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Um chamado à reflexão

  • há 5 minutos
  • 9 min de leitura

Quando aceitamos a missão de escrever para um público, algo em nós muda. Nosso olhar, antes disperso, passa a orbitar essa responsabilidade. Cada conversa, cada notícia, cada gesto cotidiano se transforma em matéria-prima. Desde o primeiro dia após a entrega do artigo anterior, já estamos pensando no próximo — buscando uma reflexão atual, honesta e necessária sobre a sociedade.

Dito isso, preciso admitir: este artigo nasce do esforço de digerir situações da sociedade brasileira que, à primeira vista, parecem indigeríveis. É, sem sombra de dúvidas, o texto mais difícil que escrevi até agora. Talvez porque toque em dois temas que se entrelaçam de forma dolorosa e profunda: o poder da maldade humana — assunto que já abordei quando tratei do narcisismo presente na sociedade e, infelizmente, também dentro da igreja — e o bem mais valioso que uma sociedade pode ter: a família.


Madrugada de 12 de fevereiro

Itumbiara ainda dormia quando uma tragédia começou a se desenrolar dentro da casa do secretário de Governo, Thales Naves Alves Machado. No silêncio da noite, ele atirou contra os próprios filhos. Miguel, o mais velho, morreu na hora. Benício, de oito anos, ainda resistiu até o dia seguinte, mas não sobreviveu.

A notícia abalou o município. Thales era figura conhecida na administração e genro do prefeito Dione Araújo. A Prefeitura decretou luto oficial e suspendeu o expediente. Enquanto isso, a polícia tentava entender o que havia acontecido dentro daquele lar.

Horas antes do crime, uma carta foi publicada no perfil de Thales — depois apagada — mencionando crise conjugal, possível traição e pedidos de perdão. Pessoas próximas confirmaram a autenticidade do texto. Para muitos, parecia um desabafo; para outros, um prenúncio.

O caso ganhou repercussão estadual. Autoridades se manifestaram, destacando o impacto de uma violência que rompe o espaço mais íntimo e sagrado: a família.

O detalhe mais perturbador veio das redes sociais. Dias antes, Thales publicara um vídeo afirmando que “a família é o mais importante da vida”. Um dia antes da tragédia, postou uma imagem ao lado da esposa e dos filhos — uma cena idealizada que contrastava com o desfecho brutal.

Quando o dia amanheceu, o caso já não pertencia mais apenas à cidade de Itumbiara. Em poucas horas, havia atravessado o estado e se espalhado pelo país. O que começou como uma tragédia familiar transformou-se em pauta nacional, combustível para debates, análises, julgamentos e teorias que se multiplicavam em velocidade de avalanche.

Nas redes sociais - esse grande tribunal sem rosto - a tragédia virou combustível para um turbilhão de opiniões. Em poucos minutos, a internet se transformou em um tribunal caótico, onde cada um parecia ter uma explicação, um culpado, uma teoria definitiva.

Psicólogos, terapeutas, influenciadores, comentaristas de plantão e perfis anônimos se revezavam para tentar decifrar o que havia acontecido. Cada um com sua versão, sua leitura, sua sentença.

E foi aí que a tragédia ganhou novas camadas. Não bastava a dor real, concreta, irreversível. Agora surgia também a dor fabricada, opinada, distorcida.

Cada frase era uma facada simbólica, um reflexo da incapacidade coletiva de lidar com o horror.

De um lado, surgiram vozes que tentavam justificar o injustificável:

“Ele não aceitava a separação.”

“Eu entendo… não suportaria ver meus filhos criados por outro homem.”

Outros apontavam a mãe como responsável:

“Ela traiu.”

“Inventou essa história de separação depois.”

“A culpa é dela.”

Havia também quem enxergasse o oposto:

“Imagina o que essa mulher viveu com ele.”

“Mais um narcisista que não aceita perder.”

“Ele quis atingir a mãe pelos filhos.”

E, no meio desse duelo de narrativas, surgiam comentários que tentavam resgatar o óbvio: “Nada justifica assassinato.”

A polarização era tanta que a tragédia deixou de ser apenas um fato e se transformou em espelho — refletindo medos, preconceitos, frustrações e crenças de uma sociedade que tenta explicar o inexplicável enquanto se perde em julgamentos apressados. O que se via ali não era só o crime, mas o retrato de um país buscando lógica onde não há lógica e justificativas onde só existe devastação.

E, no meio desse turbilhão, uma verdade permanecia intacta: duas crianças perderam a vida, e nada — absolutamente nada — justifica isso.

O caso deixou de ser apenas sobre um pai, dois filhos e uma madrugada.

Passou a ser sobre nós: sobre como interpretamos a dor alheia, como julgamos sem saber, como projetamos nossas próprias feridas, medos e crenças em histórias que não nos pertencem.

Por que falar sobre Thales?

Falar sobre Thales não é reviver a tragédia pelo choque, nem transformar um crime em entretenimento. É necessário porque o caso expõe, de forma brutal, falhas que preferimos ignorar: a distorção da ideia de família, a incapacidade emocional de muitos homens diante da perda de controle, o narcisismo que se disfarça de amor e a violência disfarçada de amor.

É necessário falar sobre Thales porque ele não é um ponto isolado no mapa da violência familiar brasileira — é um sintoma. Um sintoma de relações adoecidas, de estruturas sociais que ainda romantizam o controle, a posse e o poder. Um sintoma de uma sociedade que, diante do horror, tenta justificar o injustificável, encontrar lógica onde só existe devastação.

É necessário falar sobre Thales porque, quando um pai tira a vida dos próprios filhos, algo muito profundo está errado — não apenas naquela casa, mas no tecido social que deveria proteger essas crianças. Ignorar isso seria fechar os olhos para uma ferida que continua aberta em milhares de lares.

E, acima de tudo, é necessário falar sobre Thales porque duas crianças morreram. E quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção.

Falar sobre Thales é olhar para a dimensão humana da queda, da ruptura, da incapacidade de lidar com o próprio abismo interior. Não para julgá-lo, mas para reconhecer que o mal, quando não confrontado, pode se manifestar dentro de lares que, por fora, parecem estáveis. A teologia sempre tratou da tensão entre luz e sombra, entre graça e desordem — e Thales se torna um ponto de partida para discutir essa tensão.

Por que falar sobre Sara?

Falar sobre Sara não é entrar em especulações, nem validar rumores, nem discutir aquilo que não foi confirmado. É necessário porque, dentro de uma análise teológica da família, ela representa a figura da mãe que teve seu bem mais precioso arrancado: seus filhos. E essa realidade, por si só, já a coloca no centro de uma dor que merece ser reconhecida com respeito e sobriedade.

A repercussão pública transformou Sara em alvo de interpretações que não nasceram dos fatos, mas das expectativas sociais sobre o papel da mulher no lar. Em poucas horas, ela deixou de ser vista como alguém que perdeu tudo para se tornar objeto de julgamentos que não condizem com a gravidade da situação. E é justamente por isso que precisamos falar sobre ela — não para defendê-la de acusações que não nos cabem, mas para reconhecer sua humanidade diante da perda.

Na perspectiva teológica, Sara representa a sobrevivente.

Aquela que permanece viva após o irremediável.

Aquela que enfrenta não apenas o luto, mas também o peso das narrativas alheias.

Aquela que, mesmo sem ter cometido violência alguma, carrega as consequências de um ato que destruiu sua família.

Ignorá-la seria ignorar a dimensão humana da tragédia.

Seria ignorar que, no centro de tudo, há uma mulher que viu sua vida ruir sem ter escolhido isso.

Falar sobre Sara, portanto, não é tomar partido.

É reconhecer que, em qualquer reflexão séria sobre família, fé e responsabilidade, a dor de uma mãe não pode ser silenciada.

Por que falar sobre Miguel e Benício?

É necessário falar sobre Miguel e Benício porque, em qualquer reflexão teológica sobre família, eles representam o centro moral e espiritual da narrativa. São eles que revelam, com maior clareza, o valor da vida, a vulnerabilidade da infância e a responsabilidade sagrada que recai sobre os adultos.

Na tradição cristã, as crianças ocupam um lugar privilegiado. Elas simbolizam pureza, promessa, futuro e dependência — elementos que, teologicamente, apontam para a própria natureza do Reino de Deus. Quando duas crianças perdem a vida, não estamos diante apenas de uma tragédia familiar, mas de um rompimento profundo naquilo que a fé considera mais precioso: a proteção dos inocentes.

Falar sobre Miguel e Benício é reconhecer a dignidade de suas vidas, que não podem ser reduzidas a números ou manchetes. Também é um chamado a responsabilidade espiritual da sociedade, chamada a proteger seus pequenos. Além de nos apresentar a dimensão teológica da perda, que nos obriga a refletir sobre o mal, a fragilidade humana e a necessidade de restauração.

Eles são o ponto de partida para qualquer análise que pretenda ir além do fato em si. São o lembrete de que a família não é apenas uma instituição social, mas um espaço espiritual onde vidas são formadas, nutridas e protegidas.

Ignorar Miguel e Benício seria ignorar o coração da reflexão.

Falar sobre eles é afirmar que suas vidas importam — não como símbolos, mas como pessoas reais, cuja existência nos convoca a pensar sobre responsabilidade, cuidado, amor e a urgência de reconstruir aquilo que foi quebrado.

Falar sobre os quatro não é revisitar a tragédia pelo choque, mas compreender o que ela revela sobre a condição humana, sobre a fragilidade das relações, sobre a distorção do amor, sobre a responsabilidade espiritual da família e sobre a necessidade de cura.

Eles não são apenas nomes de um caso.

São espelhos — cada um à sua maneira — de questões profundas que atravessam a sociedade e a fé.

E é justamente por isso que precisam ser mencionados, porque a teologia não se ocupa apenas do sagrado idealizado, mas também do sagrado ferido, do humano quebrado, do mundo real que clama por sentido.

Fazer essa análise não é simples. Como mãe de um filho de 12 anos e de outro de 2, é impossível não sentir um peso diferente ao olhar para essa tragédia. A maternidade nos dá uma sensibilidade que não se desliga; ela molda a forma como enxergamos o mundo, a família e, sobretudo, a vulnerabilidade das crianças.

Ao refletir sobre esse caso, um temor silencioso me acompanha — não um medo paralisante, mas a consciência de que a mente humana é frágil, suscetível, e que nem sempre conseguimos compreender os abismos que alguém pode enfrentar. Essa percepção não nasce de desconfiança, mas de humildade diante da complexidade da condição humana.

Quando falamos de família, falamos também de responsabilidade espiritual, emocional e moral. E, como mãe, é impossível não sentir a dor de imaginar a perda de um filho — uma dor que nenhuma teologia explica por completo, mas que toda teologia nos convida a acolher com compaixão.

Ainda estávamos tentando respirar depois da tragédia que envolveu Thales, Sara, Miguel e Benício quando, no Carnaval, fomos surpreendidos. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida uma ala inteira fantasiada como “família em conserva” — uma sátira política, uma crítica social, um deboche visualmente marcante. As fantasias imitavam latas de conserva, com rótulos que ironizavam a ideia de “família tradicional”, misturando humor, política e provocação. A repercussão foi imediata.

Para alguns, era arte crítica; para outros, tocou em um ponto sensível, pois a família é o primeiro lugar onde aprendemos a existir.  A imagem da “família enlatada” nos lembra da vulnerabilidade diante de críticas rasas e da facilidade de transformar em piada aquilo que é fundamento de vida. Mas não podemos permitir que o escárnio defina o valor daquilo que Deus estabeleceu.

Todo ser humano vem de uma família, estruturada ou frágil, perfeita ou imperfeita. Todas carregam histórias, traumas e tentativas de recomeço. Por isso, a família não deveria ser tratada como chacota, pois rir da família é rir das próprias cicatrizes.

A fé nos lembra que um coração inclinado a Deus não se molda pelo escárnio, mas pela graça. A família humana é imperfeita, mas é o lugar onde Deus insiste em trabalhar, acreditando na beleza, cura e reconstrução possíveis.

A crítica à “família conservada” pretendia ridicularizar valores tradicionais, mas levantou a questão do que realmente se preserva. O que tem estrutura e fundamentos não se desfaz com o vento das opiniões. A zombaria do mundo não define o valor daquilo que Deus estabeleceu.

A família virou alvo porque se tornou símbolo dentro de uma disputa cultural. Quando algo se torna símbolo, passa a ser tratado como bandeira, caricatura, rótulo. Mas a família é mais profunda do que qualquer rótulo político.

A crítica à família cristã não é apenas sobre incoerência, mas sobre resistência a uma cultura que relativiza tudo. Convicções firmes incomodam, mas resistência não é ataque, é convicção.

A incoerência é parte da condição humana, não exclusiva de cristãos. Usar a falha de alguns para ridicularizar a fé de muitos é injustiça. A resposta cristã mais poderosa não é reagir, mas viver com coerência e integridade.

Respeito não pode ser uma via de mão única. Se a sociedade condena o deboche contra certos grupos, deve condenar também o deboche contra a fé cristã ou a família tradicional. Intolerância não deixa de ser intolerância porque vem disfarçada de sátira. 

Diante de tudo isso, não podemos permanecer apenas como espectadores ou juízes apressados. Essa tragédia nos convoca a olhar para além das manchetes e das redes sociais, a enxergar a dimensão humana da dor, da perda e da responsabilidade. Precisamos abandonar o silêncio, a indiferença e o julgamento superficial.

É hora de agir: fortalecer laços familiares, promover o diálogo, buscar apoio emocional e espiritual, denunciar a violência, acolher quem sofre e proteger nossas crianças. Que cada um de nós se comprometa a ser parte da cura, da reconstrução e da esperança. Porque quando crianças morrem pelas mãos de quem deveria protegê-las, o silêncio nunca pode ser uma opção.



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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 61 edição de Dezembro de 2025 – ISSN 2764-3867


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