Gil, demonstra flagrante inclinação para que a instituição adote, cada vez mais, uma postura agressiva no intuito de avançar com as pautas revolucionárias caindo em descrédito ou legitimando o absurdo. Para quem acha que isso é impossível, basta uma simples leitura , “ Podem se candidatar à Academia brasileiros natos, com obras publicadas de reconhecido valor cultural. A ABL possui uma importância significativa na sociedade, sendo que ela cria vocabulários e dicionários da Língua Portuguesa; estuda e avalia mudanças gramaticais ou ortográficas; publica obras inéditas ou antologias de escritores nacionais; além de distribuir prêmios literários ” . Como a agenda revolucionária não se aproxima da realidade, não importa-se quanto sangue será derramado em nome de seu experimento social, que fracassará sim, mas à que custo. Por tal razão é necessário resistir as ações dos autoproclamados progressistas ainda que significa colocar a Academia Brasileira de Letras em uma moldura em respeito à sua história, relegando-a dos valores que outrora tinham. Os progressistas do mais alto posto consideram-se senhores de tudo julgando-se deuses, por isso, estão fadados à queda, como aquele que tentou erguer seu trono acima das estrelas e se igualar a Deus, contudo, os revolucionários não se importam em arrastar tantas almas quanto puderem para o abismo, alimentados pela ganância e a inveja, sempre estarão ávidos a fazer e espalhar seu mal pelo mundo. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 10 edição de abril de 2022– ISSN 2764-3867
- O Evangelho e a Ética Social
Filipenses 2:4 – “Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” É realmente espetacular como textos escritos há milênios conseguem permanecer atuais. E é esse um dos aspectos fundamentais que colocam a Bíblia em um patamar acima de qualquer outra obra: ela não se prende às amarras temporais que normalmente carimbam como ‘ultrapassado’ qualquer compêndio que trate de aspectos socioeconômicos contemporâneos. Mesmos autores clássicos incensados por gerações a fio, vivos estivessem, teriam que testemunhar a atualização, correção e, em certos casos o completo desuso de suas obras-primas, como, por exemplo, Platão, Marx, Nietzsche e outros. E mais, a Palavra de Deus não só permanece atual como parece imune a todos os ataques desferidos contra ela dia após dia pelos exércitos da liberalidade e do relativismo, embevecidos pela contradição de uma crítica irracionalmente sutil que, usando a máscara de supostos “progresso” e “desenvolvimento” (eufemismos para progressismo e outras pautas destrutivas), trazem em suas entranhas um desconforto brutal em ter que conviver com a verdade traduzida pela vontade de Deus, fonte primária da sabedoria humana. Vejamos especificamente o versículo acima citado. Foi escrito no primeiro século da Era Cristã. Poderia ter sido escrito ontem. Poderia estar estampando camisetas em protestos pacíficos contra os maus tratos que a população recebe de seus governantes. Ou mesmo para reclamar de vizinhos barulhentos ou de quem joga lixo no meio da rua. Em palavras claras e objetivas, o apóstolo diz que, ao mesmo tempo em que cuidamos de nossos interesses, devemos entender que os demais igualmente possuem os seus, em uma afirmação que ganha eco popular lendo-se nas entrelinhas que ‘o meu direito começa quando termina o do próximo’, e vice-versa. Não fala nada estranho ao coração do Deus Criador, que já havia dito ainda no deserto algo que aponta para isso “ (…) mas amarás o teu próximo como a ti mesmo ” (Levítico 19:18). Jesus reafirma a expressão em Mateus 22:39. Ou seja, devo tratar como eu gostaria que me tratassem. Devo respeitar o que não é meu como se fosse. E isso é um ponto fundamental naquilo que gostaríamos de chamar de civilização. Vejamos, por exemplo, o caso dos governantes de uma nação. O modo como eles tratam as três questões mais importantes de uma sociedade, a saber: educação, saúde e segurança, exatamente nessa ordem. Suas preocupações imediatas (“O que é propriamente seu”) são – redundância – imediatamente sanadas assim que chegam ao poder. Carro novo, dependendo do cargo, blindado, casa nova, escola nova para os filhos e plano de saúde com cobertura internacional. E então, eis a questão. Uma vez refestelados em sua nova zona de conforto o “O que é dos outros” cai em esquecimento. Nesse caso, “O que é dos outros” se trata da saúde dos outros, da educação dos outros, da segurança dos outros. Vimos muito isso recentemente nas decisões draconianas de gestores impedindo as pessoas de irem e virem, de trabalharem, de buscarem o sustento dos seus, enquanto estavam seguros em seus gabinetes acarpetados sem que nada lhes faltasse. Os governantes que temos, em sua maioria socialistas e progressistas, não estão sinceramente preocupados com a nação. Pelo menos não desse lado do Equador. Sua preocupação mor é manter-se em evidência no período certo com vistas à próxima eleição, para assim continuar com “Propriamente seu” em alto nível. Certa vez um senador achou de propor que todos aqueles que fossem eleitos matriculassem seus filhos em escola pública. Um delírio indiretamente remetido a Thomas Moore que, de tão onírico, talvez fosse a única saída para a nossa destruída, humilhada e fragmentada educação. Que tal se estendêssemos a ideia para outros setores? E se todos os políticos dependessem de defensores públicos para que seus processos tivessem seus andamentos acelerados? Será que teríamos tão poucos defensores públicos para um tão grande número de processos parados por falta de mão de obra disponível? E se nossas autoridades tivessem que usar a rede pública de saúde, o inefável SUS? Será que teríamos ou não hospitais equipados com o mínimo necessário para a realização dos exames mais básicos, remédios disponíveis e médicos de plantão? E esse é o problema. Um problema que mescla cultura com impunidade. Sem que saibamos exatamente quem veio primeiro, mas tendo certeza de que um complementa o outro. A ideia de que posso manipular a opinião pública para me manter no poder é facilmente alicerçada pela falta de conhecimento político-social de grande parte da população, originada na disfarçada – porém bem-sucedida – política de não deixar que a população tenha acesso a uma educação de qualidade. O que faz com que a população, ignorante de seus direitos ou poderes, por assim dizer, se mantenha alienada ao processo, satisfazendo-se com migalhas que lhe são atiradas do alto dos gabinetes acarpetados da Capital Federal. Ela – a massa – não se importa se a pessoa que ela colocou no poder não se preocupa com ela. E os que estão no poder sabem disso, e trabalham para que tudo continue assim. Atentar para o que é dos outros, segundo Paulo, está inserido no contexto do abrir mão de algo menor para um bem maior. No caso, segue o apóstolo, Jesus Cristo abre mão de sua realeza divina em prol de uma obra sem precedentes: a salvação da humanidade. Executado o intento, o sacrifício mostra-se redentor. Ele –Jesus Cristo – é revelado Senhor, e a ele toda honra é devida. Eis a questão. Quem vai se sacrificar por um bem maior se é mais fácil se fazer de cego e surdo? Isso só se torna possível a partir do momento em que temos no poder homens e mulheres tementes a Deus, embora essa afirmação soe anacrônica e retrógrada nos dias atuais. Não importa, a verdade só é um anacronismo em mentes cauterizadas que já se sentem confortável em chamar o erro de acerto. Líderes que reconhecem a autoridade divina acima de todos e não se envergonham em empunhar as bandeiras defendidas pela tradição judaico-cristã serão sempre a melhor opção para a manutenção da mensagem civilizatória do Ocidente. São "antídotos" contra as agendas diabólicas disseminadas pelo senso comum deturpado por incontáveis teorias destrutivas. Enfim, de modo geral, a ética do Evangelho não se aplica somente às autoridades constituídas. Ela aplica-se a todos os que aspiram viver uma sociedade civilizada. Em países desenvolvidos deixar as fezes do cachorro na calçada gera multa. E por quê? Porque alguém (o ‘outro’) pode passar e pisar. Se o dono do animal quiser deixar sua casa abarrotada de fezes de cachorro é problema dele, mas quando isso se torna um problema para o próximo, deve ter uma atitude civilizada. Civilização implica sociedade organizada, leis igualitárias, liberdade de expressão. Elementos que aos poucos estão sendo colocados em risco a cada dia em que o mundo fica mais moderno. Parece um paradoxo. E é. No final a Bíblia estava certa. Sempre esteve. Sempre estará. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. I N.º 10 edição de abril de 2022 – ISSN 2764-3867
- O que os EUA nos ensinam
Donald Trump toma posse no dia 20 de janeiro, como 47º Presidente dos Estados Unidos da América. Desde que venceu as últimas eleições, de forma histórica e acachapante, seu retorno tem gerado diversos efeitos pelo mundo e creio que continuará assim, até o fim de seu mandato. Trump venceu de Kamala Harris, com os EUA mergulhados em inflação e o mundo consumido por guerras, que trazem riscos enormes para toda a Humanidade. Outro desafio, para o presidente, serão as pautas identitárias e as ideologias, que tomaram o cenário global. Entretanto, ventos de mudança já começaram a soprar. No quesito guerras, há uma possibilidade real de pôr fim ao conflito entre Rússia e Ucrânia e houve a assinatura de um acordo de cessar fogo em Gaza, com libertação de reféns e permissão de entrada de ajuda humanitária no território palestino. Quando o tema são as políticas woke e suas consequências, que fizeram com que grandes empresas mudassem sua postura, regulando as redes sociais e produzindo conteúdo voltado para os grupos que reivindicam “igualdade”, Elon Musk, Mark Zuckeberg e Jeff Beezos tornaram-se aliados de Trump, modificando seus discursos e adotando medidas concretas em suas empresas, para deter o avanço desse discurso ideológico, sendo Musk nomeado como membro da administração, na gestão que inicia-se agora. Na economia, o dólar e a bolsa de valores alcançaram cotação recorde, demonstrando que o mercado financeiro confia em Trump e em suas políticas. Há promessas de redução da inflação e queda dos juros, melhorando a vida dos americanos e, consequentemente, impactando o resto do mundo. Há, também, a promessa de combate eficaz da criminalidade crescente e da imigração ilegal, que gera o ingresso de condenados por crimes e traficantes de drogas, além de membros de grupos terroristas, no território americano. E a renúncia de Justin Trudeau, após mergulhar o Canadá nas drogas e na violência, com suas políticas de extrema esquerda de liberação total das drogas e descriminalização do furto. Tudo isso aconteceu antes da posse, fazendo com que acreditemos que muitas outras transformações estão por vir. Mas é preciso compreender a que se deve sua capacidade de fazer a diferença. Donald Trump não é um super-homem, um semi Deus ou alguém capaz de fazer milagres. Contudo, trata-se de um empresário de sucesso, um homem de negócios com pulso firme e as ideias certas na cabeça, controlando a maior potência mundial e sem receio de enfrentar seus opositores. E o mundo precisa desesperadamente de alguém corajoso. Muitos detestam seu jeito arrogante, sua figura e seu linguajar. No entanto, não se pode negar que Trump é um daqueles jogadores que chegam para definir a partida, não se contentando em assistir do banco de reservas a vitória do seu adversário. Após a catastrófica gestão Biden, que encontra-se senil e deambulante, sem condições de resolver conflitos e tomar decisões arrojadas, ansiava-se justamente por uma presença forte e que cause impacto. Com o mundo à beira de uma guerra mundial e em um precipício de valores e princípios morais, Trump – que foi caluniado, difamado, sofreu tentativa de impeachment, condenações e dois atentados durante sua campanha – manteve-se firme em seu discurso e na exibição de suas virtudes e defeitos publicamente : não esconde quem é e quais são os seus propósitos. Isso faz toda a diferença, humanizando-o frente a seus eleitores. Debaixo de um frio enregelante, Washington espera por seu presidente, rezando para que sua presença possa ajudar o mundo a voltar para os trilhos novamente. Como diz o meu amigo Roberto Motta, na maior parte das vezes, o que se espera é simplesmente a defesa das “ ideias certas” . Go Trump! Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 50 – ISSN 2764-3867
- Inconfessáveis
No último filme da clássica trilogia O Poderoso Chefão (The Godfather), o protagonista, Michael Corleone, decide se confessar a um cardeal, embora tenha cometido diversos crimes, sua maior necessidade era pedir perdão pela morte de seu irmão Fredo, a que ordenou o assassinato, no filme anterior, após o falecimento da mãe de ambos. Michael sabia que não poderia fazê-lo enquanto sua mãe estivesse viva, contudo, tinha em mente que Fredo conspirou para sua morte e, por isso, considerava o fratricídio justificado e útil para mantê-lo no poder. Assim como fizera com o cunhado, Carlo Russo, responsável pela morte de Sonny, primogênito dos pais de Michael, o líder da família considerava que eliminá-lo era necessário, logo, assim que a sua mãe falecera, tratou de dar cabo à vida de Fredo, entretanto, por mais que Michael contasse com uma considerável lista de vítimas, algumas delas resultado de sua ação direta, ao considerar que Fredo era sangue de seu sangue, filho de seus pais, o chefe família mafiosa mais poderosa naquela obra ficcional, tinha a consciência de que se tratava de um pecado com um peso maior. Diante de um membro do clero que lhe inspirou confiança, posto que, o protagonista da trilogia percebeu naquele sacerdote alguém que realmente, guardava a fé, Michael decidiu confessar-se, em especial, por ter mandado que Fredo fosse assassinado. A ideia passada, ao menos para os que compreendem o Sacramento da Confissão ou Penitência, é que o mafioso, apesar de um criminoso frio e violento, não suportava conviver com a culpa pelo fratricídio. Para alguém acometido pelo relativismo moral, como é o caso dos revolucionários, é impossível compreender o significado da confissão, uma vez que, ao ser arregimentado entre as diversas hordas que marcham conforme o bumbo da elite revolucionária, far-se-á necessário renunciar à realidade, por isso, o mote mais usual entre tais grupos seja a falácia de que “a verdade é relativa”, sendo, portanto, condicionada pelo ponto de vista, logo, é preciso constatar que todo revolucionário é um relativista, posto que, buscando impor sua visão descolada da realidade, trata de, proposital, em se tratando dos líderes, ou por ignorância, quando nas camadas mais baixas, confundindo a realidade com o ponto de vista, tornando-se incapaz de assumir que espia os fatos pelo ângulo que melhor se adequar a sua intenta. Naquela máxima que um seis pode ser um nove, a depender do ângulo pelo qual observa, o relativista verá o número que lhe for mais conveniente, por isso, o apego às estatísticas que sirvam ao seu desejo, desprezando, despudoradamente, quaisquer outras que apontem algo que os contradigam. Para um revolucionário, a mentira será a alternativa ao arrependimento, transferindo a responsabilidade para outros indivíduos ou fatores fora de seu controle. A confissão tem como elementos essenciais o reconhecimento da culpa e o arrependimento pela transgressão, por isso, aquele que a faz precisa assumir sua fraqueza, seu erro, e buscar o perdão, não por uma conveniência social, mas pelo real arrependimento diante do mal que causara. Para alguém que acredita serem a moral e a fé voláteis conforme sua “consciência”, não há necessidade em admitir um erro e buscar o perdão, exceto se isso tiver o fim específico, como evitar a rejeição ou as consequências de seus atos, como aquela figura que, flagrada desviando, vai a público expor, através de um discurso nitidamente artificial, uma espécie de arrependimento, quando, nitidamente, busca conciliar-se com aqueles aos quais acredita podem o prejudicar. Na pele de Michael Corleone, um relativista simplesmente limitar-se-ia a culpar Fredo, que de fato conspirou para matar o irmão, evitando assim assumir a culpa ou suplicar pelo perdão do Cardeal. A degradação moral faz do arrependimento uma mera sinalização de virtude encenada, de maneira que a confissão, aos moldes do catolicismo, jamais faria sentido, pois, não goza do caráter publicitário de um pedido de desculpas em uma rede social. Ao sacerdote é vedado expor aquilo que se diz no âmbito da confissão, uma proibição acolhida mesmo no ordenamento jurídico pátrio que, ao menos por enquanto, garante àquele que se confessa o sigilo daquilo que é falado quando da confissão e protege o sacerdote contra arroubos autoritário que tentem o dissuadir a revelar algo que tomara ciência na qualidade de confessor. Permitir que qualquer que seja a autoridade tenha meios para constranger o sacerdote a expor o teor de uma confissão feriria de morte o sacramento, haja vista que, abalaria a relação de confiança entre o fiel e a Igreja, por isso, não se pode descartar que, sob a alegação do Estado laico, relegue-se a um status de insignificância os sacramentos, retirando tal proteção no âmbito do Direito pátrio. Imperiosos lembrar o sigilo também se aplica a profissionais como advogados e psicólogos, todavia, em que pese não sejam alcançados pelo argumento da laicidade estatal, podemos imaginar que um relativista poderia suprimir prerrogativas de advogados quanto ao sigilo, uma vez que, admitem outras tantas violações à categoria, bem como, aos psicólogos em nome da defesa de um “bem maior”, como no caso de perseguição dos profissionais que defendiam aquilo que apelidaram de “cura gay”, e, por final, temos os médicos, que foram abertamente perseguidos por se oporem às medidas transloucadas durante o episódio de experimento coletivo da pandemia recente, além daqueles que defenderam o chamado tratamento precoce ou alertaram para o risco irrestrito da tecnologia experimental denominada Terapia Gênica . Na prática, em se tratando de relativistas, figuras que lutam até mesmo contra a natureza, todo tipo de loucura pode ser o próximo passo, entretanto, considerando que violações das mais diversas são, na mente revolucionária, justificadas em busca do poder, esperar que destruam um sacramento em nome de sua doentia busca pela utopia é o mínimo que podemos fazer. Ao menos no ocidente, proteger a confissão, bem como, os profissionais supracitados, faz parte da confiança entre aquele que confessa e o que tem o dever de não divulgar aquilo conheceu em razão de seu ofício. O sacramento da confissão deve ser protegido e, aquilo que os revolucionários chamam de Estado laico é, na verdade, um Estado que busca destruir a religião basilar da sociedade ocidental, portanto, o cristianismo, com um foco especial no catolicismo. Por isso, qualquer declaração de ódio em relação aos cristãos é solenemente ignorada por autoridades que fingem que só algumas religiões podem ser protegidas, com o mesmo pretexto fajuto de quem busca, incessantemente, criminalizar o racismo de forma unilateral, tão somente para atiçar conflitos raciais e a ideia de que um determinado secto merece privilégios em troca de sua total vassalagem aos poderosos. Se, por um lado, o revolucionário despreza a Igreja Católica, jurando destruí-la ou se infiltrando para corroê-la, por outro, é incapaz de reconhecer a importância da confissão como autoexame da própria natureza falha do homem e, por conseguinte, a busca pelo perdão e fortalecimento através da penitência, aprendendo com os erros para tornar-se um indivíduo cada vez mais virtuoso. Despido de honradez e humildade, o relativista acredita que sempre poderá se furtar das consequências de suas ações, por mais nefastas que sejam. Não há como esperar que indivíduos que pregam abertamente a destruição de todos que se colocam como obstáculo ao seu desejo totalitário faça uma honesta análise de consciência, algo que aparentemente não possui, para assumir que errou e busque o sincero arrependimento. Um líder socialista jamais importar-se-á com terceiros, podendo exterminar quantas vidas forem necessárias para obter aquilo que almeja, entretanto, uma vez pressionado, poderá simular arrependimento ou, como na maioria dos casos, transferir a responsabilidade a terceiros. Como fizeram com o nacional-socialismo alemão e o fascismo, que, por mais que todos os elementos os enquadrassem no espectro coletivista, foram rapidamente transferidos à vertente política oposta, sendo tratado como forças ligadas ao liberalismo e ao conservadorismo, apenas para que sua má fama fosse transferida, de forma injustificada, àquilo que é conhecido no campo político como direita. Posteriormente, a ditadura chavista que consome a Venezuela foi igualmente adjetivada como sendo do espectro da direita, o que só não foi um movimento exitoso em razão da descentralização da informação propiciada pela internet, algo que os relativistas lutam para destruir, bem como, a cultura “woke” foi tratada em um artigo isolado, mas que serve de ensaio para propostas futuras, como algo embrionado na direita, uma narrativa rapidamente derrubada por, mais uma vez, mérito da informação descentralizada. É praticamente impossível imaginar quantas atrocidades os revolucionários encobriram antes do advento da internet, lembrando que, tais figuras abjetas negam o Holodomor com todas as forças. A negação tem duas razões em especial e a primeira, como podemos facilmente imaginar, é a ausência de arrependimento por parte daqueles que consideram a moral como relativa e a segunda, a incapacidade de assumir seus erros e enfrentar as consequências deles, buscando, para se eximir das responsabilidades, negar ou omitir suas falhas ou torpeza, o que, de fato, é inútil, dado que a realidade, cedo ou tarde, batera à porta. Quando confrontado pela verdade, restará ao revolucionário o suicídio, a negação ou o sacrifício da parte que considere menos essencial, entretanto, nuca confessará seus crimes, pois o arrependimento não é uma qualidade do psicopata ou daqueles que o seguem, por isso, a moral do relativista é nula, haja vista que, precisa conduzir seus seguidores ao abismo se necessário ou, quando nas camadas inferiores, jurar vassalagem doentia em troca de migalhas. Um membro do Tribunal do Povo Alemão ou oficial de alta patente da Schutzstaffel poderia seguir o destino do Führer, insistir que fizeram um bem a humanidade em sua busca pela raça ariana ou, simplesmente, apontar parte do grupo como um “boi de piranha”, que se sacrifica pelos demais, para se furtar das consequências de seus atos, porém, não confessariam seus crimes atrozes salvo se isso fosse o meio ofertado para escapar de uma punição mais grave. Não se pode esperar menos de todos os líderes tiranos que hoje ocupam posições de poder, mas temem, um dia, serem confrontados e responsabilizados pelos males que causam. O exemplo da ditadura venezuelana, que insiste em se manter apesar da flagrante derrota no processo eleitoral, uma vez que lá é possível auditar os votos individualmente, evidencia que o revolucionário se apega ao poder, justamente, para não enfrentar as consequências de suas ações, negando abertamente sua perda de legitimidade, se é que em algum momento foi legitimo, para garantir sua impunidade. Maduro, sabendo ser um tirano fora de controle, se mantém no poder pela força para não ser responsabilizado pelos males que causara, esperando morrer na cadeira do Miraflores, como seu antecessor, Hugo Chavez, fizera. Por não acreditar em algo maior, uma justiça divina ou o dever de fazer algo pelo próximo, Maduro almeja o destino de déspotas que morreram no poder, como Lenin, Stalin, Mao, Fidel e outros tantos seres que jamais se confessariam, por serem orgulhosos demais para submeterem-se a Deus. Adolf Hitler preferiu o suicídio diante da condenação e, no Brasil, temos o exemplo de Getúlio Vargas, que também preferiu a condenação eterna daquele que não se arrepende, alegando que deixava a vida para entrar para a história, quando na verdade, tentava encobrir sua natureza pútrida com um ato que imitava o martírio. Igualmente, os revolucionários que hoje ocupam tronos dos mais diversos, como o próprio Maduro e o ditador nicaraguense Ortega, insistem em negar sua culpa, posto que, nada mais são do que líderes desprovidos de consciência, dispostos a solapar qualquer um que os desafiem ou, simplesmente, os incomodem. No recente episódio de arroubos totalitários durante a pandemia sanitária, diversos exemplos de abusos poderiam ser citados, entretanto, seus artífices buscam, de todos os meios, evitar a responsabilização pelos males que causaram, não confessando que aplicaram medidas descabidas, como soldar portas de empreendimentos comerciais, lacrar gondolas de supermercado e até toques de recolher, sem quaisquer justificativas, posto que, restará nítido o dever de reparar os prejuízos que causaram. Houve ainda aqueles que lutaram contra o chamado tratamento precoce, perseguindo qualquer um que ousasse pregar em defesa de tais medicamentos, mesmo em se tratando de profissionais da saúde, todavia, negam abertamente qualquer responsabilidade. “O choro é livre”, tornou-se um “fique em casa se puder”, sem o menor pudor e a mídia, que fazia contagem de mortos e coordenava notícias em um verdadeiro cartel, o qual apelidou como consórcio de imprensa, como de costume, lavou as mão em relação aos seus feitos e não assume o mal que causara, algo que também se aplica as chamadas “bigtechs”, como os grupos Meta e Google, que, abertamente, atuaram no sentido de suprimir ou reduzir o alcance de qualquer voz dissonante daquela orquestrada cartel de imprensa internacional. Em alguns países, os de maior tradição democrática, já estão em curso processos e investigações que visão responsabilizar aqueles que, de alguma forma, agiram de má-fé no período, entretanto, os povos sob o comando de déspotas totalitários ainda sofrem calados as ações dos mesmos tiranos daquela época, em alguns casos, ainda se exige a administração compulsória da terapia gênica para crianças, tão somente para manter a narrativa de que tal experimento era ou é necessário. O intuito central daqueles que insistem em um experimento que se mostrou desastroso, seja pelos diversos casos de efeitos colaterais devastadores ou pela necessidade em doses subsequentes não previstas, parece ser, não a busca pela imunização, mas a preservação das autoridades que insistem em não confessar as atrocidades que conscientemente, ou não, colocaram em prática. Outra forma de não confessar suas ações é a judicialização da política, em que grupos menores passam a governar em uma espécie de sociedade com o Poder Judiciário, que por não se colocar ao escrutínio do povo, não sofre consequências de suas decisões, ao menos diretamente, podendo assim, tocar os rumos da política ao seu bel prazer sem que sofra um revés nas urnas. Usando de uma hermenêutica ilimitada, o Poder Judiciário pode ser invocado a assumir qualquer face do Estado, pois, se atuar despudoradamente, poderá se imiscuir em quaisquer assuntos alegando ser em nome de um bem maior. Ainda mais grave seria, em raros casos de hipertrófica do Judiciário, tal poder atuar mesmo sem a provocação de interessados, dando início de ofício a feitos com consequências, que solapam os demais poderes e que jamais serão postos no confessionário, pois em alguns ambientes, como tribunais e redações de jornais, parece que o arrependimento não é algo natural. Há sim os seres que adulam tiranos, que, mesmo nos dias atuais, não se importam em servir como cães farejadores de poderosos totalitários, se rebaixando de maneira desprezível em troca de migalhas, tais criaturas são ainda mais miseráveis que seus senhores e negaram seus atos quando confrontados, por isso, tentarão omitir seus crimes, confessando-os tão somente se exposto e, ainda assim, o farão apenas em busca do perdão terreno, não se arrependendo verdadeiramente. Os vassalos do mal serão vermes mesmo no inferno. Aos líderes revolucionários, resta uma luta infrutífera contra a realidade buscando apenas se encastelar como forma de proteção, não contra seus inimigos, mas em relação às consequências de seus próprios atos, pois seus crimes são inconfessáveis. “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (São João 20:23). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 49 – Edição de Dezembro de 2024 - ISSN 2764-3867











