
MENEZES COSTA
"Com conhecimento se constrói cidadania!"
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- Árvores no outdoor
A personagem Meryl Burbank, interpretada pela atriz Laura Linney, no filme O Show de Truman (The Truman Show), cumpria o papel de esposa do protagonista Truman Burbank, vivido por Jim Carrey. O enredo apresentava um homem que além de personagem central do filme, ocupava a mesma posição em um programa de televisão que retratava a sua vida cotidiana, recebendo, interessantemente, o mesmo nome do filme real. A peça dentro da peça não tinha uma trama rebuscada, pois Truman Burbank não interpretava, pois desconhecia viver uma encenação, ignorando que fora inserido, mesmo antes de seu nascimento, em um ecossistema criado para comportar o show. As pessoas assistiam a vida de um homem que foi aprisionado por mentiras e interagia com atores em um ambiente controlado sem poder imaginar sua real condição. Mesmo as condições climáticas eram controladas por uma central da qual o diretor do programa agia como se fosse uma espécie de deus daquela farsa. Meryl Burbank, que sabia não ser real a sua relação marital com protagonista, tratou de aferir vantagens em razão da grande audiência do programa e de sua constante aparição, fazendo flagrantes exposições desnecessárias de produtos quando interagia com o esposo ficcional em evidente prática publicitária incutida na programação. Não era algo discreto e, com o passar do tempo, tornava-se cada vez mais evidente que Meryl não falava de um determinado produto com naturalidade, posto que, precisava instigar os espectadores em relação aos produtos que anunciava, chamando a atenção de Truman devido ao jeito artificial como fazia tais propagandas. A publicidade depende da comunicação e seu intuito e cativar a atenção de um público alvo para que adira a uma ideia que o publicitário deseje propagar, seja a compra de um bem, a aceitação de uma proposta, a arregimentação em um grupo ou a adesão de um novo costume. Quando o público alvo deseja aquilo que a publicidade o oferta, o único objetivo é expor que o objeto ora desejado está à disposição, a tarefa se torna simples como iluminar um caminho pelo qual o agente já pretendia seguir. Por outro lado, quando o público alvo não tem um interesse prévio pelo objeto da publicidade, far-se-á necessário convencer tal público a desejar aquilo que o publicitário tem a oferecer, usando diversos métodos para atingir o sucesso. No processo de convencimento, o esforço empregado pode demorar a trazer resultados, logo, aquele que promove algo precisa ter em mente que o resultado imediato, quando preciso convencer, dificilmente será alcançado. Não havendo um desejo preexistente, é necessário criar a demanda para atender a oferta. Um fluxo invertido no qual o produto não atende a um anseio, mas a vontade em adquiri-lo é artificialmente injetada. O público alvo é instigado a desejar aquilo que o publicitário se comprometeu a fornecer sem que houvesse uma demanda, satisfazendo a oferta de algo que não era realmente desejado. No jargão popular, empurrar algo que ninguém quer. Para que alguém consuma algo que não deseja, é preciso que seja convencido de que tal objeto, seja material ou não, lhe é útil, seja um substituto superior ao seu desejo original ou o trará ganho indireto. Embarcações são úteis para cruzar grandes rios e mares, a lâmpada elétrica foi um substituto superior às velas, ao passo que, peças de joalheria adornam seus usuários para lhes dar verniz de maior poder aquisitivo, embora não tragam um benefício direto senão o status. No lado obscuro da moeda, a injeção artificial de demanda faz com que o público alvo deseje algo que lhe é prejudicial usando a farsa como artifício, fazendo com que a oferta de algo não desejado e nocivo seja atendida em razão da mentira contida em sua publicidade. Algo nocivo pode ser propagado como útil quando seu rótulo esconde sua real natureza. Um bom exemplo é o socialismo, ideologia que se divulga como meio de promover a igualdade e justiça social quando sua essência é o autoritarismo e a miséria. O comunismo ou socialismo, ambos os termos são aqui empregados como sinônimo de forma proposital, promete o paraíso na terra, mas se provou uma experiência infernal todas as vezes que foi colocado em prática. Uma farsa que arregimenta os incautos em momentos de fragilidade, frágeis por natureza ou gananciosos demais para enxergar a armadilha, até que os aprisiona em um sistema maldito que propaga inveja, ódio e degradação. O socialismo não é útil, tampouco um substituto para outros sistemas, mas se vende como necessário ao passo que exige de seus arregimentados a propagação de suas ideias e, principalmente, a imposição de seus dogmas tiranos em relação aos que não acreditaram em seu rótulo falso. Como o óleo de soja e a margarina, que precisaram demonizar a banha e a manteiga para serem objeto de desejo, o socialismo culpa falsamente o capitalismo pelo infortúnio de alguns sem, contudo, apresentar uma solução real para os problemas apontados. Em verdade, sua única solução para a desigualdade é fazer da miséria, econômica e moral, uma rega a quase todos imposta, tendo em vista que seus líderes, incapazes de suportar os males que impõe aos outros, jamais experimentam as privações que os demais devem suportar pelo prometido bem da coletividade. Um propagandista do socialismo sofre de uma debilidade intelectual ou de caráter tão aguda que ignora o fato de todos os líderes socialistas se banquetearem enquanto os que estão sujeitos ao regime são assolados pela miséria. Promotores do socialismo nunca se furtaram a expor crianças famintas no continente africano como consequência do capitalismo, mas omitiam o fato de a maioria dos países miseráveis daquele continente ter aderido às ideias socialismo, o chamado socialismo africano, para transferir a imagem de sua abjeta realidade, justamente, para o sistema que se propôs substituir. No ano de 2008, o regime socialista chinês foi o anfitrião dos jogos olímpicos e, como esperado, vestiu um rótulo para iludir aqueles que admiravam o evento. Colocando árvores em outdoors espalhados pela cidade que sede criava a falsa impressão de que o ambiente era mais arborizado, portanto, mais acolhedor do quê realmente era. A mentira impede que o público alvo conheça a natureza daquilo que encoberto pelo rótulo que o atraiu, por tal motivo, a propaganda precisa distorcer a perspectiva dos indivíduos para que algo nocivo lhe seja atrativo. A chamada agenda woke, que incuti ideais identitários em obras de ficção, se aproveita do desejo por cultura, em especialmente a de grande difusão, para promover sua visão. Como exemplo, produções como filmes de super-heróis foram inundadas de ideias identitários, deixando os espectadores cada vez mais frustrados, ou até irritados, ao verificarem que eram enganados, haja vista que, atraídos por um rótulo que os agradava, pois estavam ali para assistir aventuras de heróis, recebiam “lições” para se adaptarem à agenda progressista. A diversão prometida na embalagem era substituída pelo proselitismo identitário decepcionando o público alvo tão logo percebesse que caíra em uma armadilha, não por acaso, boa parte das obras de ficção que receberam injeções de ideais progressistas se aproveitavam de uma fama preestabelecida, desfigurando personagens e crônicas tarimbadas para transformá-las em meras propagandas. Diante da clara rejeição, seguindo o costume dos desonestos, os propagandistas da agenda woke passaram a negar sua existência, alegando se tratar de teórico da conspiração qualquer um que apontasse indícios de proselitismo identitário em obras. Negar suas práticas e imputar uma falsa visão transtornada aos que a percebem é uma prática recorrente no meio progressista, que é vertente revolucionária. A política autodenominada como Diversidade Equidade e Inclusão, sigla DEI, é uma farsa que serve apenas ao proselitismo progressista, não havendo diversidade alguma ao promover que as produções culturais devem se adequar ao pensamento de um determinado grupo, não traz equilíbrio por tratar figuras e conceitos identitários como únicos detentores de virtudes, bem como, não promove a inclusão ao negar que os indivíduos não acolhidos pela agenda sejam enaltecidos. Conforme corroía produções culturais e era implantada em diversas organizações públicas e privadas, mesmo contra a vontade de muitos, a política DEI, naturalmente, virou objeto de rejeição, mais uma vez, sua existência era negada em determinadas oportunidades. Nos órgãos públicos, a agenda avançava em detrimento da vontade popular, ao passo que, nas instituições privadas que se recusavam a aderir, foram impostas medidas por agentes públicos ou midiáticos. Perseguições de todos os tipos foram impostas em nome de tal política, citamos o caso da empresa de consultoria DEI, denominada Sweetbaby, que supostamente ameaçou uma produtora de jogos eletrônicos chinesa, exigindo que se curvasse à mencionada política e contratasse seus serviços. Aparentemente, uma conveniente associação entre ideologia e ganho financeiro do jeitinho que os revolucionários gostam. Recentemente, uma fabricante de colchões no Brasil foi pressionada pelo poder público por não ter, em seus quadros de direção, uma equipe “diversificada” como a política progressista deseja, pois falta de homens ou brancos parece não ser uma ausência de diversidade que justifique a intervenção do Estado. Com os exageros do identitarismo, a rejeição se tornou cada vez maior e movimentos de reação surgiram naturalmente. Na cultura pop, os fãs começaram a apontar aquilo que, inicialmente acreditavam se tratar de erros, mas que se provou uma intencional instrumentalização da cultura para promover os ideais identitários, indicando a presença de um ativismo que consumia o entretenimento, transformado em mera propaganda progressista. Alertaram para a corrupção das obras e viam que nem mesmo as destinadas ao público infantil escapavam, mas foram ignorados, pois havia a intenção de corromper para mudar o comportamento através da ficção e os produtos destinados às crianças eram sim peças importantes em tal processo. Em uma segunda fase, ridicularizaram a evidente propaganda e começaram a boicotar as obras com tais inclinações, no Brasil, tal movimento foi encabeçado por figuras proeminentes nas redes sociais e plataformas de mídia difusas que acabaram se reunindo em um grupo que absorveu o apelido, inicialmente pejorativo, de “nerdolas”. No âmbito da imprensa, o proselitismo revolucionário foi tão evidente que jogou os principais meios de comunicação em descrédito, chegaram a formar um cartel para manipular a informações durante a pandemia, que se denominou de “consórcio de imprensa”, cuja única finalidade era combinar o quê podia, ou não, ser dito durante aquele período. Tal cartel parece não ter se dissolvido, tendo em vista a clara sincronia nas matérias, abafando ou minimizando quando determinado espectro político toma atitudes ou se pronuncia de forma reprovável, ao passo que superestima aquilo que acredita causar dano à imagem de uma oposição a quem rejeita. A publicidade tomou conta do roteiro, seja na ficção ou na vida real, e os rótulos falsos buscam vender problemas como soluções e venenos como remédios, contudo, aquele que é incapaz de distinguir as árvores nos outdoors das reais acabará pagando o preço por se deixar guiar em direção ao abismo. Seguir a velha imprensa que há muito se tornou mera agência de publicidade, nos dias atuais, é uma escolha e não existem escusas aos que se negam a enxergar aquilo que lhe foi esfregado nas fuças. O compromisso da velha imprensa com seu espectro político, sim, a imprensa assumiu ser parte integrante de um grupo político, a faz distorcer aquilo que chama de notícia para servir como meio de difusão de seus ideais e promover sua ideologia, portanto, merece a mesma rejeição que as obras de ficção que igualmente se corromperam. A chamada liberdade de imprensa, que deveria ser dada a cada indivíduo em razão da informação descentralizada, alcançando apenas um grupo, como é na atualidade, mitiga a liberdade de expressão e a entrega a uma oligarquia parasitária que luta para sobreviver através do monopólio, associando-se ao poder público e financeiro para que aqueles persigam e intimidem os que não integram o cartel de comunicação, em troca, a imprensa tradicional se transformou em uma grande agência publicitária dos detentores do poder, talvez sempre tenha cumprido tal papel, mas como Meryl Burbank, perdeu a vergonha e passou a fazer sua propaganda de forma escancarada. Leia também: Amizade ou perseguições Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Quando a Sirene Tocar
Madrugada do dia 20 de junho de 2026, Brasil. Algo pouco comum acontece. Um alerta máximo com sirene nos celulares de moradores de vários estados. Noite fria, mas sem chuva. E, de repente, surge na tela uma palavra estranha, quase enigmática: “misantropi4”. Muitos ficaram confusos, sem entender o que estava acontecendo, alguns já dormiam. Para muitos, aquilo parecia um código secreto, uma mensagem oculta, algo misterioso. Mas, na verdade, tratava-se apenas de uma distorção da palavra misantropia, que significa aversão à humanidade, um termo completamente fora de contexto para um alerta oficial. Seria uma invasão alienígena??? A sirene rompeu o silêncio da noite, soou mesmo em aparelhos no silencioso e despertou pessoas que não esperavam nenhum aviso. Mas, curiosamente, nem todos receberam a notificação: alguns foram sacudidos do sono, outros apenas ouviram relatos pela manhã, e muitos sequer perceberam que algo havia acontecido. Em alguns casos, além do alerta, houve quem recebesse também SMS ou mensagens em aplicativos, o que aumentou ainda mais a sensação de caos. Mas afinal, o que de fato acontecia??? A verdade é que o sistema oficial de alertas da Defesa Civil havia sido invadido por hackers, que dispararam notificações de emergência para milhões de celulares. Um ataque coordenado, inesperado e, claro, totalmente fora dos protocolos. Mais um detalhe chamou atenção, enquanto muitos foram despertados abruptamente, outros não receberam alerta algum. A tecnologia falhou. O sistema foi violado. E, ainda assim, esse acontecimento nos oferece uma poderosa reflexão; porque, mesmo quando o alerta é falso, o despertar pode ser verdadeiro. E, embora esse episódio pertença ao campo da segurança digital, ele acaba revelando algo profundamente espiritual. Assim como aquele alerta alcançou alguns, mas não chegou a todos, também os sinais de Deus não são percebidos da mesma forma por todas as pessoas. Há corações sensíveis que despertam ao menor sopro do Espírito; há outros que permanecem indiferentes, como se nada tivesse acontecido; há aqueles que, mesmo diante de evidências claras, não conseguem discernir o que Deus está dizendo; e há ainda os que dormem tão tranquilos, com a consciência tão tranquila, que simplesmente continuam repousando no famoso “sono dos justos”. Jesus já havia antecipado essa realidade quando declarou: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mt 11,15). Alguns despertam, outros se incomodam, e outros simplesmente continuam dormindo. E é justamente essa diferença de percepção que torna o episódio da madrugada uma metáfora tão poderosa para a volta de Cristo. A Palavra nos mostra isso em várias histórias. A parábola das dez virgens, revela essa mesma verdade espiritual: todas aguardavam o noivo, todas tinham lamparinas, todas conheciam a promessa, mas somente cinco estavam preparadas quando o anúncio finalmente ecoou. O Evangelho relata: “As prudentes levaram óleo nas vasilhas, junto com as lâmpadas” (Mt 25,4), enquanto as imprudentes, mesmo tendo ouvido o mesmo chamado, não tinham óleo suficiente. O mesmo aparece nos dias de Noé, quando a humanidade recebeu um aviso, mas apenas uma pequena parte levou a sério a palavra de Deus; como diz o livro do Gênesis, “Noé fez tudo conforme o Senhor lhe havia ordenado” (Gn 6,22), enquanto o restante ignorou o alerta até que fosse tarde demais. E ao longo de toda a história da salvação, vemos profetas levantados por Deus (Isaías, Jeremias, Ezequiel) proclamando a verdade, mas encontrando corações endurecidos que, como diz o Senhor pela boca de Isaías, “ouvem, mas sem compreender; olham, mas sem perceber” (Is 6,9). Assim, a desigualdade do alerta daquela madrugada não é apenas um fenômeno tecnológico; é um espelho espiritual. Alguns despertam ao menor sussurro, outros só acordam quando o ruído é ensurdecedor, e muitos permanecem adormecidos. A fé nos ensina que a graça é oferecida a todos, mas nem todos a acolhem com a mesma abertura. Por isso, a pergunta que ecoa não é porque alguns ouviram e outros não, mas se nós estamos entre aqueles que, quando Deus falar, realmente iremos acreditar. Se iremos nos desesperar ou estaremos preparados. Assim como o alerta hackeado chegou a uns e não a outros, os sinais espirituais também não chegam igualmente ao coração humano. Muitos acreditam que podem viver com a alma no silencioso. Acham que podem desligar a consciência. É claro que, apesar de tirarmos uma reflexão espiritual do ocorrido, ninguém aqui está dizendo que o alerta daquela madrugada foi algum tipo de sinal místico vindo do céu. Nada disso. O episódio teve uma explicação perfeitamente racional. O celular possui um modo de alerta extremo, capaz de tocar mesmo com o aparelho no silencioso, desligado ou em modo “não perturbe”. Além disso, a própria Defesa Civil possui autorização para enviar alertas severos que aparecem direto na tela, sem depender de internet, aplicativo ou qualquer configuração especial. Ou seja, não foi um anjo tocando trombeta, foi tecnologia mesmo (hackeada) que, aliás, muita gente nunca tinha parado para configurar. Então, fica a dica: se você quiser garantir que essa função esteja realmente ativada no seu celular, basta abrir as configurações, entrar na seção de notificações, procurar por “Alertas de Emergência sem Fio” (Wireless Emergency Alerts) e habilitar opções como “Alerta Severo” e “Alerta de Teste”. É simples, é técnico e é totalmente racional. Portanto, sim, o alerta daquela madrugada teve impacto, sim, gerou susto, sim, fez muita gente repensar a vida por alguns segundos; mas não teve absolutamente nada de sobrenatural. O ponto de atenção está justamente nisso: Deus não precisa violar sistemas, hackear servidores ou disparar notificações para nos lembrar da vigilância espiritual. Ele fala pela Palavra, pela consciência, pelo discernimento que Ele mesmo nos deu. O alerta foi humano, falha técnica; a reflexão que o acontecido desperta, essa sim, é divina. Mas o alerta daquela madrugada provou algo: “há avisos que ultrapassam o silencioso”. E espiritualmente, Deus também fala assim. “Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” (Ef 5,14) Leia também: Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil! Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867
- O correio da liberdade
John Stuart Mill (1806–1873), um dos principais pensadores do liberalismo clássico, desenvolveu em sua obra Sobre a Liberdade (On Liberty, 1859) uma das formulações mais influentes da liberdade individual na tradição ocidental. Utilitarista, Mill compreendia a liberdade como condição essencial para o desenvolvimento das capacidades humanas e para o florescimento da vida em sociedade. Sua ideia mais conhecida é o chamado Princípio do Dano: o único motivo legítimo para que o Estado ou a sociedade restrinjam coercitivamente a liberdade de alguém é impedir dano a terceiros. Ações cujos efeitos recaem predominantemente sobre o próprio indivíduo devem, em regra, permanecer livres — ainda que consideradas imprudentes, excêntricas ou moralmente questionáveis. Mill atribuía enorme importância à individualidade, aos “experimentos de vida” e à liberdade de pensamento e expressão. Para ele, uma sociedade excessivamente intervencionista enfraquece o senso de responsabilidade, sufoca a diversidade humana e reduz a capacidade de progresso moral e intelectual. Mas existe um aspecto frequentemente negligenciado: a liberdade em Mill não elimina limites; ela depende deles. O indivíduo só pode expandir sua esfera de ação porque existe uma ordem social que protege as pessoas contra agressões, fraudes, coerções e violações de direitos. É justamente nesse ponto que o pensamento de Max Weber (1864–1920) oferece um complemento útil. Se Mill se perguntou quais são os limites morais da liberdade, Weber procurou entender quais são as condições institucionais que tornam possível a existência da ordem política. Sua formulação clássica afirma que o Estado moderno é a entidade que reivindica com sucesso o monopólio do uso legítimo da força dentro de determinado território. Isso não significa que apenas o Estado exerça força. Significa que cabe ao Estado estabelecer quais usos da coerção são legítimos e quais devem ser contidos ou punidos. Em outras palavras: a liberdade civil depende de uma autoridade reconhecida como legítima para aplicar regras comuns. Sob essa perspectiva, liberdade individual e autoridade estatal não são necessariamente conceitos opostos. Em certa medida, uma sustenta a outra. Essa combinação entre Mill e Weber oferece uma lente interessante para observar debates contemporâneos no Brasil. A declaração de Lula e a percepção pública sobre responsabilidade e autoridade "Eu sei que rico não compra telefone roubado, mas eu sei que os pobres compram. Quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata? Todo mundo gosta. (...) "Entretanto, essa inquietação econômica de quem está com o telefone roubado mexeu com a minha cabeça. (...) Eu ia apertar um botãozinho e passar uma mensagem dizendo que todos os dois milhões e meio de pessoas que estão com o celular roubado têm que devolver. Precisa devolver porque ele pode estar cometendo um delito e, se ele for pego, ele pode sofrer uma punição desnecessária. (...) Nós temos o cadastro, o endereço e o chassi de 2,5 milhões de celulares roubados. Nós não sabemos quem roubou, mas sabemos que os telefones foram roubados. (...) Porque, devolver na delegacia, as pessoas têm até medo porque não sabem o tipo de delegado que vai encontrar, ou o tipo de policial. Então vamos tentar que a gente vá no Correio" (Luiz Inácio Lula da Silva em 10/06/2026). A recente declaração do presidente Lula, ao anunciar um programa de mensagens destinadas a aparelhos roubados ou furtados, provocou debate público. Ao defender que a devolução pudesse ocorrer preferencialmente pelos Correios, argumentou que algumas pessoas poderiam sentir receio de comparecer às delegacias, por não saberem “o tipo de delegado” ou “o tipo de policial” que encontrariam. Também observou que consumidores de menor renda poderiam sentir maior atração por produtos de preço reduzido, mesmo sem origem plenamente regular. A intenção declarada da medida pode ser interpretada como pragmática: facilitar a recuperação dos aparelhos e ampliar a adesão ao programa. Entretanto, a formulação adotada abre espaço para um questionamento mais amplo. Sob uma leitura inspirada em Mill, furto, roubo e receptação constituem danos claros a terceiros. Não se trata apenas da perda patrimonial imediata: existe quebra de confiança, incentivo econômico ao crime e redução concreta da liberdade das vítimas. Ao mesmo tempo, sob uma perspectiva próxima de Weber, a resposta ao dano exige instituições que sejam percebidas como legítimas e dignas de confiança para exercer sua função coercitiva. É nesse ponto que surge a preocupação central. Quando o discurso público enfatiza o desconforto ou o receio daquele que participa da cadeia ilícita antes de reafirmar com igual clareza a responsabilidade pelo ato e o papel das instituições encarregadas de aplicar a lei, corre-se o risco de produzir uma mensagem ambígua. Ainda que não exista intenção de justificar a receptação nem de desautorizar as forças de segurança, a comunicação institucional pode transmitir a percepção de que o contato com o aparato estatal é um problema maior do que a própria infração. Essa percepção importa. Associações representativas da polícia civil reagiram criticamente à declaração, argumentando que generalizações sobre delegados e policiais tendem a enfraquecer a confiança pública em instituições responsáveis pela recuperação de bens e pela aplicação da lei. Mais do que um debate operacional sobre devolução de celulares, está em jogo algo mais profundo: a percepção social sobre quem carrega o ônus moral da situação. Responsabilidade individual, legitimidade institucional e o risco da erosão gradual. Mill insistia que liberdade exige responsabilidade por escolhas que afetam terceiros. Weber lembraria que nenhuma ordem política se sustenta sem reconhecimento da legitimidade das instituições encarregadas de fazer cumprir normas comuns. Isso não significa ignorar fatores econômicos, desigualdades ou dificuldades reais enfrentadas por parte da população. Compreender circunstâncias não equivale a dissolver responsabilidades. Uma sociedade moderna depende de um equilíbrio delicado: preservar humanidade sem relativizar normas; ampliar acesso sem enfraquecer autoridade; reduzir atritos burocráticos sem deslocar o centro moral da responsabilidade. Quando esse equilíbrio se rompe e o discurso público parece aplicar tolerância desigual ao descumprimento das regras, surge um risco menos visível do que a criminalidade imediata: a erosão gradual do consenso civilizacional que sustenta a convivência social. O problema não é ausência completa de Estado nem colapso institucional súbito. O risco mais plausível é outro: a substituição progressiva da confiança nas instituições por arranjos informais, medo cotidiano e acomodação social diante da ilegalidade. Uma sociedade livre não depende apenas de limitar o poder estatal. Ela também depende de preservar a legitimidade das instituições que impedem que o dano, a violência e a imposição privada substituam o império das regras comuns. Segurança, responsabilidade individual e proteção das vítimas não são obstáculos à liberdade. São parte das condições que permitem que ela exista. "Que diremos, então, sobre tantas decisões populares de caráter prejudicial e abominável? Não são mais dignas do nome de lei se ladrões as houverem aprovado. Pois não se chamará prescrições médicas a receitas mortíferas que ignorantes e incapazes fizerem em lugar de remédios eficazes; e, do mesmo modo, não se chamará lei a qualquer decisão de um povo, mesmo quando este o houver aprovado, apesar de ser perigoso. Logo, a lei é uma diferença entre o justo e o injusto, feita de acordo com a Natureza, ou melhor, com a mais antiga e essencial de todas as coisas; e à Natureza sujeitam-se as leis humanas, que ameaçam os maus com o castigo, enquanto defendem e protegem os bons". (Marco Tulio Cícero, Das Leis). Leia também: DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Escolham suas armas e deixe seu legado!!
Nesta Edição, quero trazer um paralelo entre duas pessoas, dois contextos de vida semelhantes, negros, pobres escravizados, filhos de escravizados, numa época em que o preconceito e o racismo eram dominantes em várias linhas da sociedade; porém fizeram escolhas diferentes de vida. Antes que digam que é a exceção, há muitos outros (centenas) que eu poderia trazer para este paralelo, mas uma pequena pesquisa na Internet já responderia que de fato: A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS!! Luiz Gonzaga Pinto da Gama, nasceu em 21/06/1830 em Salvador - Bahia Filho de um homem branco com uma mulher negra, sua mãe desapareceu após o envolvimento com algumas revoltas, seu pai o vendeu como escravo aos 10 anos para pagar dívidas. José Francisco dos Santos, nasceu em Salvador- Bahia, 4/10/1771, Filho de pai branco e mãe indígena. Foi genro de José Francisco dos Santos, africano e um dos homens mais ricos do seu tempo escolheu ser traficante de escravos após largar a carreira de alfaiate tornando-se um dos maiores traficantes transatlântico de escravos da história. Duas vidas que participaram de um mesmo contexto social, sombrio e desumano: A escravidão. Ambos inteligentes, esforçados, trabalhadores, cheios de qualidades e parte de uma classe social segregada, Porém diante de uma oportunidade de escolha tomaram decisões que os levaram a caminhos totalmente opostos. Zé alfaiate como era conhecido, após conquistar sua liberdade com esforço próprio decide então usar seu prestígio para entrar no mercado de tráfico de seres humanos escravizados. Já Luiz Gama, escolheu dedicar-se à alforria daqueles que como ele sofrera, sofriam as mazelas da escravidão. Atuando como Rábula, (advogado sem diploma acadêmico) entregou sua vida de forma voluntária a este nobre propósito: Libertar seres humanos das garras da escravidão; obtendo sucesso em mais de 500 casos. Ao contrário de Zé alfaiate lutou de forma ferrenha e heroica contra os escravagistas que tornaram-se seus inimigos mortais. Zé alfaiate, vendo de perto o berço da terra que promoveu tamanha desumanidade, não escolheu repelir, mas juntou-se a eles inspirado por outros que também foram pelo mesmo caminho como, Francisco Paulo de Almeida o barão de Guaraciaba e Joaquim Pereira Marinho. Ele, Zé alfaiate, tornou-se um dos homens mais ricos do mundo, já que tornou-se genro de Francisco Félix de Souza, o maior traficante de escravos da África. A pergunta que fica é: Qual o elemento que diferenciou a escolha de cada um desses personagens da história, mesmo vivendo contextos tão semelhantes? Seja como for, o que fica provado é que pode-se fazer escolhas acertadas mesmo em meio a tantos momentos extremamente desfavoráveis da vida, com certeza os valores cristãos que Luiz Gama teve contato podem ter feito toda a diferença, já que José Francisco, talvez não tivesse uma educação com base em quaisquer valores que promovesse o humanismo. Zé alfaiate morreu em idade avançada, 94 anos, como um dos homens mais ricos do seu tempo, deixou 53 viúvas, 80 filhos e 12 mil escravos, com tudo não parecia ter uma família; até hoje seus descendentes vivem da riqueza de sua fortuna deixada no Benin, antigo reino de Daomé. Já Luiz Gama, morreu ainda jovem, aos 52 anos, não deixou fortuna( material),mas tinha sua família, inspirou grandes nomes da história abolicionista e geral do Brasil, como os irmãos André e Antônio Rebouças que inauguraram uma nova era da infraestrutura do Brasil. Como engenheiros foram responsáveis por obras como as docas D. Pedro Segundo, a alfândega e a estrada de ferro Coritiba X porto de Paranaguá; todas feitas e inauguradas com uma condição inegociável: Mão de obra livre e assalariada. Pois bem, escolham as armas!! Pois a luta pelos valores humanos é certa, heroica e incansável…Nesse campo de batalha as armas farão toda a diferença pois o bem sempre vence o mal. Que Deus abençoe nossa jornada!! Leia também: Um mundo novo e melhor chegará, se… Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 67 edição de Junho de 2026 – ISSN 2764-3867
- Amizade ou perseguições
A Copa do Mundo de futebol se aproxima, portanto, nada mais justo que começar tratando de um esporte que envolve tanta paixão, em que torcedores se conectam ou se rivalizam sob os bandeiras de suas nações e escudos de seus clubes, usando as cores estampadas em suas camisas como marcadores de suas tribos. Não nos dobraremos à barbárie das falanges doentias que transformam o esporte em um espetáculo doentio de agressões, de maneira que, ignoraremos as facções denominadas torcidas organizadas por não serem o objeto de reflexão no momento e pelo desprezo moral que merecem. Uma nação que se destaca em campo é, sem dúvida alguma, a Alemanha, sua seleção tetracampeã mundial, tendo erguido a taça três vezes antes da unificação do país e a última na década passada. A Alemanha se sagrou vencedora da competição pela última vez no Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, nome do bairro que abriga o anfiteatro, vencendo a seleção da Argentina, coincidentemente, repetindo o confronto de seu título anterior. O Maracanã, construído para receber a Copa do Mundo de 1950, foi palco, naquele evento, da conquista uruguaia sobre a seleção brasileira, mas foi a Alemanha quem, sessenta e quatro anos depois, privara o Brasil de retornar ao palco da segunda final da Copa do Mundo em seu território, derrotando a seleção canarinho na capital mineira no jogo anterior, o traumático sete a um, em que a aspirante ao quarto título arrasou a nação que se orgulha de seus inigualáveis cinco campeonatos em suas terras. Em um momento que o Brasil se via corroído pela corrupção e os templos erguidos para o evento, muitos deles sem qualquer justificativa, eram símbolos evidentes de tão corrosão, a derrota significava mais que apenas uma acachapante humilhação, mas a frustração daqueles que esperavam uma alegria que, de alguma forma, aplacasse em suas mentes fúteis a dor da expropriação. Não bastasse os abusos perpetrados pelos detentores do poder e a flagrante malversação dos recursos, o orgasmo prometido não veio e aquilo que para muitos era um investimento cujo único resultado seria um momento de prazer, tornou-se uma derrota cara e humilhante. Se aquela Copa do Mundo trouxe alguma felicidade a alguns brasileiros, provavelmente foram os amigos dos poderosos que se banquetearam em obras faraônicas, propagandas, direitos de transmissão e camarotes suntuosos. Ao povo restou o trauma da derrota e o “direito” de pagar pela conta de uma fez que lhe foi importa. Voltando à Alemanha, não há como tratar da Copa do Mundo no Brasil sem mencionar a torpeza dos que estavam no controle durante aquele episódio, em especial por ainda darem as cartas, a seleção do país europeu cumpriu seu papel e, desfilando com um segundo uniforme que fazia alusão ao clube de maior torcida no país anfitrião, conquistou a simpatia do povo até o momento que atropelou a seleção brasileira. Ao final, a Alemanha vencera a seleção argentina e se sagrou tetracampeã mundial. O merecido título não se configura obra do acaso, posto que, tal país tem uma tradição no mundo do futebol, ostentando, junto à Itália, a segunda maior coleção de conquistas de mundial, atrás somente do Brasil. Não é difícil deduzir que há uma base que sustente o futebol alemão, logo, cabe avaliar se há, naquele país, um campeonato nacional ou clubes competitivos, algo que, para aqueles que acompanham, ainda que à distância tal esporte, leva a conclusão óbvia que, de fato, o campeonato alemão é consideravelmente estruturado e que existem clubes que são competitivos naquele país, podendo ser rivais difíceis e, até mesmo, temidos em um cenário internacional. Alguns leitores já imaginaram como exemplo o tradicional e competitivo Bayern de Munique (Bayern Müchen), um clube da capital da Baviera, fundado em 1900, carregando o nome de sua região e cidade respectivamente. O gigante de vermelho é considerado como a maior referência do futebol alemão, o franco favorito dentro de suas fronteiras e um respeitado adversário de respeito para qualquer outro grande clube de futebol em qualquer lugar do globo. Mas a história do clube bávaro não é tão simples quanto parece, pois o Bayern de Munique vivenciaria um dos episódios mais marcantes de seu país e do mundo, uma vez que, fundado no último ano do século XIX, passaria pela ascensão e queda do regime nazista. Quando o nacional-socialismo chegou ao poder, diferentemente da maioria dos clubes, o Bayern de Munique não se alinhou ao regime, posto que, possuía forte liderança judaica e tinha como Presidente o judeu Kurt Landauer, que renunciou em 1933. O próprio Adolf Hitler se referia ao Bayern como um clube de judeus (judenklub) e, obviamente, o regime nazista marginalizou o clube, reduzindo até seus recursos e impondo o uso da suástica em seu uniforme. O Bayern de Munique, que havia conquistado seu primeiro título nacional em 1932, só voltaria a erguer a taça da Bundesliga (campeonato alemão) em 1969, evidenciando o quão nocivo o regime do Terceiro Reich fora para o clube, sendo necessários vinte e quatro anos para sua total recuperação e triunfo. O Bayern de Munique se opôs ao regime autoritário que controlou a Alemanha e, apesar de perseguições, sobreviveu, superando o período do nazismo e seguindo em frente, sendo atualmente considerado o maior clube de futebol alemão. Não há como ignorar a história de superação do Bayern de Munique que, confrontou o regime revolucionário e preferiu a marginalização à submissão. Por outro lado, não podemos ignorar as quase quatro décadas que afastaram o clube do título do campeonato alemão, destacando que enfrentar o mal pode ser pesaroso e um exercício de paciência. Regimes totalitários tendem a usar subterfúgios para perseguir aqueles que se opõem ou, simplesmente, se negam a alimentá-lo, ao passo que agraciam seus aliados como forma de corromper ou compensar pelos préstimos. Assim como aqueles que se regozijavam nos camarotes do mundial de 2014, os parceiros Terceiro Reich gozavam de benefícios em troca de sua colaboração e vassalagem, tornando-se privilegiados desde que associados e subservientes ao regime autoritário. Com o fim de impor seu totalitarismo sobre os cidadãos, regimes autoritários tendem a cooptar apoio e perseguir qualquer um que não se curve a suas intenções. Além do objetivo imediato, que é destruir que se oponha, o regime busca intimidar quaisquer outros que cogitem não seguir sua cartinha, portanto, a perseguição deve ocorrer de forma explícita, para que exerça um efeito pedagógico intimidador aos que, mesmo inconformados, observem os açoites covardes sem que tenham forças para reagir. O nacional-socialismo parece ter compreendido que a centralização da atividade econômica seria um erro, tendo em vista ser o planejamento central incapaz de cuidar de todas as demandas econômicas e procurar brechas para o desenvolvimento. O indivíduo procura ascender atendendo a um anseio, oferecendo algo que não estava antes disponível ou em melhores condições. A concorrência faz com que a economia seja viva e a necessidade é o motor da invenção. O Estado é incapaz de preencher as lacunas e antever os anseios, algo que o socialista mais ferrenho negará até a última instância. O regime nazista, percebendo tal falha, preferiu se associar à iniciativa privada, permitindo certa liberdade econômica, desde que o empreendedor fosse um aliado do regime. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas resistiu a ideia de descentralização, para muitos, tal erro resultou no Holodomor. Creio ser injusto tratar como erro, quando a fome parece um método de coerção. A China, que também experimentou grande miséria, adotou o sistema metacapitalista, no qual as instituições privadas gozem de certa liberdade, mas precisam servir aos interesses do regime. Não por acaso, um dos maiores empresários daquele país, após um inusitado desaparecimento, voltou a público sem disposição para desafiar o governo chinês. A política de campeãs nacionais segue os mesmos padrões chinês, bem como, do regime nazista. Incentivando os amigos do governo, causando um desequilíbrio na economia que só será percebido após anos, posto que, sendo aliadas do regime, as campeãs nacionais tendem aos abusos face a concorrência e, em um segundo momento, contra consumidores e fornecedores. Por outro prisma, aquele que se opuser ao regime ou for obstáculo para sua parceira, correrá o risco de forte retaliações. Não por acaso as punições de natureza política tendem a ser mais degradantes e duradouras que as reservadas às condutas consideradas abjetas pela sociedade, mantendo manifestantes que sequer tinham meios para derrubar um regime autoritário em cárcere por período análogo aos aplicados a crimes realmente nefastos, além da especial preocupação para que não gozem de benefícios deferidos a verdadeiros facínoras. Imaginemos a hipótese em que um ex-deputado, em uma ditadura socialista, preso por opinião tivesse de cumprir o regime semiaberto da pena a ele, absurdamente, aplicada em um local conforme o descrito em lei, todavia, em diversos casos criminosos violentos ou integrantes de organizações que cumprem tal regime, naquele mesmo país hipotético, o fazem em quase liberdade. Não podemos ignorar que, para tal inimigo do regime, mesmo medidas constitucionais como a graça concedida pela autoridade competente poderia ser ignorada, tão somente para que tal parlamentar sirva de exemplo aos demais congressistas e cidadãos. Não tendo um exemplo real, decidi chamar o deputado hipotético pela alcunha de Daniel, referindo-me ao personagem bíblico que esteve aprisionado na cova dos leões, uma mera alusão sem qualquer relação com a realidade. Daniel, no exemplo hipotético, teria expressado sua revolta contra uma decisão de um conselho que parecia proteger organizações criminosas que ceifavam vidas de inocentes e de policiais, em razão da morte de um agente de segurança. As afirmações de Daniel resultariam em uma ação persecutória por parte de um regime que não admite ser questionado, em que pese a decisão, a qual Daniel fazia uma dura critica, pudesse parecer que o conselho protegia os criminosos dos mais perigosos. Ao final, o fictício parlamentar Daniel ficaria preso e a ditadura socialista lutando para que outra nação não combata os criminosos outrora protegidos pela decisão, mesmo sendo afetada pelas ações dos infratores. No exemplo hipotético Daniel seria reconhecido por ter alertado quanto ao erro e seus algozes se desculparia, ou, recompensado por sua coragem e os tiranos que o encarceraram punidos de forma exemplar. Um regime tirano não tolera quaisquer resistências, perseguindo e punindo aquele que considera como opositor, como os nazistas fizeram com o Bayern de Munique e nossa nação fictícia com Daniel. Os abusos não conhecem limites, posto que, o autoritarismo se agrava como autopreservação, tendo em mente que tiranos tornar-se-ão cada vez mais tiranos para que não sofram as consequências de seus atos. Um vilão precisa morrer no poder ou pagar pelo mal que causara aos outros. De um fabricante de material de limpeza aos que doaram para opositores, passando por jornalistas e varejistas, o regime não verá com bons olhos qualquer um que não lhe jure vassalagem e usara de meios escusos para atacá-los, logo, no imaginário dos tiranos, os demais curvar-se-ão à sua autoridade, entrementes, a essência dos vilões é ignorar que a natureza humana fará com que alguns se tornem ainda mais resistentes, surgindo mártires que sacrificar-se-ão pelos outros, como o hipotético parlamentar Daniel, ou mesmo, os que enfrentarão o regime pacientemente, como fizera o Bayren de Munique. Ao final, os que se sujeitaram aos desmandos dos tiranos terão de prestar contas e assumir que estavam errados ou foram fracos demais para resistir. Ao passo que, a aqueles que conservaram sua honra caberá reconstruir sobre os escombros deixados pelos malfeitores e seguir em frente, como fizera o clube bávaro e, caso nossa hipótese fosse real, o deputado Daniel. Aos amigos do regime, que se banquetearam diante da desgraça alheia, sejam eles grandes produtores de alimentos e fármacos, instituições financeiras, empresas de mídia ou criminosos, que sejam responsabilizados por suas ações junto aos tiranos que tanto serviram. Que a tocante história do Bayern de Munique, que é de tantos outros que sobrevivem apesar da perseguição sirva de inspiração aos que conservam sua dignidade e não se deixarão dobrar pela força dos tiranos, tampouco se corromper por agrados ou pela embriaguez do poder na doentia festa dos guardanapos patrocinada pelas vítimas do regime. Leia o artigo: A lei e os nobres Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867
- A vida comum do lar
“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento…” (1º Pedro 3.7a). Quando surge a pergunta “Qual o seu apóstolo preferido?”, eu sempre respondo que é Pedro. Creio que temos o mesmo temperamento, o sanguíneo: impulsivos, animados, necessitados de atenção. Mas, quando o sanguíneo assenta a cabeça, reflete e analisa, consegue realizar proezas. E quando este tem como objetivo servir a Nosso Senhor Jesus Cristo, possui a direção do Alto para orientar aos demais. A Bíblia diz que Pedro tinha sogra, logo, era casado. Como homem nessa condição, poderia auxiliar a outros. Sendo servo de Cristo, cumpriria sua função com maestria. E assim, para orientar sobre o casamento, ele fala sobre algo que hoje a maioria foge: a vida comum do lar. Penso que, se Pedro escrevesse essas linhas hoje, não iria se dirigir somente a homens neste contexto, isso porque muitas mulheres também abandonaram o lar. Contudo, é importante destacar que vida “do lar” não é vida “da casa”. São ambientes distintos. Muitos estão “em casa”, fisicamente, mas a alma se foi há tempos. O corpo está presente, mas não interagem, não conhecem o cônjuge, os filhos, a rotina, nada. Cumprem as obrigações domésticas esquecendo da presença. Levam o dinheiro para casa, mas deixam o carinho pelo caminho. E assim, permanecem em casa, mas não no lar. Via de regra, os homens tendem a “sair do lar” mediante aos vícios. Porém, não trato aqui somente de jogos de azar ou pornografia, e sim de quando o vício se inicia em algo lícito. Hoje existem centenas de coachs especializados em “riqueza”, que vendem cursos de como “prosperar” por meio da internet, que ensinam a como realizar investimentos sem sair de casa. Isso fez com que muitos pensassem que enriquecer seria uma ótima forma de ser provedor. Então, gastam tempo na frente de uma tela analisando projeções, realizando investimentos, e isso por 14, 16, 18 horas por dia – ou mais – esquecendo-se de que dinheiro, por si só, não traz a verdadeira realização. Outros decidiram adentrar no universo fitness, mas não para cuidar da saúde. A internet possibilitou que os “marombeiros” fossem idolatrados como homens viris, másculos e que podem conquistar todas as mulheres com seus traços definidos. Então, ocupam a cabeça e o tempo com dietas intermináveis e exercícios ad aeternum. O “disco” não muda. Até mesmo uma vida intelectual, se não for bem regrada, pode tornar-se um vício letal. O padre Antonin-Dalmace Sertillanges, em sua célebre obra “A vida intelectual”, deixou o seguinte conselho: “...duas horas por dia bastam para uma obra (…) preenchidas todas as condições, isso de fato basta e vale mais que as pretensas quinze horas de que tantos tagarelas se vangloriam”. E mais: “O que mais importa na vida não são os conhecimentos, é o caráter; e o caráter estaria ameaçado se o homem estivesse, por assim dizer, oprimido pela rocha de Sisifo”. Em todo o livro, Sertillanges alerta para o fato de o aspirante a uma vida intelectual se envaidecer, chegando a desprezar a realidade ao seu redor e até mesmo sua família. O sacerdote alerta: “O necessário, a todo momento, é estar onde se deve e fazer o que importa”. Para as mulheres, a “isca” é outra. As redes sociais trouxeram o universo “instagramável”, com influenciadoras vendendo um mundo artificial, vida social badalada, viagens, desapego aos relacionamentos. E seguidoras com a mente enfraquecida acabam por “sair do lar”, sentindo-se frustradas porque suas vidas são “ordinárias”. Quando denomino “vida ordinária”, não falo com desdém, pelo contrário; me refiro com o mesmo sentido que a Bíblia trata de “comum”. O brilho da rotina artificial, criada para ganhar visualizações e curtidas, tenta ofuscar a realidade: nem tudo será “extraordinário” todo dia. As novelas, em especial, os doramas, também cumprem o papel de afastar a mulher “do lar”. Quantas não são aquelas que rejeitaram seus maridos por eles não se comportarem como um coreano roteirizado? Fico perplexa em ver que muitas se iludem pensando que orientais são exatamente como nesses produtos vendidos por plataformas de streaming. E, ao se atraírem por esse tipo de estereótipo, acabam por rejeitar homens bons por estes não se adequarem ao rótulo plastificado. Quem foi que vendeu essa ideia de que um bom homem ficará nos adulando 24 horas por dia? Quem criou essa mentira de que, para ser o homem ideal, o sujeito deve escrever cartas, dar flores todos os dias e todas essas coisas? Isso são coisas “extraordinárias”, que são realizadas de forma esporádica. Contudo, a “vida comum” é bem diferente. A vida comum do lar possui itens não muito confortáveis: louça para lavar, cuecas sujas, fraldas, criança chorando, bagunça pela casa, marido perguntando “cadê meu serrote?”, esposa dizendo “menino, tira o dedo da tomada”. Espero ter tirado algum riso do leitor com este exemplo, mas esta é a vida real, esta é a vida! Podemos ajustar algumas coisas para melhorar nossa rotina, entretanto, a realidade é melhor que temos. Eu, particularmente, possuo algumas frustrações: com 37 anos, completados em abril, nunca ganhei flores, nunca fui tirada para dançar, nunca o Sérgio Mallandro veio em um cavalo-branco para me resgatar (somente os mais velhos farão a conexão e rir deveras com esse trecho). Mas tenho minha rotina: acordo, falo com Deus, levo meu filho à escola, trabalho, cuido do meu canal, lavo, passo, cozinho, limpo minha estante de livros. E essa rotina é o que me salva. Sim, a rotina de todos os dias nos salva de nós mesmos. A rotina revela quem somos e o que podemos fazer para melhorar. Já o mundo de plástico nos faz perseguir um “mundo ideal”, semelhante ao vendido pelo socialismo, que nunca há de chegar e que nos faz ter a alma amarga. A vida comum do lar não precisa ser monótona, só precisa ser real. Leia o artigo: Estudando o Fascismo Parte 1 – A origem Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867
- DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA
A história humana pode ser lida como a lenta formação de três ideias que parecem contemporâneas, mas que na verdade pertencem às camadas mais profundas da experiência da espécie: Deus, Pátria e Família. Não são invenções modernas, nem construções arbitrárias erguidas pelo conservadorismo, tampouco meros slogans ideológicos. São símbolos antigos, que emergem muito antes de qualquer articulação política e atravessam milênios como respostas humanas à própria condição de existir. Cada um deles, à sua maneira, nasce de uma necessidade antropológica: a busca pelo sentido, pela identidade, por pertencimento e pela continuidade. A experiência do divino acompanha o Homo sapiens desde muito antes da escrita. Quando hoje, no Ocidente, falamos “Deus”, quase sempre nos referimos ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, fruto de uma tradição teológica específica: a tradição judaico-cristã. Mas a ideia de uma realidade superior, ordenadora, invisível e transcendente antecede as religiões monoteístas por dezenas de milhares de anos. Mesmo povos que jamais tiveram contato com o pensamento hebreu-nômade desenvolveram noções de divindade, espírito, força vital ou inteligência cósmica. O que permanece, através de todos os tempos e culturas, é o impulso humano para além da visibilidade — a inquietação que Platão nomeou como a consciência de um mundo que não se reduz ao sensível. Há em nós uma inclinação para perguntar pelo que ultrapassa a matéria — seja esse além chamado Deus, deuses, absoluto, Espírito, realidade última ou simplesmente mistério. É esse mesmo impulso que transparece no mito do Gênesis, quando a serpente diz à mulher: “certamente não morrereis… sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”. Essa passagem milenar, simbolicamente lida, não descreve um desejo trivial de poder, mas a tentação de romper a própria condição humana, de assumir para si a prerrogativa de determinar o que é o bem e o mal, o sentido e o destino, o limite e o ilimitado. Em outras palavras, desde nossos primórdios carregamos o desejo de transcendência e, ao mesmo tempo, a pretensão de controlar aquilo que transcende. A humanidade se move entre a humildade de buscar o sentido e a soberba de desejar ser o próprio criador do sentido. Essa dialética — busca e controle — também está presente na formação das comunidades políticas. A “pátria”, entendida como pertencimento a um corpo coletivo reconhecível, não é um produto da modernidade. Cidades-Estado sumérias, como Eridu, Uruk ou Lagash, não usavam o conceito contemporâneo de “nação”, mas viviam as práticas que mais tarde seriam reconhecidas como seus equivalentes: lealdade a uma terra, a uma língua, a um templo, a um governante, a uma memória comum. A ausência da palavra não implica ausência da experiência. Se o cidadão sumério não dizia “sou de um país”, vivia, porém, uma forma ancestral de pátria: sua cidade era seu mundo, sua identidade, seu cosmos social. A pátria nasce da comparação entre coletividades; surge quando se percebe que “nós” somos distintos de “eles”, e que as diferenças — religiosas, linguísticas, genealógicas — formam um campo comum que merece ser preservado. O que chamamos hoje de nação é apenas uma ampliação, em escala histórica, de uma tendência humana primitiva: unir-se a semelhantes para garantir ordem e continuidade. Também a família, frequentemente tratada como construção histórica contingente, é na verdade uma instituição com raízes pré-históricas. Muito antes do Estado, muito antes da agricultura, a família já era o núcleo de proteção, transmissão e perpetuação. Dois seres podem cooperar para sobreviver; mas a família é mais do que cooperação — é a intenção de continuidade, a preservação da memória, a criação de vínculos que sobrevivem aos indivíduos. A família produz identidade, produz cultura, produz história. Por isso, sua importância atravessa as eras. A forma é variável; a função é perene. Assim, Deus, Pátria e Família não são produtos ideológicos modernos — são elementos estruturantes da experiência humana. Contudo, o fato de serem tão antigos não os torna imunes a disputas simbólicas. A modernidade política transformou símbolos atemporais em bandeiras partidárias. O fascismo italiano, por exemplo, apropriou-se deliberadamente da tríade, incorporando-a ao seu imaginário de autoridade, sacralidade secular e unidade orgânica. Essa inscrição histórica gerou, após 1945, uma sombra: para correntes progressistas, a tríade passa a ser lida — na maioria das vezes sem cuidado histórico — como essência do autoritarismo. Assim, do ponto de vista progressista, o conservadorismo e fascismo são então aproximados pela escolha comum de palavras e valores, como se compartilhar símbolos universais significasse partilhar métodos ou finalidades. Essa crítica progressista, ainda que compreensível no contexto da rejeição ao totalitarismo, frequentemente incorre no erro lógico de tomar a apropriação por essência: porque Mussolini instrumentalizou a tríade, a tríade é fascista; porque regimes autoritários exaltaram a ordem, toda defesa de ordem seria autoritarismo; porque o nacionalismo extremo produziu catástrofes, toda afirmação de pátria seria catastroficamente exclusivista e opressora. É um raciocínio historicamente pobre e antropologicamente curto, que confunde a sombra com o objeto, o uso com a origem. O símbolo antecede o sequestro; e, se antecede, transcende. Mas por que, então, setores progressistas contemporâneos não apenas criticam o uso político da tríade, mas parecem hostilizar as próprias bases que tornaram possível sua existência — Deus, Pátria, Família? Por que atacar não a geração anterior, mas todas as gerações anteriores? Há aqui algo além de política partidária: há uma postura civilizacional. Parte do pensamento progressista moderno opera sobre a premissa revolucionária de que a emancipação humana requer romper uma tradição que seria, por definição, opressiva. O que antes era referência — transcendência, pertencimento, continuidade — passa a ser visto como obstáculo. Daí a tendência a um materialismo imanente, a um anticlericalismo generalizado, e a uma suspeita moral contra formas tradicionais de família e pátria. O fenômeno é mais profundo do que um conflito entre conservadores e progressistas. O que está em jogo é uma reinterpretação simbólica da própria condição humana. Se toda tradição é vista como imposição, o passado inteiro torna-se um adversário; se toda desigualdade natural é lida como injustiça, a desigualdade deixa de ser condição e passa a ser patologia; se todo limite é opressão, o limite precisa ser destruído. Mas a desigualdade é inevitável porque a natureza é desigual. A pobreza é eliminável; a desigualdade, não. Quando se tenta corrigir a desigualdade universal como se fosse um erro moral, tende-se a substituir a realidade por um ideal abstrato — e a forçar a realidade a se adequar a ele. Nesse contexto, o mito do Éden volta a ser surpreendentemente atual. A serpente promete não apenas conhecimento, mas autonomia absoluta: “sereis como Deus”. O que ela oferece é a ilusão de que o ser humano pode definir por conta própria seu bem e seu mal, sua ordem e sua verdade, seu limite e seu destino. A tentação moderna — e particularmente a tentação progressista extrema — ecoa essa mesma promessa: recriar o mundo e o homem a partir de zero, rejeitando o que veio antes como se fosse erro, peso ou superstição. É o velho desejo de tomar nas mãos o lugar da transcendência. Não se trata apenas de negar Deus, mas de ocupar seu lugar simbólico: ser autor da moral, do sentido, da identidade, da história. A tríade Deus–Pátria–Família, neste percurso, deixa de ser apenas uma bandeira fascista ou conservadora e volta a ser o que sempre foi: a expressão de três necessidades humanas profundas — sentido, pertencimento e continuidade. Ela se mantém porque não é invenção moderna, mas herança ancestral; não é dogma político, mas estrutura antropológica; não é resíduo arcaico, mas fundamento da experiência humana. E se provoca rejeição, é precisamente porque toca o ponto sensível em que a humanidade se divide entre aceitar seus limites ou desejar superá-los de forma total. Talvez por isso as críticas mais agressivas à tríade venham de uma vertente de pensamento que não tolera a ideia de limites. Pois aceitar que existe algo acima de nós — um Deus, um passado, uma tradição, uma família, uma pátria — significa reconhecer que não somos criadores absolutos. Em última instância, o conflito não é entre conservadores e progressistas, mas entre duas maneiras de ser humano: a que reconhece a transcendência e a que deseja substituí-la. Muito mais que uma batalha ideológica, cultural, política, econômica ou religiosa, o cerne desta luta ultrapassa todo o tempo e espaço. Há uma base fundamental, há um núcleo que elabora toda essa construção: estamos diante de uma batalha que transcende a tudo e a todos. Os críticos, que se opõem tanto ao uso quanto aos defensores do ideal “Deus, Pátria, Família”, mais do que irem contra um ideal, pretendem superá-lo, substituí-lo pelo “eu” acima de tudo, “nós” acima de todos. Trata-se da fusão de uma visão de mundo, de um grupo representante e controlador dessa visão, de um modo de ser e viver. É algo que soa revolucionário e jovial, mas ao mesmo tempo totalitário e intolerante. As questões que não conseguimos esquecer, pois nos acompanham desde o primeiro choro até o último suspiro, são que não somos nem seremos jovens para sempre. Somos impelidos à transformação e sofremos quando nos recusamos a crescer. Nas palavras do inesquecível Nelson Rodrigues: "Se o homem, de uma maneira geral, tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isto é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo aos dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero um pobre diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta, eu me reencontro. Por isso, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isto compromete”. Finalmente, apesar das palavras de Nelson Rodrigues, é muito auspicioso também ter em mente o que dizia Ruy Barbosa: "Não se deixem enganar pelos cabelos brancos, pois os canalhas também envelhecem". Leia o artigo: A Lei de terras na Terra das leis Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867
- Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil!
A raiz do problema está diante de nós, escancarada: o jeitinho virou identidade. Durante anos, o famoso jeitinho brasileiro foi tratado como charme, criatividade, esperteza. Mas isso é ilusão. Na prática, ele virou desculpa para burlar regras, tirar vantagem e manipular situações em benefício próprio. E é exatamente aí que mora o veneno. Quando alguém leva uma caneta da empresa, mente no reembolso, fura fila, compra sem nota para pagar menos ou usa um benefício ao qual não tem direito, não está sendo esperto. Está sendo desonesto. Está sendo corrupto. E precisa ouvir isso sem anestesia. Esses atos parecem pequenos até que alguém rouba milhões. A diferença entre o pequeno e o grande corrupto, muitas vezes, é só a oportunidade. Acorda aí, meu irmão! Se você acha normal “só dessa vez”, você está alimentando o mesmo monstro que depois critica na televisão. Políticos não caem do céu. Eles não vêm de outra galáxia. Eles são formados nas mesmas ruas, escolas, famílias e valores que moldam qualquer cidadão. Se a sociedade normaliza pequenas desonestidades, ela também normaliza a mentalidade que, em escala maior, vira escândalo nacional. A corrupção não começa em Brasília. Ela começa antes. Começa no cotidiano, nas brechas, nos “ninguém vai perceber”, nos “todo mundo faz”. Enquanto o brasileiro achar aceitável mentir, enganar, burlar regras e tirar proveito, o país continuará preso num ciclo de desconfiança, desigualdade e indignação seletiva. Bíblia já alertava: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito.” (Lc 16,10) Não tem como fugir disso. É lei espiritual. É lei moral. É lei da vida. A corrupção é cultural não porque está no DNA do povo, mas porque foi ensinada, repetida e tolerada por gerações. E culturas só mudam quando comportamentos mudam. Ser honesto quando há risco de punição é fácil. Ser honesto quando ninguém está olhando é o verdadeiro teste e Deus sempre está olhando. A transformação não virá de cima. A transformação de uma nação não acontece só com novas leis, novos governantes ou novas operações policiais.Ela acontece quando o povo decide que não vai mais compactuar com pequenas corrupções, mesmo que isso custe algo. A Escritura é clara: “Não torcerás o direito, não aceitarás presentes.” (Dt 16,19). Não é sugestão. É ordem. Antes de apontar o dedo para quem desvia milhões, olhe para os R$ 0,50, R$ 5, R$ 15, R$ 100 ou R$ 1.000 que muitos desviam diariamente sem culpa. A mudança cultural começa quando cada indivíduo decide que a honestidade não é negociável. Nem pequena, nem grande. Se as pequenas corrupções revelam o que uma sociedade tolera, os grandes gestos de honestidade revelam o que ela deveria aspirar a ser. E poucas histórias mostram isso tão claramente quanto a do funcionário do aeroporto que encontrou uma bolsa cheia de dinheiro no aeroporto e devolveu tudo: simplesmente porque era o certo. Ele não tinha salário alto. Não tinha privilégios. Mas tinha caráter. O gesto foi tão raro que virou notícia nacional. Como recompensa, ele pediu apenas para conhecer o presidente da República. O encontro aconteceu, mas o que deveria ser uma celebração da ética virou desconforto. A autoridade insinuou que ele talvez devesse ter ficado com o dinheiro. Disse que ninguém iria saber.Disse que ele merecia mais do que devolver. Essa fala expôs uma ferida moral profunda. Um homem humilde, com pouco, escolheu a honestidade absoluta. Uma figura pública, com muito, relativizou essa honestidade. O contraste é brutal. O funcionário do aeroporto representava o Brasil que dá certo. O Brasil que não pega o que não é seu. O Brasil que teme a Deus. A autoridade representou o Brasil do “jeitinho”, o Brasil da esperteza, o Brasil que acha que honestidade é ingenuidade. E o episódio viralizou porque toca numa verdade dolorosa: no Brasil, ser honesto virou ato de resistência. A honestidade ainda é vista como exceção. A autoridade pública deveria elevar o padrão moral, mas muitas vezes o rebaixa. A desigualdade moral é tão grave quanto a econômica. O funcionário do aeroporto, mesmo com pouco, escolheu o certo. A autoridade, mesmo com muito, sugeriu o errado. Isso desmonta a ideia de que “quem rouba é quem precisa”. Não. Quem rouba é quem escolhe roubar. O país se acostumou a desconfiar da ética. Mas o funcionário do aeroporto devolveu. E isso deveria nos fazer repensar quem realmente sustenta a integridade do país. O caso do funcionário do aeroporto é um lembrete poderoso: a mudança cultural não virá de cima para baixo. Ela virá das pessoas comuns. Das que fazem o certo quando ninguém está olhando. Das que não se deixam corromper pela oportunidade. Das que entendem que caráter não depende de valor monetário. Enquanto figuras públicas relativizarem a ética, caberá ao cidadão comum manter viva a noção de que honestidade não é burrice. Honestidade é fundamento civilizatório. Honestidade é mandamento divino. A Palavra nos exorta: “Comportai-vos de modo digno.” (Fl 1,27) E talvez seja por isso que a história do funcionário do aeroporto continua sendo compartilhada até hoje. Ela nos lembra que o Brasil que queremos já existe; mas ainda é minoria. E você? Vai fazer parte do lado que sustenta o país ou do lado que o afunda? Acorda, meu irmão! Acorda, Brasil! Leia o artigo: A importância do cristão na política Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 66 edição de Maio de 2026 – ISSN 2764-3867
- A importância do cristão na política
A presença do cristão na política é um tema que desperta debates profundos, pois envolve a relação entre fé, cidadania e responsabilidade social. Para muitos pensadores cristãos, a participação na vida pública não é apenas um direito, mas uma expressão concreta do compromisso com o bem comum. A fé, quando vivida de forma madura, não se limita ao espaço privado; ela inspira atitudes, valores e escolhas que podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana. A política, entendida em seu sentido mais amplo, é o espaço onde se tomam decisões que afetam a vida de todos. Por isso, afastar-se dela significa abrir mão da oportunidade de influenciar estruturas que moldam a dignidade humana, o cuidado com os vulneráveis e a promoção da justiça. Muitos autores cristãos afirmam que a fé deve gerar frutos na história, e um desses frutos é o compromisso com a transformação social. Assim, quando um cristão se engaja politicamente, seja votando de forma consciente, participando de debates públicos ou ocupando cargos de liderança, ele exerce sua vocação de servir. Entretanto, essa participação não deve ser confundida com imposição religiosa. A tradição cristã enfatiza a liberdade de consciência e o respeito à pluralidade. O papel do cristão na política não é impor dogmas, mas testemunhar valores como honestidade, compaixão, integridade, defesa da vida e promoção da paz. Esses princípios, quando vividos com coerência, podem iluminar decisões e inspirar práticas políticas mais éticas. A política não se torna um “púlpito”, mas um espaço de serviço, onde a fé se traduz em ações concretas em favor do próximo. Outro aspecto importante é que a presença cristã na política pode atuar como força crítica diante de injustiças. A fé cristã sempre carregou uma dimensão profética, chamando atenção para desigualdades e abusos de poder. Quando cristãos se posicionam com base em valores éticos, eles contribuem para que a política não se reduza a interesses particulares, mas recupere sua vocação de promover o bem comum. Isso exige discernimento, diálogo e humildade, pois a política é complexa e envolve múltiplas perspectivas. Por fim, a importância do cristão na política também se manifesta no testemunho cotidiano. Mesmo quem não ocupa cargos públicos exerce influência ao participar de sua comunidade, ao dialogar com respeito e ao votar com responsabilidade. A política não é apenas o que acontece nos altos escalões do poder; ela começa nas pequenas escolhas que moldam a convivência social. Assim, o cristão é chamado a ser presença de esperança, contribuindo para uma sociedade mais fraterna e comprometida com a dignidade de todos. Leia o artigo: Grande Irmão Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- A Lei de terras na Terra das leis
O Brasil é um país injusto por definição. Um país erguido sobre a desigualdade, sustentado pela concentração de riqueza e pelo monopólio da terra. No campo, a terra sempre foi de poucos; na cidade, o trabalho sempre foi de muitos. Milhões vivem à margem enquanto uma elite histórica mantém, geração após geração, o controle dos meios de produção e do poder político. A raiz desse problema é clara, direta e conhecida: a concentração fundiária. E o marco decisivo dessa injustiça tem data, tem responsáveis e tem método. Em 1850, a Lei de Terras foi criada para impedir que o povo tivesse acesso à terra. Foi o golpe jurídico que garantiu que, mesmo com o fim da escravidão, os pobres continuassem presos à miséria, agora não mais por correntes, mas pela falta de propriedade. Essa lei não foi um acidente. Foi uma escolha política consciente, arquitetada por uma classe dominante composta por grandes proprietários rurais que controlavam o Parlamento, o Estado e o destino do país. O Império, longe de ser neutro, atuou como fiador dessa estrutura. D. Pedro II, liberal nos salões e humanista nos discursos, sancionou uma legislação que condenou o povo brasileiro à exclusão permanente. Tudo o que vemos hoje — a pobreza no campo, as periferias superlotadas, a desigualdade brutal — é consequência direta dessa decisão histórica. A Lei de Terras explica o Brasil. Explica por que poucos têm tanto e tantos não têm nada. Explica por que a terra nunca foi de quem nela trabalha. Alto lá! O que você acabou de ler não é o argumento deste texto. É a narrativa pronta, repetida à exaustão em universidades, alguns livros didáticos, discursos militantes e manuais ideológicos. Uma narrativa que parte do presente, escolhe seus vilões no passado e organiza os fatos para confirmar uma conclusão já estabelecida. A partir deste ponto, o texto interrompe esse automatismo interpretativo. Em vez de começar pelos resultados e buscar culpados retrospectivos, propõe voltar à cronologia dos acontecimentos, examinar contextos, comparar processos históricos distintos e perguntar, sem slogans, o que de fato ocorreu — e o que foi construído depois como explicação. Vamos começar conhecendo um outro cenário, desenvolvido na Inglaterra entre os séculos XVI e XVIII. Nos referimos a uma série de atos parlamentares conhecidos genericamente como Enclosure Acts - ou Leis de cercamentos - que autorizou o cercamento de terras comunais. Essas terras, até então utilizadas coletivamente para pastoreio, coleta de lenha e agricultura de subsistência, passaram a ser delimitadas e apropriadas de forma privada. O fato histórico central é claro: os cercamentos provocaram um deslocamento populacional significativo. Pequenos camponeses perderam acesso aos meios tradicionais de subsistência e migraram para vilas e cidades. Houve, portanto, êxodo rural. Outro fato igualmente documentado é que, paralelamente a esse processo, a Inglaterra vivia transformações técnicas profundas. Mesmo com a crescente disponibilidade de mão de obra, a mecanização industrial não diminuiu — ao contrário, acelerou-se. A indústria têxtil, a mineração e, mais tarde, a siderurgia investiram intensamente em máquinas que poupavam trabalho humano. Esse aparente paradoxo histórico — abundância de trabalhadores e, ainda assim, avanço tecnológico — contraria a máxima simplificadora de que mão de obra barata desestimula a inovação. Foi também nesse contexto que surgiram reações violentas como o ludismo, caracterizado pela destruição de máquinas. O ludismo não foi um movimento teórico contra o capitalismo, mas uma reação prática e localizada ao desemprego tecnológico, evidenciando que a mecanização era percebida como ameaça real mesmo em um cenário de excesso de trabalhadores. Assim, no caso inglês, mesmo em face da concentração fundiária nas mãos de poucos, em razão do pragmatismo econômico voltado à atividade industrial, a mão de obra disponível migrou para as fábricas, ajudando a fortalecer a revolução tecnológica que já havia sido iniciada ainda no século XVIII. A Lei de Terras brasileira nasce em um contexto profundamente distinto. O Brasil de meados do século XIX não enfrentava escassez de terra, mas o oposto: abundância territorial, baixa densidade populacional, economia majoritariamente agrária e baseada no trabalho escravo. Até 1850, a ocupação da terra ocorria sobretudo por posse, muitas vezes informal. A lei introduziu um novo princípio: a terra pública só poderia ser adquirida por compra. Trata-se de um fato jurídico e administrativo, não de uma inovação isolada no mundo moderno. É igualmente factual que a lei dificultou o acesso à terra por parte da população mais pobre. Mas daí não decorre, automaticamente, que seu objetivo central fosse criar um proletariado rural ou urbano dependente dos grandes latifúndios, afinal, naquele momento a mão de obra era escrava. A questão que desloca e desequilibra os efeitos da lei é que, a partir do fim da escravidão em 1888, o Brasil sequer possuía um parque industrial capaz de absorver massas de trabalhadores livres. A aplicação da lei foi geograficamente irregular, incompleta e frequentemente ignorada nas fronteiras agrícolas. Seus efeitos foram lentos e desiguais, muito diferentes do impacto relativamente rápido dos cercamentos ingleses. Há semelhanças superficiais entre os dois processos: ambos envolvem legislação fundiária, redefinição do acesso à terra e consolidação da propriedade privada. Mas as diferenças estruturais são decisivas. Na Inglaterra, os cercamentos ocorreram em uma economia já integrada a mercados, com pressão demográfica, escassez relativa de terra e um processo industrial em curso. No Brasil, a Lei de Terras foi promulgada em um país escravocrata, territorialmente vasto, pouco industrializado e sem um mercado de trabalho livre plenamente constituído. Os meios também diferem: os cercamentos reorganizam o uso de terras já intensamente exploradas; a Lei de Terras buscava ordenar juridicamente um espaço ainda pouco controlado pelo Estado principalmente nos rincões distantes. Quanto aos efeitos, enquanto na Inglaterra o êxodo rural alimentou diretamente a industrialização, no Brasil os efeitos foram diluídos no tempo e atravessados por outros fatores: imigração, fim da escravidão, urbanização tardia e, décadas depois, industrialização. A leitura marxista tradicional tende a atribuir intenção unívoca aos agentes históricos. No caso brasileiro, isso implicaria supor que D. Pedro II e o Estado imperial agiram conscientemente para produzir uma massa de trabalhadores sem-terra. Essa interpretação ignora um dado relevante: o imperador dispunha do Poder Moderador e não se opôs à lei. Homem culto, humanista, liberal e atento às experiências estrangeiras, dificilmente desconheceria seus efeitos potenciais. Isso sugere que a lei foi percebida como necessária à organização institucional do país, ainda que seus resultados fossem socialmente imperfeitos. É plausível reconhecer o interesse econômico da elite agrária — mas é essencial tratá-lo como incidental e contingente, não como explicação totalizante. A história posterior demonstra que o próprio capital agrário se adaptou, migrou e, em parte, financiou a industrialização quando o eixo do poder econômico se deslocou a partir dos anos 30. O surgimento da Lei de Terras, diante da falta de um alicerce industrial, diferentemente do caso inglês, provocou no Brasil uma ruptura entre o homem e a terra. Não havendo meios econômicos, a terra permaneceu ainda por muito tempo distanciada do homem comum, apesar da vastidão do nosso território. Os processos históricos não são estanques nem moralmente lineares. Leis produzem efeitos imprevistos, elites se reorganizam, interesses mudam e estruturas se ajustam a novas circunstâncias. Reduzir a Lei de Terras a um ato de pura maldade e interesse de classe é tão limitante quanto ignorar seus efeitos excludentes. Uma leitura ancorada na cronologia dos fatos, na comparação institucional e na análise prática e histórica, permite compreender a complexidade do processo sem recorrer ao maniqueísmo. Infelizmente, a solução mais óbvia e recorrentemente laureada pelo meio acadêmico - a reforma agrária - com a distribuição formal de lotes de terra a trabalhadores interessados na produção de subsistência e na venda dos excedentes de produção, morre na entrega das escrituras. Um homem sadio e motivado e uma terra produtiva não são suficientes para garantir a sobrevivência de um projeto. Oferecer a terra sem proporcionar os meios de acesso a sementes, treinamento, máquinas e equipamentos, vias de comercialização dos excedentes, infraestrutura de suporte, não é política de Estado com vistas ao desenvolvimento social, é marketing político com fins eleitoreiros. A análise dos processos históricos, como a Lei de Terras, com uso de lentes de aumento para as realidades sociais do nosso país, sem um olhar honesto e em perspectiva histórica, é panfleto ideológico de suporte a políticas de manutenção de poder, maquiada para simular política social de inclusão. Todo efeito resulta de uma ou mais causas, entendidas como eventos ou condições que produzem outros eventos — isso caracteriza a causalidade. Já a correlação é uma relação de associação entre fatos ou variáveis, na qual eles ocorrem juntos ou variam conjuntamente, sem que isso implique, necessariamente, uma relação de causa e efeito. Mas esquecer essa lógica simples na criação de slogans panfletários, parece ser uma técnica muito comum para iludir as massas. Não devemos esquecer que slogans são reduções de ideias complexas ao nível de títulos simples e engajantes, porém, a história, quando observada de perto, raramente confirma slogans. Quase sempre os desmente. Dentro do sistema político do Império, o imperador atuava mais como árbitro do que como reformador direto. O máximo plausível seria usar sua influência para favorecer gabinetes mais reformistas e manter o tema da terra em pauta, sem confronto direto com as elites agrárias. A monarquia dependia das elites rurais que se beneficiavam da concentração fundiária. Qualquer tentativa mais ousada de democratização da terra teria alto custo político — possivelmente semelhante ao que levou ao desgaste final do regime antes da Proclamação da República, proclamação que acabou entregando o controle do Estado àquelas elites rurais. Assim, D. Pedro II não foi o responsável pela pobreza e desigualdade que vemos na atualidade; ele era, em verdade, a última barreira que impedia o avanço dos setores econômicos ligados ao campo e à terra ao controle total do Estado. Se algo tivesse sido tentado no sentido de alterar a Lei de Terras, provavelmente seria lento, indireto e limitado, focado em colonização, crédito e incentivos — não em redistribuição estrutural. Ainda assim, mesmo medidas modestas poderiam ter alterado parcialmente o destino social dos libertos, caso fossem implementadas com continuidade. E então veio a República; mas aí... é uma outra história. Leia o artigo: Assim falava Tocqueville Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- Estudando o Fascismo
Parte 1 – A origem O famoso escritor George Orwell escreveu um ensaio denominado “O que é fascismo?”, em 1944, que foi publicado no periódico Tribune, de Londres. Naquele tempo, o regime estava em processo de queda, com seu total declínio ocorrendo em 1945. Neste ensaio, Orwell não se habilita a responder seu próprio questionamento, mas expôr uma problemática que se instalou em seus dias: rotular qualquer opositor de fascista. O autor descreve alguns dos grupos que recebem o rótulo: conservadores, socialistas, comunistas, trotskistas, católicos, nacionalistas, apoiadores e opositores à segunda guerra. Ao final, Orwell conclui que “será constatado que, da forma que é empregada, a palavra ‘fascismo’ é quase desprovida de significado”. Ou seja, esvaziada de seu sentido real, o termo tornou-se equiparado a um insulto qualquer, tal como “troglodita” – esta comparação, inclusive, foi feita pelo próprio autor em seu artigo. A problemática exposta por Owell, infelizmente, perdura até os nossos dias. Talvez até mesmo o leitor há tenha sido alvo de ataques deste jaez por alguém de ideologia diferente da sua, principalmente em ano eleitoral, como o que estamos. Tal qual fez Orwell, não pretendo esboçar uma tese de mestrado sobre o tema. Primeiro porque esta não é a minha pretensão; segundo porque não conseguiria fazê-lo em dois ou três artigos. Vislumbro sim, descortinar a verdade sobre o regime, de forma simples e direta, mostrando ao leitor que nenhum dos grupos mencionados por Orwell em seu artigo são fascistas – aliás, nem ele próprio os considerava. E mais: provar que o fascismo não é de direita. O ano era 1919. A Itália, embora saísse vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, passou por uma grave crise com agitação social conhecida como "Biênio Vermelho" (greves e ocupações). O país saiu do conflito com sua economia arruinada e enfrentando uma profunda crise social e política. Embora tenha lutado ao lado dos vencedores (Tríplice Entente), sofreu consequências devastadoras devido ao alto custo do conflito, o que gerou um sentimento de insatisfação popular conhecido como "vitória mutilada”. Além disso, não recebeu todos os territórios prometidos no Tratado de Londres. Neste cenário surge Benito Amilcare Andrea Mussolini. Seu nome foi escolhido pelo seu pai, que queria homenagear Benito Juárez, líder revolucionário e ex-presidente do México, enquanto seus outros nomes, Amilcare e Andrea, eram dos socialistas italianos Amilcare Cipriani e Andrea Costa, o último fundador do Partido Socialista Revolucionário da Romagna. Não entraremos em detalhes de sua infância, mas é importante citar que o pai de Mussolini era socialista e um dos principais responsáveis por influenciar fortemente suas ideias políticas ainda na infância, as quais seriam aplicadas posteriormente. Mais tarde, essas influências ganharam robustez quando ele fugiu para a Suíça, em 1902, com a intenção de não cumprir o serviço militar. Lá, conheceu as obras de Friedrich Nietzsche, o sociólogo Vilfredo Pareto, e o sindicalista revolucionário Georges Sorel, sobre quem Mussolini declarou: "O que eu sou, eu devo à Sorel”. Além destes, era ferrenho entusiasta de Friedrich Engels e Karl Marx, sendo considerado um intelectual. Mais tarde viria a creditar o marxista Charles Péguy e o sindicalista Hubert Lagardelle como algumas de suas influências. A ênfase de Sorel sobre a necessidade de derrubar a democracia liberal e o capitalismo pelo uso da violência, ação direta, greve geral, e o uso do neo-maquiavelismo apelando à emoção o impressionou demasiadamente. No período, juntou-se a pedreiros e trabalhadores sindicais, dos quais mais tarde se tornou secretário da união dos trabalhadores italianos em Lausanne, e em 2 de agosto de 1902 publicou seu primeiro artigo no L'Avvenire del Lavoratore, o jornal dos socialistas suíços. Na Suíça, Mussolini se declarou ateu. Chegou a desafiar a Deus para provar sua existência e considerou Nosso Senhor Jesus Cristo como ignorante e louco, chamando a religião de uma forma de doença mental que merecia tratamento psiquiátrico e acusou o cristianismo de promover resignação e covardia. Inclusive, seu primeiro livro é uma espécie de tratado ateísta, intitulado “Homem e divindade: Deus não existe”. Em seu retorno à Itália, Mussolini obteve licença para lecionar. Como jornalista, tornou-se colunista do panfleto socialista La Lima. Nele, tecia severas críticas ao governo e especialmente ao cristianismo. No mesmo período, participou de manifestações e liderou algumas greves e chegou a ser preso. Em 1909, Mussolini mudou-se para Trento, que à época, era controlado pelo Império Áustro-Húngaro, para assumir o cargo de secretário do partido trabalhista da cidade, além de também ter atuado no partido socialista local, onde trabalhou na edição do jornal L'Avvenire del Lavoratore. Em setembro daquele ano, Mussolini foi preso acusado de incitar rebelião contra o império e, posteriormente, foi expulso, retornando à Itália. Este episódio repercutiu no país e ajudou a elevar sua popularidade entre os progressistas. Em 1910, foi escolhido como secretário da Federação Socialista de Forlì, e em 1912, foi promovido a editor do jornal do Partido Socialista. Sob sua liderança, a circulação do jornal passou rapidamente de 20 mil para 100 mil exemplares obtendo admiração até mesmo de Antonio Gramsci. Mais uma vez, não entraremos em detalhes da vida pessoal de Mussolini. Contudo, creio ser importante sinalizar que ele, segundo seu mordomo, Quinto Navarra, teve em torno de sete mil amantes. O início do que conhecemos como fascismo se deu em 1914, quando Mussolini, por meio do Partido Socialista, declarou neutralidade na guerra. Para ele, o confronto não traria benefícios para o povo italiano. Contudo, foi influenciado a mudar de opinião, principalmente por pensar que os socialistas alemães haviam traído a Segunda Internacional, já que eles que levantaram "a bandeira da Internacional Socialista foram os primeiros a jogá-la na lama" após seu apoio à entrada da Alemanha. Para Mussolini, a guerra serviria para a derrubada das monarquias Hohenzollern e Habsburgo, que, segundo ele, sufocavam o socialismo. Porém, a linha adotada por Mussolini não agradou os membros do partido. Para ele, as organizações socialistas deveriam ter apoiado a guerra entre as nações, com a consequente distribuição de armas ao povo, e depois transformado em uma revolução armada contra o poder burguês. Isso foi registrado no manifesto Fascio rivoluzionario d'azione internazionalista, publicado em outubro daquele ano. Em novembro, foi expulso do partido. Em 1915, fundou o Partido Revolucionário Fascista, que se posicionava contra o marxismo ortodoxo, mas era favorável ao socialismo. Diversos confrontos ocorreram entre os grupos. Em 1919, iniciou-se o Biênio Vermelho, período de dois anos de intensos confrontos entre os fascistas e os intervencionistas. Em 6 de junho do mesmo ano, foi publicado oficialmente o Manifesto dei Fasci italiani di combattimento, comumente conhecido como Manifesto Fascista. O documento foi publicado no Il Popolo d’Italia, jornal fundado por Mussolini, e trazia exigências em tópicos que abrangiam a situação política, social, militar e financeira do país naquela ocasião. Alguns deles eram: - abolição do senado - entrega às organizações proletárias da gestão de serviços públicos - imposto extraordinário progressivo sobre o capitalismo - confisco de todos os bens das congregações religiosas e abolição das rendas episcopais Todos os itens foram retirados ipsis literis do Manifesto Comunista, escrito por Marx. Em 9 de outubro, o Primeiro Congresso Fascista foi realizado em Florença, onde foi decidido concorrer às próximas eleições políticas sem aderir a nenhuma aliança. Os fascistas, liderados por Mussolini, propuseram um programa "decididamente esquerdista" e anticlerical. Mussolini saiu derrotado de sua primeira eleição, em 1919. Os socialistas obtiveram quarenta vezes mais votos, e em sua cidade natal, ele não obteve sequer um único voto. Então, mudou a estratégia. Obtendo um discurso mais moderado, ele conseguiu financiamento para o Segundo Congresso Fascista de empresários do setor da indústria. Em 1921, Mussolini aceitou o pedido de Giovanni Giolitti para ingressar no “Bloco Nacional”, um grande bloco de esquerda que incluía o Partido Social-democrata Italiano, a Associação Nacionalista Italiana e o Partido Liberal Italiano. A atitude trouxe resultados: nas eleições gerais da Itália em 15 de maio de 1921, os fascistas conquistaram 35 cadeiras no parlamento italiano, incluindo o próprio Mussolini. Em 1922, após a Marcha sobre Roma, Mussolini tomou o poder. Continua… Leia o artigo: Como o feminismo deu à luz ao movimento red pill Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 65 edição de Abril de 2026 – ISSN 2764-3867
- O juízo que desejamos
“Deus me livre de ser julgada por um juiz que não seja imparcial e ético” Cármen Lúcia, Ministra do Supremo Tribunal Federal. A frase poderia e deveria ser vista com naturalidade, em especial sendo proferida por um membro da mais alta Corte de um país que se apresenta como democrático, que alega prezar pelo devido processo penal como base inafastável para o exercício da função jurisdicional do Estado, todavia, boa parte dos brasileiros, reagiu em choque ao perceber que a imparcialidade do julgador importa quando o réu pertence ao grupo dos humanos que ainda parecem gozar dos direitos fundamentais que, para a mesma parte da população, foram subtraídos daqueles que não se associaram ao regime. Aqueles, outrora chamados de milhões de pequenos tiranos, também sonham com um mundo no qual não sejam julgados por alguém que os rotulara de tal forma, bem como, por juízes imparciais que não comemorem a derrota de um grupo político, que não sejam declaradamente filiados a uma ideologia que prega, sem cerimônias, o extermínio de opositores, como afirmado pelo Professor Elias Jabuor e outras tantas vozes revolucionárias, e, principalmente, por aqueles que se consideram vítimas daqueles a quem julga, posto que, naturalmente, se sentiriam inclinados a condenar seus supostos algozes, aplicando-lhes penas injustas e desproporcionais. Ser julgado por alguém ético e imparcial deveria ser uma garantia estendida a todos, entretanto, não são raros os julgamentos promovidos apenas para dar verniz de legalidade a uma vendeta promovida por detentores do poder. Na prática, estaríamos diante de um teatro feito para convencer os mais ignorantes de que há algo normal quando tudo o quê ocorre é a punição de um desafeto sem o devido processo legal. Espantoso, no entanto, é que um magistrado da mais alta corte do Poder Judiciário mencione o temor, injustificado, de ser julgado per um juízo inclinado, cogitando que tal aberração sequer ocorra. Diante do comentário, não podemos nos olvidar quanto ao fato de a chamada Justiça especializada ser, no mínimo, uma presença preocupante em nosso ordenamento jurídico, pois sua existência presume inclinação, portanto, o temor de que todo juízo alegado especializado seja um julgador parcial não deve ser ignorado. Se o legislador, acreditando que há um desequilíbrio natural entre as partes em um processo, como nos casos da legislação trabalhista ou consumerista, tenta equalizar tal relação através da norma, ao criar um juízo especializado, como a Justiça do Trabalho, faz com que a parte que recebeu menor proteção legal enfrenta um juízo tendencioso, que tem como missão tratar de forma díspar as partes, trazendo uma distorção quase invencível ao indivíduo que foi considerado privilegiado pelo legislador. Nos casos das relações trabalhistas e consumeristas, a lei deveria ser o suficiente para equilibrar a relação processual, entretanto, o juízo que vê o empregador como um déspota que explora a força de trabalho de forma abusiva como regra, parecendo um tribunal socialista, deveria causar estranheza quando, nem mesmo os juízes desejam um julgamento por alguém parcial. No direito consumerista, em que pese à legislação traga proteção especial ao consumidor, o juízo ordinário se torna uma oportunidade para que a parte menos favorecida por lei possa, apresentando argumentos plausíveis, convencer o julgador que a posição jurídica de vantagem o assiste. Não trataremos dos juizados de violência contra a mulher, uma vez que, a legislação já passível de críticas e com forte tendência a acirramento, trouxe o primeiro juízo criminal em que o réu recebe a pecha de presumidamente culpado. Qualquer homem diante de um juízo declaradamente feminista, que abraça os conceitos de tal ideologia sem qualquer pudor, uma vez que, se nega ao questionamento de suas narrativas, sabe que está diante de um juízo parcial, de maneira que, a súplica da Ministra Cármen Lúcia poderia, sem constrangimento, ser invocada por todo réu diante de tal órgão do Judiciário. Por outro lado, salta os olhos ver que, nosso ordenamento jurídico agasalha, sem cerimônias, as chamadas varas de fazenda pública, que julgam ações cuja Administração Pública figure como parte processual, de maneira que, além das proteções legais, sejam as cláusulas leoninas, que seriam consideradas abusivas caso impostas por particulares, e a primazia do interesse público, que deixa o poder estatal em flagrante vantagem, regras que privilegiam o lado mais forte da relação, as varas de fazenda pública trazem um juízo que facilmente visto como parcial e, no caso, antiético. O Estado cria as regras, admite que a Administração Pública imponha regras contratuais que, não fosse ela, seriam abusivas, impõe uma primazia sobre os particulares e, além das vantagens estabelecidas por lei, cria um juízo específico para viciá-lo. Ainda há quem defenda o chamado contencioso administrativo. Aos que não compreendem bem a necessidade de um juízo imparcial, já mencionamos o quão seria reprovável um árbitro de futebol que, ao final do jogo, se declara torcedor de um dos times. No entanto, parece que a deficiência cognitiva impede que boa parte veja, com ainda maior grau de reprobabilidade, que magistrados se declarem adeptos de determinadas ideologias ou inimigos declarados de um espectro político. O Judiciário parcial é contrário à sua própria essência, posto que, espera-se do juízo a equidistância necessária para que suas decisões não se maculem, logo, um juiz parcial é um fardo que a sociedade suporta pela imposição legal, em que pese tal figura seja imprestável, uma vez instituído por lei e arrogante demais para se reconhecer como algo que sequer deveria existir. Distante das vidas comuns, alguns juízes acabam ignorando seu dever de dizer o direito, se colocando como nobres parasitas que propagam sua ideologia doentia ou simplesmente repousam em seus tronos de privilégios. Por óbvio, há magistrados que estão imbuídos de sua missão e se desdobram para julgar com justiça e não com o fígado maculado por vícios ou paixões revolucionárias. Juízes não deveriam ser agentes da mudança, tampouco editores de uma nação, não há coragem em um juízo que se move, pois sua inércia é indispensável à legitimidade de seus julgamentos. Não se espera uma Justiça heroica, em verdade, a maior virtude de um julgador é se superar suas paixões humanas. O desejo da Ministra do Supremo Tribunal Federal não é algo único, na verdade, todo brasileiro tem o mesmo sonho e pede a Deus que nunca seja julgado por um juiz parcial ou antiético, entretanto, boa parte dos cidadãos teme que não ter a mesma sorte dos demais. Há brasileiros que se espiam como relegados, figuras que não têm direito ao tão desejado juízo imparcial, pois são chamados de pequenos tiranos ou adjetivados por termos abjetos seguidos do sufixo “ismo” que, segundo boa parte dos julgadores, devem ser extintos. Temendo “um bom paredão e uma boa cova” muitos dos milhões de pequenos tiranos clamam por uma Justiça imparcial e ética, mas, cada vez mais, percebem que as narrativas progressistas engoliram as mentes de seus julgadores. Promotorias e defensorias que defendem as autointituladas minorias perseguem abertamente os que se manifestam contra a ideologia que se denominou progressista, ao passo que, juízes agasalham teses de infundadas como a ideologia de gênero, o racismo estrutural e outras tantas farsas que criminalizam a consciência dos cidadãos. O clamor por uma Justiça na qual seus membros deixem suas ideologias de lado e reconheçam o mal que se tornou o chamado ativismo judicial, resulta dos desvios do Poder Judiciário que segue negando sua queda, apesar de evidente. A Revolução Francesa alegava combater os abusos da monarquia, limitando os poderes dos absolutistas. Ignorando todo o mal que emergiu em razão de tal movimento, verificamos que o poder dos reis precisava, de fato, de limitação, como ocorrera no Reino Unido com a Carta Magna, todavia, os revolucionários, que só queriam o trono para si, acabaram se tornando um mal maior que o monarca que derrubaram, por tal razão, tornou-se necessário limitar o legislativo, dando poderes ao Judiciário, cuja legitimidade decorria de sua natureza tecnocrata. O ativismo judicial matou a essência do Judiciário e a sociedade deverá impor limites a tal poder, até lá, nos resta pedir a Deus que sejamos julgados por juízes imparciais e éticos, ainda que tais figuras sejam cada vez mais raras. Leia o artigo anterior: Um baile sem máscaras Nos ajude a continuarmos publicando artigos como este, participe da nossa vaquinha virtual. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. V N.º 64 edição de Março de 2026 – ISSN 2764-3867











