A tradição Judaico-cristã
- Neto Curvina
- 3 de jul. de 2025
- 10 min de leitura
Uma ofensa

“Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos Judeus” (João 4:22, ACF).
Em sua última revelação, nosso Senhor Jesus Cristo mostra a João, o apóstolo amado (João 13:23; 21:20), exilado na Ilha de Patmos (Apocalipse 1:9), tudo aquilo que ia acontecer nos últimos dias, e que ficou registrado no último livro das Sagradas Escrituras, o Apocalipse. Dá-se o nome de “escatologia” ao ramo da teologia que se ocupa do estudo das “últimas coisas”, e que tem como principal – mas não única – fonte exatamente este livro, que estudado em conjunto com outras passagens proféticas, em especial nos livros de Daniel, Ezequiel, Zacarias e nos Evangelhos, nos fornece informações importantes sobre o destino da humanidade. Mas tudo isso só faz sentido ao que crê. E que crê nas Escrituras como sendo aquilo que elas dizem ser: a Palavra de Deus, revelada, perfeita e incontestável. Tudo isso, a priori, soa de certa forma como uma obviedade aos ouvidos cristãos, mas na verdade tudo isso está sendo posto em dúvida, não pelos ateus, não pelos agnósticos, não pelos budistas e nem pelos muçulmanos. Aquilo que deveria se apresentar como algo naturalmente aceito pelos cristãos, na verdade está sendo colocado em cheque pela própria cristandade.
Antes, porém, de discorrermos acerca de profecias ancestrais, é necessário, preliminarmente, por alguns “pingos nos is”. O que também só fará sentido se você for cristão.
Em primeiro lugar, quando a cristandade se refere a Deus, a que Deus está se referindo? De quem se trata? Como ela chegou ao seu conhecimento? As informações que julga ter dele foram retiradas de que fonte? Esses questionamentos revelam uma realidade absolutamente contraditória em termos de fé cristã. Tão contraditória que chega a beirar a insanidade. O que queremos dizer é que ninguém, em parte alguma do mundo, faria ideia da existência de Deus e de seu plano redentor se as Escrituras não tivessem chegado até nós. Ou seja, o livro que muitos cristãos contestam e questionam, a partir de uma teologia crítica falida, é a única fonte confiável que lhes informar que um dia Deus enviou seu Filho ao mundo para morrer em nosso lugar. Quando alguém diz “Acredito em Deus, mas não na Bíblia” talvez não faça ideia do absurdo que acabou de dizer. É uma simples questão de lógica. Pois bem. Quando nos debruçamos sobre as Sagradas Escrituras, nossa percepção cristã nos ensina que Yeshua, o Unigênito do Pai (João 3:16), é o personagem central das Escrituras, desde o primeiro livro, onde é apresentado como o “descendente da mulher” (Gênesis 3:15), passando por todos os demais livros ate chegar ao último, onde ele conduz todas as ações pessoalmente. E é a partir deste personagem principal, de sua ótica, que devemos entender o plano de Deus, e não através dos nossos próprios olhos, conclusões ou opiniões, e nem da de filósofos gregos ou pensadores escolásticos. Quem define o padrão exegético das Escrituras é o filho de Deus, como todas as suas cristofanias. Um padrão que se torna ainda mais radical se entendermos os mistérios contidos em João 1:1, “No princípio era o Verbo (Logos/Palavra), e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Mais adiante quando, no mesmo contexto, o apóstolo diz que “O Verbo se fez carne” (João 1:14), ele reconhece que Jesus e a sua Palavra são uma coisa só, e esta coisa é a manifestação visível de Deus (Colosensses 1:15). Poucos teólogos conseguiram captar esse mistério como Agostinho, que diz “Mas pôde ocorrer que a Escritura, sem dar a perceber, tenha passado de pessoa para pessoa e ao narrar que o Pai disse: Faça-se a luz e as demais coisas que afirma terem sido feitas pelo Verbo, esteja indicando que o Filho é quem falou ao primeiro homem, embora não dê explicações claras, mas o insinue aos capazes de entender” (Agostinho. A Trindade. Paulus. 2014).
Mas quem é esse Jesus, que ao mesmo tempo é o Verbo e o filho de um carpinteiro da Galileia?
Esse Jesus é, sobretudo, um judeu. Um homem que nasceu como judeu e em nenhum momento de sua vida terrena renegou os princípios de fé que aprendeu de seus pais. E seu Pai celestial, que o enviou a terra para morrer no lugar dos eleitos, não é outro senão o Deus de Israel, porque se assim não for, tudo aquilo que foi registrado nas páginas do Novo Testamento perdem, consequentemente a sua legitimidade. Ou seja, o Deus que os cristãos afirmam adorar ou, ainda, as Escrituras em que eles afirmam crer, e mais, a tradição que eles juram defender, é de origem judaico-cristã. Porque ou ela é judaico-cristã, ou não é nada. E é aqui, nesse ponto crítico, que queremos alertar a cristandade.
Desde a morte de Cristo, pelas mãos dos fariseus em conluio com o Império Romano, representado na ocasião por Pilatos, que forças ocultas vêm se apoderando da narrativa para causar uma ruptura espiritual que, se concretizada, lançará o mundo nos capítulos finais do Apocalipse. E aqui me refiro a uma ruptura que nunca, em momento algum, foi a aspiração da doutrina cristã pautada das Escrituras, em especial nos Evangelhos e nas Cartas de Paulo; a ruptura entre Israel e a Igreja de Yeshua. Essas forças se empenham, geração após geração para desconstruir o conceito de uma tradição “judaico-cristã”, usando falácias historicamente desonestas, como, por exemplo, jogar todos os que professam a fé cristã contra os judeus, acusando-os de terem matado o Messias. Essa construção gerou, aos poucos, os alicerces de todo o antissemitismo que existe no mundo, que acabou se sofisticando cada vez mais, criando novos espantalhos, contaminando a Reforma Protestante e, por tabela, o pensamento cristão europeu dos séculos seguintes, que desembocou no holocausto, até chegarmos na duas últimas estocadas oriundas desse engano milenar: a deturpação do termo “sionismo” e o divulgação de uma obra apócrifa chamada “Os Protocolos dos Sábios de Sião”. No primeiro caso, transformaram uma luta legítima de um povo que tudo o que queria é retornar ao seu lar e reconstruir sua pátria, em uma teoria da conspiração estapafúrdia, onde, de uma hora para outra, um povo que foi desterrado seguidamente, século após século, nação após nação, sendo espoliado de seus bens a cada desterro, estaria se preparando para dominar o mundo. Uma ideia ao mesmo tempo tão patética quanto satânica, capaz de encontrar abrigo somente em mentes tão patéticas e satânicas quanto, como, por exemplo, de um Adolf Hitler. Escreve o maníaco: “Surgiu entre eles um grande movimento de vasta repercussão em Viena que muito concorreu para um juízo seguro sobre o caráter racial dos judeus. Esse movimento foi o sionismo” (Adolf Hitler. Mein Kampf. Best Seller. Sem informação de data). Todas as vezes que vejo um militante antissemita arrotando “sionismo”, sem fazer ideia do que se trata o tema, as imagens de campos de concentração me vêm à mente. É a ignorância que gera a barbárie. E as nossas universidades estão cheias desses malucos.
“Os Protocolos dos Sábios de Sião” foram feitos e publicados por encomenda. Até hoje não há um consenso sobre a sua origem. O pouco que sabe é que sua primeira publicação “oficial” se deu em 1903, na Rússia (é claro, afinal, foram eles quem os encomendaram, os reis da desinformação), mais especificamente em um jornal de São Petersburgo, o “Znamia” (bandeira), de propriedade de Pavel Krushevan, um notório antissemita. Um material claramente encomendado com a marca soviética: reuniões que nunca ocorreram e atas que nunca existiram. Os nazistas amaram o material (e ainda há quem defenda que eram de direita) produzido pelos socialistas russos. Aqui, como no caso do sionismo, a mesma balela infame: os judeus estão conspirando para dominar o mundo. Foi só a Alemanha entrar em crise e, como num passe de mágica, Hitler encontrou seu “bode expiatório”, uma expressão ironicamente retirada da Torá.
Há quem pense, de forma ingênua, que todo esse sentimento antissemita seja exclusividade da Eurásia do século XIX para cá. A história mostra que o mundo persegue os hebreus desde que Deus chamou Abraão para iniciar sua jornada que desembocaria em Jesus. É curioso constatar que as pessoas que acreditam em lixos narrativos como o “sionismo” enviesado dos globalistas e nas sandices dos “Protocolos”, se assumam “cristãos” e não percebam o componente espiritual latente que envolve esse embate. Elas não percebem que ser antissemita é também ser anticristão, e que se afastar da tradição judaico-cristã é se afastar do próprio Cristo. E são essas conclusões que o sistema tem tentado destruir usando todo o seu arsenal dialético, porque ele sabe que o cristianismo desprovido de suas raízes e alicerces, é um cristianismo caricato.
“A salvação vem dos judeus”
Quando Yeshua diz essa frase (João 4:22), ele está resumindo todo o arcabouço do plano divino que, por sua vez, é delineado por Paulo em sua Epístola aos Romanos. E em Efésios 2:14, o apóstolo ratifica que ele “De dois povos fez um”. Ou seja, o projeto verdadeiramente cristão nunca foi separar Israel da Igreja, faz fazer de ambos uma coisa só. Essa é a determinação que há nas Escrituras. Mas algo deu errado no meio do caminho. Forças poderosas, aquelas que operam desde a queda, e que quem é cristão sabe que existem, cuidaram em fazer com que a coisa toda seguisse por caminhos completamente enviesados, disseminando falácias no meio da cristandade, especialmente a partir do século IV, de modo que os judeus, como um povo, e não somente a elite religiosa da época, levasse sobre si toda a culpa pela morte do Messias. Um discurso de contornos malignos, antibíblico e, por conseguinte, anticristão, afinal, também eram judeus os pais de Yeshua, seus irmãos, seus discípulos, mais de cem pessoas que estavam congregando no cenáculo e depois as milhares que se converteram no dia de Pentecoste. O interessante é que nem mesmo um dos segmentos mais odiosos que se valeram dessa falácia, o nazismo, transferiu sua culpa para uma nação inteira. Você não vê as pessoas dizendo “Os alemães fizeram o holocausto!”, mas sim “Os nazistas fizeram o holocausto!”. Ou seja, quando é cômodo, isenta-se uma nação, quando não, generaliza-se.
Nos últimos séculos, algo ainda mais sinistro vem surgindo no underground da cristandade, um tipo de “antissemitismo compartilhado”, gerado por uma pseudoteologia que atende pelo nome de “teologia da substituição”, compartilhada por vários segmentos cristãos, de romanos a reformados, passando até por círculos (neo)pentecostais. Segundo essa teologia, a igreja cristã teria substituído Israel no coração e nos planos de Deus, deixando a nação escolhida em segundo plano e, em muitos casos, alijada das promessas e dos pactos dos últimos dias, tornando o Antigo Testamento uma coisa quase obsoleta. E a partir daí começou um ataque à tradição “judaico-cristã” como nunca se viu, e de forma surpreendente, como já falamos, não vindo de fora dos círculos cristãos, mas de dentro. De um lado, diagnosticam que essa expressão não passa de um anacronismo e, portanto, inadequado, que a tradição “judaico-cristã” não faz mais sentido. Acoplam a ela a falácia batida e requentada de que o “Israel Bíblico” não existe mais. O que é constrangedor, é que quem usa esse argumento sabe que ele não é verdade, mas precisa manter a narrativa. E do outro lado, uma acusação ainda mais pesada, e que a cada dia ganha mais espaço e corpo nas cercanias cristãs paroquianas, que hostiliza Israel de forma cada vez mais ostensiva, usando os mesmos argumentos que levaram ao holocausto, só que dessa vez direcionados com uma suposta roupagem teológica. Eles falam que o judaísmo é o veneno sionista que infectou o cristianismo e, como tal, deve ser combatido.
Ou a tradição é judaico-cristã, ou não é nada
O fato é que, seja do ponto de vista histórico, ou do teológico, é impossível separar judaísmo de cristianismo, ao mesmo tempo em que é impossível haver uma separação entre o Jesus judeu e o Jesus cristão. E isso é tão óbvio que pode ser exposto sem muita dificuldade, mesmo para progressistas e globalistas travestidos de cristãos.
Em primeiro lugar, a origem e identificação do Messias. Cristo é o “filho de Davi”. Ou ele tem essa linhagem ou não pode ser o Messias. Todos os aspectos relacionados à sua divindade precisam ser legitimados pelo Antigo Testamento. Desde a tribo à qual pertenceria (Gênesis 49:10) e o nascimento virginal (Isaías 7:14) em Belém da Judeia (Miquéias 5:2), além de muitos outros aspectos proféticos referentes ao seu ministério. Ou seja, não há Messias sem que antes haja um Antigo Testamento judeu para o legitimar. Isso não existe. Isso é mais contraditório do que afirmar que a terra é plana.
Em segundo lugar, a sua mensagem. Todas as vezes em que Yeshua se referiu aos seus mandamentos, ele estava se referindo ao Antigo Testamento judeu. Inclusive, em seu primeiro embate com Satanás, no deserto (Mateus 4 e Lucas 4), tudo o que ele fez foi lançar mão da fórmula “está escrito”, enquanto fazia referência a três passagens da Torá. Em nenhum momento ele dá a entender que o Antigo Testamento caducou ou perdeu sua importância, muito pelo contrário, ele constantemente reafirmava muitos ensinamentos contidos na Torá, pregando aos judeus em suas sinagogas. Os Evangelhos, bem como as Cartas, estão impregnados de textos da Antiga Aliança. Como assim a expressão “judaico-cristã” aponta para anacronismo ou sionismo deturpado? O que as pessoas estão consumindo para chegarem a conclusões trôpegas como essas?
Em terceiro lugar, a escatologia. É impossível entender qualquer coisa de cunho profético sem lançar mão de textos do Antigo Testamento. O próprio Cristo em seus discursos escatológicos fazia menção a eles (Mateus 24:15). O livro de Apocalipse é uma continuação das visões de Daniel, Zacarias, Ezequiel e Isaías. Ou a escatologia é judaico-cristã ou é simplesmente não existe, não se encontra, não faz sentido.
Até pouco tempo atrás era consenso que o Ocidente havia sido erguido sobre os alicerces da tradição judaico-cristã, mas aí o antissemitismo velado, travestido de teologia, começou a se ramificar pelo submundo da cristandade, e o que era somente uma sugestão hoje é admitido de forma clara e para que todos vejam. Os “cristãos” estão renegando a ideia de uma tradição “judaico-cristã” porque, segundo eles, ela remete a um plano sionista para submeter a igreja de Cristo, ao mesmo tempo em que arreganham os dentes para os piores inimigos de Israel (e da humanidade), oferecendo-lhes guarita, em um movimento chamado “Crislã”, que até ontem era só mais uma teoria da conspiração, mas que hoje já é uma realidade com péssimas perspectivas.
A “tradição judaico-cristã” é uma ofensa para o mundo pós-moderno. Ela é o último resquício da revelação divina completa que ainda temos como bússola para as nossas almas. É algo reconhecido por mentes brilhantes, como Leibniz, que discorre sobre ela no prefácio de “Teodiceia”. Ou como Roger Scruton, que a cita textualmente em seus livros (Roger Scruton. Como ser um Conservador. Record. 2019.). E ainda o magistral Jordan Peterson, que faz uso da expressão em profusão no espetacular “Mapas do Significado”. E poderíamos incluir C S Lewis, Leo Strauss, Weber… seriam esses homens conspiradores sionistas pagos pelos Rothschild? Fariam eles parte de um plano sombrio para controlar a humanidade a partir de um pedaço de terra menor do que o Estado do Sergipe, sem petróleo, grandes reservas de água, metais preciosos ou gás natural, coberto boa parte por um deserto? Façam-me o favor. Ou o que nós chamamos de tradição é judaico-cristã, ou não é nada.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. IV N.º 55 edição de de 2025 – ISSN 2764-3867





















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