Estudando o Fascismo
Parte 2 – A Marcha sobre Roma

Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Benito Mussolini tomou o poder. Mas, que evento foi esse?
No Brasil, a imprensa e a ala progressista trataram os atos do 8 de janeiro uma tentativa de “golpe de estado”. Contudo, o verdadeiro golpe, sem armas mas com estratégia, ocorreu quando os fascistas foram às ruas após ampliarem sua ocupação no Parlamento.
A Itália vivia um caos após a Primeira Guerra Mundial: crise econômica severa, greves e ocupações de fábricas, medo das elites de uma Revolução (inspirada na Revolução Russa), governo fraco instável. Com sua ascensão política, os fascistas prometeram ordem e controle, e não poucas as vezes, utilizando-se de violência contra seus opositores.
Foi quando Mussolini criou os Fasci Italiani di Combattimento. Os “camisas negras” (squadristi) surgiram principalmente a partir de 1919–1920. Muitos eram ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial, jovens, estudantes, trabalhadores e pessoas atraídas pelo discurso de nacionalismo e “combate ao socialismo”.
Eles usavam a camisa preta como símbolo e se organizavam em grupos chamados squadre (esquadrões). Sua principal função era combater fisicamente os adversários políticos do fascismo, ainda que estes também fossem de esquerda.
Os métodos incluíam espancamentos, destruição de propriedades, ameaças, incêndios e assassinatos. Muitas vezes, obrigavam adversários a beber óleo de rícino como forma de humilhação e punição.
A violência dos camisas negras não era apenas espontânea. Ela ajudou a destruir a capacidade de organização dos adversários do fascismo, especialmente no campo e nas cidades do norte da Itália.
Devido à onda de violência, sindicatos foram dissolvidos e diversos prefeitos renunciaram. Em julho de 1921, Giovanni Giolitti, primeiro-ministro (o mesmo que convidou Mussolini para ingressar no Bloco Nacional), tentou, sem sucesso, dissolver os esquadrões. Em agosto, uma greve geral antifascista foi desencadeada, mas não conseguiu reunir o Partido do Povo Italiano (Partito Popolare Italiano, católico e anticomunista) e foi reprimida pelos fascistas.
Em várias regiões, autoridades locais, policiais, proprietários rurais e setores das elites toleravam ou apoiavam os fascistas, porque os viam como uma barreira contra o crescimento do socialismo durante o Biennio Rosso, ou Biênio Vermelho, período de dois anos (1919–1920) de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas.
Importante lembrar do que tratamos no primeiro artigo da série: Mussolini teve o socialismo como sua base política. Tanto que, em 1915, a fundação do Partido Revolucionário Fascista se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo.
Em 24 de outubro de 1922, durante reunião do Partido Fascista realizada em Nápoles, Benito Mussolini discursou diante de aproximadamente 60 mil pessoas e deixou explícita a ambição do movimento: assumir o controle do governo italiano. Paralelamente, os camisas negras ampliavam sua presença pelo país e consolidavam posições estratégicas, especialmente na região da planície do Pó.
Entre 27 e 31 de outubro de 1922, sob liderança de Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi, Emilio De Bono e Italo Balbo, ocorreu a Marcha sobre Roma. Mussolini não participou diretamente do evento, ficando em Milão, pois temia uma intervenção repressiva do Exército.
Em 26 de outubro, o ex-primeiro-ministro Antonio Salandra comunicou ao então chefe de governo, Luigi Facta, que Mussolini exigia sua saída e estava preparando uma mobilização em direção à capital. Facta, porém, não teria percebido inicialmente a dimensão da ameaça e acreditava que ainda seria possível manter Mussolini dentro do sistema político.
Diante do avanço das forças fascistas e da concentração de militantes nos arredores de Roma, Facta decidiu decretar estado de sítio na capital. A medida dependia da aprovação do rei Victor Emanuel III. Facta acreditava que o monarca apoiaria a iniciativa, sobretudo porque os dois já haviam discutido anteriormente a possibilidade de utilizar as forças do Estado contra a violência promovida pelos fascistas. O rei, entretanto, recusou-se a assinar a ordem.
Em 29 de outubro de 1922, o monarca convidou Mussolini para formar um novo governo. No dia seguinte, o líder fascista chegou a Roma, enquanto milhares de camisas negras permaneciam mobilizados na cidade.
A mobilização fascista representava uma ameaça significativa. Os squadristi já haviam conquistado posições importantes na planície do Pó e em outras regiões italianas. O temor de que uma tentativa de repressão pudesse desencadear uma guerra civil também contribuiu para a postura adotada pelo rei.
Mussolini, portanto, chegou ao cargo de primeiro-ministro por meio de uma nomeação formal do monarca, dentro das regras constitucionais vigentes. A transição, contudo, ocorreu em um cenário marcado pela pressão e pela intimidação exercidas pelos fascistas sobre as autoridades públicas.
Parte da elite econômica italiana acreditava que seria possível controlar ou limitar a atuação de Mussolini. Empresários e setores financeiros enxergavam com interesse suas primeiras posições favoráveis ao mercado e à redução da intervenção estatal na economia. Essa expectativa, entretanto, não se confirmou.
Ao chegar ao poder, a "revolução fascista" foi proclamada como um processo de "revolução contínua". Mussolini estabeleceu o início de uma “nova era”, inaugurando um novo calendário, assim como na Revolução Francesa, onde o ano de 1922 foi estabelecido como o "Ano I" da revolução.
Eis um trecho de seu primeiro discurso no cargo de primeiro-ministro, em 16 de novembro de 1922:
“Afirmo que a revolução tem seus direitos. Acrescentaria, para que todos saibam, que estou aqui para defender e fortalecer ao máximo a revolução das “camisas negras”, inserindo-a intimamente como força de desenvolvimento, progresso e equilíbrio na história da nação”.
Ao longo dos anos seguintes, Mussolini desenvolveu um modelo ditatorial que ampliou a interferência do Estado sobre a economia e a sociedade como um todo. Seus atos seguintes foram intimidação severa e violenta contra opositores, manipulação de eleições, aprovação de leis que aumentavam seu poder, além de censura à imprensa.
As empresas continuaram formalmente vinculadas à propriedade privada, mas passaram a operar dentro de uma estrutura cada vez mais subordinada ao Estado fascista e aos organismos controlados pelo regime. Em 1934, Mussolini chegou a afirmar que o governo havia assumido o controle de aproximadamente três quartos da economia italiana, abrangendo os setores industrial e agrícola.
Em 10 de junho de 1924, o deputado socialista Giacomo Matteotti foi sequestrado e assassinado por integrantes ligados ao fascismo. Matteotti havia denunciado no Parlamento a violência e as irregularidades associadas ao regime e se tornara um dos principais críticos de Mussolini. Seu assassinato provocou uma grave crise política e marcou uma etapa fundamental na transformação do governo fascista em uma ditadura aberta.
Continua…..
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867





















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