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A vida comum do lar

  • 29 de jun.
  • 4 min de leitura
A vida comum do lar

“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento…” (1º Pedro 3.7a).

Quando surge a pergunta “Qual o seu apóstolo preferido?”, eu sempre respondo que é Pedro. Creio que temos o mesmo temperamento, o sanguíneo: impulsivos, animados, necessitados de atenção. Mas, quando o sanguíneo assenta a cabeça, reflete e analisa, consegue realizar proezas. E quando este tem como objetivo servir a Nosso Senhor Jesus Cristo, possui a direção do Alto para orientar aos demais.

A Bíblia diz que Pedro tinha sogra, logo, era casado. Como homem nessa condição, poderia auxiliar a outros. Sendo servo de Cristo, cumpriria sua função com maestria. E assim, para orientar sobre o casamento, ele fala sobre algo que hoje a maioria foge: a vida comum do lar.

Penso que, se Pedro escrevesse essas linhas hoje, não iria se dirigir somente a homens neste contexto, isso porque muitas mulheres também abandonaram o lar. Contudo, é importante destacar que vida “do lar” não é vida “da casa”. São ambientes distintos.

Muitos estão “em casa”, fisicamente, mas a alma se foi há tempos. O corpo está presente, mas não interagem, não conhecem o cônjuge, os filhos, a rotina, nada. Cumprem as obrigações domésticas esquecendo da presença. Levam o dinheiro para casa, mas deixam o carinho pelo caminho. E assim, permanecem em casa, mas não no lar.

Via de regra, os homens tendem a “sair do lar” mediante aos vícios. Porém, não trato aqui somente de jogos de azar ou pornografia, e sim de quando o vício se inicia em algo lícito. Hoje existem centenas de coachs especializados em “riqueza”, que vendem cursos de como “prosperar” por meio da internet, que ensinam a como realizar investimentos sem sair de casa.

Isso fez com que muitos pensassem que enriquecer seria uma ótima forma de ser provedor. Então, gastam tempo na frente de uma tela analisando projeções, realizando investimentos, e isso por 14, 16, 18 horas por dia – ou mais – esquecendo-se de que dinheiro, por si só, não traz a verdadeira realização.

Outros decidiram adentrar no universo fitness, mas não para cuidar da saúde. A internet possibilitou que os “marombeiros” fossem idolatrados como homens viris, másculos e que podem conquistar todas as mulheres com seus traços definidos. Então, ocupam a cabeça e o tempo com dietas intermináveis e exercícios ad aeternum. O “disco” não muda.

Até mesmo uma vida intelectual, se não for bem regrada, pode tornar-se um vício letal. O padre Antonin-Dalmace Sertillanges, em sua célebre obra “A vida intelectual”, deixou o seguinte conselho: “...duas horas por dia bastam para uma obra (…) preenchidas todas as condições, isso de fato basta e vale mais que as pretensas quinze horas de que tantos tagarelas se vangloriam”.

E mais: “O que mais importa na vida não são os conhecimentos, é o caráter; e o caráter estaria ameaçado se o homem estivesse, por assim dizer, oprimido pela rocha de Sisifo”. Em todo o livro, Sertillanges alerta para o fato de o aspirante a uma vida intelectual se envaidecer, chegando a desprezar a realidade ao seu redor e até mesmo sua família.

O sacerdote alerta: “O necessário, a todo momento, é estar onde se deve e fazer o que importa”.

Para as mulheres, a “isca” é outra. As redes sociais trouxeram o universo “instagramável”, com influenciadoras vendendo um mundo artificial, vida social badalada, viagens, desapego aos relacionamentos. E seguidoras com a mente enfraquecida acabam por “sair do lar”, sentindo-se frustradas porque suas vidas são “ordinárias”.

Quando denomino “vida ordinária”, não falo com desdém, pelo contrário; me refiro com o mesmo sentido que a Bíblia trata de “comum”. O brilho da rotina artificial, criada para ganhar visualizações e curtidas, tenta ofuscar a realidade: nem tudo será “extraordinário” todo dia.

As novelas, em especial, os doramas, também cumprem o papel de afastar a mulher “do lar”. Quantas não são aquelas que rejeitaram seus maridos por eles não se comportarem como um coreano roteirizado? Fico perplexa em ver que muitas se iludem pensando que orientais são exatamente como nesses produtos vendidos por plataformas de streaming. E, ao se atraírem por esse tipo de estereótipo, acabam por rejeitar homens bons por estes não se adequarem ao rótulo plastificado.

Quem foi que vendeu essa ideia de que um bom homem ficará nos adulando 24 horas por dia? Quem criou essa mentira de que, para ser o homem ideal, o sujeito deve escrever cartas, dar flores todos os dias e todas essas coisas? Isso são coisas “extraordinárias”, que são realizadas de forma esporádica. Contudo, a “vida comum” é bem diferente.

A vida comum do lar possui itens não muito confortáveis: louça para lavar, cuecas sujas, fraldas, criança chorando, bagunça pela casa, marido perguntando “cadê meu serrote?”, esposa dizendo “menino, tira o dedo da tomada”. Espero ter tirado algum riso do leitor com este exemplo, mas esta é a vida real, esta é a vida! Podemos ajustar algumas coisas para melhorar nossa rotina, entretanto, a realidade é melhor que temos.

Eu, particularmente, possuo algumas frustrações: com 37 anos, completados em abril, nunca ganhei flores, nunca fui tirada para dançar, nunca o Sérgio Mallandro veio em um cavalo-branco para me resgatar (somente os mais velhos farão a conexão e rir deveras com esse trecho). Mas tenho minha rotina: acordo, falo com Deus, levo meu filho à escola, trabalho, cuido do meu canal, lavo, passo, cozinho, limpo minha estante de livros. E essa rotina é o que me salva.

Sim, a rotina de todos os dias nos salva de nós mesmos. A rotina revela quem somos e o que podemos fazer para melhorar. Já o mundo de plástico nos faz perseguir um “mundo ideal”, semelhante ao vendido pelo socialismo, que nunca há de chegar e que nos faz ter a alma amarga. A vida comum do lar não precisa ser monótona, só precisa ser real.



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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867

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