Estudando o Fascismo – Giacomo Matteotti
Parte 3

É de conhecimento público que a ala progressista impõe o que conhecemos por hegemonia: todos devem seguir a mesma linha de pensamento revolucionária. O que muda é a intensidade. E quem se atreve a questionar isso é vilipendiado.
O caso mais famoso é o do escritor George Orwell. Ele se identificou fortemente como um socialista democrático e foi formalmente filiado ao Independent Labour Party (ILP) (Partido Trabalhista Independente) do Reino Unido a partir de 1938, de onde saiu voluntariamente mais tarde por divergências acerca da Segunda Guerra Mundial.
Ao chegar à Espanha para lutar contra o fascismo (que curioso), Orwell tentou inicialmente se alistar nas milícias do Partido Comunista Espanhol (alinhado a Stalin). No entanto, ele foi rejeitado pelo partido devido às suas inclinações ideológicas mais libertárias e independentes.
Barrado pelos comunistas tradicionais, Orwell juntou-se às milícias do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), um partido comunista de orientação anti-stalinista. Em 1937, sob forte influência soviética, o governo espanhol declarou o POUM ilegal, classificando seus membros como "traidores". O partido foi suprimido, e Orwell precisou fugir às pressas da Espanha para não ser preso ou executado pelas forças stalinistas.
Esses episódios foram fundamentais para que ele escrevesse duas de suas maiores obras literárias: “1984” e “A revolução dos bichos”, que são críticas ao seu próprio espectro político. Por isso que é tão comum que mais conservadores admirem estas obras do que os próprios progressistas.
Ainda bem que Orwell somente recebeu críticas, pois nem todos tiveram a mesma sorte.
Giacomo Matteotti foi um político socialista italiano que se tornou um dos maiores símbolos da resistência ao fascismo de Benito Mussolini. Nascido em Fratta, uma pequena cidade na região da Polesine, no dia 22 de maio de 1885, formou-se na Faculdade de Direito de Bologna, uma das mais tradicionais da Europa, onde se licenciou com excelentes notas em 1907 e foi eleito para o Parlamento italiano em dezembro de 1919, pelo Partido Socialista Italiano.
Filho de Girolamo Matteotti e Elisabetta Garzarolo, ricos comerciantes de ferro e cobre na província de Rovigo, a cerca de quinze quilómetros de sua cidade. Além de proprietário de terras, o seu pai esteve envolvido em suspeitas de agiotagem.
Após a Revolução Russa de 1917, o socialismo italiano passou por uma enorme disputa interna: uma parte defendia a revolução inspirada nos bolcheviques; outra defendia uma atuação política e parlamentar. Matteotti acabou se aproximando da corrente reformista.
Durante o congresso socialista de Livorno, em 1921, aconteceu a famosa divisão que levou à criação do Partido Comunista da Itália. Matteotti se opôs à ruptura e posteriormente se aproximou ainda mais da corrente reformista.
Mesmo sendo declaradamente de esquerda, Matteotti não concordava com os métodos dos “camisas negras”, que se utilizavam de extrema violência contra seus adversários e críticos. A partir de 1921, os ataques dos squadristi contra socialistas e outros grupos aumentaram fortemente no norte da Itália. Matteotti denunciava essas ações publicamente. Em 12 de março de 1921, ele próprio sofreu uma grave agressão de fascistas em Castelguglielmo.
Em 1922, a ala reformista saiu do PSI e criou o Partido Socialista Unitário (PSU). Matteotti foi escolhido secretário do novo partido, na mesma época em que Mussolini chegava ao poder. Matteotti percebeu muito rapidamente que o fascismo não era simplesmente mais um partido nacionalista: ele via o squadrismo como uma ameaça direta à população.
Em fevereiro de 1924, pouco antes do período eleitoral, o parlamentar escreveu um livreto de 91 páginas, denominado “Un anno di dominazione fascista” (Um ano de dominação fascista). Nele, Matteotti procurou reunir números, fatos e documentos para demonstrar como o governo fascista estava funcionando. A própria apresentação original dizia que o material havia sido reunido pela secretaria do Partido Socialista Unitário (PSU) e o nome do deputado sequer aparecia na capa.
O objetivo de Matteotti era mostrar que a violência fascista não havia terminado quando Mussolini se tornou primeiro-ministro, pelo contrário: segundo a documentação reunida por ele, a violência das milícias continuava enquanto o fascismo ocupava as instituições do Estado.
O livreto é dividido em três grandes partes: na primeira, é abordada a situação econômica do governo; na segunda, os atos do governo; e na terceira, Matteotti expõe a contradição das palavras da liderança fascista com os fatos. Neste último, ele reúne declarações de Mussolini e de outros dirigentes fascistas, textos publicados pela imprensa alinhada ao regime e uma extensa relação de episódios de violência e intimidação ocorridos entre novembro de 1922 e dezembro de 1923.
Após a primeira edição, ele estava trabalhando em uma versão ampliada e atualizada, incorporando novos acontecimentos e dados. Em abril de 1924, durante uma viagem secreta à Inglaterra, ele chegou inclusive a negociar a publicação de uma versão em inglês.
As eleições haviam acontecido em 6 de abril de 1924. Mussolini já era primeiro-ministro desde outubro de 1922, mas ainda existia um Parlamento com oposição.
Para as eleições daquele ano, o governo havia conseguido aprovar a chamada Lei Acerbo, que estabelecia uma enorme vantagem para a lista mais votada: a lista que obtivesse pelo menos 25% dos votos receberia dois terços das cadeiras da Câmara.
A coalizão governista conseguiu uma vitória esmagadora. Mas havia uma questão: como aquela vitória havia sido obtida?
É aqui que começa o famoso discurso do parlamentar, ocorrido em 30 de maio de 1924.
Matteotti sustentava que não se tratava simplesmente de uma eleição disputada de maneira dura. Ele denunciava violência física, intimidação, ameaças, irregularidades nos locais de votação e pressão sobre eleitores e candidatos da oposição.
A Câmara estava discutindo a validação dos resultados eleitorais. A Junta Eleitoral havia proposto a convalidação em bloco dos deputados da maioria. Isso significa, que, em vez de examinar individualmente as possíveis irregularidades das eleições de cada parlamentar, a maioria seria validada de uma vez. Matteotti se levantou e pediu que a eleição da maioria fosse anulada.
Ele considerava aquela convalidação em bloco uma prática parlamentar completamente excepcional e, em resposta, solicitou a invalidação em bloco dos eleitos, apresentando como fundamento as irregularidades e a violência fascista durante o pleito.
Eis trechos do discurso de Matteotti:
“(…) A eleição é essencialmente inválida em todos os círculos eleitorais. (…) Pela sua própria confirmação (dos parlamentares fascistas), portando nenhum eleitor italiano se viu livre para decidir pela sua vontade. (…) Existe uma milícia armada, composta por cidadãos de um único partido, que tem a tarefa declarada de apoiar pela força um determinado Governo, mesmo que lhe falte consenso”
“Vocês que atualmente possuem o poder e a força, que se vangloriam da própria potência deveriam, mais que todos aqui, serem capazes de fazer cumprir a lei. (…) Nós, todavia, deploramos que se queira demonstrar que somente o nosso povo no mundo não sabe manter-se de pé sozinho e deve ser governado pela força. O nosso povo foi recuperando e educando-se, também com o nosso trabalho. Querem-nos empurrar de volta. (…) Acreditamos que estamos a recuperar a sua dignidade ao pedir ao Conselho Eleitoral que adie as eleições afetadas pela violência”
Ao final, ele prediz o seu fim: “Já fiz meu discurso. Vocês agora preparem o discurso para mim no meu funeral”.
Dez dias depois, em 10 de junho de 1924, Giacomo Matteotti saiu de sua residência em Roma para ir à Biblioteca da Câmara. Por volta das 16h30, caminhando pelo Lungotevere Arnaldo da Brescia, foi abordado por um grupo de fascistas. Amerigo Dumini, Albino Volpi, Giuseppe Viola, Augusto Malacria, Amleto Poveromo, Filippo Panzeri e Aldo Putato.
A documentação histórica mostra que alguns desses homens haviam chegado a Roma semanas antes e passaram a vigiar e seguir Matteotti. Eles utilizaram uma Lancia para sequestrá-lo. O automóvel havia sido obtido por intermédio de Filippo Filippelli, diretor do jornal Corriere Italiano.
Durante o trajeto, Giacomo tentou-se defender e reagir, mas foi dominado e esfaqueado. Os assassinos enterraram Matteotti numa área chamada Macchia della Quartarella, próxima à Via Flaminia, no território de Riano.
Velia Matteotti passou a noite toda à espera do marido, e chegou a alertar os seus partidários sobre o desaparecimento no início do outro dia. Porém, o corpo de Giacomo somente foi encontrado em 16 de agosto, quase dois meses depois do ocorrido.
O assassinato do jovem político começou a ser averiuguado. Os investigadores Mauro Del Giudice e Umberto Tancredi conduziram uma investigação inicial bastante agressiva e chegaram a prender figuras importantes do Partido Nacional Fascista, incluindo Cesare Rossi, chefe do gabinete de imprensa de Mussolini e Giovanni Marinelli, secretário administrativo do PNF. A investigação também revelou a existência da chamada Ceka fascista, uma organização clandestina de violência política ligada à estrutura fascista.
O primeiro processo de julgamento dos assassinos aconteceu em 1926, em Chieti. A justiça adotou a interpretação de que o crime havia sido preterintencional, ou seja, que os sequestradores pretendiam agredir Matteotti, mas sua morte teria ocorrido como consequência não planejada da violência.
Dumini, Volpi e Poveromo receberam penas de aproximadamente cinco anos e onze meses; Malacria e Viola foram absolvidos. E mais: todos receberam anistia por Mussolini.
Antes disso, em 3 de janeiro de 1925, Mussolini fez o famoso discurso em que assumiu politicamente a responsabilidade pelo fascismo e passou à ofensiva contra seus adversários.
Continua…
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Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 70 edição de Setembro de 2026 – ISSN 2764-3867





















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