O entortamento da Direita

Se no artigo anterior iniciamos perguntando ao leitor “Você é de direita ou de esquerda?”, neste convidamos você a observar os aspectos práticos daquela generalização na política nacional. Afinal, o que acontece quando correntes políticas distintas são colocadas no mesmo balaio e passam a ser tratadas como se fossem uma coisa só?
A pergunta não é meramente acadêmica. Ela se tornou particularmente atual diante das dificuldades que a direita brasileira encontra para construir unidade às vésperas de eleições decisivas. Há quem atribua o problema à vaidade de determinadas lideranças, à disputa por espaço ou à falta de habilidade política. É possível que haja um pouco de tudo isso. Mas talvez estejamos procurando a explicação no lugar errado. A direita não está desunida apenas porque seus líderes discordam. Ela está descobrindo que nunca foi tão uniforme quanto o rótulo fazia parecer. E isso nos leva de volta à história.
O balaio nunca foi homogêneo
É preciso desfazer, desde logo, uma impressão equivocada: não existiu uma “direita brasileira” monolítica nos anos 1960, assim como não existe hoje. Havia diferentes correntes, diferentes interesses e diferentes concepções sobre o Estado, a economia, o desenvolvimento, a ordem social e o papel das instituições. A UDN não era um partido composto por homens que pensavam exatamente da mesma maneira. Havia liberais, conservadores, desenvolvimentistas, nacionalistas e outras tendências que podiam convergir em determinadas circunstâncias e divergir em outras.
A diferença fundamental está em outro lugar. As diferenças eram mais visíveis e, sobretudo, mais intelectualmente identificáveis. Um político podia ser reconhecido como liberal ou conservador não apenas porque votava com determinado grupo, mas porque havia uma tradição de pensamento por trás de suas posições. Havia autores, escolas, conceitos, debates e referências. Havia uma linguagem política que permitia compreender por que dois homens pertencentes ao mesmo campo defendiam soluções diferentes. Isso produzia uma consequência importante: a divergência não significava necessariamente desorientação. Ela podia ser simplesmente divergência.
Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto
Carlos Lacerda talvez seja o exemplo mais conhecido dessa geração. Jornalista, parlamentar, governador da Guanabara e extraordinário polemista, construiu sua carreira política sobre uma visão de mundo que não dependia de pesquisas de opinião para existir. Pode-se discordar de Lacerda. E certamente há muito sobre sua trajetória que pode e deve ser discutido. Mas é difícil imaginar sua atuação política sem considerar a formação intelectual que sustentava seus discursos, seus embates e suas escolhas.
José de Magalhães Pinto era diferente. Banqueiro, governador de Minas Gerais, ministro das Relações Exteriores e senador, representava outra vertente do campo conservador e liberal. Sua experiência administrativa e sua visão econômica não eram simplesmente uma cópia das ideias de Lacerda. E esse é precisamente o ponto. Lacerda não precisava ser Magalhães Pinto para que ambos fossem reconhecidos como homens de direita. A direita comportava diferenças porque essas diferenças possuíam conteúdo. Havia, portanto, um fenômeno que hoje parece cada vez mais raro: políticos do mesmo espectro podiam discordar profundamente sem que a divergência fosse imediatamente interpretada como traição. O adversário estava do outro lado, mas isso não eliminava o debate dentro do próprio campo.
O que se perdeu não foi a diversidade
Aqui está uma distinção que considero fundamental. Não é correto afirmar que o passado possuía uma direita homogênea e que a direita contemporânea se tornou fragmentada. A diversidade sempre existiu. O que mudou foi a forma de organizar essa diversidade. No passado, as diferenças tendiam a se apresentar por meio de correntes políticas e tradições intelectuais relativamente identificáveis. Hoje, com frequência, elas aparecem dentro de uma grande identidade coletiva chamada simplesmente de “direita”. Isso produz uma espécie de ilusão de unidade.
Até mesmo quando o grupo está diante de um adversário comum, as diferenças internas costumam aparecer. Apesar de a prioridade ser a derrota do inimigo, parece importar muito se o sujeito ao lado é liberal, conservador, nacionalista, libertário ou defensor de um Estado mais intervencionista. O palanque começa a parecer pequeno para tantos egos reunidos. O problema se aprofunda depois. Quando chega a hora de responder o que fazer com o Estado, com a economia, com a política externa, com a segurança pública, com as instituições e com os costumes, descobre-se que o palanque não era uma doutrina. Era apenas um palanque.
Da política de ideias à política de reação
É nesse ponto que a comparação entre as gerações se torna particularmente reveladora. Os políticos do passado também eram homens de comunicação. Lacerda jamais teria sido Lacerda sem a imprensa, os discursos e a capacidade de mobilizar a opinião pública. Mas havia uma diferença entre utilizar os meios de comunicação e depender deles para definir a própria agenda. O político daquela geração precisava construir uma posição que pudesse ser defendida para além do acontecimento do dia. Suas referências intelectuais precediam, em boa medida, a reação ao acontecimento.
Hoje o processo frequentemente se inverte. A notícia produz a reação. A reação produz a postagem. A postagem produz a contrarreação. E a política passa a girar em torno do próximo acontecimento. Não se trata de afirmar que os políticos contemporâneos sejam menos inteligentes. Essa não é a questão. A questão é que a política atual exige muito mais capacidade de reação do que de elaboração. Quem reage rapidamente ganha visibilidade. Quem provoca uma reação mobiliza sua base. Quem produz uma frase de efeito domina o ciclo de notícias. A profundidade, nesse ambiente, tornou-se uma mercadoria pouco competitiva. O resultado é uma política cada vez mais emocional, personalista e midiática. E, quando a emoção substitui a elaboração, o estofo desaparece.
O que significa ter estofo?
Estofo político não é erudição decorativa. Tampouco é ter uma coleção de diplomas. É possuir uma base intelectual que permita compreender a própria posição e, principalmente, suas consequências. Um político com estofo não precisa concordar com Burke, Hayek, Tocqueville ou qualquer outro autor apenas porque eles são referências do pensamento conservador. Mas deveria saber que tais autores existem, o que defenderam, em que contexto formularam suas ideias e por que suas concepções continuam ou não sendo relevantes. Mais importante ainda: deveria conseguir explicar sua posição sem depender exclusivamente daquilo que o adversário acabou de dizer.
Esse é um dos problemas da política contemporânea. Muitas vezes, a posição não nasce de uma concepção de mundo. Nasce da necessidade de responder ao outro. E isso vale para a esquerda e para a direita, embora a discussão aqui seja sobre o que aconteceu com esta última.
De Lacerda aos Bolsonaro
É nesse contexto que a comparação entre Lacerda e os Bolsonaro precisa ser compreendida. Não se trata de dizer que os políticos atuais sejam incapazes, nem de negar a importância eleitoral e cultural da nova direita. Ao contrário: seria impossível compreender a política brasileira contemporânea sem reconhecer a capacidade de mobilização que essa geração conquistou. Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Carol de Toni, Cleitinho, Marcel van Hattem e outros representam parcelas importantes desse novo campo político. Alguns possuem maior consistência doutrinária que outros; alguns têm experiência parlamentar relevante; outros se destacam principalmente pela comunicação.
Mas há uma característica comum à nova política que não pode ser ignorada: a liderança frequentemente precede a doutrina. O político se torna conhecido, constrói sua audiência, reúne seguidores e somente então passa a ser cobrado por aquilo que pretende fazer com a força política que conquistou. No passado, em muitos casos, ocorria o contrário. A formação política precedia a liderança. Não se trata de romantizar o passado. Aquele período produziu erros graves, conflitos e decisões que continuam sendo objeto de controvérsia histórica. Mas é possível reconhecer uma qualidade sem transformar uma época em modelo absoluto: havia maior presença de referências intelectuais na formação das lideranças. O problema atual não é falta de opinião. É excesso de opinião sem suficiente elaboração.
Por que a direita não consegue simplesmente se unir?
Essa pergunta, hoje tão frequente, talvez esteja mal formulada. A questão não deveria ser apenas “por que a direita não se une?”, mas: “Até onde é possível unir correntes que concordam sobre o adversário, mas discordam sobre o que fazer depois de derrotá-lo?”. Durante determinado período, a oposição ao PT e à esquerda funcionou como elemento aglutinador. Foi compreensível e, em muitos aspectos, politicamente necessário. Mas existe uma diferença entre uma coalizão eleitoral e um projeto político. Uma coalizão pode ser construída em torno de um objetivo comum. Um projeto de país exige responder ao que vem depois. E é justamente aí que as diferenças reaparecem.
O liberal econômico pode desejar reduzir drasticamente o tamanho do Estado. O conservador pode aceitar um Estado mais forte para proteger determinadas instituições e valores. O nacionalista pode defender políticas industriais que o liberal considera intervencionismo. O libertário pode rejeitar medidas que outro conservador considera necessárias à preservação da ordem. Quem está certo? A pergunta não pode ser respondida pelo rótulo “direita”. É preciso voltar às ideias. E talvez seja justamente isso que tenha sido perdido.
O entortamento
O “entortamento” da direita não consiste, portanto, em ter surgido uma nova diversidade. Ela sempre existiu. Consiste em outra coisa: a substituição progressiva das tradições político-filosóficas por uma identidade política mais ampla, personalista e reativa. O rótulo passou a fazer parte da identidade antes que a identidade fosse necessariamente acompanhada por uma elaboração doutrinária correspondente. Isso explica parte da força da nova direita e, paradoxalmente, parte de sua fragilidade. Ela conseguiu reunir muita gente porque falou para muita gente. Mas reunir é mais fácil do que organizar. E organizar é mais fácil do que construir uma tradição intelectual.
Talvez por isso a direita brasileira esteja descobrindo, às portas de uma nova disputa eleitoral, que a tão desejada unidade possui limites bastante concretos. Não se pode exigir que todos os gatos do balaio miem da mesma maneira. O problema é outro. Se durante muito tempo todos foram tratados simplesmente como “gatos de direita”, talvez tenhamos deixado de perguntar que espécie de gato cada um era. E essa pergunta, que parece apenas engraçada, é essencialmente política. Porque uma direita intelectualmente madura não precisa eliminar suas diferenças para se fortalecer. Precisa conhecê-las. Precisa organizá-las. Precisa debatê-las. E, principalmente, precisa voltar a produzir ideias capazes de sobreviver ao ciclo de notícias, à próxima eleição e ao próximo adversário.
Talvez o verdadeiro desafio da direita brasileira não seja voltar a ser unida. Seja voltar a ser intelectualmente diversa, doutrinariamente consistente e politicamente capaz de transformar suas divergências em ideias — e não apenas em disputas personalistas.
Nesse momento é oportuno recordar Platão, escrito há mais de dois milênios. Na República, ao discutir quem deveria governar, o filósofo não se satisfaz com experiência, coragem ou capacidade de liderança: exige daqueles que receberão a responsabilidade pelo Estado uma longa formação intelectual, capaz de conduzi-los do mundo das aparências ao conhecimento. Para ele, governar sem esse preparo seria pouco diferente de entregar uma tarefa complexa a quem desconhece os fundamentos da própria atividade.
“A menos que os filósofos governem como reis nas cidades, ou que aqueles que hoje são chamados reis e dinastas professem a filosofia de modo autêntico e adequado, e que estas duas coisas — o poder político e a filosofia — coincidam no mesmo sujeito... não haverá descanso dos males para as cidades, nem, creio eu, para o gênero humano.”
Talvez tenhamos passado tempo demais escolhendo quem deve governar e tempo de menos perguntando se aqueles que pretendem fazê-lo estão intelectualmente preparados para a tarefa.
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 69 edição de Agosto de 2026 – ISSN 2764-3867





















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