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Estudando o Fascismo

  • 14 de mai.
  • 5 min de leitura

Parte 1 – A origem

Estudando o Fascismo

O famoso escritor George Orwell escreveu um ensaio denominado “O que é fascismo?”, em 1944, que foi publicado no periódico Tribune, de Londres. Naquele tempo, o regime estava em processo de queda, com seu total declínio ocorrendo em 1945.

Neste ensaio, Orwell não se habilita a responder seu próprio questionamento, mas expôr uma problemática que se instalou em seus dias: rotular qualquer opositor de fascista. O autor descreve alguns dos grupos que recebem o rótulo: conservadores, socialistas, comunistas, trotskistas, católicos, nacionalistas, apoiadores e opositores à segunda guerra.

Ao final, Orwell conclui que “será constatado que, da forma que é empregada, a palavra ‘fascismo’ é quase desprovida de significado”. Ou seja, esvaziada de seu sentido real, o termo tornou-se equiparado a um insulto qualquer, tal como “troglodita” – esta comparação, inclusive, foi feita pelo próprio autor em seu artigo.

A problemática exposta por Owell, infelizmente, perdura até os nossos dias. Talvez até mesmo o leitor há tenha sido alvo de ataques deste jaez por alguém de ideologia diferente da sua, principalmente em ano eleitoral, como o que estamos.

Tal qual fez Orwell, não pretendo esboçar uma tese de mestrado sobre o tema. Primeiro porque esta não é a minha pretensão; segundo porque não conseguiria fazê-lo em dois ou três artigos. Vislumbro sim, descortinar a verdade sobre o regime, de forma simples e direta, mostrando ao leitor que nenhum dos grupos mencionados por Orwell em seu artigo são fascistas – aliás, nem ele próprio os considerava. E mais: provar que o fascismo não é de direita.

O ano era 1919. A Itália, embora saísse vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, passou por uma grave crise com agitação social conhecida como "Biênio Vermelho" (greves e ocupações). O país saiu do conflito com sua economia arruinada e enfrentando uma profunda crise social e política. Embora tenha lutado ao lado dos vencedores (Tríplice Entente), sofreu consequências devastadoras devido ao alto custo do conflito, o que gerou um sentimento de insatisfação popular conhecido como "vitória mutilada”. Além disso, não recebeu todos os territórios prometidos no Tratado de Londres.

Neste cenário surge Benito Amilcare Andrea Mussolini. Seu nome foi escolhido pelo seu pai, que queria homenagear Benito Juárez, líder revolucionário e ex-presidente do México, enquanto seus outros nomes, Amilcare e Andrea, eram dos socialistas italianos Amilcare Cipriani e Andrea Costa, o último fundador do Partido Socialista Revolucionário da Romagna.

Não entraremos em detalhes de sua infância, mas é importante citar que o pai de Mussolini era socialista e um dos principais responsáveis por influenciar fortemente suas ideias políticas ainda na infância, as quais seriam aplicadas posteriormente.

Mais tarde, essas influências ganharam robustez quando ele fugiu para a Suíça, em 1902, com a intenção de não cumprir o serviço militar. Lá, conheceu as obras de Friedrich Nietzsche, o sociólogo Vilfredo Pareto, e o sindicalista revolucionário Georges Sorel, sobre quem Mussolini declarou: "O que eu sou, eu devo à Sorel”. Além destes, era ferrenho entusiasta de Friedrich Engels e Karl Marx, sendo considerado um intelectual.

Mais tarde viria a creditar o marxista Charles Péguy e o sindicalista Hubert Lagardelle como algumas de suas influências. A ênfase de Sorel sobre a necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, ação direta, greve geral, e o uso do neo-maquiavelismo apelando à emoção o impressionou demasiadamente. No período, juntou-se a pedreiros e trabalhadores sindicais, dos quais mais tarde se tornou secretário da união dos trabalhadores italianos em Lausanne, e em 2 de agosto de 1902 publicou seu primeiro artigo no L'Avvenire del Lavoratore, o jornal dos socialistas suíços.

Na Suíça, Mussolini se declarou ateu. Chegou a desafiar a Deus para provar sua existência e considerou Nosso Senhor Jesus Cristo como ignorante e louco, chamando a religião de uma forma de doença mental que merecia tratamento psiquiátrico e acusou o cristianismo de promover resignação e covardia. Inclusive, seu primeiro livro é uma espécie de tratado ateísta, intitulado “Homem e divindade: Deus não existe”.

Em seu retorno à Itália, Mussolini obteve licença para lecionar. Como jornalista, tornou-se colunista do panfleto socialista La Lima. Nele, tecia severas críticas ao governo e especialmente ao cristianismo. No mesmo período, participou de manifestações e liderou algumas greves e chegou a ser preso.

Em 1909, Mussolini mudou-se para Trento, que à época, era controlado pelo Império Áustro-Húngaro, para assumir o cargo de secretário do partido trabalhista da cidade, além de também ter atuado no partido socialista local, onde trabalhou na edição do jornal L'Avvenire del Lavoratore.

Em setembro daquele ano, Mussolini foi preso acusado de incitar rebelião contra o império e, posteriormente, foi expulso, retornando à Itália. Este episódio repercutiu no país e ajudou a elevar sua popularidade entre os progressistas.

Em 1910, foi escolhido como secretário da Federação Socialista de Forlì, e em 1912, foi promovido a editor do jornal do Partido Socialista. Sob sua liderança, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 mil para 100 mil exemplares obtendo admiração até mesmo de Antonio Gramsci.

Mais uma vez, não entraremos em detalhes da vida pessoal de Mussolini. Contudo, creio ser importante sinalizar que ele, segundo seu mordomo, Quinto Navarra, teve em torno de sete mil amantes.

O início do que conhecemos como fascismo se deu em 1914, quando Mussolini, por meio do Partido Socialista, declarou neutralidade na guerra. Para ele, o confronto não traria benefícios para o povo italiano. Contudo, foi influenciado a mudar de opinião, principalmente por pensar que os socialistas alemães haviam traído a Segunda Internacional, já que eles que levantaram "a bandeira da Internacional Socialista foram os primeiros a jogá-la na lama" após seu apoio à entrada da Alemanha. Para Mussolini, a guerra serviria para a derrubada das monarquias Hohenzollern e Habsburgo, que, segundo ele, sufocavam o socialismo.

Porém, a linha adotada por Mussolini não agradou os membros do partido. Para ele, as organizações socialistas deveriam ter apoiado a guerra entre as nações, com a consequente distribuição de armas ao povo, e depois transformado em uma revolução armada contra o poder burguês. Isso foi registrado no manifesto Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista, publicado em outubro daquele ano. Em novembro, foi expulso do partido.

Em 1915, fundou o Partido Revolucionário Fascista, que se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Diversos confrontos ocorreram entre os grupos.

Em 1919, iniciou-se o Biênio Vermelho, período de dois anos de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Em 6 de junho do mesmo ano, foi publicado oficialmente o Manifesto dei Fasci italiani di combattimento, comumente conhecido como Manifesto Fascista. O documento foi publicado no Il Popolo d’Italia, jornal fundado por Mussolini, e trazia exigências em tópicos que abrangiam a situação política, social, militar e financeira do país naquela ocasião. Alguns deles eram:

- abolição do senado

- entrega às organizações proletárias da gestão de serviços públicos

- imposto extraordinário progressivo sobre o capitalismo

- confisco de todos os bens das congregações religiosas e abolição das rendas episcopais

Todos os itens foram retirados ipsis literis do Manifesto Comunista, escrito por Marx.

Em 9 de outubro, o Primeiro Congresso Fascista foi realizado em Florença, onde foi decidido concorrer às próximas eleições políticas sem aderir a nenhuma aliança. Os fascistas, liderados por Mussolini, propuseram um programa "decididamente esquerdista" e anticlerical.

Mussolini saiu derrotado de sua primeira eleição, em 1919. Os socialistas obtiveram quarenta vezes mais votos, e em sua cidade natal, ele não obteve sequer um único voto. Então, mudou a estratégia. Obtendo um discurso mais moderado, ele conseguiu financiamento para o Segundo Congresso Fascista de empresários do setor da indústria.

Em 1921, Mussolini aceitou o pedido de Giovanni Giolitti para ingressar no “Bloco Nacional”, um grande bloco de esquerda que incluía o Partido Social-democrata Italiano, a Associação Nacionalista Italiana e o Partido Liberal Italiano. A atitude trouxe resultados: nas eleições gerais da Itália em 15 de maio de 1921, os fascistas conquistaram 35 cadeiras no parlamento italiano, incluindo o próprio Mussolini.

Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Mussolini tomou o poder.

Continua…

  


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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867

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